julho 02, 2009

Salve Maria Quitéria, grande guerreira brasileira!

Nota do blog: Em Manaus, o Gimnasyo Pedro II (homenagem ao último imperador brasileiro) era conhecido nos anos 1960 como Colégio Estadual do Amazonas, em franco desrespeito à legislação brasileira que garante a manutenção do nome do imperador nos logradouros públicos mesmo depois da proclamação da república. Tanto que a praça D. Pedro II até hoje é assim nomeada em homenagem à memória do filho de Pedro I. Este último foi quem tornou o Brasil independente de Portugal em 1822. Outros logradouros não tiveram a mesma sorte, como o atual Largo da Matriz, até fins do século XIX conhecido do Largo da Imperatriz. Os republicanos não queriam saber das memórias do império. Algo parecido com o que os arrivistas, daqui e de além selva, fizeram com a cidade de Manaus após a implantação da Zona Franca no final dos anos 1960. Envergonhava-lhes a memória da estagnação econômica advinda da derrocada da borracha. Manaus só não está mais desfigurada por obra do "divino espírito santo" e por tímidas ações de tombamento do patrimônio histórico. Faltou coragem de tombar todo o quadrilátero histórico que vai do Boulevard Amazonas à Barão de São Domingos, do igarapé do São Raimundo ao Igarapé de Educandos. Foi naquele ginásio que durante os anos 1960 tive na disciplina de história uma das nossas mais temidas professoras. Chamava-se Alzira Filgueira. Em todas suas provas tirava nota 10. Nos debates entre turmas, ninguém rivalizava com meu invulgar talento para discorrer sobre períodos históricos como se as tivesse vivido. Jactâncias à parte (era só o que me faltava aos 56 anos de idade), lembrei-me de Alzira, que morava ao lado da sede do Nacional Futebol Clube (demolido nos anos 1980), na rua Joaquim Sarmento, porque hoje - dia 2 de julho - é dia da Independência da Bahia. E se há uma das personagens mais atraentes nessa história é justamente a figura de Maria Quitéria, que se notabilizou nas guerras de independência do Brasil. Muitos soldados das tropas portuguesas permaneceram no Brasil, mesmo depois de proclamada a república. Quitéria foi à luta. Invulgar personalidade. Conheçam um pouco do "espírito que animava essa patriota". Que palavras curiosas! O termo patriota caiu em descrédito; o espírito é um vocábulo que foi desencarnado da sua força original e animação hoje virou expressão carnavalesca. Arre! Vamos às palavras de Maria Quitéria.

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EU GOSTARIA DE ENTRAR NUA NO RIO...

Eu gostaria de entrar nua no rio, caso estivesse no sítio do meu pai. Mas estou aqui entre homens, somos todos soldados, e o banho no Paraguaçu é forçado. Os portugueses de uma canhoneira bombardearam Cachoeira, então um bando de Periquitos, e entre eles eu e mais cinco ou seis mulheres, entramos no rio, de culote, bota e perneira, dólmen abotoado e baioneta calada.

Queríamos que os agressores desembarcassem para o combate em água rasa da margem. E eles vieram, aos brados. Traziam armas brancas. Alguns as mordiam com os dentes. O encontro deu-se num banco de areia, com água pela cintura. Senti quando a água fria subiu pelas pernas, abraçou as coxas e espalhou-se pelas virilhas.

Um toque frio, desagradável. Com o calor da luta, tornou-se morno. E houve um instante em que eu tinha água pelos seios. Senti que os mamilos se enrijeciam sob a túnica. Pensei outra vez no sítio, na rede em que costumava embalar-me. Ali tudo era cálido, os panos convidavam ao sono. Aqui, luta-se pela vida, pela nossa Cachoeira, pela Pátria.

Mas uma voz secreta me sopra que também luto por mim. Estou guerreando, sim, para libertar Maria Quitéria de Jesus Medeiros da tirania paterna, dos sofridos afazeres domésticos, da vida insossa. Ah, eu combato, com água no nível dos peitos, pela libertação da Mulher, pela nova Mulher que haverá de surgir. Minha baioneta rasga o ventre de um português que não quer reconhecer a Independência do Brasil gritada, lá no Sul, pelo Imperador D. Pedro.

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AH, EU MORRO DE VERGONHA!

Nunca pensei em pisar num palácio. Quitéria, eu disse a mim mesma, foste criada para andar de pés nus e cabelos ao vento. Quitéria, és uma tabaroa. E no entanto, o que fizeram de mim? Ou melhor, o que a vida fez de mim? Nunca pensei que, ao pegar em armas, ao entrar naquela guerra do Recôncavo, eu acabaria aqui, hoje, nesta recepção palaciana. O Imperador vai entrar.

É ele, é ele. Altaneiro no porte, com aquelas dragonas douradas, o dólmen justo salientando o peito, a barba negra. A gente conhece logo um Imperador pela barba e, também, pelo jeito direto e franco de olhar. Um olhar sem medo, u, olhar dentro dos olhos —olhar de quem tudo ousa, de quem sabe que tudo pode.

Cavalheiro distinto, garboso e galante, o Imperador. Irritou-se com as exigências de seus compatriotas, reunidos num concelho chamado Cortes, e, a cavalo, soltou o grito. Foi fácil, aqui no Rio de Janeiro e em São Paulo, porque havia um José Bonifácio, havia outros antigos conspiradores em prol da Independência. Pois D. João VI não havia previsto, não havia aconselhado: “Pedro, algum dia o Brasil se separará de Portugal. Se assim for, põe a coroa sobre tua cabeça, antes que algum aventureiro lance mão dela”.

Entra o Imperador no salão espelhante, cheio de cadeiras e canapés forrados de veludo verde e vermelho. Um luxo. Faianças, cristais, candelabros, pesados reposteiros. Deve ser bom viver aqui nestes luxos, mas prefiro os meus matos, os campos rasos da minha terra. Estou atordoada, com uma zoeira nos ouvidos, mal entendo o que diz em discurso o nosso comandante. Ouço palavras soltas: “heroína”, “mulher valente”, “amor à Pátria nascente”.

“Agüenta, Quitéria”, eu digo aos botões da minha túnica. “Tu não és soldado, mulher?” Abro os olhos, o Imperador está diante de mim, curva-se e sorri. Tenho vontade de passar a mão naquela barba negra que parece seda. Mas a minha palma é calosa, com certeza o Imperador retrocederá, assustado — e me prendem. Fecho de novo os olhos. O Imperador me condecora, um sujeito de roupa espalhafatosa lê um papel em que me concedem um soldo para o resto dos meus dias. A Pátria agradece, mas, francamente, eu não pensava em recompensas. Os dedos do Imperador D. Pedro tocam-me a gola, roçam-me o busto. Ah, eu morro de vergonha. Quem diria que eu, Quitéria, donzela criada quase solta pelos campos, com os animais, seria alvo de tantos olhares neste palácio do Campo de São Cristóvão? As damas de saia arrastando no chão só faltam me comer com os olhos. Tenho o rosto em fogo, as orelhas ardem. Será que vou dar chilique em público?”


Fonte: Vidas Lusófonas

Nota do blog: Conheça mais sobre MARIA QUITÉRIA - Heroína das guerras pela independência do Brasil: 1792(?) - 1853(?) - em Vidas Lusófonas
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