junho 03, 2013

"Dos armários nossos de cada dia", texto de Letticia Leite.

PICICA: "[...] entre outras coisas, a autora sublinha que, para muito além de Stonewall, a salvação não viria a ser encontrada nem mesmo num ato único ou coletivo definitivo de “saída do armário”. Na medida em que, assumir ou não, parece constituir-se antes numa escolha que implica atos diários de negociações que se dão a partir de um “dispositivo de regulação” materializado pelas múltiplas significações da metáfora “armário”. Afinal, atuamos numa sociedade em que os discursos em torno do “armário” se foram e são (re)apropriados pelos movimentos militantes, há muito constituem-se em discursos heteronormativos (nem) sempre tácitos. E é por ali que parece a cada dia passar quem dita o que é exibicionismo ou discrição, o que extrapola ou não a esfera do público e do privado, do segredo e da confissão."



Dos armários nossos de cada dia

Texto de Letticia Leite.

Cenário 1

Certa vez, uma moça narrou-me com orgulho que, ao contar sobre o fato de estar/ou ter se relacionado com algumas mulheres, ouvira de uma pessoa que era sua conhecida há um bom tempo, algo do gênero: “Nossa, você é bastante discreta. Pois não dá para saber que você “é”. “É” o quê? Eu perguntaria para ambas? “Lésbica” seria o termo que deveria vir depois do verbo “é”? E eu nunca vou saber quem de fato usou o vago “é”. Se foi a moça que me narrou, toda orgulhosa da sua discrição, o breve diálogo que acabo de relatar acima, ou se foi mesmo sua interlocutora. Ou teria eu mesma inventado? Não fosse o incômodo que me fez reter na memória este pequeno diálogo, cheio de subentendidos, com muito orgulho de o serem, eu poderia apostar nesta última alternativa. Fato é que ambas não pareciam nem um pouco preocupadas, pelo contrário. Afinal, ao menos na altura em que a moça me narrou esta conversa, ela não se definia como “lésbica”. Ah! E nem tampouco definia-se como bissexual. Ela, moça “feminina” padrão está salva de qualquer “suspeita”.

Cenário 2

Um ano e meio antes do “Cenário 1”, em outra conversa, na qual agora era uma das interlocutoras ativas, eu estranhava a pergunta que ouvi sem rodeios enunciada por minha interlocutora, que se definia como lésbica. Ela, logo ao me conhecer perguntara nos primeiros minutos de conversa: “Você é lésbica?”. Ao que eu respondi algo do tipo: “Gosto e apenas desejo ficar com mulheres, mas sinto um certo incômodo com definições, já que nossas identidades passavam por construções históricas e blá, blá, entre outras coisas do gênero”. Quase a resposta comum do tipo “eu gosto de pessoas”. E sim, eu hoje continuo gostando de pessoas “no geral”, assim como continuo gostando e desejando relacionar-me erótica e/ou afetivamente apenas com mulheres. Mas o ponto não é este: o ponto é que, ao me incomodar com o que eu parecia entender como “rótulos” naquela altura, não estava levando muito em conta o mundo para um pouco além de mim. Isto é, eu parecia não considerar nem por um instante, as histórias dos movimentos sociais onde as identidades minoritárias e historicamente há muito estigmatizadas, tinham sido transformadas em causa de luta e de orgulho (pride).

E eu, na ocasião, mal sabia que a moça ali, que fazia questão de se definir como lésbica, tampouco ela se dava muito conta da importância política, individual e coletiva, que a sua postura de se definir com todas as letras enquanto lésbica, representava. Ela, pouco “feminina” para os padrões tão restritos que versam sobre a maneira de se vestir e se impor como “mulher” no mundo; ela sim, que sempre estava sob “suspeita”, parecia nesta altura da sua vida na qual nos encontramos, bem pouco disposta a se submeter ao que se elogia por aí como “discrição”. Porém, embora ela houvesse há muito escolhido arrombar o armário no contexto familiar e social no geral, vez ou outra, ela também se via às voltas com as “boas medidas” e pertinência do assumir/omitir.

Cenário 3

Fiquei pensando bastante na “questão do armário” também por estes dias — e senti-me, por isto, involuntariamente convidada a escrever o presente texto — depois de ler o belo texto escrito e publicado por Idelber Avelar, no seu Facebook (07/04/2013), acerca de uma recente matéria de capa da Revista Veja. Capa em que os holofotes se voltavam para a decisão e o ato politicamente significativo feito por Daniela Mercury, que optou por “sair do armário”.

Fotos divulgadas por Daniela Mercury em seu perfil no instagram.
Fotos divulgadas por Daniela Mercury em seu perfil no instagram.

Daniela decidiu tornar pública a relação que mantêm com a jornalista Malu Verçosa, em meio a um contexto bastante significativo e turbulento: de um lado os movimentos LGBT’s se batem cada vez mais no Brasil, e em tantos outros países do mundo, para fazer valer seus direitos a uma cidadania efetiva. Paralelamente, o Brasil recebe, não sem reações, a notícia da nomeação do pastor Marcos Feliciano como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal. Figura política conhecida por suas famigeradas declarações de cunho abertamente racista, machista e homofóbico.

Trata-se também, como a cantora mesma declara em vídeo divulgado pela Internet — no qual comenta emocionada as repercussões da sua decisão — de uma decisão tomada em conjunto com sua companheira, como uma forma de procurar viver suas próprias vidas de forma mais tranquila, sem medo das “suspeitas” e dos “rumores” sobre os não ditos, porém subentendidos.


No entanto, a matéria da Veja, como bem ressalta Idelber Avelar, é generosa em comentários típicos de uma cultura que prega em tempo quase integral uma espécie de ética do armário. Afinal, a revista considera que “Daniela misturou seu relacionamento com política”, e fazendo isto, ela teria prestado um desserviço ao romantismo e à “seriedade dos seus propósitos”. Idelber ressalta ainda :

Mais escrotidão aparece na capa, que credita ao belo e louvável ato de Daniela o mérito de fazer ‘da união homossexual uma questão inadiável no Brasil’, como se esse mérito não fosse de milhares e milhares de ativistas LGBT anônimos, que estão nesta luta há décadas, e que tornaram possível o próprio ato (belo, insisto) de Daniela.
Discrição/Armário” (Discrétion/Placard), não por acaso é a dupla que podemos encontrar num dos verbetes que compõe o ‘Dicionário da Homofobia’, publicado na França em 2003 (1). Verbete que,  assim como o verbete “Armário” (Placard), de outro dicionário lançado no mesmo ano também na França, o ‘Dicionário das Culturas gays e lésbicas’ (2), destaca a historicidade e, portanto, a complexidade implicada na e pela noção do “armário”.

Ora, a metáfora do armário, fechado, é o lugar da vergonha, dos amores ilegítimos sintetizados na figura bem conhecida dos amantes que ali se escondem. “Armário” também serve de metáfora para o lugar social e psicológico em que por muito tempo, e ainda hoje, — ainda que seja por momentos, e apenas em certos contextos (familiar, trabalho), muitas lésbicas, gays, bissexuais e transexuais se encontram, mas do qual também fazem uso. Pois, os espaços coletivos criados e restritos para os que “são”, podem ser lidos por um viés de proteção de alguma liberdade, e portanto, como parte de um processo político de resistência. Espaço de sobrevivência, onde por muito tempo se fez possível a vivência e troca de experiências entre os “armariados”.

O ponto de partida de um uso aberto, política e coletivamente subversivo do lugar do armário são os anos 1970, momento pós-Stonewall (1969) (3). Uma vez que, a partir dali, a “saída do armário” (coming out), tornar-se-ia palavra de ordem política que se espalharia mundo afora. Aliás, um traço notório da expansão desse processo político evidencia-se por meio das versões que o vocábulo closet, e as expressões dele derivadas, ganhariam mundo afora: armário (pt.), armario (esp.), placard (fr.), para ficar em alguns exemplos. “Sair do armário” era, portanto, sair lugar do espaço da vergonha, para assumir com orgulho uma identidade. Não por acaso, outro produto deste contexto, e que também ganharia notoriedade mundo afora, são as saídas coletivas, as marchas e paradas: as Gays Prides. Mais tarde, objetos de discussão dentro e fora dos movimentos LGBT’s. Movimentos com frequência acusados como espaço de puro exibicionismo.

Dada tamanha pluralidade de manifestações e significações, não por acaso a noção do “armário”, foi tomada como objeto central de reflexão por parte da estudiosa Eve Kosofsky Sedwig. Ela, no seu livro ‘Epistemology of the closet’, publicado em 1990, desenvolve o que eu vou definir aqui (4) como uma análise que busca identificar e discutir certos traços que, ao longo da história, vêm norteando as estruturas que sustentam o “armários”. Traços/ações que acabam por configurar perfis biográficos de indivíduos, movimentos sociais e de nossa sociedade como um todo — esta constituída sob uma base heteronormativa e homofóbica (5), na qual a preferência heterossexual aparece como uma evidência que não demanda nem confissão nem discrição.

Assim, entre outras coisas, a autora sublinha que, para muito além de Stonewall, a salvação não viria a ser encontrada nem mesmo num ato único ou coletivo definitivo de “saída do armário”. Na medida em que, assumir ou não, parece constituir-se antes numa escolha que implica atos diários de negociações que se dão a partir de um “dispositivo de regulação” materializado pelas múltiplas significações da metáfora “armário”. Afinal, atuamos numa sociedade em que os discursos em torno do “armário” se foram e são (re)apropriados pelos movimentos militantes, há muito constituem-se em discursos heteronormativos (nem) sempre tácitos. E é por ali que parece a cada dia passar quem dita o que é exibicionismo ou discrição, o que extrapola ou não a esfera do público e do privado, do segredo e da confissão.

É neste espaço que a imprensa, como bem vimos no “Caso Daniela Mercury”, e já em tantos outros, não se cansa de jogar o jogo e dar as cartas por meio de um discurso contraditório e sempre limitante. Daí, se de um lado este tipo de imprensa expõe na capa a “saída do armário”, e a destaca como ato político “desbravador”; paralelamente ela mesma se encarrega de rechaçá-lo pelo que seria uma sua falta de medida que anda a misturar as esferas da política e do privado.

Como forma de concluir, opto por compartilhar uma reflexão bastante preciosa, acerca de fatos “banais”, de Eve Kosofsky Sedwig. Fica, assim, o convite para continuarmos pensando:

Mesmo num nível individual, até entre as pessoas mais assumidamente gays há pouquíssimas que não estejam no armário com alguém que seja pessoal, econômica ou institucionalmente importante para elas. (…) Cada encontro com uma nova turma de estudantes, para não falar de um novo chefe, assistente social, gerente de banco, senhorio, médico, constrói novos armários cujas leis características de ótica e física exigem, pelo menos da parte de pessoas gays, novos levantamentos, novos cálculos, novos esquemas e demandas de sigilo ou exposição. Mesmo uma pessoa gay assumida lida diariamente com interlocutores que ela não sabe se sabem ou não. É igualmente difícil adivinhar, no caso de cada interlocutor, se, sabendo, consideram a informação importante. No nível mais básico, tampouco é inexplicável que alguém que queira um emprego, a guarda dos filhos ou direitos de visita, proteção contra violência, contra ‘terapia’, contra estereótipos distocidos, contra o escrutínio insultuoso, contra a interpretação forçada de seu produto corporal, possa escolher deliberadamente entre ficar o voltar para o armário em algum ou em todos os segmentos de sua vida. O armário gay não é uma caractesrítica apenas da vida de pessoas gays. Mas, para muitas delas, ainda é a característica fundamental da vida social, e há poucas pessoas gays, por mais corajosas e sinceras que sejam de hábito, por mais afortunadas pelo apoio de suas comunidades imediatas, em cujas vidas o armário não seja ainda uma presença formadora. (“A epistemologia do armário”, p. 22)
Referências bibliográficas
(1) MANGEOT, Philippe, « Discrétion/Placard ». In : TIN, Louis-Georges (dir.), Dictionnaire de l’homophobie, Paris : PUF, 2003, p. 130-133.
(2) ERIBON, Didier, « Placard ». In : ERIBON, D. (dir.), Dictionnaire de cultures Gays et Lesbiennes, Paris : Larousse, 2003, p. 365-366.
(3) Em junho de 1969, a invasão policial do bar Stonewall Inn deflagraria uma rebelião nas ruas de Nova York. Este evento posteriormente seria tomado como marco mundial de fundação dos movimentos LGBT’s.
(4) As pessoas interessadas num acesso mais imediata às ideias desta autora, podem encontrá-las no artigo “A Epistemologia do armário”, traduzido e disponibilizado aqui: http://www.scielo.br/pdf/cpa/n28/03.pdf
(5) Embora eu use o adjetivo derivado do termo “geral”: ‘homofobia’, destaco a pertinência e especifidade implicada no/pelo uso dos termos: lesbofobia, gayfobia, transfobia e bifobia. Para uma discussão em torno da constituição da noção de “homofobia”, fica a dica de leitura do artigo escrito por Felipe Fernandes, disponível na internet: http://www.apebfr.org/passagesdeparis/editione2012/articles/pdf/PP7_artigo10.pdf.

Indico ainda o documentário “Homofobia, Lesbofobia e Transfobia”, 2008, realizado por Felipe Fernandes e disponível no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=gIxx8Zd5TuU. A França, desde 1994, conta com as atividades da Associação SOS Homophobie: http://www.sos-homophobie.org/

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Letticia Leite tem 31 anos e ultimamente tem apreciado os barulhos que consegue ouvir nos momentos de silêncio. É doutoranda em História.


Letticia Leite

Tem 31 anos e ultimamente tem apreciado os barulhos que consegue ouvir nos momentos de silêncio. Faz doutorado em História.

Fonte: Blogueiras Feministas

junho 02, 2013

"Vídeo lançado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa" (União Campo Cidade e Floresta)

Vídeo lançado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa


Vídeo lançado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa na 23ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), denunciando as violações de direitos humanos que estão ocorrendo para a realização da Copa 2014. 


Publicado em 27/05/2013
ENGLISH: http://www.youtube.com/watch?v=aAX0zS...
Este vídeo foi realizado com partes de vídeos gravados por moradores, videoativistas, mídias independentes e colaboradores da resistência contra a violação de direitos humanos no contexto internacional dos megaeventos.
www.portalpopulardacopa.org.br


"O Índio da Mídia", por José Ribamar Bessa Freire (Post dedicado à Doutora Verenilde Santos Pereira)

PICICA: "O que tem na cabeça de um ministro, de um juiz, de um jornalista, de um governador, de um policial, de um bispo e até de um fazendeiro, enfim, qual imagem têm do índio esses agentes que algumas vezes são obrigados a lidar com culturas dotadas de lógicas e de línguas tão diferentes? Que conhecimentos possuem eles sobre esses povos?
[...]
Essas e outras perguntas foram respondidas pela jornalista e pesquisadora amazonense Verenilde Santos Pereira, que defendeu na última sexta-feira, 31 de maio, sua tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) sobre a cobertura jornalística no "massacre" da Expedição Calleri. Ela conhece os jornais por dentro, trabalhou como repórter em vários deles, inclusive no "Porantim", o jornal mensal do Conselho Indigenista Missionário (CIMI).
Em sua pesquisa, a agora doutora Verenilde fuçou arquivos, recuperou as matérias jornalísticas publicadas por jornais de Manaus e outros de circulação nacional para analisá-las e refletir sobre a singularidade jornalística na cobertura feita sobre a Expedição Calleri. Seu objetivo era descobrir o que foi silenciado para a afirmação de tal singularidade."
 
O ÍNDIO DA MÍDIA
José Ribamar Bessa Freire
02/06/2013 - Diário do Amazonas
 
A manchete do Estadão (23/11/68) usou o verbo trucidar e as palavras chacina e ferocidade quando noticiou que nove corpos de membros da Expedição Calleri foram localizados, em 1968, no território dos Waimiri-Atroari. Embora ninguém soubesse ainda o que havia efetivamente ocorrido, o repórter, antes mesmo de se deslocar até a área, se apressou em afirmar que os índios eram os autores da carnificina. Para isso, exibiu antecedentes históricos sem mencionar qualquer referência documental:
"Calcula-se que mais de 1500 brancos foram massacrados pelos Waimiri-Atroari de umas décadas para cá".
Quem calculou? O sujeito é indeterminado. Quantas décadas? O período é impreciso. De onde tirou os dados? Sabe Deus. O certo é que, sem citar fontes, traça o perfil dos Waimiri de forma sádica e preconceituosa: "Os silvícolas costumam picar suas vítimas em pedacinhos e queimá-las até virarem cinzas". Olhando agora, a gente duvida que alguém tenha tido a coragem de publicar tal bobagem, digerida por milhares de leitores, muitos dos quais acabaram acreditando na potoca. O relato virou "verdade", se fez carne e habitou entre nós.
Afinal, quem matou os nove membros da Expedição, entre eles o padre Calleri? Quando suspeita que a ação é cometida por índios, a grande imprensa, em voz uníssona, apresenta-os como os sujeitos da ação e qualifica-os como feras, reforçando preconceitos. A Expedição visava atrair os "silvícolas" para afastá-los de seu território, que seria rasgado pela estrada Br-174. Apesar disso, para a mídia, os índios agiram não em legítima defesa da terra invadida, mas por causa de sua "natureza bestial".
No entanto, quando ocorre o contrário, o sujeito da oração não é quem disparou o tiro assassino, continua sendo o índio, como registrou O Globo em manchete na última sexta-feira: "INDIO MORRE EM CONFRONTO COM POLICIAIS". Ou seja, ninguém matou, ele é que morreu. Não há responsáveis.
Quem matou?
Na regra do jornalismo é preciso responder, entre outras perguntas, o "quem", já no primeiro parágrafo, no lide. Quem matou o terena Oziel Gabriel, em Sidrolândia (MS), na fazenda que desde 2010 foi declarada Terra Indígena? Quem disparou os tiros que feriram muitos índios, entre eles, mulheres, idosos e crianças? Por que? Nenhuma análise foi feita pela mídia sobre as razões do conflito, nem sobre quantos índios foram assassinados, sequer quantos índios "morreram" nas "últimas décadas".
Um juiz federal deu a reintegração de posse ao ex-deputado Ricardo Bacha que jura, fazendo figa, que a terra é dele. Dez equipes da Policia Federal e cem homens da Tropa de Elite da PM, armados, cercaram os índios, jogaram bombas e dispararam tiros. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo diz que "se a investigação comprovar irregularidade ou abuso, os responsáveis serão devidamente punidos?". Deixa ver se entendi bem: quer dizer que existe, então, "assassinato regular" e "assassinato irregular"? "Morte com abuso" e "morte sem abuso"? 
- "Até o momento não se pode dizer de onde partiu o tiro. Não prejulgaremos" - disse Cardozo, que não faz prejulgamento quando se trata de saber quem matou índios, mas não hesita em prejulgar inofensivos facebookeiros quando denuncia "ativistas que estariam incentivando a violência nas redes sociais".
O ministro não sabe, mas eu sei de onde partiu o tiro. Se ele quiser, posso testemunhar e dar os nomes aos bois e às vacas. O primeiro tiro foi disparado por um canhão em abril de 1.500 e de lá para cá, "nos últimos séculos", metralhadoras de repetição não cessaram de cuspir fogo, disparadas por bandeirantes ao longo de todo o período colonial, por bugreiros no Império e na República e agora pelo agronegócio ávido em abocanhar as terras indígenas.
O que ocorreu aqui foi "a maior catástrofe demográfica da história da humanidade", segundo demógrafos da Escola de Berkeley, que refinaram seus métodos de análise. Nunca uma região foi esvaziada tão violenta, drástica e rapidamente como o continente americano. Mas o processo não terminou no período colonial. Persiste ainda hoje. O colonialismo, como estrutura de dominação é historicamente datado, mas a colonialidade - para citar termo consagrado por Anibal Quijano - é mais profunda e duradoura. Continua entranhada na cabeça das pessoas, orientando comportamentos.
O que tem na cabeça de um ministro, de um juiz, de um jornalista, de um governador, de um policial, de um bispo e até de um fazendeiro, enfim, qual imagem têm do índio esses agentes que algumas vezes são obrigados a lidar com culturas dotadas de lógicas e de línguas tão diferentes? Que conhecimentos possuem eles sobre esses povos?
Bomba na maloca
Essas e outras perguntas foram respondidas pela jornalista e pesquisadora amazonense Verenilde Santos Pereira, que defendeu na última sexta-feira, 31 de maio, sua tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) sobre a cobertura jornalística no "massacre" da Expedição Calleri. Ela conhece os jornais por dentro, trabalhou como repórter em vários deles, inclusive no "Porantim", o jornal mensal do Conselho Indigenista Missionário (CIMI).
Em sua pesquisa, a agora doutora Verenilde fuçou arquivos, recuperou as matérias jornalísticas publicadas por jornais de Manaus e outros de circulação nacional para analisá-las e refletir sobre a singularidade jornalística na cobertura feita sobre a Expedição Calleri. Seu objetivo era descobrir o que foi silenciado para a afirmação de tal singularidade.
Aprendemos, nas escolas de jornalismo, que na construção de uma narrativa é preciso sempre ouvir o "outro lado". Acontece que as matérias analisadas pela doutoranda foram compostas, paradoxalmente, com o silêncio dos índios, os principais protagonistas do episódio. A voz foi dada sempre só a um lado, especialmente às autoridades, que viam nos índios um obstáculo para a abertura da estrada Br-174.
Verenilde mostra como o então governador do Amazonas Danilo Areosa e o governador de Roraima Fernando Ramos Pereira concordaram, em repetidas declarações, que "uma minoria de índios não pode atravancar o progresso". Até o bispo Dom João de Souza Lima, na celebração dos rituais fúnebres dos mortos na Expedição Calleri, fez um sermão condenando os índios que "por serem ignorantes não compreenderam o gesto de amor do padre Calleri e trucidaram os membros da expedição". 
A fala contra os índios foi articulada até mesmo pelo presidente da Funai, na época o jornalista Queiroz Campos, que devia combater os preconceitos e contribuir para que a população brasileira conhecesse um pouco mais as culturas indígenas. Ele declarou à Folha de São Paulo que "os índios são altamente ferozes, perigosos e costumam estraçalhar e queimar vivos os inimigos vencidos".    
Diante desse coro afinado de vozes, quem aloprou foi o coronel Jorge Teixeira, que emprestou seu nome a logradouros públicos em Manaus, de onde foi prefeito nomeado, e em Rondônia, de onde foi governador. Na época, ele era comandante do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) e falando daquele lugar o nosso Eichmann caboco apresentou a solução final:
- "Nós poderíamos resolver tudo com algumas bombas jogadas sobre as malocas à noite".
A fala dos índios
A truculência e ignorância das autoridades, a subtração da informação, o emudecimento dos índios pela mídia levaram Verenilde a recuperar depoimentos e desenhos dos Waimiri-Atroari recolhidos por Egydio Schwade e Dorothy Muller, professores da Escola Waimiri, e pelo antropólogo Stephen Baines. Um artigo de Egydio publicado recentemente no Porantim relata o massacre dos índios na ditadura militar e registra o que foi subtraído do noticiário da mídia. A proposta do coronel Teixeirão foi acatada.
Os Kiña - autodenominação dos Waimiri-Atroari - realizaram em setembro de 1974 uma festa na aldeia Kramna Mudi, no baixo rio Alalaú. Por volta de meio dia, um avião se aproxima. O pessoal sai da maloca pra ver: as crianças se concentram no pátio central. O avião derramou um pó mortal e matou 33 índios, deixando apenas um único sobrevivente, que relatou o fato dando o nome de cada um dos 33 parentes mortos, que não tinham qualquer sinal de violência no corpo.
Depoimentos de vários índios, entre os quais Damxiri, Panaxi e Yaba narram os massacres sofridos pelos Waimiri-Atroari. Verenilde, que os valoriza, usa o quadro teórico de Hannah Arendt, para quem "todas as dores podem ser suportadas se forem postas em uma história ou quando se conta uma história sobre elas". Não se trata de mera descrição dos fatos, mas de um modo de pensá-los. Uma forma de estabelecer vínculo com o mundo é contar uma história dele, ai os fatos adquirem significado. É dessa forma que o pensamento narracional se afirma.  
A tese analisa o comportamento da mídia na cobertura sobre a Expedição Calleri, usando a noção de "banalidade do mal" formulada por Hannah Arendt a partir do julgamento de Adolf Eichmann, oficial da Gestapo que exterminou judeus. A banalidade do mal se apoia na incapacidade de se colocar na pele do outro e a partir daí tentar compreender o "ponto de vista" do outro. Tal incapacidade leva a uma excessiva superficialidade e à derrota do pensamento ao tentar narrar o outro. É o que acontece com a mídia. A imagem do índio criada pela mídia é fruto da banalidade do mal.
P.S. - Verenilde Santos Pereira: Singularidade Jornalistica e violência: o "massacre" da Expedição Calleri. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade de Brasilia (UnB). 31 de maio de 2013. Banca: Dra. Rita Laura Segato (orientadora), Wenderson Flor, Sérgio Dayrell Porto, Luiz Martins e José R.Bessa

Fonte: TAQUIPRATI

"Pessimista alegre x otimista desencantado", por Bruno Cava

PICICA: "Para o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, a tarefa que se impõe hoje é conseguir acomodar no pensamento, ao mesmo tempo, a previsão (indiscutível?) de que o mundo já tenha acabado, com a ideia oswaldiana que a alegria é a prova dos nove. Como se pode viver alegre num mundo em extinção? Há algo de verdadeiramente pregnante no paradoxo, independente das condições de contorno da formulação."
 
Pessimista alegre x otimista desencantado
 


O pessimista alegre acorda de manhã com uma ressaca terrível. Um pilão de dor afunda-lhe a testa, os olhos estão inchados e vítreos e a língua adquiriu a consistência de uma toalha. Tem de ir trabalhar em trânsito de segunda-feira. Ele ri. É uma merda, mas é bom. Como viver no Rio de Janeiro, para Tom Jobim. O pessimista alegre compreende que a ressaca repõe, renovada, a festa de ontem. As crônicas e o pouco de prazer e loucura daquela noite restauram a serenidade, enquanto se prepara para mais um dia sair à rua. É um pessimista, mas desse afeto curtido como arte não brota a resignação. Tampouco lhe interessam as preguiças doces da melancolia. Renova-se para seguir lutando, certo de que quanto maior a ressaca, maior a alegria.

O otimista desencantado, na festa, não pára de pensar na ressaca. Não sai da cabeça a ideia de que terá de acordar cedo para trabalhar. Essa ideia o esmaga, inafastável. Ele quase não sorri. É bom, mas é uma merda. Como Nova Iorque, para Tom Jobim. O otimista desencantado nunca se ilude. Está feliz, mas resignado. Percebe que a vida lhe confere pequenos prazeres, apenas para furtá-los posteriormente. É otimista na medida em que valoriza essas pequenas joias, o que verdadeiramente vale a pena, sob o pano de fundo de uma existência insatisfatória. De que adianta agitar-se com barulho? A marcha da vida se dirige para um fundo opaco, aonde escoam todas as coisas e quaisquer felicidades. O fim é sempre a morte. Toda juventude acaba, soterrada por pás de escuridão. É difícil renovar-se, uma vez que quanto maior a festa, maior a ressaca. Mas ele continua lutando.

Militante, o pessimista alegre reconhece as derrotas. Compreende o cerco se fechando sobre si, a pouca eficácia das ações e organizações. Exaspera-se frequentemente. Sente-se sozinho, prova o sabor das decepções, e não sabe se, no fim, venceremos. Provavelmente não. E ele ri. Mas não afirma que é assim mesmo. Não se recolhe na interioridade, nem passa a cultivar cosmovisões privadas contra o entusiasmo ignorante das massas. Jamais fatalista ou preguiçosamente melancólico. Se é assim, ou talvez por que seja assim, por isso mesmo, é preciso continuar, é preciso morrer tentando. A alegria, afinal, está na luta mesmo, nos seus dias de loucura e liberdade. Industriosamente, ele continua lutando, uma triste figura.

O otimista desencantado, por sua vez, enxerga nas derrotas o gérmen da vitória. Entende que, de erro em erro, se errará mais e melhor, até o acerto derradeiro. De derrota em derrota, até a vitória final. Mas nunca a vitória sem a derrota. Desdenha silenciosamente dos jovens que acreditam que o futuro esteja logo ali na esquina, inebriados por uma facilidade revolucionária que só existe na utopia. Porém, ultimamente desiludido, está preparado para perder, mesmo quando se reúnem as condições necessárias para vencer. Lamenta-se que, vencendo, já terá perdido, pois o aliado de hoje é o inimigo de amanhã. Será preciso matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem. O otimista desencantado faz, mas jamais se confunde com o que faz. Não se apaixona pelo que faz. Uma disciplina estoica move o seu ânimo, ciente das dores que terá de passar a cada vez. Industriosamente, ele continua lutando, uma figura triste.

————– PS. François Zourabichvili (que se matou) atribui a postura pessimista alegre a Gilles Deleuze (que, doente terminal, também se matou), e o otimismo desencantado a Antonio Negri (que foi aos porões do inferno e voltou). Para Deleuze, o sentimento trágico do mundo não consiste unicamente em ter de defrontar-se com o sofrimento e a morte, mas, sobretudo, no fato degradante de só haver este mundo, o mesmo dos estúpidos. Dizer sim a este mundo só pode ser um ato de intensa alegria diante do intolerável. Para Negri, outro pessimista alegre, a passione não depende propriamente da vitória ou da derrota, e não está associada a alguma teleologia para a história. Está associada, sim, ao desejo e à cupidez que impelem as pessoas a cooperar, imaginar juntas e construir a própria liberdade. Não garantem muita coisa, senão o sentido preenchido por uma força interna que nem mesmo prisões, mortes e campos podem calar. Para o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, a tarefa que se impõe hoje é conseguir acomodar no pensamento, ao mesmo tempo, a previsão (indiscutível?) de que o mundo já tenha acabado, com a ideia oswaldiana que a alegria é a prova dos nove. Como se pode viver alegre num mundo em extinção? Há algo de verdadeiramente pregnante no paradoxo, independente das condições de contorno da formulação.

Fonte: Quadrado dos Loucos

"“Estamos grávidos!” – a gravidez a dois e o parto natural." (Para Patrícia e Pablo Casado)

PICICA: "Ser um “casal grávido” é uma experiência libertária, em que o homem também vive a gravidez acompanhando o desenvolvimento do bebe se sentido grávido espiritualmente."


“Estamos grávidos!” – a gravidez a dois e o parto natural.


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 A gravidez foi um momento muito importante, foi a experiência de ser um “casal grávido”, estar juntos no pré-natal, nas ultrassonografias, na preparação física, psicologia e (porque não?) espiritual para o parto.  Tínhamos um objetivo: estarmos igualitariamente juntos no nascimento do BB e ativos durante o parto.  Ser um “casal grávido” é uma experiência libertária, em que o homem também vive a gravidez acompanhando o desenvolvimento do bebe se sentido grávido espiritualmente.  Além da solidariedade do pai em, por exemplo, parar de beber junto comigo durante a gravidez e amamentação. Esta solidariedade e compromisso com a gravidez por parte do pai também é uma característica fundamental do “casal grávido”. Para mim, o envolvimento do meu companheiro com a gravidez foi fundamental para eu ter vivido um belo parto, o parto que eu idealizei.

No artigo “CASAL IGUALITÁRIO: princípios e impasses” de Tânia Salem [1], a autora descreve o que seria o casal igualitário no contexto do parto natural:
1)      “intensa participação e envolvimento masculinos no decorrer da gestação, do mesmo modo que a presença do pai da criança no instante do nascimento é afirmada como condição sine qua non.
Gravidez e parto são, em suma, concebidos como experiências que, mais do que dizendo respeito à parentela mais ampla, concernem ao casal, devendo, nessa medida, ser partilhadas ‘a dois’.

2)       A segunda característica distintiva do ‘casal grávido’ reporta para seu intuito de realizar o parto da maneira mais ‘natural’ possível, vale dizer, com um mínimo de interferência médica. Mas alega-se que, para efetuá-lo, a mulher deve ser treinada com base em exercícios físicos especiais e que ambos os parceiros devem ‘preparar-se psicologicamente’ para o evento. Decorre daí que o ‘casal grávido’ se vê atrelado não só a obstetras que, como ele, se declaram críticos do sistema médico dominante, como também a profissionais de corpo e a psicólogos. A participação em grupos de preparação pré-natal, coordenados por esses diferentes especialistas, constitui outro traço marcante do objeto em pauta.”
A experiência do parto natural resultou de uma escolha minha com apoio do meu companheiro que realmente me ajudou ativamente a parir. Porém, meu desejo de um parto natural só foi possível graças a uma das duas casas de parto que temos acesso em SP, a Casa Ângela [2].  Caso contrário eu seria uma potencial vítima de violência obstétrica [3] em qualquer hospital público ou privado. O tipo de violência que atinge mulheres de todas as classes sociais. As mulheres pobres são principais alvos de violência física, psicológica e tortura no pré-parto, durante e no pós-parto e as mulheres das classes média e altas são induzidas à cesáreas convencidas que seus corpos são defeituosos a ponto de não poderem parir. Daí a importância do movimento pela humanização do parto e por implantações de casas de parto em todos os estados do Brasil, pois a cobertura que temos é violenta, insuficiente e machista. Mas este é um tema que merece ser mais aprofundado em um próximo post.

Para quem quer saber mais sobre o que o Movimento do Parto Humanizada tem a ver com feminismo, achei este artigo de uma antropóloga que pode começar a discussão:  “ARMADILHAS DA NOVA ERA: NATUREZA E MATERNIDADE NO IDEÁRIO DA HUMANIZAÇÃO DO PARTO”, de CARMEN SUSANA TORNQUIST [4]. Neste artigo é destacado
 “alguns dos valores individualistas/libertários ao campo da parturição e do nascimento, particularmente a sexualidade da mulher, a participação do pai no processo, a valorização do feto e do recém-nascido como um sujeito dotado de individualidade, tudo isso fruto da incorporação do ideal do ‘casal igualitário ou grávido’, cujo projeto familiar busca embaralhar os papéis de gênero particularmente no que tange aos cuidados com o filhos, incluindo-se aí a gestação e o parto. Nesse universo moral destacam-se ainda a valorização da natureza, a crítica à medicalização da saúde, a inspiração em métodos e técnicas não-ocidentais de cuidados com o corpo e a saúde, e a incorporação de outros profissionais na equipe de atendimento, já que os médicos serão vistos como símbolos máximos do poder e do saber biomédico que se critica.”
Outro trecho que merece ser destacado:
“A pedagogia do parto se coloca como uma tarefa da mulher moderna, que escolhe dar à luz, que é dona de seu corpo e de sua sexualidade: há um feminismo em todas essas imagens das mulheres cuja singularidade (um corpo capaz de gestar e parir) é valorizada como um espaço de poder e de saber. As mulheres são vistas como capazes de ter seus filhos com a mediação e apoio de outras mulheres, não lapidadas pela formação médica intervencionista.”
Durante a gravidez experimentei a experiência única de deixar de fazer coisas que eu gostava em prol de outra pessoa sem me sentir reprimida. Parei de fumar, de beber, preservei minha saúde só porque ela estava dentro de mim. Porque me amar sempre foi preservar meu direito de escolha, mas daí prejudicar meu bebê por causa dos meus vícios… já não fazia mais sentido pra mim.

Sem dúvida entramos neste contexto naturalista e libertário por querer o melhor para o nosso BB, trabalhar nossa capacidade de “embaralhar” os papeis de gênero na gravidez e parto obviamente no campo da cultura, e refletir sobre a estigmatização da maternidade como algo dogmático ou patológico transferindo esse universo para uma extensão da sexualidade, sendo um processo fisiológico e natural. Ser dona do meu corpo, protagonista do meu parto, possuidora dos meus plenos direitos reprodutivos e na contramão da medicina ocidental.
“As mulheres parecem ter jovialmente interiorizado a alteridade viril sem abandonarem sua identidade feminina. A ocidental do século XX é uma verdadeira criatura andrógina que recusa recalcar sua bissexualidade psíquica original. Ao mesmo tempo viril e feminina, ela muda de papel e de função segundo os momentos do dia ou o período da vida (…) As mulheres atuais embaralham o jogo das identidades” (.Badinter, 1986a:11) (4).
[1] Artigo na integra no link  http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_09/rbcs09_03.htm

[2] Site da Casa Ângela  http://www.casaangela.org.br/

[3] Leia a matéria da Carta Capital sobre violência obstétrica no link http://www.cartacapital.com.br/sociedade/na-hora-de-fazer-nao-gritou

[4] Artigo na integra no link http://www.scielo.br/pdf/ref/v10n2/14972

Sobre Cris Roseno

Sou mulher, vadia, mãe, esposa, feminista, professora, socióloga, e anticapitalista.
Fonte: Minha família libertária

junho 01, 2013

"Hímen-lindo-meu-amor-te-amo-mais-que-tudo" (Coletivo Você Sabe Que É Verdade)

PICICA: "[...] eu sei mais sobre meu sentimento por mim mesma do que qualquer pessoa."


Hímen-lindo-meu-amor-te-amo-mais-que-tudo

Ontem conversando com minha médica ginecologista:
- Então, G., você já teve relação sexual?
- Não, não tive.
- Então, eu desconfio do que você possa ter no seu útero, mas o exame que dá pra fazer não é tão eficaz, só o espectro(?) ia dizer com certeza o que é.
- Então por que não usar esse espectro aí?
- Porque vai romper o seu hímen.
Silêncio. 
- Hm, ué… ok, pode ser.
- Mas vai romper o seu hímen.
- E daí? 
- Como e daí?, rompe o hímen!
- Eu não me importo, não me incomoda, não tenho nenhum apego pelo, pode romper, eu quero saber o que eu tenho.
- Imagina!, eu não posso fazer isso! 
- Ah… é algum código de ética da medicina, sei lá?
- Não!, é que é o seu hímen! Muitos médicos já foram processados.
- Eu posso redigir um documento em que digo “Eu, G., autorizo a romper o hímen para realizar tal exame…”.
- Nãããããão, já me processaram porque sangrou um pouquinho de nada, imagina! Você só pode realizar esse exame depois de ter relação sexual.
- Mas eu não me importo com meu hímen.
- É claro que se importa.

Primeiro: se eu não transar com uma pessoa com pinto nunca, nunca vou saber com propriedade e certeza o que tem no meu útero. Segundo: se eu for lésbica e não querer transar com uma pessoa com pinto nunca, nunca vou saber com propriedade e certeza o que tem no meu útero. Terceiro: se eu não quiser ter qualquer tipo de ato sexual na minha vida, o que inclui ser penetrada numa circunstância de sexualidade, seja por um dildo, por um pinto, um cabo de vassoura, tanto faz, nunca vou saber com propriedade e certeza o que tem no meu útero. E minha médica não vai poder cuidar de mim. 

Respeito muito as moças que não querem seu hímen rompido num exame, afinal, cada corpo tem sua memória e faz suas escolhas. Mas eu-não-ligo: contanto que se faça com cuidado e respeito, quero fazer meu exame rompendo essa pele que não me serve pra nada, não sou mais pura por isso, não tenho vontade de que me chamem de pura, o que é pureza, meu Brasil?!, me ouçam e acreditem em mim quando digo que não me importo: eu sei mais sobre meu sentimento por mim mesma do que qualquer pessoa. Quando ela me diz “É claro que você se importa”, mais uma vez, as pessoas estão falando por mim, MULHER, dos meus interesses de mulher, das minhas prioridades de mulher, do que é melhor pra mim, mulher; a bíblia está falando por mim, o patriarcado está falando por mim, quando afirma que eu amo ou devo amar muito o meu hímen e quero que ele seja rompido no grande e maravilhoso ritual chamado “primeira vez”, em que, depois de ter uma rola dentro de mim, serei enormemente transformada, finalmente uma mulher – e esse papel não pode ser realizado por uma sonda, porque, afinal, que mulher não transa? Que mulher é lésbica? Que mulher não ama e precisa de um pinto? 

Chato.



Fonte: EH VDD


Sobre

Este é o blog do Coletivo Você Sabe Que É Verdade. Aqui postamos nosso material sobre opressões machistas, racistas, homofóbicas, etc, além de experiências, dicas e desenhos. Esperamos que gostem!

"Os preços do neodesenvolvimentismo", por Patrícia Benvenutti

PICICA: "Iniciado com Luiz Inácio Lula da Silva e seguido por Dilma Rousseff, o chamado modelo neodesenvolvimentista mescla megaempreendimentos, financiamentos públicos, parcerias com empresas privadas e programas de distribuição  de renda. 

O maior avanço do modelo, na avaliação do membro do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) Valter Pomar, foi a ampliação do número de empregos e salários. Para isso, segundo ele, os investimentos públicos mostram-se essenciais para manter o cenário positivo. “Como o setor privado está com o freio de mão puxado, o investimento público é essencial”, diz. 

O problema, para Pomar, não está no modelo, e sim na “timidez” das ações do Estado.  “Precisamos de mais investimento público e mais ação direta do Estado, reduzir mais fortemente a taxa de juros, escapar da armadilha do superávit primário e fazer menos concessões ao grande capital privado”, defende. 

O vice-presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro (PSB), Roberto Amaral, da base aliada do governo, também elogia o atual modelo. O principal benefício, para ele, foi o alargamento do poder de consumo. “Isso é fundamental não só pelo seu caráter social, de dar dignidade à população, mas porque serve para reativar a economia brasileira”, explica. 

[...]

A percepção dos movimentos sociais, porém, é bem diferente."

Os preços do neodesenvolvimentismo


Vitrines do governo federal, grandes projetos de infraestrutura colecionam críticas e denúncias de violações de direitos

29/05/2013
Patrícia Benvenuti
da Redação 

Pelo menos três mil famílias foram retiradas dos locais onde viviam por conta de obras para receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Rio de Janeiro. A informação faz parte do dossiê Megaeventos e Violações dos Direitos Humanos no Rio de Janeiro, que relata algumas das conseqüências da preparação da cidade para receber os eventos esportivos. 

Além dos despejos, o relatório aponta outros prejuízos para a população e o território, como impactos ambientais, trabalho precarizado nos empreendimentos, demolição de equipamentos esportivos e a concessão do estádio do Maracanã para a iniciativa privada. 

O integrante do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio, Renato Cosentino, destaca que nem todas as obras feitas hoje na cidade têm relação direta com a realização das competições. Algumas visam a melhorar a infraestrutura local para receber os eventos. No entanto, segundo ele, o poder público tem se utilizado dos jogos para atender a interesses econômicos. 

Um exemplo é o da Vila Autódromo, comunidade de 500 famílias de baixa renda localizada na lagoa de Jacarepaguá. O governo pressiona e argumenta que as famílias terão de sair da área para a construção do Parque Olímpico. 

O projeto original do Parque, porém, nem mesmo prevê a utilização do terreno para erguer o complexo. Ao contrário: garante a permanência da vila e sua urbanização como um legado das Olimpíadas. “Há outros interesses relacionados a essas remoções, isso fica claríssimo”, afirma Cosentino. 

Grandes projetos

Com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), as obras da Copa e das Olimpíadas são algumas das vitrines do governo federal, que tem apostado em grandes projetos para resolver questões de infraestrutura e movimentar a economia local. 

Motivo de orgulho e propaganda para o Planalto, as obras vêm sofrendo críticas constantes, que colocam em xeque a opção pelos grandes empreendimentos e o ônus do chamado neodesenvolvimentismo. 

Em maio, indígenas paralisaram por oito dias o canteiro de obras da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. Eles reivindicam a paralisação de todos os projetos hidrelétricos e seus estudos nos rios Xingu, Tapajós e Teles Pires. Além disso, exigem a realização de consulta prévia aos povos indígenas e tradicionais, como determinam a Constituição e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). 

A obra, considerada o maior empreendimento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), tem mobilizado um número crescente de ativistas, que denunciam a gravidade dos impactos sociais e ambientais. “Excluir, destruir, empobrecer. Se para o governo isso é desenvolvimento é um grande atraso”, afirma a coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre, Antonia Melo. 

As obras da Copa também têm motivado manifestações frequentes nas cidades- sede, onde se registram várias denúncias de violações de direitos humanos. Além das administrações locais, o governo federal também costuma ser alvo de protestos. 

Renato Cosentino, do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio, critica a falta de atuação em relação às demandas de quem está sendo prejudicado com a preparação para os jogos. “O governo federal não tem atuado. Se o financiamento é federal tem que ter uma atuação mais firme, e a gente não vê isso acontecer”, afirma. 

Neodesenvolvimentismo 

Iniciado com Luiz Inácio Lula da Silva e seguido por Dilma Rousseff, o chamado modelo neodesenvolvimentista mescla megaempreendimentos, financiamentos públicos, parcerias com empresas privadas e programas de distribuição  de renda. 

O maior avanço do modelo, na avaliação do membro do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) Valter Pomar, foi a ampliação do número de empregos e salários. Para isso, segundo ele, os investimentos públicos mostram-se essenciais para manter o cenário positivo. “Como o setor privado está com o freio de mão puxado, o investimento público é essencial”, diz. 

O problema, para Pomar, não está no modelo, e sim na “timidez” das ações do Estado.  “Precisamos de mais investimento público e mais ação direta do Estado, reduzir mais fortemente a taxa de juros, escapar da armadilha do superávit primário e fazer menos concessões ao grande capital privado”, defende. 

O vice-presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro (PSB), Roberto Amaral, da base aliada do governo, também elogia o atual modelo. O principal benefício, para ele, foi o alargamento do poder de consumo. “Isso é fundamental não só pelo seu caráter social, de dar dignidade à população, mas porque serve para reativar a economia brasileira”, explica. 

Críticas 

A percepção dos movimentos sociais, porém, é bem diferente. Para o integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) João Paulo Rodrigues, o modelo desenvolvimentista adotado pelo governo não trouxe avanços reais à população. 

“Esse formato de governo não resolve os problemas estruturais do povo brasileiro, em especial as reformas que o PT propunha a fazer na década de 1980, como reforma agrária, saúde, educação e reforma urbana”, afirma. 

O secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Cleber Buzatto, também mostra descontentamento. Para ele, os governos do PT não romperam a lógica de beneficiar os setores historicamente privilegiados no Brasil. 

“Nós imaginávamos que haveria uma mudança de rumo nessa perspectiva política a partir do governo Lula, mas não houve essa mudança. E agora, com Dilma, há uma acentuação desse caminho”, diz. 

Buzatto atribui ainda a esse modelo de desenvolvimento, baseado no agronegócio e na exploração de recursos naturais, os conflitos que surgem hoje país afora, que vão desde a Amazônia até as cidades-sede da Copa. 

Para o advogado e integrante da Consulta Popular Ricardo Gebrim, o enfrentamento à ofensiva neoliberal é um ponto positivo das gestões de Lula e Dilma. Entretanto, ele considera que o governo não avança, de fato, na construção de um projeto popular para o país. 

“É um modelo que, dentro do capitalismo, tem lógica capitalista, e como todo modelo de lógica capitalista está pautado no lucro e não na qualidade de vida das pessoas”, afirma. 

E as perspectivas futuras não são boas, de acordo com João Paulo Rodrigues. Isso porque o BNDES, grande financiador do modelo, já mostra sinais de esgotamento devido ao volume de recursos já utilizados. Com isso, a possibilidade é de que haja cortes em outras áreas para manter os financiamentos.“Para resolver essa lacuna, vai se dizer que a previdência é deficitária. Então, corte na Previdência para manter essa lógica”, alerta. 

Os recursos do BNDES são provenientes do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) – um fundo especial do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) destinado, entre outros fins, ao financiamento de Programas de Desenvolvimento Econômico. 

Outra questão grave, para João Paulo, é a exploração dos recursos naturais. A preocupação, segundo ele, é de que a corrida desenfreada consuma toas as riquezas do país. 

“O problema não é nem acabar, e sim as consequências que isso pode trazer para o meio ambiente. O Brasil não suporta um processo tão rigoroso de exploração dos recursos naturais como esse neodesenvolvimentismo vai precisar no próximo período”, diz. 

A que preço?

A discussão sobre os preços do desenvolvimento e os impactos ambientais é, justamente, uma das questões que mais gera embates. Para a coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre, Antonia Melo, o apoio do govero federal a Belo Monte vai na contramão do discurso ambientalista que vem ganhando força no mundo. 

“Hoje no planeta tudo está voltado para a questão ambiental. Se o mundo está voltado, pelo menos no papel, para esses cuidados, como é que o governo brasileiro pode estar implementando projetos como Belo Monte?”, questiona. 

Em maio deste ano, matéria no jornal O Globo revelou que o BNDES  continuava repassando regularmente à Norte Energia recursos para a construção de Belo Monte, apesar do não cumprimento das condicionantes. Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), até 8 de abril, 30% da usina havia sido construída sem que houvesse obras significativas para melhorar a vida dos cidadãos afetados da região. 

Para o advogado e integrante da Consulta Popular Ricardo Gebrim, a questão de Belo Monte apresenta desafios complexos para o país. Ele destaca a importância da luta dos povos indígenas e comunidades tradicionais, que estão mobilizados pela preservação de seus territórios, mas lembra que as necessidades energéticas do país também devem ser levadas em consideração. 

“Temos cada vez mais necessidades energéticas, que dificilmente farão com que escapemos de outras obras com impactos ambientais como essa [Belo Monte]”, afirma. 

De acordo com o vice-presidente do PSB, Roberto Amaral, os impactos ambientais são inevitáveis. “Quando você fuma, anda de carro ou de avião provoca impacto ambiental. Esse negócio de não causar impacto ambiental é tolice”, declara Amaral, que critica ainda os movimentos sociais contrários a Belo Monte. “Se os movimentos sociais e sindicais indicarem uma outra fonte de produção de energia que não seja a hidrelétrica em curto prazo tudo bem, nós produzimos. Mas não tem meio termo. Ou nós produzimos energia ou não teremos energia”, salienta. 

Entretanto, a questão da demanda energética é vista com cautela pelo sociólogo e professor da Universidade Federal de Rondônia Luiz Fernando Novoa Garzon. Segundo ele, antes de se falar em necessidade de energia, é preciso que se discuta como a fundo questões como as fontes alternativas e principalmente a forma como a energia é utilizada hoje no Brasil. 

“Se esse padrão de desenvolvimento não for rediscutido, evidentemente que sempre haverá uma crescente necessidade de aumento de oferta energética”, afirma. 

Para o integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) Joceli Andrioli, para além de possíveis necessidades energéticas está o interesse das empreiteiras e concessionárias em obras como Belo Monte, cujos custos já ultrapassaram R$ 30 bilhões. 

“É um casamento tanto do fato da obra em si, que é um grande negócio, como da exploração do potencial hidrelétrico, que também é fenomenal”, pondera.

(Foto: Rodrigo Baleia/Folhapress)

Fonte: Brasil de Fato