fevereiro 02, 2015

"Na grande enchente do maior rio do mundo", por Lúcio Flávio Pinto

PICICA: "Em 1976 fiz uma das mais belas e importantes viagens da minha vida. Durante três semanas percorri de barco o rio Amazonas para documentar o que viria a ser a maior enchente do século XX no maior rio do mundo. Para assegurar a viagem, juntei informações numa pauta robusta e o dado de maior interesse era um curioso relatório da Sudam, a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia."

BALAIO DO REPÓRTER

Na grande enchente do maior rio do mundo

Por Lúcio Flávio Pinto em 27/01/2015 na edição 835

Reproduzido do Jornal Pessoal nº 577, 2ª quinzena/janeiro de 2015; intertítulos do OI


Em 1976 fiz uma das mais belas e importantes viagens da minha vida. Durante três semanas percorri de barco o rio Amazonas para documentar o que viria a ser a maior enchente do século XX no maior rio do mundo. Para assegurar a viagem, juntei informações numa pauta robusta e o dado de maior interesse era um curioso relatório da Sudam, a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia.

O documento garantia que o Amazonas estava sendo assoreado. Terra que caía da margem do rio por causa dos desmatamentos estaria entulhando o seu leito. Mais raso, suas águas transbordavam além do nível normal das cheias anuais. Os grandes alagamentos se tornariam cada vez mais frequentes.

A previsão fúnebre era sustentada com argumentos lógicos e uma entonação cientificista. A experiência, porém, mesmo quando não tem um bom forramento técnico e científico, recomenda prudência em relação a esse tipo de profecia categórica. A Amazônia é muito grande e diversificada para caber em esquemas explicativos tão dogmáticos.

Por ter nascido na beira do Tapajós, eu tinha meu acervo de impressões e conhecimentos sobre os rios. Não vira conscientemente, porque tinha apenas quatro anos e meio de idade, mas ouvira falar muito e vira numerosas fotografias da cheia de 1953, considerada a recordista até então. A água tomou as ruas mais próximas do rio, mas a população continuou a sua vida, circulando sobre pontes. Houve prejuízos, mas não chegou a ser a tragédia anunciada.

A partir da década de 1960 eu faria excursões pelas várzeas sempre que a indústria da cheia (quase tão operosa quanto a da seca no Nordeste) emitia seu SOS. As notícias que chegavam ao sul do país eram recebidas com alarde. Cheia é sinônimo de flagelo e flagelado. Para o caboclo da Amazônia, cheia, até determinado limite, é coisa boa, “é um aviso de Deus”, como me assegurou o pernambucano Joaquim Godinho. Significa que novas áreas estão sendo fertilizadas pelo rio e o plantio será maior, como a colheita.

Terra erodida

Os incômodos e prejuízos de uma estação serão compensados na safra seguinte. Como nada acontece de graça, o varzeiro se dispõe a pagar o preço. Enfrenta com resignação o crescimento da água, que cobre a sua casa e o faz viver sobre estrados de madeira, as marombas.

Mas naquele ano de 1976 a coisa era mesmo séria, ainda que sem confirmar a teoria exótica da Sudam. Fui de avião de Belém para Altamira. Peguei a estrada para o porto de Vitória. Meia dúzia de barcos estavam ali ancorados. Fretei um, que era de Alenquer, para irmos até Prainha. Além do valor do frete, os três tripulantes quiseram três garrafas de cachaça e uma frasqueira cheia de café. Abastecidos, saímos.

O único passageiro extra era o piauiense José Luiz de Alencar Ibiapina. Ele tinha uma fazenda em Prainha e muitas teorias na cabeça. Como a de que a população das margens do Amazonas não era mais numerosa porque as pessoas de contaminavam pela aftosa na água e morriam aos montes. Conversava sem trégua, mesmo quando paramos, boquiabertos, para observar a fábrica de laticínios da Fazenda Aquiqui. Era um gigante ferido de morte e abandonado no meio da selva. Tinha um ar fantasmagórico.

Anos antes, uma revista americana saudara o dono do Aquiqui, Michel Silva, como o maior latifundiário do mundo. Era um título então inquestionável. Suas pretensões, porém, não iam além de 200 mil hectares. Anos depois, um novo maior latifundiário do mundo, o empresário Cecílio do Rego Almeida, se apresentava como dono de pelo menos 4,5 milhões de hectares. E a nova ministra da agricultura, Kátia Abreu, ainda diz que não há mais latifúndio no Brasil.

A travessia do Amazonas, da margem direita para a margem esquerda, o barco navegando de lado na feroz correnteza, foi uma aventura na noite alta, de lua cheia e águas revoltas. Quando entramos no grande rio, tive um calafrio: três ou quatro garrafas de cachaça já estavam vazias, o gole de café funcionando como estimulante entre várias talagadas de álcool, para manter os tripulantes acesos. Mas sobrevivemos.

Mal atracamos em Prainha, já madrugada, os tripulantes pularam do barco e foram continuar a bebedeira numa taberna na beira do trapiche, em versão melhorada, à base de cerveja. Eu subi a rampa atrás de uma pensão (hotel inexistia), que só encontrei depois de topar com outros bêbados. Eram jovens: comemoravam em torno de um cidadão homossexual, absolutamente nu, todos embriagados.

De cidade em cidade, fui fretando barcos até Manacapuru, no Estado do Amazonas, onde fiz a loucura, da qual só depois me dei conta, de andar de voadeira. Foi o momento de maior medo: o casco subia e descia, caprichosamente manobrado pelas ondas. Uma coisa era usar voadeira no Tapajós. Outra, bem diferente, no Amazonas. Eu me iludira com uma voadeira entre Monte Alegre e o Maicuru, numa viagem tranquila.

O Maicuru foi o grande momento da viagem. Eu lera bastante sobre o projeto do paulista Felisberto Camargo de criar ali a terra mais fértil do planeta. Em 1949, quando era diretor do Instituto Agronômico do Norte (precursor da Embrapa), ele mandara abrir canais entre o Amazonas e o Lago Grande de Monte Alegre.

A água drenada através desses canais iria depositar os sedimentos, por gravidade, até formar uma espessa camada de matéria orgânica capaz de sustentar safras recordes de alimentos. Mas a água não obedeceu ao raciocínio lógico de Camargo: invadiu o lago (500 milhões de metros cúbicos por dia no pique), destruiu os canais e formou uma enseada perigosa.

Ali testemunhei um filhote de búfala nascer e começar a nadar logo depois de ter caído do ventre da mãe. Búfalos eram tocados pelos vaqueiros a canoa. Um animal que escapasse podia ser arrastado pela correnteza para a calha do rio e nunca mais voltava. Pedaços de terra erodida com vegetação eram uma tentação para os búfalos se desgarrarem. Tudo ao alcance dos olhos estava coberto por água. O mundo naquele lugar ainda estava em formação, uma era tardia do Gênesis.

Fator acidental

Até as três da madrugada conversei com os caboclos. Ficamos empoleirados na varanda da sede do projeto, de olhar aceso e riso frouxo para os “causos” que cada um contava. Eles me fizeram companhia até a chegada do barco de Monte Alegre, que me levaria a Santarém. Desta vez eu ia num navio da linha, que parou no Maicuru apenas para me apanhar, conforme o acertado com o comandante. Só que eu esqueci a indispensável rede.

Subi a bordo sonolento, o convés coalhado de redes. O comandante foi ao seu beliche e voltou com uma rede para mim. Alguém armou a rede numa minúscula vaga, sem acender a luz, para não importunar os outros passageiros. Ali me joguei e dormi pesado.

Só acordei quando a manhã nascia, Santarém já à vista. Olhei para o céu claro e examinei minha localização. Minha rede estava para fora da amurada do barco, sobre o vácuo e o rio embaixo. Ao longo de algumas horas, eu, inadvertidamente, convidara um fator acidental a me lançar nas águas do Amazonas, para um mergulho certamente fatal. Mas o acaso me fizera um sobrevivente. E sobrevivi às inesquecíveis aventuras desses 12 dias, durante a grande enchente do maior rio do mundo.

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Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA) 

PODEMOS : a construção de uma segunda via política no Brasil

PICICA: "Saiu online! Pra quem não pôde comparecer ao QUEREMOS São Paulo, em 16 e 17/1, a integralidade da conferência de Javier Toret Medina com foco no 15-M e Podemos, as palestras de Bernardo Gutiérrez articulando a cosmopolítica e a tecnopolítica nas práticas do comum e de autonomia na América Latina, e Pablo De Soto apresentando sua cartografia do comum em cidades como Istambul, Atenas, Belo Horizonte e São Paulo, mais a intervenção de Luiza Erundina e as breves apresentações do evento por Celio Turino e minha mesmo". (Bruno Cava Rodrigues)

 
Um partido político formado a partir da história de agremiações como o espanhol Podemos, o grego Syriza e o MAS boliviano, que leve em conta ainda as experiências de democracia direta da Islândia e de outros países onde a ideia de “partido-movimento” tem adquirido rosto. A formação dessa agremiação é o que discute um grupo composto por ex-integrantes de outros partidos políticos, como por exemplo, Rede Sustentabilidade, Piratas, PSOL, PT, PCdoB, etc, além de pessoas que nunca tiveram filiação partidária, em um seminário aberto ao público que aconteceu dias 16 e 17 de janeiro de 2015 em São Paulo.

O nome do evento “Queremos”, não deixa dúvidas em relação à inspiração no partido espanhol. O local e horário do encontro também são simbólicos: o auditório do cursinho Henfil, na Avenida Paulista às 18 horas. Próximo ao horário e local do segundo ato contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô convocado pelo Movimento Passe Livre (MPL).

Provisoriamente nos identificamos com Coletivo Avante e nosso manifesto está na fase de redação final, temos um processo de horizontalidade e o texto tem sido discutido a muitas mãos. Os pilares dessa construção já definimos: o bem comum, o bem viver, o ecossocialismo e ocidadanismo.

O ecossocialismo é um dos pilares que mais avançamos na discussão e o cidadanismo é reflexo do direito de participação, algo muito evidente nas Jornadas de Junho de 2013. Há representantes dos garis do Rio de Janeiro, do pessoal que luta contra o Estado de exceção, principalmente lá, e há ainda muitos coletivos que surgiram nas Jornadas e estão integrados nesse debate.

O Avante seria uma espécie de “segunda via” no cenário político nacional. “Ele surgiu de uma necessidade de construir uma segunda via política no Brasil, nos colocamos assim, e não como terceira via porque, no nosso entendimento, o quadro político-partidário está concentrado numa via só. A gente identifica que esse é um dos grandes problemas da política e do Estado no país, castas partidárias e econômicas tomaram conta do bem publico”.

LINKS DOS VÍDEOS DO EVENTO “QUEREMOS”


QUEREMOS - 1de7 - 16jan15 - Abertura
https://www.youtube.com/watch?v=3Q8BU...

QUEREMOS - 2de7 - 16jan15 - Apresentação Javier Toret
https://www.youtube.com/watch?v=tyKjm...

QUEREMOS - 3de7 - 16jan15 - Luiza Erundina
https://www.youtube.com/watch?v=YvjFD...

QUEREMOS - 4de7 - 16jan15 - Comentários e Debates
https://www.youtube.com/watch?v=_xI3P...

QUEREMOS - 5de7 - 17jan15 - Abertura e Pablo de Soto
https://www.youtube.com/watch?v=xiPz4...

QUEREMOS - 6de7 - 17jan15 - Bernardo Gutierrez
https://www.youtube.com/watch?v=iDcL7...

QUEREMOS - 7de7 - 17jan15 - Perguntas e Debates
https://www.youtube.com/watch?v=SqBHm...


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fevereiro 01, 2015

"A imprensa se refresca e esvazia o senso crítico", por Júlio Ottoboni

PICICA: "O Brasil sofre diretamente os efeitos de uma mutação climática ainda desconhecida pela sociedade tecnológica moderna. Entretanto, temos como ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, se declara cético quanto ao aquecimento global. E reafirma a todo momento sua posição, estranhamente alinhada aos grupos que ele mesmo, comunista, definia como de extrema direita e a serviço do capitalismo selvagem.

Numa carta resposta ao dirigente do Instituto Socioambiental, Márcio Santilli, em 2010, o então deputado federal do PCdoB e paladino das mudanças no desastroso Código Florestal mostrou a cara que traz sob a máscara. E ainda protagonizou um momento único do comunismo dos trópicos, num bizarro parecer em que citou o “Livro dos Genesis”, do Antigo Testamento, e não Karl Marx para justificar suas posições.

Seu anacronismo medieval e a defesa dos interesses do empresariado pecuarista não só o elevaram ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação como ao pedestal de novo alinhado ao ultraconservadorismo, que abriga desde monarquistas até as alas ultraconservadoras da igreja católica. O Evangelho Segundo Aldo Rebelo contra a “doutrina de fé da teoria do aquecimento global”, como ele mesmo definiu, será escrito nos próximos quatro anos."

CRISE HÍDRICA

A imprensa se refresca e esvazia o senso crítico

Por Júlio Ottoboni em 20/01/2015 na edição 834



O ano de 2015 começou escaldante, numa continuidade do anterior, marcado como o mais quente do planeta desde 1880, quando a temperatura da Terra começou a ser registrada. A imprensa noticiou os boletins da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa) e da Nasa (Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço), ambas dos Estados Unidos, com a superficialidade de sempre. Imobilizada para as grandes discussões e a embotar a gravidade da questão.

A mídia ainda abortou, tal qual o tamanho de sua incompetência em assunto que foge da trivialidade, a parte mais relevante do comunicado das duas mais importantes agências climatológicas do mundo. Os anos serão cada vez mais quentes e essa é uma tendência contínua, um aquecimento de longo prazo do planeta, de acordo com a análise de medições de temperatura da superfície terrestre feita pelos cientistas do Instituto Goddard de Estudos Espaciais, da Nasa.

Neste momento, melhor creditar isso à incompetência que a motivos escusos. O Brasil sofre diretamente os efeitos de uma mutação climática ainda desconhecida pela sociedade tecnológica moderna. Entretanto, temos como ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, se declara cético quanto ao aquecimento global. E reafirma a todo momento sua posição, estranhamente alinhada aos grupos que ele mesmo, comunista, definia como de extrema direita e a serviço do capitalismo selvagem.

Numa carta resposta ao dirigente do Instituto Socioambiental, Márcio Santilli, em 2010, o então deputado federal do PCdoB e paladino das mudanças no desastroso Código Florestal mostrou a cara que traz sob a máscara. E ainda protagonizou um momento único do comunismo dos trópicos, num bizarro parecer em que citou o “Livro dos Genesis”, do Antigo Testamento, e não Karl Marx para justificar suas posições.

Seu anacronismo medieval e a defesa dos interesses do empresariado pecuarista não só o elevaram ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação como ao pedestal de novo alinhado ao ultraconservadorismo, que abriga desde monarquistas até as alas ultraconservadoras da igreja católica. O Evangelho Segundo Aldo Rebelo contra a “doutrina de fé da teoria do aquecimento global”, como ele mesmo definiu, será escrito nos próximos quatro anos. Abaixo, um trecho do posicionamento de Rebelo, que praticamente cinco anos depois, continua inalterado.

“O cientificismo positivista que você opõe à minha devoção ao materialismo dialético como uma ciência da natureza não terá o condão de me converter à doutrina de fé que é a teoria do aquecimento global, ela sim incompatível com o conhecimento contemporâneo. Ciência não é oráculo. De verdade, não há comprovação científica das projeções do aquecimento global, e muito menos de que ele estaria ocorrendo por ação do homem e não por causa de fenômenos da natureza. Trata-se de uma formulação baseada em simulações de computador” (íntegra aqui).

Necessidade evolutiva

Desanimador, não. Afrontador. O ministro retomou seu discurso satanizando a ciência e seus seguidores, causando pânico em diversos estudiosos brasileiros que pressentem que seus anos de dedicação à pesquisa deverão sofrer a censura e falta de financiamento por parte da versão brasileira do inquisidor espanhol Tomás de Torquemada. Novamente a imprensa não deu voz aos reprimidos pelo Estado. Ninguém buscou os cientistas. Mesmo depois de o pesquisador Antonio Donato Nobre, do Centro de Estudos Terrestres, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ter apresentado em fins de outubro último o documento “O Futuro Climático da Amazônia”, que pinta um quadro estarrecedor sobre as consequências dos avanços sobre a floresta, principalmente do desmatamento e das atividades agropecuárias na região.

Nobre ganhou da imprensa um certo espaço. Alguns veículos até buscaram se aprofundar no assunto, embora entre os caciques do jornalismo científico haja os que torceram o nariz e definiram o trabalho como compreendido por ter sido emocional e um tanto generalista. Apesar de o pesquisador ter alertado em todas as latitudes e longitudes que falaria de agora em diante para o público, não mais aos seus pares ou mesmo políticos e jornalistas. Cansou-se de gritar ao vento.

Raposa do meio político, acostumado as grandes manobras, Rebelo viu a oportunidade não só de reforçar seus dogmas, mas também de desviar a atenção sobre a nomeação da ministra da Agricultura e “rainha da motosserra”, a senadora por Tocantins, Kátia Abreu. O recém-anunciado ministro da Ciência desancou o aquecimento global e os efeitos de desflorestamento amazônico em meio a maior crise hídrica do Sudeste, parte do Sul e do Centro-Oeste do país. Localidades essas que concentram mais de 70% do PIB nacional e têm a maior aglomerado da América Latina de cientistas – seja de entidades governamentais, universidades e órgãos independentes – ligados ao tema das mudanças climáticas.

A mídia até tentou morder os calcanhares do ministro, mas com resultados de um cão banguela. Não teve dentes para aprofundar o abocanho. Falta informação, vontade e comprometimento com o assunto. Acostumada a pegar o passo na frente, o darwinismo atuou nos seres midiáticos e transformou o jornalismo em uma boca desdentada, de acordo com sua necessidade evolutiva. O jornalismo não morde, apenas lambe e, quando ameaçado, finge rosnar como um animal feroz.

Cães de guarda

O pior é ver que a crise hídrica, o desmatamento, o calor escaldante e a falta de chuvas se transformam em lugares-comuns nas pautas mergulhadas numa visão imbecializada do cotidiano, no qual uma questão de pode destruir a vida do planeta perde em importância para assuntos menores. Como sempre, tudo vai pelo ralo da estupidez. No Brasil, falta de chuva e Sol calcinante é prenúncio de praia e de tempo bom. Nunca de extremo climático. Basta agora os repórteres do tempo explicarem quais os parâmetros que usam para qualificar o quadro meteorológico para seus ouvintes, telespectadores e leitores.

A publicação Scientific American mostra que os números alcançados pelos termômetros no ano passado tornaria 2014 “o 38º ano consecutivo com uma temperatura global anormalmente elevada”, com secas registradas em partes da África do Sul, China e Brasil. Nos Estados Unidos, os estados da Califórnia, Nevada e Texas passaram por uma estiagem excepcional, recebendo apenas 40% da chuva normalmente esperada. A Índia teve 12% menos chuva que a média durante sua temporada de monções. Déficits de chuva também foram registrados na Nova Zelândia e na Europa Ocidental.

Mas Aldo Rebelo não acredita nisto. Aquecimento global é “doutrina de fé”, provavelmente uma seita formada por cientistas estúpidos com suas linhas de pesquisas questionáveis. Rebelo não quer apenas sua estátua em bronze no meio da Amazônia devastada, quer criar o seu próprio muro de Berlim, alicerçado na alienação e discursos dúbios. Contará com a colaboração da desinformação generalizada, da milícia instalada nas redes sociais e nas redações de jornais, e na falsa sensação de transitoriedade do problema. Ao Estado brasileiro convém manter o sistema em seu funcionamento pleno, mesmo que ele seja criminoso, autofágico e caduco.

A lógica do sistema agora é da desinformação, da coação oficial e da perseguição. A mesma prática adotada pela ditadura stalinista e pelo ex-governador do Mato Grosso e senador, o megaempresário Blairo Maggi, ligado ao governo federal, que buscou coagir os centros de pesquisa, como o Inpe, ao ter apontadas as atrocidades ambientais que ocorriam em seu estado.

A zona de conforto do poder cria cães de guarda, esses sim com dentição afiada e prontos para o ataque sob qualquer ameaça. E que têm fiéis seguidores por todas as partes.

Leia também
O apagão de São Paulo – Luciano Martins Costa

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Júlio Ottoboni é jornalista e pós-graduado em Jornalismo Científico 

"Introdução ao Segundo Sexo I: Fatos e Mitos." Simone de Beauvoir.

Introdução ao Segundo Sexo I: Fatos e Mitos.

Simone de Beauvoir.*

Hesitei muito tempo em escrever um livro sobre a mulher. O tema é irritante, principalmente para as mulheres. E não é novo. A querela do feminismo deu muito que falar: agora está mais ou menos encerrada. Não toquemos mais nisso. . . No entanto, ainda se fala dela. E não parece que as volumosas tolices que se disseram neste último século tenham realmente esclarecido a questão. Demais, haverá realmente um problema? Em que consiste? Em verdade, haverá mulher? Sem dúvida, a teoria do eterno feminino ainda tem adeptos; cochicham: “Até na Rússia elas permanecem mulheres”. Mas outras pessoas igualmente bem informadas — e por vezes as mesmas — suspiram: “A mulher se está perdendo, a mulher está perdida”. Não sabemos mais exatamente se ainda existem mulheres, se existirão sempre, se devemos ou não desejar que existam, que lugar ocupam no mundo ou deveriam ocupar”. “Onde estão as mulheres?”, indagava há pouco uma revista intermitente [1]. Mas antes de mais nada: que é uma mulher? “Tota mulier in utero: é uma matriz”, diz alguém. Entretanto, falando de certas mulheres, os conhecedores declaram: “Não são mulheres”, embora tenham um útero como as outras. Todo mundo concorda em que há fêmeas na espécie humana; constituem, hoje, como outrora, mais ou menos a metade da humanidade; e contudo dizem-nos que a feminilidade “corre perigo”; e exortam-nos: “Sejam mulheres, permaneçam mulheres, tornem-se mulheres”. Todo ser humano do sexo feminino não é, portanto, necessariamente mulher; cumpre-lhe participar dessa realidade misteriosa e ameaçada que é a feminilidade. Será esta secretada pelos ovários? Ou estará congelada no fundo de um céu platônico? E bastará uma saia ruge-ruge para fazê-la descer à terra? Embora certas mulheres se esforcem por encarná-lo, o modelo nunca foi registrado. Descreveram-no de bom grado em termos vagos e mirabolantes que parecem tirados de empréstimo do vocabulário das videntes.

No tempo de Sto. Tomás, ela se apresentava como uma essência tão precisamente definida quanto a virtude dormitiva da papoula. Mas o conceitualismo perdeu terreno: as ciências biológicas e sociais não acreditam mais na existência de entidades imutàvelmente fixadas, que definiriam determinados caracteres como os da mulher, do judeu ou do negro; consideram o caráter como uma reação secundária a uma situação.  Se hoje não há mais feminilidade, é porque nunca houve.   Significará isso que a palavra “mulher” não tenha nenhum conteúdo?  E o que afirmam vigorosamente os partidários da filosofia das luzes, do racionalismo, do nominalismo: as mulheres, entre os seres humanos, seriam apenas os designados arbitrariamente pela palavra “mulher”. Os norte-americanos, em particular, pensam que a mulher, como mulher, não existe mais; se uma retardada ainda se imagina mulher, as amigas aconselham-na a se fazer psicanalisar para livrar-se dessa obsessão.  A propósito de uma obra, de resto assaz irritante, intitulada Modern Woman: a lost sex, Dorothy Parker escreveu: “Não posso ser justa em relação aos livros que tratam da mulher como mulher… Minha idéia é que todos, homens e mulheres, o que quer que sejamos, devemos ser considerados seres humanos”.  Mas o nominalismo é uma doutrina um tanto limitada; e os antifeministas não têm dificuldade em demonstrar que as mulheres não são homens.    

Sem dúvida, a mulher é, como o homem, um ser humano.  Mas tal afirmação é abstrata; o fato é que todo ser humano concreto sempre se situa de um modo singular.  Recusar as noções de eterno feminino, alma negra, caráter judeu, não é negar que haja hoje judeus, negros e mulheres; a negação não representa para os interessados uma   libertação e sim uma fuga inautêntica. É claro que nenhuma mulher pode pretender sem má-fé situar-se além de seu sexo. Uma escritora conhecida recusou-se a deixar que saísse seu retrato numa série de fotografias consagradas precisamente às mulheres escritoras: queria ser incluída entre os homens, mas para obter esse privilégio utilizou a influência do marido. As mulheres que afirmam que são homens não dispensam, contudo, as delicadezas e as homenagens masculinas. Lembro-me também duma jovem trotskista em pé num estrado, no meio de um comício violento e que se dispunha a dar pancadas, apesar de sua evidente fragilidade; negava sua fraqueza feminina; mas era por amor a um militante a quem desejava ser igual.  A atitude de desafio dentro da qual se crispam   as   norte-americanas prova que são dominadas pelo   sentimento de sua feminilidade.  E, em verdade, basta passear de olhos abertos para comprovar que a humanidade se reparte em duas categorias de indivíduos, cujas roupas, rostos, corpos, sorrisos, atitudes, interesses, ocupações são manifestamente diferentes: talvez essas diferenças sejam superficiais, talvez se destinem a desaparecer. O certo é que por enquanto elas existem com uma evidência total.

Se a função da fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também explicá-la pelo “eterno feminino” e se, no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: que é uma mulher ?

O próprio enunciado do problema sugere-me uma primeira resposta. É significativo que eu coloque esse problema. Um homem não teria a idéia de escrever um livro sobre a situação singular que ocupam os machos na humanidade [2]. Se quero definir-me, sou obrigada inicialmente a declarar: “Sou uma mulher”. Essa verdade constitui o fundo sobre o qual se erguerá qualquer outra afirmação. Um homem não começa nunca por se apresentar como um indivíduo de determinado sexo: que seja homem é natural. É de maneira formal, nos registros dos cartórios ou nas declarações de identidade que as rubricas, masculino, feminino, aparecem como simétricas.     A relação dos dois sexos não é a das duas eletricidades, de dois pólos. O homem representa a um tempo o positivo e o neutro, a ponto de dizermos “os homens” para designar os seres humanos, tendo-se assimilado ao sentido singular do vocábulo vir o sentido geral da palavra homo. A mulher aparece como o negativo, de modo que toda determinação lhe é imputada como limitação, sem reciprocidade. Agastou-me, por vezes, no curso de conversações abstratas, ouvir os homens dizerem-se: “Você pensa assim porque é uma mulher”. Mas eu sabia que minha única defesa era responder: “penso-o porque é verdadeiro”, eliminando assim minha subjetividade. Não se tratava, em hipótese alguma, de replicar:   “E você pensa o contrário porque é um homem”, pois está subentendido que o fato de ser um homem não é uma singularidade; um homem está em seu direito sendo homem, é a mulher que está errada. Praticamente, assim como para os Antigos havia uma vertical absoluta em relação à qual se definia a oblíqua, há um tipo humano absoluto que é o masculino.  A mulher   tem ovários, um útero; eis as condições singulares que a encerram na sua subjetividade;   diz-se de bom grado que ela pensa com suas glândulas. O homem esquece soberbamente que sua anatomia também comporta hormônios e testículos.  Encara o corpo como uma relação direta e   normal com   o mundo que acredita apreender na sua objetividade, ao passo que considera o corpo da mulher sobrecarregado por tudo o que o especifica: um obstáculo, uma prisão.  “A fêmea é fêmea em virtude de certa carência de qualidades”, diz Aristóteles. “Devemos considerar o caráter das mulheres como sofrendo de certa deficiência natural”. E Sto. Tomás, depois dele, decreta que a mulher é um homem incompleto, um ser “ocasional”. É o que simboliza a história do Gênese em que Eva aparece como extraída, segundo Bossuet, de um “osso supranumerário” de Adão. A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a êle; ela não é considerada um ser autônomo.  “A mulher, o ser relativo…”, diz Michelet.    E é por isso que Benda afirma em Rapport d’Uriel: “O corpo do homem tem um sentido em si, abstração feita do da mulher, ao passo que este parece destituído de significação se não se evoca o macho… O homem é pensável sem a mulher.   Ela não, sem o homem”.    Ela não é senão o que o homem decide que seja; daí dizer-se o “sexo” para dizer que ela se apresenta diante do macho como um ser sexuado: para êle, a fêmea é sexo, logo ela o é absolutamente. A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro [3].

A categoria do Outro é tão original quanto a própria consciência. Nas mais primitivas sociedades, nas mais antigas mitologias, encontra-se sempre uma dualidade que é a do Mesmo e a do Outro.   A divisão não foi estabelecida inicialmente sob o signo da divisão dos sexos, não depende de nenhum dado empírico: é o que se conclui, entre outros, dos trabalhos de Granet sobre o pensamento chinês de Dumézil sobre as índias e Roma. Nos pares Varuna-Mitra, Urano-Zeus, Sol-Lua, Dia-Noite, nenhum elemento feminino se acha implicado a princípio; nem tampouco na oposição do Bem ao Mal, dos princípios fastos e nefastos, da direita e da esquerda, de Deus e Lúcifer; a alteridade é uma categoria fundamental do pensamento humano.         

Nenhuma coletividade se define nunca como Uma sem colocar imediatamente a Outra diante de si. Basta três viajantes reunidos por acaso num mesmo compartimento para que todos os demais viajantes se tornem “os outros” vagamente hostis. Para os habitantes de uma aldeia, todas as pessoas que não pertencem ao mesmo lugarejo são   “outros”‘ e suspeitos; para os habitantes de um país, os habitantes de outro país são considerados “estrangeiros”. Os judeus são “outros” para o anti-semita, os negros para os racistas norte-americanos, os indígenas para os colonos, os proletários para as classes dos proprietários.    Ao fim de um estudo aprofundado das diversas figuras das sociedades primitivas, Lévi-Strauss pôde concluir: “A passagem do estado natural ao estado cultural define-se pela aptidão por parte do homem em pensar as relações biológicas sob a forma de sistemas de oposições: a dualidade, a alternância, a oposição e a simetria, que se apresentam sob formas definidas ou formas vagas, constituem menos fenômenos que cumpre explicar que os dados fundamentais e imediatos da realidade social[4]. Tais fenômenos não se compreenderiam se a realidade humana fosse exclusivamente um mitsein baseado na solidariedade e na amizade.   Esclarece-se, ao contrário, se, segundo Hegel, descobre-se na própria consciência uma hostilidade fundamental em relação a qualquer outra consciência; o sujeito só se põe em se opondo: êle pretende afirmar-se como essencial e fazer do outro o inessencial, o objeto.

Só que a outra consciência lhe opõe uma pretensão recíproca: em viagem, o nativo percebe com espanto que há, nos países vizinhos, nativos que o encaram, eles também, como estrangeiro; entre aldeias, clãs, nações, classes, há guerras, potlatchs, tratados, lutas que tiram o sentido absoluto da idéia do Outro e descobrem-lhe a relatividade; por bem ou por mal os indivíduos e os grupos são obrigados a reconhecer a reciprocidade de suas relações. Como se entende, então, que entre os sexos essa reciprocidade não tenha sido colocada, que um dos termos se tenha imposto como o único essencial, negando toda relatividade em relação a seu correlativo, definindo este como a alteridade pura? Por que as mulheres não contestam a soberania do macho? Nenhum sujeito se coloca imediata e espontaneamente como inessencial; não é o Outro que definindo-se como Outro define o Um; êle é posto como Outro pelo Um definindo-se como Um. Mas para que o Outro não se transforme no Um é preciso que se sujeite a esse ponto de vista alheio. De onde vem essa submissão na mulher?

Existem outros casos em que, durante um tempo mais ou menos longo, uma categoria conseguiu dominar totalmente a outra. É muitas vezes a desigualdade numérica que confere esse privilégio: a maioria impõe sua lei à minoria ou a persegue. Mas as mulheres não são, como os negros dos Estados Unidos ou os judeus, uma minoria; há tantos homens quantas mulheres na terra. Não raro, também os dois grupos em presença foram inicialmente independentes; ignoravam-se antes ou admitiam cada qual a autonomia do outro; e foi um acontecimento histórico que subordinou o mais fraco ao mais forte: a diáspora judaica, a introdução da escravidão na América, as   conquistas coloniais são fatos precisos. Nesses casos, para os oprimidos, houve um passo à frente: têm em comum um passado, uma tradição, por vezes uma religião, uma cultura. Nesse sentido, a aproximação estabelecida por Bebei entre as mulheres e o proletariado seria mais lógica: os proletários tampouco não estão em estado de inferioridade e nunca constituíram uma coletividade separada. Entretanto, na falta de um acontecimento, é um desenvolvimento histórico que explica sua existência como classe e mostra a distribuição desses indivíduos dentro dessa classe. Nem sempre houve proletários, sempre houve mulheres.   Elas são mulheres em virtude de sua estrutura fisiológica; por mais longe que se remonte na história, sempre estiveram subordinadas ao homem: sua dependência não é conseqüência de um evento ou de uma evolução, ela não aconteceu.  E, em parte, porque escapa ao caráter acidental do fato histórico que a alteridade aparece aqui como um absoluto.   Uma situação que se criou através dos tempos pode desfazer-se num dado tempo: os negros do Haiti, entre outros, bem que o provaram. Parece, ao contrário, que uma condição natural desafia qualquer mudança. Em verdade, a natureza, como a realidade histórica, não é um dado imutável. Se a mulher se enxerga como o inessencial que nunca retorna ao essencial é porque não opera, ela própria, esse retorno.  Os proletários dizem “nós”.   Os negros também.             Apresentando-se como sujeitos, eles transformam em “outros” os burgueses, os brancos. As mulheres — salvo em certos congressos que permanecem manifestações abstratas — não dizem “nós”.    Os homens dizem “as mulheres” e elas usam essas palavras para se designarem a si mesmas: mas não se põem autenticamente como Sujeito. Os proletários fizeram a revolução na Rússia, os negros no Haiti, os indo-chineses bateram-se na Indo-China: a ação das mulheres nunca passou de uma agitação simbólica; só ganharam   o que os homens concordaram em lhes conceder; elas nada tomaram; elas receberam (Cf. Segunda Parte, § 5).  Isso porque não têm os meios concretos de se reunir em uma unidade que se afirmaria em se opondo.   Não têm passado, não têm história, nem religião própria; não têm, como os proletários, uma solidariedade de trabalho e interesses; não há sequer entre elas essa promiscuidade espacial que faz dos negros dos E.U.A., dos judeus dos guetos, dos operários de Saint-Denis ou das fábricas Renault uma comunidade.  Vivem dispersas entre os homens, ligadas pelo habitat, pelo trabalho, pelos interesses econômicos, pela condição social a certos homens — pai ou marido — mais estreitamente do que as outras mulheres. Burguesas, são solidárias dos burgueses e não das mulheres proletárias; brancas, dos homens brancos e não das mulheres pretas. O proletariado poderia propor-se o trucidamento da classe dirigente; um judeu, um negro fanático poderiam sonhar com possuir o segredo da bomba atômica e constituir uma humanidade inteiramente judaica ou inteiramente negra: mas mesmo em sonho a mulher não pode exterminar os homens. O laço que a une a seus opressores não é comparável a nenhum outro.  A divisão dos sexos é, com efeito, um dado biológico e não um momento da história humana.  É no seio de um mitsein original que sua oposição se formou e ela não a destruiu. O casal é uma unidade fundamental cujas metades se acham presas indissoluvelmente uma à outra: nenhum corte é possível na sociedade por sexos. Isso é que caracteriza fundamentalmente a mulher: ela é o Outro dentro de uma totalidade cujos dois termos são necessários um ao outro.

Poder-se-ia imaginar que essa reciprocidade teria facilitado a libertação; quando Hércules fia a lã aos pés de Ônfale, o desejo amarra-o: por que Ônfale não conseguiu adquirir um poder durável? Para vingar-se de Jasão, Medéia mata os filhos: essa lenda selvagem sugere que, do laço que a liga à criança, a mulher teria podido tirar uma ascendência temível. Aristófanes imaginou complacentemente, em Lisístrata, uma assembléia de mulheres em que estas tentam explorar em comum, e para fins sociais, a necessidade que os homens têm delas, mas trata-se apenas de uma comédia. A lenda que afirma que as sabinas raptadas opuseram a seus raptores uma esterilidade obstinada, conta também que, fustigando-as com chicotes de couro, os homens quebraram màgicamente essa resistência. A necessidade biológica — desejo sexual e desejo de posteridade — que coloca o macho sob a dependência da fêmea não libertou socialmente a mulher. O senhor e o escravo estão unidos por uma necessidade econômica recíproca que não liberta o escravo. É que, na relação do senhor com o escravo, o primeiro não põe a necessidade que tem do outro; êle detém o poder de satisfazer essa necessidade e não a mediatiza; ao contrário, o escravo, na dependência, esperança ou medo, interioriza a necessidade que tem do senhor; a urgência da necessidade, ainda que igual em ambos, sempre favorece o opressor contra o oprimido: é o que explica que a libertação da classe proletária, por exemplo, tenha   sido tão   lenta. Ora, a mulher sempre foi, senão a escrava do homem ao menos sua vassala; os dois sexos nunca partilharam o mundo em igualdade de condições; e ainda hoje, embora sua condição esteja evoluindo, a mulher arca com um pesado handicap. Em quase nenhum país, seu estatuto legal é idêntico ao do homem e muitas vezes este último a prejudica consideravelmente. Mesmo quando os direitos lhe são abstratamente reconhecidos, um longo hábito impede que encontrem nos costumes sua expressão concreta. Economicamente, homens e mulheres constituem como que duas castas; em igualdade de condições, os primeiros têm situações mais vantajosas, salários mais altos, maiores possibilidades de êxito que suas concorrentes recém-chegadas.   Ocupam na indústria, na política etc, maior número de lugares e os postos mais importantes. Além dos   podêres concretos que possuem, revestem-se de um prestígio cuja tradição a educação da criança mantém: o presente envolve o passado e no passado toda a história foi feita pelos homens. No momento em que as mulheres começam a tomar parte na elaboração do mundo, esse mundo é ainda um mundo que pertence aos homens. Eles bem o sabem, elas mal duvidam. Recusar ser o Outro, recusar a cumplicidade com o homem seria para elas renunciar a todas as vantagens que a aliança com a casta superior pode conferir-lhes. O homem suserano protegerá materialmente a mulher vassala e se encarregará de lhe justificar a existência: com o risco econômico, ela esquiva o risco metafísico de uma liberdade que deve inventar seus fins sem auxílios. Efetivamente, ao lado da pretensão de todo indivíduo de se afirmar como sujeito, que é uma pretensão ética, há também a tentação de fugir de sua liberdade e de constituir-se em coisa. É um caminho nefasto porque passivo, alienado, perdido, e então esse indivíduo é presa de vontades estranhas, cortado de sua transcendência, frustrado de todo valor. Mas é um caminho fácil: evitam-se com ele a angústia e a tensão da existência autenticamente assumida. O homem que constitui a mulher como um Outro encontrará, nela, profundas cumplicidades. Assim, a mulher não se reivindica como sujeito, porque não possui os meios concretos para tanto, porque sente o laço necessário que a prende ao homem sem reclamar a reciprocidade dele, e porque, muitas vezes, se compraz no seu papel de Outro.

Mas uma questão imediatamente se apresenta: como tudo isso começou? Compreende-se que a dualidade dos sexos, como toda dualidade, tenha sido traduzida por um conflito. Compreende-se que, se um dos dois conseguisse impor sua superioridade, esta deveria estabelecer-se como absoluta.   Resta explicar por que o homem venceu desde o início. Parece que as mulheres deveriam ter sido vitoriosas. Ou a luta poderia nunca ter tido solução. Por   que este mundo sempre pertenceu aos homens e só hoje as coisas começam a mudar? Será um bem essa mudança? Trará ou não uma partilha igual do mundo entre homens e mulheres?

Essas questões estão longe de ser novas; já lhes foram dadas numerosas respostas, mas o simples fato de ser a mulher o Outro contesta todas as justificações que os homens lhe puderam dar: eram-lhes evidentemente ditadas pelo interesse. “Tudo o que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, porque eles são, a um tempo, juiz e parte”, escreveu, no século XVII, Poulain de Ia Barre, feminista pouco conhecido.  Em toda parte e em qualquer época, os homens exibiram a satisfação que tiveram de se sentirem os reis da criação. “Bendito seja Deus nosso Senhor e o Senhor de todos os mundos por não me ter feito mulher”, dizem os judeus nas suas preces matinais, enquanto suas esposas murmuram com resignação: “Bendito seja o Senhor que me criou segundo a sua vontade”. Entre as mercês que Platão agradecia aos deuses, a maior se lhe afigurava o fato de ter sido criado livre e não escravo e, a seguir, o de ser homem e não mulher. Mas os homens não poderiam gozar plenamente esse privilégio, se não o houvessem considerado alicerçado no absoluto e na eternidade: de sua supremacia procuraram fazer um direito. “Os que fizeram e compilaram as leis, por serem homens, favoreceram seu próprio sexo, e os jurisconsultos transformaram as leis em princípios”, diz ainda Poulain de Ia Barre. Legisladores, sacerdotes, filósofos, escritores e sábios empenharam-se em demonstrar que a condição subordinada da mulher era desejada no céu e proveitosa à terra. As religiões forjadas pelos homens refletem essa vontade de domínio: buscaram argumentos nas lendas de Eva, de Pandora, puseram a filosofia e a teologia a serviço   de seus desígnios, como   vimos   pelas frases citadas de Aristóteles e Sto. Tomás. Desde a Antigüidade, moralistas e satíricos deleitaram-se com pintar o quadro das fraquezas femininas. Conhecem-se os violentos requisitórios que contra elas se escreveram através de toda a literatura francesa: Montherlant reata, com   menor brilho, a tradição de   Jean de Meung. Essa hostilidade parece, algumas vezes, justificável, mas na maior parte dos casos é gratuita.  Na realidade, recobre uma vontade de autojustificação mais ou menos habilmente mascarada. “E mais fácil acusar um sexo do que desculpar o outro”, diz Montaigne. Em certos casos, o processo é evidente.   É impressionante, por exemplo, que o código romano, a fim de restringir os direitos das mulheres, invoque “a imbecilidade, a fragilidade do sexo” no momento em que, pelo enfraquecimento da família, ela se torna um perigo para os herdeiros masculinos. É impressionante que no século XVI, a fim de manter a mulher casada sob tutela, apele-se para a autoridade de Santo Agostinho, declarando que “a mulher é um animal que não é nem firme nem estável”, enquanto à celibatária se reconhece o direito de gerir seus bens.  Montaigne compreendeu muito bem a arbitrariedade e a injustiça do destino imposto à mulher: “Não carecem de razão as mulheres quando recusam as regras que se introduziram no mundo, tanto mais quando foram os homens que as fizeram sem elas. Há, naturalmente, desentendimentos e disputas entre elas e nós”; mas êle não chega a defendê-las verdadeiramente. É somente no século XVIII que homens profundamente democratas encaram a questão com objetividade.     

Diderot, entre outros, esforça-se por demonstrar que a mulher é, como o homem, um ser humano. Um pouco mais tarde, Stuart Mill defende-a com ardor. Mas esses filósofos são de uma imparcialidade excepcional. No século XIX, a querela do feminismo torna-se novamente uma querela de sectários; uma das conseqüências da revolução industrial é a participação da mulher no trabalho produtor: nesse momento as reivindicações feministas saem do terreno teórico, encontram fundamentos econômicos; seus adversários fazem-se mais agressivos. Embora os bens de raiz se achem em parte abalados, a burguesia apega-se à velha moral que vê, na solidez da família, a garantia da propriedade privada: exige a presença da mulher no lar tanto mais vigorosamente quanto sua emancipação torna-se uma verdadeira ameaça; mesmo dentro da classe operária os homens tentaram frear essa libertação, porque as mulheres são encaradas como perigosas concorrentes, habituadas que estavam a trabalhar por salários mais baixos [5]. A fim de provar a inferioridade da mulher, os antifeministas apelaram não somente para a religião, a filosofia e a teologia, como no passado, mas ainda para a ciência: biologia, psicologia experimental etc.   Quando muito, consentia-se em conceder ao outro sexo “a igualdade dentro da diferença”. Essa fórmula, que fêz fortuna, é muito significativa: é exatamente a que utilizam em relação aos negros dos E.U.A. as leis Jim Crow; ora, essa segregação, pretensamente igualitária, só serviu para introduzir as mais extremas discriminações.        

Esse encontro nada tem de ocasional: quer se trate de uma raça, de uma casta, de uma classe, de um sexo reduzidos a uma condição inferior, o processo de justificação é o mesmo.  O “eterno feminino” é o homólogo da “alma negra” e do “caráter judeu”. O problema judaico é, de resto, em conjunto, muito diferente dos dois outros: o judeu para o anti-semita é menos um inferior do que um inimigo e não se lhe reconhece neste mundo nenhum lugar próprio: o que se deseja é aniquilá-lo. Mas há profundas analogias entre a situação das mulheres e a dos negros: umas e outros emancipam-se hoje de um mesmo paternalismo e a casta anteriormente dominadora quer mantê-los “em seu lugar”, isto é, no lugar que escolheu para eles; em ambos os casos, ela se expande em elogios mais ou menos sinceros às virtudes do “bom negro”, de alma inconsciente, infantil e alegre, do negro resignado, da mulher “realmente mulher”, isto é, frívola, pueril, irresponsável, submetida ao homem. Em ambos os casos, tira seus argumentos do estado de fato que ela criou. Conhece-se o dito de Bernard Shaw: “O americano branco relega o negro ao nível do engraxate; e concluí daí que só pode servir para engraxar sapatos”. Encontra-se esse círculo vicioso em todas as circunstâncias análogas: quando um indivíduo ou um grupo de indivíduos é mantido numa situação de inferioridade, êle é de fato inferior; mas é sobre o alcance da palavra ser que precisamos entender-nos; a má-fé consiste em dar-lhe um valor substancial quando tem o sentido dinâmico hegeliano: ser é ter-se tornado, é ter sido feito tal qual se manifesta. Sim, as mulheres, em seu conjunto, são hoje inferiores aos homens, isto é, sua situação oferece-lhes possibilidades menores: o problema consiste em saber se esse estado de coisas deve perpetuar-se.

Muitos homens o desejam: nem todos se desarmaram ainda. A burguesia conservadora continua a ver na emancipação da mulher um perigo que lhe ameaça a moral e os interesses. Certos homens temem a concorrência feminina. No Hebdo-Latin um estudante declarava há dias: “Toda estudante que consegue uma posição de médico ou de advogado rouba-nos um lugar”. Esse rapaz não duvidava, um só instante, de seus próprios direitos sobre o mundo. Não são somente os interesses econômicos que importam. Um dos benefícios que a opressão assegura aos opressores é de o mais humilde destes se sentir superior: um “pobre branco” do sul dos E.U.A. tem o consolo de dizer que não é “um negro imundo” e os brancos mais ricos exploram habilmente esse orgulho. Assim também, o mais medíocre dos homens julga-se um semideus diante das mulheres. Era muito mais fácil a Montherlant julgar-se um herói quando se confrontava com mulheres (escolhidas, de resto, a dedo) do que quando teve de desempenhar seu papel de homem entre os homens: papel que muitas mulheres desempenharam melhor do que êle. É assim que, em setembro de 1948, em um de seus artigos do Vigoro Littéraire, o Sr. Claude Mauriac — cuja forte originalidade todos admiram — pôde escrever [6]: “Nós ouvimos numa atitude (sic!) de indiferença cortês… a mais brilhante dentre elas, sabendo muito bem que seu espírito reflete, de maneira mais ou menos brilhante, idéias que vêm de nós”. Não são evidentemente as idéias do próprio Sr. C. Mauriac que sua interlocutora reflete, dado que êle não tem nenhuma; que ela reflita idéias que vêm dos homens é possível: entre os homens mais de um considera suas muitas opiniões que não inventou; pode-se indagar se o Sr. Claude Mauriac não teria interesse em entreter-se com um bom reflexo de Descartes, de Marx, de Gide, de preferência a entreter-se consigo próprio. O que é notável é que mediante o equívoco do nós identifica-se êle com São Paulo, Hegel, Lênin, Nietzsche e do alto da grandeza deles considera com desdém o rebanho de mulheres que ousam falar-lhe em pé de igualdade. Para dizer a verdade, conheço muitas que não teriam a paciência de conceder ao Sr. Mauriac “uma atitude de indiferença cortês”.

Insisti nesse exemplo porque nele a ingenuidade masculina é desarmante. Há muitas outras maneiras mais sutis mediante as quais os homens tiram proveito da alteridade da mulher. Para todos os que sofrem de complexo de inferioridade, há nisso um linimento milagroso: ninguém é mais arrogante em relação às mulheres, mais agressivo ou desdenhoso do que o homem que duvida de sua virilidade. Os que não se intimidam com seus semelhantes mostram-se também muito mais dispostos a reconhecer na mulher um semelhante. Mesmo a esses, entretanto, o mito da Mulher, o Outro, é caro por muitas razões [7]; não há como censurá-los por não sacrificarem   de bom grado todas as vantagens que tiram disso; sabem o que perdem, renunciando à mulher tal qual a sonham, ignoram o que lhe trará a mulher tal qual ela será amanhã. É preciso muita abnegação para se recusar a apresentar-se como o Sujeito único e absoluto.

Aliás, a grande maioria dos homens não assume explicitamente essa pretensão. Eles não colocam a mulher como uma inferior; estão hoje demasiado compenetrados do ideal democrático para não reconhecer todos os seres humanos como iguais. No seio da família, a mulher apresenta-se à criança e ao jovem revestida da mesma dignidade social   dos adultos masculinos; mais tarde êle sente no desejo e no amor a resistência, a independência, da mulher desejada e amada; casado, êle respeita na mulher a esposa, a mãe, e na experiência concreta da vida conjugai ela se afirma em face dele como uma liberdade. O homem pode, pois, persuadir-se de que não existe mais hierarquia social entre os sexos e de que, grosso modo, através das diferenças, a mulher é sua igual.   Como observa, entretanto, algumas inferioridades — das quais a mais importante é a incapacidade profissional — êle as atribui à natureza. Quando tem para com a mulher uma atitude de colaboração e benevolência, êle tematiza o princípio da igualdade abstrata; e a desigualdade concreta que verifica, não a põe. Mas, logo que entra em conflito com a mulher, a situação se inverte: êle tematiza a desigualdade concreta e dela tira autoridade para negar a igualdade abstrata[8].   Assim é que muitos homens afirmam quase com boa-fé que as mulheres são iguais aos homens e nada têm a reivindicar, e, ao mesmo tempo, que as mulheres nunca poderão ser iguais aos homens e que suas reivindicações são vãs. É que é difícil para o homem medir a extrema importância de discriminações sociais que parecem insignificantes de fora e cujas repercussões morais e intelectuais são tão profundas na mulher que podem parecer ter suas raízes numa natureza   original [9]. Mesmo o homem mais simpático à mulher nunca lhe conhece bem a situação concreta.    Por isso não há como acreditar nos homens quando se esforçam por defender privilégios cujo alcance não medem. Não nos deixaremos, portanto, intimidar pelo número e pela violência dos ataques dirigidos contra a mulher, nem nos impressionar com os elogios interesseiros que se fazem à “verdadeira mulher”; nem nos contaminar pelo entusiasmo que seu destino suscita entre os homens que por nada no mundo desejariam compartilhá-lo.

Entretanto, não devemos ponderar com menos desconfiança os argumentos dos feministas: muitas vezes, a preocupação polêmica tira-lhes todo valor. Se a “questão feminina” é tão absurda é porque a arrogância masculina fêz dela uma “querela” e quando as pessoas querelam não raciocinam bem. O que se procurou infatigavelmente provar foi que a mulher é superior, inferior ou igual ao homem. Criada depois de Adão, é evidentemente um ser secundário, dizem uns; ao contrário, dizem outros, Adão era apenas um   esboço e Deus alcançou   a perfeição do ser humano quando criou Eva; seu cérebro é o menor, mas é relativamente o maior; e se Cristo se fêz homem foi possivelmente por humildade. Cada argumento sugere imediatamente seu contrário e não raro ambos são falhos… Se quisermos ver com clareza devemos sair desses trilhos; precisamos recusar as noções vagas de superioridade, inferioridade, igualdade que desvirtuam todas as discussões e reiniciar do começo.
Como poremos então a questão? E, antes de mais nada, quem somos nós para apresentá-la? Os homens são parte e juiz; as mulheres também. Onde encontrar um anjo? Em verdade, um anjo seria mal indicado para falar, ignoraria todos os dados do problema; quanto ao hermafrodita, é um caso demasiado singular: não é homem e mulher ao mesmo tempo, mas antes nem homem nem mulher. Creio que para elucidar a situação da mulher são ainda certas mulheres as mais indicadas. É um sofisma encerrar Epimênides no conceito de cretense e os cretenses no de mentiroso: não é uma essência misteriosa que determina a boa ou a má-fé nos homens e nas mulheres; é a situação deles que os predispõem mais ou menos à procura da verdade. Muitas mulheres de hoje, que tiveram   a sorte de ver-lhes restituídos todos os privilégios do ser humano, podem dar-se ao luxo da imparcialidade; sentimos até a necessidade desse luxo. Não somos mais como nossas predecessoras: combatentes. De maneira global ganhamos a partida. Nas últimas discussões acerca do estatuto da mulher, a O.N.U. não cessou de exigir que a igualdade dos sexos se realizasse completamente e muitas de nós já não vêem em sua feminilidade um embaraço ou um obstáculo; muitos outros problemas nos parecem mais essenciais do que os que nos dizem particularmente respeito; e esse próprio desinteresse permite-nos esperar que nossa atitude será objetiva. Entretanto, conhecemos mais intimamente do que os homens o mundo feminino, porque nele temos nossas raízes; apreendemos mais imediatamente o que significa para um ser humano o fato de pertencer ao sexo feminino e preocupamo-nos mais com o saber. Disse que havia problemas mais essenciais,   o que   não impede que esse conserve a nossos olhos alguma importância: em que o fato de sermos mulheres terá afetado a nossa vida? Que possibilidades nos foram oferecidas, exatamente, e quais nos foram recusadas?   Que destino podem esperar nossas irmãs mais jovens e em que sentido convém orientá-las? E impressionante que em seu conjunto a literatura feminina seja menos animada em nossos dias por uma vontade de reivindicação do que por um esforço de lucidez; ao sair de uma era de polêmicas desordenadas, este livro é uma tentativa, entre outros, de verificar em que pé se encontra a questão.

Mas é sem dúvida impossível tratar qualquer problema humano sem preconceito: a própria maneira de pôr as questões, as perspectivas adotadas pressupõem uma hierarquia de interesses: toda qualidade envolve valores. Não há descrição, dita objetiva, que não se erga sobre um fundo ético. Ao invés de tentar dissimular os princípios que se subentendem mais ou menos explicitamente, cumpre examiná-los. Desse modo, não somos obrigadas a precisar em cada página que sentido se dá às palavras superior, inferior, melhor, pior, progresso, retrocesso etc. Se passamos em revista algumas dessas obras consagradas à mulher, vemos que um dos pontos de vista mais amiúde adotados é o do bem público, do interesse geral; em verdade, cada um entende, com isso, o interesse da sociedade tal qual deseja manter ou estabelecer. Quanto a nós, estimamos que não há outro bem público senão o que assegura o bem individual dos cidadãos. É do ponto de vista das oportunidades concretas dadas aos indivíduos que julgamos as instituições. Mas não confundimos tampouco a idéia de interesse privado com a de felicidade, ponto de vista que se encontra freqüentemente. As mulheres de harém não são mais felizes do que uma eleitora? Não é a dona de casa mais feliz do que a operária?   Não se sabe muito precisamente o que significa a palavra felicidade, nem que valores autênticos ela envolve. Não há nenhuma possibilidade de medir a felicidade de outrem e é sempre fácil declarar feliz a situação que se lhe quer impor. Os que condenamos à estagnação, nós os declaramos felizes sob o pretexto de que a felicidade é a imobilidade. É, portanto, uma noção a que não nos referimos. A perspectiva que adotamos é a da moral existencialista. Todo sujeito coloca-se concretamente através de projetos como uma transcendência; só alcança sua liberdade pela sua constante superação em vista de outras liberdades; não há outra justificação da existência presente senão sua expansão para um futuro indefinidamente aberto. Cada vez que a transcendência cai na imanência, há degradação da existência em “em si”, da liberdade em facticidade; essa queda é uma falha moral, se consentida pelo sujeito. Se lhe é inflingida, assume o aspecto de frustração ou opressão.   Em ambos os casos, é um mal absoluto. Todo indivíduo que se preocupa em justificar sua existência, sente-a como uma necessidade indefinida de se transcender. Ora, o que define de maneira singular a situação da mulher é que, sendo, como todo ser humano, uma liberdade autônoma, descobre-se e escolhe-se num mundo em que os homens lhe impõem a condição   do Outro. Pretende-se torná-la objeto, votá-la à imanência, porquanto sua transcendência será perpètuamente transcendida por outra consciência essencial e soberana. O drama da mulher é esse conflito entre a reivindicação fundamental de todo sujeito que se põe sempre como o essencial e as exigências de uma situação que a constitui como inessencial.  Como pode realizar-se um ser humano dentro da condição feminina? Que caminhos lhe são abertos? Quais conduzem a um beco sem saída? Como encontrar a independência no seio da dependência? Que circunstâncias restringem a liberdade da mulher, e quais pode ela superar? São essas algumas questões fundamentais que desejaríamos elucidar. Isso quer dizer que, interessando-nos pelas oportunidades dos indivíduos, não as definiremos em termos de felicidade e sim em termos de liberdade.

É evidente que esse problema não teria nenhum sentido se supuséssemos que pesa sobre a mulher um destino fisiológico, psicológico ou econômico. Por isso, começaremos por discutir os pontos de vista da biologia, da psicanálise e do materialismo histórico acerca da mulher. Tentaremos mostrar, em seguida, que a mulher foi definida como o Outro e quais foram as conseqüências do ponto de vista masculino. Descreveremos então, do ponto de vista das mulheres, o mundo que lhes é proposto [10]; e poderemos compreender contra que dificuldades se chocam no momento em que, procurando evadir-se da esfera que lhes foi assinalada até o presente, elas pretendem participar do mitsein humano.

Notas

[1] Não se publica mais: chamava-se Franchise.
[2] O relatório Kinsey, por exemplo, limita-se a definir as características sexuais do homem norte-americano, o que é muito diferente.
[3] Essa idéia foi expressa em sua forma mais explícita por E. Levinas em seu   ensaio sobre Le Temps et l’Autre. Assim   se   exprime êle: “Não haveria uma situação em que a alteridade definiria um ser de maneira positiva, como essência? Qual é a alteridade que não entra pura e simplesmente na oposição das duas espécies do mesmo gênero? Penso que o contrário absolutamente contrário, cuja contrariedade não é em nada afetada pela relação que se pode estabelecer entre si e seu correlativo, a contrariedade que permite ao termo permanecer absolutamente outro, é o feminino. O sexo não é uma diferença específica qualquer. . . A diferença dos sexos não é tampouco uma contradição. . . Não é também a dualidade de dois termos complementares, porque esses dois termos complementares supõem um todo preexistente.. . A alteridade realiza-se no feminino. Termo do mesmo quilate mas de sentido oposto à consciência”.
Suponho que Levinas não esquece que a mulher é igualmente consciência para si.   Mas é impressionante que adote deliberadamente um ponto de vista de homem sem assinalar a reciprocidade do sujeito e do objeto. Quando escreve que a mulher é mistério, subentende que é mistério para o homem. De modo que essa descrição que se apresenta com intenção objetiva é, na realidade, uma afirmação do privilégio masculino.
[4] Ver C. Lévi-Strauss, Les Structures élémentaires de la Parenté. Agradeço a Lévi-Strauss a gentileza de me ter comunicado as provas de sua tese que, entre outras, aproveitei amplamente na segunda parte, págs. 86-102.
[5] Ver segunda parte, págs. 151-152.
[6] Acreditou poder, pelo menos,
[7] O artigo de Michel Carrouges sobre esse tema, no número 292 do Cahiers du Sud, é significativo. Escreve com indignação: “Gostaríamos que não houvesse o mito da mulher, mas tão-somente uma corte de cozinheiras, de matronas, de meretrizes, de pedantes com funções de prazer e de utilidade”. O que significa que, a seu ver, a mulher não tem existência para-si; êle considera apenas sua função dentro do mundo masculino. Sua finalidade encontra-se no homem; então, com efeito, pode-se preferir sua “função” poética a qualquer outra. A questão está, precisamente, em saber por que se deveria defini-la em relação ao homem.
[8] O homem declara, por exemplo, que não vê sua mulher di minuída pelo fato de não ter profissão: a tarefa do lar é tão nobre quanto etc. Entretanto, na primeira disputa, exclama: “Sereis totalmente incapaz de ganhar tua vida sem mim”.
[9] Descrever esse processo será precisamente o objeto do segundo volume.
[10] Isso constitui o objeto do segundo volume.

*Originalmente publicado em: BEAUVOIR, Simone. Le Deuxiême Sexe: Le Faits et les Mythes. Paris: Gallimard, 1949. A versão partilha foi traduzida por Sérgio Milliet e publicada pela editora Difusão Européia do Livro no ano de 1980.

Fonte: Territórios de Filosofia

"Precisamos conhecer Alan Turing, de “O Jogo da Imitação”", por Cesar Castanha

PICICA: "O quanto de um filme está contido no próprio filme, o quanto dele também é contexto e leitura? É evidente que não há uma resposta correta, que a subjetividade da crítica possibilita que o crítico (e não falo só daquele que escreve sobre o filme, mas também daquele que o lê) signifique o filme da maneira que achar correto. Trago essa questão aqui justamente porque ela moveu um saudável confronto de perspectivas entre mim e meu colega de  Cineplayers, Francisco Carbone, sobre o filme O Jogo da Imitação."

Precisamos conhecer Alan Turing, de “O Jogo da Imitação”


Por Cesar Castanha janeiro 30, 2015 12:05

(Foto: Divulgação)
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O quanto de um filme está contido no próprio filme, o quanto dele também é contexto e leitura? É evidente que não há uma resposta correta, que a subjetividade da crítica possibilita que o crítico (e não falo só daquele que escreve sobre o filme, mas também daquele que o lê) signifique o filme da maneira que achar correto. Trago essa questão aqui justamente porque ela moveu um saudável confronto de perspectivas entre mim e meu colega de  Cineplayers, Francisco Carbone, sobre o filme O Jogo da Imitação.

Dividimo-nos aqui: sou da opinião de que questões pessoais e particulares podem ser trazidas para a leitura de um filme; de que, se assim não fosse, a função crítica seria muito linear, uniforme e, francamente, chata. Mas insisto nisso porque também acredito que o filme só existe a partir do olhar sobre ele (e reafirmo: não só um olhar que se diz profissional ou especializado), então, se a leitura traz algo, isso deveria ficar no filme e fazer parte dele.

Ao objeto, O Jogo da Imitação é mais uma cinebiografia britânica quadradona; seu personagem, no entanto, não é por si só uma premissa tão popular quanto Stephen Hawking. Alan Turing foi o pouco conhecido matemático que decifrou Enigma, o sistema criptográfico alemão usado durante a Segunda Guerra Mundial, uma façanha que, segundo alguns historiadores, garantiu a vitória dos aliados. Turing não é muito famoso porque sua missão permaneceu secreta por décadas, mas seu trabalho é pai (ou já avô) da computação contemporânea. Outra coisa sobre Turing: ele era gay.

Seria tendencioso dizer que a sexualidade de Turing foi um motivo para a sua anonimidade no século XX, apesar do papel que cumpriu nele. O seu projeto era de fato um segredo de Estado, para que pudesse ser continuadamente usado em outras guerras e táticas militares. Como a justificar seu desfecho e conferir mais teor dramático à narrativa, O Jogo da Imitação chega a se aproximar de um boato de caráter histórico já oficialmente questionado envolvendo a aproximação de Turing com espiões russos e uma chantagem que ameaçava revelar sua sexualidade. O roteiro do filme utiliza outros maneirismos para acentuar a tensão, o que é lamentável porque a história confirmada de Turing já é rica o bastante. Há muito que O Jogo da Imitação poderia ter explorado melhor, mas é covarde demais para se afastar do tom de thriller de guerra e fazer de fato um bom estudo de personagem.

Dito isso, eu acho importantíssimo que exista um O Jogo da Imitação. É aí que entra a força do contexto. É crucial que a figura de Alan Turing, uma figura gay e à qual boa parte da tecnologia contemporânea deve a sua existência, seja amplamente conhecida. Não porque “nossos heróis devem ser conhecidos”, longe disso, até porque a importância de um sujeito ou objeto para a sociedade é relativa do ponto de vista da narrativa: se não houvesse uma máquina como a Enigma para ser decifrada, não teríamos Turing e, novamente, não teríamos a computação moderna. O exército alemão não é homenageado pelo cinema porque a história tomou o rumo que tomou, simplesmente.

Não, é importante que Turing exista na memória cultural porque precisamos começar a ver o personagem gay para além da vítima ou do militante LGBT. Estas narrativas também são importantes, mas nós não estamos escassos delas. É preciso um herói de guerra gay, mesmo em um momento em que a própria ideia do herói de guerra vai ficando ultrapassada. Eu costumava relevar os problemas estéticos da série Scandal pelo que esta trazia de novo: uma mulher negra como uma das figuras mais poderosas e perigosas de seu país. É uma parte mínima, mas significativa, do empoderamento cultural das minorias.

Então é provável que O Jogo da Imitação seja cada vez menos necessário. E, assim sendo, também cada vez menos interessante como cinema. É um filme que nasce datado, mas nós estamos vivendo a data dele. Celebrar o filme, o que faço, nunca será tão bom quanto superá-lo. Enquanto isso, luto para que cada pessoa que venha a conhecer o nome de Chris Kyle antes conheça o nome de Alan Turing.

Fonte: Revista Fórum

Reportagem Pública 2015: agora os leitores ocupam a redação

Informativo Agência Pública - 21 de janeiro de 2015
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