janeiro 03, 2014

"Quebrar o feitiço neoliberal: Europa, terreno de luta", por Sandro Mezzadra e Negri

PICICA: "É verdade que a Europa é hoje uma “Europa alemã”, cuja geografia econômica e política vai-se reorganizando em torno de relações concretas de força e de dependência, que se refletem até no nível monetário. Mas só o feitiço neoliberal explica que se confundam a irreversibilidade do processo de integração, de um lado; e de outro a impossibilidade de modificar os conteúdos e as direções; de fazer agitarem-se dentro do espaço europeu a força e a riqueza de uma nova hipótese constituinte.

Quebrar esse feitiço neoliberal significa redescobrir hoje o espaço europeu como espaço de luta, de experimentação e de invenção política. Como terreno sobre o qual a nova composição social dos trabalhadores, das trabalhadoras e dos pobres abrirá talvez uma perspectiva de organização política. Lutando sobre o terreno europeu, uma organização assim terá a possibilidade de golpear diretamente a nova acumulação capitalista. E só no terreno europeu é possível propor tanto a questão do salário como da renda; redefinir os direitos como nova dimensão do Welfare; tanto as transformações constitucionais internas nos países individuais, como a questão constituinte europeia. Hoje, não há realismo político se não nesse terreno." 

 

Quebrar o feitiço neoliberal: Europa, terreno de luta

03/01/2014
Por Sandro Mezzadra e Negri


Por Sandro Mezzadra e Toni Negri, na Euronômade | Trad. Coletivo VilaVudu
editoriali-172x172

Quem, como nós, não tem interesses eleitorais, está na melhor posição para reconhecer a grande importância que terão em 2014 as eleições ao Parlamento Europeu. É fácil prever que na maior parte dos países implicados haverá alta abstenção e significativa afirmação das forças “eurocéticas”, unindo à retórica da “soberania nacional”, a hostilidade contra o euro e contra os “tecnocratas de Bruxelas”. Para nós, não é nada bom.

Estamos convencidos há tempos de que por baixo do perfil normativo, como por baixo da ação governamental capitalista, há uma Europa cuja integração já ultrapassou o portal do irreversível. O realinhamento geral dos poderes na crise – em torno da centralidade do Banco Central Europeu e o que se define como “federalismo executivo” – modificou sem dúvida a direção do processo de integração, mas não pôs em discussão a continuidade daquele processo. A própria moeda única mostra-se hoje consolidada na perspectiva da união bancária: é necessário responder à violência com que essa união bancária manifesta o mando capitalista; mas volta às moedas nacionais significa não entender qual é o terreno no qual se disputa hoje a luta de classes.

É verdade que a Europa é hoje uma “Europa alemã”, cuja geografia econômica e política vai-se reorganizando em torno de relações concretas de força e de dependência, que se refletem até no nível monetário. Mas só o feitiço neoliberal explica que se confundam a irreversibilidade do processo de integração, de um lado; e de outro a impossibilidade de modificar os conteúdos e as direções; de fazer agitarem-se dentro do espaço europeu a força e a riqueza de uma nova hipótese constituinte.

Quebrar esse feitiço neoliberal significa redescobrir hoje o espaço europeu como espaço de luta, de experimentação e de invenção política. Como terreno sobre o qual a nova composição social dos trabalhadores, das trabalhadoras e dos pobres abrirá talvez uma perspectiva de organização política. Lutando sobre o terreno europeu, uma organização assim terá a possibilidade de golpear diretamente a nova acumulação capitalista. E só no terreno europeu é possível propor tanto a questão do salário como da renda; redefinir os direitos como nova dimensão do Welfare; tanto as transformações constitucionais internas nos países individuais, como a questão constituinte europeia. Hoje, não há realismo político se não nesse terreno.

Parece-nos que as forças de direita compreenderam há tempo que a irreversibilidade da integração assinala hoje o perímetro do que resulta política e praticamente pensável na Europa.

Em torno da hipótese de aprofundamento substancial do neoliberalismo, já se organizou um bloco hegemônico que inclui variantes significativamente heterogêneas (das aberturas não só táticas na direção de uma hipótese socialdemocrata de Angela Merkel, à violenta constrição repressiva e conservadora de Mariano Rajoy). As mesmas forças de direita que se apresentam como “antieuropeias”, pelo menos nos seus componentes mais informados, jogam sua opção sobre o terreno europeu, com vistas a ampliar os espaços de autonomia nacional que estão bem presentes na Constituição Europeia, e recuperando, num plano meramente demagógico, o ressentimento e a fúria disseminados em amplos setores da população, depois de anos de crise.

A referência à nação mostra-se como o que é: transfiguração de um sentido de impotência em agressividade xenófoba; defesa de interesses particulares imaginados como arquitrave de uma “comunidade de destino”. Por outro lado, a esquerda socialista, embora não fazendo parte do bloco hegemônico neoliberal, não consegue diferençar-se eficazmente daquele bloco no momento de elaborar propostas programáticas de signo claramente inovador. A candidatura de Alexis Tsipras, líder do partido Syriza, à presidência da Comissão Europeia, tem importância indubitável nessa ordem de coisas; já determinou em muitos países uma positiva abertura do debate de esquerda. Em outros países, contudo, ainda parecem prevalecer os interesses de pequenos grupos ou “partidos”, incapazes de desenvolver discurso político plenamente europeu.

Com as coisas nesse pé, por que as eleições europeias de maio próximo nos parecem importantes?

Em primeiro lugar, porque tanto o relativo reforço dos poderes do Parlamento, como a designação pelos partidos de um candidato à Presidência da Comissão, fazem da campanha eleitoral, necessariamente, um momento de debate europeu, no qual as diversas forças ficarão obrigadas a definir e anunciar, pelo menos, algum esboço de programa político europeu. Parece-nos pois que aqui se apresenta a ocasião para uma intervenção política dos que se batem para quebrar tanto o feitiço neoliberal como seu corolário, segundo o qual a única oposição possível à atual forma da União Europeia seria o “populismo” antieuropeu.

Não se exclua, de início, que essa intervenção possa encontrar interlocutores entre as forças que se movem no terreno eleitoral. Mas estamos pensando, antes de tudo, numa intervenção de movimento, que consiga deitar raízes no interior das lutas que se desenvolveram nos últimos meses, embora de diferentes maneiras, em muitos países europeus – com intensidade significativa inclusive na Alemanha. É decisivamente importante voltar a habilitar um discurso programático – e isso não é possível exclusivamente dentro e contra o espaço europeu.

Não vemos como se poderia questionar sociologicamente, de modo adequado, a “composição técnica de classe” de um ponto de vista messiânico acima da “composição política” adequada. Do mesmo modo, não haverá movimentos de classe vitoriosos que não tenham interiorizado a dimensão europeia. Não seria a primeira vez, mesmo na história recente das lutas, que esses movimentos ver-se-iam forçados pelo marco político a se modificarem, voltando a experiências locais, até se verem asfixiadas em clausuras sectárias. Trata-se de reconstruir imediatamente um horizonte geral de transformação, de elaborar coletivamente uma nova gramática política e um conjunto de elementos de programa que possam agregar força e poder no interior das lutas. Aqui e agora – repetimos –, a Europa nos parece ser o único espaço no qual isso é possível.

Um ponto nos parece particularmente importante. A violência da crise fará sentir seus efeitos ainda por muito tempo. Não há “recuperação” à vista, se por recuperação se entender diminuição significativa do desemprego, diminuição do precarismo[1] e relativo reequilíbrio dos ganhos. Mesmo assim, parece que se possa descartar o aprofundamento da crise. O acordo sobre o salário mínimo, sobre o qual de fundamenta a nova coalizão na Alemanha, parece indicar, mais, um ponto de mediação no terreno do salário social que pode funcionar – em geometria e geografia variáveis – como critério de referência geral para a definição de um cenário de relativa estabilidade capitalista na Europa.

É um cenário, não a realidade atual, e é um cenário de relativa estabilidade capitalista. Para a força de trabalho e para as formas da cooperação social, esse cenário assume como dados de partida a extensão e a intensificação do precarismo, a mobilidade forçada dentro do espaço europeu e fora dele, o desclassamento de quotas relevantes do trabalho cognitivo e a formação de novas hierarquias dentro do trabalho cognitivo, determinados pela crise.

Mas em geral, o cenário de relativa estabilidade de que falamos constata a plena hegemonia de um capital cujas operações fundamentais têm natureza extrativa, quer dizer: combinam a persistência de uma exploração de tipo tradicional, com intervenções de “subtração” direta da riqueza social (mediante dispositivos financeiros, mas também porque assumem “bens comuns”, como, dentre outros, saúde e educação, como terreno privilegiado de valoração). Não por acaso, os movimentos compreenderam que nesse terreno travam-se as lutas que podem golpear o novo regime de acumulação.

Nesse cenário trata-se, obviamente, de saber perceber a especificidade das lutas que se desenvolvem, de analisar sua heterogeneidade; e de medir sua eficácia em contextos políticos, sociais e territoriais que podem ser muito diferentes.

Mas trata-se também de propor os problemas de tal modo que as lutas possam convergir, multiplicando sua própria potência “local”, mas dentro do marco europeu. Enquanto isso, delinear os novos elementos do programa pode ser feito mediante a escrita coletiva de uma série de princípios dos quais não se pode abrir mão, no terreno do Welfare e do trabalho; da fiscalidade e da mobilidade; das formas de vida e do precarismo, em todos os terrenos sobre os quais se expressaram os movimentos na Europa.

O que estamos pensando não seria uma carta de direitas redigida de baixo para cima que se apresentaria a alguma instância institucional: é, mais, um exercício de definição programática que, como começa a mostrar a “Carta de Lampeduza” essas semanas, no que tenha a ver com migração e asilo, possa converter-se em instrumento de organização no nível europeu. Sem esquecer que, nesse trabalho, podem aparecer impulsos decisivos, mesmo, imediatos, para construírem-se coalizões de forças locais e europeias, sindicais e cooperativas, em movimento. 



NOTA


[1] Há uma tendência  no Brasil, a preferir-se “precariedade” a “precarismo”. Optamos por “precarismo” para evitar uma arapuca semântica: todos os substantivos construídos com o sufixo “-idade” (como “precariedade”) são, necessariamente, sempre, substantivos abstratos (de fato, em praticamente todas as línguas em que o sufixo ocorre). Não nos parece razoável acrescentar, a todas as dificuldades do precariato, mais essa dificuldade – terrível! – apresentar precariato mediante exclusivamente por um traço abstrato. Por piores que sejam os “-ismos”, entendemos que nenhum deles seria o que é sem a luta muito concreta dos que lutaram por eles, ou neles e, claro, também contra eles [NTs].


Divulgue na rede

 

Fonte: Universidade Nômade

“No mundo online eu posso me editar”, por Giulia Afiune

PICICA: "Luís Mauro Sá Martino, doutor em ciências sociais e autor do livro “Comunicação e Identidade: quem você pensa que é?”, faz uma reflexão sobre a construção da identidade na era digital"

“No mundo online eu posso me editar”
Luís Mauro Sá Martino, doutor em ciências sociais e autor do livro “Comunicação e Identidade: quem você pensa que é?”, faz uma reflexão sobre a construção da identidade na era digital

Por Giulia Afiune, da Agência Pública

Qual é a oposição de “mundo digital”? 

Nenhuma. Não faz mais sentido em fazer uma oposição entre “mundo digital” e “mundo real”, apenas entre mundo digital e mundo concreto, físico. O que a gente chama de realidade é um monte de significados que a gente dá para as coisas. O que eu entendo por uma maçã só é uma maçã porque quando eu vejo aquela coisa eu significo com o nome de “maçã” comestível, gostosa, torta, vovó, etc. No mundo digital, virtual, eu também estou dando significado para as coisas, só que tem o nome de avatar, foto, perfil, link. No fundo eu tenho um monte de significados, de sentidos que eu estou dando para as coisas. E é por isso que não existe oposição entre “mundo real” e “mundo virtual”. Nós estamos dentro da realidade humana, essa realidade se manifesta de muitas formas, uma delas é o cyberespaço. Ele só é diferente do espaço físico por uma questão de tecnologia.

Hoje em dia quais são os fatores que interferem na construção da identidade no mundo digital? 

Identidade é uma coisa que a gente cria e recria o tempo todo. Inventa a cada dia. Essa invenção é pautada por muitos fatores: a minha vontade, a vontade dos outros, a minha vontade de agradar os outros, a minha vontade de não agradar os outros, as pressões sociais que agem em mim, que podem vir da família, do trabalho, do emprego, as minhas tensões inconscientes, que nem eu mesmo sei que tenho…Então, a minha identidade é o que resulta, o ponto de contato de todos esses fatores.

A cada momento, a minha identidade se redefine de acordo com as circunstâncias que eu tenho. Isso vale para o mundo offline e para o mundo online.

Qual é a diferença? No mundo online eu tenho um pouco mais de controle na construção da minha imagem e dessa identidade, porque se eu quiser eu posso editar informações. No mundo offline, eu não tenho como mudar a minha voz, eu posso mudar minha aparência até um determinado grau. Se eu quiser mudar meu nariz, eu posso fazer uma plástica, mas não é todo dia que eu posso fazer isso. Eu não posso escolher o ângulo que as pessoas vão olhar pra mim. Na foto do Facebook eu posso escolher o meu melhor ângulo. Eu posso selecionar o que eu vou postar, posso postar só coisas bacanas… Eu me edito com mais facilidade.

Não que no mundo offline eu não faça isso: cada roupa que eu compro, eu já to me editando e me construindo porque eu quero que os outros me vejam de determinada maneira. Se eu compro uma camiseta escrito “Bazinga” ou uma camisa social Ralph Lauren, eu sei que efeito quero provocar nos outros.

No mundo online, eu tenho uma construção mais rápida e mais dinâmica da minha identidade. Se eu não gostei da minha foto, eu troco. Teve um comentário negativo? Muda-se a foto, muda-se o texto. É diferente de perceber que eu coloquei a roupa errada no dia errado, às vezes eu não consigo trocar.

O mundo online e offline são um contínuo.

Hoje em dia esse contínuo fica mais claro porque todo mundo tem um smartphone. Ao mesmo tempo que você interage com os amigos na Faculdade, também alimenta o seu self online. O que você acha que é a influência disso e da velocidade da troca de informações?

A aceleração do tempo vem desestruturando a gente há décadas. Esse processo se intensificou nos anos 1950, mas vem desde o século XVII, com a substituição do horário do dia, da colheita, das estações do ano, do corpo humano, pelo horário da fábrica. Nós perdemos isso. Faça chuva ou faça sol, o horário de entrar [na fábrica] é o mesmo.

Agora, o volume de informações que nós temos é consideravelmente maior. O seu smartphone potencialmente tem mais informação pra você em um dia do que, possivelmente, um cidadão de Roma antiga tinha em toda vida. Mas hoje, o mundo tem um grau de complexidade muito maior do que em Roma. O que eu chamo de complexidade é a quantidade de tomada de decisões que você tem que ter. Um camponês medieval do norte da Europa na hora do almoço poderia escolher entre sopa de cevada, sopa de cevada e sopa de cevada. Acabou, você não tem que tomar decisões. Então o mundo é relativamente simples. Hoje, para almoçar aqui em São Paulo você tem quantidade infinita de possibilidades o que implica em uma tomada infinita de decisões. E isso demanda tempo, cansa. O aumento no número de informações aumenta nossa possibilidade de tomar decisões, de fazer escolhas. Isso demanda tempo e por isso acaba consumindo o tempo que a gente usaria para outras coisas.


“tenho um número maior de conexões, mas isso não significa que eu tenho mais amizades, mais contatos. Afeto demanda tempo” (Matt Britt/ Wikimedia Commons)

Isso até dá uma certa angústia: ter um smartphone que você pode postar tudo a qualquer momento e você tem que selecionar, dentro da sua realidade física, o que é mais importante para você, ou o que tá mais de acordo com o perfil que você quer mostrar no facebook. Como a comida que você tá comendo, o que é legal postar…

Vários teóricos falam sobre o problema de estar “always on”, ou sempre conectados. Nós não temos mais espaços de desconexão. Se estou o tempo todo conectado, significa que estou recebendo informações o tempo todo. Eu tenho que interagir, que correr, responder coisas o tempo todo. Isso faz com que a gente mude a nossa relação com o tempo e com as outras pessoas. Tenho um número maior de conexões, mas isso não significa que eu tenho mais amizades, mais contatos. Afeto demanda tempo.

Comentário sobre as meninas em Heliópolis que aceitam todo mundo no Facebook. 

São laços fracos dentro de uma rede. As conexões virtuais são mais fáceis. Porque como elas são editadas, eu não preciso lidar com as dificuldades de personalidade que todos nós temos. Se eu tô meio irritado um dia, eu fico offline o dia inteiro, dane-se. Eu não posso fazer isso no mundo físico. (Isso é coisa da Sherry Turkle)

É mais fácil eu esperar coisas da minha conexão do que do contato físico. Isso não é de hoje. As formas de conexão que a gente tem dependem de muitos fatores. A habilidade interpessoal não se manifesta só fisicamente, mas também no livro, na carta, online. De certa maneira, o espaço virtual, permitindo que nós, pegando só o melhor de nós mesmos, possamos interagir com um pouquinho mais de facilidade com os outros.

A distância costuma provocar encantamento. Por isso que você lembra do passado como uma coisa assim…A distância virtual também encanta. Eu converso com um cara da Finlândia e ele é super legal. A gente tem os mesmos gostos, se dá bem…Claro, você não precisa conviver com ele num dia em que ele tá mal humorado.

A gente pode se editar. Nós ficamos mais legais online. É mais fácil lidar com as informações dos outros do que com o outro sem informação. Quando eu chego pra conversar com alguém, eu to quase que no escuro. Você vai conversar com um garoto de quem tá a fim. Se ele fala que gosta da banda que você mais odeia, você precisa responder na hora. A tomada de decisão tem que ser muito rápida: sorrir pra ficar com ele? Ou cortar a conexão? Não dá tempo de você ir atrás, olhar, ver se vale a pena, fazer quase que um cálculo afetivo. Online eu tenho um pouco de tempo pra isso.

As relações são mais frágeis?

Christine Link, pesquisadora alemã. Ela fez uma pesquisa muito bacana vendo o uso de smartphone por casais. Ele facilita contatos, aumenta as conexões, mas ele não altera as características da relação. Ele potencializa pro bem e pro mal. Significa que os relacionamentos interpessoais já existem e continuam existindo midiatizados pelos smartphones. Uma pessoa que é ciumenta vai ficar olhando o tempo todo pra você pra ver se você tá olhando pra outra pessoa na rua. É o mesmo cara que vai ficar no seu perfil olhando se você tá falando com um amigo, ex-namorado.

Comportamento humano é online e offline. O que o online facilita é olhar, é a vigilância. A midiatização dos afetos vai seguir o tipo de relacionamento que você tem. Uma pessoa que quer enganar, vai usar a internet pra isso. E uma pessoa que não quer também.

O fato de você ter mais informações que influenciam o relacionamento. Se for uma pessoa mais ciumenta, vai ter mais chance de dar vazão a isso. 

Não é um smartphone que vai criar ou destruir o relacionamento de uma pessoa. Mas ele pode contribuir seriamente para melhorar ou piorar, porque ele dá alcance a um contingente maior de informações.

A gente descobriu que tem alguns grupos no Facebook de “troca de seguidores”e “curta minha foto do perfil”. Rola uma negociação. Qual é a importância de uma “curtida”?

Muito bonita a tua blusa. (eu falo: obrigada). É isso, uma coisa muito humana. Aí você pode colocar vários elementos: desejo de ser aceito, status, a alegria de achar, talvez ilusoriamente, que alguém gosta de você, ou que alguém percebeu que você existe. Quando alguém te elogia, durante aqueles dois segundos foi legal.

Cada espaço social vai ter os seus objetos de prêmio. Se um cara fizer um elogio rasgado a um texto seu, vai ter mais valor do que ele elogiar seu tênis.

Curtiu sua foto? Valeu, bacana.

Se você quiser pegar por um lado negativo, pode chamar isso de vaidade. Mas não sei se é o caso. Acho que isso é humano. E tem aí um senso de comunidade. É fraco, porque eu não sei realmente quantas pessoas entrariam em um relacionamento. Curtiu minha foto? Bacana, nós pertencemos a esse grupo que se auto-curte mutuamente.

É um laço mais fraco porque é mais fácil. E você tem que romper um barreira quando vai chegar perto do outro e falar: ‘legal teu cabelo’. Inclusive porque ela é uma barreira sutil que não pode ser quebrada em qualquer situação. Uma pessoa que mudou o penteado e você não conhece muito bem, talvez você não vá elogiar. Mas no Facebook: “Mudei meu penteado” Like, like, like. O compromisso é outro. Você não vai chegar pra uma pessoa que você conhece pouco e elogiar, mas quando o cara bota lá a foto, tudo bem.

Para nós humanos ter a aprovação do grupo é uma coisa importante. A nossa vida simbólica e psíquica depende disso.

Mas e o fato de ser como um “classificados”?

Só existe status porque existe hierarquia. Se todo mundo fosse igual, não haveria status, desejo, vaidade, nada disso. A diferença pressupõe, neste caso, hierarquia.

Isso é uma coisa que é questionada em relação ao Capitalismo. O status só existe porque há pouca coisa desejada por muitos. Os que tem essa pouca coisa, vão refletir o desejo dos outros. O Marx falava isso em termos de mercadoria. Mas o prestígio é uma forma fantástica de mercadoria simbólica. O valor da mercadoria prestígio resulta da escassez dele. Por isso que eu tenho níveis de prestígio. Níveis de status: curtiu, seguiu…que é onde você vai ter os graus de hierarquia relacionados ao fortalecimento dos laços.

Você me curtiu, eu curto você. Você me seguiu, opa, já é um nível superior. Houve uma desigualdade. Não é todo mundo que me segue, nem todo mundo que eu vou seguir. Então eu pulei de status…e aí o valor aumenta.

Elas falaram que tem uns meninos que são famosos. Não eram famosos, não eram artistas… 

O que é uma pessoa famosa? Na definição de um americano Daniel Bernsteen, é uma pessoa conhecida por ser muito conhecida.

Oferecia para tirar a foto com ele no shopping e transferir um pouco desse capital simbólico. Ele é famoso porque tem muita curtida e tem muita curtida porque é famoso?

Sim. É o circuito da subcelebridade. A mercadoria mais valiosa que a gente tem atualmente são as informações que a gente tem a nosso respeito. Quem sabe capitalizar em cima dela, ganha por ela. É a lógica da Sociedade do Espetáculo. A coisa que você mais tem para mostrar é você mesmo. Se você souber capitalizar isso, você entra no circuito do status, da visualidade.

Elas falam que a menina tira foto de biquíni para ficar famosa, não para ter mais like…

A fronteira pessoal era a única que o capitalismo ainda não tinha capitalizado, transformado em mercadoria. A partir dos anos 50 se tornou, e paradoxalmente virou a mercadoria mais valiosa que a gente tem. E como você vê isso? Pelas conversões de capital. Muitos likes podem significar patrocínio. Sem querer cair num marxismo radical demais, em última instância, pode significar dinheiro. Você tem uma questão econômica. Mas não é só isso. Pode ser ser bem olhado na rua, ser reconhecido, amado. Odiado, mas quem odeia também gasta tempo com você. A satisfação da vida humana não é só dinheiro.

Quando acontece uma exposição como um vídeo íntimo ou uma foto tem uma quebra dessa imagem que foi tão calculada, construída de uma forma tão consciente e de repente tudo sai do controle?

Sim, como no passado, qualquer história que pregassem a seu respeito poderia sair do seu controle. A hora que você perde o controle da representação, uma parte do nosso psiquismo se desestrutura. Porque a nossa auto-representação é constituída desde a nossa infância. A tua representação do eu é uma coisa que vem de longe. A hora em que eu perco controle sobre essa representação, começo a perder o controle sobre mim. Se espalha um apelido teu de infância, vai pesar. Quando os pais mostram uma foto de você criança, também. A valoração dessa parte que você perdeu controle determina as consequências.

Michel Foucault lembra que na nossa sociedade nós falamos muito sobre sexo e justamente por isso é um tabu. Qualquer exposição que esteja vinculada a isso vai ter uma valoração, na pior das hipóteses, ruim.

Mas qual é a diferença entre o comportamento dentro e fora das redes? Entre ter a foto compartilhada e um boato espelhado? 

Velocidade, a mídia, a força, a quantidade de pessoas para quem vai espalhar. Eu aumento exponencialmente a amplitude de divulgação daquilo. Curiosamente, também aumento a possibilidade daquilo ser rapidamente ignorado. Porque como aquela informação é só mais uma, deixa quieto, passou. Para os outros, para a pessoa vai bater muito.

Nem todos os boatos pegavam, mas quando pegava era terrível.

A diferença é a velocidade. E no online você materializa o imaginário – a foto está lá – por isso tem uma força maior.

Por uma peculiaridade da internet, a foto vai ficar lá pra sempre…

Ironicamente, eu imagino que ela saia do imaginário com certa rapidez. Porque outras virão. Amanhã de manhã, infelizmente vai ter outra coisa que chama a atenção pela própria inutilidade e então nós vamos lá e vamos ficar discutindo loucamente essa outra coisa, até que, em questão de um dia, de horas, ele também desapareça.

Há duas semanas eu só falava no Lulu. Agora sumiu.

Mas a imagem fica fixada na pessoa apesar de não aparecer no feed do Facebook ? 

Fica, como todas as representações que a gente faz.

Grudar a imagem depende de quem está olhando para você. Lembrando que quem fala sobre o outro também diz muito mais sobre si mesmo. Quando falam “você é isso ou aquilo”, tá bom, e você tá usando essas categorias a partir do que?

Tenho a impressão de que falta um pouco de informação sobre a biologia humana e de como a nossa espécie chegou até aqui. Eu acho isso muito curioso: “Olha, que horror! Olha o que ela estava fazendo com o namorado”. Não brinca, você nasceu como? Você foi clonado? Essa desnaturalização, essa transformação do tabu, como se fosse o ato máximo da imoralidade você manter relações sexuais com alguém. Ok, o vídeo vazou, mas de verdade, você acha que veio para o mundo como? Foucault: Quando você desnaturaliza a coisa, você acaba criando tantas representações que perde um pouco o chão.

Quando a identidade é quebrada, é muito difícil reconstruir. Se você é a namorada do fulano e ele te dá um fora, vai levar um tempo para você se recuperar porque você vai ter que aprender a ser você sem o fulano. A mesma coisa quando você trabalha em um lugar e é mandado embora.

Fonte: Revista Fórum

"David Harvey: ser zapatista não é endeusar Marcos", por Pedro Locatelli

PICICA: "Pesquisador de revoltas recentes ao redor do mundo, o geógrafo britânico David Harvey reconhece a influência dos zapatistas nos novos levantes que têm surgido. Mas ele pondera que algumas das suas características são ignoradas pela esquerda em diversos países.

O geógrafo concedeu uma entrevista à reportagem de CartaCapital, na qual fala sobre o legado do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), que há vinte anos tomou o controle de parte da pobre província mexicana de Chiapas.

Harvey destaca as novidades trazidas pelo levante, como a ênfase no direito das mulheres. Ele, porém, se diz “cansado” das pessoas acharem que a revolução “sairá de Chiapas”. Para o geógrafo, a esquerda deve achar uma forma própria de se organizar na cidade."

David Harvey: ser zapatista não é endeusar Marcos

140103-Marcos

Vinte anos depois do levante no México, geógrafo avalia: movimento pode transformar esquerda, desde que não o mistifiquemos…

Por Pedro Locatelli, em Carta Capital

Pesquisador de revoltas recentes ao redor do mundo, o geógrafo britânico David Harvey reconhece a influência dos zapatistas nos novos levantes que têm surgido. Mas ele pondera que algumas das suas características são ignoradas pela esquerda em diversos países.

O geógrafo concedeu uma entrevista à reportagem de CartaCapital, na qual fala sobre o legado do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), que há vinte anos tomou o controle de parte da pobre província mexicana de Chiapas.

Harvey destaca as novidades trazidas pelo levante, como a ênfase no direito das mulheres. Ele, porém, se diz “cansado” das pessoas acharem que a revolução “sairá de Chiapas”. Para o geógrafo, a esquerda deve achar uma forma própria de se organizar na cidade. Leia abaixo as falas do geógrafo sobre o levante:

Movimento indígena com características ocidentais

O zapatismo é retratado às vezes como somente um movimento indígena. Mas ele não é isso. É um movimento indígena com caraterísticas ocidentais. Um movimento horizontal, mas com formas militares hierarquizadas. Ou seja, é uma forma híbrida.

Obviamente o zapatismo teve um impacto muito grande na esquerda. A esquerda mundial ficou muito impressionada com suas formas horizontais de governança, mas falhou em reconhecer que a parte militar dessa organização a modificou muito.

Direitos das mulheres

Os zapatistas abordaram muitas questões importantes para essas sociedades (indígenas), como os direitos das mulheres, de uma maneira muito importante. Foi muito excitante ver a questão de gênero, em toda sua dimensão, ser propriamente abordada e articulada pelos zapatistas. [Diversas das figuras mais proeminentes do movimento eram mulheres e, logo após o levante, os zapatistas fizeram uma serie de reivindicações específicas em relação a elas].

Os direitos das mulheres estavam arraigados muito neste movimento, o que não é necessariamente verdade em outras populações indígenas e na esquerda. Mais uma vez, nessa questão, eles tinham características especiais.

Teologia da libertação

O movimento era uma combinação brilhante de pensamento indígena com perspectivas do iluminismo ocidental. Particularmente, havia uma influência de doutrinas do catolicismo, como dos franciscanos [conjunto de ordens católicas com forte presença na América Latina]. Eu acho que foi a expressão de ideias como respeito e dignidade, vindas de Chiapas, que agarraram a imaginação do mundo.

Foi uma combinação peculiar, onde a posição do subcomandante Marcos foi extremamente crucial. Não só em termos de organizar a parte militar, mas também de apresentar suas ideias ao mundo, que muito dificilmente poderiam ser entendidas. Então, quando ele falava de respeito e dignidade, ele estava em uma longa história da teologia da libertação, por exemplo. E as pessoas responderam a isso.

Ação fora do Estado

Havia também a característica de que aquele não era um partido político, não queria tomar o poder do Estado. Os zapatistas só queriam autonomia, e isso foi atraente para muitas pessoas ao redor do mundo. Eles estavam, desta forma, se protegendo da exploração. Quando se faz isso, você mantém-se fora dos limites, mas isso também gera muitos problemas. Eles precisam de recursos, eles precisam de armas, é uma história muito complicada.

A revolução não sairá de Chiapas

As vezes eu fico um pouco cansado porque em partes da Europa e da América do Norte as pessoas acham que a revolução vai sair de Chiapas e salvar a nós todos. Meu argumento é que a gente não pode simplesmente tirar aquilo do México e trazer para cá, nós temos de inventar nossas próprias maneiras de fazer política, de acordo com as nossas próprias circunstâncias.

Nós não estamos vivendo em Chiapas, nós estamos vivendo em Pittsburgh, em Detroit, em São Paulo. E a gente precisa pensar nas nossas próprias formas de se organizar em grandes cidades como essas.

Fonte: OUTRAS MÍDIAS

janeiro 02, 2014

Os Grandes Artistas - Pós-impressionismo - Cézanne

PICICA: CÉZANNE: A influência de Cézanne sobre os artistas do século XX foi tão grande que muitos se referem a ele como o "pai da pintura moderna". Esta é a história da vida de um homem atormentado, cujo único objetivo era alcançar a grandeza artística; uma história tão inspiradora quanto as extraordinárias obras do pintor.



"Redes em protestos refletem as ruas", por Pablo Ortellado

PICICA: "O desafio para os movimentos sociais em 2014 é, assim, o de criar projetos de comunicação na internet que reafirmem e aprofundem a comunicação direta e descentralizada, engajada e com licenças e padrões livres, a fim de fortalecer a autonomia de quem fala."

‘SAÍMOS DO FACEBOOK’

Redes em protestos refletem as ruas

Por Pablo Ortellado em 31/12/2013 na edição 779

Reproduzido do Estado de S.Paulo, 30/12/2013; intertítulo do OI


O uso intensivo que os manifestantes fizeram de redes sociais como Facebook e Twitter gerou muito debate sobre a relação entre as ruas e as redes. A tese mais difundida é que o caráter horizontal e participativo dessas redes sociais, nas quais cada um é simultaneamente leitor e produtor de conteúdo, moldou a forma de organização que se viu nas ruas. Em outras palavras, a horizontalidade da rede teria gerado horizontalidade nas ruas, da mesma maneira que o caráter vertical dos meios de comunicação de massa teria moldado as relações verticais nos “velhos” movimentos sociais.

Embora a tese tenha o correto pressuposto de que tem se visto mais horizontalidade tanto na comunicação, como nos movimentos sociais, ela inverte a relação de causa e efeito. Foi a forma horizontal, participativa e colaborativa dos movimentos sociais e a necessidade de uma comunicação adequada a essas características que produziu experimentos no final dos anos 1990, como os sites de “publicação aberta” em que cada usuário podia publicar conteúdo e o uso de licenças adaptadas do software livre que permitiam a reprodução do que era produzido.

Foi desses experimentos ligados aos movimentos sociais que vieram alguns dos técnicos que desenvolveram plataformas muito utilizadas hoje em dia como Twitter, Flickr, YouTube e Craigslist. O desenvolvimento desse tipo de comunicação horizontal pelos movimentos sociais foi marcado por um processo de desintermediação, ou seja, pela supressão da mediação jornalística. O papel do jornalismo é o de apurar, organizar e apresentar a informação de maneira precisa, simples e equilibrada. Já a comunicação que vem sendo praticada pelos novos movimentos tem outras características: ela é direta e engajada. Ela está presente nos fanzines, nas rádios livres e nas primeiras experiências da internet como o Centro de Mídia Independente.

Trata-se de uma forma de comunicação na qual quem era objeto do discurso jornalístico fala diretamente a quem lê (ou vê, ou escuta) e busca tanto informar como persuadir da justiça de uma causa. É uma forma de comunicação que convoca, que instiga e que debate, sem mediação.

Comunicação direta

Com o advento e consolidação das grandes plataformas de redes sociais, muito do conteúdo que era produzido em plataformas próprias dos ativistas migrou para redes como Twitter e Facebook (ainda que em outros países, os movimentos tenham feito esforço para utilizar redes alternativas como o N-1 ou o Diáspora).

No Brasil, em 2013, embora tenham surgido alguns sites de comunicação alternativa (seja no sentido de jornalismo alternativo, seja no sentido de comunicação direta e engajada), a grande novidade foi a emergência de atores que difundiam sua voz por meio das redes sociais estabelecidas.

A experiência que ganhou mais destaque foi da Mídia Ninja, que inovou na linguagem, ao fazer transmissões ao vivo das manifestações por celulares. Essa linguagem foi tão popular e bem sucedida que terminou sendo adotada por grandes veículos de comunicação.

No entanto, do ponto de vista do desenvolvimento da comunicação dos movimentos, ela significou um retrocesso ao recolocar a mediação profissional (as transmissões e coberturas são feitas por jornalistas) e fazer amplo uso de ferramentas e padrões proprietários.

O desafio para os movimentos sociais em 2014 é, assim, o de criar projetos de comunicação na internet que reafirmem e aprofundem a comunicação direta e descentralizada, engajada e com licenças e padrões livres, a fim de fortalecer a autonomia de quem fala.

***

Pablo Ortellado é professor e membro do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (GPOPAI) na USP 

"El complejo arte de la traducción (I): estética y sentido", por Alejandra Crespo Martínez

PICICA: “Las palabras no sólo significan, también evocan”. Álex Grijelmo

El complejo arte de la traducción (I): estética y sentido

Foto: David Lladó
Foto: David Lladó
“De lo que yo compuse juzgará cada uno a su voluntad; de lo que es traducido, el que quisiere ser juez pruebe primero qué cosa es traducir poesías elegantes, de una lengua extraña a la suya, sin añadir ni quitar sentencia y guardar cuanto es posible las figuras de su original y su donaire, y hacer que hablen en castellano y no como extranjeras y advenedizas, sino como nacidas en él y naturales”. Fray Luis de León

“Las palabras no sólo significan, también evocan”. Álex Grijelmo
Cada día nos acercamos a un sinfín de textos diferentes, ya sea para estudiarlos, como parte de nuestro trabajo, o con intención meramente lúdica; y un elevado porcentaje de ellos está constituido por traducciones. Conocemos perfectamente las obras de escritores rusos, daneses, japoneses, árabes, checos, polacos o turcos, y las hemos leído –sorprendentemente- sin entender una sola palabra de las lenguas en las que fueron escritas. Esto es posible gracias a las traducciones aunque rara vez nos planteamos en qué consiste esto que he denominado el difícil arte de la traducción.

¿De qué hablamos cuando hablamos de traducción? Todo el mundo sabe, o cree saber, lo que es traducir. Se trata aparentemente de algo obvio: pasar lo dicho en un idioma a otro idioma. Esto supone que se entiende perfectamente qué es lo que el original dice para después traspasarlo fielmente al idioma de la traducción. En principio, la fidelidad de este traspaso quedaría garantizada por la elección del término adecuado en la lengua de recepción.

Si se piensa que la única finalidad de la traducción es reproducir el original en un idioma diferente, ésta supondría únicamente una ayuda, un instrumento para ir al original (debido a la ignorancia del mismo) y la traducción sería tanto mejor cuanto menos tuviera que decir por su cuenta (el ideal sería nada), cuanto más dejara hablar solo al original. La traducción es pensada así como un trans-porte de algo (el texto) que ya estaría plenamente acabado en el original y podría ser trasportado sin mutación alguna al idioma de la traducción en la que se conforma un nuevo texto que expresaría exactamente lo mismo que el primero. Pero ¿es esto tan fácil? ¿es incluso fácil entender las palabras con sus matices y sentidos, con las insinuaciones que conllevan, aun en nuestra propia lengua?

Las expresiones del tipo una buena/mala traducción, que tan frecuentemente empleamos, presuponen la posibilidad de un modelo de traducción en relación al cual cualquier traducción puede ser calificada como buena o mala, cuestión que, en principio, dependerá de la mayor o menor preparación y destreza del traductor, es decir, de cuestiones tales como el conocimiento que posea de la lengua origen y de la de destino, de su habilidad para apreciar y plasmar en su nuevo texto las calidades estéticas del original o, incluso, del cuidado que ponga en no omitir por olvido alguna palabra o frase. Estos problemas al ser de índole práctica pueden subsanarse con una debida formación lingüística, literaria y estética. Pero, ¿se puede conseguir una buena traducción sólo con estas destrezas?

Foto: Minis Exter
Foto: Minis Exter

En principio, hay que tener en cuenta que además de estos problemas meramente lingüísticos a los que debe enfrentarse un traductor, existen otros muy importantes de tipo cultural que son bastante más complejos porque no se resuelven mirando un diccionario o una gramática sino que exigen recursos documentales y conocimientos culturales de las dos civilizaciones, la de producción y la de recepción. La cuestión fundamental será encontrar equivalentes que produzcan en el lector de la traducción el mismo efecto que el autor pretendía causar a los lectores a los que iba dirigido el texto original. Así pues, para realizar una buena traducción se necesitarían algunas destrezas prácticas o técnicas como, en primer lugar, poseer un amplio conocimiento lingüístico contrastivo en ambas lenguas (ser casi bilingüe) ya que en la elección correcta del término adecuado se basará no sólo la buena trasmisión de una lengua a otra sino también su estética; en segundo lugar, un conocimiento exacto del nivel cultural y del contexto en el que se produce el original, así como una gran habilidad para escribir en su propio idioma y para leer la lengua del autor; en tercer lugar, se requerirían ciertos conocimientos sobre el tema tratado en el texto para no caer en falsas interpretaciones.
Pero incluso cumpliendo estas condiciones la traducción presenta serios y complejos problemas pues no solo consiste en decir lo mismo con otras palabras sino que se trata de pensar en una lengua lo que se piensa en la otra y eso trasciende el mero hecho lingüístico para convertirse en una cuestión filosófica.

Teorías y debates

Los debates en torno a la traducción no son recientes; ya los encontramos en la antigüedad clásica en la que se formulaban sobre dos supuestos, a saber, traducir palabra por palabra, o traducir las ideas a cuyo servicio se pondrían las palabras y recursos de la lengua de destino. Por consiguiente, según esto, ante la traducción (definida como la sustitución de un texto de una lengua original por el equivalente en otra) cabrían dos posturas teóricas:

1.- La traducción literal, que intentaría reproducir el texto original palabra por palabra sin atender a otras cuestiones. Estos textos no serían traducciones sino más bien transcripciones y se basan en la creencia, errónea, de que existe una correspondencia exacta entre las lenguas, entre un objeto y la palabra que lo representa, entre lo que el lenguaje dice y lo que quiere decir.

2.- La traducción libre, que trataría de reproducir los efectos del original sin respetar la literalidad, pero manteniendo una cierta fidelidad intencional.
Antes de entrar en materia, conviene precisar que un texto no es una mera suma de palabras o frases sino el resultado de la combinación de fenómenos lingüísticos y extralingüísticos que conforman un entramado complejo en el que convergen múltiples factores, a los que habría que añadir la figura del traductor y su mundo (en el sentido más amplio: espacio-tiempo, tradición, creencias…).

En la actualidad se impone la idea de que la traducción lejos de ser una simple transformación lingüística es una negociación entre culturas, entre diversas mentalidades: una vía de tráfico intercultural. Traducir, en este sentido, no consistiría en trasmitir el texto o la cultura originales sino hacerlos llegar de una determinada manera y no de otra. Nunca se traduce sin más; es una labor que siempre se lleva a cabo desde y en un momento y una sociedad particulares, con un tipo de lector en mente, a partir de una disposición hacia la cultura y el texto original, contextualizados y concretos, y con una intención y unas miras determinadas. La traducción no se produce en el vacío; está en el mundo y, de hecho, se le exige que responda ante él.

Tradicionalmente, los estudiosos del fenómeno de la traducción se han centrado en dos cuestiones esenciales: en primer lugar, el interrogante sobre si realmente es posible o no traducir un texto; en segundo lugar, -admitiendo que fuera posible- en cuál sería el método idóneo para hacerlo o, lo que es lo mismo, explicar en qué consiste traducir.

Ortega, en Miseria y esplendor de la traducción, manifiesta su opinión al respecto al afirmar que “traducir es algo que sencillamente el ser humano no puede hacer”, y defiende que es una utopía aunque reconoce que puede haber un acercamiento mayor o menor entre el texto origen y el de destino; será mayor en ciertos discursos como los de las ciencias naturales y exactas, y menor en otros como, por ejemplo, la literatura en la que la tarea se complica en extremo al añadir la dificultad de la forma, la voluntad de estilo (pensemos en el hecho de traducir un texto poético manteniendo el ritmo o la rima que han sido creados a partir de unos elementos lingüísticos determinados y muy concretos de la lengua original que pueden no tener correlato exacto en la de destino).
En los textos científicos, el hombre se traduce a sí mismo de una lengua a una terminología, no es una lengua natural, aquella ha salido de ésta y ésta, en su segunda traducción, no tiene detrás una tradición o estructuras de pensamiento y creencias. La traducción de textos técnicos, por ejemplo, es relativamente sencilla ya que la lengua empleada es, en gran medida, artificial, ha sido pactada y acordada, tanto en el léxico como en las reglas de uso; es una lengua muy alejada del lenguaje natural y, en ese sentido, está desprovista de ambigüedades, metáforas, vacilaciones semánticas, imprecisiones y no se somete a los avatares a los que lo está cualquier lenguaje natural. En este sentido debemos reconocer, con Ortega, que hay más facilidad para traducir unos textos que otros, y que en los casos en los que la identidad de términos y significados es imposible solo cabe la versión, una aproximación mayor o menor al original que, por otro lado, abre ante el esfuerzo del traductor una actuación sin límites.

Por otro lado, procede en este momento cuestionarnos qué entendemos por texto original pues el lenguaje mismo, en su esencia, es ya una traducción: primero, porque representa el mundo no verbal, la realidad; y después, porque cada signo y cada frase son la traducción de otro signo y otra frase. Este razonamiento puede ser invertido sin perder validez: todos los textos son originales porque cada traducción es distinta, cada traducción es una invención y en ese sentido constituye un texto único.
El poeta cuando escribe está traduciendo, tratando de hacer transparente una experiencia vital no lingüística, a través de metáforas, y así la poesía supone una nueva forma de entender la realidad: “Todo es traducción”, señala Octavio Paz; y es que la traducción subyace en toda comunicación humana; el puro lenguaje, el lenguaje natural, ya supone una traducción del mundo que aparece desde la infancia cuando un niño pregunta a su madre por el significado de los términos que no entiende en su lengua. “La traducción -sostiene Paz- es el estado natural del hombre”.

Así las cosas, si se acepta la tesis de la relación entre la lengua y la visión del mundo, defendida por prestigiosos filósofos del lenguaje como Humboldt, Sapir o Wolrf, traducir sería una tarea condenada al fracaso de antemano, justamente porque tanto la lengua original como la de destino reflejan visiones del mundo diferentes y difícilmente reconciliables entre sí.

La teoría de Humboldt, acerca de las diferentes visiones del mundo en las distintas comunidades lingüísticas, suscitó en su día una larga y espinosa polémica con respecto a la traducibilidad de las lenguas. La cuestión podría enunciarse así: si un texto está escrito en una lengua que es el producto de la visión del mundo del pueblo que la habla y al mismo tiempo condiciona el pensamiento del que la utiliza, ¿cómo será posible traducirlo a otra lengua que es el producto y el condicionante de otra visión del mundo? Consecuentemente, Humboldt no cree en la traducibilidad absoluta pero sí, al igual que Ortega, en aproximaciones y en la posibilidad de enriquecer una lengua y ampliar una visión del mundo a través de la propia traducción. Es utópico pensar que dos vocablos pertenecientes a dos idiomas diferentes (que el diccionario presenta como traducción el uno del otro) se refieran exactamente a los mismos objetos. Como declarará Ortega:

“formadas las lenguas en paisajes diferentes y en vista de experiencias distintas, es natural su diferencia. No sólo hablamos en una lengua determinada sino que pensamos deslizándonos intelectualmente por carriles preestablecidos a los cuales nos adscribe nuestro destino verbal. Cada lengua impone un determinado cuadro de categorías, de rutas mentales y algunas, con el tiempo, dejan de tener vigencia por lo que el lenguaje entonces es sólo una forma de hablar que no refleja esa realidad en la que se conformó”.

No obstante, lo cierto es que traducimos y leemos traducciones; si bien, la cuestión estriba en determinar de qué hablemos cuando hablemos de traducción; se trata de aclarar en qué consiste -en palabras de Ortega- el esplendor de la traducción.


Sobre el autor

Alejandra Crespo Martínez
Alejandra Crespo Martínez es licenciada en Filosofía y Letras (especialidad en Filología Hispánica) por la Universidad de Málaga y Licenciada en Humanidades, con Premio Extraordinario, por la UCLM. Catedrática de Lengua Castellana y Literatura en el IES Ramón y Cajal de Albacete. Imparte clases de Gramática en la Facultad de Filología Hispánica del Centro Asociado de la UNED en Albacete, y de Literatura en la Univ. de Mayores José Saramago de la UCLM. Ha trabajado algún tiempo como profesora de español en el extranjero (Polonia y Nicaragua)

Fuente: Revista de Letras

janeiro 01, 2014

Jorge Luis Borges - ¿Qué es la poesía? [Conferencia]

PICICA: "DocuTV - De Siete noches, noche quinta: ¿Qué es la poesía?. - Entre junio y agosto de 1977, Jorge Luis Borges pronunció siete conferencias en el Teatro Coliseo de Buenos Aires: La Divina Comedia, La pesadilla, El libro de las mil y una noches, El budismo, ¿Qué es la poesía?, La cábala, y La ceguera, más tarde recogidas en su libro Siete Noches."



"Contra la ignorancia sobre el feminismo", por Octavio Salazar

PICICA: ""Todas las gentes que no estén ciegas, bajo el influjo de prejuicios invencibles, son feministas". Adolfo Posada, 1899"

Contra la ignorancia sobre el feminismo


Por: | 31 de diciembre de 2013
Manifestación por el derecho al aborto en Madrid en 1983, por RAÚL CANCIO
Manifestación por el derecho al aborto en Madrid en 1983, por RAÚL CANCIO
"Todas las gentes que no estén ciegas, bajo el influjo de prejuicios invencibles, son feministas". Adolfo Posada, 1899
Si hay una etiqueta que todavía sigue siendo objeto de prejuicios y de una permanente devaluación esa es sin duda la de feminista. En estos malos tiempos para la igualdad y para la garantía de los derechos de las mujeres, o lo que es lo mismo para la efectividad de la democracia, asistimos además a una progresiva huida de un término que es usado tanto por hombres como por mujeres en muchas ocasiones desde la ignorancia y en otras tantas desde el desprecio más absoluto. Mientras que otros conceptos vinculados a la lucha por los derechos humanos han acabado asentándose, aunque sólo sea en el ámbito de lo políticamente correcto, el feminismo sigue identificándose con los intereses parciales del colectivo "mujeres", cuando no con reivindicaciones extremistas que parecen identificar a sus protagonistas con la pura "histeria" con la que el diputado Novoa Santos calificó a la mitad de la ciudadanía en el debate constituyente de 1931.
A todo ello habría que sumar la ligereza con la que todos y todas opinan al respecto, aunque la mayoría de los y de las que hablan no hayan leído ni la tercera parte de los muchos volúmenes que atesora el pensamiento feminista. Algo que al menos algunos no nos permitiríamos hacer con respecto a otros campos del saber que no forman parte de nuestro caudal formativo.
Y es que a estas alturas del siglo XXI, y muy especialmente en nuestro país, sigue habiendo mucha ignorancia, alimentada sin duda por el orden patriarcal que sigue vigente, en torno a lo que el feminismo ha representado y representa como movimiento igualitario y como teoría política.

Porque no deberíamos olvidar que el feminismo no es solo un proceso de lucha que se inicia precisamente cuando el constitucionalismo liberal excluye de sus conquistas a la mitad de la Nación, sino que también constituye todo un marco de reflexión crítica y emancipadora mediante el que muchas mujeres -y algunos hombres- llevan cuestionando unas estructuras políticas, jurídicas y sociales que siguen marcando diferenciaciones jerárquicas entre unos y otras.
Por lo tanto, y desde esa doble consideración, el feminismo ha sido y es clave en los procesos de consolidación democrática y en la definición más completa y justa del Estado de Derecho. De ahí por lo tanto que debiera ser objeto de estudio preferente no sólo en ámbitos científicos cuya incidencia es evidente, sino en general como materia obligatoria sin la que es imposible educar para una ciudadanía capaz de ejercer sus derechos y obligaciones en condiciones de paridad. Algo que, por supuesto, desconoce la reciente reforma educativa y apenas es un mandato de buenas intenciones, en la práctica normalmente incumplidas, en nuestra legislación de igualdad. 
Feminismo2Por todo ello un libro como El feminismo en España. La lenta conquista de un derecho (Cátedra, Madrid, 2013) es no sólo una lectura altamente recomendable sino que debería convertirse en un manual de lectura obligatoria en escuelas, institutos y facultades. En él Anna Caballé, a la que tuve la suerte de descubrir en la apasionante biografía de Carmen Laforet que escribió con Israel Rolón, hace un recorrido por lo que ha significado el feminismo en España a lo largo del tiempo. Con una prosa más cercana a la literatura que al lenguaje puramente científico, lo cual será  de agradecer para un lector no iniciado, la autora trata de identificar las características singulares de dicho movimiento en un país cuyos condicionantes históricos casi nunca fueron propicios para hacer germinar con fuerza lo que en otros países sí que fue una lucha consistente. 
Según Caballé, el concepto clave para explicar el feminismo español es el de resistencia, es decir, el hecho de que haya representado siempre una forma de oposición pragmática, operada desde dentro del "sistema" y tal vez más volcado hacia lo pragmático que hacia lo teórico. Además, entiende la autora que el más rasgo más constante del dicho movimiento en nuestro país ha sido no tanto la reivindicación social sino la cultural: "En España no ha sido la defensa del voto, el derecho al trabajo o los anticonceptivos, o la lucha contra el maltrato machista lo que permite unir el feminismo bajo un solo clamor, sino la aspiración tenaz, incluso obsesiva, de nuestras mujeres a ser personas, a poder superar su inmemorial condena a la ignorancia, mediante el acceso a la instrucción y la cultura".
A partir de estas premisas, Anna Caballé nos invita a realizar por un viaje por los orígenes de lo que ella denomina "feminismo literario", partiendo de las raíces religiosas del mismo en los conventos del siglo XV hasta llegar a los debates contemporáneos, pasando por momentos tan decisivos como la II República o la transición. Y dejando muy claro, además, que es un término que ha de conjugarse necesariamente en plural. Es decir, que son muchos los feminismos o interpretaciones posibles de una misma raíz, como pasa con otras teorías políticas sin que ello merezca un juicio precisamente negativo.
El feminismo en España recupera voces de mujeres que continúan siendo ignoradas en los libros de historia y subraya los de otras que todavía hoy sólo son valoradas por quienes entendemos que no se puede ser demócrata sin ser feminista. Y las sitúa en el lugar que les corresponde, es decir, en el de un protagonismo esencial en la larga lucha por construir una sociedad en la que hombres y mujeres podamos gozar del acceso a los saberes, a los poderes y a los bienes en condiciones de igualdad. Por todo ello, es una lectura reconfortante y alentadora en estos meses en los que está resultando tan complicado encontrar razones para el optimismo.
Debería ser leído y subrayado por quienes continúan sometiendo el feminismo a un escrutinio injusto e infundado, así como por aquellos y por aquellas que parecen no entender que cualquier ataque contra la igualdad es un ataque al corazón mismo de la democracia. Y, por supuesto, debería convertirse en libro de cabecera para quienes seguimos en el compromiso de construir la "sociedad democrática avanzada" de la que habla el preámbulo de nuestra malherida Constitución. Una lucha en la que los hombres tenemos mucho que decir después de tantos siglos de monopolio de los púlpitos, para lo que no estaría de más que empezáramos formándonos en igualdad y conociendo a todas esas mujeres que la Historia ha situado en los márgenes. Las que han sido, como bien nos recuerda Caballé, tan necesarias para alumbrar una sociedad en la que, al menos como objetivo, ningún individuo sea excluido de la ciudadanía por razón de su sexo. Porque no deberíamos olvidar que, como bien sentenció Clara Campoamor en plena lucha por el sufragio verdaderamente universal, "solo hay una cosa que hace un sexo solo: alumbrar, las demás las hacemos todos en común". Algo que, por cierto, parecen todavía desconocer Gallardón y compañía.

Funte: El País

"Em defesa da consciência crítica", por Florence Poznanski e Nemer Sanches de Souza

PICICA: "A pesquisa citada sobre os jovens e a informação, promovida pelos institutos Polis e Ibase, mostra que os jovens que sabem explicar os conceitos veiculados pela mídia não foram esclarecidos assistindo televisão. A principal fonte de informação para o esclarecimento foi a internet. Os movimentos sociais de junho de 2013 demonstraram a importância das redes sociais na organização da mobilização e no fortalecimento do sentimento de cidadania. Esse é o caminho que a Internet Sem Fronteiras se propõe de seguir, ampliando o acesso e amplificando a informação livre e crítica, fundamento básico para a formação do cidadão consciente e moralmente ativo."



JORNALISMO CIDADÃO

Em defesa da consciência crítica

Por Florence Poznanski e Nemer Sanches de Souza em 24/12/2013 na edição 778



As manifestações realizadas em junho de 2013 demonstraram que os jovens brasileiros estão longe de serem considerados apáticos, contradizendo a opinião conservadora veiculada pela mídia. A mobilização da sociedade em torno dos problemas enfrentados por todos os brasileiros, que continuou acontecendo após aquelas manifestações, comprovou que a juventude possui real interesse pelo sistema político dominante.

A participação de jovens em associações ou em outros movimentos coletivos suscita uma avaliação mais apurada sobre os caminhos trilhados por eles para a formação de opinião própria sobre política, considerando a influência exercida pelas diferentes mídias ao abordarem as principais propostas e controvérsias da atualidade.

Durante as manifestações, cujo estopim foram a mobilidade urbana e os gastos de recursos públicos efetuados para realização da Copa 2014, a população cobrou dos governantes mudanças de rumos das políticas públicas e exigiu mais saúde, mais educação, o fim da corrupção, o fortalecimento do Ministério Público, ampliação da transparência e do controle social, e democratização das relações entre Estado e sociedade. Ao mesmo tempo ecoaram vozes que cobravam a saída de chefes do poder executivo de vários partidos, julgados pelo calor das ruas como principais responsáveis pelas mazelas do Estado brasileiro.

Os jovens participam. Mas são politizados?

Como entender

Indo além de um debate sobre a orientação política, a questão agora colocada consiste principalmente em procurar entender quais são as modalidades de acesso à informação de todos os jovens brasileiros e como isso contribui para a formação da opinião dos manifestantes e coletivos mobilizados.

Pouco antes de ocorrerem as manifestações, a Secretaria Nacional de Juventude realizou umapesquisasobre os jovens e a participação política. Apurou-se que 46% dos 3.000 jovens de 15 a 29 anos entrevistados já participaram em associações, entidades ou grupos, mas que só 9% consideram-se politicamente participantes. Apesar de 54% dos entrevistados considerem que a política é muito importante, 57% acham que não devem se envolver com política ou se interessar por ela. Essa relação ambígua tem origem na grande desconfiança expressa pelos jovens quanto à política tradicional: os partidos políticos não inspiram credibilidade e a corrupção, com a qual o sistema político está entrelaçado, reduz a legitimidade da democracia representativa. A falta de credibilidade fez com que as manifestações ocorridas reivindicassem para si a característica de apartidárias, mesmo que não apolíticas.

Podemos considerar positivo o fato de que os jovens são capazes de criar novas formas de reunião e de mobilização fora dos canais tradicionais, hoje em dia esgotados. Entretanto, se faz necessário apurar qual é a base informativa que forma a conscientização política e que respalda as reivindicações cidadãs. Numa outra pesquisa, realizada em 2009 pelos institutos Polis e Ibase, foi avaliada a relação de 8.000 jovens brasileiros com a informação. Foi apurado que 85,8% consideravam-se informados sobre os acontecimentos mundiais, sendo a televisão a fonte de informação da maioria. Quando questionados sobre esses presumidos conhecimentos, apenas 30,4% sabiam qual era o significado da sigla ONU (Organizações das Nações Unidas) e 3% conseguiam explicar o que é uma política de quotas.

A falta de acesso à informação qualificada aparenta ser um dos principais problemas da formação à cidadania dos jovens brasileiros.

Em qual medida a informação transforma-se em saber, responsável pela construção da consciência crítica? E como essa conscientização permite que os jovens participem de forma cidadã perante os acontecimentos políticos que os afetam?

O Brasil vive uma grande expectativa para 2014, que se configura como um dos períodos marcante para a história recente: espera-se a retomada das manifestações promovidas pela efervescente mobilização da sociedade que “perdeu a paciência”; é certo o destaque que o país receberá da imprensa mundial em função da realização da Copa do Mundo, em junho, e de suas consequências; e haverá eleições gerais em outubro, quando serão escolhidos o presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais – escolhas que serão influenciadas pelos eventos precedentes e pelo foco da mídia na cobertura dos fatos.

Os resultados de 2014 podem ser transformadores para a sociedade brasileira. Porém, o fator preponderante está na maneira como os cidadãos vão entender esses acontecimentos e traduzi-los em opinião política.

Fonte principal

Ciente da importância do momento atual, a ONG francesa Internet Sem Fronteiras, que defende desde 2007 a liberdade de expressão online e o desenvolvimento das mídias livres na internet, elaborou seu primeiro projeto no Brasil, em parceria com o Observatório da Imprensa. Trata-se de um projeto de jornalismo cidadão a ser realizado com um grupo de jovens da região metropolitana de Belo Horizonte, que consiste no acompanhamento do panorama político no período de maio a novembro 2014, e que possa contribuir com a construção de uma consciência política crítica e apurada entre os participantes.

O projeto prevê ainda a criação de uma plataforma infográfica de dados em livre acesso sobre a participação política dos jovens e o funcionamento do sistema político brasileiro. A infografia é uma ferramenta potente para apresentar os dados de maneira clara e simplificada, mesmo quando se trata de assuntos complexos. Os dados serão levantados junto ao IBGE e a outros centros de pesquisa, como também junto às ONGs como a Transparência Brasil e similares.

Ao possibilitar uma análise crítica da atualidade política brasileira, incentivando a produção de artigos sobre como esses acontecimentos afetam suas realidades, a plataforma a ser construída tem o intuito de estimular a consciência política dos jovens, valendo-se de ferramentas e espaços bem conhecidos e explorados por eles (internet, redes sociais etc.).

A pesquisa citada sobre os jovens e a informação, promovida pelos institutos Polis e Ibase, mostra que os jovens que sabem explicar os conceitos veiculados pela mídia não foram esclarecidos assistindo televisão. A principal fonte de informação para o esclarecimento foi a internet. Os movimentos sociais de junho de 2013 demonstraram a importância das redes sociais na organização da mobilização e no fortalecimento do sentimento de cidadania. Esse é o caminho que a Internet Sem Fronteiras se propõe de seguir, ampliando o acesso e amplificando a informação livre e crítica, fundamento básico para a formação do cidadão consciente e moralmente ativo.

***

Florence Poznanski, diretora do setor Brasil da ONG francesa Internet Sans Frontières. cientista politica. pode por meu email para contato também : florence@internetsansfrontieres.org
Nemer Sanches de Souza: contador especialista em Controladoria e Finanças, Especialista em Educação Fiscal e Cidadania, em BH. 

Fonte: Observatório da Imprensa

"2014: os desafios sociais e ambientais do povo brasileiro", por Najar Tubino

PICICA: "Terminamos o ano de 2013, e entramos no próximo ano encarando a temporada ultraconservadora rural, social e ambiental no Brasil."

2014: os desafios sociais e ambientais do povo brasileiro

Terminamos o ano de 2013, e entramos no próximo ano encarando a temporada ultraconservadora rural, social e ambiental no Brasil.



Najar Tubino Arquivo

Porto Alegre – Com a temperatura acima de 35 graus, beirando os 40, uma inundação em dois estados, conflito racista em Humaitá (AM), onde os madeireiros incentivaram a destruição do patrimônio público, após a morte de um cacique e três moradores da cidade; a construção de várias estações de transbordos no distrito de Miritituba(PA), onde o agronegócio vai escoar cerca de 20 milhões de toneladas de soja; mais a liberação da exploração de ouro na Volta Grande do Xingu, a l7 quilômetros onde está sendo erguida a Usina Hidrelétrica do mesmo nome; além da proposta indecente das empresas de agrotóxicos junto com a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), para criar a Comissão Técnica de Agrotóxicos (CNTagro), espécie de irmã siamesa da CNTbio, àquela que só aprova a liberação dos transgênicos, assim terminamos 2013, e entramos no próximo ano encarando a temporada ultraconservadora rural, social e ambiental.

Ficou grande, mas é para argumentar bem. A capital gaúcha, local onde sempre passam as frentes frias vindas da Península Antártica está imersa no forno, transformando a bela Porto dos Casais dos açorianos, em autêntico inferno tropical. O conflito de Humaitá que a Rede Globo, por intermédio dos repórteres da afiliada no Amazonas identificou como uma revolta da população pelo sumiço de três moradores, e tendo como fato anterior, a morte do cacique Ivan Tenharim, “encontrado morto na Transamazônica, vítima de atropelamento por estar bêbado”. Posteriormente, a nota do Conselho Missionário Indigenista registra o seguinte:

“- O cacique Ivan Tenharim era um incansável opositor contra a pilhagem praticada por madeireiros na terra indígena, junto com os órgãos públicos, e contribuiu para o fechamento de serrarias ilegais na região”.

A BR-230, conhecida como Transamazônica, que corta o norte do país desde Imperatriz, no Maranhão até o Acre, foi uma obra da ditadura militar, juntamente com a Perimetral Norte, que cortaria o Amapá, até a fronteira com a Guiana, e acaba na terra indígena dos Oiampi, povo que conheci em 1979. Tinha uma guarita vigiada pelos índios no final da estrada, que foi abandonada, porque ligava o fim do mundo ao paraíso, ou seja, o nada a lugar algum. Os tenharins moram na terra onde sempre viveram, junto com seus vizinhos parintintins e muras, na Terra Indígena Tenharim Marmelos. A estrada construída, a custa da destruição de várias aldeias, como no caso dos Araras, na região de Altamira, simplesmente corta o território ao meio. Idêntico caso dos Waimiri-atroari na Roraima, com a BR-374.

Revolta racista

O cacique morto foi encontrado com hematomas no corpo e ferimentos na cabeça. Não houve investigação policial. Lógico que a revolta da população de Humaitá, incrementada pelos madeireiros, com tons racistas, de expulsão total dos índios da região – certamente para ficar com suas terras – serviu de mote para uma nota da Confederação da Agricultura, onde a senadora Kátia Abreu, dispara a artilharia do ultraconservadorismo rural brasileiro.

“- A revolta que motivou duas mil pessoas a atearem fogo na sede da FUNAI é mais uma prova irrefutável da necessidade de mudanças imediatas na condução da política indigenista”, diz a nota da CNA.

Os moradores encapuçados de Humaitá queimaram a Casa de Saúde do Índio, vários carros e motos, além de um barco, que abastecia as aldeias do interior. Ou seja, acabaram com a infraestrutura da FUNAI e deixaram cerca de 180 tenharins que estavam na cidade encurralados, tanto que foram levados para  o 54º Batalhão de Infantaria de Selva. No dia 29 a juíza federal de plantão, Marília Gurgel determinou as autoridades de segurança a proteção à terra indígena que foi invadida várias vezes, e determinou a volta dos índios às comunidades. Além disso, enviou cópia do processo para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Não queriam discutir os impactos

Voltando um pouco na mesma estrada, agora no entroncamento da BR-163 – Cuiabá-Santarém, no distritito de Miritituba, município de Itaituba (PA), um grupo de multinacionais, entre elas, Cargill e Bunge, começou a construção de várias estações de transbordo fluvial. A soja, ao invés de rodar 2,3 mil quilômetros até Santos ou Paranaguá, para engordar as vacas europeias ou porcos e galinhas chinesas, percorrerá um trecho da BR-163, recém-licitada para a Odebrecht, até o referido distrito, cerca de 900 quilômetros – contando de Nova Mutum, passando por Lucas do Rio Verde, Sorriso, Sinop, e atravessando o nortão do MT até o Pará.

Negócio lógico. Uma barcaça de soja equivale a 800 caminhões lotados. Mas as empresas chegam num distrito com menos de quatro mil habitantes, a mais adiantada é a Bunge, que pretende exportar até cinco milhões de toneladas de soja- via rio Tapajós até vila do Conde, em Barcarena, região metropolitana de Belém. Vão construindo sem ainda ter as licenças necessárias. Não queriam nem discutir os impactos. A região não tem água encanada, coleta de lixo, rede de esgoto. Itaituba com 98 mil habitantes tem um lixão recebe 950 toneladas por mês. Depois de muita discussão com os representantes da prefeitura local, chegaram a um acordo e pagar R$12 milhões em 15 prestações, para ter a licença municipal de instalação.

600 mil viagens por ano

No acordo consta a construção da infraestrutura de água, esgoto e lixo, a compra de 10 transformadores para as escolas, uma sede para o corpo de bombeiros, uma ambulância. A previsão da agência Reuters, que esteve na região, é para um movimento de 300 mil caminhões por ano, somente na ida, ou seja, 600 mil viagens. Levando soja na estrada que ainda não está asfaltada, mas são somente 150 km, no clima amazônico, com temporada de chuva e seca definida. Minha conclusão: vão misturar ferro no asfalto para não desmanchar.

A previsão das empresas, e são 15 que se instalarão na região, é de movimentar seis milhões de toneladas em 2015, mas a expectativa é para escoar por esta rota até 20 milhões de toneladas. A expansão da soja na Amazônia tem uma grande responsável: a Cargill, multinacional americana, que ainda é controlada pela família, desde a sua fundação, e que instalou um porto graneleiro em Santarém há 10 anos, com capacidade para movimentar 1,3 milhão de toneladas. Na época, a produção de soja na região estava iniciando. Hoje, contanto os municípios vizinhos soma 55 mil hectares. Segundo a Associação da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), dos quase 25 milhões de hectares de soja plantados no Brasil, 2,1 milhões estão no bioma Amazônia. O Pará tem 337 propriedades que plantam soja em 16 municípios, além de contar com 107 mil fazendas e 19 milhões de cabeças de bovinos.

Na trilha do ouro

Então a primeira rota de escoamento começou via Porto Velho, usada pelo Grupo Amaggi, que leva de barcaça até Itacoatiara no Amazonas. Dali, de navio para o Atlântico. O pobre distrito de Miritituba é um atalho. Também porque via rio Amazonas – se encontra com o Tapajós em Santarém –existe um empecilho na foz do Amazonas – só passam navios com no máximo 47 mil toneladas de capacidade. Por Barcarena, onde a Bunge, que está investindo R$500 milhões no projeto, podem passar navios de 70 mil toneladas. Eles já projetaram, como novas dragagens, navios com capacidade para 120 mil toneladas. A Bunge e o grupo Amaggi, do senador Blairo Maggi criaram a empresa Navegações Unidas Tapajós Ltda., com investimentos previstos de R$300 milhões, com a compra de 90 barcaças e cinco empurradores.

Seguindo ainda pela Transamazônica até a região de Altamira, onde está sendo construída a hidrelétrica na Volta Grande do Xingu. O Grupo Forbes & Manhattan, um banco de capital fechado, que capta dinheiro nas bolsas do Canadá e em outras partes do mundo, conseguiu licença ambiental do governo do Pará, via SEMA, para investir US$1,1 bilhão na mesma região e recolher 4.684 quilos de ouro por ano, em 11 anos pretendem remexer 37,8 milhões de toneladas de terras, com o consequente tratamento com cianureto, para identificar as migalhas do metal. Cerca de dois mil garimpeiros trabalham na região, todos ilegalmente.

Existem comunidades com 40 anos. Já estão sendo expulsos. O grupo canadense pretende usar dinamite, a 17 km da usina, mas isso é um detalhe, não há o menor risco. O pior mesmo é o veneno que vai ficar na região.

Bilhões para alguns e miséria para outros

Para terminar esse sumário quase trágico, do ponto de vista social e ambiental, uma notícia animadora na terra da senadora Kátia Abreu, o estado do Tocantins, que ela pretende governar, depois de 2014. Osmar Zogbi é um daqueles ricos brasileiros, que vendeu seus negócios e está à procura de uma nova atividade.

Vendeu o banco Zogbi para o Bradesco e a sua parte na Ripasa, uma empresa de celulose e papel, para o grupo Votorantim. Criou a Eco Florestas- gosto de ver é o marketing ambiental deles –considerado o maior projeto florestal independente.

Comprou 120 mil hectares de terra, 42 mil já ocupados com eucalipto, mas o plano é atingir 180 mil hectares e 100 mil com o monocultivo. O objetivo maior é uma indústria de celulose com capacidade para 1,5 milhão de toneladas por ano – necessita de 150 mil hectares de eucalipto. Zogbi investiu R$500 milhões, junto com seus sócios, ex-acionistas da Ripasa, além do grupo Safra e a BR Partners, entre outros.

Por isso, dá para entender a fúria da CNA contra os índios que estão atrapalhando os bilhões que serão investidos no campo, onde de um jeito ou outro, sobra umas migalhas para eles. Quanto ao povo brasileiro, que vive nas regiões afetadas, certamente serão deslocados para as capitais e suas regiões metropolitanas.

Vamos ver dois exemplos: o Pará tem uma população de 7,5 milhões de habitantes, sendo 1,4 milhão considerados economicamente como vivendo abaixo da linha da pobreza, assim como outros 16 milhões de brasileiros. Mas a média nacional é de 8,42%, de pobres nesta situação, comparados com uma população de 190 milhões de habitantes – dados de 2010. A média do Pará é de 18,65 % da população em condições de extrema pobreza.

O Mato Grosso, maior produtor de soja, milho e algodão do país, com uma população de pouco mais de dois milhões de habitantes, têm 394.821 famílias no Cadastro Único do governo federal, quer dizer, recebem assistência de algum programa. Onde vai parar os mais de US$30 bilhões da exportação de soja, ou os mais de US$6 bilhões da exportação de carne de boi. Outra questão, para discutir em 2014: qual o limite da expansão da pecuária e da soja na Amazônia? Ou não tem limite? Ou transformaremos a Amazônia numa imensa fazenda de boi e soja, para o deleite da elite rural ultraconservadora desse país?   

Créditos da foto: Arquivo


Fonte: Carta Maior