novembro 02, 2012

"Arte e multidão", resenha escrita por Bruno Cava

PICICA: "No capitalismo, governa-se o excedente e paga-se literalmente o mínimo necessário. Ir além do trabalho necessário, exceder-se — das necessidades como conformação a uma natureza determinista e determinada de fora, adstrita às limitações de uma consciência moral, — consiste no primeiro passo para o momento especial da criação. Logo, da afirmação de subjetividade, que então se propaga em novos processos cruzados de individuação e coletivização — singularização.

Para Negri, arte é excesso de vida convertido em imaginação, que se exprime imediatamente na realidade como construção e reinvenção do comum." 

Arte e multidão
Resenha de NEGRI, Antonio. Art & multitude. Cambridge: 2011, Polity.



A arte não acontece descolada do sistema de produção. Qualquer fabricação, ação, acontecimento ou crítica de arte passa, necessariamente, pela organização das forças produtivas. Por “sistema produtivo”, aqui, se adota uma concepção ampla. Mais do que a produção de sujeitos e objetos, é um conceito radicalmente construtivista. O sistema produtivo é o que cria o próprio mundo, natureza e cultura; é subjetividade em estado fluido, dinâmico, disforme. É uma essência atuante, um campo de forças a partir do que se podem constituir e desconstituir as formas de vida, as perspectivas, os regimes expressivos e as relações sociais. Para Negri, a produção não se esgota no produtivismo, que é sobredeterminar a produção por seu aspecto econômico. A produção neste sentido negriano não se subordina a uma lógica — economicista, politicista ou culturalista que seja. Produção tem um caráter ontológico. Baseia-se nas mutações incessantes do trabalho vivo — o núcleo conceitual da filosofia da práxis constituinte. O trabalho vivo reúne as qualidades de cooperação, criatividade, procriação, comunicação e imaginação; o que condiciona uma ética e uma política. Pesquisar o lugar do trabalho vivo convoca certa antropologia, uma etnografia dos processos produtivos de subjetividades, em suma, uma copesquisa, militante e perspectivista, capaz de ativar pontos de vista e, a partir deles, construir o comum das diferenças e singularidades — uma força política composicional.

A arte é expressão do trabalho vivo. Como tal, vem primeiro de qualquer captura. A captura da arte para finalidades diversas ocorre sempre depois. Estas podem ser o mercado, a linha do partido, o futuro da nação, a didática “revolucionária”, o recesso do museu, a egolatria do Artista ou o narcisismo do colecionador. A captura mais usual, pelo mercado, transforma o trabalho vivo em valor, isto é, submete a turbulência da criação artística, domestica-a, e então confere um valor, coloca-a na circulação de sujeitos e objetos formatados pelo capital.

Mas esse processo vem depois. O antecedente ontológico da captura não deixa de ser a criação viva. Porque o capital não cria nada por si mesmo. Não é autônomo. O comum é quem cria, na contingência de sua historicidade, segundo as formas do viver juntos e viver bem. A imaginação resulta de um excedente decorrente desse viver mais. É fundamental que haja o ‘mais’. Sem surplus, o sujeito acaba fabricado somente por suas necessidades. No capitalismo, governa-se o excedente e paga-se literalmente o mínimo necessário. Ir além do trabalho necessário, exceder-se — das necessidades como conformação a uma natureza determinista e determinada de fora, adstrita às limitações de uma consciência moral, — consiste no primeiro passo para o momento especial da criação. Logo, da afirmação de subjetividade, que então se propaga em novos processos cruzados de individuação e coletivização — singularização.

Para Negri, arte é excesso de vida convertido em imaginação, que se exprime imediatamente na realidade como construção e reinvenção do comum.

A arte não exprime o seu tempo histórico. Não tem a ver com o Espírito do Tempo. Pesquisar-lhe as condições, apesar disso, é necessário para fazer a arte. A relação da arte com a história é a mesma entre o intempestivo e o tempo cronológico. Fura o tempo histórico, estilhaçando tudo o que nele é estático, amortecido, suas regularidades e suas mesmerizações. É ruptura. Se a arte não está perturbando ninguém, tem algo errado. O intempestivo da arte define sua própria medida — é, portanto, desmedida no tempo e espaço existentes, cria-se enquanto medida própria, incomensurável aos valores já existentes, a ser compilados apenas por funcionários — jamais artistas. O artista, — que qualquer um pode ser enquanto composição do trabalho vivo, — vive o próprio tempo além dele. Está no presente mas morde a borda do futuro. Não há telos senão kairós.

O artista não renuncia à contingência. Coloca-se na crise e a vive em sua loucura e exasperação. Das crises, se multiplicam vanguardas, que importam menos por seus programas e diktats, do que pelo desejo de selvagem recriação de todo o existente. A arte não pode dizer para onde vai, mas ela tem que ir — ou não perseverará. Essa ida sem volta é revolucionária nos mesmos termos que o trabalho vivo: quando desborda das necessidades e limites externos. O capital precisa seguir a produtividade da arte, e adaptar-se para continuar subordinando e explorando, — e não o inverso. A arte é primeira.

Qual o diagnóstico das forças produtivas hoje?

Vivemos a abstração derradeira. A capitalização comprime o futuro no presente, o tempo das finanças quando a vida está toda ela, inclusive em sua virtualidade, subsumida. O mercado mil vezes liquefeito do capitalismo globalizado e integrado. A realidade sólida do vazio: o dinheiro sem nenhum peso, acelerado à velocidade da luz. A sucessão incessante de formas fantasmáticas configura a nova condição do ser. Menos a abstração da verdade, do que a verdade do abstrato. Somos o abstrato, a sua mais maravilhosa consumação. O que fazer? Voltar? Se o abstrato cobre como segunda pele, não há mais pele anterior para regressarmos. Nada por debaixo que possa nos redimir. Nenhuma nostalgia do concreto, nenhum elo perdido do valor de uso.

Um critério ético se coloca para a criação, com três possíveis posicionamentos.

Primeiro, o niilismo eufórico, que comemora a enchente do abstrato. Apólogos de tudo que é fluxo e singular, uma mera reiteração acrítica do idêntico em movimento uniforme. É o autômato chinês. O niilista artístico se aninha nas rachaduras e dobras do vazio, e então o parasita. Facilmente vendável e ultimamente cínico. É a arte reduzida a joguete estético, o comum reduzido (e assim mais uma vez drenado) no capital simbólico, seus memes, sua fusão com o tempo histórico. Cronos da conservação.
Segundo, quem o vazio assombra. Teóricos do espetáculo, da indústria cultural ou da sociedade de consumo, — de qualquer Moloch abissal que tenha dominado tudo e lamentam não haver mais o que fazer de substantivo. Escoaram-se para sempre os momentos em que ainda poderíamos acreditar em nossa libertação. Tudo é corrupto. Tudo é profanado. Esses nostálgicos de uma utopia retrógrada. E cúmplices da posição anterior em seu niilismo passivo. Resultam daí o pesadelo, a covardia e a resignação. É a noite insuperável dos catastrofistas. Acuso-lhes sobretudo a falta de imaginação.

“A diferença entre reacionários e revolucionários está em que os primeiros negam a massiva vacuidade ontológica do mundo, enquanto os últimos a afirmam; os primeiros operam na retórica; os últimos, na ontologia. (…) somente estes apreendem o mundo na prática e podem exercer a sua crítica, porque reconhecem que fomos nós que fizemos este mundo, inumano como ele é.” [p. 22]
Terceiro, afirmar o vazio, e da borda do precipício preenchê-lo de novo ser. O comum preenche as formas vazias do capital. É o construtivismo radical do comum, da arte como trabalho vivo, antimercado e antiniilista. Tarefa de uma ontologia materialista: reapropriar-se positivamente da abstração. Construir o ser como ritmologia no silêncio, uma explosão que faz uso das abstrações dando-lhes outro sentido. Só reclama da falta de sentido da vida quem não é forte o suficiente para criá-lo (N.) — tarefa antes coletiva. Eis repetição com diferença: ritmo com estilo.

O abstrato enfim não é prerrogativa do capital. Não há classe sem uma abstração determinada pela rede de antagonismos, produtividades e diferenças reais. Só assim, na abstração potente de que o comum se apropria, o intempestivo rasga um novo ser no tempo-espaço mesmerizado. Essa também é uma ruptura na métrica homogênea do mercado. Se o biopoder opera no abstrato subsumindo a vida, a biopolítica age no outro sentido: é a vida subsumindo o abstrato. É a própria condição da multidão, um modo biopolítico imanente, cooperativo e liberto, que o trabalho vivo corporifica.

O confronto entre as forças organizadas do comum e as do capital se desenvolve sobre o deserto do próprio abstrato. Hoje, só no abstrato, — por onde passam as forças e se inscrevem os agentes no sistema produtivo contemporâneo, — a arte pode agir, e inclusive já age, como trabalho da multidão.

Fonte: Quadrado dos Loucos

"Prática higienista", por Vivian de Almeida Fraga, Charles Toniolo e Alice Marchi

PICICA: "Com a promulgação da Lei 10.216/2001, que estabelece um novo paradigma de cuidado em oposição à logica manicomial, fica instituído que "a internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes" (artigo 4º), sendo de responsabilidade do município a implementação de tais serviços." 

Prática higienista 

Prática higienista  

Por Vivian de Almeida Fraga, Charles Toniolo e Alice Marchi 

A internação compulsória de adultos — bem como a de crianças e adolescentes — em situação de rua em suposto uso de drogas no Rio é um retrocesso em diversos campos. A complexidade do tema tem feito com que vários atores da sociedade civil e do poder público se posicionem contra este tipo de ação — sem, no entanto, obter qualquer acolhimento da administração municipal.

Estas operações reeditam uma velha prática higienista: o recolhimento compulsório da população em situação de rua — desta vez vinculada ao grande vilão do momento, o crack.

Com a promulgação da Lei 10.216/2001, que estabelece um novo paradigma de cuidado em oposição à logica manicomial, fica instituído que "a internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes" (artigo 4º), sendo de responsabilidade do município a implementação de tais serviços.

As operações em questão, além de tratarem essa população de forma massificada e violenta, consomem recursos públicos que deveriam ser utilizados para financiar os serviços abertos que promovam a autonomia, a cidadania e a inclusão social previstos em lei.

Assumir a internação compulsória como política pública é reconhecer que o município não investe em serviços especializados. Como pensar em tratamento se não há uma rede? No Rio, para cada 1,2 milhão de habitantes existe apenas um Centro de Atenção Psicossocial para usuários de álcool e outras drogas (CAPSad). Em Recife, essa proporção cai para 250 mil habitantes.

Os recursos públicos deveriam ser aplicados na abertura de mais CAPS (AD, infantil e 24 horas) e serviços como urgência, emergência e atenção hospitalar; residências terapêuticas; centros de convivência; equipes da Estratégia de Saúde da Família; consultórios de rua e Núcleo de Apoio à Saúde da Família. É preciso ampliar a rede de serviços da assistência social, como os Creas (Centros de Referência Especializados da Assistência Social) e o Centro POP. Investir em habitação, geração de emprego e renda, esporte e lazer para garantir a prevenção.

Não se trata de inventar a roda: existem alternativas concretas para o atendimento humanizado e pautado na garantia de direitos da população. O que ainda falta é a abertura de espaços de interlocução do poder público com os diferentes atores sociais — o que se espera de um estado democrático de direito.

VIVIAN DE ALMEIDA FRAGA é presidente do Conselho Regional de Psicologia/RJ;
CHARLES TONIOLO DE SOUZA é presidente do Conselho Regional de Serviço Social/RJ;
ALICE DE MARCHI P. DE SOUZA é membro da Frente Estadual Drogas e Direitos Humanos.

Fonte: O Globo .


Fonte: Cebes

Canal Ibase: 'A pistolagem está instituída'; Preservação da natureza na pauta de todos; As creches cidadãs ao redor de Brasília

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picture ‘A pistolagem está instituída’
Para defensor dos direitos indígenas, violência contra os Guarani-Kaiowá no MS é fruto de uma longa história de descaso do Estado brasileiro com estes povos.
Ante a crise mundial, mineração se reprimariza

Em resposta à queda na demanda de ferro e nos lucros, empresas mineradoras aumentam oferta de aço in natura. Leia artigo de Carlos Bittencourt, do Observatório do pré-sal.
Trabalhe, você está sendo filmado

Número crescente de iniciativas fazem uso da tecnologia para ampliar o monitoramento das atividades políticas e contribuir para o fortalecimento da democracia.
Preservação da natureza na pauta de todos
Ativistas de movimentos sociais debatem estratégias para um novo modelo civilizatório que faça frente ao capitalismo e às crises socioambientais por ele produzidas.
As creches cidadãs ao redor de Brasília
'Sonhos de Cidadania' mostra os obstáculos enfrentados pelas creches comunitárias que suprem a ineficiência do Estado.

Radioagência NP: Não aumentou o número de negros no Enem, aumentou a identificação racial, avalia ativista; Manifestação da UNE no Congresso pede 100% dos royalties do petróleo para educação. Eleições 2012. Quem ganha e quem perde

 
DESTAQUE
 
Dos 5,7 milhões de participantes da edição de 2012 do Enem, mais da metade são negros.
 
MAIS ÁUDIOS
 
O levantamento é referente a janeiro a setembro de 2012 e foi divulgado pela Organização Nacional Indígena da Colômbia.
 
Após o ataque, funcionários do Incra prometeram agilizar o processo de regularização das fazendas.
 
O ato ocorreu na manhã desta quarta-feira (31) e contou com a participação de mais de 300 jovens.
 
A iniciativa é inédita no país, como apontou o Conselho de Educação do DF, órgão que aprovou a resolução.
 
COMENTÁRIO
 
César Sanson: "As análises recorrentes dão conta de que o cenário de 2014 a partir dos resultados de 2012, salvo acontecimentos excepcionais, já está mais ou menos delineado".
 
ENTREVISTA
 
A professora Marcilia Medrado Faria, da Faculdade de Medicina da USP, afirma que empresas não seguem a legislação da saúde ocupacional nesta área.

Grupo Tortura Nunca Mais: "Memória da ditadura: o desafio ético de resgatar a história clandestina"; Sentença da Corte IDH: Brasil é obrigado a investigar e punir os crimes da ditadura militar

Grupo Tortura Nunca Mais-RJ

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Lançamento: Seu amigo esteve aqui
Após 27 anos de retorno à democracia, o Brasil ainda luta para desenterrar e reconstituir uma dolorosa história de crimes e desaparecimentos passada nos porões do regime militar. Seu amigo esteve aqui faz parte desse árduo trabalho de investigação. Dirigente da organização clandestina de esquerda VAR-Palmares, e desaparecido aos 31 anos, Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, codinome Breno, é o protagonista dessa história arrebatadora.
Rio de Janeiro
Dia 12 de novembro de 2012, segunda
19h30: debate pela Quinzena de literatura latinoamericana, "Memória da ditadura - o desafio ético de resgatar a história clandestina", com Álvaro Caldas, Sérgio Ferreira e Cristina Chacel
20h30: sessão de autógrafos
Livraria da Travessa/ Leblon
Av. Afrânio de Melo Franco 290 / Shopping Leblon
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Nota do GTNM/SP
O Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo está indignado e profundamente preocupado com a escalada de violência e mortes que vêm acontecendo em São Paulo nos últimos meses - e que se intensificou de maneira desmedida nesta última semana quando, segundo a imprensa, foram executadas 50 pessoas a tiros. Em comum, esses assassinatos ocorreram em bairros pobres de São Paulo, da Grande São Paulo e da Baixada Santista, além da cidade de Ribeirão Preto.
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GTNM/RJ em Estado de Reunião Pernanente
Muito embora a história humana revele a luta pela liberdade, a Comissão da Verdade, instituída pelo princípio do sigilo, arrisca fazer predominar no Brasil a versão do silenciar para não punir, substância da lei militar que mantém os métodos da violência contra a sociedade, mesmo que intitulada de Anistia.
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A Comissão da Verdade e o Sigilo da Ditadura
A Comissão Nacional da Verdade recentemente instalada, em pouco tempo vem mostrando seus reais objetivos, seus perversos limites, já apontados pelo Grupo Tortura Nunca Mais/RJ.
Estamos assistindo nos grandes meios de comunicação argumentações sobre as "vantagens" de ser esta uma Comissão que não tem poder para remeter à justiça provas para a responsabilização dos crimes cometidos durante o período da ditadura civil-militar, o que poderia estimular agentes da repressão a falarem. E, por isto mesmo, tem poder para tornar sigilosas as informações e depoimentos, se assim considerar necessário.
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Prezados usuários do Projeto Clínico-jurídico TNM
A Diretoria do GTNM/RJ informa a todos os atendidos pelo Projeto Clínico-Jurídico Tortura Nunca Mais que estamos passando pela pior crise financeira de nossa existência. O Projeto funciona desde 1991 com subsídios de organizações multilaterais - que captam doações para causas de Direitos Humanos e selecionam entidades ao redor do mundo para receberem apoios para realização de trabalhos com pessoas atingidas por violações. A principal destas é o Fundo Voluntário das Nações Unidas para Vítimas de Tortura (UNVFVT). Temos ainda apoios menores e pontuais vindos da Anistia Internacional Sueca e do Fundo OAK (operado pelo IRCT- a "rede internacional para reabilitação de vítimas de tortura" - da Dinamarca). Todas estas baseadas na Europa.
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Comissão da Verdade: mais uma farsa, mais um engodo
Os crimes cometidos pela ditadura que controlou o Brasil por mais de 20 anos permanecem desconhecidos e os documentos que comprovam esses abusos continuam em segredo. A Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA, órgão da Organização dos Estados Americanos, condenou nosso país por esses delitos, exigindo que o governo brasileiro investigue e responsabilize seus autores.Até dezembro de 2011, o Estado brasilieiro deverá responder a esta Sentença.
E foi nesse sentido que o Brasil, através do atual governo, apresentou o PL, na tentativa de ter argumento junto à Corte para firmar que esclareceu os casos de violação de direitos humanos.
Por tudo isto, afirmamos que queremos sim uma Comissão Nacional da Verdade, Memória e Justiça que efetivamente investigue onde, quando, como e quem foram os responsáveis pelas atrocidades cometidas em nome da "Segurança Nacional". Que sejam publicizados e responsabilizados!
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Sentença da Corte IDH: Brasil é obrigado a investigar e punir os crimes da ditadura militar
Rio de Janeiro, São Paulo e Washington DC, 14 de dezembro de 2010 - A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), em uma sentença histórica notificada hoje, determinou a responsabilidade internacional do Brasil pelo desaparecimento forçado de, pelo menos, 70 camponeses e militantes da Guerrilha do Araguaia entre os anos de 1972 a 1974, durante a ditadura militar brasileira. Conforme compromisso assumido internacionalmente, é obrigatório e vinculante o pleno cumprimento desta sentença pelo país.


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Esclarecimento aos clientes atendidos pelo Projeto Clínico-Grupal do Tortura Nunca Mais
O Grupo Tortura Nunca Mais/RJ vem esclarecer, em especial junto aos atendidos pelo Projeto Clínico Grupal Tortura Nunca Mais que, apesar da saída de alguns terapeutas, o Projeto continua em funcionamento.
Estamos reorganizando o trabalho e informamos que todos os pacientes em atendimento têm o direito de continuar sendo assistidos pelo Projeto TNM.
Diretoria do GTNM/RJ
Rio de Janeiro, 17 de setembro de 2010



Campanha Parcerias Solidárias ao Grupo Tortura Nunca Mais/RJ
Aos amigos e companheiros do GTNM/RJ
Neste momento, atravessamos uma grave crise financeira. Embora tenhamos reduzido ao máximo as nossas despesas, a situação é muito grave.
Rio de Janeiro, 05 de junho de 2012.
Diretoria do GTNM/RJ

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Mais um Capítulo na Produção do Esquecimento
O GTNM/RJ divulgou uma nota de repúdio contra a Portaria nº567, designando um Grupo de Trabalho com a finalidade de coordenar "as atividades necessárias para a localização , recolhimento e identificação dos corpos dos guerrilheiros e militares mortos no episódio conhecido como Guerrilha do Araguaia"


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Campanha pela Imediata Abertura dos Arquivos do Terror.
O Grupo Tortura Nunca Mais/RJ durante seus 20 anos de existência vem lutando pela abertura de todos os arquivos da repressão. E, durante todos esses anos as autoridades brasileiras teimam em afirmar que tais arquivos foram destruídos ou que nunca existiram.
A divulgação de fotos provenientes de "investigação ilegal conduzida no ano de 1974, pelo antigo Serviço Nacional de Investigação" conforme a nota do secretário de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, em 22/10/04, assim como, a sua rápida identificação pela ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) são provas cabais da existência desses arquivos.
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novembro 01, 2012

"La Educación Prohibida"

Publicado em 13/08/2012 por
"La Educación Prohibida", Estreno Mundial 13 de Agosto del 2012
Sitio Web Oficial: http://www.educacionprohibida.com
Mapa de Proyecciones Independientes: http://proyecciones.educacionprohibida.com/mapa/

Subtítulos de Youtube disponibles en Inglés, Portugués y Español.

Se permite y alienta la copia, modificación, adaptación, traducción y exhibición pública de esta película, siempre que no existan fines de lucro y se mantengan estas mismas condiciones. Copyleft 2012. La cultura se protege compartiéndola.

Licencia: Creative Commons Atribución-NoComercial-CompartirIgual 3.0

Facebook: http://www.facebook.com/laeducacionprohibida
Twitter: @EdProhibida / #YoViLep

Sinopsis:
La escuela ha cumplido ya más de 200 años de existencia y es aun considerada la principal forma de acceso a la educación. Hoy en día, la escuela y la educación son conceptos ampliamente discutidos en foros académicos, políticas públicas, instituciones educativas, medios de comunicación y espacios de la sociedad civil.Desde su origen, la institución escolar ha estado caracterizada por estructuras y prácticas que hoy se consideran mayormente obsoletas y anacrónicas. Decimos que no acompañan las necesidades del Siglo XXI. Su principal falencia se encuentra en un diseño que no considera la naturaleza del aprendizaje, la libertad de elección o la importancia que tienen el amor y los vínculos humanos en el desarrollo individual y colectivo.

A partir de estas reflexiones críticas han surgido, a lo largo de los años, propuestas y prácticas que pensaron y piensan la educación de una forma diferente. "La Educación Prohibida" es una película documental que propone recuperar muchas de ellas, explorar sus ideas y visibilizar aquellas experiencias que se han atrevido a cambiar las estructuras del modelo educativo de la escuela tradicional.

Más de 90 entrevistas a educadores, académicos, profesionales, autores, madres y padres; un recorrido por 8 países de Iberoamérica pasando por 45 experiencias educativas no convencionales; más de 25.000 seguidores en las redes sociales antes de su estreno y un total de 704 coproductores que participaron en su financiación colectiva, convirtieron a "La Educación Prohibida" en un fenómeno único. Un proyecto totalmente independiente de una magnitud inédita, que da cuenta de la necesidad latente del crecimiento y surgimiento de nuevas formas de educación.

Si quieres que la peli esté en tu idioma podes ayudarnos a través de nuestra plataforma de traducción colaborativa, escribenos un mail a: traducciones@educacionprohibida.org

Sumate a: http://reevo.org

"Relançamento de “Brava Gente” conta a história do maior Movimento Brasileiro de Luta pela Terra" (Correio da Cidadania)

PICICA: "A história do MST, desde as primeiras manifestações de trabalhadores do campo por melhores condições de trabalho e subsistência, em 1979, passando pelo conturbado período do regime militar e indo até o os governos Collor e FHC, é contada e analisada através do depoimento de Stedile, em trabalho de três dias junto ao autor da obra. São abordados temas como aprendizado do movimento com as experiências de organizações camponesas pioneiras, a luta para a conquista da terra e o nascimento de uma entidade representativa de combate à injusta distribuição das propriedades rurais no Brasil." 

Relançamento de “Brava Gente” conta a história do maior Movimento Brasileiro de Luta pela Terra  

A Editora Perseu Abramo, em coedição com a Editora Expressão Popular, relança “Brava Gente: A trajetória do MST e a luta pela terra no Brasil”. O livro, que já vendeu mais de 10 mil exemplares, completa doze anos de sua 1ª edição, quando fora concedida entrevista de João Pedro Stedile. Trata-se de um abrangente diálogo entre uma das principais lideranças nacionais do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – e o geógrafo e professor Bernardo Mançano Fernandes.

A história do MST, desde as primeiras manifestações de trabalhadores do campo por melhores condições de trabalho e subsistência, em 1979, passando pelo conturbado período do regime militar e indo até o os governos Collor e FHC, é contada e analisada através do depoimento de Stedile, em trabalho de três dias junto ao autor da obra. São abordados temas como aprendizado do movimento com as experiências de organizações camponesas pioneiras, a luta para a conquista da terra e o nascimento de uma entidade representativa de combate à injusta distribuição das propriedades rurais no Brasil.alt


O líder do MST conta como a Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil (Concrab) foi pensada e se desenvolveu por meio de um processo técnico de qualificação. Stedile revela ainda que o movimento planejou um modelo de assentamento que fosse “cartão de visitas” para a sociedade. Isso seria feito através de práticas de reflorestamento em áreas desmatadas pelo latifúndio, com plantações de flores e arborização de pátios e praças, além de tratamento especial das estradas e entradas das ocupações. Também haveria promoção de atividades culturais e festejos em datas significativas.

João Pedro Stedile é, definitivamente, uma figura a ser ouvida com atenção. Participante da luta pela reforma agrária desde o final da década de 70, esta liderança é testemunha das grandes vitórias e derrotas do MST. Vivenciou as ações na Encruzilhada Natalino, em Ronda Alta (RS), o trabalho da Comissão Pastoral da Terra (CPT), ao qual confere grande importância na formação da identidade do próprio movimento, e pôde, entre tantas lutas, tirar aprendizados e ganhar voz a partir de episódios como o massacre de Eldorado dos Carajás (PA), quando houve repressão policial que resultou em mortes de trabalhadores rurais.

Entre todas as descobertas e redescobertas que “Brava Gente: A Trajetória do MST e a luta pela terra no Brasil” proporciona ao leitor, cabe ressaltar características que tornam o MST importante objeto de estudo, com destaque para sua virtude democrática, a qual permite que ocorra engajamento de diferentes individualidades e grupos familiares em sua totalidade, sem considerar diferenciações e estereotipagens.



Ocupação de terra em nosso país faz parte da nossa história nacional. Tornou-se um patrimônio brasileiro a tal ponto que a legislação a incorporou ao próprio conceito de propriedade. Porém, o MST trouxe a novidade da organização da ocupação de massas, levada com garra, em todos os pontos do país, em terra produtiva ou improdutiva, com a inarredável certeza da vitória contra o latifúndio e até contra o próprio governo”.
Dom Tomás Baduíno

FICHA TÉCNICA

Editora: Editora Fundação Perseu Abramo
ISBN : 978-85-7643-141-1
Páginas: 176 p.
Preço: R$ 15,00


SOBRE O AUTOR

Bernardo Mançano Fernandes:
Possui graduação (licenciatura e bacharelado) em Geografia (1988), mestrado em Geografia Humana (1994) e doutorado em Geografia Humana (1999) pela Universidade de São Paulo. Pós-doutorado pelo Institute for the Study of Latin American and Caribbean - University of South Florida (2008). Professor dos cursos de graduação e pós-graduação em Geografia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Presidente Prudente. Coordenador da Cátedra UNESCO de Educação do Campo e Desenvolvimento Territorial, onde preside a coleção Vozes do Campo e a coleção Estudos Camponeses


Fonte: Correio da Cidadania

OUTRAS PALAVRAS: Razões e estratégias do Ecossocialismo; Roda de Conversa: feminismo e legalização das drogas


Boletim de atualização - Nº 233 - 31/10/2012


Razões e estratégias do Ecossocialismo
Michael Löwy explica por que proposta diverge do “socialismo real”, vai além do ambientalismo e precisa de vitórias parciais. Na seção Outro Desenvolvimento
 

É mudando o mundo que a gente se transforma”
Frei Betto busca síntese que combine valorização das atitudes pessoais com produção de grandes reformas sociais – como a agrária e a política. Entrevista a Júlia Magalhães, na seção Outra Política
 

Por que nossos estádio estão vazios
Ao copiarem processos de modernização excludente adotados na Europa, cartolas brasileiros alcançaram estranha “proeza”. Elitizaram esporte e mantiveram clubes pobres. Por Irlan Simões
 

Tempestade sobre os Estados Unidos
Quais as relações entre mega-furacão Sandy e aquecimento global? Até quando governos permanecerão apáticos diante dos riscos de catástrofe climática?. Por Antonio Martins
 

Saturno no laranjal
"De tal maneira era feito aquilo que nos ficávamos de boca aberta com a habilidade dele. Nosso pai fazia isso em silêncio". Um conto de Jéferson Assumção

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Textos da Escola Livre de Comunicação Compartilhada


Primaveras reúne mais de cem pessoas em São Paulo
Com participação de Ricardo Abramovay e Ladislau Dowbor, debate focou crises civilizatórias. Próximos encontros tratarão de ativismo e conhecimento livre. Por Letícia Freire
 

Poesia e consciência na noite de Maun
Em Botswana, um país africano cada vez mais conhecido pela qualidade de sua poesia, relato de uma noite em que a palavra recitada convida a mudar o mundo. Por Flora Pereira e Natan de Aquino, do Projeto Afreaka
 

Roda de Conversa: feminismo e legalização das drogas
Como a proibição das drogas afeta especificamente as mulheres? Quais as intersecções entre esses dois movimentos sociais? Um diálogo presencial, no próximo 7/11, em Outras Palavras. Por Juliana Machado

Observatório da Imprensa: Réquiem para um jornal que nunca existiu; Pensar o jornalismo sem jornais; A vida de Margighella com fôlego de romance; São Paulo, uma guerra particular; Imprensa, cidadania e cotidiano

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"Uma população esquecida: 2012, a primavera sangrenta em São Paulo", por Ronan

PICICA: "Nem mesmo os jornalistas que cobrem a área, cheios de informantes e dados que os comuns não possuem, não conseguiram chegar a um entendimento exato do que se passa hoje. O governo Alckmin se recusa a dar esclarecimentos dignos desse nome, cobre os fatos com retóricas do dia, algumas tão estapafúrdias, que o governador chegou a declarar que o PCC [Primeiro Comando da Capital] era uma lenda. Apesar disso, a guerra segue e os efeitos são nefastos para toda a população. Um dado que explicita que há uma guerra particular com a polícia é que, diferentemente dos ataques do PCC de 2006, os agentes penitenciários não foram inclusos no alvo dos criminosos. Embora sejam muito mais fáceis de serem atingidos, não são eles o foco. Também não estão sendo atacados bombeiros, nem forças municipais. O que evidencia que não é um quadro de enfrentamento do Estado em si, mas um conflito realmente focado e com motivações circunstanciais."

Uma população esquecida: 2012, a primavera sangrenta em São Paulo



O fato de um dos responsáveis pelo massacre do Carandiru, homem que responde por mais de 70 mortes, ter sido promovido a comandante da ROTA, elucida tudo. Por Ronan


A gestão de qualquer área ou instituição depende de uma série de acordos. Seja uma penitenciária, escola, manicômio ou centro cultural, há sempre uma previsão sobre como as coisas ocorrerão. Não se trata puramente de acordos explícitos. Na maioria dos casos o que ocorre é um acordo tácito, algo dado sem ser dito, sobre quais são as regras do jogo, como agirão os protagonistas. A atual guerra particular entre policiais e criminosos em São Paulo faz recordar essa observação básica. Se de uma hora para outra há um surto de violência, tendemos a especular sobre o que mudou nos procedimentos que envolvem a gestão da segurança pública e que servem para manter a relação entre policiais e bandidos num nível menos sangrento e mais racional.

 

Nem mesmo os jornalistas que cobrem a área, cheios de informantes e dados que os comuns não possuem, não conseguiram chegar a um entendimento exato do que se passa hoje. O governo Alckmin se recusa a dar esclarecimentos dignos desse nome, cobre os fatos com retóricas do dia, algumas tão estapafúrdias, que o governador chegou a declarar que o PCC [Primeiro Comando da Capital] era uma lenda. Apesar disso, a guerra segue e os efeitos são nefastos para toda a população. Um dado que explicita que há uma guerra particular com a polícia é que, diferentemente dos ataques do PCC de 2006, os agentes penitenciários não foram inclusos no alvo dos criminosos. Embora sejam muito mais fáceis de serem atingidos, não são eles o foco. Também não estão sendo atacados bombeiros, nem forças municipais. O que evidencia que não é um quadro de enfrentamento do Estado em si, mas um conflito realmente focado e com motivações circunstanciais.

Diante do que dispomos é preciso pontuar que o atual cenário está ligado ao fato de homens truculentos da polícia militar terem chegado ao alto escalão da segurança pública, o que levou à ascensão da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) e à apologia de uma política mais letal, isso tudo num contexto de policialização da política (coronéis como subprefeitos de 30 das 31 subprefeituras, militares eleitos como vereadores). O atual secretário de segurança, Antônio Ferreira Pinto, principal dos secretários de Serra a prosseguir no governo Alckmin, é homem de carreira da polícia militar e abertamente defensor de métodos duros. Conforme André Caramante, sua assunção do cargo significou uma centralidade para a ROTA na estratégia de controle das ruas. Houve promoção de homens que, ou são diretamente da ROTA, ou possuem ligação estreita com a mesma e com o ideário que ela representa. O fato de um dos responsáveis pelo massacre do Carandiru, homem que responde por mais de 70 mortes, ter sido promovido a comandante da ROTA, elucida tudo.

 

Um quadro como esse nos faria supor que, com tantos homens duros no comando, a criminalidade esteja, enfim, recuando. Ao contrário da retórica dos durões, nem uma palha sequer foi movida na economia criminal. Os pontos de venda de drogas permanecem funcionando, com o devido pagamento aos policiais, o Estado está recheado de bares com máquinas caça-níqueis, o jogo do bicho tem tanta liberdade que já cobra com máquinas eletrônicas, os bingos e casas de jogos clandestinos pipocam por toda São Paulo, permanecem os roubos de carros, roubos em restaurantes, assaltos a condomínios, assaltos a carros fortes, assaltos a empresas de transporte de valores, explosão de caixas eletrônicos e roubo de cargas. A situação é tal que uma carga da Apple de 3,9 milhões de reais foi levada do aeroporto de Campinas num dia em que havia operação especial da polícia na cidade. Em muitos dos crimes há comprovada participação de policiais, ou como homens de ação ou como recebedores de propina.

Se a economia criminal não foi tocada em nada, qual a razão da primavera sangrenta, o que a justifica? Foram mais de 85 policiais mortos até agora, a maioria fora do serviço. A quantidade de criminosos mortos é bem maior e de civis vitimados também. Acompanhando pelos jornais, a guerra começou depois que a ROTA passou a emboscar criminosos, assassinando-os em sequência (não se sabe qual o critério de seleção). Com dados colhidos via investigação e bandidos cooptados, descobrem um plano de assalto, uma reunião de bandidos e os emboscam, levando-os à morte. Diante da fatalidade da morte, sem oportunidade do processo legal, os criminosos começaram a reagir e iniciou-se a matança de policiais. Toda uma guerra foi deflagrada por conta da aplicação de métodos particulares, inconstitucionais e sangrentos, caros a um batalhão da polícia e apoiados pelo secretário. Com a explosão dos homicídios, sem resultados efetivos quanto à queda da criminalidade, a população está pagando um preço muito alto para atender aos preceitos de uma parcela da PM. Talvez à visão particular de uns poucos.

 

A guerra, como não poderia deixar de ser, tem resultado em danos para a população, expectadora e vítima dos acontecimentos. A polícia, obviamente, não prende nem assassina os mais de 40 milhões que vivem no Estado de São Paulo, mas de acordo com a forma como atua impõe maior ou menor medo aos populares. Iniciada a guerra, virou padrão que logo após o assassinato de um policial ocorram vários homicídios na localidade em que o militar foi morto. Policiais à paisana, em carros, em motos, alguns encapuzados, saem logo em seguida matando pessoas para vingar a morte do colega tombado. Nesse processo, não são poucos os civis vitimados, logo taxados como bandidos pela mídia apressada e cínica. Quem não leva tiro tem a liberdade tolhida. Quando não há toque de recolher imposto pelos policiais, a própria sensação de medo se encarrega de manter todos em casa. Em vários cantos, basta estar em um bar depois de certas horas para se tornar um possível alvo.

Até o momento, o atual secretário de segurança, Antônio Ferreira Pinto, ficou imune às críticas e notícias veiculadas pelos jornais. Ao contrário, a queda veio do lado dos críticos. Um jornalista da Folha de São Paulo, André Caramante, foi obrigado a se exilar do país por conta das ameaças recebidas depois que publicou matéria a respeito da truculência do Coronel Telhada no Facebook – há mesmo todo um debate feito nos bastidores sobre se o governador não se tornou refém do secretário herdado de Serra e da ala dura que o cerca. Se um jornalista da Folha de São Paulo é obrigado a se exilar, podemos imaginar o que ocorre com o jovem da periferia que encara a brutalidade policial fora dos holofotes.

 

O caso tem servido, dentre outras coisas, para demonstrar na prática como os freios constitucionais contra a violência policial não funcionam no Estado de São Paulo. Defensoria pública, conselho tutelar, ouvidorias, nenhuma das instituições tem servido para parar a guerra que vitima pessoas alheias e amedronta a todos. São nas redes sociais, nos bares, nos bairros (quando há), nas organizações de vítimas da violência militar e nos saraus que se tem buscado dar uma resposta para a primavera sangrenta. No geral, como em tantas outras coisas, o povo teve que se virar e vai criando estratégias para sobreviver: voltando junto do trabalho, não saindo depois de tal horário, evitando dadas localidades.

Deve-se chamar a atenção para a forma como grossa parte da esquerda, meio artístico e intelectual, praticamente fugiu do assunto, fazendo de conta que não há uma guerra, com muitos inocentes vitimados e toda uma população afetada. De uma parte isto se deve ao distanciamento quanto ao cotidiano dos comuns, de outro, há mesmo certo elitismo que só pronuncia a palavra ditadura quando a vítima era um quadro, pessoa que ia ser alguém na vida. Mas, também, há o caso infeliz de a guerra se passar em ano eleitoral e o cabresto partidário da esquerda evitar que ela se pronuncie para não ser associada pelos opositores com o crime, não correr o risco de ser acusada de defender bandidos. Diante dos interesses eleitorais desta esquerda, os populares ficaram, mais uma vez, sozinhos.

Fonte: Passa Palavra