fevereiro 03, 2011

"A xenofobia europeia", por Ignacio Ramonet

PICICA: "Perplexos no centro desse furacão, muitos frustram-se e se agarram ao sentimento de que, como dizia Tocqueville, “o passado já não ilumina mais o futuro, o espirito caminha pelas trevas”…(...) Sobre tal terreno social – feito de medos, ameaças de desemprego, distúrbios e ressentimentos – reaparecem os velhos mágicos. Com base em argumentos demagógicos, projetam sobre o estrangeiro, o muçulmano, o judeu ou o negro, toda a causa da nova desordem e da sensação de insegurança. Os imigrantes são os alvos mais fáceis, por simbolizarem o transtorno social e representarem, ao olhos do europeu mais modesto, uma concorrência indesejável no mercado de trabalho."

A xenofobia europeia, por Ignacio Ramonet


Por Ignacio Ramonet, Le Monde Diplomatique | Tradução: Cauê Seigne Amen

Não é surpresa. Organizado por demanda do principal partido do país, a União Democrática de Centro (que já havia conseguido, em 2009, proibir a construção de minaretes), um plebiscito legalizou (por 53% dos votos que ) a expulsão (ao final da pena) de todos estrangeiros condenado por crimes “graves” (tais como, homicídio, estupro, e assalto) mas também proxenetismo e trafico de drogas. Também terá de deixar o país quem simplesmente tiver “recebido abusivamente os benefícios sociais ou não pagar pensão alimentícia”.

É uma nova vitória para a extrema direita na Europa. Pode alimentar tentações semelhantes em outros partidos de ideologias semelhantes. Trará inevitavelmente certas consequências para a União Europeia, à qual a Suíça não pertence, mas com a qual Berna assinou, em 2002, um acordo sobre a livre circulação de pessoas. O que farão os governantes europeus quando a Suíça promover as expulsões, que são claramente dupla pena?


No fundo, a medida traduz sobretudo, numa crescente inquietude com os imigrantes, acusados de ser a raiz de todos os problemas. É evidente que todas as sociedades têm o direito de definir o que aceitam ou não, em seu espaço público. E não seria o caso de o país acolhedor modificar suas praticas em função dos novos habitantes. São estes que devem fazer um esforço de adaptação. Mas a partir destas evidências consensuais, os novos partidos da extrema direita constroem um discurso islamofóbico, expandindo seus círculos de influência e, pouco a pouco, fazendo passar todas as suas propostas extremistas.


Em nome de uma imperativa e abstrata “modernização”, as sociedades europeias são submetidas, há alguns anos, aos terremotos e traumas de uma grande violência. A lógica da competitividade foi elevada ao nível de imperativo categórico. A mundialização econômica, o crescimento da União Europeia, o fim da soberania nacional, a criação do euro, a quebra das fronteiras, a chegada massiva de imigrantes, o multiculturalismo e o desmantelamento do Estado de bem-estar social provocaram, entre muitos europeus, uma perda de referência e identidade. Além disso, tudo isso foi produzido em um contexto de grave crise financeira, econômica e social, provocando insuportaveis estragos sociais (25 milhões de desempregados, 85 milhões de pobres) e um aumento de todos os tipos de violência.


Diante da brutalidade e a rapidez de tantas mudanças, para muitos cidadãos as incertezas acumulam-se, a névoa cobre o horizonte, o mundo parece opaco e a história parece fugir de qualquer decisão. Muitos europeus sentem-se abandonados pelos governantes (de direita ou esquerda), que a mídia, aliás, não cessa de atacar como empresários fraudulentos, mentirosos e corruptos. Perplexos no centro desse furacão, muitos frustram-se e se agarram ao sentimento de que, como dizia Tocqueville, “o passado já não ilumina mais o futuro, o espirito caminha pelas trevas”…


Sobre tal terreno social – feito de medos, ameaças de desemprego, distúrbios e ressentimentos – reaparecem os velhos mágicos. Com base em argumentos demagógicos, projetam sobre o estrangeiro, o muçulmano, o judeu ou o negro, toda a causa da nova desordem e da sensação de insegurança. Os imigrantes são os alvos mais fáceis, por simbolizarem o transtorno social e representarem, ao olhos do europeu mais modesto, uma concorrência indesejável no mercado de trabalho.


A extrema direita sempre pretendeu tratar as crises designando um único culpado: o estrangeiro. É desolador constatar que essa atitude é hoje encorajada pelas contorções dos partidos democráticos, reduzidos a se interrogar sobre que dose de xenofobia seu discurso poderá incorporar.


Na França, a Front National (FN), de Jean-Marie Le Pen, propôs há algum tempo o culto do sangue e do solo, a restauração da nação (no sentido étnico do termo), o estabelecimento de um regime autoritário para lutar contra a insegurança, o retorno de uma protecionismo econômico não solidário, a volta das mulheres ao lar e a expulsão de três milhões de estrangeiros para liberar os postos de trabalho destinado aos franceses “de fibra”. Apesar de venenoso, esse discurso seduz, há algum tempo, “mais de um quarto dos franceses”.

E para atrair eleitores, o presidente Nicolas Sarkozy lançou, em julho, uma campanha contra os ciganos. O direito europeu impede a expulsão dos cidadãos dos países do bloco. Mesmo assim, o governo francês não hesitou em conduzir até a fronteira, nas duas primeiras semanas de outubro de 2010, 8.601 ciganos romenos: 7.447 “de maneira voluntaria”; 1.154, a força. Alega-se que os acordos da União Européia com a Romênia e a Bulgária, que sacramentaram a adesão desses dois países em 2007, prevêem uma carência de sete anos antes de autorizar a livre circulação de pessoas e que esse prazo não expirou1. É verdade, conforme o direito europeu em vigor. Porém esse mesmo prazo aplica-se, por exemplo, aos húngaros, tchecos e poloneses, que não foram expulsos maciçamente da França… Além disso, Paris alega que cada cigano aceitou sua partida de “maneira voluntaria”, por uma soma de 300 euros…Um “voluntariado” pouco crível. O desmantelamento de acampamentos ciganos não os deixa com outra possibilidade, senão aceitar a “ajuda” de retorno.


A Itália de Silvio Berlusconi procede da mesma maneira. Os acampamentos são regularmente evacuados. Em Milão, por exemplo, o numero de ciganos foi reduzido de dez mil a 1,2 mil…Outros países da União Europeia agem de forma mais discreta. Na Dinamarca, o prefeito de Copenhagen, Frank Jensen (social-democrata), queixou-se do numero de ciganos “envolvidos em assaltos”. Consequência: o governo deportou dez ciganos no começo de setembro, depois de já ter expulso vinte em julho. A Suécia, Áustria e Bélgica agem da mesma forma, mas concentram seus esforços sobretudo sobre os ciganos da Servia, de Kosovo e Macedônia – Estados não membros da União Europeia. Por seu lado, a Alemanha assinou um acordo para deportar cerca de 12 mil ciganos que haviam fugido de seu país no decorrer da guerra de Kosovo. Também a Suíça estabeleceu igualmente um “acordo de retorno” com as autoridades de Kosovo. Na Hungria e em Eslovênia, os ciganos foram recentemente vitimas de ataques mortais…


Essas práticas xenofóbicas são condenadas pelas instâncias internacionais. A Corte Europeia dos Direitos Humanos considera que, pelas suas atitudes contra os ciganos, dois membros da União Europeia (a República Tcheca e a Grécia), violaram direitos humanos. O Comitê da ONU que administra a Convenção Internacional contra todas Formas de Descriminação Racial (CERD), assinala que expulsões forçadas e descriminatórias de ciganos também ocorre na Bulgária, República Tcheca, Grécia, Lituânia e Romênia.
Tais praticas não são necessariamente impopulares. Na França, por exemplo, uma pesquisa indica que 55% dos católicos apoiam as expulsões dos ciganos. Um número cada vez maior de europeus pensa que a integração (em particular dos muçulmanos) é um fracasso, que o discurso sobre “o enriquecimento cultural pela diversidade” não prospera e que seria necessário, portanto, “parar de acolher tantos estrangeiros” (Le Monde, 27 novembro 2010).


A nova xenofobia europeia é expressa de forma tão aberta que diversos de governantes de centro-direita são hoje apoiado por partidos xenofóbicos e nacionalistas. Na Itália, Holanda, Áustria, Suécia e Dinamarca os governantes expressam ou uma coalizão com a extrema direita, ou uma aliança minoritária que sobrevive graças a seu consentimento.


Na Dinamarca, por exemplo, onde teve lugar, em 2006, a “crise das caricaturas de Maomé”, o primeiro-ministro liberal Anders Fogh Rasmussen é aliado, desde 2001, ao Partido do Povo Dinamarquês (PPD, extrema direita) dirigido por Pia Kjaersgaard que construiu sua popularidade numa campanha anti-imigratória, anti-muçulmana em particular. Na Suécia, os Democratas da Suécia (SD, extrema direita) entraram no Parlamento em setembro, ocupando vinte assentos. Seu programa é abertamente “xenofóbico e populista”. Um de seus anúncios na campanha eleitoral – que o Canal TV4 recusou-se a difundir – mostrava um velha senhora sueca andando apoiada sobre um andador. Mulheres com burcas, passavam à sua frente e chegavam antes dela no balcão, para alcançar os benefícios sociais…


Na Áustria, no período das eleições regionais e municipais de outubro, o partido FPÖ (extrema direita), dirigido por Heinz-Christian Strache, progrediu para 27% (14,83% em 2005). Na Holanda, os deputados democrata-cristãos e liberais, validaram por unanimidade, em 5 de outubro, um acordo governamental com o PVV (Partido da liberdade), islamofóbico, de Geert Wilders, que controla vinte assentos no Parlamento. Em troca de seu apoio, o PVV obteve concessões para tratar os assuntos de imigração. A lei que proíbe o uso da burca será votad nos próximos meses.


Na Itália, a nova lei de segurança, promulgada pelo primeiro-ministro Sílvio Berlusconi, permite a formação das “patrulhas cidadãs”, controladas pela extrema direita. Já são mais de duas mil. Constituem-se de voluntários, pertencentes à Liga do Norte, de Umberto Bossi, ou ao Movimento Social Italiano – Direita Nacional (MSI-DN). Os militantes usam vestimentas paramilitares: camisa cáqui, calças cinzas e bonés pretos com logo da águia imperial romana… Seu objetivo declarado é: “Salvar a integridade nacional” e “limpar” as cidades e vilarejos de “imigrantes indesejáveis”.


Muitos países europeus decidiram limitar as “práticas culturais” dos muçulmanos. França e Bélgica, por exemplo, votaram leis contra o uso do véu, burca ou niqab. Esses países proíbem agora qualquer rosto “mascarado ou dissimulado, em parte ou por inteiro, nos meios públicos”. Mesmo que as estratégias divirjam, essa questão influencia igualmente outros Estados europeus. Na Dinamarca, o uso do véu por inteiro é, desde 2010, limitado em espaços públicos. Na Holanda, há vários projetos para proibi-los, especialmente na esfera educacional e pública. Barcelona, a segunda cidade da Espanha, está preste de proibir a burca e o niqab em edifícios municipais, como já foi decidido em algumas cidades da Catalunha.


Na Alemanha, sob a pressão de seu partido, CDU (democrata-cristão), que exige uma atitude mais dura sobre a imigração, principalmente contra os muçulmanos, a chanceler Angela Merkel afirmou, em 17 de outubro, que “o conceito de sociedade multicultural alemã fracassou”. Merkel lançou uma advertência aos imigrantes: “Aquele que não aprender imediatamente o alemão, não é benvindo”. Suas declarações são reforçadas pelo presidente do lander de Hesse, Volker Bouffer, barão da CDU: “O Islã não pertence à república”. O presidente do grupo parlamentar da CDU, Volker Kauder, declarou também: “O islamismo não responde às exigências de nossa Constituição, fundada sobre nossa tradição judaico-cristã”. Mais de um terço dos alemães estimam que seu país estaria melhor sem os muçulmanos, 55% declaram ver os muçulmanos como pessoas “desagradáveis” e 58% estimam que “seja preciso proibir as praticas de sua religião”.


Em toda União Europeia, em 2010, avançaram muito as posições extremistas, inclusive “antidemocratas e racistas”, bem como a aceitação do darwinismo social. O “potencial antidemocrático” da sociedade pode ser medido agora, na Europa, pelo termômetro da islamofobia.


Segundo um estudo conduzido pela Fundação Friedrich Ebert, e publicado em 13 de outubro, a atual crise econômica “deslocou para direita o espaço politico” europeu e põem concepções extremistas no centro do discurso eleitoral. A xenofobia expressa-se agora de maneira desinibida. Tudo faz temer que – como nos EUA com o populismo do Tea Party – as ideias politicas radicalizem-se à direita. E terminem por ameaçar a democracia.


1A livre circulação de trabalhadores dá a todo cidadão da União Europeia (UE) o direito de trabalhar e viver em qualquer país do bloco. Esta liberdade fundamental, instituída pelo artigo 39º do tratado CE, permite:
  • Buscar trabalho em outro país;
  • Lá trabalhar sem precisar de uma licença de trabalho;
  • Lá viver com este objetivo;
  • Lá permanecer mesmo terminar o trabalho;
  • Beneficiar-se do mesmo tratamento dispensado aos cidadãos desse país no que concerne ao acesso ao emprego, às condições de trabalho, e a quaisquer outras vantagens sociais ou fiscais capazes de facilitar a integração no pais de acolhimento
Os cidadãos búlgaros, tchecos, estões, lituanos, húngaros, poloneses, romenos, eslovenos e eslovacos podem encontrar algumas restrições para trabalhar em outros países. No entanto, essas restrições não devem exceder um período de sete anos a partir da adesão destes países à UE (Bulgária e Romênia entraram em 1º de janeiro de 2007, todos os demais em 1º de maio de 2004)

Fonte: OUTRAS PALAVRAS

fevereiro 02, 2011

" Por que temer o espírito revolucionário árabe?", por Slavoj Žižek

PICICA: No final dos anos 1980, o bicho tava pegando no Brasil. O sociólogo Francisco Weffort estava entre os intelectuais que militavam no PT. Muita gente boa acreditava que ele fazia parte de um time disposto a renovar o marxismo. A certa altura ele passou a recomendar que lessemos sobre a Revolução Francesa, pois uma hora daquelas poderia irromper uma rebelião popular. A revolta não aconteceu. Weffort cansou de esperar por ela. Acabou embarcando no governo FHC, apagando definitivamente sua estrela. Conheça agora um intelectual que mantém acesa sua estrela, não entra em canoa furada e é um dos maiores representantes da renovação marxista. Acesse "Slavoj Žižek e a renovação do marxismo".
 
terça-feira, 01 de fevereiro 2011

Por que temer o espírito revolucionário árabe?, por Slavoj Žižek


Original aqui. Tradução de Idelber Avelar.
zizek-3.jpgO que não pode senão saltar aos olhos nas revoltas na Tunísia e no Egito é a conspícua ausência do fundamentalismo muçulmano. Na melhor tradição secular democrática, o povo simplesmente se revoltou contra um regime opressor, sua corrupção e pobreza, e exigiu liberdade e esperança econômica. Provou-se equivocada a cínica sabedoria dos liberais ocidentais, segundo a qual, nos países árabes, o senso democrático genuíno se limita a estreitas elites liberais, enquanto a vasta maioria só pode ser mobilizada através do fundamentalismo religioso ou do nacionalismo. A grande questão é: o que acontece depois? Quem vai emergir como o vencedor político? 

Quando um novo governo provisório foi nomeado em Túnis, ele excluiu os islamistas e a esquerda mais radical. A reação dos presunçosos liberais foi: “ótimo, eles são basicamente o mesmo; dois extremos totalitários” – mas será que as coisas são tão simples assim? O antagonismo a longo prazo não é precisamente entre os islamistas e a esquerda? Mesmo que estejam momentaneamente unidos contra o regime, uma vez que eles se aproximam da vitória, a sua unidade racha, eles entram em luta mortal, com frequência mais cruel que aquela que compartilharam contra o inimigo comum. 

Não presenciamos exatamente essa luta depois das últimas eleições no Irã? O que representavam os centenas de milhares de apoiadores de Mousavi era o sonho popular que sustentou a revolução de Khomeini: liberdade e justiça. Mesmo utópico, o sonho levou a uma explosão arrebatadora de criatividade política e social, experimentos organizativos e debates entre estudantes e pessoas do povo. Essa genuína abertura que desatou forças inauditas de transformação social, num momento em que tudo pareceu possível, foi depois gradualmente sufocada pela tomada de controle de político realizada pela hierarquia islamista. 

Até no caso dos movimentos claramente fundamentalistas, não se deve perder de vista o componente social. O Talibã é regularmente apresentado como grupo fundamentalista islâmico que impõe seu regime com o terror. No entanto, quando, na primavera de 2009, eles tomaram o Vale do Swat no Paquistão, o New York Times relatava que eles arquitetaram uma “revolta de classe que explora profundas fissuras entre um pequeno grupo de ricos proprietários e seus inquilinos sem-terra”. Se, ao “aproveitar-se” da desgraça dos camponeses, o Talibã está criando, nas palavras do New York Times, “alarme com os riscos que corre o Paquistão, que permanece majoritariamente feudal”, o que impediu, então, os democratas liberais no Paquistão e nos EUA de “se aproveitarem” dessa desgraça da mesma forma e tentar ajudar os camponeses sem-terra? Será que é porque as forças feudais no Paquistão são as aliadas naturais da democracia liberal?
 

A inevitável conclusão a se tirar é que a ascensão do islamismo radical foi sempre o outro lado da moeda da desaparição da esquerda secular nos países muçulmanos. Quando o Afeganistão é retratado como o país ápice do fundamentalismo islâmico, quem ainda se lembra que 40 anos atrás, ele era uma nação com forte tradição secular, incluindo-se um partido comunista que tomou o poder de forma independente da União Soviética? Onde foi parar essa tradição secular? 

É crucial ler os eventos atuais na Tunísia e no Egito (e no Iêmen e … talvez, oxalá, até a Arábia Saudita) em relação a esse pano de fundo. Se a situação, no fim das contas, se estabilizar, de forma que o velho regime sobreviva com alguma cirurgia cosmética liberal, ela provocará uma insuperável reação [backlash] fundamentalista. Para que o legado liberal chave sobreviva, os liberais necessitam a ajuda fraterna da esquerda radical.

Voltando ao Egito, a reação mais perigosamente oportunista foi a de Tony Blair, via CNN: a mudança é necessária, mas deve ser uma mudança estável. “Mudança estável” no Egito hoje só pode significar a concessão às forças de Mubarak através de uma ligeira ampliação do círculo dominante. É por isso que falar em transição pacífica agora é uma obscenidade: ao esmagar a oposição, o próprio Mubarak tornou isso impossível. Depois que Mubarak enviou o exército contra os que protestavam, a escolha ficou clara: ou uma mudança cosmética na qual algo muda para que tudo permaneça igual, ou uma ruptura verdadeira.

Eis aqui, então, o momento da verdade: não é possível argumentar, como na Argélia de uma década atrás, que permitir eleições realmente livres significa entregar o poder aos fundamentalistas islâmicos. Outra preocupação liberal é que não há poder político organizado para assumir o leme se Mubarak vai embora. É claro que ele não existe; Mubarak se encarregou disso ao reduzir toda a oposição a ornamentos marginais, de forma que o resultado é como o título do famoso romance de Agatha Christie, And Then There Were None [E Aí Não Sobrou Nenhum]. O argumento em favor de Mubarak—de que ou é ele ou é o caos—é um argumento contra ele. 

É de tirar o fôlego a hipocrisia dos liberais ocidentais: eles publicamente apoiaram a democracia, e agora, quando o povo se revolta contra tiranos em nome da justiça e da liberdade seculares, não em nome da religião, eles ficam profundamente preocupados. Por que preocupação, por que não alegria de que a liberdade está ganhando uma chance? Hoje, mais que nunca, o dito de Mao-Tsé-Tung é pertinente: “há grande caos sob os céus-- a situação é excelente". 

Para onde, então, deveria ir Mubarak? Aqui, também, a resposta é clara: para Haia. Se há um líder que merece estar lá, é ele. 

Fonte: O Biscoito Fino e a Massa

"A conservadora ministra da cultura", por Bruno Cava

PICICA: "As primeiras medidas e declarações da nova ministra Ana de Hollanda sinalizam pelo desmantelamento das políticas culturais do governo Lula, que teve como titulares da pasta Gilberto Gil (2003-08) e Juca Ferreira (2009-10)."


A conservadora ministra da cultura.


Tom Zé no lugar de Ana de Hollanda. 

 
Hoje, no Biscoito Fino e a Massa, Idelber Avelar fala da guinada conservadora do ministério da cultura. Vale muito a leitura, porque esquadrinha o debate e aponta a vários outros artigos sobre o caso.  Também recomendo ouvir a entrevista do sociólogo Sérgio Amadeu, militante do software livre.

É lamentável. As primeiras medidas e declarações da nova ministra Ana de Hollanda sinalizam pelo desmantelamento das políticas culturais do governo Lula, que teve como titulares da pasta Gilberto Gil (2003-08) e Juca Ferreira (2009-10).

Entendo que a potência através do governo passado esteve na 1) contestação do paradigma proprietário dos direitos autorais, 2) promoção da cultura como rede colaborativa e transversal de cidadãos-produtores, imediatamente social e cidadã, 3) mais democracia em critérios de editais, distribuição de recursos e acesso a bens culturais e mídias compartilhadas. Nesse sentido, foram gestados os Pontos de Cultura, o incentivo ao software livre, a noção não-identitária (antropofágica) de cultura, e o reconhecimento de sua centralidade como geração de valor e riqueza. 

Em resumo, o ministério da cultura foi a ponta-de-lança do governo na percepção e no encorajamento do comunismo das redes que vem se constituindo no século 21.

Lula nunca hesitou em se manifestar com entusiasmo pelo código aberto, pelo Creative Commons (instalado inclusive no Blog do Planalto) e até pelo Wikileaks e Julian Assange. Essa ousadia sem precedentes do último governo incomodou muita gente. As políticas do Minc irritaram sobretudo os latifundiários da cultura: indústria fonográfica (representada pelo ECAD --- Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), multinacionais de informática (ex.: Microsoft), mercado editorial, e medalhões apascentados pelo establishment.

Nesse contexto, causa perplexidade uma ministra de um governo de continuidade guinar 180 graus e "acertar as contas" com opções políticas até o mês passado em vigor.  Gera revolta vê-la assumir a concepção diametralmente contrária, que serve direitinho ao ECAD. 

Ou seja, governar não para os muitos, mas para a "classe artística" e os atravessadores implicados no processo. Favorecer não o acesso e a difusão livres e horizontais, de arte e conhecimento, mas a sua expropriação por intermediários e proprietários, no esquema do copyright. Promover não a democracia produtiva em rede colaborativa, onde todos podem criar, recombinar e transmitir conteúdos, mas a tal "indústria criativa" (aliás, contradição em si). Eis a pirâmide social que se extrai do discurso de Ana de Hollanda: medalhões no topo, genuínos representantes da cultura brasileira, a "difundi-la" de cima pra baixo ao cidadão meramente receptor.

Por tudo isso, participo da mobilização pela retomada da pauta da cultura livre. Mais do que isso, estou com os que propõem Tom Zé para substitui-la e efetivar o voto e a confiança no governo Dilma (campanha pró-Tom Zé no Facebook). O compositor e intelectual tropicalista de 64 anos tem trajetória e atitude talhadas para o desafio de  seguir o exemplo de Gilberto Gil nesse campo tão vital.

Mais antropofágico e sensível à luta de cultura livre, Tom Zé reúne mais virtudes do ponto de vista democrático, do que Ana de Hollanda. Com ele,  pode-se acreditar na continuidade e aprofundamento de uma política cultural que tanto orgulho (e irritação da direita proprietária) inspirou nos últimos oito anos.

Uma sátira ao padrão "Globo" de jornalismo

PICICA: Só rindo do padrão "Globo" de jornalismo. Um jornalismo "interpretativo" que abusa de caras e bocas, como se fazer jornalismo fosse um espetáculo teatral. Faz sentido. É jornalismo "show". Em compensão, a interpretação dos fatos são feitas - com raríssimas exceções - através de análises pra lá de anêmicas. A revolução popular no Egito, por exemplo, é tratada como uma mera "crise política". Tenha santa paciência!
tvsaltcover | 18 de janeiro de 2011 | 
Uma homenagem ao excelente padrão gráfico do maior canal de notícias do Brasil.
O canal de jornalismo que nunca desliga mesmo em mais uma cobertura de última hora.
A apresentadora Christiane Peitajo e o correspondente Carlos da la Nóia mostram os últimos acontecimentos no Suriname.

Roteiro baseado no vídeo Something is Happening in Haiti do grupo americano de humoristas The Onion News.

"¿Quién gobierna Túnez?", por Alma Allende

PICICA: "La paradoja de los medios occidentales es que se han vuelto de pronto marxistas." Leer más: "Sobre la "Transición" en Túnez y Egipto" y "Las revueltas en Túnez costaron la vida a 147 personas".

Aumentar tamaño del texto Disminuir tamaño del texto Partir el texto en columnas Ver como pdf 02-02-2011

Día decimonoveno del pueblo tunecino
¿Quién gobierna Túnez?


Foto de Ainara Makalilo

Hoy en Túnez han ocurrido algunas cosas terribles:


Han quemado el instituto más grande del Bardo, uno de los barrios de la capital.


Han asaltado el restaurante hebreo Mamie Lily en la Goulette.


Han secuestrado en una escuela de la Ariana al hijo de un general.


Han incendiado la sinagoga de Djerba.


Han evacuado todas las escuelas de la ciudad.


Han pedido a los medios extranjeros que abandonen el país.


Hoy no ha ocurrido ninguna de estas cosas en Túnez. Pero ha ocurrido -y es un verdadero suceso- que se ha dicho que todas estas cosas han ocurrido y el rumor, por los mismos medios con los que se combatió la censura, ha circulado, volado, infectado a miles de personas y generado el mismo clima de inseguridad y terror que si estas cosas hubiesen sucedido realmente. Los mismos que podrían llegar a hacer estas cosas, los mismos que siguen recorriendo las calles, de día y de noche, intimidando y asustando, los mismos que asaltaron locales e instituciones ayer en Qasserine, lanzan noticias antes de lanzar bombas y con el mismo propósito. ¿Los mismos? ¿Quiénes son?


La policía se ha declarado hoy en huelga en Sfax y protesta en otras ciudades por lo que consideran un trato injusto; quieren, dicen, recuperar la confianza de su pueblo. Lo cierto es que no hay policía. En muchas de las ciudades y pueblos de Túnez no hay policía. Es bonito que no haya policía. Pero lo que podría considerarse una conquista popular mientras los barrios estaban organizados, ahora deviene una fuente de inquietud. Los pequeños asaltos y las enormes mentiras comienzan a minar la serenidad de la gente. No han evacuado las escuelas, no, pero sí es cierto que muchos alumnos han vuelto a casa o han sido recogidos por sus padres antes de que finalizara el horario lectivo. Los de Bizerta, donde nos encontrábamos a las 15 h., porque tenían miedo después del incendio, que nunca ha ocurrido, del instituto del Bardo; los de Túnez porque tenían miedo después de los tiroteos, jamás acaecidos, en los colegios de Bizerta. Es impresionante la velocidad con que circulan las verdades; es aún más impresionante la velocidad con la que circulan los rumores. Y si la verdad no admite exageración, pues dejaría de serlo, el rumor exige -como toda emoción imperiosa- una expresión mayúscula. No se puede añadir nada a la verdad; todo el mundo quiere añadir algo de su cosecha a una fábula.


¿Está intentando la policía recuperar la confianza de la gente generando inseguridad en ciudades desprotegidas? Es posible. Pero también es cierto que el nuevo ministro del Interior ha confirmado que ayer el ministerio fue asaltado por cientos de personas, en lo que califica como “un complot contra la seguridad del Estado”. ¿Está intentando el gobierno ganarse la confianza de los que no quieren creer en la discontinuidad proclamada a los cuatro vientos? También es posible. Pero no menos cierto es que las milicias recedistas, junto a mercenarios sacados de las cárceles en los días posteriores al 14 de enero, permanecen a la espera, bien organizadas y financiadas, asestando dentelladas en la oscuridad.


El caso de Bizerta, la bella ciudad portuaria del norte del país, es significativo. Con la mayor concentración de cuarteles y militares de Túnez -de las tres fuerzas-, vivió durante una semana los más duros combates del país tras la fuga del dictador. Muchos de esos milicianos que trataron de asaltar las bases y apropiarse de las armas del ejército siguen ocultos en el bosque de Nador y desde allí amenazan a la población. Anoche volvieron los intercambios de disparos y esta mañana, poco antes de nuestra llegada, los soldados detuvieron a dos miembros de las milicias. Con el helicóptero sobrevolando nuestras cabezas y una masiva presencia de soldados en las calles, la atmósfera es pesada en Bizerta. Se espera que de un momento a otro ocurra algo tan grave como indeterminado y un amigo de Mohamed nos aconseja, en efecto, regresar lo antes posible a la capital.


Pero no ocurre nada. O sólo una pequeñez ilustrativa: encontramos un cadáver. Asaetados a través del teléfono por noticias sin confirmar, caminamos agitados hacia la calle 26 de Marzo cuando Ainara ve delante de nosotros un joven que arroja un bulto al otro lado de un muro y sale corriendo. Al pasar buscamos con los ojos, llevados por la curiosidad, a través de los calados abiertos en la pared. Y de pronto vemos algo que no relacionamos en principio con el gesto del fugitivo. Es un cuerpo. Está tumbado bocabajo entre la hierba, completamente inmóvil. Viste unos pantalones vaqueros negros y una chaqueta gris de lana con capucha. No está en la postura de alguien que se ha quedado dormido ni tampoco parece verosímil que nadie haya escogido ese lugar y esa hora para una siesta. Es evidente que está muerto.


Decidimos rodear el muro, que ciñe el recinto de una modesta urbanización, y avisar al guardián. Con él nos dirigimos, un poco sobrecogidos, hasta el cuerpo semiescondido en el jardín. Allí está. No se mueve, no respira. El guardián lo toca con el pie.


- Pero, ¡si es un maniquí!


Un maniqui, en efecto. Enseguida lo comprendemos todo. El joven fugitivo había robado el maniquí de alguna tienda cercana y lo había arrojado por encima de la pared pensando en volver luego a recogerlo sin peligro. Le hemos arruinado la operación. El alivio, se comprende, se convierte en hilaridad. Y nos alejamos riendo mientras el guardián acompaña del brazo al muñeco hasta su pequeño garito, contento también del hallazgo.


Pasamos la tarde en Burjaluf, un pueblo de 7.000 habitantes a las afueras de Bizerta, en casa de la familia de Mohamed. Allí conocemos a Mohamed Ali, soldador, y a Qais, albañil, los dos en paro, los dos muy activos desde que comenzó la revolución. Nos cuentan su experiencia como miembros de los comandos de autodefensa durante los diez días de temprano toque de queda y combates en los cuarteles próximos. Todos participaron en estos piquetes compuestos de 25 personas que se comunicaban entre sí y con el ejército a través de los teléfonos móviles. Las mujeres, reunidas en grandes grupos en las casas, les proporcionaban té y comida.


Hablamos de la necesidad de convertir ese impulso defensivo y solidario en alguna forma de organización permanente que se ocupe no sólo de la seguridad sino de gestionar la vida cotidiana en sustitución de la célula del partido y de una municipalidad al mismo tiempo incompetente y cómplice. Y de si es posible construir esa nueva institución bajo un gobierno que no es revolucionario y que, aún más, sigue controlado en la sombra por las mismas fuerzas oscuras.
- De hecho -dice Mohamed Ali- no es ni siquiera Ghanoushi el que gobierna. No hay que obsesionarse con él. Son otros, detrás de su sillón, los que dan las órdenes.


Pero la discusión del día gira en torno a si realmente se puede hablar de revolución. ¿Qué es una revolución? ¿Un gran movimiento de masas, con independencia de si alcanza sus objetivos? ¿La subversión completa de un orden y de un sistema? ¿Basta derrocar un tirano? ¿Hay que derrocar la tiranía?


Mohamed Ali da una definición que horas antes, curiosamente, había adelantado nuestro amigo Mario, profesor de la Universidad de la Manuba, en el pequeño restaurante donde habíamos comido con Mohamed:


- Sólo se puede hablar de revolución si hay un momento en el que todo el pueblo sale a la calle a hacer una gran fiesta. Las victorias se festejan y si no se festejan es que no hay victoria. No hemos podido festejar nada en la calle, ni siquiera la expulsión de Ben Alí. Y eso quiere decir que aún no hemos vencido.


La paradoja de los medios occidentales es que se han vuelto de pronto marxistas. No dejan de insistir en que las causas de las revueltas tunecinas tienen que ver con el pan y con el paro o, como leo en El Mundo al volver a casa: “las revueltas tienen un envoltorio de libertad pero un corazón económico”. Hay un patente eurocentrismo en este tipo de análisis; la libertad y la democracia son un invento europeo y los pueblos que Europa desprecia y ha contribuido a encadenar -¡en nombre de la libertad y la democracia!- son incapaces de pensar en otra cosa que en su estómago (o en ese estómago alargado que es el fútbol y el centro comercial). No soportan que los árabes se tomen en serio lo que ellos han usado tan mal. No sabemos si en Túnez ha habido, hay, está habiendo, habrá una revolución, pero en estos días los tunecinos (y los egipcios) no hablan de comida sino de política.
Comisaría central de la policía de Bizerta, quemada por los ciudadanos el día 15 de enero

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Fuente: Rebelión

fevereiro 01, 2011

"O fator Irmandade Muçulmana", por Pepe Escobar

PICICA:  "(...)a revolução egípcia parece aproximar-se do último tempo do jogo."
zomuna40 | 31 de janeiro de 2011 |

O fator Irmandade Muçulmana

A Irmandade Muçulmana gera medo pânico em todo o ocidente, porque o governo de Mubarak sempre apresentou os “irmãos” como se fossem idênticos à al-Qaeda. Não há sandice maior. A organização opõe-se completamente a qualquer tipo de violência contra civis – o que a põe em campo absolutamente oposto à al-Qaeda. Uma Irmandade Muçulmana que refute a violência e seja ativa nas políticas civis no Egito pode ser o melhor antídoto contra os fanáticos à moda al-Qaeda. Por outro lado, não parece haver dúvidas de que – com a Irmandade Muçulmana participando do governo do Egito – o tratado de paz com Israel será renegociado. O artigo é de Pepe Escobar.

Um milhão em marcha pelas ruas do Cairo nessa 3ª-feira, outro milhão em marcha rumo ao palácio presidencial em Heliópolis na próxima “6ª-feira da Partida”. O principal graffiti – escrito também nos tanque Abrams cor caqui, fabricados nos EUA – ainda é “queremos derrubar o sistema”. O exército parece ter escolhido lado, afirmando sempre que “não recorreremos ao uso da força contra nosso grande povo egípcio”.

Com o preço do barril de óleo ultrapassando a barreira dos US$100 pela primeira vez desde setembro de 2008; o medo cada vez maior de que se interrompa o fluxo de petroleiros pelo Canal de Suez; bancos, escolas e a Bolsa de Valores fechados; comitês populares encarregados da segurança da cidade; policiais queimando os próprios uniformes e unindo-se aos manifestantes; e piquetes de ativistas, manifestantes e blogueiros escrevendo furiosamente em bancadas e bancadas de laptops para distribuir notícias ao mundo (antes de o governo do presidente Hosni Mubarak ter “valentemente” derrubado o último provedor de serviços de internet que ainda funcionava), a revolução egípcia parece aproximar-se do último tempo do jogo.

A estratégia do Faraó e de seu “sucessor” Omar (o “torturador suave”) Suleiman é usar o exército para intimidar, e depois demonstrar que a rua só conseguirá tingir de sangue o Nilo. Não me parece provável. Mas, sim, essa ditadura militar cruel fará qualquer coisa para manter-se agarrada ao poder.

Como a rua multiforme do Egito vê a questão, não se trata hoje, como o Wall Street Journal escreve pitorescamente, de “é possível que a fase atual se revele momento feliz para Washington”. As massas da Praça Tahrir (Praça Libertação) que protestam com seus corpos e a própria vida, não poderiam estar menos preocupadas com os EUA – como tampouco estão preocupadas com o tráfego de superpetroleiros para abastecer o ocidente ou com a segurança de Israel. Aqui se trata de Egito, não de EUA.

No domingo, o presidente dos EUA Barack Obama falou frouxamente de uma “reforma no governo do Egito” – contra a multidão que grita “abaixo o ditador”. Al-Jazeera teve de escrever editorial para lembrar as pessoas de que, por definição, a palavra “reforma” que Obama usara não significa nem jamais significará manter lá o mesmo regime corrupto e repressivo, passado só por rápido banho de loja.

A situação aqui é de revolução clássica; os poucos que permanecem no topo do governo já não conseguem, como antes, impor sua vontade; os muitos que sempre viveram por baixo recusam-se a continuar dominados como antes. Infinitamente intrigadas, confusas, Washington e capitais européias podem, no máximo, como vocalistas minimalistas, fazer corinho para o som e a fúria que vêm das ruas. As ruas querem vida política e institucional confiável e querem conseguir viver com decência em ambiente menos corrompido. E isso já de provou impossível sob as velhas imutáveis regras do jogo – o sistema do “nosso” ditador apoiado pelo ocidente industrializado.

Entre outras tolas teorias de conspiração, de que a revolução egípcia seria financiada pelo lobby judeu, pela CIA-EUA, pelo financista George Soros ou por todos os supracitados, a rua egípcia prossegue como se essas entidades sequer existissem, sem querer saber se o Faraó decidirá a favor ou contra “conduzir uma transição ordeira”. A rua só sossegará com passagem só de ida para Mubarak, para talvez abraçar seus amigos da Casa de Saud. Especialmente agora que a rua já viu que, com Suleiman, Mubarak tenta fazer-se de Xá do Irã em 1978 – quando nomeou Shapour Bakhtiar primeiro-ministro (e não funcionou).

Pergunte à Esfinge


O complexo caminho à frente aponta para uma aliança civil no Egito, de todos os setores que se opõem ao regime (praticamente todos os habitantes do país) e o componente inevitável, o exército. Enquanto isso, setores do establishment em Washington e a mídia-empresa nos EUA não param de repetir freneticamente que não há condições objetivas para que os radicais islâmicos cheguem ao poder. Bobagens e só bobagens.

Washington parece estar a um passo de dar luz verde para Mohamed ElBaradei – apoiado pela Irmandade Muçulmana, esse, sim, fator crucial. Pois nem a Esfinge de Gizé é capaz de adivinhar se tudo isso bastará para satisfazer a rua.

ElBaradei é elemento de fora, e confiável. Permaneceu fora do país durante os anos mais duros do governo do Faraó. Não é arrivista e defendeu estoicamente suas posições a favor do Irã e contra o governo de George W Bush, na presidência da Agência Internacional de Energia Atômica. ElBaradei, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2005, pode, sim, emergir como uma “ponte”, até que se organizem eleições livres e justas, nova Constituição e nova ordem no Egito.

Mas nada sugere que ElBaradei venha a implantar política econômica muito diferente da que pregam o Fundo Monetário Internacional/Banco Mundial, a conversa fiada do “ajuste estrutural”, com privatizações as mais ensandecidas, temperadas com o vago mantra de Davos, “a boa governança”. Se a coisa tomar esse rumo, o mais provável é que a rua de enfureça de verdade – outra vez.

Por enquanto, não há qualquer sinal de que o Egito venha a seguir o caminho do Irã em 1979. No Irã, a esquerda secular encarregou-se do governo pós-revolucionário; no Egito, a esquerda foi dizimada pela repressão. O Irã só se tornou república islâmica meses depois da revolução, depois de um referendo nacional (se houver referendo no Egito, as massas egípcias votarão por república secular). O cenário mais provável e mais positivo é que, para 2012, o Egito aproxime-se mais, em termos políticos, da Turquia.

Com o quê chegamos à questão mais quente e mais distante de qualquer resposta, que pode incinerar todas as demais questões quentes: qual será o papel pós-revolucionário da Irmandade Muçulmana [ing. Muslim Brotherhood (MB); em português, também Irmandade Muçulmana]?

Resgatar os irmãos[1]


A Irmandade Muçulmana gera medo pânico em todo o ocidente, porque o governo de Mubarak sempre apresentou os “irmãos” como se fossem idênticos à al-Qaeda. Não há sandice maior.

A Irmandade Muçulmana foi fundada por Hasan al-Banna no porto de Ismailia em 1928 – depois se transferiu para o Cairo. A preocupação inicial foi oferecer serviços sociais, construir mesquitas, escolas e hospitais. Ao longo das últimas décadas, a Irmandade Muçulmana tornou-se a mais importante força política fundamentalista do mundo sunita. É também o maior partido dissidente do Egito, ocupando 88 dos 454 assentos na Câmara baixa do Parlamento.

A Irmandade Muçulmana não prega nem apoia a violência – embora tenha-o feito no passado, até os anos 1970s. A aura de violência está relacionada ao legendário Sayyid Qutb, que muitos consideram o pai espiritual da al-Qaeda. Qutb, crítico de literatura que estudou nos EUA, ligou-se à organização em 1951 e separou-se dela anos depois.

As ideias de Qutb eram radicalmente diferentes das de al-Banna – sobretudo seu conceito de “vanguarda”, mais próximo das ideias de Lênin que do Corão. Para ele, a democracia parlamentar seria “um fracasso” no mundo islâmico (ao contrário do que pensa a maioria dos egípcios hoje, que lutam por democracia; além disso, a Irmandade Muçulmana hoje é participante ativa da sociedade civil e política.) Qutb não é sequer considerado pensador islâmico moderno influente; o Islã político hegemônico hoje, personificado na autoridade do imã de al-Azhar no Cairo, refutou impiedosamente o pensamento de Qutb.

Ao contrário do que diz a propaganda dos neoconservadores dos EUA, a Irmandade Muçulmana nada tem a ver com os movimentos fascistas dos anos 1930s na Europa, nem com os partidos socialistas (são, de fato, defensores da propriedade privada). Trata-se, sobretudo, de movimento nativista urbano, da classe média baixa, como o define o professor Juan Cole da Universidade de Michigan. Mesmo antes da revolução, a Irmandade Muçulmana já pregava a derrubada do governo Mubarak, mas por vias políticas pacíficas.

A Irmandade Muçulmana no Iraque, fundada nos anos 1930s em Mosul, é hoje o Partido Iraquiano Islâmico, ator político importante que sempre dialogou com Washington. E no Afeganistão, o Partido Jamiat-I Islami nasceu por inspiração da organização egípcia.

A Irmandade Muçulmana, é claro, não rejeita nem a tecnologia nem a inovação tecnológica.

Pode ser vista praticamente por todos os cantos nas ruas da revolução egípcia, mas sempre em atitude cuidadosa e discreta, para evitar o efeito de mostrar-se “na cara deles”. Segundo o porta-voz Gamel Nasser, a Irmandade Muçulmana vê-se como um setor, dentre vários outros, da revolução egípcia. E a revolução tem a ver com o futuro do Egito – não do Islã.

Há quem argumente mais uma vez que isso foi o que os mulás disseram em Teerã em 1978/1979. O xá foi deposto, de fato, por virtualmente todos os setores da sociedade, inclusive o Partido Comunista. Depois os teocratas assumiram o controle – com violência. Se se considera a tradição de três décadas, nada autoriza a supor que a Irmandade Muçulmana possa tentar movimento semelhante àquele.

É difícil para que viva longe daqui imaginar a brutalidade da máquina de repressão policial/de Estado do governo de Mubarak. O sistema depende de 1,5 milhão de policiais – quatro vezes o número de soldados do exército. Os salários desses policiais são pagos, em grande parte, com o 1,3 bilhão de dólares da “ajuda” que Mubarak recebe dos EUA, e a máquina é usada com extrema brutalidade contra operários e praticamente toda a qualquer organização progressista.

Esse estado de coisas já existia bem antes de Mubarak. A história terá de interrogar diretamente o fantasma do ex-presidente Anwar Sadat. Sadat construiu uma trifeta, para fazer funcionar suas políticas de intifah: o FMI ajudou-o a construir uma economia exportadora rudimentar; Sadat manipulou a religião, para obter fundos da Arábia Saudita para atacar a Irmandade Muçulmana; e recebeu bilhões dos EUA para negociar acordos com Israel. A principal consequência inevitável disso tudo foi um estado policial tamanho mamute, dedicado, dentre outras ações repressivas, a destruir totalmente os sindicatos e todas as organizações de trabalhadores.

Eis o antídoto contra al-Qaeda


Embora tenha sido violentamente combatida durante as décadas dos governos Sadat/Mubarak, a Irmandade Muçulmana conseguiu, pelo menos, uma estrutura. Em eleições livres e justas, não há quem duvide que receberia, no mínimo, 30% dos votos.

A mídia-empresa global só fez, até agora, visitar a sede da organização no Cairo, em El Malek El Saleh. O novo presidente da Irmandade Muçulmana, Mohammed Badie, é homem que se preocupa menos com a arena política e mais com a arena social. Quanto à possibilidade de o Egito vir a transformar-se em Estado islâmico, Badie insiste que, se acontecer, será “pelo desejo do povo”.

Diferente de Badie, Sherif Abul Magd, engenheiro e professor da Universidade Helwan, e presidente da Irmandade Muçulmana em Gizé, falou mais, mais eloquentemente, ao jornal italiano La Stampa. Tomou o cuidado de repetir que os manifestantes não devem antagonizar os militares. E enfatizou: “Nosso povo já controla as ruas.”

De importante, delineou a estratégia da organização para o estágio seguinte: além de um primeiro-ministro interino, deve haver cinco juízes nomeados para constituir uma comissão presidencial encarregada de revisar a Constituição e, isso feito, convocar eleições para o Parlamento e a Presidência.

Magd foi claro: “Não há conflito entre Estado islâmico e democracia – mas a decisão é direito do povo”. Washington sabe disso, mas muito a assusta a ideia de que, qualquer que seja a democracia ou o governo, islâmico ou não, no Egito, a Irmandade Muçulmana não acredita no velho famoso cadáver político conhecido como “processo de paz Israel-palestinos”. Para a Irmandade Muçulmana, “não há paz possível sem acordo com o Hamás”.

E sobre a al-Qaeda: “A al-Qaeda, hoje, é invenção da CIA para justificar a guerra ao terror”. Em termos estratégicos, a Irmandade Muçulmana percebeu que seria contraproducente expor-se agora. Mais adiante, a história será outra.

A rua árabe sabe – e em larga medida aprova – que a organização muçulmana sempre se opôs aos acordos de Camp David de 1978; e que não reconhece Israel.

Outro ponto crucial é que a Irmandade Muçulmana opõe-se absoluta e completamente a qualquer tipo de violência contra civis – o que a põe em campo absolutamente oposto à al-Qaeda. Uma Irmandade Muçulmana que refute a violência e seja ativa nas políticas civis no Egito de modo algum assustará o ocidente. E, partido político estabelecido do Islã político, a organização pode ser o melhor antídoto contra os fanáticos à moda al-Qaeda.

Ao contrário do que cantam as sereias alarmistas da direita, não há nenhum tipo de “fervor islâmico” crescendo no Oriente Médio. A verdade é exatamente o contrário – o que se vê no momento é muita torpeza moral e, para piorar, do lado errado da história.

A posição de Israel é autoexplicativa – do Jerusalem Post descrevendo a revolução egípcia como “o pior desastre desde a revolução iraniana”, a um colunista do Ha'aretz que protesta contra Obama, que teria “traído um presidente egípcio moderado que sempre foi leal aos EUA e promoveu a estabilidade e a moderação”.

Quanto ao presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, telefonou a Mubarak para manifestar sua solidariedade e dizer o quanto lamentava a confusão; em seguida mandou seus próprios policiais atacarem palestinos que se reuniam em manifestação de apoio à democracia no Egito.

Não parece haver dúvidas de que – com a Irmandade Muçulmana participando do governo do Egito – governo egípcio independente e soberano – o tratado de paz entre Egito e Israel será renegociado. A Irmandade Muçulmana favorece a solução de decidir por referendo. Com o que, afinal, chegamos ao coração da questão.

Depois da revolução egípcia, os interesses de EUA e Israel deixam de convergir – e não poderão ser apresentados como convergentes nem com algum artifício de ilusão de ótica.

Mas a revolução egípcia não é revolução anti-EUA: é revolução contra um regime que os EUA apoiam. Um novo governo no Egito, governo legítimo, soberano, pós-Mubarak, não poderá apresentar-se ao mundo e aos egípcios como estado-fantoche, como governo-fantoche, de Washington – com todas as implicações regionais que daí se inferem. Esse é problema maior do que as capacidades da Irmandade Muçulmana. Aí se ouvem ecos do coração milenar do mundo árabe, à beira, parece, de uma dramática modificação sísmica.


[1] Orig. Brothers to the Rescue (esp. Hermanos al Rescate) é organização de exilados cubanos anti-Castro, com sede em Miami, fundada em 1991. Descreve-se como ONG de finalidades humanitárias, que ajuda cubanos que queiram deixar a ilha (de http://en.wikipedia.org/wiki/Brothers_to_the_Rescue) [NTs].

Tradução: Vila Vudu

Texto original do Asia Times Online

Fonte: Carta Maior

"Tuíter para as massas", por Bruno Cava

PICICA: "(...)debater em 140 caracteres constitui uma experiência engrandecedora. Poderia ser aproveitada em todos os níveis do ensino. Em espaço tão curto, não dá para se delongar em explicações do passado, influências do meio, contextualizações. A síntese virtuosa se impõe. Assim, cada personagem se engaja inteiramente no presente dialógico."

29 de janeiro de 2011


Tuíter para as massas.



Já escrevi, noutro lugar, que debater em 140 caracteres constitui uma experiência engrandecedora. Poderia ser aproveitada em todos os níveis do ensino. Em espaço tão curto, não dá para se delongar em explicações do passado, influências do meio, contextualizações.  A síntese virtuosa se impõe. Assim, cada personagem se engaja inteiramente no presente dialógico. A sua virtuose não se predetermina por formatos ou regras rígidas. Adapta-se criativamente, explora os recursos expressivos e eleva a qualidade poética do texto ao máximo.

O tuíter é tão educativo não só pela exigência de concisão e criatividade, mas também pela possibilidade de outras pessoas aderirem ao debate. A discussão pode começar singela e, de um golpe, se converter numa rizomática hashtag, desdobrada em subtemas, com dezenas de debatedores. Uma colaboração dinâmica que, menos do que forjar consenso, multiplica pontos de vista e cerze alianças e discordâncias amiúde inusitadas. Traça-se assim um reflexo vivo do estado do debate, das limitações e contradições do presente, no corte de alguns minutos ou horas. Desenvolvem-se extensivamente, em contiguidade e conflito, matérias das mais diversas. A arte no tuíter está, portanto, em apreender essa diversidade dialógica, em lidar com essa multidão de palavras e argumentos. Reside em reconstruir a textura polifônica de um debate vivo --- em toda a multiplicidade irredutível de vozes.

Nada mais saudável, a democracia se concretiza no dissenso. Afinal, se os mundos das pessoas não fossem diferentes, não poderia haver partilha --- não passaria de uma sonolenta comunhão, um grande ooommmmmm. Ou então um mundo unificado pela "opinião pública", isto é, pela sua vocalização exclusiva por determinados "formadores de opinião".

Daí muitos "opinadores profissionais" da imprensa tradicional se incomodem tanto com tuíter (e blogues, facebook etc).  Em nome de um jornalismo que não cola mais e que fala de si para si, desdenham do que seria um pseudojornalismo, um planeta bárbaro, uma boataria sem fim ou fonte confiável. Porém, a força do tuíter consiste, precisamente, em participar de um mundo pós-jornais, onde a "opinião pública" se dissemina transversalmente. Sua virtude está em fortalecer a horda, em que cada cidadão age como nó emissor e receptor da teia comunicativa da sociedade.

**********************
Aproveito para reproduzir um diálogo em 140 caracteres, de hoje, com Raphael Tsavkko, do Angry Brazilian, e Michel Hulman:

Tsavkko @hulmann A esquerda prefere 1 pensar no bem do povo e depois na democracia pregada pelas potências, simples.

Hulmann @Tsavkko P mim, não há regime que possa justificar a barbárie; ao contrário da esquerda, q mantém sites e blogs alternativos p dizer q 2+2=5

BrunoCava @Tsavkko @hulmann Esquerda é por partilha livre dos mundos. Direita quer botar preço, vedar, punir. São posições dinâmicas, não identidades.

BrunoCava @hulmann Capitalismo e socialismo real não são opostos à barbárie. Esta se instala no seu coração. É o Cel Kurtz em "Apocalipse Now".

Tsavkko @BrunoCava O engraçado é q a direita acha q a esquerda defende incondicionalmente Cuba. Não, criticamos, @hulmann  

Hulmann @Tsavkko Coréia do Norte, China, Vietnã... são tantos exemplos de sucesso do socialismo... =(

Tsavkko @hulmann Mas bem mesmo vai a África! Lá sim vemos as maravilhas do Capitalismo em ação! Egito, bela ditadura capitalista então!

Tsavkko @hulmann @BrunoCava mas tb ñ acreditamos na "democracia" que querem impor.

BrunoCava Não vejo porque repetir os erros do socialismo e do capitalismo. Quero cometer erros novos. Nossa geração pode criar algo ainda sem nome.

Hulmann @Tsavkko A vdd é q a esquerda quer democracias capitalistas, p que possa operar livremente p torná-las ditaduras comunistas. #esperteza

BrunoCava @Tsavkko Não acho que exista _a_ esquerda. Existem mil esquerdas, mil lutas, mil situações concretas em que o campo político se divide. 

BrunoCava @hulmann O socialismo real fracassou na URSS e as pessoas desertaram dele. Agora é hora de desertar do capitalismo, Viver mundos livres. 

Hulmann @Tsavkko Ah tá! Então Cuba não é uma ditadura? Vou jogar na lata de lixo 4 anos de Ciência Política. O q é uma ditadura p vc?

Tsavkko @BrunoCava Sme dúvid,a tem até quem defenda Coréia do Norte e seja saudoso do diator da Albânia... Maluco tem em qqr lugar... 

BrunoCava @Tsavkko @hulmann Esquerda é por partilha livre dos mundos. Direita quer botar preço, vedar, punir. São posições dinâmicas, não identidades.

BrunoCava @Tsavkko @hulmann A luta hoje não é entre socialismo x capitalismo, mas por uma partilha pós-capitalista e pós-socialista dos mundos. 

Tsavkko @BrunoCava A esquerda precisa de uma renovação, superar ñ o Socialismo, mas os meios fracassados.  

BrunoCava @Tsavkko Nem capitalismo, nem socialismo, nem internacionalismo. Hoje se pode concretizar um comunismo global.

Tsavkko @BrunoCava Sim, mas ñ significa que o Socialismo, enquanto utopia, este superado, apenas os modelos tradicionais de "chegar lá".  

BrunoCava @Tsavkko Não dá pra apostar mais no "socialismo em um mundo só". Esquerda nova multiplica mundos, desejos, potências, lutas.

Tsavkko @BrunoCava Temos de incorporar novos elementos e até novos anseios, mas a utopia da igualdade e da liberdade permanece. #Socialismo  

BrunoCava @Tsavkko A utopia não é socialismo, mas comunismo. Só posso acreditar numa utopia entranhada no real e vivenciada agora. Não existe amanhã.
 

BrunoCava @Tsavkko Desertaram do socialismo real pq o capitalismo era mais atraente. Hoje surge um mundo mais atraente que o capitalismo. Eis a luta.

Tsavkko @BrunoCava E o q vc vê pela frente?  

BrunoCava @Tsavkko Esquerda valorizar desejos, prazer, consumo. Capitalismo não gera isso --- vem depois, produz escassez, bota preço e acumula. 

Fonte: O Quadrado dos Loucos

Edelber Avelar repercute no seu blog as mortes do hospital psiquiátrico de Sorocaba

PICICA: "Alvíssaras! O blog “O Biscoito Fino e a Massa”, de Edelber Avelar, rompe o silêncio habitual da blogosfera sobre a luta antimanicomial - salvo nos blogues específicos -, no Brasil, ao noticiar a vergonhosa situação do hospital psiquiátrico de Sorocaba, que impressiona pelo número de óbitos que ali vem ocorrendo. Que outros blogues sigam o exemplo! Ainda é baixo o nível de solidariedade dos blogueiros de todos os matizes com a causa. Se não contarmos com eles para romper o silêncio midiático sobre nossa luta – silêncio que só é rompido pelas tintas do sensacionalismo e o reacionarismo da maior parte da mídia –, com quem haveremos de contar? (Ressalvas para a mídia manauara, que, fora uma ou outra distorção, foi, digamos, mais generosa, e cujo silêncio sobre o tema foi menos por omissão editorial do que pela anemia e subnutrição do setor de saúde mental, depois que a reforma psiquiatria no Amazonas foi submetida a um longo jejum, ali pelos anos 1990, resultando num período de estagnação das conquistas obtidas no seu processo de construção). Trinta anos depois da implantação de serviços substitutivos ao manicômio em todo território nacional, representado, entre outros, pelos centros de atenção psicossocial, nós, brasileiros, ainda convivemos com o velho modelo em plena era da atenção psicossocial. Os manicômios estão, definitivamente, com a validade vencida. E porque eles ainda estão entre nós? Porque não temos pessoal qualificado para a prática do novo paradigma em quantidade suficiente. Simples assim. Vamos aos fatos. Ao conservadorismo do aparelho formador, o Ministério da Saúde, até agora, foi incapaz de apresentar uma política arrojada na construção de um outro perfil reclamado para a prática da clínica antimanicomial, sobretudo no campo da psiquiatria. Nossas residências médicas em psiquiatria cheiram a mofo. É preciso tirar o cavalinho da chuva, a grande maioria das universidades não mudarão suas velhas práticas tão cedo. Elas continuam a patinar no conhecimento tradicional, e recusam-se a abrir suas portas para as novas práticas criativamente construídas pelo novo modelo vigente no Brasil, no campo da assistência, promoção e prevenção à saúde mental. Há honrosas exceções. E é com elas com quem poderíamos contar num programa mais agressivo de qualificação de pessoal, antes que os "cabeças-brancas" do movimento saiam de cena premidos pela inevitável injunção do tempo, sempre sensível à ação e/ou passividade humana. Faz-se necessário reinvestir a linguagem da reforma da saúde mental no Brasil com o mesmo espírito que nos animou a romper com os alicerces do conhecimento tradicional – aqui na sua pior acepção –, abalando o edifico da psiquiatria conservadora, responsável pela reprodução do cenário de horror vivido ainda hoje no interior dos manicômios. Sorocaba é regra, não exceção. É no campo da educação que está nossa maior debilidade. Fomos capazes de criar modelos substitutivos ao manicômio, mas não de modelos substitutivos à formação que aí está. O pior é que o setor está à deriva, com a indefinição do novo Coordenador Nacional de Saúde Mental, no governo Dilma. Nos bastidores do primeiro governo Lula, houve grande movimentação. Mas foi a enorme frustração decorrente das manobras que puseram abaixo um revolucionário modo de gestão proposto pelo movimento social, somado a práticas antiéticas no interior do movimento antimanicomial (amplamente analisado num livro publicado pelo Conselho Federal de Psicologia, única entidade de classe que não deixa a peteca cair) que deixou este último taciturno e macambúzio, incapaz de tomar para si a condução de uma história que não seja o culto a personalidades. Recorrer à presunção de ignorância neste momento de passagem, é incorrer na reprodução do mesmo erro que paira sobre nós nos últimos dez anos, quaisquer que tenham sido suas conquistas. A dispersão dos interlocutores, fragmentados em seus territórios, e os agravos provocados aos princípios éticos do movimento tem seus responsáveis. Credito a esses personagens a perplexidade deste momento de transição. Entretanto, o bonde da história ainda não está perdido. É bom ficar de olho nos “capas-pretas” habituados ao jogo de cartas marcadas, como convém à racionalidade autoritária dos prestidigitadores da subjetividade e do desejo coletivo.

Luta antimanicomial denuncia: Mortes nos leitos psiquiátricos de Sorocaba

Já na segunda semana do mês de dezembro eu recebera a denúncia do Fórum da Luta Antimanicomial de Sorocaba (Flamas), depois de mais duas mortes em hospitais psiquiátricos da cidade. Tornou-se rotina. A média de mortos nos manicômios de Sorocaba é altíssima e a região possui o maior número de leitos do país. Os 1.289 leitos psiquiátricos do SUS na cidade de Sorocaba só não são mais numerosos que os do Rio de Janeiro.

Ancorados em dados do Ministério da Saúde, o Fórum apresentou estudo que chegou a números assustadores: são duzentas e trinta e três mortes em manicômios entre 2006 e 2009 só em Sorocaba. O professor Marcos Garcia, da UFSCar-Sorocaba e membro do Flamas, apontou a média de idade precoce das mortes, 48 a 49 anos. Até um quarto dos óbitos é de pacientes entre 17 a 29 anos de idade. Há um enorme número de mortes por causas evitáveis. É um estado de calamidade, urgente.

A luta antimanicomial na região de Sorocaba enfrenta também um bloqueio de mídia e o próprio secretário de saúde do município é dono de três manicômios. No final de janeiro, finalmente saiu uma matéria na mídia local, que repercutiu a denúncia do Flamas. A matéria também incluía a resposta do Dr. Eduardo Zacharias, diretor de um dos manicômios da cidade, que levantava suspeita sobre se os números seriam “muito ou pouco” e argumentava que faltava “metodologia científica” ao estudo.

À evasiva resposta, os profissionais do Flamas escreveram contundente retruque, mostrando não só que a média de mortes é altíssima, como também que a faixa etária é precoce e que alto número de óbitos acontece por causas evitáveis. Como exemplo irrefutável, o texto do Flamas lembra as 13 mortes por pneumonia no intervalo de dois meses e meio, no Hospital Vera Cruz, entre 07/05 e 18/07 de 2008.

A luta antimanicomial é uma das causas que mais merecedoras de atenção de quem quer um mundo um pouco mais humano e justo. Tudo indica que os profissionais do Flamas estão denunciando um estado de coisas desesperante e muito grave. A denúncia tem o meu endosso.

Fonte: O Biscoito Fino e a Massa

"Yoani Sánchez, un mal ejemplo para los blogueros de Sevilla", por Carlos Miguel Molina Soto

PICICA: "(...)conozco por experiencia el influjo de la propaganda mediática de los grandes medios de comunicación, en su pretensión de descrédito hacia Cuba(...)
Imagem postada em napraxis.blogspot.com

Aumentar tamaño del texto Disminuir tamaño del texto Partir el texto en columnas Ver como pdf 01-02-2011

Yoani Sánchez, un mal ejemplo para los blogueros de Sevilla



El Grupo Blogosur Comunicación entregó el pasado jueves 27 de enero los premios a los mejores blogs de Sevilla en el año 2010, ceremonia en la cual participé como espectador. 

En un ambiente agradable y acogedor y con una gala muy bien concebida y desarrollada, se galardonaron los mejores blogs de un directorio compuesto por más de 500, divididos en seis categorías. El blog del Programa Cubano de Alfabetización para Sevilla “Yo, sí puedo(1) resultó ser el Primer Premio al Mejor Blog de Actualidad, según la puntuación obtenida por la opinión de los internautas que visitan el sitio.

La recogida del premio y las palabras de agradecimiento estuvieron a cargo de Ismael Sánchez Castillo, coordinador para la aplicación del Programa Cubano de Alfabetización “Yo, sí puedo” en la ciudad de Sevilla. Escuché sus palabras con mucha expectación, pues conozco por experiencia el influjo de la propaganda mediática de los grandes medios de comunicación, en su pretensión de descrédito hacia Cuba, En un sintetizado texto denunció la manipulación que se hace de la información para denigrar la aplicación del programa de alfabetización en Sevilla y agradeció a todas las personas y entidades que favorecen, de manera altruista, la práctica del mismo. También agradeció la colaboración solidaria del gobierno y el Ministerio de Educación de Cuba en la eliminación del analfabetismo en Sevilla. Todos los presentes escucharon con disciplina su exposición.

Terminada la gala y un poco deslumbrados por lo “bien” que había encajado el tema Cuba dentro de aquel heterogéneo auditorio, nos marchamos a casa con el presente que hicieran los patrocinadores a los participantes: una pequeña agenda y un libro titulado Blogueros de Sevilla, Guía de blogs 2011, escrito para la ocasión por Fernando García Haldón y Pepe Santos Santo, periodistas proclamados como conscientes de la importancia del fenómeno blog.

La intención de descrédito hacia Cuba no se hizo esperar, todo ocurrió cuando comencé a leer detenidamente el concedido libro, de un modo paradójico, cínico e hipócrita, en la introducción del mismo se resalta como ejemplo más internacional y carismático para entender la repercusión de un blog, el de la promocionada bloguera cubana Yoani Sánchez.

Para preponderar a la mercenaria bloguera, los autores del libro Blogueros de Sevilla copiaron textualmente el primer párrafo escrito por el periodista e investigador francés Salim Lamrani, en la publicación que hiciera de una entrevista a la bloguera cubana el 14 de abril de 2010 en el lobby del Hotel Plaza en La Habana, que a modo de introducción a dicha publicación, el autor resalta la aglomeración de premios concedidos a la bloguera cubana por parte de los círculos de poder de los grandes medios de desinformación occidental para arribar a la siguiente reflexión (cito palabras textuales de Salim Lamrani): 

Esta impresionante avalancha de distinciones así como su carácter simultáneo han suscitado numerosas interrogantes, tanto más cuanto que Yoani Sánchez, según sus propias confesiones, es una total desconocida en su propio país. ¿Cómo una persona desconocida por sus vecinos -según la propia bloguera- puede formar parte de la lista de las 100 personalidades más influyentes del año?(2). 
 
El hecho es que tal reflexión se encuentra justamente debajo del texto plagiado, que fue sacado de contexto con una intencionalidad marcada: promocionar a la bloguera y mancillar a Cuba, lo que evidencia una mediocridad periodística por parte de los autores de Blogueros de Sevilla.

Es sumamente interesante conocer que dicha entrevista, publicada en varios medios de información alternativos, pone al descubierto la mezquindad de la bloguera, su falta de argumentación en los temas que publica y que supuestamente defiende en su ridículo posicionamiento a favor de una supuesta democracia en Cuba, cuestiones estas que también ignoraron los autores del mencionado libro al ponderar su blog(3).

Tomar un ejemplo a más de 7400 km de distancia, cuando de un tema local se trata, como es el caso de los blogueros de Sevilla, atenta contra los fines de la blogosfera local y censura la libertad de expresión de los blogueros al intentar sumarlos al afán incontrolable de los grandes medios de desinformación por desacreditar a Cuba y su Revolución.

Felizmente, el modesto pero apreciado premio, obtenido en esta ocasión por el blog del Programa Cubano para la Alfabetización en Sevilla “Yo, sí puedo”, no dependió de la envanecida propaganda mediática de los grandes medios, ni de los círculos de poder, sino del voto agradecido y sincero de los sevillanos que apuestan por una Sevilla más justa y sin desigualdades, dígase participantes beneficiados con el programa, facilitadores, entidades colaboradoras, familiares, en fin, ciudadanos y personas de bien que aprecian el gesto altruista y solidario de los que apuestan por el “Yo, sí puedo” como una vía eficaz para potenciar la posibilidad del mejoramiento humano y la utilidad de la virtud en los más desfavorecidos, algo muy diferente a las intenciones de Yoani Sánchez y los patrocinadores de su blog.

(1) http://yosipuedosevilla.wordpress.com/

(2) http://www.rebelion.org/noticia.php?id=104205

(3) http://islamiacu.blogspot.com/2010/04/yoani-sanchez-arremete-contra-salim.html


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Fonte: Rebelión

Manifesto pelo Fim Imediato da Prisão Insustentável e Inconstitucional de Cesare Battisti

PICICA: Este blog associa-se aos que "expressam total inconformidade com a decisão do ministro Cézar Peluso, presidente do Supremo Tribunal Federal, de manter preso o cidadão italiano Cesare Battisti e instam pela sua soltura imediata e inadiável, por ser de justiça."

Manifesto pelo Fim Imediato da Prisão Insustentável e Inconstitucional de Cesare Battisti

Publicado em 27 janeiro, 2011
 
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Os cidadãos abaixo assinados expressam total inconformidade com a decisão do ministro Cézar Peluso, presidente do Supremo Tribunal Federal, de manter preso o cidadão italiano Cesare Battisti e instam pela sua soltura imediata e inadiável, por ser de justiça. A situação atual constitui profundo desprezo a) à decisão do presidente da república pela não-extradição, b) ao estado democrático de direito e, sobretudo, c) à dignidade da pessoa humana. Imprescindível, portanto, virmos a público manifestar:

1. No dia 31 de dezembro de 2010, o presidente da república decidiu negar o pedido de extradição de Cesare Battisti, formulado pela Itália. A legalidade e legitimidade dessa decisão são inatacáveis. O presidente exerceu as suas competências constitucionais como chefe de estado. A fundamentação contemplou disposições do tratado assinado por Brasil e Itália, em especial o seu Art. 3º, alínea f, que obsta a extradição para quem possa ter a situação agravada se devolvido ao país suplicante, por “motivo de raça, religião, sexo, nacionalidade, língua, opinião política, condição social ou pessoal”. Leia mais


Fonte: Blog da Global