abril 02, 2013

"ESQUIZOPOÉTICA", por Pedro Laureano Sobrino

PICICA: "A esquizopoética é uma política dos signos. Ela ama o feio, mas não tem qualquer fetiche por ele: atingir nosso próprio ponto de subdesenvolvimento, como diria o outro (Deleuze). A esquizopoética conecta-se à política nos lugares mais insuspeitos: no ato falho de um governante (poesia das avessas), no delírio de um esquizofrênico liberto do hospício, nos dizeres pichados em muros pelas cidades. Trata-se de fabricar uma língua nova que fuja dos clichês que nos aprisionam em respostas prontas. Nossa língua não se reparte mais em uma obra, ou um autor: trata-se de dessacralizar o lugar da arte para surpreendê-la no heterogêneo. A esquizopoética existe aonde existem redes produtivas que fazem poesia a partir da Multidão (Negri e Hardt): uma épica urbana, indígena e ambiental sem autoralidade. Se Homero é o poeta anônimo do mundo mítico pré-filosófico, nós somos os poetas anônimos do mundo pós-moderno que nunca foi moderno. A esquizopoética não é um nome: podemos chamá-la de qualquer coisa. Não advogamos qualquer anarquia, apenas amamos o que não é nosso. Só me interessa o que não é meu (Oswald): roubamos, não trocamos. E as citações são como assaltantes nas estradas (Benjamim)." 
 

 

ESQUIZOPOÉTICA / Pedro Laureano Sobrino


ESQUIZOPOÉTICA – Pedro Laureano Sobrino

  A esquizopoética não tem método. Ela faz  aquilo que Deleuze pedia a respeito do procedimento da filosofia: se contenta em rosnar, coçar, convulsionar-se como um animal, e não em aprender a bem pensar. A esquizopoética rosna, convulsiona-se, grita, uiva, articula sopros e palavras conforme um estranho alfabeto em que o corpo é tatuado pelos signos. Corpo da cidade, do negro, do mulato, do analfabeto, do “Classe C”, do mauricinho, do trabalhador precário.

Mas a esquizopoética é um pouco míope a essas figuras ainda demasiadamente sociológicas; e da psicologia ela só retém o essencial: nada.  Ela não se interessa por seus sentimentos, por sua compaixão, mas se conjuga com o animal que há dentro de você, e devém animal, ela mesma, no processo. Nenhuma bestialidade, entretanto. A esquizopoética é ciência, e, como tal, precisa. Mas fractal, antes que geométrica; ambulante, antes que sedentária. A esquizopoética não tem orgulho nenhum de ser nômade: ela o é por necessidade, e conforme ao axioma da estética da Fome, de Glauber Rocha, de que tudo de bom que a humanidade (mas a esquizopoética desconhece a humanidade) foi capaz de produzir nasceu do estomago.

A esquizopoética é uma culinária política, como nos ensina um de nossos pais (o que mais amamos devorar no banquete totêmico), Oswald de Andrade. Culinária dos corpos e dos signos disjuntos, da parcialidade intensa de um corpo fabricado, artificial, queer, travesti, gigolô. Somos parciais, nunca relativos. Tatuamos nossos signos sobre os corpos urbanos, indígenas e ambientais. Então, o que é um signo, para a esquizopoética, qual a sua política dos signos?

Sabemos (quem sabemos?) que o que de interessante aconteceu em arte, no século XX, desde Baudelaire a Rimbaud, desde Francis Bacon aos surrealistas, desde o modernismo brasileiro aos pontos de cultura(!), referiu-se a elevação do signo (escritural, colorativo, linguístico, plástico, etc.) para além da representação. Se Baudelaire cantava —ainda com a má-consciência do tormento romântico, é certo— o sublime em uma puta, um mendigo, ou num menino diabolicamente travesso, Oswald cantará o Brasil menor dos mulatos, dos acrobatas do asfalto, dos Índios sem nenhuma indianidade. O selvagem assiste indiferente às líricas que tentam qualificá-lo de bom, e sereno janta Olavo Bilac em sua taba.


A esquizopoética conjuga o sublime ao grotesco, portanto, e seu signo porta a violência de um encontro, não de uma representação. De fato, perdemos qualquer capacidade de representar o que quer que seja. Nossos itinerários são ambulantes (daqueles ambulantes que atravessam a cidade e compõe sua poesia móvel) e encontramos nossas palavras nas bocas dos mendigos, dos vagabundos, mas também dos doutores, das peruas, dos políticos. Nossos signos são capazes de vestir os reis de sua nudez, e como diz um artista que já militou na esquizopoética em algum momento de sua carreira, contentamo-nos em perceber “que o rei é mais bonito nu”.


A esquizopoética é uma política dos signos. Ela ama o feio, mas não tem qualquer fetiche por ele: atingir nosso próprio ponto de subdesenvolvimento, como diria o outro (Deleuze). A esquizopoética conecta-se à política nos lugares mais insuspeitos: no ato falho de um governante (poesia das avessas), no delírio de um esquizofrênico liberto do hospício, nos dizeres pichados em muros pelas cidades. Trata-se de fabricar uma língua nova que fuja dos clichês que nos aprisionam em respostas prontas. Nossa língua não se reparte mais em uma obra, ou um autor: trata-se de dessacralizar o lugar da arte para surpreendê-la no heterogêneo.  A esquizopoética existe aonde existem redes produtivas que fazem poesia a partir da Multidão (Negri e Hardt): uma épica urbana, indígena e ambiental sem autoralidade. Se Homero é o poeta anônimo do mundo mítico pré-filosófico, nós somos os poetas anônimos do mundo pós-moderno que nunca foi moderno. A esquizopoética não é um nome: podemos chamá-la de qualquer coisa. Não advogamos qualquer anarquia, apenas amamos o que não é nosso. Só me interessa o que não é meu (Oswald): roubamos, não trocamos. E as citações são como assaltantes nas estradas (Benjamim).

Reivindicamos uma política dos signos que nasce do estômago e a ele deve retornar.

Fonte: Global Brasil Revista Nômade

REVISTA DE HISTÓRIA: O Profeta e o Principal; Adeus a John Monteiro; Cine História: O homem que não podia morrer; O estopim do golpe; Arauto da República de Ipanema


O Profeta e o Principal

Assinada por John Monteiro, resenha que sai na edição de abril da RHBN, fala sobre o marco zero da história do Brasil. O retorno dos tupinambás [Leia mais]

Adeus a John Monteiro

Historiador e professor da Unicamp morreu em acidente de carro na semana passada  [Leia mais]
 

Cine História: O homem que não podia morrer

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Ovo que vem de longe

A troca de guloseimas durante a Páscoa é muito comum, alem de ser uma tradição muito antiga, que nos remete à Europa do século XIII [Leia mais]

O estopim do golpe

‘Festa’ de marujos com direito a apoio às Reformas de Base, em 25 de março de 1964, teria contribuído para a deposição do presidente João Goulart, dias depois [Leia mais]

O 1° de abril

Um presidente deposto e outro conduzido ao poder por homens armados marcam o início da Revolução ‘Democrática’ de 1964 [Leia mais]

A vez dos militares da reserva

Comissão Nacional da Verdade vai convocar para depor coronéis Ustra e Curió. Ambos são acusados de terem sido mandantes de crimes de tortura durante a ditadura civil-militar [Leia mais]
Confira outras reportagens do nosso especial Guerrilheiros

Arauto da República de Ipanema

A obra do “homem de imprensa” Millôr Fernandes refletiu a sociedade e a política nacionais pelos séculos XX e XXI a partir da idealização do bairro onde viveu e morreu [Leia mais]

A volta do primeiro livro

Reedição de obra do século XIX sobre história da arte revela também como produção artística ficou fora do debate cultura  [Leia mais]

Loja virtual

Na Loja virtual da Revista de História, você pode assinar a revista por um ou dois anos [Confira]

I Seminário Internacional - Documentar a Ditadura: Arquivos da Repressão e da Resistência

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"Neoliberalismo maoísta em Portugal", por Pedro Neves Marques

PICICA: "Recentemente, uma econometrista Francesa perguntou-me a minha opinião sobre o futuro de Portugal. Após um curto silêncio respondi “Nenhuma. É o fim.” Acredito que de facto o é. Perante as novas restruturações geopolíticas, mundiais, Europeias, qual o papel para um país como Portugal? É esta também a cegueira governamental Portuguesa e o seu solipsismo político, e não me refiro aqui somente ao actual governo mas também ao Partido Socialista e a todo um sistema político ao Centro (incluindo a relutante Esquerda). Se a crença é, de facto, a destruição criativa, há que olhar o abismo de frente e um fim do actual sistema de governação e representação. Ao invés de destruir o corpo mas manter o esqueleto — estratégia e necessidade do monopólio revolucionário — há que desmantelar o esqueleto também."


Neoliberalismo maoísta em Portugal

01/04/2013
Por Pedro Neves Marques


 Por Pedro Neves Marques

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Há ironias que a história nunca resolve. Recentemente, o militante de Esquerda Daniel Oliveira adjectivou o actual governo de Portugal de Maoista. Comentador político de voz sentida, seja na imprensa tradicional ou no seu blog pessoal, Daniel Oliveira pertencia até à muito pouco tempo ao Bloco de Esquerda, um partido que desde a intervenção da Troika em Portugal em Junho de 2011 passou genericamente — mas com maior foco por parte da comunicação social — a ser referido como de Esquerda radical. Apesar de reunir franjas dispares da Esquerda pós-revolucionária Portuguesa[1], o BE tinha vindo a operar numa espécie de Nova Esquerda, e talvez por isso tenha conseguido uma representação eleitoral significante aos longo da década passada, tornando-se um dos três partidos de oposição ao centro do Partido Socialista e do actual governo do Partido Social Democrata. Desde então as fricções internas ao partido tornaram-se mais evidentes, e a capacidade deste se transformar numa versão portuguesa do Syriza infelizmente adiadas.

Se ofereço o contexto do Bloco de Esquerda é para que melhor se compreenda o contexto de Daniel Oliveira, e a ironia da sua anedota. Para Oliveira o actual Governo de Direita seria não só Maiosta mas também o único e verdadeiro movimento Maoista alguma vez posto em prática no país desde o conturbado Processo Revolucionário Em Curso de 1974-79.[2] O único a acreditar cegamente numa política de terra queimada, através da qual um futuro melhor, mais energético e produtivo, nascerá. Dentro desta ideia enquadra-se, por um lado, o cosmismo pragmático de Mao Tse-tung, e, por outro, a contradição interna ao processo de destruição de valor inerente à reprodução do capital, como descrito por Marx e elaborado por Schumpeter. Em ambos os casos segue a regra de que a destruição é necessária à criação — frase transformada por Mao numa versão social da segunda lei da termodinâmica, “somente pela transformação poderá a liberdade ser alcançada.”[3]

A destruição era para Mao uma necessidade interna do seu materialismo dialéctico, no qual a síntese entre os pólos da ideia de contradição (inerente ao capital) significava não uma resolução entre as partes mas uma suplantação, uma troca temporária na eterna lutas dos opostos. Uma versão Confucionista da dialéctica, talvez, mas por isso mesmo capaz de enquadrar o próprio cosmos e a vida biológica da terra no niilismo da sua lógica: o sacrifício é a necessidade da evolução dialéctica. “A vida da dialéctica é o movimento contínuo na direcção dos opostos. Também a humanidade encontrará o seu fim,”  ou a um nível mais historicista, “afirmação, negação, afirmação, negação… na progressão das coisas, todos os elos na cadeia dos eventos são tanto afirmação e negação. As sociedades esclavagistas negaram a sociedade primitiva, mas no que concerne a sociedade feudal esta constituiu, por sua vez, uma afirmação. O feudalismo constituiu a negação da sociedade esclavagista, mas foi por sua vez a afirmação da sociedade capitalista. O capitalismo foi uma negação em relação ao feudalismo, mas é, por sua vez, a afirmação da sociedade socialista.”[4] Daí que “quando as pessoas morrem dever-se-ia celebrar a vitória da dialéctica, celebrar a destruição do antigo. Também o Socialismo será eliminado, não poderia ser de outro modo ou não haveria Comunismo.”[5] Este é invariavelmente um entendimento naturalista da luta e do progresso social. Mas se Marx acreditava na superação dessa contradição revolucionária inerente à produtividade do capitalismo (“Tudo o que é sólido derrete no ar”), pelo contrário, como refere Slavoj Zizek, “o capitalismo floresce não no campo aberto do mercado, mas apenas quando um obstáculo (das intervenções mínimas de um Estado Social às decisões diretas da governação do Partido Comunista Chinês) constrange essa abertura. Ironicamente, é esta a “síntese” do capitalismo com o comunismo como o entendia Mao: num singular exemplo da justiça poética da história, foi o capitalismo que se sintetizou com o comunismo Maoista”[6] Daí que cada vez mais tenhamos de discutir não só os limites do capitalismo, e a necessidade cíclica das crises, mas a promiscuidade entre o Estado e o capitalismo neoliberal.
Seguindo a anedota de Oliveira, se de algum modo o actual Governo Social Democrata vê (o que não é real) a síntese dialéctica de Mao na sua governação, é certo que esta não se destina à afirmação de um qualquer socialismo pela negação do capitalismo. Pelo contrário, a curvatura tenderá da negação de um sistema de base social para um empreendedorismo ultra-liberal, neo-Darwinista, no interior de uma sociedade que se pretende desmantelar enquanto tal. Na realidade, e por violenta que seja, esta tendência é tão verdadeira quanto falsa. O actual governo, compreendendo talvez o verdadeiro o grau zero da economia Portuguesa no actual contexto internacional, repete um violentíssimo processo de monopolização, mascarando este processo de um ingénuo, mas não menos destrutivo, neoliberalismo. Para quem tenha uma clara noção da instrumentalidade das políticas neoliberais desde a intervenção no estado de Nova Iorque em 1975 que assim seja não surpreende; o processo neoliberal de austeridade, privatização e destruição do sistema social tem sido um dos principais motores na acumulação de capital nas mãos de uma minoria, e consequentemente, de uma redução dos direitos laborais e humanos. A fachada distrai a Esquerda tradicional, em particular o Partido Comunista Português, o qual por sua vez não consegue compreender as modulações sociais das terapias de choque, como refere Naomi Klein, sem recorrer a modelos ultrapassados de direitos e benefícios, como, por exemplo, que a reclamação dos direitos ao trabalho é o empobrecimento dos direitos do precariado, daqueles que só têm emprego de vez a vez e que como tal se vêm excluídos dos seus direitos tradicionais associados ao trabalho.[7] É este um dos graves impasses dos partidos de Esquerda em Portugal (e não só): o neoliberalismo usurpou eficazmente o futurismo que outrora ocupara o lugar das utopias de Esquerda, remetendo as reivindicações de Esquerda para um conservadorismo incapaz de projecção ou sequer de imaginação de outras formas e modelos económicos, sociais e laborais.[8]

A actual governação Portuguesa rege-se de facto pela crença de que é preciso pagar pelo futuro (para ter futuro) mas também pelo passado. Pelo menos é este o discurso de propaganda. Num país de novos ricos — que, como vários outros países saídos de revoluções durante os anos 1970-80 e de imediato bombardeados com os efeitos de uma abertura dos mercados e da especulação capitalista de facto o é — os cidadãos nacionais viveram acima das suas possibilidades por demasiado tempo, endividando-se. Numa adesão engenhosa entre monopolismo neoliberal (convém frisar a predominância do modelo monopolista sobre a ideologia neoliberal, não só em Portugal mas no poder central Europeu) e protestantismo, os cidadãos são pecadores e devem agora redimir-se. A propaganda é falsa, ou no mínimo obscura, negando a macroeconomia Europeia, para não dizer global, de 1971 a 2008. Afirmar tal redenção é omitir voluntariamente a necessidade de abertura ao crédito originada pelo abrandamento da economia global desde a crise do petróleo de 1973, o urso secular entre 1966-82, e a virtualização da economia (cada vez mais ancorada no lucro através da renda) a partir da década de ’80, ou as baixas taxas de juro ao longo dos anos 1990.[9] A este falso juízo de valor une-se um paralelo: não só os cidadãos, mas o país no seu todo (elite política incluída) se endividou por desmesura, excedendo-se na construção de infra-estruturas e alargamento de direitos sociais sem um real plano de crescimento económico. Também aqui se omite a estruturação política e económica da U.E. ao longo da sua expansão territorial, em particular as contrapartidas da distribuição de fundos aos Estados “menores”, incluindo as taxas de interesse associadas, ou, por exemplo, o monopólio agrícula, piscatório e industrial (reflectido nos limites à importação e exportação) dos Estados “maiores” que obrigaram a indústria Portuguesa a destruir produção acima das cotas estabelecidas, isto é, a incorrer numa inversão de destruição de valor.[10] Para não referir a inflação produzida com a introdução do €, ou a abertura do mercado Europeu à produção Chinesa. Por último, e mais recentemente, é esquecer a transferência do investimento e do lucro financeiro pós crise de 2008 para as dívidas externas. A destruição de valor levada avante é, portanto, também a destruição de qualquer causalidade (fora da narrativa estabelecida pela austeridade).[11]

Como esperado, a destruição criativa em Portugal segue a apologia do empreendedorismo, muito mais do que uma retórica explícita de inovação. São necessários empreendedores para que da destruição surjam novos mercados. Mas em Portugal tal política é um projecto falhado e ilusório. Por um lado, quem advoga o empreendedorismo revolucionário é quem detém o monopólio corporativo nas mãos, e como tal quem impede a sua própria retórica de florescer. Isto é, o empreendedorismo seria bom para o país, mas seria bom para os monopolistas? Não. Daí um dos impasses. É como pedir a própria cabeça numa bandeja. Por outro lado, mesmo que o monopólio privado-governamental fosse aberto à inovação revolucionária do empreendedorismo, necessidade intrínseca ao avanço tecnológico do capitalismo como já referia Marx, não há no terreno Português tal possibilidade. Por necessidade revolucionária, destrói-se toda e qualquer condição e direito de trabalho anteriormente adquirida, um regime eminentemente social, para logo se exigir o empreendedorismo do cidadão e da pequena-média empresa — mas como se as próprias bases de sustentação são em simultâneo desmanteladas? Isto é, se pelo caminho se aniquila qualquer providência que segure o trabalhador/ empreendedor na criação, para não falar da falta de crédito e da ainda mais pertinente ideologia criativa? Para tal seria necessário um apoio estatal de fomento à revolução e renascimento, algo que a governação está radicalmente contra.

Nada disto é novo.

A genealogia profissional do elenco governamental Português insere-se na linha “tradicional” do neoliberalismo de Chicago, à qual se une uma total cegueira e submissão à crença Germânica na austeridade, instrumental, como referido, para o processo revolucionário em curso. Ao contrário de outros países da chamada periferia Europeia, esta cegueira tem resultado numa total ausência de negociação com a Troika, e, consequentemente numa incapacidade de crescimento, no empobrecimento da população, e numa crescente onda de protestos, ainda assim miseráveis de tão pacíficos. Infelizmente, esta ausência de negociação não é o resultado da submissão do governo, mas parte igualmente do referido BE, o qual se nega em sentar à mesa de negociações. Daqui no entanto, importa tirar um conjunto de reflexões mais precisas. Se o empobrecimento da população enquanto massa laboral é uma necessidade do capitalismo perante a crise (e superação dos seus limites ao crescimento), a reignição da economia só pode deixar de ser um mito através desse mesmo empobrecimento, o que nos conduz à categoria de periferia e ao reforço dessa cisão no interior da UE. Qual a possibilidade de crescimento económico em Portugal? De base, e como consequência do paradoxo do monopólio, nenhuma. Mas a contradição improdutiva do monopólio é simplesmente uma corrupção da visão económica ultra-liberal num momento histórico de extrema concentração do poder e da riqueza. A periferia Europeia existe, e terá de existir enquanto tal por necessidade metabólica da UE.

Enquanto que a Alemanha se fortaleceu ao longo da última década — a década do € — através de congelamento salarial e exportações, entretanto nas periferias procedeu-se com uma cada vez mais cirúrgica virtualização do crédito. Uma vez rebentada a bolha (em Espanha, na Irlanda e no Chipre em particular) dá-se agora um brutal retorno à materialidade do trabalho, mas para surpresa de alguns esta materialidade encontra-se hoje absolutamente obsoleta em países como Portugal no quais a realidade é um quase total desmantelar da indústria e da agricultura, bem como um desinvestimento generalizado na criação (tecnológica e científica).

Veja-se o diagnóstico das periferias europeias: a crise Grega é o resultado de uma bancarrota económica e moral; na Irlanda esta é a consequência da corrupção do sistema financeiro e da opção por um resgate do mesmo; os resultados Espanhois devem-se a um problema de crédito e de especulação imobiliária desmedida; em Itália o mercado interno é excessivamente fechado; o Chipre é um paraíso fiscal.[12] As caricaturas podem de facto ser verdadeiras mas ocultam a simplificação de um processo histórico de decisões internas à UE e a uma crassa desigualdade na representação e direitos entre Estados membros.

O problema Português, por seu lado, é referido como falta de crescimento. Eis o mito do capital, mas também a sua ironia. As políticas governamentais Portuguesas (mas não só) contrariam qualquer hipótese de crescimento, como aliás se tem visto e tem sido esquizofrenicamente admitido até mesmo pelo FMI, mas tal, diz-se, é somente uma condição temporária. Para crescer é vital parar o país por completo, estagnar a gangrena, e numa surpreendente para uns (a população) mas expectável para outros (a governação) reiniciar um projecto de expansão. Mas expansão para onde? Com que economia (para não dizer com que sociedade)? A expansão interna, de um consumo nacional, parece um cenário impossível dada a referida incapacidade industrial e científica. Para estas questões não há respostas (nem discussão) ao nível do poder. Entretanto, e com a devida ironia, o horizonte utópico vai-se construindo em negociação com as ex-colónias (em particular Angola) ou o Brasil, num esforço de abertura a esses grandes novos mercados, seja através de acordos de exportação e implantação de industrias Portuguesas (em particular  de construção e engenharia) nesses países ou através de processos de privatização em Portugal (seja de bancos falidos como o Banco Português de Negócios ou a aérea TAP). Este é um processo atribulado e repleto de sentimentos de culpa e de vingança (de ambas as partes) mas pintado alegremente pela ideologia, como se afirmando à Europa: nós somos a porta para estes novos mercados, e eis a nossa nova sustentação, os nossos elos, algo que nos distancia e favorece em comparação com países como a Grécia ou Itália. Pelo contrário, diria que este interesse revela essa longa, tão longa quanto a adesão de Portugal à então CEE, indefinição de Portugal; uma indefinição tão estratégica quanto identitária: um país que deseja ser Europeu mas que (como a crise agora o revela) não o consegue ser; um país que se vê (provavelmente com muito preconceito à mistura) Sulista, Africano, Brasileiro, mas que nunca o poderá efectivamente ser.

Recentemente, uma econometrista Francesa perguntou-me a minha opinião sobre o futuro de Portugal. Após um curto silêncio respondi “Nenhuma. É o fim.” Acredito que de facto o é. Perante as novas restruturações geopolíticas, mundiais, Europeias, qual o papel para um país como Portugal? É esta também a cegueira governamental Portuguesa e o seu solipsismo político, e não me refiro aqui somente ao actual governo mas também ao Partido Socialista e a todo um sistema político ao Centro (incluindo a relutante Esquerda). Se a crença é, de facto, a destruição criativa, há que olhar o abismo de frente e um fim do actual sistema de governação e representação. Ao invés de destruir o corpo mas manter o esqueleto — estratégia e necessidade do monopólio revolucionário — há que desmantelar o esqueleto também. Haverá aqui hipótese alguma de compreender uma política de terra queimada no inverso? No sentido de uma verdadeira experiência social, experimentada apenas e em doses pequenas no fantasmagórico PREC? Não o será sem sérias rupturas.

E para terminar com esse fantasma, não terá também esse, após a sua recente rememoração cultural nos protestos, de ser superado como o limite da Esquerda Portuguesa? Um sinal preocupante: nas últimas e recentes manifestações nacionais o hino revolucionário dos protestos foi novamente a canção da revolução de 1974, a voz de Zeca Afonso. Que assim seja é não apenas triste, incapaz, ou simplesmente nostálgico, mas diria mesmo perigoso. Muitos dos protestantes que assim cantarolam, com lágrimas nos olhos ao invés de ideias de governação ou mesmo simples objectos de arremesso, nunca antes haviam tido essa possibilidade, seja por serem novos demais ou por algum motivo não terem participado da revolução. O elo temporal poderá ser vital para a consciencialização histórica da política e das lutas nas gerações mais novas, mas um país que se revele incapaz de produzir um novo imaginário à altura das condições em que vive, um país que vive qualquer possibilidade de mudança na recuperação do passado, é um país sem identidade, sem futuro, sem política. Que assim continue só poderá ser para benefício do monopólio.

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[1] União Democrática Popular; Partido Socialista Revolucionário; e Política XXI.
[2] No entanto, durante o PREC esse Maoismo definiu-se talvez mais pela inclusão do camponês na luta do que pela contradição destrutiva da luta.
[3] “Only by transformation can freedom be obtained.” Mao-Tse Tung, “Talk on Questions of Philosophy” in On Practice and Contradiction (Verso Books, 2007) 183.
[4] “The life of dialectics is the continuous movement towards opposites. Mankind will also finally meet its doom. Affirmation, negation, affirmation, negation… in the development of things, every link in the chain of events is both affirmation and negation. Slave-holding society negated primitive society, but in reference to feudal society it constituted, in turn, the affirmation. Feudal society constituted the negation in relation to slave-holding society but it was in turn the affirmation with reference to capitalist society. Capitalist society was the negation in relation to feudal society, but it is, in turn, the affirmation in relation to socialist society.”, ibid, 181.
[5] “When people die there should be parties to celebrate the victory of dialectics, to celebrate the destruction of the old. Socialism, too, will be eliminated, it wouldn’t do if it weren’t eliminated, for then there would be no communism.” ibid, 182.
[6] “Capitalism can fully thrive not in the unencumbered reign of the market, but only when an obstacle (the minimal welfare-state interventions, up to the direct political rule of the Communist Party, as is the case in China) constrains its unimpeded reign. So, ironically, this is the ‘synthesis’ of capitalism and communism in Mao’s sense: in a unique example of the poetic justice of history, it was capitalism which ‘synthesized’ with Maoist communism.” Slavoj Zizek, “Mao Tse-Tung, The Marxist Lord of Misrule” in ibid, 18.
[7] Entre outros, ver André Gorz, Reclaiming Work Beyond the Wage Based Society (Polity Press, USA, 1999).
[8] Um exemplo é a total ausência de uma discussão sobre a renda básica incondicional enquanto possível modelo de distribuição económica; um modelo potencialmente capaz de enfrentar o impacto da transformação cognitiva no trabalho ou a intermitência laboral (em particular no que concerne a viragem para a criatividade) e a consequente, mas não causal, generalização da precariedade, mas que ainda assim necessita de valentes avaliações críticas (na prática!).
[9] Ainda que focadas no contexto Americano as palavras de David Harvey são clarividentes, “The gap between what labour was earning and what it could spend was covered by the rise of the credit card industry and increasing indebtedness (…) This started with the steadily employed population, but by the late 1990s it had to go further because that market was exhausted. The market had to be extended to those with lower incomes. Political pressure was put on financial institutions like Fannie Mae and Freddie Mac to loosen the credit strings for everyone. Financial institutions, awash with credit, began to debt-finance people who had no steady income (…) The same story occurred with all forms of consumer credit on everything from automobiles and lawnmowers to loading down with Christmas gifts at Toys ‘R’ Us and Wal-Mart. All this indebtedness was obviously risky, but that could be taken care of by the wondrous financial innovations of securitisation that supposedly spread the risk around and even created the illusion that risk had disappeared.” The Enigma of Capital and the Crisis of Capitalism (Oxford University Press, 2010) 17-18.
[10] “Involuntary destruction (such as throwing coffee overboard) has in every case the meaning of failure; it is experience as a misfortune; in no way can it be presented as desirable.” Georges Bataille, The Accursed Share Vol I. (Zone Books, NYC, 1991) 22.
[11] Uma outra retórica usada pelo neoliberalismo é o efeito deficitário do Bem-Estar Social no Estado. Que o trabalhadores beneficiem mais do Estado do que contribuem para este é, no entanto, erróneo, como o demonstram a nível internacional estudos de Anwar Shaikh, e em Portugal o de Renato Guedes e Rui Viana Pereira, ambos in Quem Paga o Estado Social em Portugal?, coord. Raquel Varela (Bertrand, Lisboa, 2012).
[12] Se há uma caricatura que é de facto real e transversal a todos estes países é o excessivo problema da corrupção. Os recentes escandâlos Espanhos, envolvendo a própria casa real e o Rajoy são apenas mais um caso disso mesmo. No entanto, basta referir a crescente onda de lavagem de dinheiro na Alemanhã (diz-se que supera hoje a Suíça) para dismitificar o Sul.

Fonte: Rede Universidade Nômade

abril 01, 2013

"Nuvem" (Psicotramas)

PICICA: "Quando o ouvi ser recitado, pensei na relação entre o eterno y o transitório. Después, lendo-o inteiro, achei que falava do que há de eterno no amar. Em seguida, percebi que a individualidade do amado desaparece e o que é lembrado é somente o momento na memória pela conjunção beijo & nuvem. Final-mente, notei o sentido do poema dentro do filme. Uma malíííícia: [...]" 

Nuvem


nuvem
 .
O poema de Brecht que o personagem Wiesler, o espião do imperdível “A Vida dos Outros”, lê no livro que rouba do escritor que ele tá espionando, e ao ler é uma das coisas que o induzem a questionar sua atitude e acabar mudando…
.
Recordação de  Marie A.
.
Naquele dia, num mês azul de setembro,
em silêncio, à sombra da ameixeira,
eu a tomei nos braços: amor pálido
e quieto como um sonho formoso.
E acima de nós, no belo céu de verão
havia uma nuvem que olhei longamente:
era bem alva, estava bem no alto.
Ao olhar novamente, desapareceu.
Desde então muitas luas se passaram
mostrando o céu no seu alvor.
As ameixeiras foram talvez cortadas
E se me perguntares para onde foi o amor,
Respondo: Não consigo lembrar.
Mas sei, sim, o que queres dizer.
Suas feições, porém, para sempre se foram.
Sei apenas que naquele dia a beijei.
E mesmo o beijo, já teria esquecido
não fosse aquela nuvem no céu.
Dela sei e sempre saberei:
Era bem alva, estava bem no alto.
As ameixeiras talvez ainda cresçam.
E ela agora deve ter muitos filhos.
Mas aquela nuvem que cresceu alguns minutos
quando olhei novamente… desapareceu.
(trad. Paulo César de Souza)
.
Interessante esse momento lírico de Brecht… lembrar do efêmero que parecia eterno (beijo), através do eterno que parecia efêmero (nuvem)… só o 1º verso foi recitado no filme.
ERINNERUNG AN DIE MARIE A. An jenem Tag im blauen Mond September
Still unter einem jungen Pflaumenbaum
Da hielt ich sie, die stille bleiche Liebe
In meinem Arm wie einen holden Traum.
Und über uns im schönen Sommerhimmel
War eine Wolke, die ich lange sah
Sie war sehr weiß und ungeheuer oben
Und als ich aufsah, war sie nimmer da.

(…) .
Quando o ouvi ser recitado, pensei na relação entre o eterno y o transitório. Después, lendo-o inteiro, achei que falava do que há de eterno no amar. Em seguida, percebi que a individualidade do amado desaparece e o que é lembrado é somente o momento na memória pela conjunção beijo & nuvem. Final-mente, notei o sentido do poema dentro do filme. Uma malíííícia: tinha uma nuvem, ela sumiu, tinha uma máquina de escrever escondida, ela sumiu. 

Fonte: Psicotramas

"Entrevista: Claudia Lage, autora da novela Lado a Lado", com texto de Srta. Bia.

PICICA: "‘Lado a Lado’ foi uma novela que teve uma audiência baixa, comparada a suas antecessoras, porém, teve um público fiel. Recentemente, no evento de comemoração dos dez anos da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), o ator Lázaro Ramos agradeceu ao público que, por meio das redes sociais, fez a com que a novela ‘Lado a Lado’ se tornasse ainda mais conhecida e respeitada pelo pioneirismo em abordar a história dos negros no Brasil." 


Entrevista: Claudia Lage, autora da novela Lado a Lado

Texto de Srta. Bia.

A novela ‘Lado a Lado‘ da Rede Globo estreou em setembro de 2012 e acabou em 8 de março de 2013. Desde as primeiras notícias, sabíamos que a história ia tratar da emancipação feminina e do racismo no início do século XX. A empolgação foi grande e melhor ainda ver que grande parte das minhas  expectativas foi cumprida, fazendo da novela um marco, tanto na representação das mulheres, como na discussão da cultura negra.

Fui uma telespectadora assídua desde os primeiros capítulos e já escrevi um texto para esse blog sobre a trama: Emancipação feminina na novela Lado a Lado. Muitas pessoas que conheço também gostavam da novela, por isso abri um grupo de discussão no facebook. Perto do fim, discutíamos como dizer aos autores o quanto gostamos do enredo e dos personagens, o quanto tivemos ótimas discussões proporcionadas pelas tramas. A novela foi escrita por João Ximenes Braga e Claudia Lage, com outros colaboradores e a supervisão de Gilberto Braga. Alguém descobriu o twitter de Claudia Lage, ela disse que lia as Blogueiras Feministas e entramos em contato pedindo essa entrevista.

Dennis Carvalho, Claudia Lage e João Ximenes Braga. Diretor e escritores da novela Lado a Lado. Foto: Agnews/UOL.
Dennis Carvalho, Claudia Lage e João Ximenes Braga. Diretor e escritores da novela Lado a Lado. Foto: Agnews/UOL.

Claudia Lage é carioca, formada em Literatura e dedicou muito tempo ao teatro, como autora e atriz. Em 1996, ganhou o concurso Stanislaw Ponte Preta de contos, da Rio Arte, com o conto ‘A Hora do Galo’, que deu origem ao livro:  ’A pequena morte e outras naturezas‘. Participou de coletâneas de contos e, em 2009, lançou ‘Mundos de Eufrásia‘, biografia ficcional de Eufrásia Teixeira Leite, investidora financeira e filantropa brasileira no início do século XX. Uma mulher à frente de seu tempo, rompendo com o machismo.

‘Lado a Lado’ foi uma novela que teve uma audiência baixa, comparada a suas antecessoras, porém, teve um público fiel. Recentemente, no evento de comemoração dos dez anos da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), o ator Lázaro Ramos agradeceu ao público que, por meio das redes sociais, fez a com que a novela ‘Lado a Lado’ se tornasse ainda mais conhecida e respeitada pelo pioneirismo em abordar a história dos negros no Brasil.

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Buscamos nessa entrevista  saber mais sobre como a proposta da novela se formou, como Claudia Lage vê a produção das telenovelas atualmente e se o ibope realmente faz diferença.

1. Quando você e o João Ximenes começaram a rascunhar a novela já sabiam que o foco seria a emancipação feminista, que seria uma novela feminista? Ou isso foi se desenhando ao longo do caminho?

Desde o início pensamos em falar sobre a questão racial e a emancipação feminina. O início do século XX é uma época perfeita para isso, já que é o início, a semente ainda, da modernidade mas ainda traz a mentalidade conservadora do século XIX. O embate entre essas duas mentalidades, na novela, se deu muito pelos conflitos entre a Laura e a sua mãe, a Constância. Laura tinha a consciência de que a mulher tinha o direito de se emancipar, Constância insistia em manter os valores patriarcais, onde o destino feminino se limitava à vida doméstica e familiar. A novela é feminista porque além de falar da emancipação feminina traz personagens femininos com uma postura ativa, consciente de seus direitos, agentes do próprio destino, diferente das mocinhas convencionais do folhetim.

2. Você sente que os temas das novelas estão mudando e que isso permitiu que Lado a Lado, que fala sobre temas como emancipação feminina e racismo de forma tão clara, fosse feita?

Não sei se estão mudando, varia muito de autor pra autor, mais do que de um movimento geral em relação a isso. Eu e o João escolhemos esses temas porque sempre foram importantes pra gente, sempre estiveram em nossa cabeceira.

3. Você sente que a novela inovou ao mostrar negras e negros altivos, sendo protagonistas das próprias trajetórias, valorizando sua cultura? Como você vê a representação do negro nas telenovelas?

Sem dúvida há uma mudança de postura nos personagens negros na nossa novela, eles têm a consciência de seus direitos, de que merecem respeito e um espaço ativo na sociedade. Não abaixam a cabeça e não levam desaforo pra casa. Essa foi uma proposta bem pensada, não ter nenhum personagem negro sem essa consciência, com postura passiva e ou conformista em relação à condição de seu povo.

4. A emancipação feminina é um tema novo ou recorrente no seu trabalho como autora e colaboradora de novelas? Há outras personagens independentes que você ajudou a criar ou que foram inspiração?

Na dramaturgia é a primeira vez que desenvolvo esse tema, mas é um tema recorrente no meu trabalho de escritora. Passei seis anos pesquisando e escrevendo um romance histórico, ‘Mundos de Eufrásia’, uma obra de ficção a partir da vida da Eufrásia Teixeira Leite, que foi uma mulher muito à frente de seu tempo. Ela se tornou a primeira financista e investidora, jogava sempre na bolsa de valores na França e foi uma das únicas a sobreviver ao crash da bolsa em 1929. Fora isso, foi emancipada também na vida pessoal, onde manteve um relacionamento amoroso com Joaquim Nabuco por 15 anos, sem se casar com ele. Ela, como financista, necessitava do dinheiro para ter sua carreira, e propôs se casar com separação de bens, para preservar os seus bens, mas Nabuco não aceitou, era um ultraje para a mentalidade da época, e estamos falando de meados do século XIX.

5. Laura e Isabel sempre tiveram autoestima e mesmo amando seus companheiros se separaram várias vezes deles por iniciativa própria. As mocinhas das telenovelas estão acompanhando as mudanças sociais femininas? Ou a eterna romântica que espera o príncipe vir resgatá-la é um arquétipo muito forte na telenovela brasileira?

Laura e Isabel viveram conflitos bem contemporâneos, apesar da novela se passar em 1910. A premissa da autoestima de Laura e Isabel é conciliar amor com trabalho, amor com independência, sem abrir mão das conquistas pessoais. É isso que sempre esteve em primeiro plano na novela, e não ser resgatada pelo príncipe encantado ou amarrar seu homem a qualquer preço. Gosto de pensar sim que as mocinhas estão mudando, mas vejo a representação feminina ainda muito presa nas idéias românticas, no sentido conservador, que não correspondem muito às mulheres de hoje. O conflito entre amor e trabalho na vida contemporânea é um tema, surpreendentemente ao meu ver, pouco explorado. Há tanto para se debater sobre o assunto, porque os papéis sociais que eram muito fortes na época da novela, hoje sofreram um deslocamento enorme, mas ainda não estão totalmente resolvidos nem redefinidos. E parece evidente que precisa de uma redefinição, mas há uma resistência enorme na sociedade como um todo em assumir plenamente as mudanças feitas e em lidar com as suas consequências.

6. As notícias sobre a baixa audiência da novela foram uma constante na imprensa, isso afetou diretamente o trabalho de vocês ou mantiveram desde o início a linha traçada para a novela?

Claro que preferíamos que o ibope em São Paulo fosse no mínimo 25 pontos, mas não afetou o nosso trabalho porque sabíamos que nos outros estados o ibope estava muito bom. Foi só em São Paulo o problema, mas é uma pena que a referência oficial seja justamente lá.

7. O impacto de uma novela nas redes sociais é considerado atualmente na avaliação final de uma novela?

Sabe que não sei, se não é, deveria ser. Eu li e recebi bastante retorno da novela pelas redes sociais.

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[+] Lado a Lado – Os negros nas telenovelas por Guilherme Fernandes.
[+] Corporalidade negra em Lado a Lado por Cidinha da Silva.
[+] 8 de março: troque a rosa pela novela por Srta. Bia.

Srta. Bia

Uma feminista lambateira tropical.


Fonte: Blogueiras Feministas

"Detachment (O Substituto) de Tony Kaye", por Leandro Calbentes

PICICA: "Pode parecer pouco, mas a recusa da figura do professor-redentor traz consigo um gesto relevante de desconstrução do papel de governo das almas que a escola desempanha na modernidade. Se não existe possibilidade da ação professoral redimir a juventude do mundo, por que insistir na manutenção dessa instituição? No final das contas, é como se o filme nos lembrasse que chega o momento de enxergar, tal qual o protagonista do filme, o desmoronamento da casa de Usher que é o sistema educacional moderno." 


Detachment parece mais um filme sobre a figura do professor-redentor. Aquele que chega numa escola fracassada e desorientada, se depara com um grupo de alunos que não enxergam nenhum sentido nos estudos e um bando de professores incapazes e insatisfeitos com a profissão. Diante de todas essas dificuldades, o novo professor se mostra capaz de transformar a ordem catastrófica na qual está imersa a instituição escolar, lhe convertendo no seu contrário. O negativo é suprimido, o caos é harmonizado e a escola se transforma num lugar de salvação e civilização. Esse ideário percorre nossas representações da escola e marca fortemente nossa imaginação sobre o que é necessário para garantir o bom funcionamento do espaço escolar: precisamos de redentores. Nesse caso, Henry Barthes, o protagonista do filme, parece se encaixar perfeitamente nessa posição. Ele é um professor substituto, que trabalha cobrindo as licenças e afastamentos de outros professores. Sua função é tampar um buraco, garantir a ordem e evitar que a situação saia do controle dentro da sala de aula. E ele desempenha seu papel com grande eficiência. Logo no primeiro contato com a turma nova, Barthes demonstra um tremendo controle da situação, conquistando o respeito de seus alunos. Não demora, porém, para percebermos que ele não é capaz de redimir ninguém. Barthes é um personagem vazio, solitário, perdido. É a própria encarnação do desapego, de onde vem o nome do filme (detachment pode receber várias traduções, o estar a parte, estar separado, desapegado enfim. Por isso, é bastante incompreensível a escolha para o título nacional do filme). Desprendido de si próprio, ele enxerga o mundo como um lugar caótico e inexplicável, no qual não existe muito espaço para salvação. Essa percepção da facticidade do mundo implica num desengajamento: Barthes recusa um compromisso duradouro com as coisas e os seres. Nada de relacionamentos amorosos, amizades ou mesmo carreiras profissionais. A posição de substituto é perfeita. Ele é aquele que ocupa temporariamente um espaço, desempenha sua função, cria um envolvimento passageiro e depois parte. Isso não significa que Barthes não se importa com o mundo, apenas que enxerga o mundo como um espaço transitório e que está num movimento irremediável de colapso. Ainda que o filme não escape de um psicologismo barato – quando trata do passado trágico de Barthes (o suicídio da mãe quando ele era apenas uma criança), o que constitui o maior problema da trama –, essa explicação puramente individual é matizada por uma reflexão mais ampla do próprio fracasso institucional da escola. Barthes, assim, aparece como aquele que enxerga a impossibilidade da escola em servir como um espaço de orientação ou de redenção diante do absurdo da realidade. Por mais que a escola tente funcionar como um caminho para superar as dores da realidade, esse projeto acaba inelutavelmente fracassando. Essa percepção das coisas funciona como uma desconstrução da representação tão comum do professor-redentor. Isso fica muito claro quando observamos a relação desenvolvida entre Barthes e uma de suas alunas, Meredith. A garota é a típica menina excluída e sofrida. Com uma sensibilidade aflorada, uma verdadeira artista, ela sofre com a rejeição do seu pai e parece bastante isolada dentro da sala de aula. Nela, toda a tragédia da existência reverbera com mais intensidade, ela não suporta o peso das coisas. E claro, o professor percebe seu sofrimento. Porém, seus esforços para amenizar os sofrimentos da garota não bastam. Ninguém pode ajudá-la. E no fim, Meredith só encontra o caminho do suicídio. O aspecto mais trágico do filme nasce dessa impossibilidade de salvação. Barthes tentou, mas não foi capaz. E ninguém mais, dentro da escola, parece capaz de qualquer ato de salvação. Por isso que o filme tem interessante, na medida em que essa dimensão negativa é operacionalizada no interior mesmo de uma representação importante de legitimação da ação escolar. Pode parecer pouco, mas a recusa da figura do professor-redentor traz consigo um gesto relevante de desconstrução do papel de governo das almas que a escola desempanha na modernidade. Se não existe possibilidade da ação professoral redimir a juventude do mundo, por que insistir na manutenção dessa instituição? No final das contas, é como se o filme nos lembrasse que chega o momento de enxergar, tal qual o protagonista do filme, o desmoronamento da casa de Usher que é o sistema educacional moderno.
Fonte: Ensaios Ababelados

Fórum Social Mundial 2013 – Túnis - 29 de março. Declaração da Assembleia dos Movimentos Sociais (Adital)

PICICA: "Os povos de todo o mundo sofremos hoje os efeitos do agravamento de uma profunda crise do capitalismo, na qual seus agentes (bancos, transnacionais, conglomerados midiáticos, instituições internacionais e governos com o neoliberalismo) buscam potencializar seus benefícios a custas de uma política intervencionista e neocolonialista." 

Fórum Social Mundial 2013 – Túnis - 29 de março. Declaração da Assembleia dos Movimentos Sociais

Varias organizaciones
Adital
Tradução:ADITAL

Nós, reunidas/os na Assembleia de Movimentos Sociais, realizada em Túnis durante o Fórum Social Mundial 2013, afirmamos a contribuição fundamental dos povos do Magreb-Mashereck (desde a África do Norte até o Oriente Médio) na construção da civilização humana. Afirmamos que a descolonização dos povos oprimidos é um grande desafio para os movimentos sociais do mundo inteiro.

No processo do FSM, a Assembleia dos Movimentos Sociais é o espaço onde nos reunimos desde nossa diversidade para juntos construir agendas e lutas comuns contra o capitalismo, o patiarcado, o racismo e todo tipo de discriminação e opressão. Construímos uma história e um trabalho comum que permitiu alguns avanços, particularmente na América Latina, onde conseguimos frear alianças neoliberais e concretizar alternativas para um desenvolvimento socialmente junsto e respeitoso da natureza.

Juntos, os povos de todos os continentes livramos lutas onde nos opomos com grande energia à dominação do capital, que se oculta por trás da promessa de progresso econômico do capitalismo e da aparente estabilidade política.

Agora, nos encontramos em uma encruzilhada onde as forças conservadoras e retrógradas querem parar os processos iniciados há dois anos de sublevação na região do Mafreb-Mashrek, que ajudou a derrubar ditaduras e a enfrentar o sistema neoliberal imposto sobre os povos. Essas sublevações contagiaram a todos os continentes do mundo gerando processos de indignação e de ocupação de praças públicas.

Os povos de todo o mundo sofremos hoje os efeitos do agravamento de uma profunda crise do capitalismo, na qual seus agentes (bancos, transnacionais, conglomerados midiáticos, instituições internacionais e governos com o neoliberalismo) buscam potencializar seus benefícios a custas de uma política intervencionista e neocolonialista.

Guerras, ocupações militares, tratados neoliberais de livre comércio e "medidas de austeridade” expressadas em pacotes econômicos que privatizam os bens comuns e os serviço públicos, rebiaxam salários, reduzem direitos, multiplicam o desemprego, aumentam a sobrecarga das mulheres no trabalho de cuidado e destroem a natureza.

Essas políticas afetam com intensidade aos países mais ricos do Norte, aumentam as migrações, os deslocamentos forçados, os desalojos, o endividamento e as desigualdades sociais, como na Grécia, em Chipre, em Portugal, na Itália, na Irlanda e ni Estado Espanhol. Ela reforçam o conservadorismo e o controle sobre o corpo e a vida das mulheres. Além disso, tais agentes tentam impor-nos a "economia verde” como solução para a crise ambiental e alimentar, o que além de agravar o problema, gera a mercantilização, a privatização e a financeirização da vida e da natureza.

Denunciamos a intensificação da repressão aos povos em rebeldia, o assassinato das lideranças dos movimentos sociais, a criminalização de nossas lutas e de nossas propostas.

Afirmamos que os povos não devemos continuar pagando por essa crise sistêmica e que não há saída dentro do sistema capitalista! Aqui em Túnis, reafirmamos nosso compromisso com a construção de uma estratégia coum para derrocar o capitalismo. Por isso lutamos:

* Contra as transnacionais e o sistema financeiro (FMI, BM e OMC), principais agentes do sistema capitalista, que privatizam a vida, os serviços públicos e os bens comuns, como a água, o atr, a terra, as sementes e os recursos minerais promovem as guerras e violações dos direitos humanos. As transnacionais reproduzem práticas extrativistas insustentáveis para a vida; monopolizam nossas terras e desenvolvem alimentos transgênicos que roubam nosso direito à alimentação e eliminam a biodiversidad.

Lutamos pela anulação da dívida ilegítima e odiosa que hoje é instrumento de repressão e asfixia econômica e financeira dos povos. Recusamos os Tratados de Livre Comércio que as transnacionais nos impõem e afirmamos que é possível construir uma integração de outro tipo, a partir do povo e para os povos, baseada na solidariedade e na livre circulação dos seres humanos.

* Pela justiça climática e pela soberania alimentar, porque sabemos que o aquecimento global é resultado do sistema capitalista de produçao, de distribuição e de consumo. As transnacionais, as Instituições Financeiras Internacionais (IFIs) e os governos a seu serviço não querem reduzir suas emissões de gases de efeito, REDD, que iludem as populações empobrecidas com o progresso enquanto privatizam e mercantilizam os bosques e territórios onde vivem há milhares de anos.

Defendemos a soberania alimentar e a agricultura camponesa que é uma solução real às crises alimentar e climática e também significa acesso à terra para quem nela vive e trabalha. Por isso, chamamos a uma grande mobilização para frear o onopólio de terras e para apoiar as lutas camponesas locais.

* Contra a violência às mulheres, que é exercida regularmente nos territórios ocupados militarmente; porém, também, contra a violência sofrida pelas mulheres quando são criminalizadas por participar ativamente nas lutas sociais. Lutamos contra a violência doméstica e sexual que é exercida sobre elas quando são consideradas como objetos oumercadorias, quando a soberania sobre seus corpos e sua espiritualidade não é reconhecida. Lutamos contra a tráfico de mulheres, meninas e meninos. Defendemos a diversidade sexual, o direito à autodeterminação de gênero e lutamos contra a homofobia e a violência sexista.

* Pela paz e contra a guerra, o colonialismo, as ocupações e a militarixação de nossos territórios. Denunciamos o falso discurso em defesa dos direitos humanos e da luta contra os integrismos que,muitas vezes, justifica ocupações militares por potências imperialistas como no Haiti, na Líbia, em Mali e na Síria.

Defendemos o direito dos povos à sua autodeterminação e à sua soberania, como na Palestina, no Saara Ocidental e no Kurdistão.

Denunciamos a instalação de bases militares estrangeiras em nosso territórios, utilizadas para fomentar conflitos, controlar e saquear os recursos naturais e promover ditaduras em vários países.

Lutamos pela liberdade de organizar-nos em sindicatos, movimentos sociais, associações e todas as formas de resistência pacífica.

Fortaleçamos nossas ferramentas de solidariedade entre os povos como a iniciativa de boicote, desinvestimento e sanção para com Israel e a luta contra a Otan e pela eliminação de todas as armas nucleares.

* Pela democratização dos meios de comunicação massivos e pela construção de meios alternativos, fundamentais para avançar na derrocada da lógica capitalista.

Inspirados na história de nossas lutas e na força renovadora do povo em rebeldia, a Assembleia dos Movimentos Sociais convoca todas/os para desenvolver ações coordenadas em nível mundial em uma jornada mundial de mobilização no dia xxxxx (a definir).

Movimentos sociais de todo o mundo, avancemos rumo à unidade em âmbito mundial para derrotar o sistema capitalista!!

Basta de exploração, basta de patriarcado, racismo e colonialismo! Viva a revolução!

Viva a luta de todos os povos!
Fonte: Adital

"Para Chauí, ditadura iniciou devastação física e pedagógica da escola pública", por Paulo Donizetti de Souza

PICICA: "Houve uma corrente muito forte na década de 60, composta por professores como Aziz Ab'Saber,  Florestan Fernandes, Antonio Candido, Maria Vitória Benevides, a senhora, entre outros, que queria uma universidade mais integrada às demandas da comunidade. A senhora tem esperança de que isso volte a acontecer um dia?

Foi simbólica a mudança da faculdade para o “pastus”, não é campus universitário, porque, naquela época, era longe de tudo: você ficava em um isolamento completo. A ideia era colocar a universidade fora da cidade e sem contato com ela. Fizeram isso em muitos lugares. Mas essa sua pergunta é muito complicada, porque tem de levar em consideração o que o neoliberalismo fez: a ideia de que a escola é uma formação rápida para a competição no mercado de trabalho. Então fazer uma universidade comprometida com o que se passa na realidade social e política se tornou uma tarefa muito árdua e difícil." 

Para Chauí, ditadura iniciou devastação física e pedagógica da escola pública 

 


Por: Paulo Donizetti de Souza, Rede Brasil Atual 


Para Chauí, ditadura iniciou devastação física e pedagógica da escola pública
"Você saía de casa para dar aula e não sabia se ia voltar, se ia ser preso, se ia ser morto. Não sabia." (Foto: Gerardo Lazzari/ Sindicato dos Bancários) 
 
São Paulo – Violência repressiva, privatização e a reforma universitária que fez uma educação voltada à fabricação de mão-de-obra, são, na opinião da filósofa Marilena Chauí, professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, as cicatrizes da ditadura no ensino universitário do país. Chauí relembrou as duras passagens do período e afirma não mais acreditar na escola como espaço de  formação de pensamento crítico dos cidadãos, mas sim em outras formas de agrupamento, como nos movimentos sociais, movimentos populares, ONGs e em grupos que se formam com a rede de internet e nos partidos políticos. 

Chauí, que "fechou as portas para a mídia" e diz não conceder entrevistas desde 2003, falou à Rede Brasil Atual após palestra feita no lançamento da escola 28 de de Agosto, iniciativa do Sindicato dos Bancários de São Paulo que elogiou por projetar cursos de administração que resgatem conteúdos críticos e humanistas dos quais o meio universitário contemporâneo hoje se ressente.

Quais foram os efeitos do regime autoritário e seus interesses ideológicos e econômicos sobre o processo educacional do Brasil?

Vou dividir minha resposta sobre o peso da ditadura na educação em três aspectos. Primeiro: a violência repressiva que se abateu sobre os educadores nos três níveis, fundamental, médio e superior. As perseguições, cassações, as expulsões, as prisões, as torturas, mortes, desaparecimentos e exílios. Enfim, a devastação feita no campo dos educadores. Todos os que tinham ideias de esquerda ou progressistas foram sacrificados de uma maneira extremamente violenta.

Em segundo lugar, a privatização do ensino, que culmina agora no ensino superior, começou no ensino fundamental e médio. As verbas não vinham mais para a escola pública, ela foi definhando e no seu lugar surgiram ou se desenvolveram as escolas privadas. Eu pertenço a uma geração que olhava com superioridade e desprezo para a escola particular, porque ela era para quem ia pagar e não aguentava o tranco da verdadeira escola. Durante a ditadura, houve um processo de privatização, que inverte isso e faz com que se considere que a escola particular é que tem um ensino melhor. A escola pública foi devastada, física e pedagogicamente, desconsiderada e desvalorizada.

E o terceiro aspecto?

A reforma universitária. A ditadura introduziu um programa conhecido como MEC-Usaid, pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, para a América Latina toda. Ele foi bloqueado durante o início dos anos 1960 por todos os movimentos de esquerda no continente, e depois a ditadura o implantou. Essa implantação consistiu em destruir a figura do curso com multiplicidade de disciplinas, que o estudante decidia fazer no ritmo dele, do modo que ele pudesse, segundo o critério estabelecido pela sua faculdade. Os cursos se tornaram sequenciais. Foi estabelecido o prazo mínimo para completar o curso. Houve a departamentalização, mas com a criação da figura do conselho de departamento, o que significava que um pequeno grupo de professores tinha o controle sobre a totalidade do departamento e sobre as decisões. Então você tem centralização. Foi dado ao curso superior uma característica de curso secundário, que hoje chamamos de ensino médio, que é a sequência das disciplinas e essa ideia violenta dos créditos. Além disso, eles inventaram a divisão entre matérias obrigatórias e matérias optativas. E, como não havia verba para contratação de novos professores, os professores tiveram de se multiplicar e dar vários cursos. 

"Fazer uma universidade comprometida com o que se passa na realidade social e política se tornou uma tarefa muito árdua e difícil"
Houve um comprometimento da inteligência?

Exatamente. E os professores, como eram forçados a dar essas disciplinas, e os alunos, a cursá-las, para terem o número de créditos, elas eram chamadas de “optatórias e obrigativas”, porque não havia diferença entre elas. Depois houve a falta de verbas para laboratórios e bibliotecas, a devastação do patrimônio público, por uma política que visava exclusivamente a formação rápida de mão de obra dócil para o mercado. Aí, criaram a chamada licenciatura curta, ou seja, você fazia um curso de graduação de dois anos e meio e tinha uma licenciatura para lecionar. Além disso, criaram a disciplina de educação moral e cívica, para todos os graus do ensino. Na universidade, havia professores que eram escalados para dar essa matéria, em todos os cursos, nas ciências duras, biológicas e humanas. A universidade que nós conhecemos hoje ainda é a universidade que a ditadura produziu. 


Essa transformação conceitual e curricular das universidade acabou sendo, nos anos 1960, em vários países, um dos combustíveis dos acontecimentos de 1968 em todo mundo.

Foi, no mundo inteiro. Esse é o momento também em que há uma ampliação muito grande da rede privada de universidades, porque o apoio ideológico para a ditadura era dado pela classe média. Ela, do ponto de vista econômico, não produz capital, e do ponto de vista política, não tem poder. Seu poder é ideológico. Então, a sustentação que ela deu fez com que o governo considerasse que precisava recompensá-la e mantê-la como apoiadora, e a recompensa foi garantir o diploma universitário para a classe média. Há esse barateamento do curso superior, para garantir o aumento do número de alunos da classe média para a obtenção do diploma. É a hora em que são introduzidas as empresas do vestibular, o vestibular unificado, que é um escândalo, e no qual surge a diferenciação entre a licenciatura e o bacharelato. 

Foi uma coisa dramática, lutamos o que pudemos, fizemos a resistência máxima que era possível fazer, sob a censura e sob o terror do Estado, com o risco que se corria, porque nós éramos vigiados o tempo inteiro. Os jovens hoje não têm ideia do que era o terror que se abatia sobre nós. Você saía de casa para dar aula e não sabia se ia voltar, não sabia se ia ser preso, se ia ser morto, não sabia o que ia acontecer, nem você, nem os alunos, nem os outros colegas. Havia policiais dentro das salas de aula.

Houve uma corrente muito forte na década de 60, composta por professores como Aziz Ab'Saber,  Florestan Fernandes, Antonio Candido, Maria Vitória Benevides, a senhora, entre outros, que queria uma universidade mais integrada às demandas da comunidade. A senhora tem esperança de que isso volte a acontecer um dia?

Foi simbólica a mudança da faculdade para o “pastus”, não é campus universitário, porque, naquela época, era longe de tudo: você ficava em um isolamento completo. A ideia era colocar a universidade fora da cidade e sem contato com ela. Fizeram isso em muitos lugares. Mas essa sua pergunta é muito complicada, porque tem de levar em consideração o que o neoliberalismo fez: a ideia de que a escola é uma formação rápida para a competição no mercado de trabalho. Então fazer uma universidade comprometida com o que se passa na realidade social e política se tornou uma tarefa muito árdua e difícil. 

"Esse é o momento também em que há uma ampliação muito grande da rede privada de universidades, porque o apoio ideológico para a ditadura era dado pela classe média"
Não há tempo para um conceito humanista de formação?

É uma luta isolada de alguns, de estudantes e  professores, mas não a tendência da universidade.

Hoje, a esperança da formação do cidadão crítico está mais para as possibilidades de ajustes curriculares no ensino fundamental e médio? Ou até nesses níveis a educação forma estará comprometida com a produção de cabeças e mãos para o mercado?

Na escola, isso, a formação do cidadão crítico, não vai acontecer. Você pode ter essa expectativa em outras formas de agrupamento, nos movimentos sociais, nos movimentos populares, nas ONGs, nos grupos que se formam com a rede de internet e nos partidos políticos. Na escola, em cima e em baixo, não. Você tem bolsões, mas não como uma tendência da escola.

Leia especial sobre os 48 anos do golpe de 1964:


Fonte: Rede Brasil Atual