outubro 03, 2011

"Índios e Militares na Amazônia Brasileira", por Maiká Schwade


PICICA: "É intrigante ver o enorme patriotismo existente na maioria das aldeias indígenas das fronteiras brasileiras. Intrigante porque se tratam de comunidades de povos que sobreviveram à formação do Estado Brasileiro e que sofreram na carne as piores atrocidades cometidas nesse país. E mais ainda pela forma espantosa, para não falar cruel, com que os militares tratam esses povos, pois são vistos por eles como perigosos a soberania nacional, o que justifica o aumento da danosa presença militar nas aldeias."



Índios e Militares na Amazônia Brasileira


Nas Comunidades Indígenas do Rio Uaupés, a semana da pátria, não somente o 7 de setembro, é comemorada com muita festa. Ao longo de todo o mês de setembro se hasteia solenemente a bandeira verde e amarela e se recolhe com muito carinho ao fim do dia. É intrigante ver o enorme patriotismo existente na maioria das aldeias indígenas das fronteiras brasileiras. Intrigante porque se tratam de comunidades de povos que sobreviveram à formação do Estado Brasileiro e que sofreram na carne as piores atrocidades cometidas nesse país. E mais ainda pela forma espantosa, para não falar cruel, com que os militares tratam esses povos, pois são vistos por eles como perigosos a soberania nacional, o que justifica o aumento da danosa presença militar nas aldeias.

Tive a oportunidade de conviver com pessoas de diferentes povos indígenas e de conhecer dezenas de aldeias de Roraima, Amazonas, Pará e Mato Grosso, além de alguns povos da Venezuela. Aqui no Brasil constatei que, os Pelotões Especiais de Fronteira e outras instalações militares existentes, estão instalados dentro das aldeias indígenas e muitas vezes bem longe da linha de fronteira. Mesmo em rios pouco povoados, as bases estão literalmente dentro das aldeias.

Foto 1: Bandeira brasileira que foi hasteada e recolhida durante todo o mes de setembro em Cunuri, comunidade de São Gabriel da Cachoeira - AM.
Foto: André Zumak (UFAM)



Foto 2: Militares transportando em bote do Exército cerveja e mulher para uma festa na semana da pátria de 2011, em São Gabriel da Cachoeira - AM.
Foto: André de Moraes (UFAM)

Foto 3: Militares revistando estudantes indígenas da UFAM, em Cucuí, comunidade de São Gabriel da Cachoeira - AM.
Foto: Adu Schwade
Os militares, dezenas ou mesmo centenas de homens jovens, alguns recém saídos da puberdade, são agrupados longe de suas casas e encontram nesses espaços poucas possibilidades de satisfazerem suas necessidades culturais e seus instintos sexuais, somados a sede por viver sem limites a passageira juventude.


Ainda assim os problemas persistem e em muitos casos se agravam. Primeiramente porque vão se criando contradições dentro das comunidades, especialmente por alguma dependência econômica ou social ligada a presença militar. A principal delas se estabelece com as relações entre militares e comerciantes locais. Os comerciantes em geral defendem a presença militar por preverem perdas comerciais com sua retirada, tornando difícil o diagnóstico e solução do problema. E mesmo quando o problema é percebido com clareza pela comunidade e, desejosos de solução tomam partido, ainda devem suportar os sussurros preconceituosos de resíduos históricos, tais como a mentalidade de generais da reserva e de setores reacionários da sociedade em geral. Um exemplo vivo é o Gal. Augusto Heleno, que prega a militarização ou o loteamento privado dos territórios indígenas de fronteira, alegando riscos à soberania nacional.



Parece redundante explicar o resultado desse contato, mas cada dia me surpreende mais a gravidade dos fatos. De cara é possível verificar o agravamento do alcoolismo, do uso de drogas pesadas e a introdução de DST’s, com efeitos nocivos para os dois lados em questão. A gravidez de jovens e meninas sem paternidade assumida e a prostituição são cada dia mais freqüentes nas aldeias e comunidades onde se instalam os quartéis.



No caso específico dos povos do rio Uaupés, de família lingüística Tukano, a coisa é ainda mais grave, pois são povos de cultura patrilinear, ou seja, a identidade étnica é determinada pela identidade paterna. Mesmo que uma pessoa seja criada em comunidade indígena, falante de língua indígena, filha de mulher indígena, criada por um pai adotivo indígena, se o pai biológico não é indígena essa criança nunca será reconhecida como indígena, ainda que não tenha sequer conhecido o pai biológico. 


Mais do que isso, há uma silenciosa crise pela falta de mulheres. Isso porque muitas moças se encantam com “os de fora” dificultando a união de casais das comunidades. Ou ainda, pela “adoção” de meninas que se tornam babás ou domésticas e acompanham as famílias dos oficiais transferidos de posto, atraídas por promessas de bons estudos.



Nas comunidades Yanomami, onde as mulheres estão no centro dos principais conflitos, já foram registrados vários problemas graves com os militares por conta de relações sexuais com moças e meninas, principalmente em Maturacá. O Distrito de Maturacá também foi palco de um dos mais impressionantes conflitos entre militares e indígenas, quando os Yanomami, revoltados com a abusiva prisão de um jovem líder em sua própria residência, dominaram o Pelotão Especial de Fronteira inteiro até que os militares libertaram o rapaz. Este fato enfraqueceu as relações com os militares que não são mais bem-vindos nas comunidades.



Em um movimento nem sempre consciente, os militares, para serem mais bem aceitos nas comunidades e pela opinião pública em geral, ofertam eventualmente atendimentos médicos e outros serviços que na verdade são direitos constitucionais dos quais as comunidades estão excluídas. Mesmo assim esses atendimentos não são constantes e muitas vezes os oficiais restringem o acesso ao atendimento por meses.



Ao perceberem os prejuízos, algumas pessoas e comunidades organizam como podem suas resistências, seja se afastando dos pelotões, seja restringindo a circulação de soldados em certos ambientes comunitários.


Maiká Schwade
Casa da Cultura do Urubuí, 28 de setembro de 2011

Hoje tem Arte Jovem Brasileira no Espaço Convés

PICICA: Alô, alô Niterói e adjacências! Hoje é dia de Arte Jovem Brasileira.


Programação de 03/10/11
Informativo n° 135/ ano 07

  Arte Livre e Sincera
AJB no Convés!
Segunda (03/10), 20h = GRATUITO !

montagem

Segunda - feira
Espaço Convés - 20h.

No telão
Cineclube AJB exibe sessão Detalhes de Tales um Cosmonauta.

No palco
 Sergio Chiavazzoli e TrioMarcelo Caldi

Exposições
 Grades - fotografias de Márcia Romano
• Poemas de Marcelo Aceti

Dj Tchello a noite toda. 
Espaço literário, gincana cultural e militância cultural.

Foto da exposoção Janelas
de Márcia Romano
Borel


Fernando Mendes Borel
A ESCOLA ANTIGA DE D. OLINDINA
A escola de dona Olindina era em prédio, não muito largo, mas de extensão considerável. Na frente, a sala de aula. Seguia-se então o corredor até o último cômodo onde se instalava a cozinha. Finalmente porta pesada dava para o terreno onde longo alpendre agasalhava sob o telhado antigo, ninhos de canários da terra, e plantas as mais diversas. Ali estavam os sanitários FeM (não era Fernando Mendes). - Fessora posso ir ao banheiro? - Sim, mas volte logo.
Ao passar pela cozinha, o cheiro me leva a uma panela de barro cheia de caranguejos. Não pude resistir àquela patola que se deixava ser vista pela tampa mal acomodada. Com cuidado levantei a tampa, e com ajuda da colher de pau que estava ao lado amputei o crustáceo que tremia e espumava na fervura.
Ainda não havia terminado a operação, eis que mão forte segura o meu braço, e a seguir tira de mim o meu desejado acepipe. – Ajoelhe-se no milho. E você somente sairá hoje às três da tarde – Disse-me a professora. Cumpri conforme o determinado, e levei para casa um bilhete onde, com detalhes, era explicado o ocorrido. Tive em casa por causa do fato uma semana de privações das coisas que eu mais gostava. Poucos dias se passaram e ao final da aula dona Olindina falou em meio aos alunos: - Fernando você não sai com a turma vai ficar até três da tarde. – Mas eu não fiz nada desta vez!
Saiu o penúltimo aluno e ela me diz: - Você vai almoçar comigo uma caranguejada! Dessa vez coma quantas patolas quiser, sem precisar tirar de maneira furtiva. Escola naquele tempo era continuação da nossa casa. Ia me esquecendo de dizer que levei outro bilhetinho, e ao recebê-lo disse-me a saudosa Maria Mendes: - seu moleque, dessa você escapou. - Beijou-me, e por alguns minutos fiquei sentado sobre suas pernas. Levantamos-nos, e a cadeira de balanço ficou pra lá e pra cá, pra lá e pra cá. Saudade.

Clara Marinho - claramarinho.cantora@gmail.com
Alvas Palavras

Semiótica Tensiva e Amor
Quero a tonicidade do amor da vida
O andamento acelerado das batidas
Para findar o suspense, quero
Que a exacerbação vença a atenuação
Espero!
Quero o Acontecimento
Quero a iconização
Não quero "paz" no coração.

Tchello Melo - tchello_melo@yahoo.com.br
Pô, é Zia!

O grito não é à prova d’água

Sou um anjo
Mas nem tanto
As asas andam escassas
A minha casa me abriga
Do que me obriga
Enquanto a tormenta não passa

Razoavelmente insano
Tento romper a bolha no oceano
O grito não é à prova d’água
Embora pareça fadiga
Não sou de comprar briga
Como quem come e caga

Nunca vou me esquecer
De te aquecer os pés
Como quem não quer nada
Na hora de adormecer
A cachola cheia de porquês
E a cachoeira não acaba.

Carlos Gomes - carlos@artejovem.org
Mais um pouco...

E segue a luta do Conselho de Cultura de Niterói pela sensibilização do poder público, sobretudo da Secretaria de Cultura. O nó é o seguinte: existe hoje uma política nacional, chamada de Sistema Nacional de Cultura, ao qual os municípios devem se alinhar para conseguir repasses de verba federal. Acontece que para Niterói construir o sistema municipal e se alinhar com a política nacional, é preciso que a sociedade e poder público dialoguem e trabalhem juntos. Quem é que perde com a inércia do poder público? O povo, claro. Nossa cidade deixa de captar até R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais) por ano, pelo descaso de nossas autoridades. O Conselho está aí, já fizemos cartas, manifestações, pedidos e até audiência pública, mas até agora nada...
Saiba mais sobre este e outros asssuntos na página do conselho

Karrique - khenrrique@gmail.com
Lembranças da infância

O dia de ”Cosme e Damião”
Era um dia diferente. Saíamos de manhã cedo em busca de doces e aventuras por muitos lugares de Niterói. E só voltávamos quando já estava escurecendo. Era mágico. Muitas casas davam doces, e umas que davam até mais do que doces. Havia uma família, que morava na Rua Nóbrega (Rua que até hoje é um dos locais em que se faz o carnaval em Niterói), que formava uma fila gigantesca, já de manhã cedo e que tinha gente que entrava até duas vezes na fila, pois além de doces eles também davam roupas e brinquedos. Eu e o meu amigo Carlinhos, meu xará, incorporávamos, literalmente, a figura dos Santos, mas fazíamos tudo sem maldade e curtíamos o dia inteiro. Não me lembro de como começamos, nem de quem nos ensinou isso, e nem mesmo se foi alguém que nos ensinou. Todo ano íamos ao Campo de São Bento com o propósito de nos fartar com as oferendas que eram feitas para Cosme e Damião. Alguém
chegava com uma bolsa cheia e colocava a oferenda, geralmente acomodada calmamente na grama em cima de uma toalha limpa. A pessoa separava coisa por coisa, como por exemplo: uma cocada para um e uma para o outro, de cada lado da toalha, e assim sucessivamente com
refrigerante e outros doces. E ainda um saquinho cheio de doces no final. Logicamente, imaginando a presença dos meninos. Esperávamos, espiando de longe até que a pessoa fosse embora, e chegávamos sem cerimônia. Sentávamos, um de cada lado, pedíamos licença e
começávamos a nossa festa como se fossemos os próprios.

Tomás Paoni - tomaspaoni@hotmail.com
Ditocujo...

Traz você que eu me levo
Leve um verso que eu te livro
Se esqueça em casa e lembre-se em mim
Venha mais tarde praqueu chegue na hora
Leia um poema mas vê se não chora
Afirme seu não e renegue meu sim
Seja o mais breve impossível e demore 
o quanto for desnecessário
Se quiser ficar não me peça
Finja sinceramente que nunca foi minha
E ao partir, não esqueça: 
Me leve contigo mas volte sozinha

Dionnara Castro - diferocracia@uol.com.br
Se ligaê...

Fica ligado no resultado das eleições na Arábia Saudita!

Na eleição de quinta, mulher ainda não vota nem pode se candidatar na Arábia Saudita. Ativistas falam em grandes vitórias em 2013 e 2015. 
A Arábia Saudita, nascida em 1932 da união de dois reinados e dois emirados, é uma monarquia absoluta com pena de morte.
O direito de voto foi admitido apenas em 2005 e com duas limitações originais. Só se vota a cargos administrativos (administradores municipais) e apenas homens maiores de 21 anos podem votar e ser votados. 
Ontem, o rei Abdullah bin Abd-al-Aziz, de 87 anos e no poder desde 1 de agosto de 2005, resolveu abrir o voto e o direito de se candidatar às mulheres maiores de 21 anos.
A abertura, no entanto, só valerá para 2015. Em outras palavras, as mulheres não votarão nem concorrerão às eleições administrativas da próxima quinta-feira. O rei assegurou esse direito apenas a partir de 2015. saiba mais

Claudio Salles - claudiosalles@hotmail.com
Cidadania, comunicação e cultura

Se houvesse um slogan que pudesse definir o movimento dos radialistas comunitários este deveria ser: “sou da rádio comunitária e não desisto jamais!”. Há oito anos, quando o primeiro governo Lula foi eleito, pensávamos que os problemas envolvendo as rádios comunitárias estariam resolvidos, mas não foi o que se viu. As rádios comunitárias sofreram a pior repressão de todos os tempos.
Treze anos após a promulgação da Lei 9.612/98, que criou o Serviço de Radiodifusão Comunitária, e com a aproximação da construção do novo Marco Regulatório das comunicações é chegado o grande momento do governo dizer: “queremos ou não radio comunitária?”. Esta é a pergunta que deve ser respondida, porque se o governo e a sociedade quiserem, terão que criar condições para que este tipo de comunicação possa de fato existir.
E aí não cabe “um carinho” como vive repetindo o ministro Paulo Bernardo. Cabe, sim, implementar uma política séria de desenvolvimento deste serviço, com condições para que se consiga promover conteúdos relevantes e participativos, que possam inclusive ser uma forma de alavancar a cultura popular, a música brasileira, a indústria criativa, a educação ambiental, o desenvolvimento regional e os pequenos empresários, porque não?? Para quê um ministério que só se preocupa em restringir possibilidades e não em desenvolver? É hora de mudar isto.

Bernardo Cahuê - rgbelao@gmail.com
vagas passagens

ROCK PRA QUE(M)?

Estava conversando com uns amigos sobre o evento do mega empresário Roberto Medina, sobre algumas conclusões e insatisfações presentes após as diferentes sagas à Av. Salvador Allende. Os depoimentos me mostraram muito daquilo que já sabia: o Rock in Rio é uma mistura perfeita entre as micaretas do Pelourinho e a Disney World. Em suma, grandes distâncias percorridas, copos de cerveja custam o olho da cara, filas gigantescas para tudo, alguns pisoteamentos, brigas, desmaios, além das investidas amorosas "a la Piteco" e das encoxadas "despretensiosas". No meio disso tudo, celulares e carteiras vazias voando pra tudo quanto é lado. Na boa, curti muito o que curti quando ainda tinha coluna pra isso - porque agora a única coluna que me resta é mesmo a do Arte Jovem - mas pelo menos no momento não posso encarar as loucuras que a vida me proporcionaria (estaria eu ficando velho?)... Sim, vendi meu ingresso pros shows do dia 29 - Stevie Wonder, Jamiroquai, Afrika Bambaataa e mais uma meia dúzia de gatos pingados - e troquei por alguns poucos dias de cerva no barzinho com uns amigos, quem sabe escutando a boa (e velha?) música brasileira... Sinceramente, bem melhor!

O Espaço Convés fica na Rua Cel Tamarindo, 137 - Gragoatá - Niterói.
Mais informações, fotos das atividades e espaço para novos artistas: www.artejovem.org

outubro 02, 2011

Liberdade de manifestação do pensamento ameaçada no Amazonas e no Pará

PICICA: O professor Dr. Gilson Monteiro, da Universidade Federal do Amazonas, está indignado com toda razão. É dele o post abaixo sobre a ameaça da liberdade de expressão no Amazonas e no vizinho estado do Pará. Aqui, no Amazonas, a médica Bianca Abinader (foto abaixo), recebeu suspensão de 90 (noventa) dias de trabalho, para finalmente ser demitida do Programa Saúde da Família, da Prefeitura de Manaus, num desfecho imoral que contou com a participação da radio CBN local. A participação de Bianca, via mídia digital, de uma ação cidadã contra a Taxa do Lixo, votada pela maioria dos vereadores que apoia o prefeito Amazonino Mendes, foi elidida pelo noticiário em favorecimento da criação de um factóide grosseiramente manipulado. O pano de fundo dessa história faz parte de um roteiro conhecido: a promiscuidade entre poder público e interesses privados. Se é lamentável que o cidadão não tenha seus direitos assegurados, pior é  a lentidão das nossas entidades de classe. O Conselho Regional de Medicina demorou em defender a médica Bianca Abinader, como revela o jornalista Mario Bentes em seu blog, no post Seiscentos dias depois, CREMAM se posiciona sobre ‘Caso Bianca’. Já no Pará, a jornalista Franssinete Florenzano, servidora de carreira da Assembleia Legislativa do Estado do Pará (ALE-PA), foi exonerada depois de criticar na mídia digital o vice-presidente da Câmara Municipal de Belém. A mídia corporativa, zelosa em garantir a sua liberdade de expressão, não repercute quando a pimenta está a arder no olho dos outros. É bem verdade que no caso em que o professor Gilson Vieira foi agredido pelo irmão de uma autoridade da política regional, o caso mereceu a devida cobertura da mídia local, já que o professor, como jornalista que é, goza do prestígio de ser um respeitado analista dos processos eleitorais, seus candidatos e suas plataformas. De todo modo, em causa a ameaça ao exercício da liberdade de pensamento e sua devida expressão. Esse ranço, legado pela didatura militar, que norteia o comportamento dos políticos brasileiros, tem seus dias contados. A sociedade mudou, senhores, principalmente para aqueles que vivem de imagem. Vossa imagem está mais suja que pau de galinheiro. Depois não reclamem das urnas! No caso de Manaus, ganhará o prefeito que se comprometer publicamente em reparar a injustiça sofrida pela médica Bianca Abinader. Quanto ao jornalismo manipulador do espaço noticioso, e em cuja imagem reflete-se o jornalismo antidemocrático, são as novas gerações que dão sinais de que esse mundinho de maquinhações está com a validade vencida. Não há mais espaço para jornalismo pinóquio. Mesmo ali onde as tensões das demandas sociais, acumuladas durante o falso desenvolvimento dos modelos concentradores de renda, e embalado pela concessão desenfreada de estações repetidoras, no rádio e na TV, para atender o apetite da oligarquia midiática brasileira, ainda esteja em processo de construção, é visível o crescimento da insatisfação social com o atual modelo de comunicação no país. Daí o surgimento do movimento pela democratização da mídia, para por fim ao coronelismo midiático, sustentado pelo clientelismo político. Por enquanto, embalada no alto nível de aceitação de seu governo, Dilma Rousseff tarda em tomar a iniciativa de acolher a demanda social por uma outra mídia, plural e democrática.  

  Dra. Bianca Abinader

 

Jornalista exonerada no Pará por críticas a vereador

Enquanto nos demais lugares do mundo as ditas redes sociais (que prefiro chamar de mídias digitais), principalmente o Twitter e o Facebook, são essenciais para o processo de mobilização e participação política da sociedade, no Norte, quando não são usadas para, descaradamente, puxar o saco dos políticos e de seus parentes, as são para punir jornalistas ou quem nelas se manifestar. A médica Bia Abinader, por exemplo, fui punida com 90 dias de suspensão por criticar o prefeito de Manaus, Amazonino Mendes (PTB). Um absurdo! Um ataque insano à liberdade de manifestação do pensamento e ao direito de a médica discordar politicamente do chefe. Mas como Amazonino Mendes age de acordo com os interesses dos seus prepostos e não da sociedade, a médica foi punida. Agora, a jornalista Franssinete Florenzano, servidora de carreira da Assembleia Legislativa do Estado do Pará (ALE-PA), que está à disposição do Tribunal de Contas do Pará (TCPA), teve de optar entre exercer livremente a profissão de jornalista ou assessorar o conselheiro Luis Cunha. Tudo porque a Câmara Municipal de Belém, principalmente o 2° vicepresidente da Casa, vereador Gervásio Morgado (PR) possui ingerência inconcebível sobre as decisões do TCPA. Ele esteve, no dia 28 de agosto de 2011, nos gabinetes da presidência e da vice-presidência dessa Corte e exigiu, aos gritos, a exoneração da servidora, por não aceitar notícias críticas veiculadas no blog dela. Como pode um reles 2° vicepresidente da Câmara dos Vereadores tenha tanta ingerência junto ao Tribunal de Contas de um Estado? É inaceitável a coação moral e a violência psicológica sofrida pela jornalista paraense. A jornalista Franssinete Florenzano desabafou: “Nem preciso lhe dizer que escolhi a minha dignidade e o livre exercício da profissão e de manifestação e expressão como cidadã, como a Constituição me garante. Também avisei que vou desmentir publicamente se aparecer na minha exoneração “a pedido”. Não tive escolha, foi coação moral. Eu teria, veja só, que tirar do ar o blog, o site, e até os meus perfis no twitter e no Facebook! Disse ao conselheiro que sempre fui honesta justamente para que ninguém pudesse me chantagear. Não aceito essa violência e não me submeto a tramóias e conveniências políticas. Estou esperando a qualquer momento minha exoneração. Mas volto para a Alepa de cabeça erguida. A herança da minha filha será o exemplo de trabalho e caráter que deixarei a ela.” E nós, que sempre defendemos os direitos constitucionais e a liberdade de expressão, vamos fazer o quê? Vamos ficar calados, parados, “esperando a morte chegar”, como diria Raul Seixas? Ou reagimos ou os crápulas, os imbecis e os medíocres nos engolirão.

Manual para crear falsos movimientos ciudadanos


PICICA: É tiro e queda, como se diz no Brasil.

Cómo crear un falso movimiento ciudadano en diez sencillos pasos

Manual para diputados, empresarios y en general cualquiera que desee imponer leyes impopulares o una candidatura.

Ingredientes. Necesitarás:
  • Dinero. Cuanto más tengas, mejor.
  • Buenos contactos en todo tipo de medios de comunicación
  • Uno o dos sparrings que den la cara por tí. Nota: es importante que estén convencidos de verdad.
  • Un diseñador web, un diseñador gráfico, un community manager de redes sociales, un editor de videos (Nota: puede ser la misma persona)
Receta:
  • 1. Crea una página web, da igual el nombre. En el apartado de "quiénes somos" escribe algo tipo "un grupo de ciudadanos apolíticos". (Nota: es importante que repitas mucho las palabras "apolítico", "apartidista", "ciudadano"; el orden en que las uses es indiferente y cuanto más aleatorio mejor).
  • 2. Enlaza tu web con todas las redes sociales disponibles: Twitter, Facebook, Youtube... Ten tus redes siempre actualizadas (usa a tu community manager para ello).
  • 3. Saca tu propuesta "apolítica". (Nota: tu "movimiento ciudadano" perseguirá sea una legislatura o una ley, pero tú sostendrás SIEMPRE que es apolítico. No te preocupes, nadie se va a dar cuenta. No dejes de dar la impresión de que representas a todos.)
  • 4. Llama a todos tus contactos en prensa y medios de comunicación. Compra notas, reportajes y videos sobre tu movimiento ciudadano. Publicita ampliamente estas notas en las redes sociales para dar la impresión de gran relevancia social.
  • 5. Si alguien te pregunta a quién representas (cosa harto improbable) refiérete a las redes sociales y a tu página web. Si las preguntas llegaran a hacerse molestas (cosa todavía más improbable) utiliza tu presupuesto en trolls en las redes sociales. Importante: deja siempre el insulto a tus trolls. Tú no debes ensuciarte las manos insultando a nadie, jamás. Si comienzas a ser cuestionado, haz que tus trolls utilicen adjetivos como "chairo", "tontos", "locos", "ignorantes", "porros", "pejistas", etc., para descalificar sus críticas. Jamás aceptes críticas.
  • 6. Utiliza tu presupuesto en banners en medios digitales, pancartas, espectaculares en la calle, etc. Hazte todo lo visible que puedas.
  • 7. Cuélgate de otros movimientos sociales, especialmente si también se disfrazan de "apolíticos". Por ejemplo, y para reducir costes, puedes situar una pancarta de tu movimiento apolítico en el templete donde otro movimiento apolítico vaya a hacer un evento. Si dispones de más presupuesto también puedes organizar festivales universitarios apartidistas, patrocinar congresos, etc. Recuerda: ¡sé creativo, no hay límites!
  • 8. Tips de comunicación: utiliza planos muy cerrados en tus videos, para que dé la impresión de que hay mucha gente aunque no la haya. Utiliza música en tus videos y trata de que tengan un look moderno. No te será difícil conseguir quien lo haga: las universidades cuentan con extensas bolsas de estudiantes muy bien preparados ansiosos por demostrar su talento. Si lo haces bien, quizá ni siquiera necesites pagarle a tu editor de video.
  • 9. Utiliza un discurso ambiguo, de tintes ligeramente sociales. No olvides que lo más importante es rentabilizar el descontento frente a la clase política. Habla mal de los políticos siempre (en general) pero no critiques directamente a tu partido político. Si necesitas dar un ejemplo, utiliza siempre a la oposición. Utiliza un lenguaje ciudadano: tipo "pinches políticos", "pinches ratas", etc. Trata de no hacer evidente tu filiación política-empresarial. Recurre a la generalización, descalificación, burla y como último recurso, el insulto.
  • 10. Si sigues estos sencillos pasos, lograrás rentabilizar el enojode una veintena de ciudadanos a favor de tu causa. Esto generará la impresión de que tu causa es apoyada por más gente. Estos ciudadanos viralizarán tu campaña en redes sociales, y lo mejor de todo es que lo harán...¡gratis!
Fonte: Europa en llamas

Pedro e os Lobos está na final do Jabuti 2011

PICICA: “Existe um enorme preconceito por parte da grande imprensa e das redes de livrarias em relação a obras literárias produzidas de forma independente. Com este aval dado pelos jurados do Jabuti, colocando meu nome ao lado de grandes ícones do jornalismo literário, como Laurentino Gomes, Luís Fernando Veríssimo, Zuenir Ventura e Ricardo Kotscho, ganho a possibilidade de tentar quebrar essas barreiras”.


Pedro e os Lobos está na final do Jabuti 2011

O livro Pedro e os Lobos – Os Anos de Chumbo na trajetória de um guerrilheiro urbano, do jornalista João Roberto Laque,
acaba de ser indicado para a final do mais tradicional prêmio literário brasileiro

Em apuração realizada pela Câmara Brasileira do Livro no último dia 21, Pedro e os Lobos foi apontado como um dos finalistas ao Jabuti na categoria livro-reportagem. E a indicação vem a calhar num momento em que o país é governado por uma ex-companheira de Pedro Lobo na luta armada e se discute a implantação de uma comissão da verdade no Congresso para apurar os crimes acontecidos durante a ditadura militar.

A obra narra, com linguagem ágil e envolvente, todo o período que vai da posse de Jânio Quadros ao fim do governo João Figueiredo. E, para levar ao leitor um painel dos Anos de Chumbo a partir da ótica da guerrilha, o autor usa como fio condutor a vida de Pedro Lobo de Oliveira, um dos mais aguerridos combatentes urbanos da época.

Laque diz que a maioria dos brasileiros ainda desconhece os detalhes da guerra travada entre os combatentes da esquerda armada e os militares nesse período. “Na última campanha presidencial, por exemplo, cansei de ouvir a frase:  Se a Dilma foi presa no passado, é porque alguma coisa ela fez. Então, essa mulher não pode ser presidente do Brasil! Isso é fruto de pura desinformação.”

O jornalista acredita que, a partir dessa indicação e do possível prêmio, seu trabalho ganhará mais visibilidade. “Existe um enorme preconceito por parte da grande imprensa e das redes de livrarias em relação a obras literárias produzidas de forma independente. Com este aval dado pelos jurados do Jabuti, colocando meu nome ao lado de grandes ícones do jornalismo literário, como Laurentino Gomes, Luís Fernando Veríssimo, Zuenir Ventura e Ricardo Kotscho, ganho a possibilidade de tentar quebrar essas barreiras”.

Saiba mais sobre o livro acessando:


outubro 01, 2011

O governo nega, mas na prática flexibiliza normas para enfrentar a "epidemia" de crack

PICICA: A título de combate ao crack, o governo federal flexibiliza as normas da assistência à usuários de drogas, em meio à precarização do setor. Vitória do lobby das comunidades terapêuticas. Pagaremos caro por esse pragmatismo político, que cede às pressões da mídia corporativa e ao fundamentalismo religioso. Nessa nova versão de luta contra as drogas, ironicamente, o governo adota o conceito de "redução de danos", com a devida licença poética dos companheiros que atuam no setor. Para contemplar gregos e troianos, adequa normas ao improvável caráter terapêutico das comunidades e clínicas para drogados. Lástima! Isente-se de responsabilidade dos companheiros da atual Coordenação Nacional de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, que sequer foram ouvidos. Eles foram atropelados por um trator palaciano.


Palácio do Planalto ainda não recebeu o movimento antimanicomial para tratar da questão drogas/comunidades terapêuticas

PICICA: Em meio a graves denúncias de irregularidades no funcionamento das comunidades terapêuticas para usuários de drogas, Dilma Rousseff recebeu federações e representação do setor e deu um passo comprometedor no campo do saúde mental, pondo abaixo as decisões da IV Conferência Nacional de Saúde. O gesto presidencial surpreendeu o movimento antimanicomial, que até agora não conseguiu agenda para audiência no Palácio do Planalto. É bom registrar que a passagem ao ato da regulamentação e investimento num setor que oscila entre o privado e o filantrópico - nem por isso menos privado - tem responsabilidades anteriores ao atual governo. Passa pela dura legislação anti-drogas da ditadura militar, cresce com a privatização do setor no período da democratização e desenvolve-se em meio a precariedade dos investimentos nos últimos governos, que, incapaz de dar consistência às políticas públicas, vê, impotente, o acúmulo de problemas médico-sociais a bem reclamar por soluções mais criativas, para além da repressão jurídico-policial vigente no território nacional. Neste cenário, as tais comunidades, ditas terapêuticas, cresceram à sombra da ausência de políticas públicas que dotassem o país de uma rede de serviços com profissionais qualificados para lidar com a face perversa da criminalização crescente dos usuários, alimentada por uma máquina de propaganda antigovernamental em que se transformou parte da mídia, depois que a oposição brasileira perdeu o rumo no campo do debate político. Papel importante tem sido desempenhado pelo neopentencostalismo que se disseminou no país, ao dar a sustentação moral para medidas de caráter salvacionista. Sem aprofundar o debate, este segmento mal disfarça os interesses da teologia da prosperidade em que se baseiam. Com a leniência dos governos, tem-se uma ótima oportunidade para extrair bons dividendos no mercado das almas aflitas. Há quem aponte um outro fator no imbroglio em que nossos governos nos submetem. Muito se fala da criminosa manipulação contra a CPMF, liderada pela coligação demo-tucana. Que ela poderia ter dado um outro rumo na história da saúde pública brasileira, vergonhosamente sem recursos para a manutenção de uma das maiores conquistas das classes trabalhadoras: o Sistema Único de Saúde. O argumento não se sustenta. O país foi levado, historicamente, a um esgotamento tributário. Temos uma das economias com a mais alta taxa de cargas tributárias do mundo, sem que nenhum governo tenha assumido o compromisso de realizar uma reforma que deixe de espoliar o contribuinte. Resumo da ópera: continuaremos reféns das manobras dos lobbies, seja para criar novos CPMFs, ou para a instituição de medidas antidemocráticas, como a que atropelou usuários, familiares e técnicos reunidos em conferência nacional no campo da saúde mental.     


"A legalização do aborto e a legalização da mulher" (Blogueiras Feministas)

PICICA: "Discutir o aborto num universo imaginário onde os humanos são perfeitos é uma coisa instigante do ponto de vista filosófico, principalmente se adicionado o cunho religioso. Na prática, o que a gente discute é se mulher pobre tem que morrer ou ser presa para fazer a mesma coisa que mulher rica já faz no Brasil."

Blogagem coletiva e #legalizaroaborto nos TTs o dia todo, a noite toda. Drauzio Varella, homem da saúde e conhecedor da vida, foi um alento a uma discussão que muitas vezes descambou. Lançou luz sobre o óbvio, o evidente: o aborto já é legalizado para as ricas no Brasil. As pobres é que morrem ou sofrem para provar que foram estupradas, que podem morrer.
Discutir o aborto num universo imaginário onde os humanos são perfeitos é uma coisa instigante do ponto de vista filosófico, principalmente se adicionado o cunho religioso. Na prática, o que a gente discute é se mulher pobre tem que morrer ou ser presa para fazer a mesma coisa que mulher rica já faz no Brasil.
Talvez ninguém seja a favor do aborto. E nenhuma mulher quer passar por essa experiência, que deve ser terrível. Mas os seres humanos não são perfeitos e muita gente tem que passar por isso.

Ato da Frente Nacional contra a criminalização das mulheres e pela legalização do Aborto. São Paulo/2010. Imagem: Marcha Mundial das Mulheres
O twitter ficou inundado de gente falando sobre anticoncepcionais e possibilidade de dar uma criança para adoção como se esses dois assuntos guardassem realmente, no mundo real e não no imaginário, uma relação de causa e efeito direta com o aborto.
Mas tem um ponto importante que é o fato de a legalização do aborto colocar nas mãos da mulher e unicamente da mulher uma decisão desse calibre. Significa reconhecer que a mulher é capaz de tomar decisões conscientes em situações limite. E é difícil demais tirar das mãos do Estado e da Igreja uma decisão e repassar às mulheres de todo o Brasil.
No blog do Núcleo Pão e Rosas tem um mapa sobre o aborto, que é auto-explicativo. Se um grupo tem Estados Unidos, França, Holanda, China, Rússia e o outro tem Iêmen, Líbia, Arábia Saudita e Mauritânia, acho que não precisa explicar. Ah, o Brasil está no segundo grupo e com requintes de crueldade.
A Arábia Saudita, que proíbe a mulher de dirigir e viajar e impõe castigos físicos para desrespeito aos costumes, permite o aborto para preservação da saúde da mulher. O Brasil não. Aqui não importa a saúde da mulher e as sequelas de uma gestação problemática: o aborto só é permitido se a mulher for morrer.
A Argélia, que já foi criticada na ONU por negar direitos às mulheres e permite que um homem tenha 4 esposas, permite aborto em caso de abalo psicológico da mulher. O Brasil não. Aqui abalo psicológico de mulher se chama frescura.
Na verdade, pouco importam as exceções criadas por aí. Eu acredito que cada mulher, no seu íntimo, é capaz de decidir o melhor em uma situação tão dura e tão triste quanto essa de ter que cogitar um aborto. Não é preciso nem justo tutelar as mulheres, dizer a elas o que fazer numa situação em que a decisão é tão íntima, tão importante e tão difícil. É preciso dar apoio para que ela seja capaz de construir a melhor decisão.
As mulheres são capazes de lutar contra tudo, até contra as probabilidades, para criarem sozinhas seus filhos numa sociedade que não exige do homem que seja pai nem pune o homem quando finge que não é pai. Essas mesmas mulheres também são capazes de decidir quando, infelizmente, não é possível fazer isso ou fazer isso de novo. Talvez o que falta realmente seja legalizar a mulher.

"Greve dos professores no Ceará: uma contribuição ao debate", por Bruna Dantas


PICICA: "Estamos vivendo um momento histórico na educação brasileira. A lei nacional do piso salarial dos professores, promulgada em 2008, após dois anos de espera pelo julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da ação de inconstitucionalidade impetrada por cinco governadores, dentre eles o do Estado do Ceará, Cid Gomes, foi declarada completamente constitucional pelo referido tribunal."

Greve dos professores no  Ceará: uma contribuição ao debate


por Bruna Dantas

Estamos vivendo um momento histórico na educação brasileira. A lei nacional do piso salarial dos professores, promulgada em 2008, após dois anos de espera pelo julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da ação de inconstitucionalidade impetrada por cinco governadores, dentre eles o do Estado do Ceará, Cid Gomes, foi declarada completamente constitucional pelo referido tribunal.
Em face da resistência do governo em cumprir a lei respeitando a carreira, os professores do Estado do Ceará decretaram greve a partir do dia 5 de agosto de 2011. A reivindicação central do movimento paredista é a implementação da Lei Nacional do Piso Salarial (Lei nº 11.738/08) na atual carreira (Lei nº 12.066/93). Passados quase dois meses, os professores permanecem em greve, pois a referida reivindicação ainda não foi atendida.
Podemos elencar os pontos centrais da lei do piso salarial dos professores:
  • Conceito de piso: “O piso salarial profissional nacional é o valor abaixo do qual a União, os Estados e os Municípios não poderão fixar o vencimento inicial das Carreiras do magistério público da educação básica, para a jornada de, no máximo, 40 (quarenta) horas semanais.” Art. 2º § 1º;
  • Valor do piso: Quando da promulgação da lei, em 2008, foi fixado um vencimento básico inicial de carreira de R$ 950,00, tendo como referência o professor com formação de nível médio;
  • Índice de reajuste: O piso deverá ser atualizado anualmente em janeiro. A atualização deverá ser feita utilizando-se o mesmo percentual de crescimento do valor anual mínimo por aluno referente aos anos iniciais do ensino fundamental urbano;
  • Tempo de planejamento: A lei determina o máximo de 2/3 da carga horária para o desempenho das atividades de interação com os educandos.
– Por que os professores permanecem em greve? –
Apesar do que tem sido veiculado pela mídia, após reunião dos professores com o governador Cid Gomes, que se realizou no último 22 de setembro, não houve compromisso por parte do governo em garantir as principais reivindicações da categoria.
A lei do piso salarial fixou um vencimento básico mínimo inicial para as carreiras, tendo como referência os professores com formação de nível médio. Hoje, esse valor devidamente atualizado, é de R$ 1.597,87. A lei determina o piso para o professor com formação de nível médio, porque os Estados e municípios ainda têm em seus quadros professores que não têm nível superior. De forma que as carreiras iniciam pelo nível corresponde à formação de nível médio.
Falando especificamente da atual carreira dos professores do Estado do Ceará, a mesma é composta por 30 níveis. O nível 1 da atual carreira corresponde ao professor com formação de nível médio. Os professores graduados estão no nível 13, os especialistas, nível 21, os mestres, nível 25 e doutores, nível 28. Os interstícios entre os níveis correspondem a uma diferença de 5% e à medida que o professor avança na carreira, tem aumentos correspondentes. Essa explicação se faz necessária para que se compreenda qual omaior gargalo nas negociações com o governo do Estado.
Sendo o piso o vencimento inicial da carreira e tendo os professores cearenses uma carreira, que é a lei nº 12.066/93, o que seria lógico? Que o governo aplicasse o piso para a referência 1 da carreira (referência inicial), repercutindo, consequentemente, em todos os demais níveis.
Porém, o governo tem a interpretação de que o piso salarial é somente para os professores que têm formação de nível médio. Hoje, a ampla maioria dos professores do Estado do Ceará tem formação de nível superior, muitos têm especialização, mestrado ou doutorado. Segundo o governo do Estado, são apenas 114 professores na ativa que têm nível médio de um total de 14 mil.
O governador Cid Gomes assume que vai cumprir a lei para os 114 professores que têm formação de nível médio, e para não valorizar os outros professores (ressalte-se, a imensa maioria da categoria), pretende mudar a carreira.
Mas será possível sustentar que uma lei que foi resultado de anos de luta de professores e professoras, que tem como objetivo básico valorizá-los, por entender que sem isso não se pode avançar no nosso atual quadro educacional, deve ser aplicada somente a 114 professores em um universo de 14 mil?
Respondemos que não. A lei do piso salarial deve valorizar toda a carreira. E não estamos reivindicando nada excepcional, apenas que o governo mantenha nossa carreira atual, que é uma lei de 1993, e que aplique nela o piso salarial.
Infelizmente, parece que o governo quer nos dar com uma mão e tirar com a outra. Sua intenção, demonstrada em reunião com os professores, e registrada em ata, é desvincular as carreiras de nível médio e superior, ou seja, destruir nosso atual plano de cargos e carreiras.
Isso implicará em que os professores que têm nível superior, a grande maioria, não terão nenhuma repercussão em seus vencimentos com a aplicação do piso salarial. Isso é mais inaceitável quando lembramos que anualmente o piso será reajustado em janeiro. Ora, ao fazer a desvinculação das tabelas de nível médio e superior, isso significará que professores graduados e pós-graduados nunca terão direito aos devidos reajustes fixados na lei do piso salarial. E uma lei que teve por intenção valorizar a carreira não terá nenhum efeito para a imensa maioria dos professores.
Há discordância, também, quanto ao valor atual do piso. O valor atual, calculado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), é de R$ 1.597,87, e aquele orientado pelo MEC é de R$ 1.187,00. Lembrando que o MEC não legisla, a nossa luta é pelo piso de R$ 1.597,87, valor este que foi calculado a partir do índice de reajuste estipulado pela lei — ponto, aliás, que jamais foi questionado no STF, estando em pleno vigor desde 2008.
Quanto ao 1/3 da jornada de trabalho para atividade extraclasse, houve avanço nas negociações com o governo do Estado. Nas reuniões com os professores, o governo comprometeu-se a implementar gradativamente o 1/3 de planejamento, garantindo, inclusive, concurso público em 2012, para que tal medida possa ser concretizada.
Por fim, queremos dizer à sociedade que entendemos que a greve acarreta prejuízo a todos, mas que é instrumento legítimo da classe trabalhadora na luta por educação púbica de qualidade.
Professora da rede estadual básica de ensino do Ceará.

Bruna Dantas
Fonte: Amálgama