agosto 03, 2015

O desastre de Balbina (VALOR ECONÔMICO)

PICICA: "Publicado em 10 de out de 2013
Passados 24 anos desde a construção da usina, permanecem as discussões sobre como minimizar danos ambientais da empreitada"
EM TEMPO: A propósito de uma postagem de Gleice Oliveira sobre "o apodrecimento da Amazônia na beira dos lagos e das hidrelétricas, escrevei sobre o silêncio do PT do Amazonas sobre as hidrelétricas na Amazônia, corroborando Egydio Schwade, uma das raras vozes a quebrar esse pernicioso silêncio: 
  • Egydio Schwade Depois de Balbina, este Monumento à Insanidade Humana, que visitei com Lula a minha esquerda e o então Presidente do PC do B a minha direita, durante o segundo turno das eleições de 1989, para mostrar a eles uma obra que nunca mais deveria ser repetida na Amazônia... É realmente humilhante prá gente ver que o próprio Lula e a sucessora indicada por ele, tantas vezes imitaram em seus governos iguais besteiras, urbanagens, agressões e devastações contra a natureza, os povos e as populações da Amazônia.

  • Rogelio Casado Sou testemunha de que Egydio Schwade é uma das raras vozes a defender as populações da Amazônia, sobretudo quando o assunto é hidrelétrica. Tive o privilégio de entrevistá-lo durante a realização do vídeo "Balbina no País da Impunidade", disponível no blog do Rogelio Casado, onde ele denuncia o desaparecimento de aldeias Waimiri-atroaris, engolidas por ocasião da construção da barragem. Lula recebeu uma cópia do vídeo num comício na Praça da Saudade, em 1989, quando escalei o palanque para entregá-lo a Marisa. Mais tarde Lula diria que os indígenas e quilombos eram um entrave ao desenvolvimento da Amazônia, o que lhe custou uma crítica severa da antropóloga Manuela Carneiro da Cunha nas páginas da Revista de História, da Biblioteca Nacional. Não por acaso os indígenas do Amazonas, em sua grande maioria foram se afastando do PT. A política neo-liberal do Partido dos Trabalhadores, sabe-se hoje, repetiria os mesmos vícios dos velhos esquemas de poder, que tem na relação com empreiteiras um asqueroso pacto político capaz de impor um silêncio obsequioso a ampla maioria dos petistas, para quem velhas palavras de ordem perderam seus sentidos. É hora de romper com as palavras de ordem que regulam as sociedades disciplinares. É hora de desconstruir o espaço destinado ao confinamento e ao adestramento, insuportável aos espíritos livres. É hora de pôr fim à gentrificação urbana e rural (com perdão do exagero conceitual) que máscara a relação do Estado com as velhas raposas do empresariado nacional. Que venham os partidos-movimentos!

O desastre de Balbina

Valor Econômico

BALBINA, destruição e morte. Vídeo de Jaime Sautchuk

PICICA: "Publicado em 1 de fev de 2015
Este vídeo-documentário é um retrato fiel da hidrelétrica de Balbina,construída no rio Uatumã, a 176 Km de Manaus, no Amazonas. A obra é polêmica por representar enorme descaso pelo dinheiro público e impiedosa agressão à natureza. O lago da barragem inundou mais de 2.500 km2para produzir apenas 250 mil kW de energia elétrica por hora. É como se fosse perfurado um poço de petróleo para acender uma lamparina."
Roteiro e direção: Jaime Sautchuk
Produção: João Vianney e Denize Ortiz
Imagens: Hermes Oliveira de Souza
Edição e Imagem: Cláudio Luiz de Oliveira
Fotos: Salomon Crytynowicz
Layout: Vanderley Schelbauer
Realização: Câmera 4
Locução: Marcus Martinelli
Apoio: Conselho Indigenista Missionário
EM TEMPO: Quando Jaime Sautchuk assistiu 2 horas das 8 horas de imagens do meu "BALBINA NO PAÍS DA IMPUNIDADE", ali pelo ano de 1989, logo após o fechamento da última adulfa que barrava o rio Uatumã, ele já havia realizado o mais importante documentário sobre a desastrada construção da barragem de Balbina: "BALBINA, DESTRUIÇÃO E  MORTE". Gentilmente Jaime me cedeu um trecho do seu vídeo, em que o físico José Golbemberg sugere que a matriz energética do Amazonas seja sustentada pelas reservas de gás de Urucum, com a desativação de Balbina e sua manutenção como um "momumento à insanidade humana". O governo do PT não aprendeu a lição. Parte dos seus militantes acompanharam o rumo neodesenvolvimentista adotado pela política neo-liberal do governo federal e são cúmplices de um silêncio criminoso para com o futuro da Amazônia e seus povos. No Amazonas, uma das raras vozes contrárias é de Egydio Schwade, que testemunhou o desaparecimento das aldeias waimiri-atroaris inundadas pela hidrelétrica. Salve, grande Jaime Sautchuk, que a partir deste ano de 2015 tornou acessível aos internautas esse 'clássico' da luta socioambiental (e que só no final da semana passada tomei conhecimento numa pesquisa sobre o tema)! E para os recalcitrantes que insistem com a falsa ideia de que hidrelétricas são matrizes energéticas não poluídoras, recomento a leitura do texto do pesquisador Philip Fearnside "BALBINA: LIÇÕES TRÁGICAS NA AMAZÔNIA".

BALBINA, destruição e morte

Jaime Sautchuk

“‘Balbina no País da Impunidade’ – vídeo de luta contra barragens. Para Telma Monteiro e Elaíze Farias” (RACISMO AMBIENTAL)

PICICA: "Em 1989, o autor desse vídeo, durante um comício em Manaus, entregou uma cópia para o operário que assumiria em 2003 a presidência da república, numa das maiores mobilizações de esperança do povo brasileiro. Mais tarde, o presidente da república faria uma surpreendente declaração ao qualificar os quilombos e os indígenas como um entrave para o desenvolvimento da Amazônia. A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha manifestou sua perplexidade nas páginas da Revista de História da Biblioteca Nacional. Não apenas os compromissos assumidos com a causa indígena estavam sendo rasgados. Esvaia-se, também, a esperança dos povos da floresta. Silenciar sobre a desastrada política energética brasileira é um crime de lesa-humanidade."


“‘Balbina no País da Impunidade’ – vídeo de luta contra barragens. Para Telma Monteiro e Elaíze Farias”




Filmagem realizada por Rogelio Casado em 1989, agora recuperada e postada.


“Em toda a Amazônia estão previstas a criação de 150 hidrelétricas, das quais 60 delas na Amazônia brasileira. A hidrelétrica de Balbina, concebida e construída na ditadura militar (1964-1985) no rio Uatumã (Amazonas), passou a funcionar a partir de 1989, Um bilhão de dólares do dinheiro do contribuinte foi usado para destruir 240 mil hectares de floresta, afogar animais silvestres, alagar terras indígenas e provocar fome e doença entre os ribeirinhos da região. Em troca dessa catástrofe, apenas insignificantes 80 megawatts firmes para Manaus. Passados todos estes anos, o modelo energético brasileiro não sofreu nenhuma revisão em todos os governos após a redemocratização do Brasil.

O físico José Goldemberg, em depoimento, recomendou que Balbina fosse desativada e mantida como um monumento à insanidade humana. O missionário Egydio Schwade denunciou o desaparecimento de várias aldeias indígenas com a construção da barragem. Só a cegueira ideológica não enxerga os impactos socioambientais irreversiveis provocados pelo desenvolvimentismo nacional, em sua nova etapa. Tampouco se aprende com a experiência do passado.


Em 1989, o autor desse vídeo, durante um comício em Manaus, entregou uma cópia para o operário que assumiria em 2003 a presidência da república, numa das maiores mobilizações de esperança do povo brasileiro. Mais tarde, o presidente da república faria uma surpreendente declaração ao qualificar os quilombos e os indígenas como um entrave para o desenvolvimento da Amazônia. A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha manifestou sua perplexidade nas páginas da Revista de História da Biblioteca Nacional. Não apenas os compromissos assumidos com a causa indígena estavam sendo rasgados. Esvaia-se, também, a esperança dos povos da floresta. Silenciar sobre a desastrada política energética brasileira é um crime de lesa-humanidade. A presente edição é dedicada à memória do bispo D. Jorge Marskell, de quando a Igreja Católica estava comprometida com a Teologia da Libertação. Salve Jorge!”


http://www.rogeliocasado.blogspot.com.br/2012/04/balbina-no-pais-da-impunidade-video-de.html

Planejamento energético, os BRICS e uma igreja que sangrou. POR Verena Glass (FUNDAÇÃO ROSA LUXEMBURGO)

PICICA: “Nós, povo Munduruku, aprendemos com nossos ancestrais que devemos ser fortes como a grande onça pintada, e nossa palavra deve ser como o rio, que corre sempre na mesma direção. O que nós falamos vale mais que qualquer papel assinado. Assim vivemos há muitos séculos nesta terra. O governo brasileiro age como a sucuri gigante, que vai apertando devagar, querendo que a gente não tenha mais força e morra sem ar. Vai prometendo, vai mentindo, vai enganando. O governo não quer fazer demarcação porque isso vai impedir as hidrelétricas que eles querem fazer em nosso rio, chamadas de São Luiz do Tapajós e Jatobá. Já que o governo não quer fazer a demarcação, decidimos que nós mesmos vamos fazer. Começamos a fazer a autodemarcação e só vamos parar quando concluir nosso trabalho.” (Xingu Vivo, 2014)

Planejamento energético, os BRICS e uma igreja que sangrou


Caderno_Debates_capa
Este artigo integra a publicação da FASE – leia na íntegra.

Por Verena Glass [1]
Em meados de 2014, coisas estranhas ocorreram em uma das aldeias Munduruku na região de Jacareacanga, no sudoeste do estado do Pará. De acordo com relatos transmitidos de soslaio e meias palavras, uma igreja evangélica na aldeia teria vertido sangue pelas paredes, ao mesmo tempo em que um garoto sofreu possessão, “derrubando todos que estavam no local”. Aterrorizados, os Munduruku queimaram a pequena construção.

O fato, dizem os boatos, ocorreu poucos dias após a volta de um grupo de jovens guerreiros de uma visita à região sagrada das Sete Quedas do rio Teles Pires (afluente do Tapajós), na divisa do Pará com Mato Grosso. A cachoeira fora completamente destruída pelas obras da Usina Hidrelétrica Teles Pires, localizada a apenas 37 km da terra indígena Kayabi (que segue abrigando um grupo Munduruku). Com a morte das Sete Quedas deixou de existir a morada da Mãe dos Peixes, do espírito Karubixexé e dos espíritos dos antepassados. Contaram os guerreiros que, após as primeiras intervenções na cachoeira, foram relatadas inúmeras visagens de uma criança que vagava pelo local, “e aí a Odebrecht foi lá e bombardeou a criança, matando a Mãe dos Peixes”. Uma profunda depressão se abateu sobre os Munduruku, e coisas estranhas começaram a ocorrer em suas aldeias.

Os indígenas Munduruku habitam uma vasta região que se estende ao longo da bacia do rio Tapajós, desde Santarém (baixo Tapajós) a Jacareacanga (alto Tapajós), passando por Itaituba (médio Tapajós). A “Mundurukania”, como foi apelidada por seus defensores, está encravada em uma das áreas mais ricas em biodiversidade e bens minerais (principalmente ouro e diamante) do Pará. Mas seu maior asset econômico, de acordo com o governo federal, está no potencial energético dos rios: segundo o inventário hidrelétrico da bacia hidrográfica Tapajós/Teles Pires, foi detectado um potencial de construção de 42 usinas (pequenas e grandes) na região, com inicio imediato de sete nos rios Tapajós e seu afluente Jamanxim e seis no Teles Pires, para ficarmos no perímetro da Mundurukania.

Agência Pública,
Agência Pública, copyleft [2]

No curto prazo, de acordo com o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2023 do Ministério das Minas e Energia, divulgado em dezembro de 2014, até 2021 está prevista a construção das seguintes hidrelétricas na bacia Tapajós/Teles Pires:

Hidrelétricas Bacia Tapajós/Teles Pires
Usina Rio Estado Operação prevista Potência (MW)
UHE Colider Teles Pires MT 2015 300
UHE Teles Pires Teles Pires MT 2015 1819
UHE São Manoel Teles Pires MT 2017 700
UHE Sinop Teles Pires MT 2018 400
UHE São Luiz do Tapajós Tapajós PA 2020 8.040
UHE Jatobá Tapajós PA 2021 2.338
Fonte: Plano Decenal de Expansão de Energia 2023/Ministério das Minas e Energia.

Em 2012, o governo deu início à intervenção sobre a bacia do Tapajós com a desafetação (diminuição), via Medida Provisória (MP), de cinco Unidades de Conservação (MP nº 558, convertida na Lei nº 12.678, de 25 de junho de 2012). Os Munduruku de um lado, e o Ministério Público Federal de outro, deram início, cada um a seu modo, a uma batalha contra os projetos hidrelétricos. Os indígenas armaram seus guerreiros na defesa do território, e o MPF no Pará e no Mato Grosso foi à Justiça contra ilegalidades que, a exemplo da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, se amontoam sobre os processos de estudo e licenciamento dos empreendimentos em andamento: usinas São Manoel e Teles Pires, no rio Teles Pires, e São Luiz do Tapajós, no Tapajós[3].

Para além do aproveitamento hidrelétrico da Bacia do Tapajós/Teles Pires, no entanto, a região também é considerada de alta prioridade no planejamento infraestrutural hidroviário e portuário do governo brasileiro, com vistas à facilitação do escoamento de commodities agrícolas (principalmente soja e milho) e minerais do Centro-Oeste e Norte. Nesse sentido, integram o projeto Arco Norte – que inclui estruturas portuárias nos estados do Amazonas, Pará, Maranhão e Bahia – a construção da hidrovia Tapajós-Teles Pires, quatro eclusas no Tapajós e seis no Teles Pires, além de terminais portuários em Santarém, Miritituba e Itaituba no Pará[4].

De acordo com Edeon Vaz Ferreira, diretor executivo do Movimento Pró-Logística do Mato Grosso, estes projetos fazem parte da rota de escoamento de grãos do estado via BR 163,que dá acesso a uma estação de transbordo de carga em Miritituba, um distrito da cidade de Itaituba-PA, na margem direita do rio Tapajós, onde se iniciaram as operações no terminal da Bunge; além deste terminal, existem projetos para a implantação de mais nove terminais. Serão dez terminais entre Miritituba e uma localidade chamada Santarenzinho – alguns já com licença de instalação, outros com licença prévia. Todos estes projetos têm participação da iniciativa privada e passam por várias fases”[5].
Todos estes empreendimentos objetivam o barateamento dos custos de exportação para os mercados europeus e asiáticos – entre estes últimos, principalmente a China, cujo acesso aos produtos brasileiros via portos do Norte e Canal do Panamá seria potencialmente facilitado -, e neste contexto passa a ter grande peso a pasta de negociações com os países do BRICS.

De acordo com a Câmara de Comércio Exterior (Camex) do Ministério do Desenvolvimento, no período de janeiro a junho de 2014 o minério de ferro, a soja em grãos e petróleo responderam por mais de ¾ das exportações brasileiras para os demais países do BRICS. “O minério de ferro, principal produto de exportação, responde por 43,5% da pauta. Soja em grãos e petróleo respondem, respectivamente, por 24,1% e 8,8% das exportações brasileiras para os demais BRICS”, afirma documento do órgão[6].

Neste panorama, a China é a principal importadora de produtos brasileiros, equivalendo a 21,2% das exportações do país (quanto aos demais países do bloco, a Índia participa com 7,2 %, a Rússia com 5,5% e a África do Sul com 2,2% das exportações do Brasil). Ainda segundo a Camex, a soja em grãos representou, no período de janeiro a junho de 2014, 50,2 % das vendas do Brasil para a China, seguida de minério de ferro (com participação de 28,2%) e petróleo (6,7%).

Em contrapartida, a China tem sido entre os parceiros do BRICS, o maior investidor em diversos setores no Brasil. De acordo com as instituições americanas The American Enterprise Institute e The Heritage Foundation, que monitoram as operações econômicas da China no mundo, nos últimos nove anos (de 2005 a 2014) empresas chinesas aplicaram mais de US$ 31 bilhões no Brasil, com destaque para projetos de energia (eletricidade e petróleo), mineração e transporte [7].
Investimentos enérgicos

O setor com maior volume de investimentos chineses é o energético. Nele o foco principal são as linhas de transmissão, com destaque para o linhão de Belo Monte, que sairá de Altamira, no Pará, e atravessará os estados do Tocantins, Goiás e Minas Gerais até a subestação de Estreito, na divisa com São Paulo; e as linhas de transmissão da usina de Teles Pires, no Mato Grosso. Mas também há as hidrelétricas, como São Manoel, no Teles Pires (MT), e Cachoeira Caldeirão, no rio Araguari, e Santo Antônio do Jari, no rio Jarí, ambas no Amapá.

Em 2012, os governos brasileiro e chinês subscreveram um Plano Decenal de Cooperação, “com objetivo de assinalar as áreas prioritárias e os projetos-chaves em ciência e tecnologia e inovação; cooperação econômica; e intercâmbios entre os povos dos dois lados de 2012 a 2021”[8]. Além de “encorajar investimentos” nos setores de gás, petróleo, mineração, infraestrutura e transporte, os dois países acordaram “fomentar o investimento em geração e transmissão de energia e promover a cooperação entre empresas dos dois países nas áreas de construção e tecnologia de transmissão de energia” e “reforçar a cooperação em energia nuclear”. Neste último campo, a China, através da China National Nuclear Corporation (CNNC), tem demonstrado forte interesse em entrar no mercado brasileiro com vendas de turbinas para possíveis novas usinas nucleares[9], uma vez que a Rússia se adiantou, logo após a reunião de cúpula dos BRICS em julho de 2014, iniciando negociações entre a estatal Rosatom State Nuclear Energy Corporation e a empreiteira Camargo Correa para cooperação na finalização da usina de Angra 3.

Apesar do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2023 não prever a construção de novas usinas nucleares na próxima década – há apenas uma projeção de aumento da participação da energia atômica no Sistema Integrado Nacional de 1,3% em 2017 para 1,7% em 2023, relativo à possível produção de Angra 3 -, o Ministério das Minas e Energia havia anunciado em 2007, no Plano Nacional de Energia (PNE) 2030, que poderiam ser construídas quatro novas usinas nucleares entre 2015 e 2030. Estes prognósticos podem ser readequados no próximo PNE 2050, a ser publicado no início de 2015, apesar de o próprio Termo de Referência do PNE 2050, já divulgado no final de 2014, listar “riscos de acidentes severos associados à energia nuclear” e altos custos relativos à segurança dos projetos nucleares como fatores indissociáveis deste tipo de matriz.

Nos próximos dez anos, o governo pretende investir R$ 1,3 trilhão nos vários setores energéticos, aponta o PDE 2023. 23,8% dos recursos iriam para energia elétrica, 69,6% para petróleo e 6,5% para biocombustíveis, visando um aumento de 124,8 GW para 195,9 GW no setor elétrico, de 2 milhões para 4,9 milhões de barris/dia na produção petrolífera, de 77,2 milhões para 148,8 milhões de m3/dia na produção de gás natural e de 27,6 para 47,3 milhões de m3/dia na de etanol.

Para justificar esta projeção, no PDE 2023 a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão do Ministério das Minas e Energia (MME) responsável pelos planejamentos energéticos, considera que “há que se destacar, a despeito do contexto pelo qual passa a economia brasileira, que esta nos próximos anos terá um desempenho superior à média mundial”. Ou seja, ainda no final de 2014 a EPE trabalha com um prognóstico de crescimento do PIB brasileiro de 4,3% ao ano, apontando como principais vetores deste milagre investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Plano Nacional de Logística e Transporte (PNLT), com destaque aos relacionados à exploração e produção de petróleo.
Desenvolvimentismo na contramão

O panorama exposto até aqui demanda uma série de questionamentos sobre o futuro que o Projeto Brasil a la Ministério das Minas e Energia – e, porque não dizer, a la BRICS – desenha nos mais diversos campos da vida do país.

Da perspectiva econômica, parece ficção o prognóstico de crescimento de 4,3% do PIB no próximo período – que, de acordo com o MME, justificaria a expansão do parque energético prevista em seus planejamentos. De acordo com o economista Luiz Carlos Bresser Pereira, “a previsão das consultorias econômicas acreditadas junto ao Banco Central prevê que o país crescerá no máximo os mesmos 2% ao ano até 2018”[10] tomando-se como referência a década de 1980, aprofundando-se a tendência da reprimarização da economia, da desindustrialização e da quase estagnação que a caracterizaram no último período.

No início de 2015, a nova equipe econômica do governo Dilma abriu os trabalhos anunciando cortes substanciais nas despesas de várias pastas, não descartando o mesmo procedimento quanto aos investimentos. Aliado a isto, a queda brusca do preço do petróleo no mercado internacional no final de 2014 e a retração dos investimentos neste setor – apontado pelo MME como prioritário nas estratégias de expansão energética do Brasil – pode colocar em cheque os planos principalmente do pré-sal.

No documento “Carbon Supply Cost Curves. Evaluating financial risk to oil capital expenditures” (Curvas de Custo de Fornecimento de Carbono. Medindo o risco financeiro do capital gasto em petróleo), publicado pelo Think Tank inglês Carbon Trackers em meados de 2014 e que trata do perigo da “bolha de carbono” diante da tendência de realocação dos investimentos globais de combustíveis fósseis para fontes renováveis de energia, a Petrobras consta como uma das empresas de mais alto risco do planeta. Ou seja, de acordo com o relatório, para que a exploração de petróleo seja viável diante de custos como os do pré-sal, por exemplo, é preciso que o preço do barril fique acima de US$ 95 (em janeiro de 2015, o barril de petróleo chegou a custar US$ 48,36).

Aparece aqui um aspecto importante que aponta a necessidade de se extrapolar as análises econômicas e considerar outro fator que tem ocupado um espaço crescente nos debates internacionais: as mudanças climáticas. Publicado pela revista Nature em janeiro de 2015, um estudo da University College London (UCL) aponta que um terço das reservas mundiais de petróleo, 50% das reservas de gás e 80% das reservas de carvão terão que permanecer no solo antes de 2050 para que se alcance a meta (prevista para ser adotada na Cúpula do Clima de 2015) de manter o aquecimento global em no máximo 2º C acima das temperaturas médias pré-Revolução Industrial[11]. Neste cenário, há que se avaliar quais as possíveis reações à sanha petroleira do Brasil em âmbito global no futuro próximo e nas negociações multilaterais sobre o clima.

Sócia em três blocos do pré-sal, a China – uma das maiores clientes do petróleo brasileiro no último período – é também neste sentido uma propulsora do que pode vir a ser uma arapuca econômica, política e ambiental para o país no futuro. O mesmo se pode dizer dos projetos hidrelétricos (incluindo usinas e linhões de transmissão) nos quais os chineses estão envolvidos. Segunda maior aposta do governo no campo energético, a geração de hidroeletricidade – principalmente na Amazônia, onde está concentrado o maior número de potenciais barragens – tem constado entre os projetos infraestruturais mais controversos do país do ponto de vista ambiental, social e jurídico, uma vez que sua realização não tem sido viável sem inúmeras violações das diversas legislações socioambientais.

Os complexos hidrelétricos em construção ou planejamento na Amazônia – como as usinas no rio Madeira, em Roraima; Belo Monte no Xingu, no Pará; Teles Pires e São Manoel no Teles Pires, Mato Grosso; São Luiz do Tapajós, no Tapajós, no Pará, e as duas usinas no Amapá – têm acumulado um recorde nunca antes visto de ações judiciais por ilegalidades em seus processos de licenciamento e construção, de desmatamentos em seus entornos, de tragédias humanas e ambientais e de conflitos e resistências sociais. E o mesmo, avaliam especialistas da área, deve se aplicar à construção das linhas de transmissão.

Este desenvolvimento baseado no mantra do crescimento ilimitado e das possibilidades infinitas de exploração dos bens naturais (em nome de uma inclusão social bastante relativa), um “capitalismo benévolo” que aponta, sobretudo, a lidar com a pobreza e a desigualdade com retificações e compensações (Gudynas, 2011), tem colocado o Estado em um papel de protagonista de violações em nome do “interesse nacional” que tem dificultado sobremaneira a defesa dos violados. Ou seja, quando é o Estado que altera marcos legais ou precariza direitos – seja via Código Florestal, Código de Mineração, restrição à demarcação dos territórios de populações tradicionais, desafetação de unidades de conservação, etc., seja via desapropriações compulsórias, intervenções da Advocacia Geral da União em procedimentos judiciais que defendem populações violadas, Suspensões de Segurança, etc. -; quando é o Estado que financia a incursão dos “setores produtivos” sobre os territórios tradicionais (via BNDES ou contratos, convênios e acordos com investidores estrangeiros); quando é o Estado que subdivide o país entre sujeitos colonizadores e sujeitos colonizáveis; e quando, para lograr os projetos desenvolvimentistas, o Estado subverte, converte, alicia, amedronta ou reprime em nome do “bem maior”, as resistências nos territórios enfrentam uma multiplicidade de ofensivas comumente mais letais do que as advindas dos setores privados, e que exigem graus organizativos muitas vezes superiores às disponíveis.

Diante da já mencionada reprimarização da economia nacional, figurando o agronegócio e a mineração como grandes provedores do PIB – via exportações em boa parte para os parceiros BRICS -, é importante apontar que tais “locomotivas da Nação” historicamente dominam também os índices de reconcentração de terras e territórios, de desmatamento, de conflitos sociais e de trabalho escravo[12].

Desta feita, a teia que entrelaça projetos hidrelétricos, projetos infraestruturais, produção de commodities agroindustriais, atividades minerárias e exportações à base de investimentos estatais e estrangeiros é, em boa medida, responsável pelo aprofundamento da aniquilação anímica, espiritual, cultural e, em última instância, econômica de uma parcela crescente da população, em tempos de expectativas decrescentes. Expectativas decrescentes no sentido de que não há mais esperança de melhora, de avanços sociais, de lutas reivindicatórias e de ampliação de direitos, restando, no campo das lutas socioambientais, prioritariamente as resistências.

As maiores vítimas destes processos? Sem dúvidas as populações mais frágeis e seus territórios – os “retardatários” do desenvolvimento – e a Democracia, como pontua o filósofo Paulo Arantes.

“O desenvolvimentismo significa progresso acelerado, progresso no sentido material. E quando você acelera uma máquina social e econômica, você tem que afastar quem está na frente atrapalhando o trânsito. Pode ser índio, pode ser grevista, pode ser black bloc, quem estiver atrapalhando o trânsito, por vontade de atrapalhar ou por ser retardatário (os índios são retardatários, eles estão ocupando porções do território que têm que ser valorizadas para o Capital), você erradica. (…) Quando você entra nos megaeventos, nos megaprojetos na Amazônia, meganegócios, nós voltamos à grandeza do projeto Brasil Potência. E quem formulou este projeto? Foram os militares. A ditadura saiu, mas o projeto ficou” (Arantes, 2014).

"Para evocar a inteligência e a estratégia de defesa desse bicho, os homens pintam a pele com traços iguais aos da casca do jabuti". Foto: Marcio Isensee e Sá - publicada na mencionada reportagem da Agência Pública.
“Para evocar a inteligência e a estratégia de defesa desse bicho, os homens pintam a pele com traços iguais aos da casca do jabuti”. Foto: Marcio Isensee e Sá – publicada na mencionada reportagem da Agência Pública.

Posfácio

Em outubro de 2014, uma comissão de guerreiros Munduruku do Tapajós se reuniu em Brasília com a Fundação Nacional do Índio (Funai) para questionar a demora da publicação do relatório circunstanciado que reconhece os limites da Terra Indígena (TI) Sawre Muybu (ver mapa no início deste texto), finalizado por técnicos do órgão ainda em 2013. Nesta reunião, registrada em vídeo[13] pelos indígenas, a então presidente da Funai, Maria Augusta Assirati, explica que os estudos e o mapa com as coordenadas da TI não foram oficializados porque outros órgãos do governo federal passaram a discutir a demarcação, que, se aprovada, inviabilizaria legalmente a construção da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós.

Em novembro, os Munduruku decidiram agir.

“Nós, povo Munduruku, aprendemos com nossos ancestrais que devemos ser fortes como a grande onça pintada, e nossa palavra deve ser como o rio, que corre sempre na mesma direção. O que nós falamos vale mais que qualquer papel assinado. Assim vivemos há muitos séculos nesta terra. O governo brasileiro age como a sucuri gigante, que vai apertando devagar, querendo que a gente não tenha mais força e morra sem ar. Vai prometendo, vai mentindo, vai enganando. O governo não quer fazer demarcação porque isso vai impedir as hidrelétricas que eles querem fazer em nosso rio, chamadas de São Luiz do Tapajós e Jatobá. Já que o governo não quer fazer a demarcação, decidimos que nós mesmos vamos fazer. Começamos a fazer a autodemarcação e só vamos parar quando concluir nosso trabalho.” (Xingu Vivo, 2014).

Afirmaram em carta pública. E assim foi feito[14].
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Referências bibliográficas

GUDYNAS, Eduardo. Crisis civilizatória y desafíos para las izquierdas. In Mas allá del desarrollo. Quito, Ediciones Abya Yala/Fundación Rosa Luxemburgo: 2011. [download na íntegra]

ARANTES, Paulo. A esquerda finge que está governando sociedades orientadas para o futuro, TV Carta Maior, maio de 2014.

MOVIMENTO XINGU VIVO. Munduruku do Tapajós denunciam má fé em negociação sobre consulta; governo volta a recuar, Xingu Vivo, novembro de 2014.

BRASIL. MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Plano Decenal de Expansão de Energia 2023. Brasil, MME: dezembro de 2014.

BRASIL. Plano Decenal de Cooperação entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República Popular da China, Sistema Consular integrado, junho de 2012. Brasil, 2012.

Notas

[1] Verena Glass é jornalista e coordenadora de projetos da Fundação Rosa Luxemburgo no Brasil.

[2] O mapa está na matéria da Pública A batalha pela fronteira Munduruku.

[3] Informações sobre a luta Munduruku podem ser encontradas no site do Movimento Xingu Vivo e no Blog da Autodemarcação Munduruku, construído a partir da luta pela autodemarcação da TI Sawre Muybu. Já as Ações Civis Públicas do MPF: Procuradoria da República no Pará e Procuradoria da República em Mato Grosso. Recomendamos também a leitura da matéria de Ana Aranha, na Agencia Pública, A batalha pela fronteira Munduruku.

[4] Capacidade de exportação pelo Arco Norte aumentará em 6 milhões de toneladas, RENAI – Rede Nacional de Informações sobre Investimentos via Ministério da Agricultura, novembro de 2014.

[5] Entrevista com Edeon Vaz Ferreira, Agroanalysis, abril de 2014.

[6] O Brasil, os demais BRICS e a agenda do setor privado, Camex, julho de 2014.

[7] China Global Investment Tracker, mapa interativo e levantamento de dados sobre investimentos globais chineses elaborados pela American Enterprise Institute e The Heritage Foundation.

[8] Plano Decenal de Cooperação entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República Popular da China, Sistema Consular integrado, MRE, junho de 2012.

[9] Chinesa CNNC busca negócios no Brasil, Associação Brasileira de Energia Nuclear, outubro de 2014.

[10] A quase-estagnação brasileira e sua explicação novo-desenvolvimentista, FGV, setembro de 2014.

[11] Study identifies which fossil fuel reserves must stay in the ground to avoid dangerous climate change, UCL Institute for Sustainable Resources, janeiro de 2015.

[12] Juntas, empresas de ambos os setores constantes da Lista Suja do Trabalho Escravo contabilizam 11.101 trabalhadores libertos nos últimos anos, como indica a última atualização do cadastro em julho de 2014.

[13] Funai admite: interesse hidrelétrico compromete demarcação de Território Indígena, vídeo com a então presidente da Funai, Maria Augusta Assirati, outubro de 2014.

[14] A autodemarcação da TI Sawre Muybu ainda estava em curso quando este texto foi escrito.

Fonte: Fundação Rosa Luxemburgo

O texto que incendiou Espanha: para reler quando o desemprego ultrapassou os cinco milhões. Texto de Juan José Millás (DINHEIRO VIVO)

PICICA: "14 de Agosto de 2012. "Um canhão pelo cú" e "As relações impossíveis: Economia real- Economia financeira", eram os dois títulos do texto que Juan José Millás publicava na secção de cultura do El Pais. Em poucos dias tornou-se viral: 19000 shares no Facebook, 15 mil tweets, um país indignado. Hoje, Espanha está ainda pior, com quase 6 milhões de pessoas no desemprego."

O texto que incendiou Espanha: para reler quando o desemprego ultrapassou os cinco milhões


Texto foi publicado no El Pais
D.R.
04/12/2012 | 12:08 |  Dinheiro Vivo 

14 de Agosto de 2012. "Um canhão pelo cú" e "As relações impossíveis: Economia real- Economia financeira", eram os dois títulos do texto que Juan José Millás publicava na secção de cultura do El Pais. Em poucos dias tornou-se viral: 19000 shares no Facebook, 15 mil tweets, um país indignado. Hoje, Espanha está ainda pior, com quase 6 milhões de pessoas no desemprego.

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Um canhão pelo cú

Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.

Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.

Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.

E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.

Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.

A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.

Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.
"Um canhão pelo cú" e "As relações impossíveis: Economia real- Economia financeira", são os títulos do texto de Juan José Millás

Fonte: Dinheiro Vivo

agosto 02, 2015

Cosme e a memória cinematográfica do mundo. POR José Geraldo Couto (BLOG DO IMS)

PICICA: "Dizer que Tudo por amor ao cinema, de Aurelio Michiles, é um documentário sobre um preservador de filmes pode dar a ideia de que se trata de uma obra aborrecida e de interesse restrito. Nada mais falso. Mais que uma justa homenagem a uma figura central de nossa cultura cinematográfica, o que vemos na tela é uma ode ao próprio cinema como instrumento de preservação da memória e de cultivo da fantasia."


Cosme e a memória cinematográfica do mundo

POR José Geraldo Couto José Geraldo Couto: no cinema | 31.07.2015


Dizer que Tudo por amor ao cinema, de Aurelio Michiles, é um documentário sobre um preservador de filmes pode dar a ideia de que se trata de uma obra aborrecida e de interesse restrito. Nada mais falso. Mais que uma justa homenagem a uma figura central de nossa cultura cinematográfica, o que vemos na tela é uma ode ao próprio cinema como instrumento de preservação da memória e de cultivo da fantasia.


Cosme Alves Netto (1937-96), o retratado, foi durante décadas o responsável pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Sua importância no setor só pode ser comparada à do crítico Paulo Emilio Salles Gomes, fundador da Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Mas se Paulo Emilio era um intelectual refinado, um mestre das letras, Cosme, embora também muito culto e articulado, era sobretudo um homem de ação. Seu fascinante percurso pessoal se confunde com boa parte da história cultural e política brasileira da segunda metade do século 20.

Contra a censura e a destruição

Nascido em Manaus, filho de um político e grande empresário, Cosme passou a adolescência no Rio, mas teve de voltar ao Amazonas para ajudar a tocar os negócios do pai. Só o que fez foi desviar recursos das empresas paternas para a formação de um cineclube, aluguel de filmes, impressão de folhetos etc. Trocou a fortuna material da família pela fortuna imaginária e afetiva do cinema. Voltou ao Rio, envolveu-se com a esquerda católica, foi preso e torturado pela ditadura e desenvolveu no MAM uma arriscada estratégia dupla para salvar filmes da censura e da destruição.


Cena do documentário
Por um lado, Cosme guardava sob nomes falsos os rolos de filmes visados pelo regime. As latas de Cabra marcado para morrer, por exemplo, receberam o rótulo insuspeito de Rosas do campo. Por outro lado, percorria as distribuidoras cinematográficas para ficar clandestinamente com uma cópia de cada um dos filmes condenados à destruição depois de vencida a validade do certificado de censura. Salvou assim grandes clássicos da cinematografia mundial.

A trajetória fascinante dessa generosa figura humana é evocada vividamente no documentário por meio de um rico material de arquivo e de depoimentos de gente que conviveu com o biografado. Mais que isso: são os próprios filmes – brasileiros, russos, franceses, americanos – que dão vida à história de Cosme.

Alguns exemplos ao acaso. Um entrevistado (o cineasta Geraldo Moraes) conta que Cosme estava prestes a embarcar num ônibus para fugir do Rio, na época da ditadura, quando apalpou o bolso e viu que estava com uma inconveniente agenda de contatos. O que vemos na tela é o protagonista de Pickpocket, de Robert Bresson, fazendo um gesto idêntico. Quando alguém diz que Cantando na chuva era o filme favorito do retratado, o que se vê, ao som de uma bela versão acústica do célebre tema do musical, é uma cena de Aviso aos navegantes, de Watson Macedo, em que um dançarino executa graciosos passos de frevo com um guarda-chuva na mão. Cenas de Encouraçado Potemkin ilustram uma evocação da revolta de marinheiros brasileiros às vésperas do golpe de 64.

O mundo como um filme

A par dessa sua porosidade à memória cinematográfica do mundo, dessa reconstrução de nosso imaginário a partir dos filmes, o documentário também potencializa e multiplica os sentidos de cada momento narrado. A escolha inspirada das imagens, bem como sua organização na montagem e sua articulação com a trilha sonora, criam efeitos de suspense, drama, épico ou comédia, como se o mundo só pudesse ser decifrado e reconstituído por meio do cinema, desse fabuloso alfabeto que aprendemos a amar.

Mas não há redundância ou previsibilidade nessa operação, como nos documentários (ou “reportagens” televisivas) em que o drama de uma pessoa é intensificado pela música melosa, pelo close na lágrima etc. Longe disso. Muitas vezes o que se produz aqui é um contraste inesperado, um atrito criativo. Quando a viúva de Cosme, Gloria Barbosa, relembra que ele, já perto da morte, lhe falou do sonho de estar no grande relógio de uma igreja, segurando o ponteiro para o tempo parar, o que vemos é Harold Lloyd pendurado comicamente nos ponteiros de um relógio no alto de um arranha-céu, numa comédia muda. O cinema não apenas retrata as dores do mundo, mas às vezes as atenua, sublima, consola. Enaltecer Cosme Alves Netto é enaltecer o cinema, e vice-versa.



José Geraldo Couto

José Geraldo Couto é crítico de cinema, jornalista e tradutor. Trabalhou durante mais de vinte anos na Folha de S. Paulo e três na revista Set. Publicou, entre outros livros, André Breton (Brasiliense), Brasil: Anos 60 (Ática) e Futebol brasileiro hoje (Publifolha). Participou com artigos e ensaios dos livros O cinema dos anos 80 (Brasiliense), Folha conta 100 anos de cinema (Imago) e Os filmes que sonhamos (Lume), entre outros. Escreve regularmente sobre cinema para a revista Carta Capital.

Fonte: Blog do IMS

Marcel Proust - Une vie d'écrivain [1992] [Subtítulos en español]

PICICA: "Documental sobre la vida y obra de Marcel Proust en el que se describen las relaciones que el autor de "En busca del tiempo perdido" tuvo con sus padres, con Alfred Agostinelli (uno de sus amores) y con su ama de llaves Céleste Albaret (quien fue la responsable por salvaguardar su obra). Se abordan, entre otros temas, la ascensión social de Proust en el círculo de los salones de la aristocracia parisina, su ascendencia judía y la participación que tuvo en el caso Dreyfus, su homosexualidad, el proceso de escritura y de publicación de sus obras. El documental cuenta con testimonios de contemporáneos de Proust como Jean Cocteau, François Mauriac, Paul Morand y Céleste Albaret; así mismo, de escritores y críticos como Roger Shattuck, Shelby Foote e Iris Murdoch."

Marcel Proust - Une vie d'écrivain [1992] [Subtítulos en español]

Odhn Rimbaud

O cuidado também é masculino (CLAM)

PICICA: "Diferenças culturais e contextuais influem diretamente no significado de ser pai. Em alguns países os homens passam menos tempo com os filhos, enquanto em outros contextos homens e mulheres já dividem de forma mais igualitária o cuidado e as tarefas domésticas.
[...]
Para Gary Barker, diretor internacional do Promundo e um dos autores do Relatório Global sobre Paternidade, o desafio anda é um maior envolvimento dos homens no cuidado (da casa, dos filhos, etc.) e nas tarefas domésticas, o que só será possível de ser alcançado com mudanças nas normas sociais (particularmente na forma como meninas e meninos são educados), em políticas publicas e nas estruturas nos locais de trabalho. “Precisamos passar a ver o cuidado como sendo uma tarefa nem masculina nem feminina, que os homens são capazes de fazer. Em termos de políticas públicas, precisamos de uma licença parental igual para pais e mães, e de empregadores que vejam homens e mulheres como trabalhadores/as e como cuidadores/as”."

O cuidado também é masculino



Diferenças culturais e contextuais influem diretamente no significado de ser pai. Em alguns países os homens passam menos tempo com os filhos, enquanto em outros contextos homens e mulheres já dividem de forma mais igualitária o cuidado e as tarefas domésticas. O que é comum no mundo mais industrializado é a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho nos últimos 40-50 anos: hoje elas representam 40% da força de trabalho no mundo. Com uma maior escolarização feminina e a cada vez mais crescente participação das mulheres no mercado de trabalho – embora globalmente elas ainda recebam 24% menos que os homens –, mudanças nas famílias já são perceptíveis em diversas partes do mundo: as brasileiras, por exemplo, estão tendo filhos mais tarde e se tornando chefes de família em mais domicílios no país, segundo dados de relatório sobre gênero divulgado em 2014 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cuja análise compara dados dos censos de 2000 e 2010. De acordo com o relatório, em 2000 as mulheres comandavam 24,9% dos 44,8 milhões de domicílios brasileiros. Em 2010, essa proporção cresceu para 38,7% dos 57,3 milhões de domicílios – um aumento de 13,7 pontos percentuais. São mulheres que desempenham uma dupla jornada: além de trabalhar fora, ainda são responsáveis pelas atividades domésticas de cuidado com o lar e com os filhos.

A situação brasileira reflete um quadro que ainda se apresenta como desafio em diversas partes do mundo: embora as mulheres representem 40% da mão-de-obra global, elas continuam a realizar de duas a 10 vezes mais tarefas domésticas e de cuidado do que os homens. Ou seja, as mulheres passaram a assumir mais responsabilidades fora de casa (particularmente na força de trabalho), mas os homens não estão entrando no mundo doméstico na mesma velocidade, conforme aponta o Relatório Global sobre Paternidade (Stateoftheworld’sfathers), publicação recém-lançada (originalmente em inglês) pela MenCare, campanha global da organização Promundo pela promoção da equidade de gênero através de um maior envolvimento dos homens nas responsabilidades relativas ao cuidado, à parentalidade, à prevenção da violência doméstica, ao planejamento familiar e à saúde dos filhos.

De acordo com o relatório, aproximadamente 80% dos homens irão se tornar pais biológicos em algum momento de suas vidas, e virtualmente todos os homens têm alguma conexão com crianças – como parentes, professores, treinadores ou mesmo vizinhos. Sejam eles pais biológicos, padrastos, pais adotivos, irmãos, tios ou avôs; ou vivam eles com seus filhos e filhas ou não, a participação masculina nas tarefas do cuidado diário tem uma forte influência na vida das crianças, das mulheres e no mundo à sua volta, aponta o estudo da MenCare.

Alguns achados do relatório: filhas cuja criação os pais dividem igualitariamente têm maior probabilidade de aspirar posições menos tradicionais no mercado de trabalho e se engajarem em empregos com maiores salários; homens que cresceram vendo seus pais engajados no trabalho doméstico tendem a se envolver, quando adultos, nas tarefas da casa e do cuidado.

No entanto, a participação masculina no cuidado e no trabalho doméstico não tem acompanhado a crescente participação feminina no trabalho fora de casa. O relatório do Promundo cita, por exemplo, um estudo sobre tendências da participação dos homens entre 1965 e 2003 em 20 países, que mostra um aumento médio de seis horas semanais na contribuição de homens casados e empregados no trabalho de casa e no cuidado com os filhos. Ainda assim, a contribuição masculina não excedeu os 37% de contribuição feminina nessas tarefas naqueles mesmos países, salienta o relatório.

Entretanto, ainda de acordo com o Relatório Global sobre Paternidade, a situação se perpetua a despeito da vontade dos homens: muitos pais ao redor do mundo afirmam querer passar mais tempo com seus filhos. Dados da InternationalMenand GenderEqualitySurvey (IMAGES) mostram que a maioria dos pais (variando de 61% na Croácia a 77% no Chile) reportam que trabalhariam menos fora de casa se isto significasse poder passar mais tempo com seus filhos. Em outro estudo citado pelo relatório da MenCare, 46% dos pais norte-americanos afirmam que não passam tempo suficiente com seus filhos, contra 23% das mães entrevistadas.

Para Gary Barker, diretor internacional do Promundo e um dos autores do Relatório Global sobre Paternidade, o desafio anda é um maior envolvimento dos homens no cuidado (da casa, dos filhos, etc.) e nas tarefas domésticas, o que só será possível de ser alcançado com mudanças nas normas sociais (particularmente na forma como meninas e meninos são educados), em políticas publicas e nas estruturas nos locais de trabalho. “Precisamos passar a ver o cuidado como sendo uma tarefa nem masculina nem feminina, que os homens são capazes de fazer. Em termos de políticas públicas, precisamos de uma licença parental igual para pais e mães, e de empregadores que vejam homens e mulheres como trabalhadores/as e como cuidadores/as”.

Enquanto a licença maternidade é oferecida em quase todos os países, apenas 92 oferecem a licença paternidade; na metade desses países, a licença é de menos de três semanas. Com relação a essas políticas, as legislações mais avançadas são as escandinavas e a canadense, que reservam tempo para o homem e para a mulher (ou para ambos, em caso de casal homossexual). Cada um tem sua cota de uma licença parental que nãoé transferível, éremunerada e tem duração de até um ano. O casal pode ter seis meses de licença cada um. E podem usar esse tempo até que o filho tenha oito anos de idade (12 em alguns países).

“A licença para os pais é um passo vital no sentido do reconhecimento da importância da divisão no cuidado com a criança e da igualdade de gênero em casa, no trabalho e na sociedade como um todo. No Reino Unido, os pais que tiraram licença participaram mais na alimentação das crianças e acordaram com os bebês à noite até doze meses mais tarde, quando comparados com os pais que não a tiraram. Além disso, a licença paternidade também parece levar a uma melhora na saúde materna – incluindo a saúde mental – e a reduzir o stress parental”, avalia Gary Barker.

Para ele, embora os homens tenham começado a fazer mais tarefas em alguns países, a mudança ainda é lenta. “No Brasil, vimos que de 2000 a 2010, as mulheres com filhos reduziram de 23 horas semanais em média para 20 horas em tarefas domésticas e no cuidado coma família.Os homens aumentaram de 10 horas para 10 horas e 8 minutos em média. Ou seja, a esta velocidade de mudança, levaríamos mais de 50 anos para chegar à equidade na divisão sexual do trabalho doméstico”, revela o pesquisador.

O relatório também observa que a participação e o suporte dos homens também são vitais para que todos os filhos sejam desejados pelo casal. “No mundo inteiro, as mulheres continuam sendo as maiores responsáveis pelo uso de métodos contraceptivos, ou seja, ainda recai sobre elas a responsabilidade reprodutiva: 75% dos métodos atualmente em uso são utilizados pelas mulheres. A concepção acontece nos corpos das mulheres, mas precisamos conversar muito mais sobre o papel dos homens nesse processo, envolvê-los mais sem nunca tirar o poder da mulher sobre seu próprio corpo e suas decisões”, afirma o diretor da Promundo.

O relatório mostra ainda como o envolvimento e o apoio de pais antes, durante e depois do parto tem efeitos positivos na saúde materna. Em países de baixa e média renda, a presença dos homens nas consultas pré-natais varia significativamente – de 18% no Burundi a 96% nas Maldivas. Para os autores, a promoção do envolvimento dos pais deve também incluir esforços para interromper os ciclos de violência: aproximadamente uma e cada três mulheres é vítima de violência por parte de seu parceiro, e três quartos das crianças entre dois e 14 anos de países de baixa e média renda experimentam alguma forma de violência disciplinar em casa. Estas violências coexistem:. O relatório chama a atenção que entre 45% e 70% das crianças cujas mães foram vítimas de violência doméstica, também experimentarão violência física.

“Pesquisas confirmam que alguns tipos de violência – particularmente a violência de homens contra as parceiras mulheres – são frequentemente transmitidos de uma geração para outra. Dados de oito países demonstram que homens que, quando crianças, viram suas mães serem agredidas por seus parceiros têm aproximadamente 2,5 vezes mais propensão de usar de violência contra suas parceiras quando adultos. Uma divisão de trabalho e cuidado mais igualitária está associada com índices menores de violência. Um estudo norueguês mostra que a violência contra crianças – perpetrada por mães e pais – acontecia em lares onde a divisão do trabalho era menos igualitária”, salienta Barker.
 
Para o pesquisador, a importância do Relatório Global sobre Paternidade se deve ao fato de ser esta a primeira vez que o tema é tratado como sendo de relevância global, para se alcançar a equidade de gênero eum maior bem-estar das crianças. “É uma tentativa de introduzir na agenda global a necessidade dos homens realizarem 50% das tarefas de cuidado, tradicionalmente uma responsabilidade que sempre recaiu sobre as mulheres. É a primeira vez que a ONU e tantas ONGs internacionais unem esforços para dizer que precisamos pensar o cuidado como também sendo masculino. Que os homens também devem cuidar, podem cuidar e precisam de apoio – como as mulheres e mães precisam – para cuidar”, conclui.

Clique aqui para ler o relatório. (Texto em inglês)

Publicada em: 30/07/2015

Fonte: CLAM

agosto 01, 2015

Guernica - Alain Resnais e Robert Hessens (1950)

PICICA: "Guernica - Alain Resnais e Robert Hessens (1950) - Legendado em Portugues (BR)
Documentário"

Guernica - Alain Resnais e Robert Hessens (1950) - Legendado em Portugues (BR)

industriadeplasticos

Jesus de Montreal - 1989. Uma crítica à sociedade contemporânea, à mídia, à cultura e à igreja

PICICA: "O filme trata de um grupo de atores de Montreal contratados para encenar a paixão de Cristo, com um ator chamado Daniel no papel de Jesus. Entretanto, a interpretação do grupo sobre a vida de Cristo é pouco convencional e, apesar da produção se tornar a sensação da cidade, a Igreja Católica se opõe firmemente à sua interpretação bíblica e tenta impedir os atores. O filme é estruturado de forma que a vida de Daniel corre em paralelo com aquela de Cristo. Na cena de abertura, um ator aponta Daniel e diz que ele é "muito melhor ator", o que ecoa a previsão de João Batista sobre a chegada do messias. A cabeça do primeiro ator é mais tarde usada em uma propaganda, um paralelo com a decapitação de João Batista. Os atores então se reúnem para a peça, alguns deles abandonando trabalhos seguros para tal, remetendo a Jesus reunindo seus discípulos. Daniel estraga uma sessão para seleção de elenco de um comercial, assim como Jesus expulsou os agiotas do Templo. Sua prisão e aparição diante da côrte se assemelha a Jesus diante de Pôncio Pilatos.
O ambicioso advogado que arranja uma grande carreira comercial para Daniel, olhando de cima de um arranha-céus na cidade, refere-se à tentação de Cristo pelo diabo de cima de um alto cume. Milagres atribuídos a Jesus, assim como a encarnação, fazem um paralelo com Daniel a se tornar doador de órgãos, e a fundação da igreja se torna os planos para uma companhia experimental de teatro."

Jesus de Montreal - 1989 - Legendado Português - Filme Completo

Walter Santos
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Jesus de Montreal. Uma crítica à sociedade contemporânea, à mídia, à cultura e à igreja

Uma sociedade com valores perdidos, obcecada e movida pelo consumo. Uma mídia destruidora, que faz o que quer com os indivíduos e uma igreja tradicional que só aceita a versão clássica de Cristo. Jesus de Montreal (1989, 118min), do canadense Denys Arcand é uma critica a sociedade atual. O filme aborda problemas de egoísmo, individualismo e consumismo, diz o Prof. Dr. José Baldissera, da Unisinos.  

Diferente da maioria dos filmes produzidos sobre a vida de Cristo, Jesus de Montreal, embora seja uma releitura do Evangelho de São Marcos, não é um filme de época que tenta retratar a vida do Salvador e sim, uma tradução das palavras de Jesus para nossos dias. O longa-metragem apresenta um cristo atual e concreto, representado no jovem ator Daniel Coulombe, (interpretado por Lothaire Blutheau) que fala para uma humanidade insensível e indiferente com o próximo. 

No filme, a vida de Jesus é encenada através da peça teatral A Paixão. A escolha do diretor pelo grupo de teatro, diz o Prof. Dr. José Baldissera, da Unisinos, é para mostrar que tudo é uma interpretação, e dispara “Nós não conhecemos Jesus, então o que ele (diretor) quer dizer é que nem a igreja conhece”, fazendo uma critica ao clérigo. Embora tenha sido pouco badalado, Jesus de Montreal é sem dúvida o filme que melhor representa a falta de compreensão da sociedade na mensagem de Cristo. Para a Prof. Dra. Cleusa Andreatta, da Unisinos, o filme trata sobre a busca da humanidade por algo mais, a busca por valores mais consistentes que dão sentido à vida humana. 

O momento mais marcante e comentado pelo público na exibição de Jesus de Montreal, foi a maneira como o diretor retratou a ressurreição através da doação de órgãos. A morte como algo positivo e que proporciona o renascimento de novas vidas. De todos os filmes, esse é uma das melhores atualizações para nossos dias, diz a Prof. Dr. Cleusa Andreatta, da Unisinos. “Ele proporciona a discussão critica sobre situações da sociedade atual e é ao mesmo tempo uma reflexão sobre o sentido de nossas próprias vidas”, conclui. 

O Ciclo de Filmes e Debates Jesus no Cinema  termina no próximo sábado, 31-03-2007, com a exibição do filme A paixão de Cristo (2004, Mel Gibson, 126min.). O debate será conduzido pelo Prof. Dr. Érico Hammes – PUCRS. O encontro está marcado para as 8h30min, na Livraria Padre Réus, em Porto Alegre. 

O mesmo Ciclo foi realizado na Casa do Trabalhador em Curitiba, promovido pelo Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - CEPAT. A última sessão realizou-se no domingo passado.

Fonte: IHU

Ingmar Bergman chega aos cinemas em cópia restaurada (IHU)

PICICA: "Em 1956, o jovem Ingmar Bergman - na época, com 38 anos - já possuía uma sólida reputação (e admiradores) por filmes como Mônica e o Desejo, Noites de Circo e Sorrisos de Uma Noite de Verão. Mas o melhor ainda estava por vir, e começou justamente naquele ano, com O Sétimo Selo. Seguiram-se Morangos Silvestres e todas as obras-primas dos anos 1960, 70, 80... Bergman morreu em 2007, com quase 90 anos, consagrado como um dos grandes do cinema. Comemora-se neste mês de julho o nascimento do diretor (dia 14) e oito anos de sua morte (dia 30). Por conta disso, a Zeta Filmes e a FJ Cines escolheram Bergman, e O Sétimo Selo, para lançar um projeto que vai fazer a alegria dos cinéfilos pelos próximos meses."

Ingmar Bergman chega aos cinemas em cópia restaurada

Em 1956, o jovem Ingmar Bergman - na época, com 38 anos - já possuía uma sólida reputação (e admiradores) por filmes como Mônica e o Desejo, Noites de Circo e Sorrisos de Uma Noite de Verão. Mas o melhor ainda estava por vir, e começou justamente naquele ano, com O Sétimo Selo. Seguiram-se Morangos Silvestres e todas as obras-primas dos anos 1960, 70, 80... Bergman morreu em 2007, com quase 90 anos, consagrado como um dos grandes do cinema. Comemora-se neste mês de julho o nascimento do diretor (dia 14) e oito anos de sua morte (dia 30). Por conta disso, a Zeta Filmes e a FJ Cines escolheram Bergman, e O Sétimo Selo, para lançar um projeto que vai fazer a alegria dos cinéfilos pelos próximos meses.

A reportagem é de Luiz Carlos Merten, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, 24-07-2015.

As duas empresas estão lançando cópias restauradas e digitalizadas de sete filmes que fazem parte do imaginário do cinéfilo. E, depois de O Sétimo Selo, que reestreia no Cinesesc (1), virão - A Doce Vida, de Federico Fellini, em agosto; o Nosferatu de Werner Herzog, em setembro; Mamma Roma, de Pier-Paolo Pasolini, em outubro; Morangos Silvestres, outro de Ingmar Bergman, em novembro; Fitzcarraldo, mais um de Werner Herzog, em dezembro; e em janeiro, fechando a série, Oito e Meio, a obra-prima de Federico Fellini. Todos em cópias novíssimas, com imagens e som restaurados e impecáveis.

Você já pode avaliar a qualidade da restauração assistindo a O Sétimo Selo. Há quase 60 anos, quando o filme surgiu, desconcertou muita gente e até provocou polêmica. Para quem toma o cinema, ao pé da letra, como uma arte realista a alegoria medieval de Bergman, em que um cavaleiro enfrenta a Morte num jogo de xadrez, só pode ser motivo de espanto. Mas, se você entra no clima, e é difícil não entrar - tal a beleza e intensidade da obra -, será fisgado por seu triplo significado. Estético, humano e metafísico.

Bergman voltaria ao universo medieval, três anos mais tarde, com A Fonte da Donzela, mas O Sétimo Selo é melhor. Algo se passa desde as primeiras cenas. O cavaleiro e seu escudeiro frente ao mar, as ondas plácidas, o tabuleiro armado para o jogo de xadrez e a presença hierática da morte. O cavaleiro é interpretado por Max Von Sydow, o escudeiro é Gunnar Bjornstrand e a morte é Bengt Ekerot. O cavaleiro volta depois de dez anos nas Cruzadas. Está cheio de dúvidas e desafia a morte para jogar em busca, quem sabe, de alguma revelação. No caminho - o formato é de road movie existencial, como será, mais tarde, Morangos Silvestres -, encontram, o escudeiro e ele, uma procissão de penitentes, uma taberna em que a humanidade sem rumo tenta satisfazer sua fome de comida e de sexo, e uma família de artistas mambembes. De novo como em Morangos, Bibi Andersson ilumina o filme com seu sorriso luminoso. No limite, o cavaleiro vai trapacear para salvar a família da morte.

O mais importante em O Sétimo Selo, o que faz a aura do filme, é que Bergman se vale do auto medieval para abordar questões contemporâneas. O cavaleiro é um homem moderno e suas indagações sobre a existência de Deus e questões eróticas e psicológicas não diferem em nada da tensão de outros filmes que Bergman inscreveu na atualidade, embora no caso dele talvez se deva dizer 'intemporalidade'. Não há um tempo preciso na maioria dos filmes de Bergman, mas as questões são sempre pertinentes e universais. O curioso é que O Sétimo Selo teve uma cria, anos depois, e foi Macário, do mexicano Roberto Gavaldón, com Ignazio Lopes Tarso como o homem que fala com a morte e, assim, descobre quem vai viver ou morrer. Ele adquire fama numa sociedade como a mexicana, que celebra o culto dos mortos, mas quando mais precisa da clemência da morte, no leito de um moribundo, ela lhe volta as costas. Não tendo envelhecido, esses filmes pertencem a um tempo marcado por indagações profundas.

Nota da IHU On-Line: O filme Sétimo Selo, pode ser visto, em Porto Alegre, em sessão única, às 17h30min, no Cine Itaú, no Bourbon Country.

Fonte: IHU