abril 02, 2014

"A farsa, um século depois", por Lúcio Flávio PInto

PICICA: "O Pará vive momento parecido. No lugar da borracha, o sustentáculo da sua economia agora são os minérios, principalmente o minério de ferro da Serra de Carajás, o melhor do mundo. Sua exploração completará 30 anos em 2015. O primeiro carregamento saiu de Carajás em fevereiro de 1985. A primeira jazida, a de Serra Norte, está em vias de esgotamento. A mais importante, a de Serra Sul, entrará em atividade comercial em 2017. Quatro décadas depois nada mais restará dela.

Se em 30 anos o Pará não passou de um grande vendedor de minério, não conseguindo avançar no beneficiamento, conseguirá outro resultado nos 40 anos seguintes? No curso de um século, não poderá regressar a uma situação de crise ainda maior do que ao fim do ciclo da borracha? E quem diagnosticará a situação e tentará encontrar uma alternativa?"

A farsa, um
século depois


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O Pará não conseguiu responder ao desafio que a crise da borracha lhe impôs, um século atrás. Não vai resolver os problemas que o ciclo dos minérios está lhe impondo agora. Sem líderes e ideias, parece condenado a repetir o drama. Agora, como farsa.

O Pará viveu, exatamente um século atrás, uma fase da sua história que guarda semelhanças com a atual, embora de significado bem menos complexo e grave. O surto de crescimento econômico - continuado e incrementado - que a exploração monopolista da borracha sustentou durante meio século entrou em colapso com o ingresso, no mercado internacional, do primeiro e fatal concorrente. A Ásia passou a fornecer borracha muito mais barata e em maior volume do que a Amazônia. Em 1912 a quebra atingiu seu ponto definitivo de inflexão: para baixo.

No dia 12 de fevereiro de 1913, ao assumir o governo, na sua mensagem de abertura do congresso estadual (a assembleia legislativa de então), Enéas Martins ainda tinha esperança: “saímos de uma longa noite penosa”. O alvorecer se infiltrava no horizonte, mas ainda era “conturbado”, admitia. A economia estadual, que brilhara nos anos anteriores e parecia indestrutível na sua pujança, sofrera pelos “abusos ao crédito, os desmandos nos impostos, os gastos e desperdícios” praticados pelos seus governantes e a sua elite. Nada fora feito para dar melhor aplicação à renda da borracha e prevenir a sua quebra.

O novo governador acreditava que havia uma saída para a crise, através de “novas fontes de renda sem que com elas vexemos o contribuinte”. Achava que não convinha “diminuir ainda a taxa cobrada sobre a borracha bem preparada, pedindo à de fabrico menos cuidado uma pequena compensação no aumento da taxa respectiva”. Assim, estimulando o maior beneficiamento da matéria prima e onerando a produção in natura, estimularia a formação de renda maior para circular internamente.
Enéas sabia que para isso iria precisar de “elementos preciosos de trabalho e informação”, através de maior contato com a economia internacional e qualificação técnica do governo. Mas já era tarde para sua iniciativa. Não houve como controlar a derrocada: o Pará entrava (com a Amazônia) naquele período (1920-40) definido pelos historiadores como sendo a sua idade média. Enéas Martins deixou o governo em 1917, transferindo um legado negativo para o seu sucessor, apesar de todo o seu empenho para melhorar a situação do Estado.

O Pará vive momento parecido. No lugar da borracha, o sustentáculo da sua economia agora são os minérios, principalmente o minério de ferro da Serra de Carajás, o melhor do mundo. Sua exploração completará 30 anos em 2015. O primeiro carregamento saiu de Carajás em fevereiro de 1985. A primeira jazida, a de Serra Norte, está em vias de esgotamento. A mais importante, a de Serra Sul, entrará em atividade comercial em 2017. Quatro décadas depois nada mais restará dela.

Se em 30 anos o Pará não passou de um grande vendedor de minério, não conseguindo avançar no beneficiamento, conseguirá outro resultado nos 40 anos seguintes? No curso de um século, não poderá regressar a uma situação de crise ainda maior do que ao fim do ciclo da borracha? E quem diagnosticará a situação e tentará encontrar uma alternativa?

Certamente nenhum dos seus líderes em atividade. Todos tiveram sua oportunidade e falharam. Não se mostraram à altura do desafio: evitar que o Pará se torne uma colônia internacional de minérios e de outras commodities, com baixo valor agregado. incluindo a energia. O Pará foi o Estado que mais cresceu, sobretudo no comércio exterior, desde que os primeiros dos “grandes projetos” (Jari e Trombetas) entraram em operação, em 1979.

Embora o crescimento seja um fato inquestionável quanto ao valor do PIB ou aou o volume de vendas ao exterior, essa grandeza não se traduziu (ou teve tradução inversa) socialmente e mesmo economicamente. Daí ser fundamentada a expressão do crescimento como rabo de cavalo: quanto maior é, mais para baixo fica.

Por desinformação, despreparo ou má fé, as lideranças do Estado insistem num único ponto como corretivo para essa distorção: maior receita de impostos. Esse tom monocórdio se explica pelo fato de ser dinheiro que vai para as mãos daqueles que controlam o poder político e econômico. Mas ainda que residualmente essa receita tenha aplicação social, ela jamais conseguirá reverter a marcha batida do Pará no rumo do atraso relativo causado por esse crescimento para baixo.

Enéas Martins e outras lideranças mais esclarecidas que surgiram durante os 50 anos da economia da borracha foram um pouco além desse tributarismo estreito dos nossos dias. Sem onerar o cidadão com uma carga mais pesada de impostos, eles perceberam que o mecanismo tributário devia tentar induzir o maior beneficiamento da matéria prima e onerar o extrativismo primário.

Esse caminho era (e continua a ser) tão óbvio quanto a chave do enigma: colocar o guizo no pescoço do gato ameaçador. Mas quem poderia desempenhar essa tarefa? No caso concreto, não bastava ter a consciência do problema e a vontade de resolvê-lo: era necessário saber como fazer o certo e desfazer os nós e arranjos do errado. Na sua mensagem de 1913, Enéas demonstrou saber o que fazer: ter mais intimidade com o mercado internacional, para o qual se destinava a produção de borracha, e trazer dela os conhecimentos técnicos para dar embasamento ao processo de industrialização do látex.

O problema é que não havia mais tempo para isso. A produção asiática já estava em condições de dar o golpe fatal na economia gomífera da Amazônia com escala de produtividade e preço inalcançáveis. Quem iria investir num negócio sem condições de competitividade e perspectivas de lucro? O Brasil ainda tentou oferecer preços compensatórios (e subsidiados) aos produtores amazônicos, mas esse esforço chegou ao fim quando aos industriais paulistas se tornou melhor negócio a importação de borracha. Foi o segundo e definitivo golpe às pretensões de subsistência da economia regional desse produto.

Uma oportunidade ainda melhor se ofereceu aos paraenses quando os “grandes projetos” foram saindo das pranchetas para a realidade. A marca desses empreendimentos foi o sigilo. Nasceram e se viabilizaram em gabinetes e, depois, no circuito fechado que a decisão, tomada de fora para dentro e de cima para baixo, proporcionou.

Havia uma aliança (ou um conchavo) entre o governo federal e as grandes empresas interessadas nos cursos naturais da Amazônia. Aos Estados competia cumprir as ordens e desempenhar um papel secundário, complementar. Aloysio Chaves, governador entre 1975 e 1979, tentou inserir o Estado nesse esquema de forma mais criativa. Mas foi reprimido pelo poder central e se submeteu ao arrocho para poder sobreviver politicamente.

Sua maior proposta foi pela formação de um planejamento inovativo na administração estadual, cada vez mais reduzida a alocar verbas e decisões do governo federal. A linha teórica foi traçada, mas lhe faltaram os elementos de realidade, os instrumentos de ação, sem os quais não há planejamento que valha a pena. Essas ferramentas continuam indisponíveis até hoje. O pior é que falta até mesmo planejamento. Nada mais é antecipado, antevisto, preparado.

Quando a hidrelétrica de Tucuruí e os polos de mineração e metalurgia se tornaram viáveis, o Estado teria que se empenhar na busca pelo uso intensivo de energia no seu próprio território. No caso da bauxita, o ciclo chegaria até a transformação do minério em metal básico. Mas nunca foi além do lingote de alumínio. A tarefa aí seria implantar um polo de elaboração a partir do metal básico, o que nunca foi conseguido, em função dos interesses do Japão, sócio dominante (apesar de com menor participação acionária) na associação. Para a quantidade de energia absorvida pela Albrás, foi uma perda brutal.

Talvez o mais dramático tenha acontecido com o minério de ferro. Carajás entrou em atividade quando a siderurgia mundial passava por mudanças revolucionárias. Os mastodontes siderúrgicos americanos entraram em colapso por não se amoldarem às novas tecnologias, que tornaram possível a redução direta do aço em miniusinas. O Pará, que tinha um insumo abundante, a energia, podia ter navegado nessa onda pioneira, mas ficou miseravelmente para trás. Não criou qualquer efeito para frente da mera mineração.

Homem esclarecido, o governador Almir Gabriel tentou forçar a criação de um centro siderúrgico próximo à mina e o beneficiamento do cobre, eletrointensivo que só fica abaixo do alumínio. Mas foi ludibriado primariamente pela Vale e ainda se calou voluntariamente diante da privatização da estatal, que antes contestava, para receber o presente da usina de beneficiamento, que não veio.

A incipiente e engatinhante estrutura técnica do Estado para acompanhar a implantação dos “grandes projetos” e procurar um modelo alternativo aos seus efeitos perversos foi se desfazendo até se tornar quase nula. Deixou de haver a interlocução com a grande empresa, que passou a assumir a função do poder público, oferecendo-lhe consultoria e recursos para carimbar os estudos e planos elaborados ou contratados pela própria empresa. A raposa acabou tomando conta do galinheiro, onde as galinhas às vezes fazem muito barulho, mas nada mais do que isso. É só cacarejo.

Líderes de maior envergadura, como os que surgiram na era da borracha, tentaram formular um projeto próprio para o Estado. Esmagados por uma realidade hostil ou renunciando aos propósitos iniciais, acabaram por se empenhar em realizar seus anseios pessoais e deixar que o Pará se tornasse um retrato na parede das mansões em que passaram a viver, alguns na sede nacional do poder, outros nas capitais do mundo, como fez Augusto Montenegro, em Paris.

O Pará parece condenado a repetir a história. Agora, como já se sabe, como farsa do drama (ou tragédia) original. Quem viver até 2014 verá.


LFP @ setembro 15, 2013

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"A exumação do presente", por Saul Leblon

A exumação do presente

Como uma correlação de forças favorável se transforma em uma derrota demolidora? A exumação de 1964 sugere a resposta a esta pergunta.

por: Saul Leblon

Arquivo

Como uma correlação de forças favorável se transformou  em uma derrota política de consequências históricas demolidoras?

A pergunta ecoa obrigatória  na exumação do Brasil de 1964.

 Mas a resposta extrapola a necessidade de se compreender o país  que existia há meio século  para  iluminar os dias que correm, as horas que urgem.

A história não cabe em fascículos solteiros.

A  versão dos vencedores de ontem presta serviços aos interesses de hoje que disputam a hegemonia com o objetivo de sempre.

Impedir que a sociedade destrave os ferrolhos da riqueza acumulada e  altere a matriz redistributiva da que será construída.

Uma simplificação monocausal  em torno  1964  remete ameaças a  2014.

Ela é disseminada  por aqueles que formam o intestino delgado e sinuoso do golpismo, onde se reprocessa tudo no formato de democracia e lei.

Inclua-se aí  os fulanizadores  da história, especialistas na arte de abstrair  interesses graúdos sem tornar a narrativa  entediante.

O que eles  sugerem é que 1964 nada mais foi que um mal passo do  país; um escorregão  sob a presidência de um político hesitante e mulherengo.

Esse, o epitáfio  à geração que há 50 anos defendia reformas para cicatrizar as feridas da tradição social brasileira.

Hoje, com a mesma dissipação, tenta-se personificar o  ‘problema’ do país na ‘Dilma autoritária’;  agora também ‘má gestora’.

 Importa, sobretudo, rebaixar o debate em torno daquilo que interliga o passado ao presente e condiciona o futuro: a disputa em torno da agenda do desenvolvimento brasileiro.

Qual país? Para quem? Como chegar lá? Onde e por que os recursos estrangulam?

Sobre 1964, a dissipação coloca na mesa incômoda dos  50 anos a  guloseima ecumênica que a tudo perdoa: ‘a polarização conduziu ao golpe’, diz o glacê sobre a massa aerada por 20 anos de censura, tortura e repressão.

‘Era inevitável, qualquer um dos lados o faria a qualquer momento’,  reiteram os confeitos aspergidos na memória nacional.

Em resumo:  os vencidos foram responsáveis pela violência dos vencedores;  a direita apenas se antecipou à ruptura cevada entre a  hesitação de Jango e a radicalização  ao seu redor.

A premissa está  na ponta da língua dos colunistas, na rememoração lucrativa encadernada pelos  amigos do regime e na boca dos torturadores cada vez mais desinibidos pela impunidade.

Fatos.

O governo Jango durou apenas 31 meses  –de setembro de 1961 a 1º de abril de 1964.

Durante todo o período esteve acossado pelo bafo renitente do golpismo, sobrando ao Presidente um espaço reduzido de tempo e circunstancia  para planejar  sua ação  e  o país.

Ainda assim, a correlação de forças barrou o conservadorismo em todas as tentativas de se impor  à sociedade por medidas unilaterais.

Por isso foi dado o golpe, ou não haveria necessidade dele.

A direita dispunha, como hoje, do dispositivo midiático, do dinheiro graúdo --local e forâneo , de um pedaço da classe média e de fileiras  do Exército.

Mas seu fôlego eleitoral era raquítico e o pulmão político declinante (como hoje).

O projeto americanófilo  carimbado em sua testa consolidara-se no imaginário popular como risivelmente entreguista (não sem boa dose de razão); seu recorte elitista recendia à casa grande, de onde urgências da senzala eram descartadas nas respostas  aos desafios do desenvolvimento.

Lembra algo?

Antes de recorrer às armas, à repressão, à censura e à tortura, o espírito golpista tentou por duas vezes restringir a democracia que lhe era desfavorável, sendo sucessivamente derrotado no campo aberto do escrutínio popular.

O desenlace, portanto, não foi uma reação de autodefesa,  como querem os vulgarizadores da fatalidade, mas o epílogo de uma progressão de minigolpes frustrados.

No aquecimento, tentou-se  impedir a posse de Jango em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros.

Só a resistência organizada  –é oportuno  escandir a palavra  or-ga-ni-za-da-- impediu a consumação do golpe branco.

Em 27 de agosto,  o então governador Leonel Brizola personificou esse requisito  com a criação da ‘Cadeia da Legalidade’ no Rio Grande do Sul.

De início, formada por uma rede de rádios gaúchas,  a resistência operava do porão do Palácio Piratini, para onde o líder gaúcho  requisitara os transmissores da rádio Guaíba, de Porto Alegre. As tropas da Brigada Militar protegiam o Palácio em vigília diuturna.

Através das ondas médias e curtas ocupava-se o noticiário 24 horas por  dia.
Brizola  conclamava o povo a ir às ruas em defesa da legalidade democrática, contra o golpe da junta militar que, em Brasília,  recusava  autorização para Jango, em viagem oficial ao exterior,  retornar ao país.

Aos poucos, outras  emissoras de Porto Alegre e do interior do Estado  uniram-se à Rede,  que chegou a cravar 100% de audiência no estado.

O efeito contagiante da resistência iniciada em Porto Alegre romperia a fronteira gaúcha para  formar uma cadeia com  104 emissoras de todo o Brasil e de países vizinhos.

Boletins noticiosos em inglês, espanhol e alemão passaram a ser emitidos.
Foram 10 dias que abalaram o Brasil. 

Finalmente, o III Exército rachou e declarou solidariedade ao movimento.

O conjunto forçou o Congresso complacente  a buscar uma solução negociada.

A escolhida, todavia,  circunscreveria  Jango nas amarras de um parlamentarismo que reduziu sua  posse a um simulacro de transferência de poder.

Em 7 de setembro de 1961, Goulart  receberia a faixa presidencial, mas não o mando de governo.

Descarnado dos instrumentos constitucionais, o Presidente  gastou dois anos de seu mandato na agonia parlamentar.

Se não conseguiu evitar a posse, o conservadorismo  logrou  engessar  o país  agravando seus impasses para corroer, ainda mais,  as bases frágeis do investimento, acelerar a fuga de capitais e adicionar pressão à caldeira inflacionária.

Criou-se assim  o lastro para legitimar o discurso udenista  do desgoverno, de um Brasil aos cacos, prestes a se estilhaçar –‘se não for hoje, de amanhã não passa’.

A sensação de familiaridade  não é gratuita.

Com a insatisfação crescente, em janeiro de 1963, Jango convoca um plebiscito para decidir sobre a manutenção ou não do sistema parlamentarista.

O clima confuso criado  pelo artifício conservador era respirado em cada esquina.

Mas o discernimento popular não se deixou levar pelos falsos  diagnósticos.

Cerca de 80% dos brasileiros votaram pelo restabelecimento dos poderes constitucionais ao Presidente (ouça aqui a  campanha popular  contra a camisa de força parlamentarista feita  por artistas do radio https://www.youtube.com/watch?v=MSD-RW2Kxak).

Um ano e três meses depois viria o golpe.

Possivelmente contra um terceiro revés contratado no calendário eleitoral, se a democracia perdurasse até a sucessão de  Jango.

Pesquisas do maleável  Ibope , mantidas em sigilo até recentemente, e levadas à rua entre 20 e 30 de março –entre o comício da Central do Brasil e o golpe de Estado--   desmentiam  o consenso anti-governo  alardeado por uma mídia que  exortou, apoiou e justificou a derrubada violenta do Presidente da República, em 31 de março de 1964.

Ontem como hoje, a emissão conservadora foi decisiva para levar a classe média brasileira a adotar  um discernimento moralista e  golpista  em relação aos desafios  enfrentados pelo processo de desenvolvimento.

 E mesmo assim, apenas uma parte dela.

Os dados  colhidos cirurgicamente em meio a esse bombardeio certamente influenciaram  a disposição golpista.

Pelas urnas é que não haveria de ser.

O que eles mostravam  repita-se, dias antes do golpe,  é que  69% dos entrevistados avaliavam o governo Jango  entre ótimo, bom e regular (15%, 30% e 24%, respectivamente). Apenas 15% o consideravam ruim ou péssimo. E o mais importante: 49,8% cogitavam reeleger o Presidente, caso ele se candidatasse em 1965 e nada menos que  59% apoiavam as medidas anunciadas  no comício da Central do Brasil, considerado a ‘ruptura’  legitimadora do funeral democrático.

É oportuno lembrar que antes de se valer do recurso dos decretos  –assinados no palanque da Central do Brasil--  Jango propôs ao Congresso a convocação de um outro plebiscito.

 Em 16 de março de 1964, a notícia era dada assim na Folha:

‘O presidente João Goulart encaminhou ontem ao Congresso, em Brasília, a mensagem de abertura dos trabalhos da nova sessão legislativa e sugeriu uma reforma constitucional ampla que vise a democratização da sociedade. O presidente Jango também sugeriu a concessão do direito de voto aos analfabetos e praças e a elegibilidade dos sargentos, além de querer incorporar ao processo democrático todas as correntes do pensamento político. Outra sugestão do presidente é uma consulta popular (plebiscito) para a apuração da vontade nacional sobre as reformas de base’

 O Congresso rejeitou a proposta de consultar a sociedade sobre a ampliação da democracia e da ação pública nos gargalos do desenvolvimento.

 Se havia extremismo em bolsões à esquerda, como se alegava , o fato é que a radicalização golpista fechava  todas as portas  às tentativas de formação democrática das grandes maiorias indispensáveis a um ciclo sustentável de desenvolvimento.

A corneta da crispação midiática entoava justamente o funeral dessa possibilidade.

A rejeição doentia ao governo,  às suas propostas e aos seu métodos, distorcia, boicotava e interditava o debate para desmoralizar  e criminalizar as bandeiras progressistas.

Décadas de censura e monopólio das comunicações fariam  o resto depois, a estender a qualquer agenda de mudança do país a mesma demonização dispensada às reformas de base em  64.

Ou não terá sido essa a reação quando, no calor dos protestos de junho de 2013, a Presidenta Dilma propôs uma consulta popular para destravar  a reforma do sistema político brasileiro -- raiz da hegemonia do dinheiro grosso na democracia?

Um pedaço do  que se abortou e se reprimiu em 1964 seria restituído vinte e quatro anos depois pela Constituição de 1988.

Bancadas conservadoras, todavia, impuseram importantes revezes ao resgate do tempo perdido.

 A anistia recíproca,  seria a mais ostensiva delas; mas também o  interdito, na prática, à reforma agrária massiva, ademais da adoção de um labiríntico  sistema político que condicionaria o trânsito da redemocratização.

As dores do parto persistem, 16 anos depois.

Um Presidente consagrado nas urnas pela sociedade nem por isso escapa do balcão de negócios parlamentar  –e através dele, do dinheiro grosso, para obter a maioria no Congresso (leia a coluna de Marias Inês Nassif; nesta pág).

Ainda assim, a Constituinte  legislou avanços indiscutíveis.

O voto ao analfabeto; a aposentadoria rural;  o salário mínimo único, bem com o sistema único de saúde são alguns exemplos.

O conjunto fixou  parâmetros  de um Estado social que ainda hoje os interesses plutocráticos tentam reverter ou não permitem regulamentar .

Mas o que é  sobretudo  importante  na compreensão dos conflitos que interligam o presente ao passado é que  o calendário da ditadura e da redemocratização inscreveram o desenvolvimento brasileiro em um paradoxo histórico.

 A contrapelo da supremacia  neoliberal que florescia  em praticamente  todo o mundo capitalista nos anos 80, navegava-se aqui nas águas de uma democracia social infante.

Não mais decretada no palanque da Central do Brasil, mas consagrada nas páginas de uma Constituição que  prometia mais do que o mercado  global estava disposto a ceder então.

O ciclo tucano no poder (95/2002) foi uma tentativa de sincronizar a história do país pulando as folhas do calendário reservadas ao acerto de contas com a ditadura para engatar o mercado brasileiro às reformas neoliberais, sopradas com força cada vez maior no mundo.

Não é preciso reiterar estatísticas. O impacto qualitativo dessa elipse fala por si.

A supremacia mercadista instituída nos oito anos de poder do PSDB influenciaria de forma marcante  toda a estrutura do desenvolvimento do país.

As privatizações são o exemplo matricial.

Ademais do seu recorte expropriador, elas subtraíram o poder de planejar a economia através da ação indutora dos  grandes orçamentos centralizados.

Por pouco não se perdeu também o BNDES. Ou o Banco do Brasil. E a Petrobrás, que os coveiros de ontem defendem agora com brios patrióticos.

A construção interrompida de um Brasil sucessivamente   barrado em 1964 e pelas  reformas liberalizantes   promovidas entre 1989 e 2002 encontrou uma segunda chance na eleição de Lula, em 2002.

Os resultados não tardaram a aparecer.

 Bastou uma fresta de avanços nas políticas sociais, no emprego, no crédito e ,  sobretudo, na recomposição de poder aquisitivo do salário mínimo e  o mercado interno emergiu como um leão faminto.

Em menos de uma década consolidou-se uma faixa de consumo de massa que já reúne 53% da população e 46% da renda nacional.

A crise mundial de 2008 eclodiu no meio desse percurso.

Quando a blindagem financeira e ideológica do sistema fraquejou, porém, revelou-se com maior nitidez ainda um país que já não cabia em estruturas desenhadas para 1/3 de sua população.

As desproporções inscritas nesse conflito ocupam o centro do debate político e macroeconômico atual, em que duelam dois diagnósticos.

Um quer submeter a sociedade a um freio de arrumação classista.

‘Os aeroportos estão insuportáveis’ .

O bordão síntese do arrocho ceva  a ignorância da classe média em relação aos desafios do desenvolvimento (leia o artigo de Antonio  Lassance: ‘Somos educados para o analfabetismo econômico’; nesta pág).

Não se  nega a existência de gargalos seculares fartamente diagnosticados e  assumidos como prioridade dos PACs: transportes,  energia, portos, habitação etc.

O que se argui é o xamanismo segundo o qual, a  restituição de plenos poderes aos deuses dos mercados  é a única penitência capaz de dar a esses vazios o lastro de recursos que pode preenche-los com obras e prazos compatíveis com as urgências da economia e da sociedade.

O conflito entre o reformismo reprimido nos anos 60 e seu resgate social na Carta de 1988, e os interesses assim contrariados, explica um bom pedaço da  hiperinflação  vivida nos anos 80.

O Plano Real domou-a.

Em troca de conceder ao dinheiro graúdo outra  salvaguarda, que não apenas a remarcação desenfreada dos preços:   juros siderais passaram a defender a liquidez da dissonância histórica que caracteriza o capitalismo brasileiro hoje.

A saber: uma tentativa  tardia de construção de um Estado de Bem Estar Social, em um mundo de supremacia das finanças desreguladas, de fronteiras liquefeitas  e de direitos sociais dissolventes.

A cada passo do pé esquerdo social do Brasil, o direito rentista tenta passar-lhe  a rasteira para obriga-lo a recuar.

A chantagem é amplamente veiculada pelo jornalismo obsequioso  como virtuosa.

Para crescer o país precisa baixar os juros e alongar o financiamento requisitado ao investimento de longo prazo.

Mas nada disso ocorrerá sem escalpelar  o ‘custo Brasil’.

Ou seja, renunciar  a uma das mais vantajosas  singularidades do sistema econômico brasileiro:  políticas sociais e salariais que  ativam o seu gigantesco mercado de massa.

Nada feito, replicam os mercados.

Na prática esse repto impõe ao Brasil o terceiro juro real mais alto do mundo na categoria das economias emergentes.

A informação é do ranking do banco Morgan, citado pelo Wall Street Journal (27/03).

 A Selic, taxa básica brasileira, está em 10,75% ao ano.

Compare-se: a mexicana é de 3,5%  e a nigeriana , de 12%.

Objetivamente falando, o que o Brasil  tem para estar mais perto da frágil Nigéria do que do convulsivo  México?

O Brasil tem a anacrônica teimosia de pretender que o desenvolvimento sirva para construir um Estado do Bem Estar social em pleno século XXI.

É isso que explica a ‘precificação financeira’ do país, uma espécie de ditadura monetária às reformas de base do nosso tempo -- incompreensível até para banqueiros mais sensatos, mas justificada vivamente pela mídia isenta.

Da excrescência cultivada como virtude derivam outras: o câmbio afogado em dólares especulativos, por exemplo,  que valoriza o Real incentivando a importação de manufaturas  e a  necrose da planta industrial brasileira, por exemplo.

A dimensão política do desenvolvimento  é tão explícita  que só uma escandalosa ocultação de suas premissas permite reduzir os impasses atuais a um problema de gestão da Dilma –ou de corrupção do ‘lulopetismo’, a exemplo da caricatura do Presidente bonachão dos anos 60.

A maior lição desses 50 anos de derrotas e resistências, porém, é que  não basta recusar a interpretação  do adversário.

É preciso acreditar na própria. E dar a essa convicção uma consequência  organizativa.

A pergunta inicial insiste no pano de fundo:  ‘Como uma correlação de forças favorável se transforma  em uma derrota política de consequências históricas demolidoras?’

A exumação dos 50 anos sugere que a  resposta estaria relacionada mais à ausência de liderança disposta a organizar  o protagonismo do interesse coletivo, do que à aquiescência ou a prostração da sociedade  diante da ação conservadora.

Nesse malfadado ponto de encontro reside talvez o mais perigoso e atual  alerta de 1964 a 2014.


Fonte: Carta Maior

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“Quando se quer fazer alguma coisa na Amazônia, não se deve pedir licença: faz-se.”

A declaração é do gaúcho Carlos Aloysio Weber, ex-comandante do 5o Batalhão de Engenharia e Construção, um dos primeiros a instalar-se na Amazônia na ditadura civil-militar. Em 1971, ele foi entrevistado para um projeto especial da revista Realidade sobre a Amazônia. O repórter fez ao coronel, apresentado como “lendário” em Rondônia, a seguinte pergunta: “Como é possível fazer as coisas na Amazônia e transformar a região?”. O coronel respondeu:

- Como você pensa que nós fizemos 800 quilômetros de estrada? Pedindo licença, chê? Usamos a mesma tática dos portugueses, que não pediam licença aos espanhóis para cruzar a linha de Tordesilhas. Se tudo o que fizemos não tivesse dado certo, eu estaria na cadeia, velho.

É uma declaração de sentidos explícitos – pelo tom em que foi dita, pela certeza da impunidade, pelo orgulho da falta de limites. Pela forma como o coronel vê a Amazônia como território a ser invadido e dominado pela força. O que a ditadura fez na Amazônia, tão longe dos centros de poder e das vozes de resistência, e o que fez com os povos indígenas, ainda precisa ser investigado com muito mais profundidade. Os horrores que já foram descobertos podem ser só a superfície. Mas, se o passado pede luz, o presente precisa ser iluminado com urgência.
A ditadura civil-militar enraizou no imaginário dos brasileiros a visão de que a floresta amazônica é um território-corpo para exploração
Há vários entulhos autoritários corroendo nossos dias, como a Polícia Militar (que, se tem uma história anterior ao golpe de 1964, ganhou mais poderes na ditadura e os mantêm na democracia) e o “auto de resistência” (que serve para a polícia justificar a execução de suspeitos ou desafetos). Mas é no olhar tanto sobre a Amazônia quanto sobre os povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas que o Estado autoritário persiste com mais força e menos resistência na mente da maioria dos brasileiros. Persiste da forma mais perigosa, porque traveste como verdade aquilo que é apenas uma imagem a serviço de interesses políticos e econômicos específicos. Talvez em nenhum outro campo o regime de exceção tenha conquistado tanto êxito ao impor seu ideário. E o mantê-lo na democracia.

A ditadura civil-militar enraizou no imaginário dos brasileiros a visão de que a floresta amazônica é um território-corpo para exploração. Se a lógica do explorador/colonizador norteou historicamente a “interiorização” do país, é na ditadura que ela ganha um pacote ideológico mais ambicioso. As peças de propaganda que o regime produziu continuam vivas, mesmo para aqueles que nasceram depois dela, como os slogans “Integrar para não entregar” e “Terra sem homens para homens sem terra”. É na ditadura que é cimentada a ideia da Amazônia como “deserto verde”, ignorando toda a riqueza humana, a diversidade cultural e biológica que lá existia, ignorando a vida. A disseminação dessa fantasia é tão bem sucedida que se torna verdade. E se torna uma verdade que continua verdade após a redemocratização. Tão verdade que cria uma realidade paradoxal: uma ex-guerrilheira, presa e torturada pelo regime, é quem, na democracia, leva adiante o modelo de desenvolvimento da ditadura para a Amazônia.

É primeiro no governo Lula, e com mais força e empenho a partir da posse de Dilma Rousseff, que grandes obras previstas pelos militares, como a hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu – a mais polêmica, mas não a única – são impostas aos povos da floresta. O conturbado processo que forçou a construção de Belo Monte, entre outras arbitrariedades violou tanto a Constituição quanto tratados internacionais. A Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), assegura aos indígenas o direito de serem ouvidos em empreendimentos que vão afetar seu modo tradicional de vida – e não foram. Outras hidrelétricas estão em curso, com grande resistência de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, como as usinas previstas para o rio Tapajós, no Pará.
Uma ex-guerrilheira, presa e torturada pelo regime, é quem, na democracia, leva adiante o modelo de desenvolvimento da ditadura para a Amazônia
É nesse governo eleito que a Força Nacional baixa sobre as comunidades tradicionais que vivem há séculos na área dos megaprojetos com a justificativa, entre outras, de garantir a segurança dos pesquisadores que farão o inventário socioambiental. Na prática, é usada para reprimir a resistência legítima desses povos, cujos direitos são amparados pela Constituição. É na democracia que grandes empresas financiadas pelo dinheiro público do BNDES executam obras que alteram o ecossistema regional sem cumprir suas obrigações, na forma de condicionantes, causando estragos irreversíveis e aniquilando vidas, como se viu agora na enchente histórica do rio Madeira.

É também nesse período democrático que um instrumento criado na ditadura, a “Suspensão de Segurança”, tem sido usado para garantir a continuidade dos megaempreendimentos, como foi denunciado no último 28 de março na Organização dos Estados Americanos (OEA). O instrumento permite a tribunais superiores anular decisões judiciais de instâncias inferiores, independentemente do mérito, se as cortes entenderem que as sentenças representam risco de “ocorrência de grave lesão à ordem, à saúde, à segurança ou à economia públicas”. O mecanismo controverso tem sido usado para derrubar decisões favoráveis a comunidades afetadas por grandes obras, como Belo Monte e a estrada de ferro de Carajás.

E a maioria dos brasileiros não estranha – ou estranha muito pouco – essa versão do “Brasil Grande” da ditadura que se consolida com outros nomes na democracia. Não decodifica essa violência como violência, não decodifica o autoritarismo como autoritarismo. O mais perigoso é sempre aquilo que não detectamos como perigoso, aquilo que se naturaliza como inevitável – e na Amazônia a violência de Estado tornou-se natureza.
O mecanismo autoritário da ‘Suspensão de Segurança’ tem sido usado para derrubar decisões favoráveis a comunidades afetadas por grandes obras
Poderia ser uma surpresa o fato de o mito amazônico forjado na ditadura persistir na democracia. Mas não chega a ser, porque é esse mito, convertido em verdade única, que permite que a Amazônia siga sendo tratada como objeto de espoliação, seja pelo Estado, seja pela iniciativa privada. Um corpo a ser violado, à disposição de exploradores de passagem, sejam eles técnicos do governo, políticos de amplo espectro partidário, grileiros, madeireiros, mineradores e empreiteiros. Quem nesse território permanece, nele nasce, tem raízes e constrói memória torna-se um obstáculo, como os povos indígenas. Um não-ser, como os ribeirinhos e quilombolas, os invisíveis entre os invisíveis. Um obstáculo não ao desenvolvimento, como se repete à exaustão, mas à manutenção desse mito – à continuidade do ideário que legitima, há décadas, a destruição da floresta e dos povos da floresta para acomodar os interesses dos centros de poder.

Esta é uma entre várias razões para que a afirmação de pertencimento dessas populações seja vista como ilegítima, já que a floresta não seria terra para a vida, mas para a exploração e o uso. Como reivindicar a construção de sentidos naquela que é objeto de passagem e de dilapidação? A Amazônia serve ao centro, numa lógica que ainda obedece, na segunda década do século 21, aos preceitos do sistema colonial, na qual a periferia serve à matriz.

Para muitos, incluindo burocratas do governo instalados em ministérios como o de Minas e Energia, a Amazônia é apenas uma fonte de matérias-primas e de energia para as grandes indústrias que produzem para exportação. Tem sido, também, uma fonte de pagamento de compromissos não pronunciados de campanha, na forma de grandes obras financiadas pelo BNDES. A floresta é também aquela que pode ser derrubada para expandir a fronteira agropecuária, num momento em que os ruralistas constituem a maior bancada suprapartidária, em um Congresso que se pauta pela chantagem, e alcançam níveis inéditos de influência em um governo que assegura apoio pela barganha. É ainda uma reserva simbólica para unir o Brasil que a desconhece num ufanismo tortuoso contra “os gringos que querem tomar a Amazônia”. Nada parece mais eficaz do que criar uma ameaça externa para engordar nacionalismos de ocasião, que só favorecem aos mesmos de sempre. Se é disso que se trata, convém perceber que há um tipo de “gringo” que há muito está lá, em megaprojetos de multinacionais que expulsaram as populações locais com o apoio de sucessivos governos. Na ditadura, mas também na democracia.
Para compreender a Amazônia é preciso se arriscar à alteridade – e nada mais perigoso para quem quer manter seus privilégios do que experimentar outras possibilidades de estar no mundo
A Amazônia é devastada em nome de várias manipulações, concretas e simbólicas. Para que continue a servir aos interesses dos centros de poder, é preciso que o modelo de exploração persista. E, para que persista, quando o aquecimento global e a destruição do meio ambiente se tornam temas vitais no mundo, quando a questão da água ascende ao topo da pauta, é preciso forjar novos inimigos. É nesse contexto que os povos indígenas passam a ser vendidos à população, predominantemente urbana do país, como “entraves ao desenvolvimento”. Isso no discurso tanto de setores conservadores da sociedade quanto em falas oficiais de setores do atual governo.

Aqueles que pertencem à terra são convertidos em despertencidos, o sentido mais profundo de “entrave”, para que a Amazônia se mantenha no mesmo lugar de corpo para violação. Em nome de “interesses nacionais”, quando, de fato, o que se mascara como nacional são, historicamente, projetos de poder de grupos políticos específicos e projetos de lucro de grupos econômicos privados. Estes, fazem alianças circunstanciais ou permanentes para manter a lógica de espoliação intacta. Fizeram na ditadura, fazem na democracia. Sem que se estranhe o suficiente, porque a distância da Amazônia não é apenas geográfica. Para compreendê-la é preciso se arriscar à alteridade – e nada mais perigoso para quem quer manter seus privilégios do que experimentar outras possibilidades de estar no mundo.

Os povos indígenas resistem desde 1500, mas nesse século ampliaram sua voz, pelas possibilidades abertas pela internet, e passaram a divulgar suas narrativas múltiplas. Em comum, a resistência ao genocídio que segue em curso e ganhou roupagens mais sofisticadas. É também por isso que os ataques contra esses povos se acirraram, não apenas na forma de agressões físicas e destruição de aldeias, mas nos vários projetos que tramitam no Congresso e que significam, na prática, sua aniquilação física e cultural. Como não é mais possível silenciar a sua voz, é preciso transformá-los em inimigos. O inimigo não se escuta, diga o que disser, porque não lhe é reconhecida a legitimidade para dizer. Esse é o objetivo da bem sucedida propaganda em curso, que coloca os mais de 200 povos indígenas, habitantes também de outros ecossistemas além da Amazônia, como “entraves ao desenvolvimento” do Brasil. Por estarem no caminho das grandes obras, por estarem coletivamente sobre as terras cobiçadas para lucros privados.
Para que a Amazônia continue sendo território de espoliação é preciso vender ao país a imagem dos povos indígenas como entraves ao desenvolvimento
Nada é mais autoritário do que dizer ao outro que ele não é o que é. Essa também é parte da ofensiva de aniquilação, ao invocar a falaciosa questão do “índio verdadeiro” e do “índio falso”, como se existisse uma espécie de “certificado de autenticidade”. Essa estratégia é ainda mais vil porque pretende convencer o país de que os povos indígenas nem mesmo teriam o direito de reivindicar pertencer à terra que reivindicam, porque sequer pertenceriam a si mesmos. Na lógica do explorador, o ideal seria transformar todos em pobres, moradores das periferias das cidades, dependentes de programas de governo. Nesse lugar, geográfico e simbólico, nenhum privilégio seria colocado em risco. E não haveria nada entre os grandes interesses sem nenhuma grandeza e o território de cobiça.

Quando alguém, mesmo em círculos letrados, afirma que “sem Belo Monte não vai dar para assistir à novela das oito ou entrar no Facebook”, ou brada que “índio tem terra demais”, está cometendo muitas impropriedades. Mas está também mantendo vivo o ideário da ditadura sobre a Amazônia e os povos da floresta. No momento em que o Brasil disseca o golpe que completou 50 anos, tão importante quanto jogar luz sobre o passado é compreender o que dele permanece entre nós – com a nossa estreita colaboração.

Fonte: El País - Brasil

"Ex isto: E se Descartes tivesse vindo ao Brasil?", por Bruno Lorenzatto

PICICA: "Inspirado em Paulo Lemniski, filme de Cao Guimarães imagina filósofo inebriado por natureza e calor, despido de roupas e lógica racionalista, corpo que pensa a si mesmo"


Ex isto: E se Descartes tivesse vindo ao Brasil?

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Inspirado em Paulo Lemniski, filme de Cao Guimarães imagina filósofo inebriado por natureza e calor, despido de roupas e lógica racionalista, corpo que pensa a si mesmo

Por Bruno Lorenzatto*

Ex isto (2011) é o título do filme de Cao Guimarães, inspirado no livro de Paulo Leminski – Catatau (1975) –, possivelmente a obra mais experimental produzida pelo poeta. O tema: René Descartes, matemático e filósofo francês, pensador incontornável do racionalismo e da tradição filosófica, vem ao Brasil quando da missão holandesa comandada por Maurício de Nassau, no século XVII. Descartes de fato se alistou no exército holandês na época de Nassau, embora nunca tenha vindo ao Brasil.

Mas é do impossível e da irrealidade também de que se trata a arte, isto é, da invenção de outras realidades. Questão política, poder-se-ia dizer. A arte é capaz de produzir o deslocamento da percepção que se tem da própria realidade. Em outras palavras, a arte desordena a aparente ordem do real.  


É do atravassamento do outro como experiência transformadora do sujeito de que fala o filme de Cao Guimarães (e o livro de Leminski), mas também de um questionamento da colonização. Catatau e Ex isto como máquina de guerra (estética e política) contra a lógica da colonização.

Durante todo o filme, as imagens do filósofo, percorrendo rios, praias, florestas, cidades, deslizam na tela, sem que em nenhum momento seja mostrado Descartes falando. E, no entanto, escuta-se a sua voz, que se mescla às imagens (suplementando o que se vê, por vezes em disjunção com a imagem), como se fosse seu pensamento – fragmentos extraídos do monólogo caótico do filósofo em Catatau. Esta voz vem de fora, não é Descartes quem fala. Tudo se passa como se seu pensamento viesse do exterior, viesse do outro. Não é mais o eu que pensa. O pensamento atravessa como um invasor, um intruso, a estrutura tranquila do sujeito. De modo que é possível dizer: a abordagem de Cao Guimarães em Ex isto atesta uma crítica ao modo de reflexão cartesiana. Porém há mais: o próprio Descartes no interior da ficcção parece refutar a si mesmo.

Ex isto mostra Descartes experimentando seu corpo e problematizando seu pensamento numa terra  que o transforma: jogado ao mar ou em êxtase na areia da praia; dançando uma “estranha” música ou comendo frutas desconhecidas, fumando ervas alucinóginas. Um improvável Descartes louco, drogado, nu na praia, que se deleita e se angustia com as sensações, os prazeres, os excessos e os limites do corpo – o eu se espalha pela superfície da pele e dos sentidos. A ordem lógica do pensamento precipita-se em gagueira ou afasia. “Este mundo é o lugar do desvario, a justa razão aqui delira” (P. 19). O corpo do filósofo já não fala a mesma língua de suas convicções. O Tupi-guarani contra o francês ou latim.  A lógica racionalista caduca e cede lugar à ordem do desejo proveniente do inesperado. A racionalidade pura encontra o afeto, para se tornar substância indissociável.

No sistema cartesiano, o eu é estabelecido como verdade definitiva e fundamental. Mas quando a alteridade dos trópicos atravessa o corpo de Descates, em Catatau e Ex isto, o filósofo francês já não sabe dizer como antes: Cogito, ergo sum (penso, logo existo). “Claro que já não creio no que penso (…) Duvido se existo, quem sou eu se este tamanduá existe?” (P. 20), diz o Descartes de Leminski.

É que a lógica cartesiana não dá conta deste outro impensável: o calor asfixiante do Recife, a mata com sua fauna e flora “exóticas”, a geografia e o estranho mapa da terra, a cultura –  os costumes, os hábitos alimentares e os habitantes, a música e a dança inimagináveis e, por fim, o próprio corpo de Descartes (que já não é o mesmo) atravessado por essa alteridade. O ato de pensar e o eu se encontram em crise: “Um papagaio pegou meu pensamento, amola palavras em polaco (…) Bestas grandes no mais aceso fogo do dia… Comer esses animais há de perturbar singularmente as coisas do pensar” (P. 17).

Se este outro impensável –  impossível de ser sistematizado em termos racionais –, de fato, existe, e Descartes o experimenta (como o avesso de si mesmo), a sólida existência do eu – a lógica eurocêntrica – já não pode se afirmar como antes. Em Sexta-feira ou os limbos do pacífico, de Michel Tournier, Robinson Crusoe, isolado numa ilha, levanta a questão que poderia ser a de Descartes no Brasil: “Existir, o que isso quer dizer? Quer dizer estar fora, sistere ex. O que está no exterior existe. O que está no interior não existe. Minhas ideias, minhas imagens, meus sonhos não existem (…) O que vem a complicar tudo é o fato de que aquilo que não existe se obstina a fazer acreditar o contrário. Há uma grande e comum aspiração do inexistente em direção ao existente. Como uma força centrífuga que empurraria para fora tudo o que se move em mim, imagens, devaneios, projetos, fantasias, desejos, obsessões. O que não ex-iste in-siste. Insiste para existir. Todo esse pequeno mundo se empurra à porta do grande, do verdadeiro mundo. E é o outro que tem a chave” (grifos meus)*.

De forma que se conclui que não é do eu que deriva o outro, mas sim o oposto – a existência do outro é que possiblita a existência do eu. O primado do outro sobre o eu – toda uma reformulação estético-política.

Radical deslocamento que questiona a lógica do colonizador (que submete o Outro – colonizado – ao domínio do Eu – colonizador): “Catatau é o fracasso da lógica cartesiana branca no calor… emblema do fracasso do projeto batavo, branco, no trópico” (P. 212), diz Leminski.

A contrapartida da colonização ou o efeito não calculado da colonização sobre o colonizador. A terra (o outro) mapeada, territorializada é a mesma que desterritorializa o pretenso fundador (o eu). A colonização do colonizador pela terra colonizada. O Homem, Branco, Europeu, Racional, em uma palavra – a Pureza – é corrompida pela terra impensável, pela experiência radical do outro, que o sujeito se permite (ou é obrigado) a experimentar e, no caso de Descartes, a pensar sobre essa experiência e sobre a experiência do pensamento.

A impossibilidade do ato de conhecer (antes assegurado pela certeza da existência do eu) é colocada em questão. O abalo das certezas conduz o filósofo a eximir-se de seus postulados anteriores e devanear: “o nada é o maior espetáculo da Terra”, afirma Descartes em uma cena do filme.

Ex isto e Catatau como a colonização de Descartes pela experiência do corpo, que é a experiência de uma outra terra, de uma outra cultura. De tal forma que as manchas, as rasuras marcadas em sua carne são capazes de fraturar seu pensamento.
A tradicional dualidade que a filosofia não cessou de operar por séculos, entre espírito e corpo já não faz mais sentido. Descartes, no Brasil,  é pura matéria, corpo que pensa a si mesmo e  a  existência através do corpo.
O paradoxo: Descartes duvida de sua própria existência. Descartes, o outro, pode ver a si mesmo e a vida com “outros olhos e com os olhos dos outros”
*trecho de Sexta-feira ou os limbos do pacífico extraído do blog: http://jevousdefenestre.blogspot.com.br/search/label/Michel%20Tournier
Link para o trailer: https://www.youtube.com/watch?v=rxl9SkNIKmY
 

Link para o filme completo no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=iJJGhOTkz14
site do diretor: http://www.caoguimaraes.com/


 

*Bruno Lorenzatto é licenciado em história e mestre em filosofia pela PUC-Rio

Fonte: Blog da Redação

"Dossiê UniNômade das manifestações", por Uninômade

PICICA: "Em 14 de fevereiro, fizemos uma chamada de textos a fim de “gerar conhecimento das lutas, sobre as lutas e para as lutas”, com a temática do ciclo de manifestações aberto com o levante de junho de 2013, no Brasil. Num ponto-chave de reorientação e reorganização de redes e ruas, sentimos a necessidade de incentivar o compartilhamento de percepções, ideias, críticas e sugestões sobre os protestos, esperando que possa ajudar nos processos em andamento. Para a nossa surpresa, nesses quase 50 dias em que a chamada esteve aberta, recebemos 28 contribuições de pesquisadores, escritores, ensaístas e acadêmicos, muitas delas transdisciplinares, trespassando campos como sociologia, antropologia, ciência política, crítica de arte, contando ainda um poema e uma história em quadrinhos. (N.E.)"


Dossiê UniNômade das manifestações

31/03/2014
Por UniNômade


Por UniNômade Brasil



Em 14 de fevereiro, fizemos uma chamada de textos a fim de “gerar conhecimento das lutas, sobre as lutas e para as lutas”, com a temática do ciclo de manifestações aberto com o levante de junho de 2013, no Brasil. Num ponto-chave de reorientação e reorganização de redes e ruas, sentimos a necessidade de incentivar o compartilhamento de percepções, ideias, críticas e sugestões sobre os protestos, esperando que possa ajudar nos processos em andamento. Para a nossa surpresa, nesses quase 50 dias em que a chamada esteve aberta, recebemos 28 contribuições de pesquisadores, escritores, ensaístas e acadêmicos, muitas delas transdisciplinares, trespassando campos como sociologia, antropologia, ciência política, crítica de arte, contando ainda um poema e uma história em quadrinhos. (N.E.)

Na lista abaixo, acesso para o material completo:



Eu tenho ligação com Caio, por Silvio Pedrosa

Por uma nova internacional, por Tatiana Roque

Sem essa de black blocs, por Miguel Baldez

Relato de um perplexo, por Rudá Ricci

2014, o ano que começou antes do carnaval, por Marcelo Castañeda

No meio do caminho uma pedra pareceu ser o caminho, por Cristiana Losekann

A sanha punitiva contra a democracia, por Juarez Tavares

A cortiça dos impudentes, Daniela Lima

A maior das violências contra o estado é o povo forte e organizado, por Vladimir Santafé

Nota pública sobre os acontecimentos na Central do Brasil, por Assembleia do Largo

Mídia corporativa: a catraca da democracia, por Germano Nogueira Prado

Cidades e corpos rebeldes, por Clóvis Gruner

Por que #NãovaiterCopa, por Bruno Cava

Quem matou Santiago e quem morre com ele, por Raphael Sebba

existirmos, a que será que se destina, por Caren Rhoden

Com, contra e para além da violência policial, por Simone da Silva

No meio do caminho havia um fusca, por Hugo Albuquerque

As ruas de junho, o PT e a direita, por Paulo Ricardo Barbosa

Narrativas entre arte, cultura e poder: poéticas da destruição, por Diego Kern Lopes e Silfarlem Oliveira

O despertar do gigante: um kaiju à brasileira, por Tales Pereira

O desejo que não cabe na urna, por Raísa Fernandes

A potência da dessubjetivação, por Ricardo Gomes

Poética dos protestos entre o nacional-popular e o tropical-concreto, por Everton Moraes

A Globo, o Freixo e os descontentes, por Cézar Migliorini

Novos atores e desafios para a esquerda, por Samuel Braun

O perspectivismo multinaturalista contra a estética da empregabilidade, por Vinícius Ximenes

1959, 1987, 2013… e tudo por causa do transporte, de novo, por Roberto Lopes

Yes, nós somos selvagens, por Rafael Barros

Divulgue na rede


Fonte: Universidade Nômade Brasil