PICICA: "Pode parecer pouco, mas a recusa da figura do
professor-redentor traz consigo um gesto relevante de desconstrução do
papel de governo das almas que a escola desempanha na modernidade. Se
não existe possibilidade da ação professoral redimir a juventude do
mundo, por que insistir na manutenção dessa instituição? No final das
contas, é como se o filme nos lembrasse que chega o momento de enxergar,
tal qual o protagonista do filme, o desmoronamento da casa de Usher que é o sistema educacional moderno."

Detachment parece mais um filme sobre a figura do professor-redentor.
Aquele que chega numa escola fracassada e desorientada, se depara com
um grupo de alunos que não enxergam nenhum sentido nos estudos e um
bando de professores incapazes e insatisfeitos com a profissão. Diante
de todas essas dificuldades, o novo professor se mostra capaz de
transformar a ordem catastrófica na qual está imersa a instituição
escolar, lhe convertendo no seu contrário. O negativo é suprimido, o
caos é harmonizado e a escola se transforma num lugar de salvação e
civilização. Esse ideário percorre nossas representações da escola e
marca fortemente nossa imaginação sobre o que é necessário para garantir
o bom funcionamento do espaço escolar: precisamos de redentores.
Nesse caso, Henry Barthes, o protagonista do filme, parece se encaixar
perfeitamente nessa posição. Ele é um professor substituto, que trabalha
cobrindo as licenças e afastamentos de outros professores. Sua função é
tampar um buraco, garantir a ordem e evitar que a situação saia do
controle dentro da sala de aula. E ele desempenha seu papel com grande
eficiência. Logo no primeiro contato com a turma nova, Barthes demonstra
um tremendo controle da situação, conquistando o respeito de seus
alunos. Não demora, porém, para percebermos que ele não é capaz de
redimir ninguém. Barthes é um personagem vazio, solitário, perdido. É a
própria encarnação do desapego, de onde vem o nome do filme (detachment
pode receber várias traduções, o estar a parte, estar separado,
desapegado enfim. Por isso, é bastante incompreensível a escolha para o
título nacional do filme). Desprendido de si próprio, ele enxerga o
mundo como um lugar caótico e inexplicável, no qual não existe muito
espaço para salvação. Essa percepção da facticidade do mundo implica num
desengajamento: Barthes recusa um compromisso duradouro com as coisas e
os seres. Nada de relacionamentos amorosos, amizades ou mesmo carreiras
profissionais. A posição de substituto é perfeita. Ele é aquele que
ocupa temporariamente um espaço, desempenha sua função, cria um
envolvimento passageiro e depois parte. Isso não significa que Barthes
não se importa com o mundo, apenas que enxerga o mundo como um espaço
transitório e que está num movimento irremediável de colapso. Ainda que o
filme não escape de um psicologismo barato – quando trata do passado
trágico de Barthes (o suicídio da mãe quando ele era apenas uma
criança), o que constitui o maior problema da trama –, essa explicação
puramente individual é matizada por uma reflexão mais ampla do próprio
fracasso institucional da escola. Barthes, assim, aparece como aquele
que enxerga a impossibilidade da escola em servir como um espaço de
orientação ou de redenção diante do absurdo da realidade. Por mais que a
escola tente funcionar como um caminho para superar as dores da
realidade, esse projeto acaba inelutavelmente fracassando. Essa
percepção das coisas funciona como uma desconstrução da representação
tão comum do professor-redentor. Isso fica muito claro quando observamos
a relação desenvolvida entre Barthes e uma de suas alunas, Meredith. A
garota é a típica menina excluída e sofrida. Com uma sensibilidade
aflorada, uma verdadeira artista, ela sofre com a rejeição do seu pai e
parece bastante isolada dentro da sala de aula. Nela, toda a tragédia da
existência reverbera com mais intensidade, ela não suporta o peso das
coisas. E claro, o professor percebe seu sofrimento. Porém, seus
esforços para amenizar os sofrimentos da garota não bastam. Ninguém pode
ajudá-la. E no fim, Meredith só encontra o caminho do suicídio. O
aspecto mais trágico do filme nasce dessa impossibilidade de salvação.
Barthes tentou, mas não foi capaz. E ninguém mais, dentro da escola,
parece capaz de qualquer ato de salvação. Por isso que o filme tem
interessante, na medida em que essa dimensão negativa é operacionalizada
no interior mesmo de uma representação importante de legitimação da
ação escolar. Pode parecer pouco, mas a recusa da figura do
professor-redentor traz consigo um gesto relevante de desconstrução do
papel de governo das almas que a escola desempanha na modernidade. Se
não existe possibilidade da ação professoral redimir a juventude do
mundo, por que insistir na manutenção dessa instituição? No final das
contas, é como se o filme nos lembrasse que chega o momento de enxergar,
tal qual o protagonista do filme, o desmoronamento da casa de Usher que é o sistema educacional moderno.
Fonte: Ensaios Ababelados
Detachment (O Substituto) de Tony Kaye