PICICA - Blog do Rogelio Casado - "Uma palavra pode ter seu sentido e seu contrário, a língua não cessa de decidir de outra forma" (Charles Melman) PICICA - meninote, fedelho (Ceará). Coisa insignificante. Pessoa muito baixa; aquele que mete o bedelho onde não deve (Norte). Azar (dicionário do matuto). Alto lá! Para este blogueiro, na esteira de Melman, o piciqueiro é também aquele que usa o discurso como forma de resistência da vida.
outubro 04, 2009
Tributo a Mercedes Sosa, que embalou nossos sonhos de juventude
Aos 74 anos, morre a cantora Mercedes Sosa
Argentina estava internada desde meados de setembro
Renato Mendonça | renato.mendonça@zerohora.com.br
A cantora argentina Mercedes Sosa morreu neste domingo, no hospital Trinidad, em Buenos Aires, onde estava internada desde meados de setembro. Os motivos divulgados de sua morte foram complicações renais e hepáticas, além de problemas respiratórios. A intérprete de 74 anos sofria do Mal de Chagas desde o final dos anos 1970.
As vozes mais à esquerda poderiam resumir o parágrafo acima a quase um slogan: "a voz dos sem voz se calou". O coro postado mais à direita provavelmente se sentiria aliviado: durante a ditadura militar que governou a Argentina entre 1976 e 1983, Mercedes era o grilo falante e cantante que insistia em evocar a consciência de que a intolerância e a perseguição política não se afina com a dignidade humana.
Deixando de lado as paixões políticas, seria justo dizer que morreu uma das principais cantoras latino-americanas, a voz maior de clássicos como Volver a los 17, uma artista que ignorou fronteiras artísticas e geográficas, celebrando um ideal latino ao dividir canções, álbuns e palcos com Milton Nascimento, Charly García, Fagner, Antonio Tarragó Ros, Beth Carvalho, Joan Manuel Serrat, Shakira e Fito Páez.
Para aquela que imortalizou Gracias a la Vida (da chilena Violeta Parra), a boa música exigia independência artística. Por exemplo, no show que La Negra (apelido recebido pela cor de sua vasta cabeleira) fez há dois anos nem Porto Alegre, o repertório incluía Coração de Estudante (Nascimento e Wagner Tiso), mas também Gente Humilde (Garoto, Vinicius de Moraes e Chico Buarque) e Un Vestido y un Amor (Páez) e El Cosechero, que ela interpretou ao lado de seu amigo Luiz Carlos Borges, acordeonista gaúcho.
Na entrevista que concedeu a Zero Hora em 2007, Mercedes mostrou que sua o fato de colocar sua voz forte incondicionalmente a serviço de quem é fraco não a fazia perder sua lucidez. Comentando avanços sociais e políticos na América Latina, ela cravou:
— Não é a esquerda que está no poder, são alguns políticos de esquerda que estão no poder. Depois do desmembramento da União Soviética, o capitalismo está sozinho.
Essa lucidez sempre custou caro a Mercedes. Ela teve de exilar-se em Madri entre 1979 e 1982, depois de receber ameaças de morte de grupos extremistas de direita. Sua partida, inclusive, foi precipitada por um show que fez em La Plata, quando ela e todo o público que a tinha ido assistir foram detidos.
Porto Alegre também foi testemunha de um episódio de provocação terrorista contra ela. Em 1980, durante um show no Gigantinho, alguém detonou uma bomba de efeito moral para provocar correria e choro entre a plateia e inviabilizar o concerto da argentina. Até que Mercedes assumiu o comando com sua voz, e acalmou o público, que se juntou a ela em um coro emocionado. Anos mais tarde, Mercedes recebeu uma homenagem mais formal de parte dos gaúchos: em 1996, ela foi agraciada com a Medalha Simões Lopes Neto, outorgada pelo governo do Rio Grande do Sul.
Um dos últimos reconhecimentos que Mercedes recebeu foram três indicações para o Grammy Latino 2009 pelo álbum Cantora 1, que reúne duetos dela com vários artistas. O anúncio do vencedor será realizado no dia 5 de novembro em Las Vegas, mas o resultado da vida de Mercedes já é conhecido desde há muito tempo: La Negra iluminou com sua voz alguns dos tempos mais escuros que a América Latina já experimentou.
Fonte: Zero Hora
II Festival Internacional de Poesia de Santo Domingo
Fonte: http://www.revistazunai.com/blog/
O Rio deve essa a Lula
Lula poderia ter agido burocraticamente a favor do Rio, cumprido um papel formal de chefe de Estado, falado a favor da candidatura do Rio apenas porque não lhe caberia falar mal. Deixado a cidade ao gosto de seus notórios representantes da Zona Sul, esses seres apavorados que avançam sinais vermelhos para fugir da rotina de assaltos e sobressaltos sociais para, na segurança das grades de prédios e condomínios, maldizer a existência do Bolsa Família e do MST, antros simbólicos de pretos e pobres culpados, em primeira e última análise, do estado de coisas que tanto os aflige. Lula poderia ter feito do rancor um ato político, e não seria novidade, para dar uma lição a uma cidade que o expôs e ao país a um vexame internacional pensado e executado com extrema crueldade por seus piores e mais despreparados opositores.
Mas Lula não fez nada disso.
No discurso anterior à escolha do Comitê Olímpico Internacional, já visivelmente emocionado, Lula fez o que se esperava de um estadista: fez do Rio o Brasil todo, o porto belo e seguro de todos os brasileiros, a alma da nacionalidade. Foi um ato de generosidade política inesquecível e uma lição de patriotismo real com o qual, finalmente, podemos nos perfilar sem a mácula do adesismo partidário ou do fervor imbecil das patriotadas. Lula, esse mesmo Lula que setores da imprensa brasileira insistem em classificar de títere do poder chavista em Honduras, outra vez passou por cima da guerrilha editorial e da inveja pura e simples de seus adversários. Falou, como em seus melhores momentos, direto aos corações, sem concessões de linguagem e estilo, franco e direto, como líder não só da nação, mas do continente, que hoje o saúda e, certamente, o aplaude de pé.
Em 2016, o cidadão Luiz Inácio da Silva terá 71 anos. Que os cariocas desse futuro tão próximo consigam ser generosos o bastante para também aplaudi-lo na abertura das Olimpíadas do Rio, da qual, só posso imaginar, ele será convidado especial.
Fonte: Brasília, eu vi
O pessimista é, sobretudo, um chato.
Rita de Cássia de A Almeida
Tenho me dado conta de que o pessimista é, sobretudo, um sujeito chato. Aquele do tipo que assiste a um jogo da seleção brasileira do seu lado e fica azarando a partida toda, só vê defeito em tudo. Se a seleção ganha, ele pode até comemorar, com algumas ressalvas é claro, mas se, por infelicidade sua, a seleção perde, haja paciência, ele não vai se cansar de repetir tudo que havia previsto com sua bola de cristal azarenta.
Com a vitória do Rio de Janeiro para sediar das olimpíadas de 2016, os pessimistas de plantão já estão dando seus palpites. Como verdadeiros cavaleiros do apocalipse, eles já anunciam as desventuras dessa investidura brasileira. Já imaginam os seqüestros, as balas perdidas e a criminalidade fazendo pano de fundo para os eventos e festividades. Também usam como argumento o fato do Rio de Janeiro ter muitas coisas mais importantes para se preocupar, não devendo estar na sua lista de prioridades um evento esportivo dessa envergadura.
Os pessimistas não percebem que uma Olimpíada pode modificar desde já a realidade de um lugar, de uma cidade e de um país. Não entendem que se o Rio precisa mudar sua realidade social, reinventar a paz e fortalecer seu tão abalado posto de “cidade maravilhosa”, então não existe motivação ou investimento melhor do que esse. Políticos, governantes, investidores, organizações e/ou instituições que viraram as costas para o Rio, apostando que abandonar o barco seria a melhor saída, agora terão que rever suas posições e fazer novamente dessa cidade a capital do país, ainda que seja a capital esportiva.
Grande parte do sucesso de Lula se deve ao fato dele fazer parte do time dos otimistas. Dos que apostam nas vitórias e nos acertos. Dos que não admitem perder o jogo antes de iniciada a partida. Pessoas de sucesso pensam assim.
Mas, lembrando novamente daquele amigo chato que assiste futebol com você, acredito que ele não se importe muito com o resultado da partida. O que ele quer mesmo é, no final das contas, te dizer aquela frase insuportável: “Eu não disse?” E o pior de tudo é que ele sempre se sentirá autorizado a utilizar tal frase, porque, mesmo que o time ganhe, ele sempre encontrará algum motivo para botar defeito, para te dizer que não foi tão perfeito assim (e como perfeito nunca será mesmo...). Na verdade o pessimista é um chato porque não está preocupado com o desdobramento das coisas; o que ele quer mesmo é ter sempre razão.
Leia o blog da Rita: http://ritadecassiadeaalmeida.blogspot.com/
A Psicanálise na Atualidade
outubro 02, 2009
outubro 01, 2009
Retrocesso na Saúde Mental em Pernambuco
Foto: Rogelio Casado
Recife - Pernambuco - Brasil
2008
Pernambuco // SAÚDE MENTAL
Otávio de Freitas desativa a emergência psiquiátrica
Publicado em 01.10.2009, às 12h16
Do Jornal do Commercio
Um ano depois de desativar a maior emergência psiquiátrica de Pernambuco por causa de um incêndio de pequenas proporções, o governo do Estado confirmou, nessa quarta-feira (30), que não mais retomará o serviço no Hospital Otávio de Freitas, Sancho, Zona Oeste do Recife.
O atendimento, informou a Secretaria Estadual de Saúde, continuará sendo feito no Hospital Psiquiátrico Ulysses Pernambuco, na Tamarineira, Zona Norte, para onde foi transferido temporariamente depois do acidente, iniciado quando um paciente ateou fogo a um lençol. À época, o governo garantiu que, em um mês, concluiria os reparos e normalizaria a emergência na unidade de saúde.
A decisão de repassar de vez o serviço para o Ulysses, no entanto, contraria a Reforma Psiquiátrica, que preconiza o atendimento de emergência nessa área em hospitais gerais. “Quem perde é o paciente. No Ulysses Pernambucano não há sequer exames laboratoriais de urgência, só eletivos. Também não dispomos de raio-X. Ou seja, aqui não tem infraestrutura de emergência-geral”, resume a psiquiatra Ana Paula Luna.
A promotora de Justiça da área de saúde Ivana Botelho pediu explicações ao governo do Estado sobre a decisão. “Encaminhei um ofício em abril e me responderam que estavam negociando a implantação de um serviço de emergência com a prefeitura do Recife”, conta. “Mas estamos falando de uma emergência estadual. O serviço municipal se destina apenas a quem mora no Recife. Além disso, qualquer medida deve ser submetida ao Conselho Estadual de Saúde”, reclama.
A Secretaria Estadual de Saúde alega que o Hospital da Tamarineira responderá pela demanda estadual e que a criação do atendimento psiquiátrico emergencial no Recife atende à municipalização do Serviço Único de Saúde. “Antes o Ulysses Pernambucano recebia 25 pacientes em 24 horas. Agora o atendimento subiu para 46 por plantão”, defende a secretária Executiva de Atenção à Saúde, Ana Maria Albuquerque. Segundo ela, a estrutura da unidade é melhor que a do Otávio de Freitas.
Embora o governo do Estado tenha apresentado ao Ministério Público a criação de uma emergência psiquiátrica municipal como solução para o fechamento do serviço do Otávio de Freitas, ainda não há negociação com a prefeitura. “Fomos nós que fizemos a proposta à Secretaria Estadual de Saúde. Encaminhamos um ofício em julho e pedimos informações sobre o que o governo ofereceria de recursos humanos, financeiros e insumos. Até agora não recebemos resposta”, informa a diretora de Atenção à Saúde do Recife, Bernadete Perez.
Marcha dos Usuários, por Julia Catunda
MARCHA DOS USUÁRIOS POR UMA REFORMA PSIQUIÁTRICA ANTIMANICOMIAL
A Julia Catunda nomeou a Marcha dos Usuários como uma reedição da Parada do Orgulho Loko. A comparação é válida, embora o motivo político seja outro. Taí a ABP que não me deixa faltar com a verdade: o modelo manicomial, ultrajante, anti-cidadão, tem de ser banido pra sempre. O Lula já aceitou a IV Conferência Nacional de Saúde Mental. Vamos a ela, que vem chumbo grosso dos conservadores por aí. A luta continua!
Em nome da ciência, ABP continua a negar a história da instituição psiquiátrica
Foto: Rogelio Casado
Anos 1980
Nota do blog: A Associação Brasileira de Psiquiatria tentou tirar uma casquinha da Marcha dos Usuários a Brasília. Mas ela tem um caroço por engolir. A circunstância histórica em que ela se posicionou contra a instituição psiquiátrica da época tem um contexto de luta pela democratização do país. Marcos Toledo de Ferraz, então presidente da entidade, soube interpretar os anseios do seu tempo e honrou seu nome e o nome da instituição que dirigia. Nunca mais o feito seria repetido. O viés conservador da psiquiatria que combatemos ainda exala seu odor, muito semelhante ao odor inesquecível dos hospícios brasileiros.“Reforma psiquiátrica”: posicionamento da Associação Brasileira de Psiquiatria
Sobre a chamada marcha da luta antimanicomial, que acontece hoje em Brasília, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) esclarece e informa que:
- Nos anos 80, a ABP foi a primeira entidade a questionar a qualidade de atendimento das instituições de característica asilar e a defender propostas como a ampliação da rede extra-hospitalar e a criação de unidades psiquiátricas em hospital geral.
- Desde então, o poder público tem se mostrado resistente a debates técnicos e se nega a acompanhar propostas cientificamente embasadas apresentadas pelos médicos brasileiros.
- Os grupos responsáveis por manifestações como as de hoje não aceitam o conhecimento científico que aponta estratégias terapêuticas necessárias ao bom tratamento das pessoas com transtornos mentais e promoção da saúde mental.
- Essas evidências mostram que somente uma rede de atendimento integrada e hierarquizada que respeite os níveis de gravidade das doenças mentais, desde prevenção e atenção básica até serviços de internação, dará conta das necessidades diversas destas pessoas. A Lei 10.216/2001 garante aos doentes acesso a todas as modalidades de tratamento necessárias para sua melhora.
- Para contribuir com o debate sobre os serviços de saúde que devem integrar essa rede, a ABP produziu em 2006 as “Diretrizes para um modelo de assistência integral em saúde mental”. O documento foi entregue ao Ministério da Saúde. Anexa encontra-se versão resumida do material, com representação gráfica de como essa rede deve funcionar e quais os principais problemas do atual sistema.
- A psiquiatria, como ciência e especialidade médica, defende os direitos de pacientes e familiares. É, portanto, antimanicomial.
- Como instituição que procura contribuir para o debate técnico, reconhecemos que esses grupos apontam falhas importantes no sistema implantado pelo Ministério da Saúde. Apesar disso, carecem de critérios e embasamento técnico.
- A ABP destaca a urgência para ações preventivas e preconiza que a rede atenda a todas as necessidades dos doentes nos níveis primário, secundário e terciário, inclusive oferecendo leitos em hospitais quando exigidos por diagnóstico médico.
- Por fim, cumpre esclarecer que o termo “reforma psiquiátrica” é inadequado. As mudanças previstas na Lei 10.216/2001 são para o modelo de assistência em saúde mental do Brasil, não para uma especialidade médica. Ou seja, a psiquiatria não necessita de reforma e sim o modelo de assistência em saúde mental.
Associação Brasileira de Psiquiatria
Fonte: ABP
Marcha dos Usuários recebida pelo presidente do Congresso Nacional
30/09/2009 - 14h22
Sarney promete apoiar movimento contra manicômios
O presidente do Senado, José Sarney, recebeu, na manhã desta quarta-feira (30), o presidente do Conselho Federal de Psicologia, Humberto Verona, e integrantes da Marcha dos Usuários pela Reforma Psiquiátrica Antimanicomial, todos preocupados com a tramitação de projetos de lei favoráveis ao retorno dos tratamentos invasivos e das internações de doentes mentais.
- Quando esses projetos chegarem ao Senado, eu garanto que tomo conta deles - prometeu Sarney aos integrantes da Marcha.
Humberto Verona disse que a Lei 10.216/01, que fixa critérios para a progressiva extinção dos manicômios, é alvo de um lobby médico altamente agressivo interessado em modificá-la.
- Essa mobilização nacional é uma manifestação em favor da reforma psiquiátrica no Brasil, para pedir que a Lei 10.216/01 seja mantida e que, em vez de retroceder, ela avance e acabe com a possibilidade de hospitais submeterem pessoas a condições sub-humanas de tratamento. E o presidente Sarney garantiu que vai estar conosco e que vai estar atento a todas as tentativas de retrocesso - disse Verona.
Também presente à audiência, o vice-coordenador do Fórum Mineiro de Saúde Mental, Paulo José Azevedo de Oliveira, disse que essa luta contra os manicômios é um combate por inclusão social, pelo fim dos "depósitos de lixo humano" em que se transformaram esses hospitais no Brasil.
- Somos protagonistas de uma luta contra a Associação Brasileira de Psiquiatria, que é a favor dos manicômios, que quer nos tratar como números e que deseja nos desarticular em nome do capital. Queremos nos inserir na sociedade como cidadãos. E lutar aqui é mostrar que estamos organizados - disse Oliveira.
O objetivo dessa marcha pela reforma psiquiátrica e pelo fim dos manicômios é induzir a sociedade a abandonar a idéia da internação e adotar a perspectiva de recuperação do doente pela inserção na família, no trabalho e na sociedade. O movimento deseja que a estrutura de atendimento em meio aberto seja de fato implementada e orientada por diretrizes definidas pelos serviços públicos de saúde.
Teresa Cardoso / Agência Senado
Fonte: Agência Senado
Estadão acerta no atacado, e erra no varejo
Quarta-Feira, 30 de Setembro de 2009
Reforma psiquiátrica pode levar mais de 15 anos
Há lentidão na substituição de manicômios por atendimento ambulatorial
Lígia Formenti, BRASÍLIA
Se o ritmo atual for mantido, serão necessários mais de 15 anos para acabar com os manicômios no Brasil. Bandeira da reforma psiquiátrica, a substituição de leitos em hospitais especializados por tratamento ambulatorial está sendo feita no País, mas de forma muito mais lenta do que a considerada ideal. "É preciso mais agilidade. Enquanto ouvimos o discurso de que é preciso prudência na transição, uma legião de pacientes vive em condições precárias e é submetida a tratamento desumano e desrespeitada em sua dignidade", diz a secretária executiva da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (Renila), Nelma Melo.
O exemplo mais recente do tratamento inadequado de pacientes está em Pernambuco, em um hospital na cidade de Camaragibe. Com mais de 500 doentes, uma alta taxa de mortalidade e péssimas condições de atendimento, o Hospital José Alberto Maia foi alvo, na semana passada, de fiscalização das secretarias de vigilância sanitária municipal, estadual e da União. O destino dos pacientes - a maior parte sem ter casa - deverá ser decidido nos próximos dias, quando um acordo entre as três esferas do governo deve ser anunciado.
Atualmente, há no País 208 hospitais especializados em distúrbios psiquiátricos, que atendem 35,4 mil pessoas. O número já foi bem maior: em 2002, 51 mil pacientes estavam hospitalizados nessas instituições."
Mantida esta toada, há o risco de a reforma psiquiátrica nunca ser concluída", alerta Nelma. O receio é que o País passe a ter um sistema misto, com hospitais psiquiátricos convivendo com Centros de Atendimento Psicossocial (Caps), serviços abertos em que pacientes recebem tratamento com vários especialistas. "Esse modelo é idealizado por donos de hospitais e por uma classe de profissionais", avalia Marcus Vinícius de Oliveira, professor de Psicologia da Universidade Federal da Bahia e integrante do Conselho Federal de Psicologia. Em conjunto com a Renila, o colegiado promove hoje, em Brasília, uma marcha para pedir mais rapidez na substituição de leitos hospitalares por serviços multidisciplinares.
O coordenador do Programa de Saúde Mental do ministério, Pedro Gabriel Delgado, afirma que a conta do movimento social está certa. Mas garante que o ritmo de redução anual de 2,5 mil leitos psiquiátricos é bastante significativo e não será alterado tão cedo.
"De um lado, movimentos sociais afirmam que o processo deveria ser mais rápido. Mas, ao mesmo tempo, outros grupos pressionam para que essa mudança não seja feita - dizem até que há falta de leitos psiquiátricos. O gestor tem de procurar uma solução de equilíbrio."
O novo modelo da Política de Saúde Mental do País ganhou forma em 2001, com a edição de uma lei com regras para atendimento de pacientes com distúrbios psiquiátricos. Foram proibidos os asilos, onde pacientes acabavam ficando a vida toda, e o atendimento ambulatorial ganhou prioridade.
Com a mudança, a cobertura de Caps passou de 21%, em 2002, para 53%, em 2008. O perfil dos hospitais, segundo Delgado, também mudou. Unidades de grande porte foram pouco a pouco reduzindo seu tamanho e sendo substituídas por instituições mais enxutas. Mesmo assim, ainda hoje existem três hospitais com quase 600 leitos - em Camaragibe, no Rio e em São Paulo.
Para garantir a redução de hospitais e a demanda, Nelma considera essencial ampliar a rede de Caps de nível 3, que ficam abertos 24 horas por dia. Em todo o País, existem apenas 41 centros desse tipo. "Quando o paciente tem algum problema mais grave, à noite, a família não tem para onde correr. Acaba então recorrendo às velhas instituições", diz.
O SETOR
12% da população apresenta transtornos mentais
3.346 pessoas estavam cadastradas no Programa de Volta para Casaem junho deste ano
R$ 320 é o quanto recebe uma pessoa inscrita no Programa de Volta para Casa
500 era o número de Caps em 2003. Em 2006, havia 1.011 e hoje são 1.394
48.303 era o número de leitos psiquiátricos em 2003. Hoje são 35.426
14,45% dos leitos psiquiátricos estão concentrados em hospitais de grande porte
Fonte: Estadão
Carta (do MNLA) à RENILA
Agradecemos o convite dirigido ao MNLA e gostaríamos de propor uma reunião de representantes dos movimentos RENILA e MNLA para discutirmos o momento atual da reforma psiquiátrica no Brasil e as formas que podemos alcançar para nos mantermos nesta luta dirigindo e aliando nossos esforços para os pontos que temos em comum e mantendo a clareza necessária sobre quem são nossos oponentes de modo a evitar atritos e desgastes desnecessários e que só têm alimentado os que realmente querem nos atacar e destruir o que temos conquistado.
Com relação à Marcha a Brasília, considerando que:
- o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial (MNLA) foi informado da Marcha a Brasília e convidado oficialmente para participar desta ação no início de setembro;
- que em julho havíamos realizado uma reunião presencial em Angra dos Reis/RJ;
- que estamos mobilizados e empenhando esforços e energias na organização e realização do IX Encontro anual dos Usuários e Familiares do MNLA e do VIII Encontro anual do MNLA, que se realizariam no início de setembro de 2009 e agora marcados para novembro de 2009;
- que não temos apoio financeiro permanente de nenhuma instituição;
- que pelas razões anteriores não tivemos tempo ou condições para promover uma discussão ampliada e com participação efetiva e significativa de todos, principalmente de usuários e familiares;
- que aqueles que têm acesso a internet e assim se manifestaram sobre o tema mantiveram posições divergentes apontando a necessidade de aprofundamento da discussão;
O MNLA definiu por não participar formalmente da Marcha a Brasília, embora tendo a participação de vários de nossos membros nesta atividade.
Esclarecemos que apoiamos todos os movimentos e ações genuínas em defesa da reforma psiquiátrica brasileira e da luta antimanicomial dentro dos princípios pelos quais lutamos há vários anos e consideramos que este processo passa por um momento delicado e importante no Brasil, sendo necessário atuarmos com força, determinação e muita clareza quanto aos pontos com os quais concordamos ou discordamos, assim, como com muita clareza com relação a quem e onde estão nossos oponentes e nossos apoiadores.
Coerentes com nossa postura antimanicomial, não buscamos a homogeinização das formas de luta, de organização e/ou das manifestações pela luta antimanicomial. Reconhecemos a importância e o valor dos colegas da RENILA nesta luta e consideramos que temos hoje duas fortes organizações antimanicomiais no Brasil, ambas com história de valor nesta luta e ambas lutando pelos mesmos ideais.
Valorizamos a capacidade de respeitar e lidar com as diferenças e as tensões geradas por elas e reconhecemos o valor histórico e político da luta antimanicomial no Brasil que tem alcançado grandes vitórias, mas que necessita se manter forte e atenta aos constantes ataques e riscos de retrocesso. Continuamos a representar uma posição contra-hegemônica, mas entre nossas conquistas conseguimos a institucionalização e a efetivação de muitas de nossas antigas reivindicações.
Consideramos que este novo momento nos traz novos desafios, entre eles a difícil tarefa de manter a força inovadora e revolucionária dos movimentos instituintes estando agora em posição de defender o que já vem sendo instituído.
Secretaria Executiva Nacional Colegiada do MNLA.
Em 29/09/2009
Nota do blog: A Associação Chico Inácio (filiada à Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial) enviou 6 pessoas para a Marcha dos Usuários por uma Reforma Psiquiátrica Antimanicomial, com passagem de ida e volta para Manaus. Duas delas foram obtidas junto à CUT-AM; as outras quatro foram divididas em "suaves dez prestações". Só pra esclarecer! E olha que daqui só dá pra sair de avião. No mais, a carta é um avanço para um diálogo amadurecido, passadas tantas porradas. À luta, companheir@s!
Missão cumprida. A luta continua!
Nota do blog: Essa fotografia foi feita em Recife em 2008, durante uma reunião presencial da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial - RENILA, que junto com o Conselho Federal de Psicologia realizaram no dia de ontem - 30 de setembro - a Marcha Histórica dos Usuários de Saúde Mental por uma Reforma Psiquiátrica Antimanicomial. Entre os fotografados está o companheiro Paulo Michellon (círculo colorido), que nos encheu de orgulho por recusar uma manobra divisionista (não é a primeira vez) que tinha a intenção de cooptar o querido companheiro, esvaziando o sentido da Marcha. Paulo Michellon demonstrou a mesma firmeza com que defende o ponto de vista do Fórum Gaúcho de Saúde nas reuniões da RENILA. E é ele quem está em página virtual lusitana repercutindo os objetivos da Marcha dos Usuários (conforme mensagem enviada por Fernanda Penkala, do grupo em-defesa-da-reforma-psiquiátrica). E antes que eu esqueça, querid@s companheir@s, de nada adiantou deixar o Casadinho de molho para tentar aplacar a ira dos desafetos; el@s se manifestaram (alguém achava que iriam perder a oportunidade); só que não deu em nada (tem muita gente vacinada), a não ser aumentar o mal-estar dos que ignoram histórias que lamentavelmente continuarão desconhecidas. De certo, não há inocentes nessa história. Poucos sabem a origem do mal estar; e se por questões de consciência alguns silenciam, outros distorcem, por que lhes interessa não atribuir responsabilidades, quando o assunto é movimento social e sua relação com a política nacional de saúde mental. Mas que há responsabilidades, isso há.
Brasil: Utentes dos serviços saúde mental exigem reforma dos manicómios
Brasília, 30 Set (Lusa) - Cerca de dois mil utentes dos serviços de saúde mental de todo o Brasil fizeram hoje, em Brasília, uma marcha pela reforma psiquiátrica dos manicómios.
Lusa
22:53 Quarta-feira, 30 de Set de 2009
Brasília, 30 Set (Lusa) - Cerca de dois mil utentes dos serviços de saúde mental de todo o Brasil fizeram hoje, em Brasília, uma marcha pela reforma psiquiátrica dos manicómios.
"Queremos uma reforma psiquiátrica dos manicómios de facto. Esta é a nossa palavra de ordem. Não queremos mais tratamento em manicómios, onde a nossa cidadania é retirada, onde somos amarrados, estigmatizados e nunca somos levados à sério", disse hoje, à agência Lusa, Paulo Roberto Michellon, um dos integrantes do movimento.
Michellon, 49 anos, disse já ter enfrentado muitos problemas ao ser internado em manicómios na década de 70 e defende agora os serviços substitutivos propostos pela reforma psiquiátrica, que pretende transformar o modelo assistencial de saúde mental do Brasil.
Fonte: Visão
***
Nota do blog: É de Nelma Melo, secretaria geral da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial - RENILA, que vem uma das primeiras mensagens sobre a repercussão da Marcha dos Usuários à Brasília. O texto é marcado pela emoção fresquinha de quem tem o sentimento do dever cumprido:
Esta sendo muito positivo o balanço que estamos fazendo da Marcha. Muita emoção e cidadania. A VOZ DOS USUÁRIOS FORAM OUVIDAS POR TODOS OS CANTOS DO MUNDO. E, com certeza, vai ressoar por muito tempo. Desafiamos várias ciências, quebramos os protocolos do Planalto: estavamos em vários lugares ao mesmo tempo. Fazendo nossa agenda política, cultural e artística.
Vamos compartilhando o relato das audiências da Marcha e tudo mais....
Foi algo de impacto visível estampado no rosto das autoridades. As delegações estam retornando... de alma lavada.
RESPOSTAS IMEDIATAS:
Tivemos a palavra do Presidente Lula (por telefone, estavamos em Audiência com Gilberto Carvalho quando ele ligou) que
pode articular a IV CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE MENTAL até 2010.
Quanto as mortes nos hospitais, vai chamar, de imediato, o Ministro Temporão. Deixamos o Dossiê das Mortes.
Vamos contando o que aconteceu....
Bjs
Usuário de saúde mental desaparecido
PESSOA DESAPARECIDA
A pessoa Chama-se Anderson Luiz Tambosi, tem 32 anos de idade, aproximadamente 1,70 de altura, magro, apresenta-se com barba, veste bermuda bege, camiseta alusiva a Reforma Psiquiátrica, terno azul marinho e chinelos.
Anderso encontra-se sem dinheiro e sem documentos, talvez tenha uma lista de telefones no bolso. Ele reside em Joinville - Santa Catarina. Foi visto na data de ontem, 30/09/2009, às 17h30, na praça dos Três Poderes, Esplanada do Planalto. Anderson tem transtorno mental e estava participando da Marcha dos Usuários de Saúde Mental.
Nossos contatos:
Jaira Rodrigues: 48 99870688
Shirlei Vicente 47 88359176
Sidnei Vicente 33198008 Supremo Tribunal de Justiça










