junho 01, 2011

"A pensar nas eleições", por Boaventura de Souza Santos

PICICA: "Os jovens acampados no Rossio e nas praças de Espanha são os primeiros sinais da emergência de um novo espaço público – a rua e a praça – onde se discute o sequestro das atuais democracias pelos interesses de minorias poderosas e se apontam os caminhos da construção de democracias mais robustas, mais capazes de salvaguardar os interesses das maiorias. A importância da sua luta mede-se pela ira com que investem contra eles as forças conservadoras. Os acampados não têm de ser impecáveis nas suas análises, exaustivos nas suas denúncias ou rigorosos nas suas propostas. Basta-lhes ser clarividentes na urgência em ampliar a agenda política e o horizonte de possibilidades democráticas, e genuínos na aspiração a uma vida digna e social e ecologicamente mais justa."

A pensar nas eleições

Os jovens acampados no Rossio e nas praças de Espanha são os primeiros sinais da emergência de um novo espaço público – a rua e a praça – onde se discute o sequestro das atuais democracias pelos interesses de minorias poderosas e se apontam os caminhos da construção de democracias mais robustas, mais capazes de salvaguardar os interesses das maiorias. A importância da sua luta mede-se pela ira com que investem contra eles as forças conservadoras. O artigo é de Boaventura de Sousa Santos.

Nos próximos tempos, as elites conservadoras europeias, tanto políticas como culturais, vão ter um choque: os europeus são gente comum e, quando sujeitos às mesmas provações ou às mesmas frustrações por que têm passado outros povos noutras regiões do mundo, em vez de reagir à europeia, reagem como eles. Para essas elites, reagir à europeia é acreditar nas instituições e agir sempre nos limites que elas impõem. Um bom cidadão é um cidadão bem comportado, e este é o que vive entre as comportas das instituições.

Dado o desigual desenvolvimento do mundo, não é de prever que os europeus venham a ser sujeitos, nos tempos mais próximos, às mesmas provações a que têm sido sujeitos os africanos, os latino-americanos ou os asiáticos. Mas tudo indica que possam vir a ser sujeitos às mesmas frustrações. Formulado de modos muito diversos, o desejo de uma sociedade mais democrática e mais justa é hoje um bem comum da humanidade. O papel das instituições é regular as expectativas dos cidadãos de modo a evitar que o abismo entre esse desejo e a sua realização não seja tão grande que a frustração atinja níveis perturbadores. 

Ora é observável um pouco por toda a parte que as instituições existentes estão a desempenhar pior o seu papel, sendo-lhes cada vez mais difícil conter a frustração dos cidadãos. Se as instituições existentes não servem, é necessário reformá-las ou criar outras. Enquanto tal não ocorre, é legítimo e democrático atuar à margem delas, pacificamente, nas ruas e nas praças. Estamos a entrar num período pós-institucional.

Os jovens acampados no Rossio e nas praças de Espanha são os primeiros sinais da emergência de um novo espaço público – a rua e a praça – onde se discute o sequestro das atuais democracias pelos interesses de minorias poderosas e se apontam os caminhos da construção de democracias mais robustas, mais capazes de salvaguardar os interesses das maiorias. A importância da sua luta mede-se pela ira com que investem contra eles as forças conservadoras. Os acampados não têm de ser impecáveis nas suas análises, exaustivos nas suas denúncias ou rigorosos nas suas propostas. Basta-lhes ser clarividentes na urgência em ampliar a
agenda política e o horizonte de possibilidades democráticas, e genuínos na aspiração a uma vida digna e social e ecologicamente mais justa.

Para contextualizar a luta das acampadas e dos acampados, são oportunas duas observações. A primeira é que, ao contrário dos jovens (anarquistas e outros) das ruas de Londres, Paris e Moscou no início do século XX, os acampados não lançam bombas nem atentam contra a vida dos dirigentes políticos. Manifestam-se pacificamente e a favor de mais democracia. É um avanço histórico notável que só a miopia das ideologias e a estreiteza dos interesses não permite ver. Apesar de todas as armadilhas do liberalismo, a democracia entrou no imaginário das grandes maiorias como um ideal libertador, o ideal da democracia verdadeira ou real. É um ideal que, se levado a sério, constitui uma ameaça fatal para aqueles cujo dinheiro ou posição social lhes tem permitido manipular impunemente o jogo democrático. 

A segunda observação é que os momentos mais criativos da democracia raramente ocorreram nas salas dos parlamentos. Ocorreram nas ruas, onde os cidadãos revoltados forçaram as mudanças de regime ou a ampliação das agendas políticas. Entre muitas outras demandas, os acampados exigem a resistência às imposições da troika para que a vida dos cidadãos tenha prioridade sobre os lucros dos banqueiros e especuladores; a recusa ou a renegociação da dívida; um modelo de desenvolvimento social e ecologicamente justo; o fim da discriminação sexual e racial e da xenofobia contra os imigrantes; a não privatização de bens comuns da humanidade, como a água, ou de bens públicos, como os correios; a reforma do sistema político para o tornar mais participativo, mais transparente e imune à corrupção.

A pensar nas eleições acabei por não falar das eleições. Não falei?

"Acampados" (Passa Palavra)

PICICA: O Passa Palavra apresenta seu ponto de vista sobre os "acampamentos de contestação" nas cidades espanholas e afirma que "a grande ausente dessas discusões é a luta de classes". Quem discorda, atire a primeira pedra.

Acampados

 


Os pobres estão sempre em crise. São as vastas camadas médias que, mais do que as mais pobres, estão agora a sentir a diferença, ao fecharem-se cada vez mais as torneiras do trabalho improdutivo. Por Passa Palavra
Os acampamentos de contestação em várias praças centrais de cidades espanholas (sobretudo a Porta do Sol em Madrid) e mais recentemente no Rossio de Lisboa estão a levantar discussões nos meios da esquerda. Pode-se dizer que, de um modo geral, a grande ausente dessas discussões é a luta de classes. Fala-se de novas formas de luta, de assembleias abertas e democráticas, de recusa do sistema; fazem-se comparações, no mínimo erradamente mecânicas, com os acontecimentos do Cairo e de Túnis. No fim da linha, quando não à cabeça, quase sempre surge como lema geral, vago e abrangente a ideia central dos Fóruns Sociais Mundiais de que “um outro mundo é possível”.
Muitos têm guardado uma atitude de reserva e de reflexão, ao mesmo tempo que tentam compreender politicamente o alcance possível desses fenómenos contestatários.
Puerta del Sol, Madrid
Puerta del Sol, Madrid
O que há de comparável ao Maio de 68 em Paris?
Alguns de nós foram participantes activos do Maio de 68 em Paris e lembram-se da importância que teve a radicalização do movimento académico (estudantes e docentes), com as suas barricadas de rua e as suas assembleias abertas na Sorbonne, para que, poucas semanas depois, a França tenha ficado paralizada com milhões de trabalhadores na maior greve geral da história da França e muitos deles ocupando os locais de trabalho. O regime gaulista, cuja orientação internacional nacionalista induzia equívocos à esquerda, era internamente repressivo (“democracia musculada”, dizia-se então), policial e completamente aliado ao patronato. Nas faculdades francesas, o maoísmo, o guevarismo, o anarquismo e o situacionismo de Debord – e, até certo ponto, a teologia da libertação e os novos ventos do Concílio Vaticano II - semeavam uma radicalidade anti-sistema, mas que nem sempre era claramente anticapitalista. Nas empresas, os sindicatos oficiais e os partidos da esquerda tradicional (o PCF e o PSU) mantinham os trabalhadores totalmente atrelados a negociações com os patrões e a vãs esperanças de uma modificação do poder (e de uma redistribuição da riqueza) por via de um retorno aos gloriosos dias da Frente Popular de 1936-37, da República Espanhola e da resistência antinazi. Poucos meses antes de Maio, o jornal de referência Le Monde dizia: “La France est morose” (a França anda triste e apática).
As assembleias estudantis começaram nas faculdades (a partir do polo universitário de Nanterre, na periferia da cidade) e daí partiram as ocupações universitárias e as manifestações, centradas no Quartier Latin, perto da Sorbonne, o foco universitário mais emblemático. A imediata repressão violenta dessas manifestações pela polícia de choque (CRS) impulsionou as noites com barricadas nas avenidas. As rádios não-oficiais, e por vezes a televisão estatal (então a única), faziam directos [transmissões ao vivo] a partir das manifs e das barricadas, muitas vezes descreviam em directo a repressão da polícia sobre os jovens.
Institucionalizada a representatividade do movimento através do (informal) Movimento do 22 de Março (nascido em Nanterre e liderado por Cohn-Bendit), do Snesup (sindicato dos professores universitários,  sobretudo auxiliares e contratados, liderado por Alain Geismar) e pela UNEF (associação nacional de estudantes universitários, liderada por Jacques Sauvageot, também membro da juventude do PSU), o momento crucial de generalização da contestação aos trabalhadores (e de ultrapassagem da hostilidade explícita do PCF contra os “anarquistas” e os “esquerdistas”) é uma assembleia em que os estudantes decidem “ir ao encontro dos trabalhadores, para os incitar a aderirem à contestação”. Só depois desta inflexão do movimento a CGT, controlada pelo PCF, é obrigada a convocar uma greve geral, que rapidamente ultrapassa as consignas da central desencadeando um sem número de ocupações de empresas e, de um modo geral, a paralização do país.
Esta paralização da França, em 1968, não resultou do movimento estudantil mas sim do movimento operário. Quando o PCF, apesar da resistência dos trabalhadores, conseguiu controlar e desmobilizar progressivamente a greve geral, os estudantes voltaram a ficar isolados e rapidamente o governo passou à fase da sua repressão e desmantelamento.
Se nos estendemos um pouco nesta descrição do Maio de 68 é porque é obviamente impossível fazer um paralelo com os incipientes movimentos actuais nas “praças”. Estes desenvolvem-se em condições totalmente diferentes, quanto à estrutura organizacional do trabalho e aos níveis de desemprego e de miséria, quanto à radicalização ideológica dos estudantes, quanto ao poder de intoxicação mediática e à sua concentração em poucas mãos, quanto aos meios de vigilância e de repressão. A única semelhança serão as assembleias abertas e contínuas. Em 68 a palavra-chave era “revolução”, hoje é “democracia”.
Veja-se, aliás, a facilidade com que a polícia conseguiu varrer os acampados da praça da Bastilha, em Paris, há poucos dias. Um jovem português que lá estava disse-nos que eram milhares de jovens, mas sobretudo imigrados e descendentes, com muito pouca participação de estudantes franceses “de raiz”.
Maio de 1968, em Paris: "Operários Estudantes - Unidos venceremos"
Maio de 1968, em Paris: "Operários Estudantes - Unidos venceremos"
O que há de comparável aos processos tunisino e egípcio?
Independentemente do curso que seguiram os processos tunisino e egípcio – bem diferentes dos da Líbia, do Iémen, do Bahrein ou da Síria –, os acampamentos-manifestações de Túnis [Tunísia] e do Cairo também não se podem comparar aos que, muito embora pretendendo imitá-los, se têm espalhado pela Europa, sobretudo na Espanha. A reivindicação de democracia nas ditaduras policiais tunisina e egípcia era, e foi, capaz de alavancar as quedas dos respectivos ditadores, com mudanças de regime, e com extremos cuidados das potências ocidentais quanto às consequências estratégicas dessas mudanças. O processo egípcio terá sido o único em que, em aliança com a contestação democrática da Praça Tahrir, o movimento se estendeu às regiões industriais fora da capital, sobretudo aquelas em que havia uma tradição recente de lutas operárias duramente reprimidas (como as greves do sector têxtil de 2008 em Mahalla al-Kubra). Quanto aos resultados, os processos tunisino e egípcio têm muito mais semelhanças com a “revolução dos cravos” portuguesa de 1974: queda de uma ditadura policial, mudança de regime, actualização e reconversão das burguesias nacionais ocidentalizadas.
A única semelhança – que não desprezamos – dos processos das “praças” europeias com as “revoluções de jasmim” no Magrebe situa-se ao nível das formas de luta, isto é, as novas formas tecnológicas de convocação, comunicação e informação que são a internet e as redes telefónicas móveis.
Os movimentos das praças europeias, nomeadamente espanholas e portuguesas, não põem em causa os regimes em vigor nesses países. Praticam a democracia directa, reivindicam a justiça social e recusam que sejam os mais pobres a pagar os custos da crise financeira europeia e mundial; mas estas exigências – à semelhança das idênticas, formuladas por partidos da esquerda institucional – não só não se traduzem em lutas concretas nos bairros e locais de trabalho, como se enquadram perfeitamente numa política capitalista redistributiva (própria de tempos de crescimento económico) de tipo keynesiano: um “capitalismo de rosto humano”. Reivindicar isto em tempo de recessão e de restruturação do capitalismo global será, no mínimo, irrealista e, em todo o caso, não aponta alternativas para a exploração desenfreada e para a miséria do povo pobre.
Janeiro de 2011 na Praça Tahrir (Cairo, Egipto)
Janeiro de 2011 na Praça Tahrir (Cairo, Egipto)
A crise só é nova para as camadas intermédias da classe dominante
Os pobres estão sempre em crise. Claro que as restruturações do capitalismo podem agravar as suas condições de vida, na medida em que tendem a acabar com o Estado-providência que, em tempo de vacas gordas, permite à classe dominante manter serviços e apoios públicos importantes na sua vida quotidiana – nos preços dos bens essenciais e dos transportes, nos apoios aos desempregados e aos “excluídos”, na gratuidade e universalidade dos serviços de saúde e de educação. Ou seja, nos períodos em que o capital em expansão está em condições de promover ganhos de produtividade ao nível da força de trabalho. Mas a crise dos pobres é uma crise permanente e de classe. Além de ser um reflexo da crise financeira mais geral da União Europeia (ela própria resultante de se ter avançado com uma moeda única, o euro, antes de haver qualquer vislumbre de políticas externa e interna únicas, e por isso mesmo sendo a UE regida por um domínio informal dos países europeus com burguesias e bancos mais fortes, como a Alemanha e a França), a crise específica que se vive em Portugal tem características locais próprias que resultam da fraca evolução e modernização do capitalismo português nestes 37 anos de democracia parlamentar. É uma crise de produtividade resultante, em primeiro lugar, da secular tendência parasitária da classe empresarial portuguesa, oportunista e habituada a encostar-se ao poder do Estado, e sobretudo inculta e incompetente, se comparada com as suas congéneres da restante Europa, excepto talvez a grega – um estudo recente mostra que 75% dos empresários portugueses não concluíu o nível de estudos secundários [*]. A integração deste país (formalizada em 1985) numa Europa muito mais desenvolvida, canalizados os enormes “fundos de coesão” recebidos para a constituição rápida e improdutiva de novas fortunas, paulatinamente liquidadas as actividades económicas básicas de auto-subsistência (agricultura e pescas) que poderiam conter a sua crescente dependência do exterior, transformou Portugal num país de tasqueiros (turismo) e de empreiteiros (construção civil). O turismo tem crescido à custa de uma força de trabalho pouco qualificada, sazonal e precária, e o seu desenvolvimento não foi orientado por políticas urbanas e de gestão de solos de longo prazo, mas por sistemáticas jogadas de curto alcance e enriquecimento fácil. A construção civil (incluindo uma plétora absurda de obras públicas, sobretudo auto-estradas) cresceu no essencial à custa da força de trabalho de mais de meio milhão de emigrantes africanos e leste-europeus. Betão [concreto] e serviços – além do mais, dois campos férteis para o alastramento da corrupção.
É essa classe que, através dos dois partidos dominantes, PS e PSD, tem dominado Portugal nos últimos decénios. É ela que, agora, está sendo escrutinada pelo frio e mais exigente capitalismo do norte da Europa. O discurso dessa gente, na lavagem ao cérebro mediática, insiste em que “temos andado a gastar mais do que produzimos”: é um discurso para as camadas médias que alija a responsabilidade do parasitismo e da improdutividade para essa vasta camada de novos “consumidores” que a fizeram enriquecer. São essas vastas camadas médias que, mais do que as mais pobres, estão agora a sentir a diferença, ao fecharem-se cada vez mais as torneiras do trabalho improdutivo. Querem convencê-las de que há crise porque “gastaram o que não tinham”, recorrendo desenfreadamente ao crédito que lhes apregoavam, quando, na realidade, há crise em Portugal porque o capitalismo português é pouco produtivo e não tem sabido dar o salto qualitativo da mais-valia absoluta para a mais-valia relativa.
É sintomático que o recente movimento da “juventude à rasca”, que se concretizou numa manifestação não enquadrada de quase meio milhão de pessoas (jovens e não-jovens) em todo o país, tenha sido, em parte, desencadeado por uma canção de um dos grupos mais famosos da actualidade, os “Deolinda”, chamada “Sou parva” [sou boba]. O tema dessa canção é “estudar para ser escravo” - andamos aqui a tirar diplomas e isso não nos vai servir de nada, vamos acabar no trabalho mal pago e precário dos serviços, ou no desemprego, ou na emigração; somos “parvos”. É, obviamente, um protesto típico das camadas médias. Os pobres sabem bem da importância dos estudos como factor de melhoria de vida, não estudam para se encaixarem num emprego, mas sim para ascenderem socialmente. Estes jovens, que tanto se reviram nessa canção, veem o diploma universitário, não como resultado de uma aprendizagem para a vida, mas como uma porta para arranjar um emprego. Não desprezamos estes impulsos, pois qualquer ser humano pode aspirar ao bem-estar e à estabilidade material, mas há aqui qualquer coisa de muito errado. (Lembramos que, também subjacente a este protesto, está o facto de, contrariamente ao que se passa no Brasil, os estudos universitários em Portugal serem caros e as bolsas muito escassas e baixas).
Na manifestação da "geração à rasca", Lisboa, 12 de Março de 2011
Na manifestação da "geração à rasca", Lisboa, 12 de Março de 2011
Experiência democrática, sim, mas… “em geral”?
Surgido como apoio ao seu congénere da Puerta del Sol madrilena, o acampamento de jovens no Rossio, praça central de Lisboa, teve aspectos muito interessantes enquanto fórum aberto de expressão de crítica social, de aspirações, de interrogações, de interpelação das esquerdas. (Dizemos “teve aspectos”, no pretérito, porque um comunicado de 31 de Maio informa que o acampamento será levantado). O Passa Palavra publicou há dias um pequeno vídeo que mostra umas centenas de homens e mulheres de todas as idades, mas jovens na maioria, falando livremente, trocando ideias, organizando-se informalmente, numa espécie de jamboree libertário, o que é sempre bonito de se ver – e, a quem as viveu, lembrará vaga e saudosamente, as tertúlias inopinadas e interclassistas que pululavam em 68 nos boulevards do Quartier Latin: a busca de um sentido para a vida, o sorriso de uma liberdade “diferente” (a par deste texto, pode ver aqui um outro vídeo publicado após a decisão de levantar o acampamento).
Mais ou menos prolongado no tempo, isentado, graças à campanha eleitoral em curso, de uma repressão policial que normalmente não teria tolerado essas brincadeiras no centro da capital, este acampamento, como certamente outros em muitas cidades, é uma ágora juvenil que permitiu uma certa permeabilidade entre a massa da “juventude à rasca” e uma esquerda juvenil mais organizada nos partidos e grupúsculos das esquerdas alternativas. O acampamento do Rossio foi uma tentativa de politização da “juventude à rasca”. Mas nunca ultrapassou, mesmo nas assembleias mais concorridas, as poucas centenas de pessoas. Embora o assunto tenha sido discutido, nunca conseguiu fazer uma ponte com o mundo do trabalho assalariado, com as empresas, nem sequer com as escolas e faculdades. Tudo muito vago, conversa de café alargada. O que nos chama uma outra reflexão: o trabalho dessas esquerdas no terreno onde a vida acontece – os bairros, as empresas, as escolas – é praticamente inexistente. Não há milagres. Para além de uma experiência organizativa – uma espécie de apuramento organizacional da espontaneidade – que certamente dará frutos, não sabemos quais, noutros sítios e noutras alturas, nada fica para além das habituais e inócuas proclamações abstractas que – como dizemos no ponto 4 dos“Pontos de Partida” do Passa Palavra – não conseguem fazer o caminho da politização, que consiste em “inserir os problemas particulares num contexto geral”. A doença genética da esquerda portuguesa é a tendência para fazer sempre o percurso inverso: partir das generalidades para o particular, tentar convencer os trabalhadores na base de proclamações gerais. Por isso, o acampamento teria tido outra consistência, outra duração e outras consequências políticas se tivesse sido, ele próprio, resultado de lutas concretas, assembleias e comissões democráticas previamente acontecidas em locais de trabalho, em bairros, em escolas.
A mobilização assembleiária não se inventa de cima para baixo. Ou nasce de baixo, ou não acontece. Ou corresponde a interesses de classe mais definidos, exprimindo contradições reais da sociedade e medindo forças no terreno, ou se ficará sempre pelos limites – estreitos e efémeros – de uma espécie de festa dionisíaca politizada.
Ou serão estas conclusões incorrectas e ultrapassadas, podendo pensar-se que as novas formas de convocação e informação redefinem um novo espaço privilegiado para a luta de classes, que escapa à geografia tradicional do bairro, da empresa e da escola? Em todo o caso: o que é que, por meio destas acções, pode ter mudado na vida e na consciência dos participantes? Alguma dessa energia se poderá repercutir no território do particular? Mesmo não querendo ser pessimistas, achamos que tem alguma razão aquele bloguista do Cinco Dias que afirma que “Madrid pariu um rato”. As novas tecnologias não são formas de luta; são instrumentos que permitem inventar novas formas de luta, o que é diferente. As assembleias democráticas, informais e gerais, fora dos contextos localizados em que as contradições se exprimem, podem ser importantes como meio de luta complementar e agregado, mas não substituem – que se veja – a necessidade de enfrentar o inimigo de classe no contexto material e social em que a dominação é exercida.
Rossio, Lisboa, em Maio de 2011
Rossio, Lisboa, em Maio de 2011
Nota
[*] No seu artigo Ainda acerca da crise económica. 8) a crise de regulação na zona do euro, João Bernardo refere: “É certo que o governo tem um plano para aumentar a produtividade, baseando-se nos centros de pesquisa científica para criar microempresas muito sofisticadas e vocacionadas directamente para nichos do mercado mundial. No papel, a proposta é interessante, mas será que se consegue transformar assim o tecido social do empresariado português? De acordo com um inquérito realizado pelos institutos nacionais de estatística dos dois países ibéricos, em 2004 apenas 11% dos empresários portugueses tinham licenciatura universitária (29% na média da União Europeia), enquanto 13% dos empregados tinham licenciatura universitária (24% na média da União Europeia). Não é só a diferença relativamente à média europeia que importa ressaltar, mas o facto anómalo de haver em Portugal uma maior percentagem de trabalhadores do que de patrões com o curso universitário. A diferença agravou-se, porque em 2010, segundo o Instituto Nacional de Estatística, 9% dos patrões possuíam curso universitário, contra 19% dos empregados. Estas cifras dizem muita coisa acerca da travagem dos mecanismos da produtividade em Portugal.”

Fonte: Passa Palavra

Cronópios: "O primeiro artista Pop"

PICICA: "Heine é o primeiro artista Pop". Essa definição, de André Vallias, enquanto gravávamos este filme-reportagem, me chegou de surpresa, e amplificado, aos fones de ouvido. Gostei de ouvir isso. Assim como também gostei de ouvir que Heinrich Heine usava a linguagem coloquial, a do dia a dia, sem deixar de fazer grande poesia por conta disso. Era um caminho estético novo e que rompia com o romantismo deslavado da época. Outra verdade amplificada: Heine era um best seller, vendia muito. Vendia poesia como ninguém!"



"Heine é o primeiro artista Pop". Essa definição, de André Vallias, enquanto gravávamos este filme-reportagem, me chegou de surpresa, e amplificado, aos fones de ouvido. Gostei de ouvir isso. Assim como também gostei de ouvir que Heinrich Heine usava a linguagem coloquial, a do dia a dia, sem deixar de fazer grande poesia por conta disso. Era um caminho estético novo e que rompia com o romantismo deslavado da época. Outra verdade amplificada: Heine era um best seller, vendia muito. Vendia poesia como ninguém!

O André Vallias me convidou para criarmos algo juntos para o lançamento dessa sua importante antologia. Combinamos fazer, com a TV Cronópios, uma reportagem, um filme - acabamos fazendo um "filme-reportagem" que registra o lançamento do livroHeine, hein? em São Paulo. 

Gostei muito do convite para realizar este filme e, também, de conhecer Heine por André Vallias, num excelente trabalho de contextualização histórica e de tradução poética. É a maior antologia de poemas e textos de Heinrich Heine vertidos para o português. Nem em Portugal!!! São 120 poemas e textos variados, traduzidos por André direto do alemão. 

O filme é bem simples e despojado: foi rápido de gravar, produzir e editar. Mas tem sua sofisticação e gosto muito do resultado final. Incorporei nele algumas sutis novidades na narrativa fílmica em relação a outros filmes que já produzi aqui para o Portal Cronópios. Espero que você goste também do novo filme cronopiano.

Uma ótima semana! 

Pipol
Editor - Portal Cronópios




A modernidade corrosiva de Heine
(ENSAIO) ... O livro Heine, hein? - Poeta dos contrários traz traduções de André Vallias do poeta alemão ainda não tão reconhecido como um dos maiores nomes da modernidade ... André Dick

O primeiro artista Pop
(TV CRONÓPIOS) ... Gostei muito do convite para realizar este filme e, também, de conhecer Heine por André Vallias, num excelente trabalho de contextualização histórica e de tradução poética ... Pipol

A Poesia Brasileira na era pós-verso: uma exposição< /b>
A mostra acontece no Instituto de Artes da UNESP em SP. E traz originais, protótipos, provas de impressão e primeiras edições. É um material bastante valioso sob os pontos-de-vista artístico e histórico-documental. +Informações

Noite Persa - Sarau de poesia no Centro Cultural São Paulo
(CURADORIA DE LITERATURA CCSP) Abrindo o mês de junho, o projeto Poesia dos 4 Cantos traz uma amostra da poesia persa, original do atual Irã, e que é tão desconhecida por nós, quanto este país do Oriente Médio. Mais informações, aqui.

Mostra Conexões Sonoras 2 explora a arte multimídia no MIS
Durante quatro dias, 9 e 12 de junho, cinco obras inéditas de jovens artistas que integram música experimental, tecnologia e outras artes serão expostas. O evento terá interação com o público por meio da internet e de mesas redondas. + Informações

Eu Vi Por Aí 
(INFANTO JUVENIL) A escritora e educadora Eliana Pougy lança novo livro na Livraria da Vila. No livro, destinado a crianças de 6 a 10 anos, a autora propõe um novo caminho para a construção de condutas e valores mais igualitários e éticos.

A 'marcha da maconha' e a proibição da lógica e do bom senso
(OPINIÃO) ... Povos do Paleolítico sabiam relacionar-se com alucinógenos de um modo muito mais produtivo e saudável que este nosso mundo moderno ... Claudio Willer

Perda da guarda
(NOVÍSSIMOS AUTORES) ... Como um amor homossexual, sem sexo, caminhamos Ele e eu. Apiedamo-nos das pessoas e as amamos como só os santos e as amantes ... Tomaz Amorim Izabel

Haveria de drenar a escuridão das tuas olheiras
(NOVÍSSIMOS AUTORES) ... Ouve, amor, /haveria de te erguer /pelos cabelos de algum poço de petróleo /e atirar a plataforma do teu rosto para o céu ... Marceli Andresa Becker

Conferência Pré C-40 Cities Eco-liderança por meio de Instituições culturais
(GRANDE EVENTO) O Centro Cultural São Paulo abrigará a conferência Pré C-40 cities - Eco-liderança por meio de instituições culturais e reunirá um grupo de representantes de grandes cidades do mundo todo.

Vem aí o talk show Relâmpagos
(TEASER) Estamos criando um novo programa, no estilo talk show, para a TV Cronópios e um importante parceiro. Vamos revelar tudo aos poucos. Será transmitido ao vivo para todos os cronopianos participarem.

Les lis blanc
(POEMA E FOTO) ... A noiva desconhecida entra /acende a tocha ancestral /aquece o corpo, suas tinturas /geografias e cabelos /conta histórias de passagens e corredeiras ... Natalia Barros

Anna, Beatriz, Claire
(TRÊS CONTOS) ... Bendito o meu olhar complacente que, conivente, me aprova, me afaga e me inunda desta estranha felicidade! ... Ilona Bastos

Pequeno Manual de Pontuação em Português, Parte 8
(AS CHAVES, AS ASPAS) ... Usam-se as chaves ({}) na linguística para representação de morfemas. O morfema é um elemento formal significativo, que constitui o todo ou parte de uma palavra ... 
Jo sé Augusto Carvalho


Café cultural e espetáculo com Natalia Barros em Santos
(ENCONTRO LITERÁRIO) Evento da Pinacoteca Benetito Calixto recebe uma das mais cults personagens da cena musical paulistana, com brilhante carreira solo e em bandas alternativas e de vanguarda. Veja mais, aqui.

O Cangaço e a Literatura
(SEMINÁRIO) A Academia Brasileira de Letras convida os cronopianos para o Seminário Brasil, brasis, que acontece na próxima quinta-feira, dia 26, no Rio de Janeiro. Mais informações, aqui.

O Bin Laden do Brasil
(OPINIÃO) ... Ele é um velho conhecido das mulheres e dos homens poderosos que governam nosso país; vive livre, leve e solto, perambulando embaixo dos nossos narizes ... Lucius de Mello

Contos ao palco (1)
('CONTOS PARA UM ATO SÓ') ... Será a veracidade madrasta benevolente de toda dramaturgia? Carlos Schummann é meu anjo desfalecido que sobe ao palco com todos os meus mimos poéticos ... 
Flávio Viegas Amoreira


Ganymédes José, 75 anos de nascimento
(HOMENAGEM) ... Ele é um desses autores bons que, infelizmente, não estã o na moda. Não é mais citado nem comentado entre seus pares e é esnobado pela grande imprensa ... Alexandre Staut

Oficina experimental de poesia no Rio
(CRIAÇÃO) A Editora Cozinha Experimental convida a todos e abre inscrições para a 1ª Oficina Experimental de Criação Poética do Rio de Janeiro. 
Mais informações, aqui.

Nota de Apoio da COIAB aos Povos Indígenas do Médio Purus


NOTA DE APOIO DA COIAB AOS POVOS INDÍGENAS DO MÉDIO PURUS

União - Campo, Cidade e Floresta | terça-feira, 31, maio, 2011 14:50:31 at 14:50 | Categories: indigenas, Luta Indigena | URL:http://wp.me/p1duRL-JQ

NOTA DE APOIO DA COIAB AOS POVOS INDÍGENAS DO MÉDIO PURUS

Reforçando a denúncia feita pela FOCIMP - Federação das Organizações e Comunidades Indígenas do Médio Purus, a COIAB vem por meio desta, prestar o apoio às comunidades indígenas na região, que enfrentam uma situação calamitosa provocada pela falta de assistência na área da saúde.
As lideranças indígenas daquela região denunciam a falta de estrutura do DSEI – Médio Purus, que deveria atender a região de Lábrea, Canutama e Tapawá. Entretanto o sucateamento do DSEI requer uma intervenção imediata por parte da SESAI- Secretaria Especial de Saúde Indígena.
Os casos de malária se multiplicam pelos afluentes do Purus. Nas ultimas semanas, três indígenas do povo Deni morreram vitimados pela doença. Em busca de tratamento nas cidades, os parentes saem das suas comunidades e encontram nesse êxodo só mais tristeza e sofrimento.
A distância geográfica de Lábrea para a capital, delimita uma viagem de mais de 7 dias para percorrer os 610 KM para se chegar em Manaus. Recentemente um Apurinã da região morreu e teve seu corpo transportado de volta para Lábrea em um barco de transporte regular de passageiros. Essa humilhação revolta todos nós que apostamos em um novo modelo de atendimento aos povos indígenas.
Os problemas da saúde indígena, conforme assinalam as lideranças da FOCIMP, estão atrelados à falta de operacionalidade das ações em todo o DSEI-MP. A transição do atendimento da FUNASA para a SESAI tem agravado a questão. É uma calamidade publica e exigimos uma solução imediata.
A COIAB solicita da SESAI uma visita na região, com a máxima urgência, para que sejam tomadas as providencias necessárias para a resolução desses problemas.
O DSEI-Médio Purus atende os povos Apurinã, Paumari, Jarawara, Jamamadi, Deni, Zuruaha, Banawá, Mamuri, katawaxi, Juma, totalizando uma população de aproximadamente 4000 indígenas, distribuidos em 56 aldeias localizadas nos municipios de Lábrea, Canutama e Tapauá, no sul do estado do Amazonas.

Manaus, Amazonas, 30 de Maio de 2011.
Saudações indígenas,

Coordenação executiva da COIAB

Marcos Frederico Krüger faz palestra sobre "Os Lusíadas" (veja o vídeo)

PICICA: "Publicado em 1572, este livro é constituído por dez cantos, dez partes que narram os feitos históricos dos portugueses. Através da viagem marítima de Vasco da Gama para a Índia e das aventuras dos marinheiros nas Descobertas são entrelaçados os mitos, as figuras e os momentos que definem a História de Portugal."
Lusíadas from Companhia de Ideias on Vimeo.

É só um dos versos mais conhecidos da literatura portuguesa: “As armas e os barões assinalados…” Linha de abertura da maior epopeia literária, a obra-prima de Luís Vaz de Camões, o grande poema português.
Publicado em 1572, este livro é constituído por dez cantos, dez partes que narram os feitos históricos dos portugueses. Através da viagem marítima de Vasco da Gama para a Índia e das aventuras dos marinheiros nas Descobertas são entrelaçados os mitos, as figuras e os momentos que definem a História de Portugal.
Inês de Castro, D. Afonso Henriques, Nuno Álvares Pereira e tantos outros passeiam pelas estrofes e compõem um quadro grandioso de exaltação dos descendentes de Luso, os portugueses.
Na linha das epopeias clássicas, tais como a Odisseia ou a Eneida, a obra está dividida em quatro partes: Proposição, Invocação, Dedicatória e Narração. As três primeiras condensam-se no Canto I, com o maior excerto a mencionar D. Sebastião, o jovem rei a quem a obra foi dedicada.
Polémicas à parte, e se contarmos que o livro foi aprovado pelos censores do Santo Ofício, braço-direito da Inquisição, mesmo com as lascivas descrições do episódio da “Ilha dos Amores”, este continua a ser um dos textos mais importantes da literatura portuguesa
O Velho do Restelo ou o gigante Adamastor, mais que figuras míticas de um poema, já se tornaram referências desta cultura que é a nossa… e que Camões cantou. 

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"Slavoj Zizek e a novidade do comunismo" (IHU)

PICICA: "Ao mesmo tempo enfática e digressiva, a fala é fiel aos textos que fizeram de Zizek uma referência para a esquerda mundial, nos quais uma aproximação original dos pensamentos de Marx e Lacan serve de ferramenta para um ímpeto aparentemente inesgotável de interpretação crítica da cultura moderna e contemporânea, dos filmes de Hollywood aos pressupostos da democracia representativa até o pensamento de Deleuze ou Antonio Negri."
Imagem postada em psikeba.com.ar
Slavoj Zizek e a novidade do comunismo
 
Sentado num hotel em Copacabana, um dia após fazer uma palestra sobre os impasses da democracia liberal para um Odeon lotado (a convite da PUC-Rio, Uerj, Boitempo e Flacso), o filósofo esloveno Slavoj Zizek parece tomado por um excedente de energia que o deixa num estado próximo à convulsão: durante uma hora de entrevista sobre seus livros “Em defesa das causas perdidas” e “Primeiro como tragédia, depois como farsa” (Boitempo, tradução de Maria Beatriz de Medina), seus braços se lançam em todas direções possíveis pontuando as respostas aceleradas, cheias de parênteses, diálogos encenados e exclamações. Ao mesmo tempo enfática e digressiva, a fala é fiel aos textos que fizeram de Zizek uma referência para a esquerda mundial, nos quais uma aproximação original dos pensamentos de Marx e Lacan serve de ferramenta para um ímpeto aparentemente inesgotável de interpretação crítica da cultura moderna e contemporânea, dos filmes de Hollywood aos pressupostos da democracia representativa até o pensamento de Deleuze ou Antonio Negri. 

Na entrevista pubicada no jornal O Globo, 28-05-2011, Zizek explica (entre outras coisas) o que significa hoje ser comunista, e por que é preciso recuperar a ideia de revolução.

Eis a entrevista.

Seu livro “Em defesa das causas perdidas” começa pela constatação de que a ideia de revolução está hoje desacreditada no debate político. Esse descrédito, o senhor argumenta, não se explica simplesmente pelo fim da União Soviética ou pela queda do Muro de Berlim, como muitas vezes se diz. Ele estaria ligado a diversas críticas feitas no século XX às noções de verdade e totalidade. Quais são os principais argumentos dessas críticas, e como o senhor pretende contestá-los?

Há uma certa moda na filosofia pós-moderna de se tomar a verdade como algo opressivo, que deve ser subvertido. Questiona-se: “quem tem o direito de dizer que algo é verdade?” Em vez da verdade, existiriam apenas opiniões. Até as ciências naturais são tomadas como um fenômeno discursivo, que não teria nenhuma diferença de princípio em relação a superstições e formas de conhecimento baseadas na tradição. Discordo disso. Penso que existe a verdade, que existe a verdade universal, e que ela pode mesmo ser vista politicamente. Por exemplo, o que aconteceu recentemente no Egito foi a universalidade em sua forma mais pura. Não precisamos de nenhuma teoria multiculturalista para entender o que se passava nas ruas do Egito. Quando você tem uma rebelião pela liberdade, pode se identificar com ela de maneira imediata. Quanto à totalidade, esse é um grande mal entendido. A noção hegeliana de totalidade não significa que todos fenômenos particulares sejam no fundo parte de um mesmo todo orgânico. Não! Se você lê Hegel, vê que totalidade é quase o oposto disso. A totalidade é uma categoria crítica, que implica perceber as maneiras pelas quais um certo fenômeno dá errado como sendo parte da essência desse fenômeno. 

Detesto os marxistas que dizem: “Stalin traiu o verdadeiro espírito do marxismo”. Não, não se pode permitir que isso seja dito. Se as coisas deram tão terrivelmente errado comStalin, isso significa que havia uma falha estrutural no próprio edifício de Marx. Não acredito nessa baboseira do tipo “a ideia era boa mas infelizmente foi mal realizada”. Aqui eu sou freudiano. O resultado da ideia é como um sintoma, que aponta para algo errado na ideia. Não acho que os liberais de hoje consigam admitir isso. Por exemplo, tive um debate na França com Guy Sorman, um defensor radical do capitalismo e ele dizia: “capitalismo significa justiça e democracia”. Então eu perguntei, “mas e a China hoje?”, e ele respondeu “Ah, mas isso não é capitalismo”. Isso é um pouco fácil demais. Quando você tem um capitalismo que não se encaixa no seu ideal, você diz “não, não, não é disso que se trata”. É como a piada contada por Lacan, “meu noivo nunca está atrasado pois no momento em que se atrasa ele deixa de ser meu noivo”. Claro que você pode dizer, “o comunismo é sempre democrático pois no momento em que não é democrático ele deixa de ser comunismo”. Ok, mas isso é fácil demais.

O senhor no entanto sugere em seu livro que as revoluções são violentas apenas quando não são de fato revolucionárias. Ou seja: quanto mais revolucionária for uma revolução, menos violenta ela será num sentido estrito. Poderia falar sobre isso?

Escrevi num outro livro algo que me deu muitos problemas: eu disse, “o problema deHitler é que ele não foi violento o bastante”. E as pessoas ficaram “aaai, você queria que ele tivesse matado todos os judeus?!” Não! Ele não foi violento o bastante nesse sentido autêntico, revolucionário, em que a violência significa transformação das relações sociais, e não tortura ou assassinato. Hitler matou milhões de judeus em nome da manutenção do sistema. O que estou dizendo é que não quero dar a Hitler sequer esse crédito, na linha “ele foi um criminoso, mas era um líder corajoso”. Não, ele não era. Nesse sentido,Mahatma Gandhi foi mais violento do que Hitler. Gandhi é sem dúvida um modelo de paz, mas nesse sentido básico ele foi violento, organizou protestos de massa com o objetivo de impedir o funcionamento do Estado colonial inglês na Índia. Isso é algo queHitler nunca ousou fazer.

Os críticos da totalidade apontam um outro tipo de violência, que é a violência das ideias. Toda revolução tem pelo menos dois momentos. Um de suspensão total daquilo que é dado, o que o senhor chama de “evento”, citando o termo usado por Alain Badiou. E um segundo momento de estabelecimento de uma nova ordem. É este segundo momento que é percebido como inerentemente violento, na medida em que a nova ordem é estabelecida a partir de abstrações totalizantes que são impostas à sociedade.

Sim, essa é a crítica padrão, iniciada por Edmund Burke e Joseph de Maistre. Mas, escute. A violência emerge, admito, como uma limitação desses modelos abstratos. Mas acho que essa análise é muito simplista. Há revoluções, afinal, que são bem sucedidas. Veja o milagre da democracia. Sou um crítico das democracias atuais, mas a ideia de democracia é um exemplo maravilhoso de como algo que era percebido na sociedade pré-moderna como o maior momento de perigo e instabilidade pode se tornar parte da estabilidade do novo sistema. Na época das monarquias, ou mesmo nos regimes totalitários, o momento de maior perigo se dá quando o líder morre e o trono fica vazio. Na União Soviética, quando Stalin morreu, mantiveram a morte em segredo por três dias. A ideia da democracia, no entanto, é muito engenhosa. Ela diz: “e se, em vez de tratar o fato de que o trono está vazio como um problema, nós o considerarmos uma solução? O trono está originariamente vazio, e apenas algumas pessoas eleitas democraticamente podem ocupá-lo por um certo período de tempo, de forma limitada. Ninguém tem um direito natural a ocupar o espaço do poder”. Esse é para mim um ótimo exemplo de algo que parecia violento e se torna o próprio fundamento da estabilidade. Então concordo que há um perigo das ideias, mas acho que o dia seguinte é a parte mais importante das revoluções. Não me sinto fascinado por esses momentos de grande mobilização onde todos estão nas ruas, juntos, pedindo mudança. Isso sempre me lembra da França, onde todo conservador hoje, a começa por Sarzoky, diz: “claro, em 1968 eu estive nas barricadas”. O que me interessa é o dia seguinte. A violência do dia seguinte é sinal de uma falha, mas não há sempre necessariamente violência. Se aqueles no poder resistem, é claro que deve haver alguma violência, mas apenas como forma de defesa.

O senhor argumenta, porém, que no interior do horizonte da democracia só é possível pensar em mudanças parciais, reformas...

Não, aqui serei bem específico. Falo do horizonte da democracia atual. O problema é como revitalizar a democracia. Mesmo Badiou, que às vezes disse coisas malucas, como “o nome do inimigo hoje é democracia”, já especificou essa declaração, explicando que o que ele critica é o modelo atual de democracia representativa. Vou dar um exemplo. Estive na Inglaterra anos atrás, nas últimas eleições vencidas pelos Trabalhistas, quandoBlair ainda era o líder do partido. Duas semanas antes da votação, houve na BBC uma grande eleição pública para se escolher a pessoa mais odiada da Inglaterra. Sabe quem ganhou? Tony Blair. E duas semanas depois, Tony Blair foi eleito. O que isso mostra? Mesmo críticos conservadores admitem isso: há uma disfunção da democracia, uma certa quantidade de energia de protesto, frustração, insatisfação, que não pode ser capturada por esses modelos tradicionais puramente partidários e representativos. E então há reações distintas a isso. Desde os “movimentos de uma questão só”, como um movimento pela redução de certos impostos, até essas revoltas aparentemente irracionais, como a queima de carros nos subúrbios de Paris. Isso deveria preocupar qualquer democrata sincero hoje. Como tornar o sistema democrático mais eficiente, de modo que não se tenha explosões de descontentamento que dão expressão a uma energia não capturada pela representação política?

Mas a criação de novos canais de expressão ou atuação política pode ser defendida dentro de uma agenda democrática puramente reformista. Por que seria necessário então recuperar, como o senhor propõe, a noção de revolução?

Mas espere um minuto, por revolução não quero dizer estado de emergência, polícia revolucionária etc. Por revolução quero dizer apenas, num sentido puramente formal, mudança radical. Talvez nem mesmo uma mudança radical veloz. A revolução seria, simplesmente, por exemplo, que as pessoas no Japão ameaçadas pela radiação nuclear se unissem e exigissem algum tipo de regulação internacional eficiente... Revolução para mim é mudança nas relações sociais de poder.

Um lento processo de transformação não seria o oposto do “evento”, do qual fala Badiou?

Badiou é muito preciso: para ele, um evento é algo que só pode ser reconhecido retroativamente. E aqui entra o que ele chama de fidelidade ao evento. Não é o grande evento, mas esse trabalho paciente de busca por novas formas, a reinscrição do evento na forma do ser, da vida cotidiana. Para mim, foda-se a revolução, o que me interessa é aquilo que permanece. Não ligo para o que aconteceu na Praça Tahrir. O que me importa é o que vai permanecer daquilo daqui a cinco anos. Nesse sentido, o evento é apenas um ponto de início mítico que abre um certo horizonte de atividade política, e esse é o verdadeiro trabalho, lento e duro. Badiou faz uma referência maravilhosa na qual ele lê esse processo revolucionário segundo as qualidades cristãs definidas por São Paulo: fé, esperança e amor, das quais o amor é a mais importante. Badiou diz: fé é a fé no evento, no sentido de que algo novo é possível; esperança é a esperança de que chegaremos ao objetivo; e amor é para Badiou, como disse São Paulo, o trabalho do amor. O que significa trabalho paciente. É disso que precisamos hoje. Deixe-me dar um exemplo: Obama. Gostei de Obama no começo, e mesmo agora ainda gosto dele em alguma medida, mas sabe por quê? John McCain falava uma língua que para mim era revolucionária de modo apenas superficial. Ele dizia “temos inimigos, como a burocracia, devemos combatê-los e tudo vai dar certo”. Obama, por sua vez, dizia: “nós temos problemas sérios e o que precisamos é de trabalho paciente”. Essa reabilitação do trabalho cinzento diário, talvez a esquerda precise de um pouco disso, não?

O comunismo vai vencer, como o senhor disse ao jornal inglês “The Guardian”?

Ah, isso é uma provocação. Quis dizer: o comunismo vai vencer ou então estaremos todos na merda. Você tem que dizer algo assim de vez em quando para fazer as pessoas pensarem. Ainda sou um comunista, mas não um continuísta. O século XX acabou. O resultado geral do comunismo foi um fiasco. A social-democracia foi boa enquanto funcionou, mas está hoje em crise. E a lição do sucesso econômico da China e de Cingapura é que o casamento aparentemente eterno entre capitalismo e democracia está se desfazendo. Temos aqui uma forma de capitalismo ainda mais dinâmica do que o capitalismo ocidental, e que funciona perfeitamente em condições autoritárias. Isso deveria nos preocupar. A razão por que me considero ainda um comunista é que vejo uma série de problemas para os quais não há solução possível dentro do modelo do capitalismo liberal global. Entre eles, a questão ambiental, a biogenética, a propriedade intelectual. Para enfrentá-los vamos precisar de um esforço coordenado de larga escala, algo de que nem o mercado nem o Estado tradicional são capazes. Quando as pessoas me dizem “você é um utópico”, eu digo: “a única utopia de fato é acreditar que as coisas podem seguir indefinidamente seu curso atual”. É claro por exemplo que se a China continuar se desenvolvendo na escala atual haverá uma demanda materialmente impossível de se atender. Para mim, comunismo é o nome de um problema. Todos esses problemas são problemas de algo comum (“problems of commons”), de algo que deveria ser compartilhado por todos nós. É uma alegação muito modesta.


Fonte: IHU

"Paternalismo etnocêntrico e islamofobia", por Idelber Avelar

PICICA: "Nenhum dos textos brasileiros mencionou tentativa de consulta às mulheres islâmicas acerca desse curioso pressuposto, o de que o livre arbítrio é exercido pelas mulheres que escolhem utilizar crucifixos, mas que aquelas que optam pelo niqab são vítimas de sua cultura. Nenhuma das defesas da lei de que tomei conhecimento parece ter suspeitado da contradição entre esse pressuposto e o fato de que a maioria das mulheres islâmicas não usa a burca. Algumas islâmicas são vítimas de sua cultura mas a maioria não o é? Dizer que o crucifixo não fere a integridade física da mulher como faz a burca não resolve o problema teórico: o conceito de livre arbítrio no Ocidente é inseparável de uma história etnocêntrica na qual as sociedades euroamericanas sistematicamente arrogaram para si a prerrogativa da racionalidade universal, reservando para africanas, orientais, ameríndias e árabes a condição de vítimas de uma cultura particular. Será que aqueles que repetidamente falam em nome da outra sem consultá-la também não são vítimas de sua cultura?"
Charge postada em trator-desgovernado.blogspot.com

Paternalismo etnocêntrico e islamofobia

 

Aconteceram, no dia 09 de abril, na França, as primeiras prisões de mulheres por uso do véu islâmico. Não tendo me pronunciado na época da promulgação da lei, acredito que é o momento de tecer algumas considerações sobre ela.
Confesso que me espantou bastante a rapidez com que, na internet brasileira, várias pessoas de minha amizade e interlocução se pronunciaram em apoio à lei de Sarkozy, em alguns casos em menos de 24 horas depois de sua promulgação e, em sua totalidade, sem qualquer consideração do histórico recente de islamofobia na França, contexto que é o óbvio marco no qual se insere a lei. Nenhum dos artigos que li na internet brasileira em defesa da lei mencionava alguma escuta da opinião daquelas que são afetadas pela legislação, as mulheres muçulmanas.
Os argumentos em defesa da lei são previsíveis: as roupas também são uma forma de opressão, as mulheres islâmicas com frequência são obrigadas por pais e maridos a utilizar a burca ou o niqab, os véus são parte de uma lógica machista. Todos são argumentos verdadeiros. É claro que um sujeito moderno razoável não se oporia à intervenção legal contra homens que obriguem suas cônjuges ou filhas a utilizarem o véu (ou qualquer outra vestimenta, diga-se). O salto lógico que a defesa da lei não consegue efetuar com eficácia é como passamos disso ao apoio a uma penalização estatal às mulheres que escolhem vestir a burca ou o niqab.
O melhor intento que encontrei de realizar esse salto lógico foi o argumento de que, no caso do véu islâmico, não há escolha de verdade, posto que as mulheres são condicionadas pela lógica machista e seriam, portanto, vítimas da cultura que lhes impõe essa prática, não tendo elas escolha efetiva. Nenhum dos textos brasileiros mencionou tentativa de consulta às mulheres islâmicas acerca desse curioso pressuposto, o de que o livre arbítrio é exercido pelas mulheres que escolhem utilizar crucifixos, mas que aquelas que optam pelo niqab são vítimas de sua cultura. Nenhuma das defesas da lei de que tomei conhecimento parece ter suspeitado da contradição entre esse pressuposto e o fato de que a maioria das mulheres islâmicas não usa a burca. Algumas islâmicas são vítimas de sua cultura mas a maioria não o é? Dizer que o crucifixo não fere a integridade física da mulher como faz a burca não resolve o problema teórico: o conceito de livre arbítrio no Ocidente é inseparável de uma história etnocêntrica na qual as sociedades euroamericanas sistematicamente arrogaram para si a prerrogativa da racionalidade universal, reservando para africanas, orientais, ameríndias e árabes a condição de vítimas de uma cultura particular. Será que aqueles que repetidamente falam em nome da outra sem consultá-la também não são vítimas de sua cultura?
Tendo já algum tempo de engajamento com a causa palestina, sendo estudante ocasional da língua árabe e residente de um país onde a islamofobia chegou a níveis verdadeiramente assustadores, acredito poder dizer com alguma certeza que desfruto de um leque de amizades árabes e/ou muçulmanas mais amplo que a maioria das pessoas que se pronunciaram sobre a lei. Mesmo assim, achei que, neste caso, antes de opinar sobre o tema, valia a pena a consultar aquelas que são afetadas pela lei, ou seja, as mulheres muçulmanas ou mulheres de ascendência árabe residentes em regiões ou países onde o Islã tem presença importante. Trata-se de um preceito ético básico que tento, pelo menos, seguir de forma rigorosa: em matérias que envolvam racismo, ouvir com a maior atenção e humildade possíveis o que os negros têm a dizer sobre o assunto; acerca da homofobia, escutar gays e lésbicas antes de emitir opiniões peremptórias; sobre machismo, tentar ouvir suas vítimas reais, as mulheres. Isso não quer dizer, claro, que você não vá formar a sua própria opinião com independência. Mas falar de discriminação antes de ouvir o discriminado não costuma ser um bom caminho.
Entre a data da promulgação da lei de Sarkozy e as primeiras prisões, acredito ter entrevistado pelo menos cinquenta mulheres árabes e/ou muçulmanas, residentes de países tão distintos como a própria França, os EUA, Israel, os territórios ocupados da Palestina e as nações do Magreb. Entre as mulheres árabes consultadas, havia não só muçulmanas, mas também cristãs, agnósticas e ateias. Embora o grau de indignação contra a lei de Sarkozy seja variável entre elas, nem uma única defendeu a lei ou deixou de apontar nela uma motivação islamofóbica. Minha pesquisa amadora e precária não está desacompanhada. A Open Society Foundations, através de seu projeto “Em Casa na Europa”, acaba de publicar um relatório baseado em entrevistas com 32 mulheres francesas que usam a burca ou o niqab. Nenhuma delas afirmou ter sido obrigada  a usá-los e algumas, inclusive, testemunharam que os utilizam apesar da pressão contrária de familiares. Caramba, será que o livre arbítrio de todas essas mulheres foi sequestrado por sua cultura?
Estimativas publicadas pelo jornal Le Monde apontam que menos de 2.000 mulheres em toda a França usam a cobertura completa do rosto, seja com a burca, seja com o niqab. Por motivos que suponho já óbvios para o leitor da Fórum, o impacto cultural e político da lei de Sarkozy se faz sentir, no entanto, em toda a população muçulmana da França, que anda em torno de 6 milhões de pessoas. Logo depois da entrada em vigor da lei, Kenza Drider, francesa e mãe de quatro filhos, saiu de casa, como disse o Guardian em reportagem sobre ela, disposta a cometer um crime. Usando sua burca em ato de desobediência civil, ela declarou: “continuarei vivendo a minha vida com o véu completo, como fiz ao longo dos últimos 12 anos, e nada nem ninguém vai me deter. Jamais imaginei que veria o dia em que a França, a minha França, país no qual nasci e que amo, o país da liberdade, igualdade e fraternidade, faria algo que tão obviamente viola a liberdade das pessoas”.
Aos opinólogos nacionais que argumentaram a favor da lei de Sarkozy com a premissa de que as mulheres muçulmanas são vítimas de sua cultura e não têm realmente escolha no que fazem, este colunista sugere uma entrevista com Kenza Drider, notável desobediente civil na melhor tradição democrático-iluminista ocidental. Para quem defendeu mais esse ataque contra o mundo árabe e/ou muçulmano com argumentos feministas, sugiro o eloquente texto das feministas Piya Chatterjee e Sunaima Maira, publicado no Alternet e intitulado “Carta Aberta a todas as feministas: Apoiem as mulheres muçulmanas, árabes e palestinas”, onde afirmam: “no atual clima de agressões iniciadas ou apoiadas pelos EUA contra mulheres no Afeganistão, Iraque e Palestina, perturba-nos profundamente um tipo de discurso feminista ocidental hipócrita que continua a se preocupar com alguns tipos de violência contra as mulheres muçulmanas e do Oriente Médio, enquanto escolhe permanecer silencioso acerca da violência letal perpetrada sobre mulheres e famílias pela ocupação militar, os F-16, os helicópteros Apache e os mísseis pagos pelos contribuintes estadunidenses”.
A violência perpetrada pela nova lei francesa sobre o corpo das mulheres muçulmanas não é idêntica, evidentemente, à dos mísseis. Mas a lógica que a justificou é exatamente a mesma, e se repete agora na Líbia: o bom e velho etnocentrismo ocidental continua se perpetuando com o argumento de que é necessário salvar os outros de si próprios.
Este artigo é parte integrante da edição 98 da Revista Fórum.

Fonte: Outro olhar