Brasil tem novo jeito de encarar a loucura
Flávia Ayer - Estado de Minas
Basta um toque na campainha para constatar que aquela é uma casa especial. Os moradores, gente de riso fácil, esticam os braços no portão, para dar boas-vindas. São cinco homens e quatro mulheres que, depois de mais de 15 anos de internação na Clínica Psiquiátrica Nossa Senhora de Lourdes, desativada em 2008 em Belo Horizonte, vivenciam a alegria de comandar o próprio destino e resgatar a cidadania, num espaço que pode ser chamado de lar. Na residência terapêutica, no Bairro Carlos Prates, Região Noroeste da capital, pessoas abandonadas pela família e afastadas da sociedade por serem tachadas de loucas constituem novos laços afetivos. Lá não há alas, mas quartos. Nem enfermeiros, e sim cuidadores. Um exemplo de um programa que coloca o Brasil sob os holofotes da comunidade internacional quando o assunto é o tratamento dado ao que já foi simplesmente conhecido como loucura.
Sônia Maria da Silva, a Soninha, de 42 anos, uma das moradoras da casa do Bairro Carlos Prates, sabe que o destaque dado ao programa é merecido. Se alguém lhe sugere que retorne a um hospital psiquiátrico, ela responde com uma careta, em sinal de repúdio, assim como Jaci Ribeiro de Oliveira, de 59, que mora no mesmo endereço. Em dezembro, Soninha chegou com a roupa do corpo à nova casa, depois de 15 anos de internação. Hoje, sabe o que é xampu, como tomar um banho... Aprendeu até o que é amar. Ela namora Haroldo Ferreira Barbosa, de 69, com quem também divide a casa e que tem diagnóstico de retardo mental. “Antes, era a enfermeira que me dava banho, e eu vivia pegando piolho. Eles não deixavam a gente sair, me batiam”, afirma Soninha, que sofre com crises convulsivas e é psicótica. Uma das 22 em BH, a residência terapêutica faz parte de uma rede de tratamento e suporte que visa a dar fim aos manicômios e, com eles, a uma história contada com choques, traumas e maus-tratos.
Essa rede de assistência privilegia serviços não hospitalares e de base comunitária e está referenciada na Política Nacional de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, do Ministério da Saúde. Em breve, também será exemplo para uma reforma psiquiátrica global. O Brasil acaba de ser convidado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para integrar, com mais nove países, um grupo consultor do Programa de Ação para Superar Lacunas em Saúde Mental. O objetivo é desenvolver uma estratégia global para melhorar o tratamento dado a pessoas com transtornos mentais, neurológicos ou a viciados em álcool e drogas. Na avaliação da OMS, dos 193 países integrantes da organização, 105 apresentam estrutura precária para atender a esse tipo de paciente.
Exemplo
Brasil, Itália, Egito e Holanda confirmaram presença na primeira reunião do grupo, que deve ocorrer em outubro, em Genebra, na Suíça. “A OMS apontou a experiência brasileira como exemplo pelo foco na atenção comunitária. Os serviços estão próximos do paciente”, afirma a assessora da Coordenação de Saúde Mental do ministério, Karime Porto, referindo-se à ampla rede de assistência que integra o programa.
As residências terapêuticas são apenas parte desse complexo. Elas recebem pacientes que, após longos períodos de internação, perderam o vínculo com a família e, mesmo restabelecidos, não encontram mais referência fora dos manicômios. Com o benefício de R$ 320, do programa federal “De volta para casa”, eles ganham estímulo para reconstruir a vida. Segundo o ministério, cerca de 35% dos leitos psiquiátricos são ocupados justamente por essas pessoas.
Articulado com o fechamento dos hospitais psiquiátricos, o tratamento substitutivo conta ainda com Centros de Atenção Psicossocial (Caps), onde pacientes em crise recebem atendimento médico e psicológico. Se o surto ocorre de madrugada, hospitais comuns acolhem essas pessoas. Uma vez recuperadas, elas são atendidas por equipes de atenção básica, nos postos de saúde. Em centros de convivência, usuários como Sérvio Sadi, de 46 anos, descobrem um novo sentido para a vida em oficinas de arte. Nesses locais, o relacionamento social torna-se o melhor remédio contra a doença.
Com a consolidação dessa estrutura substitutiva, a ideia é acabar, gradualmente, com os 208 hospitais de internação ainda abertos no país – 19 deles em Minas –, que oferecem 35,4 mil leitos (veja quadro). Até lá, os desafios são muitos. Apesar de referência mundial, o complexo dos Caps no Brasil cobre apenas 57% da população. A verba anual destinada à saúde mental é de R$ 1,3 bilhão, o que representa 2,7% do orçamento da saúde. Dinheiro para tratar os 3% de brasileiros que sofrem transtornos mentais graves e outros 9%, que têm sofrimento leve. “Uma boa parcela da população ainda precisa de atendimento. Trabalhamos para chegar a pelo menos 80% de cobertura até 2013”, ressalta Karime.política de combate a manicômios e criação de redes de atendimento, Brasil deixa para trás tratamento desumano em instituições sombrias e vira referência mundial no assunto
Liberdade a pacientes é exemplo em Belo Horizonte
Flávia Ayer - Estado de Minas
Walmir Alves Santana, de 36 anos, está sentado na recepção. Joaquim Soares, de 48, prefere circular do corredor até a área externa. Eloísio Dias de Assis, de 39, entra na sala dos coordenadores, bate papo no saguão e depois vai tomar café no refeitório, onde o rádio toca músicas animadas. Há, porém, quem prefira sentar na sala de estar, dormir ou simplesmente se recostar no jardim. É possível também passar o dia em oficinas de artes, autocuidado, letras, cosméticos, bordados. Basta querer. Liberdade é uma palavra que, nos nove Centros de Referência de Saúde Mental (Cersams) de Belo Horizonte, ganha significado bem diferente em relação a hospitais psiquiátricos convencionais.
Embora esses centros acolham pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, em situação de crise, não há grades nem cadeados. O tratamento é feito em regime de atenção diária e, apenas em casos pontuais, o usuário é internado. Amparados por um equipe multidisciplinar formada por psiquiatras, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psicólogos, assistentes sociais e técnicos, pacientes são convidados a ser protagonistas de seu tratamento. Sete Cersams funcionam 24 horas. Com essas unidades e outros componentes do tratamento substitutivo, Belo Horizonte, que já teve cinco manicômios da rede pública, conseguiu reduzir esse número para dois. Na capital, a reforma psiquiátrica começou em 1993 e é apontada como modelo no Brasil. Em 16 anos, leitos em hospitais psiquiátricos passaram de 2,1 mil para pouco mais de 400.
De acordo com a coordenadora de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, Rosimeire Silva, apesar de ser uma cidade de grande porte, Belo Horizonte mostrou que é possível dar tratamento a pessoas com transtornos mentais sem que percam a dignidade e a identidade. “Quando você trata do coração, não perde sua cidadania. Mas não é isso o que acontecia com pacientes da saúde mental. A luta é por uma sociedade sem manicômios e que consiga se relacionar com o louco. É dar ao paciente o direito de pertencer a uma cidade”, afirma.
E, para garantir a quem tem sofrimento mental o direito de ser cidadão, a secretaria tem 58 equipes de saúde da família, com um psiquiatra e dois psicólogos, além de leitos psiquiátricos na Santa Casa de Misericórdia, para atender, durante a madrugada, pacientes em crise. Conta também com 22 residências terapêuticas, nove centros de convivência, onde são desenvolvidas atividades terapêuticas, e 46 oficinas de arte para crianças espalhadas pela cidade. O Programa de Atenção Integral ao Paciente Judiciário (PAI-PJ), do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, também prevê cuidado especial com infratores. Segundo Rosimeire, a construção dessa rede teve o empurrão da comunidade. Mas acabar de vez com os manicômios ainda significa percorrer um longo caminho: “É preciso criar novos Cersams, novas residências. Conjugar o fechamento com o tratamento substitutivo, de base comunitária”, enumera a coordenadora.
Eloísio é uma das pessoas que acreditam no tratamento defendido pela reforma psiquiátrica. Por causa da esquizofrenia, ele frequenta hospitais há mais de 11 anos e já experimentou a terrível sensação de ficar atrás das grades. “Já estive em um lugar que era um inferno. Aplicavam um negócio no meu pescoço que subia para a cabeça e eu ficava apagado. Foi lá que comecei a falar desse jeito”, conta, com a voz embolada. Atualmente, o usuário mora em uma residência terapêutica vizinha ao Cersam Noroeste, aonde vai voluntariamente. “Aqui eles não me batem”, comenta.
Outro hospital
Apesar de a rede pública de saúde colocar os hospitais psiquiátricos na linha de fogo, pregando sua extinção, há quem acredite na importância desses locais. Defensora da reforma, a psiquiatra Maria Cristina Oliveira defende um tratamento mais digno àqueles com sofrimento mental, mas com os hospitais como opção.
Segundo ela, esses locais devem ser humanizados, com número restrito de leitos, oficinas terapêuticas e esportivas, além de um enfoque na reabilitação do paciente. “Acho que houve um certo radicalismo. Não queremos um déposito de gente, mas, em algumas fases agudas da doença, não é possível tratar dentro de casa. Além disso, ainda faltam Cersams mais bem equipados. Acredito também que o médico se tornou mais um dentro da equipe. Vemos psicólogos e enfermeiros prescrevendo, o que não é certo”, aponta.
Convivência é o melhor remédio
Flávia Ayer - Estado de Minas
As vozes que já deram tom ao choro da depressão ou gritaram por socorro diante das alucinações hoje cantam músicas suaves. As mãos que um dia ameaçaram dar fim à própria vida tecem colchas, cozinham quitutes e dão forma à arte feita em madeira. Em centros de convivência, um dos componentes do tratamento substitutivo aos manicômios, pacientes de saúde mental encontram o caminho da cura por meio de oficinas de arte, culinária e esportes e a partir da conjugação do verbo conviver. Pioneiro em Belo Horizonte, que conta com nove dessas unidades, o formato terapêutico deu tão certo que foi incorporado como modelo de reabilitação psicossocial pelo Ministério da Saúde, em 2004.
O encaminhamento do usuário é feito pelos médicos dos postos de saúde ou dos Centros de Referência de Saúde Mental (Cersams). O paciente é convidado a adotar remédios como a música, teatro, dança, artes plásticas, culinária e esportes. “Por causa dos mitos da periculosidade e da incapacidade produtiva, essas pessoas foram retiradas do convívio em sociedade. Estamos provando no cotidiano que o contrário é possível”, afirma Marta Soares, gerente do Centro de Convivência São Paulo, na Região Nordeste de BH, o mais antigo da capital, fundado há 16 anos. Além dos mais de 100 usuários da rede de saúde mental, frequentam o espaço adolescentes e crianças. “Acredito que esses jovens poderão ser mais conscientes, pois crescem vendo aspectos sérios da condição humana”, ressalta .
Frequentador do Centro São Paulo, Sérvio Sadi, de 46 anos, descobriu nas oficinas de pintura e desenho uma profissão. E mais: a importância da reforma psiquiátrica. “Quero mostrar para a sociedade que temos que acabar com a discriminação e fazer com que compreendam que nós temos valores. Saúde mental para todos!”, afirma. Colega dele no espaço, Maria Auxiliadora esteve internada em um hospital psiquiátrico por um ano e 45 dias, mas foi nas aulas de música que encontrou tratamento. “Deixo qualquer coisa que estou fazendo para vir para cá. Tenho um vazio muito grande dentro de mim e a música é uma coisa que me dá prazer”, afirma. Três vezes por semana, ela entoa canções e ensaia com os demais componentes do Coral Devotos de São Doidão.
Cooperativa
Nos centros de convivência, além de recuperar a autoestima e refazer vínculos sociais, os usuários podem gerar renda. Parte das produções das oficinas é comercializada no Coisa de Louco Bazar e o artista recebe uma porcentagem da venda. Criada e gerida por frequentadores de centros de convivência, a cooperativa Suricato – Associação de Trabalho e Produção Solidária também abre as portas do mercado para quem carrega o estigma do transtorno mental. A incubadora mantém quatro grupos de trabalho: mosaico, marcenaria, costura e culinária. Nilza Belisário Geraldo, de 54, participa da turma da cozinha. “Sempre sonhei em ser salgadeira, tive oportunidade de fazer o curso no Fórum Mineiro de Saúde Mental e agora estou trabalhando. Com o pouquinho que recebi, comprei uma colcha”, conta.
O marceneiro Cleiton Xavier, de 28, há quatro integra a cooperativa. Para ele, a recompensa é muito maior que o dinheiro das vendas. “Tenho desenvolvido um trabalho promissor na Suricato. Até abri uma caderneta de poupança para mim. E aqui ainda existe a solidariedade, a união. Encontrei o outro lado da minha vida, a alegria. Já diminuíram a dose do meu remédio, melhorei muito. Eu achava que ia parar numa camisa de força. Achava que as pessoas iam olhar para mim com preconceito, porque o pessoal lá de fora não tem compaixão com quem tem sofrimento mental”, afirma.


Nenhum comentário:
Postar um comentário