setembro 04, 2015

A Estetyka do Sonho de Glauber Rocha, por Fernando do Valle (ZONACURVA)

PICICA: "Para além da luta de classes, Glauber rechaça o pensamento tacanho da classe média e confia na mitologia transformadora de nossas raízes índias e negras. O novo Brasil só pode ser construído através da força da cultura desses povos presentes em nossa formação como nação mestiça.

Se estivesse vivo, Glauber chutaria para escanteio a mediocridade reinante no debate político. Em altos brados, retumbantes ou não, proporia uma nova estetyka para esses anos 10 deste novo século, longe da ética televisiva (ou de Netflix) reinante, esse “King Kong eletrônico que sistematiza o discurso opressivo sobre o Terceiro Mundo”, segundo o próprio.

A Estetyka do Sonho sucedeu outro manifesto glauberiano, Estetyka da Fome (1965). No último, “a estética da violência poderia integrar um significado revolucionário em nossas lutas de liberação… [já que] nossa pobreza era compreendida, mas nunca sentida pelos observadores coloniais”.

O “paternalismo do europeu” e “a linguagem de lágrimas” do humanismo nos enfraquecem e se faz necessário combatê-las através da arte. O público não aguentaria as imagens de sua miséria e modificaria o status quo. Nessa rebelião cheia de canto, dança e fé, o transe e a celebração são a base da nova política."

A Estetyka do Sonho de Glauber Rocha

por Fernando do Valle



“A pobreza é a carga autodestrutiva máxima de cada homem e repercute psiquicamente de tal forma que este pobre se converte num animal de duas cabeças: uma é fatalista e submissa à razão que o explora como escravo. A outra, na medida em que o pobre não pode explicar o absurdo de sua própria pobreza, é naturalmente mística.

A razão dominadora classifica o misticismo de irracionalista e o reprime à bala. Para ela tudo que é irracional deve ser destruído, seja a mística religiosa, seja a mística política. A revolução, como possessão do homem que lança sua vida rumo à ideia, é o mais alto astral do misticismo. As revoluções fracassam quando esta possessão não é total (…), quando, ainda acionado pela razão burguesa, método e ideologia se confundem a tal ponto que paralisam as transações da luta.

….

As raízes índias e negras do povo latino-americano devem ser compreendidas como única força desenvolvida deste continente. Nossas classes médias e burguesias são caricaturas decadentes das sociedades colonizadoras.

A cultura popular não é o que se chama tecnicamente de folclore, mas a linguagem popular de permanente rebelião histórica.

O encontro dos revolucionários desligados da razão burguesa com as estruturas mais significativas desta cultura popular será a primeira configuração de um novo significado revolucionário.

O sonho é o único direito que não se pode proibir”

(Eztetyka do Sonho, 1971, Glauber Rocha).

O manifesto Estetyka do Sonho de Glauber mostra o caminho revolucionário em que o transe do misticismo popular (usado com torpeza por pastores picaretas nos dias de hoje) é o caminho para a utopia na política. Estetyka do Sonho foi apresentado aos alunos da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, após a realização de filmes icônicos pelo diretor como Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerrreiro (1968).

glauber rocha estetyka do sonho
Glauber Rocha

Para além da luta de classes, Glauber rechaça o pensamento tacanho da classe média e confia na mitologia transformadora de nossas raízes índias e negras. O novo Brasil só pode ser construído através da força da cultura desses povos presentes em nossa formação como nação mestiça.

Se estivesse vivo, Glauber chutaria para escanteio a mediocridade reinante no debate político. Em altos brados, retumbantes ou não, proporia uma nova estetyka para esses anos 10 deste novo século, longe da ética televisiva (ou de Netflix) reinante, esse “King Kong eletrônico que sistematiza o discurso opressivo sobre o Terceiro Mundo”, segundo o próprio.

A Estetyka do Sonho sucedeu outro manifesto glauberiano, Estetyka da Fome (1965). No último, “a estética da violência poderia integrar um significado revolucionário em nossas lutas de liberação… [já que] nossa pobreza era compreendida, mas nunca sentida pelos observadores coloniais”.

O “paternalismo do europeu” e “a linguagem de lágrimas” do humanismo nos enfraquecem e se faz necessário combatê-las através da arte. O público não aguentaria as imagens de sua miséria e modificaria o status quo. Nessa rebelião cheia de canto, dança e fé, o transe e a celebração são a base da nova política.

É como se o jogo perdido agora para pastores fundamentalistas que usam a fé popular para conformar e disseminar o ódio aos ritos afro-brasileiros pudesse ser virado em uma apoteótica festa revolucionária que nos integra. Oxalá!

Glauber morreu em 22 de agosto de 1981 com apenas 42 anos. Assista ao arrepiante discurso de Darcy Ribeiro em seu enterro:


Fonte usada: “Terra de Fome e Sonho: o paraíso material de Glauber Rocha” de Ivana Bentes.


Sou blogueiro e jornalista. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

Fonte: Zonacurva

Descriminalização das Drogas. Por Alberto Dines (OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA)

PICICA: "O julgamento no Supremo Tribunal Federal da descriminalização do porte de drogas para consumo pessoal colocou o assunto na agenda da mídia. O tema vem sendo debatido com mais intensidade desde a decisão do governo uruguaio de liberar o plantio e venda da maconha, mas em outros países a legislação avançou há mais tempo, como na Europa e nos Estados Unidos.

Por aqui, a questão ainda é tabu e divide a classe médica, o meio jurídico e a comunidade científica. A mídia dá destaque pontualmente ao assunto e ainda tateia ao tratar das drogas e seus efeitos pela complexidade do tema e pela falta de especialistas. A decisão do STF, se aprovada, terá um impacto profundo na forma como a sociedade brasileira lida com seus dependentes e as consequências disso."


Supremo Tribunal Federal

Descriminalização das Drogas

Por Alberto Dines em 02/09/2015 | Programa número 784 


Observatório da Imprensa debate a questão da descriminalização do porte de drogas.

O julgamento no Supremo Tribunal Federal da descriminalização do porte de drogas para consumo pessoal colocou o assunto na agenda da mídia. O tema vem sendo debatido com mais intensidade desde a decisão do governo uruguaio de liberar o plantio e venda da maconha, mas em outros países a legislação avançou há mais tempo, como na Europa e nos Estados Unidos.

Por aqui, a questão ainda é tabu e divide a classe médica, o meio jurídico e a comunidade científica. A mídia dá destaque pontualmente ao assunto e ainda tateia ao tratar das drogas e seus efeitos pela complexidade do tema e pela falta de especialistas. A decisão do STF, se aprovada, terá um impacto profundo na forma como a sociedade brasileira lida com seus dependentes e as consequências disso.

Desde 2002 a legislação prevê penas leves e alternativas para o usuário de drogas, mas na prática a enorme quantidade de presos enquadrada como traficante, na verdade é formada de consumidores. Os defensores da descriminalização alegam que ao definir o usuário como criminoso, a lei impede o tratamento adequado. Já os que não aprovam afirmam que com a liberação vai aumentar o consumo e agravar o problema de seus dependentes. O Observatório não toma posição, mas traz o assunto para o debate abordando os vários aspectos da questão delicada que diz respeito a todos os cidadãos.

Fonte: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

Eles que comam ouro! POR Verónica Goyzueta (PÚBLICA)

PICICA: "Camponeses das comunidades ao longo do rio Marañón, um dos mais importantes afluentes do Amazonas, resistem às obras da Odebrecht para instalar hidrelétricas em Cajamarca, celeiro de alimentos do Peru" 

Eles que comam ouro!



Camponeses das comunidades ao longo do rio Marañón, um dos mais importantes afluentes do Amazonas, resistem às obras da Odebrecht para instalar hidrelétricas em Cajamarca, celeiro de alimentos do Peru



“Não a Chadín” é o que se lê pichado no tronco de uma árvore à beira da estrada de terra que leva a Huanabamba, uma pequena vila ao norte do Peru. A árvore fica na frente de uma casinha de adobe rodeada por frutíferas silvestres e uma pequena plantação de bananeiras, compondo o cenário do caminho entre os Andes e a Amazônia peruana.

Os camponeses peruanos são famosos por sua hospitalidade, mas o homem que aparece na porta depois do meu chamado apenas rosna: “Quem é você?”. Primi Araujo, a professora primária que é minha guia na região, explica que sou uma jornalista de um veículo internacional. E, mais importante, não sou representante da construtora brasileira Odebrecht. “Eles [os funcionários de Odebrecht] vieram aqui e tiraram fotos sem minha permissão”, diz o agricultor Paquito Vargas Machuca para explicar sua reação à visita inesperada. 

A hostilidade do camponês é uma boa mostra da reputação da Odebrecht em Huanabamba, um município de mil habitantes situado em um cânion cortado pelo rio Marañón, na divisa dos departamentos (estados) de Cajamarca, Amazonas e La Libertad. A família Vargas Machuca, composta por seis pessoas, corre o risco de perder a chácara em que vive para uma obra da Odebrecht. A área da sua chácara deve ser inundada pelo reservatório que gerará energia para a Hidrelétrica Rio Grande 1. Essa é uma das três hidrelétricas conhecidas coletivamente como “Chadín” – as outras são Rio Grande 2 e Chadín 2 – com concessão para construção obtida pela Odebrecht no governo peruano, mas ainda sem licença social – que compreende a consulta e anuência dos camponeses – para ser realizada. Rio Grande 1 e 2 inundarão uma área de 38 km2 e Chadín 2, outra de quase 33 km2. 

A pequena cidade de Huanabamba é uma das mais impactadas entre as 20 comunidades que vivem na área de influência do projeto de hidrelétricas desenvolvido pela Eletrobras como parte dos acordos de comércio energético firmados entre Peru e Brasil em junho de 2010. Ao todo 20 represas serão instaladas ao longo dos 1.700 quilômetros do rio na próxima década, de acordo com o planejamento do governo peruano.

Paquito Vargas Machuca na porta da sua casa, em Huanabamba, com sua esposa e filhos. Foto Verónica Goyzueta
Paquito Vargas Machuca na porta da sua casa, em Huanabamba, com sua esposa e filhos. Foto Verónica Goyzueta

O rio Marañón é um dos afluentes mais importantes do rio Amazonas. Ele percorre uma região do norte do Peru onde se fundem dois dos biomas mais importantes da América do Sul: os planaltos montanhosos dos Andes e a densa floresta tropical da Amazônia. É uma das áreas mais ricas do mundo em biodiversidade e também um dos maiores depósitos de ouro do mundo. Marañón, o sinuoso rio que corta a Amazônia peruana, significa “serpente de ouro” em quéchua, a língua dos indígenas peruanos, porque as suas areias estão cheias de minérios. 

A exploração de ouro e prata há mais de 30 anos ameaça a região, agora também traumatizada com os novos projetos hidrelétricos. Ali fica a sede da mineradora peruano-estadunidense Yanacocha, proprietária do projeto Conga, outra gigantesca jazida que também tem sido fonte de conflitos sociais que fazem da região uma das mais convulsionadas do país nessa última década. Protestos contra a mineração em Cajamarca, especialmente em Conga, deixaram 11 mortos e 282 feridos, entre 2004 e 2013. Segundo a Defensoría del Pueblo, 303 líderes ambientais foram presos e julgados no mesmo período.

A maior oposição ao projeto das hidrelétricas, porém, vem de agricultores ameaçados de perder suas terras, como Vargas Machuca, mas os ambientalistas se mobilizam também diante dos efeitos potencialmente negativos das obras ​​nessa região ecologicamente sensível. Agricultores e ambientalistas fazem a mesma pergunta: por que inundar uma das terras agrícolas mais produtivas e férteis do Peru?

Submergindo o celeiro do Peru

Quando ouviu falar pela primeira vez sobre a represa Chadín, Vargas Machuca confessa que gostou da ideia. “Eles [Odebrecht] nos ofereceram um monte de coisas boas, mas nada disso realmente vai acontecer”, diz o camponês, que vive da pesca, das frutas e dos legumes que colhe na sua terra fértil, ao lado do Marañón. Ele conta que recebeu uma oferta da construtora para vender suas colheitas e terras e ganhar uma nova casa para a família, mas decidiu não aceitar. “Eles [Odebrecht] dizem que, se concordamos com um contrato de venda, eles vão nos pagar e vão nos mudar para outro lugar. Mas esse lugar é um deserto”, afirma.

A agricultora Gregoria Bazán, que vive perto dos Vargas, também se opõe à barragem. “Nós temos plantações de manga, limão, banana, folhas de coca, limões, que vendemos em Celendín (sede do município onde fica a comunidade) e Cajamarca (capital do departamento)”, enumera. Até os funcionários da Odebrecht que vivem em Cajamarca compram os alimentos que Gregoria e seus vizinhos produzem, como ela destaca, bem-humorada. “O que eles vão comer depois disso? Dinheiro? Eles terão prata e ouro, mas não vão ter nada para comer. Eles não vão ter água”, diz soltando uma gargalhada.

Além da preocupação com a remoção, os agricultores reclamam do direcionamento dos investimentos para o complexo hidrelétrico. “A região produz o melhor cacau do país, mas as estradas que estão construindo por aqui não fazem sentido em termos de transporte de produtos”, diz Milton Sánchez, secretário-geral da Plataforma Interinstitucional Celendina (PIC), organização que reúne os principais movimentos sociais da região. “Queremos estradas para levar frutas para o mercado, e não para os vales que serão inundados”, critica.

Em relação aos prejuízos ambientais, é impossível calcular a extensão do dano. “Eles estão bloqueando rios que fluem livres, que serão represados ​​pela primeira vez, em vários pontos, provocando alterações no fluxo hidrológico da Amazônia, e sem saber quais serão os impactos”, diz César Gamboa, diretor-executivo da ONG peruana Derecho, Ambiente y Recursos Naturales (DAR), em Lima.

Eletricidade e Lava-Jato

E para quem as hidrelétricas de Cajamarca e Chadín vão fornecer energia? Cajamarca é a sede de Yanacocha, a maior mina de ouro do mundo. Existem na área 16 projetos de mineração que precisarão de grande volume de eletricidade – especialmente Conga, El Galeno e Michiquillay – nas redondezas das barragens projetadas. Os acordos energéticos entre Brasil e Peru preveem a exportação de excedentes energéticos do Peru para o Brasil, mas a maior suspeita recai sobre as mineradoras.

Em 2013, o presidente Ollanta Humala deu a seguinte declaração em um congresso de mineração no Peru: “Como vemos, nesta área predominam os projetos de ouro e cobre, localizados na serra de Piura, Lambayeque, Cajamarca e Trujillo. Para funcionar, precisam de energia, e para isso se prevê a construção de pelo menos cinco centrais que, aproveitando a força hidráulica, poderão alcançar uma produção superior aos 10 mil megawatts”, discursou o presidente peruano. Os cinco projetos destacados por ele foram: Chadín 2, Rio Grande 1 e 2, Veracruz, Rentema e Manseriche, uns dos 20 que cortarão em pedaços o rio Marañón.

O que não surpreendeu o líder dos movimentos sociais Milton Sánchez. “Yanacocha vai usar três vezes mais energia do que a cidade de Trujillo (uma das cidades mais importantes do norte do país). Conga é três vezes maior”, compara. Só na área de Chadín há 16 projetos mineiros que precisam de energia, especialmente Conga, El Galeno e Michiquillay. “Para nós, isso já está claro”, diz.

Milton Sanchez, do PIC, Plataforma Interinstitucional de Celendín. Na praça do centro de Celendín, palco de protestas contra Conga e Chadín. Os protestos nessa praça tiveram repercussão internacional. Foto:  Verónica Goyzueta
Milton Sanchez, do PIC, Plataforma Interinstitucional de Celendín. Na praça do centro de Celendín, palco de protestas contra Conga e Chadín. Os protestos nessa praça tiveram repercussão internacional. Foto: Verónica Goyzueta

Para as ONGs que trabalham na região, além de danificar o rio, o projeto não previu formas de minimizar os impactos sociais e ambientais. “Para a empresa, é um negócio. Eles constroem para ter rentabilidade”, diz o engenheiro José Serra Vega, autor do relatório “Custos e Benefícios do Projeto Hidrelétrico Chadín 2 no rio Marañón”, publicado ano passado pela ONG Forum Solidaridad Perú. O ambientalista Gamboa, da ONG DAR, concorda. “Há um fast-track para aprovar projetos na região, com uma redução de salvaguardas, que são consideradas como obstáculos ao investimento”, diz o pesquisador, que critica a falta de transparência e participação pública no desenvolvimento dos megaprojetos de infraestrutura. Segundo ele, uma hidrelétrica demora cerca de dez anos para começar a dar retorno, mas segue sendo a opção dos governos da América do Sul, que teriam alternativas como a energia solar e eólica, que não interessam aos investidores. 

Gamboa aponta também o risco de supervalorização das obras, um risco real já que as relações do governo peruano com as construtoras brasileiras – que incluem megaprojetos como a estrada Interoceânica, outras hidrelétricas e obras de infraestrutura – estão sendo investigadas pela Justiça peruana. A Fiscalía Anticorrupción do Peru está investigando os contratos dos governos de Alejandro Toledo, Alan García e Ollanta Humala com as construtoras brasileiras Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão, Galvão Engenharia e Engevix. Uma equipe da Fiscalía peruana esteve em Curitiba no final de julho para trocar informações com os investigadores da operação Lava-Jato, que está sendo divulgada diariamente pela imprensa peruana. O Cristo do Pacífico, um monumento de 37 metros que a Odebrecht deu de presente para a cidade de Lima, na gestão do presidente Alan García, em 2011, virou piada entre os peruanos. Acabou sendo apelidada de “Cristo do roubo”.

Deslocamentos forçado

O professor Einer Esteban Dávila, que cresceu em Huanabamba, vive perto de Nuevo Huabal, onde foram reassentados, em 2009, os moradores da comunidade de Huabal para o enchimento do reservatório da represa El Limón, no estado vizinho de Lambayeque, outra obra realizada pela Odebrecht. “Tiraram as pessoas [das suas casas] à base de enganos”, diz.

O assentamento de Nova Huabal foi construído em uma área desértica, onde as 70 famílias transferidas em 2009 não têm terras férteis nem água suficiente para cultivar. Esteban teme pelo futuro do rio Marañón. “Estão quebrando um ciclo. Este rio é um dos poucos pulmões que estão limpando a poluição de Yanacocha”, diz.

Para os moradores de Huanabamba, Huabal serve de exemplo da indiferença da Odebrecht. “A Odebrecht levou as pessoas para um local sem condições de vida decentes. Houve um grande deslizamento de terra [em 2012], e muitas pessoas perderam o pouco que tinham. Eles acabaram se sentindo enganados”, explica Milton Sánchez, do PIC.

O agricultor Vargas Machuca e a agricultora Gregoria Bazán, de Huanabamba, ameaçados agora de perder as terras, conhecem a história de Huabal. “Não estamos contra a energia, mas achamos que há outras formas, como a solar e a eólica. Não estamos preparados para viver em uma área urbana”, diz Gregoria.

Através da porta-voz em Celendín, Pierina Garateguy, a Odebrecht afirmou à reportagem que não tem problemas com as comunidades e camponeses peruanos: “Os programas de compensação são realizados de forma justa, dentro dos parâmetros legais e em estrita conformidade com as normas em vigor. A empresa assumiu o compromisso de melhorar as condições das pessoas afetadas, seja através de uma aquisição, reassentamento ou realocação das zonas afetadas, garantindo melhores condições de vida, com água, energia e outros serviços básicos, gerando valor agregado ao longo do tempo”. 

Leia aqui a reportagem “Ronderos”, sobre a criminalização dos líderes comunitários pelas empresas

Perseguição e ameaças

A líder comunitária Aurora Araujo. Foto: Verónica Goyzueta
A líder comunitária Aurora Araujo. Foto: Verónica Goyzueta

O reservatório que promete atingir a vida dos Vargas e seus vizinhos ainda não pode ser construído. A Odebrecht tem a concessão e obteve a aprovação da licença ambiental pelo Ministério de Energia e Minas, em outubro do ano passado, mas ainda não conseguiu a licença social. A consulta prévia às comunidades tradicionais no caso de obras com influência em suas terras é obrigatória e prevista na lei peruana. Os líderes entrevistados afirmaram que ainda não foram consultados e que a empresa está fazendo movimentos para tentar convencê-los a aceitar as hidrelétricas, dando presentes e infiltrando gente nas comunidades. 

Aurora Araujo, uma líder comunitária nos municípios de Huanabamba e Celendín, conta que as reuniões com engenheiros da Odebrecht têm sido tensas e complicadas. Muitas delas foram adiadas na última hora, prejudicando agricultores e povos indígenas, que frequentemente têm de viajar longas distâncias para chegar aos eventos. De acordo com Aurora, as reuniões têm sido manipuladas. “Eles [Odebrecht] trazem pessoas que não são da comunidade, às vezes para nos atacar”, disse ela, mostrando os documentos das seguidas reuniões desmarcadas.

“Eles nos dizem que vamos ser removidos pela força se não aceitarmos a sua proposta. Eles enganam as pessoas com presentes, como panetones e fornos, e têm conseguido as assinaturas de apoio de algumas das pessoas que já venderam suas casas e não têm mais terra na área”, explica a líder comunitária, que calcula em 5 mil as pessoas que serão impactadas pelas represas e reservatórios Rio Grande I e Rio Grande 2.

Em sua modesta e antiga casa no centro de Celendín, Aurora conta que funcionários da Odebrecht a acusaram de ganhar dinheiro de ONGs para desprestigiá-la perante a comunidade. E faz uma denúncia grave: diz ter recebido ameaças de morte desses mesmos homens, assim como teria acontecido com outras pessoas que se opõem aos projetos. “Quando temos uma reunião, há tiros. É Deus quem nos protege na luta pela água”, diz. “Eles querem nos levar pela força. Nós não queremos represas. Ninguém quer perder suas chácaras. Onde é que vamos viver? “, indigna-se Aurora.
A reportagem fez um segundo contato com o escritório da Odebrecht em Celendín para obter uma resposta detalhada a essas acusações, mas não obteve resposta. Contatados, os representantes da Odebrecht em Lima e São Paulo também não responderam à reportagem.
* Esta reportagem foi feita com apoio da organização Mongabay. Leia aqui a versão original

Fonte: PÚBLICA

Micaela Bastidas, guerreira de nuestra América, por Eliane Tavares (ZONACURVA)

PICICA: "Era 1745 na vastidão do Peru. Terra de incas, os filhos do sol.  No povoado de Tamburco, em Abancay, departamento de Apurimac, nascia Micaela Bastidas Puyucahua, uma guria mestiça que iria marcar com sangue e coragem a história da gente peruana. O pai, Manuel, tinha sangue espanhol, mas a mãe, Josefa, era inca da gema. Esta mistura fez de Micaela uma linda mulher de traços fortes e cabelos ondulados, uma “zamba” que, para as gentes de Abancay significa alguém com características distintas a dos andinos, mestiça. Mas, ao logo de sua vida, mostrou que – apesar do sangue espanhol – era verdadeiramente uma mui digna filha de Tawantisuyo, a grande nação do povo dos Andes."

Micaela Bastidas, guerreira de nuestra América

por Eliane Tavares

Era 1745 na vastidão do Peru. Terra de incas, os filhos do sol.  No povoado de Tamburco, em Abancay, departamento de Apurimac, nascia Micaela Bastidas Puyucahua, uma guria mestiça que iria marcar com sangue e coragem a história da gente peruana. O pai, Manuel, tinha sangue espanhol, mas a mãe, Josefa, era inca da gema. Esta mistura fez de Micaela uma linda mulher de traços fortes e cabelos ondulados, uma “zamba” que, para as gentes de Abancay significa alguém com características distintas a dos andinos, mestiça. Mas, ao logo de sua vida, mostrou que – apesar do sangue espanhol – era verdadeiramente uma mui digna filha de Tawantisuyo, a grande nação do povo dos Andes.

E foi em Tamburco que ela cresceu, um povoado rural, pequeno, pobre, mas rota de passagem dos viajantes que circulavam pelo país em lentas mulas na penosa jornada de carregar mantimentos e produção de um lado para o outro. Foi correndo por aqueles pastos e observando a crescente pobreza das gentes que ela desenvolveu seu aguçado senso de justiça que mais tarde iria se transformar em lenda.

A história de Micaela se mescla com as grandes lutas de libertação da América Latina quando, em 1760, ainda jovenzinha, casa-se com José Gabriel Condorcanqui, cacique de seu povo e descendente do último Inca rei, Tupac Amaru, morto em Cuzco no ano de 1572. É ele quem vai incendiar as paragens peruanas na revolução que ficou conhecida como a “revolução de Tupac Amaru II”.

Micaela Bastidas história Peru
Micaela Bastidas lutou para livrar o povo peruano dos grilhões dos colonizadores

Naqueles anos do final do 700, a exploração dos trabalhadores indígenas era uma coisa insuportável. A colônia fazia seus estragos, rapinava riquezas, escravizava os seres. Já tinham passados quase duzentos anos desde a invasão e os povos originários estavam começando a despertar da letargia. Rebeliões tinham sido feitas ao longo desses anos, mas todas tinham sido esmagadas. A mais recente, em 1760, justamente o ano do casório de Gabriel e Micaela, fora liderada por José Santos Atahualpa, buscando restaurar o reino dos Incas. Esta última fez os espanhóis ficarem de cabelo em pé, porque perceberam que, nas comunidades indígenas, algo muito poderoso começava a se fortalecer: o desejo de liberdade. Aparte isso, também os criollos (gente nascida na terra, mas com sangue espanhol) estavam insatisfeitos com a coroa em função dos altos impostos. Caldo perfeito para mais confusão.
Por conta destes dois elementos incendiários, Tupac Amaru acabou liderando uma revolução vinte anos depois, em 1780. Homem letrado, já cacique de seu povoado, o descendente do Inca já estava impregnado dos ares rebeldes que vinham da França, dos Estados Unidos e do Haiti. Seu primeiro ato revolucionário foi acabar com as obrajes, espécie de fábricas onde os índios eram explorados até a morte, ganhando miseráveis salários. Seu propósito era ir até Cuzco, destruindo todas estas formas de opressão e instaurando um governo indígena. Não foi à toa que em poucos dias já tinha juntado mais de 10 mil índios no seu exército. E, nessa caminhada até o “umbigo do mundo da nação do Tawnatisuyo”, ele ia libertando todos os escravos.

Durante o pouco tempo (cinco meses) que durou a revolução de Tupac Amaru, Micaela Bastidas esteve a seu lado. Por várias vezes comandou as tropas e não foram poucas as suas ações como chefe de governo. Seu corpo forte e esguio era visto, manhã cedinho, a cavalgar pelos povoados, arrebanhando gente para a guerra. Ela era quem administrava as provisões, mobilizava os destacamentos e administrava as terras liberadas pela revolução. Era considerada a facção mais radical do movimento. Quando Tupac Amaru vacilava no seu avançar sobre Cuzco, era Micaela quem o impulsionava, seja pessoalmente ou através de cartas que lhes fazia chegar amiúde. Por várias vezes se mostrou mais estrategista do que ele como, por exemplo, quando intuiu que a união com os criollos não ia dar em boa coisa. A história o comprovou. Esperando por um levante das gentes de Cuzco, Tupac Amaru demorou a entrar na cidade. Isso fez com que as tropas reais se rearticulassem e o derrotassem em março de 1781. Cuzco não foi conquistada e tudo se perdeu. Numa de suas cartas a Gabriel, Micaela escreveria: “Chepe, chepe, mi muy querido: bastantes advertencias te dí”. Ela nunca confiara nos brancos e tampouco nos criollos. Sempre acreditou que entrando na cidade, venceriam. Gabriel não lhe deu ouvidos.

Assim, vencidos, os líderes rebeldes foram aprisionados. Entre eles, Gabriel (Tupac Amaru), Micaela e seu filho Hipólito. No mês de maio do mesmo ano todos são supliciados na Praça Maior da cidade. Micaela, Gabriel e o filho chegam arrastados por cavalos. Irão sofrer todas as torturas possíveis. O primeiro a morrer na forca é Hipólito, diante dos pais. Mas, antes, lhe arrancam a língua. Micaela fica impávida. Depois, vários outros rebeldes vão sendo mortos nas mesmas condições de crueldade, muitos são parentes, amigos. Micaela é a penúltima. Sobe no cadafalso com a mesma altivez que lhe valera a formosura. Tem a língua arrancada e depois, como não morre em seguida, os carrascos ainda lhe aplicam golpes no estômago e no peito. O filho mais novo, de nove anos, assiste a tudo. Será levado depois, prisioneiro, para a Espanha.

tupac amaru II
O companheiro de Micaela, Tupac Amaru II

O último a morrer é Tupac Amaru. O cacique revolucionário é amarrado a quatro cavalos que são postos a correr em direções opostas para que o corpo do índio seja esquartejado. Os cavaleiros esporeiam os bichos, eles arrancam e o cacique não se parte. Por várias vezes é feito o mesmo procedimento e Tupac Amaru não se parte. Os espanhóis desistem e desamarrando-o o esquartejam a golpes de machado, sendo suas partes espalhadas por várias regiões do Peru.  Dizem que nessa hora sagrada, em que o corpo do inca resistiu, uma chuva grossa caiu do céu.

Talvez seja por isso que até hoje, quando chove no Peru, as gentes originárias se ponham a sorrir. Lembram o tempo em que Tupac Amaru incendiou de novo a caminhada para a liberdade, junto com Micaela. Lembram que sempre é possível enfrentar a violência, o terror, o medo. Sorriem e seguem, porque há ainda muita estrada para caminhar. O povo de Tawantinsuyo ainda não entrou em Cuzco. Vai entrar, e vai ser como queria Micaela. Isso ainda vamos ver!!!

Texto publicado originalmente no blog Palavras Insurgentes.




Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos, inaugurando o esperado pachakuti.

Fonte: Zonacurva

A hecatombe silenciosa. Por Alberto Dines (OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA)

PICICA: "O “Globo” escolheu matar-se dias depois – 34 para sermos exatos – do 90º aniversário. Efemérides não se discutem. Muito menos a forma de lembrá-las. O carro-chefe do Grupo Globo tomou sua cicuta – abriu as veias, enforcou-se ou ateou fogo às vestes — em rigoroso silêncio, entre quatro paredes, sem pronunciar uma única palavra.

Sem ao menos uma interjeição de sofrimento, tipo “aí !” cerca de sessenta jornalistas das redações de O Globo, Extra e Infoglobo foram sacrificados na terça, dia 1 de Setembro. O glorioso e poderoso jornalão desligou holofotes, distribuiu mordaças, apagou-se, sumiu: não quer as condolências dos compadecidos nem o regozijo dos adversários. Quer o silêncio absoluto, segredo, anonimato, clandestinidade. Quer cumplicidades."


MARCHA DO TEMPO > Um dia para não esquecer

A hecatombe silenciosa

Por Alberto Dines em 02/09/2015 na edição 866 

O “Globo” escolheu matar-se dias depois – 34 para sermos exatos – do 90º aniversário. Efemérides não se discutem. Muito menos a forma de lembrá-las. O carro-chefe do Grupo Globo tomou sua cicuta – abriu as veias, enforcou-se ou ateou fogo às vestes — em rigoroso silêncio, entre quatro paredes, sem pronunciar uma única palavra.

Sem ao menos uma interjeição de sofrimento, tipo “aí !” cerca de sessenta jornalistas das redações de O Globo, Extra e Infoglobo foram sacrificados na terça, dia 1 de Setembro. O glorioso e poderoso jornalão desligou holofotes, distribuiu mordaças, apagou-se, sumiu: não quer as condolências dos compadecidos nem o regozijo dos adversários. Quer o silêncio absoluto, segredo, anonimato, clandestinidade. Quer cumplicidades.

É livre o arbítrio, mas geralmente morre-se do jeito que se viveu e um jornal teoricamente comprometido com a divulgação dos fatos e ocorrências não tem o direito de demitir-se, omitir-se, calar. Jornais existem para testemunhar. Se preferem abdicar deste dever, perdem sua razão de ser, devolvem a credibilidade que conquistaram. Neste caso, para sempre.

Pelo visto os coveiros pretendem manter as aparências, fingir que nada aconteceu, que as vítimas não foram vitimadas e tudo continua na mesma. O mote de que o show deve continuar é uma inominável hipocrisia. Sim, o show precisa ser interrompido, ao menos por segundos, para enxugar lágrimas, respirar fundo e prosseguir.

A carnificina talvez fosse menos doída se o jornal contasse aos leitores o que aconteceu, porque aconteceu e registrasse um agradecimento aos que pagaram pelo acontecido. Não por gentileza, ou cavalheirismo, mas por devoção à verdade, por respeito a um ofício que deve ser honrado indistintamente por mandantes e mandados, contratantes e contratados.

O pool que reúne as maiores empresas de mídia do país, é um atentado ao pudor e ao Estado de Direito. Sem competição e divergências o jornalismo torna-se burocrático, cartorial, simplista. E tosco. A solidariedade da direção da Folha ao comando d e O Globo é uma postura anti-jornalística e antidemocrática, prova inequívoca de desrespeito à Constituição e ao pluralismo nela inscrito.
A silenciosa hecatombe de 1 de Setembro e a penosa cortina de silêncio sobre ela estendida remete nossa imprensa aos Anos de Chumbo, ao tempo das quarteladas e conspirações.

 Outros tempos: lembrando Roberto Marinho

 No dia 6 de Dezembro de 1973 este observador foi demitido da função de Editor-chefe do “Jornal do Brasil” onde serviu por 11 anos e 11 meses. Não contente, por perversidade, o representante dos acionistas do JB,  M.F. do Nascimento Brito, determinou que a informação sobre a demissão fosse publicada com apenas três linhas da forma menos solene possível.

Ao reparar na indignidade, Roberto Marinho pediu ao então diretor de Redação do “Globo”, Evandro Carlos de Andrade, que escrevesse um desagravo à insultuosa notícia e destacou-a na antiga coluna de Carlos Swan (precursora da não menos prestigiosa coluna de Ancelmo Góis). Um gesto fidalgo e solidário que o talento de Evandro Carlos transformou em tocante galardão.

Assim caminha a humanidade.

Nota da Redação:

A lista provisória dos jornalistas demitidos dos jornais O Globo e Extra é a seguinte (alguns nomes estão incompletos):

O GLOBO

Marceu Vieira (demitido) / Pedro Dória – fica só como colunista / Flavia Oliveira – fica só como colunista / George Vidor – só como colunista de Opinião / Mario Sergio Conti – só como colunista Opinião / Cora Ronai / Arnaldo Bloch – continua como colunista / Helena Celestino / Manya Millen – editora Prosa e Verso – demitida / Valquiria Daher – editora revista da TV – demitida / Adriana Oliveira / Mario Toledo / Sergio Ramalho / Ana Claudia Costa / Bruno Amorim / Debora Ghivelder / Bolivar Torres / Isabel de Luca (Nova Iorque) / Fernando Eichenberg (Paris) / Renata Malkes / Luisa Xavier / Mauricio Fonseca / Allan Caldas / Hudson Pontes / Piu / Leporace / Edgard do Lago /Marcio Coutinho /Maraca /Romildo /Guilherme Scarpa /Luciana Froes /Aydano André Motta /Tatiana Farah /Luis Carlos Cascon .

EXTRA

Clovis Saint Clair/ Eliane Maria /Cris Fuscaldo / Anne Ribeiro / Camila Elias / Otávio Leite .

Fonte: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

setembro 03, 2015

Chopin - Complete Nocturnes (Brigitte Engerer)

PICICA: Em memória de Zoraide Fernandes, extensiva à sua filha Fátima Fernandes, que ali pelo início dos anos 1960 proporcionaram à minha família horas inesquecíveis de enlevo musical - Zoraide ao piano e Fátima ao acordeón. O ponto alto desse encontro costumava se dar no final das tardes ensolaradas, quando a noite estendia lentamente seu manto sobre a cidade. Nessa ocasião, na companhia de meus pais, dirigíamo-nos à Escola de Música de Fátima Fernandes, onde estudavam minhas irmãs Elizabeth Marinho e Lilian Marinho, a quem acompanhei todo o processo de formação musical, o que me permitiu abrir os ouvidos para uma das mais elevadas formas da Arte. Minha eterna gratidão à sensibilidade musical de meu pais Rogelio e Tereza. Para todos os meus amigos virtuais e presenciais a brisa sonora destes Noturnos, de Chopin, em plena alta estação do verão manauara, pelo carinho com que se manifestaram em torno de uma postagem no Facebook, na qual comunicava a satisfação de voltar a pilotar minha motocicleta, após um longo período de convalescença. Sensibilizou-me a preocupação com minha saúde. A todos meu carinho por tanta gentileza nesses tempos áridos, em que a solidariedade tem se tornado tão escassa. A luta continua, querid@s!

Chopin - Complete Nocturnes (Brigitte Engerer)

Kaymak Pürüzü

Nós não soubemos acabar. Por Fabio Hernandez (DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO)

PICICA: "Pôr fim a uma relação amorosa é uma arte tão desafiadora quanto tocar com graça uma flauta. A covardia nos detém muitas vezes. Outras vezes, o desfecho é adiado por uma última, ou penúltima, ou antepenúltima, lufada de esperança. E há ocasiões em que nossa ação é impedida apenas por uma inércia para a qual não encontramos e nem buscamos explicação. Sei lá. Talvez nas escolas devesse haver uma disciplina que nos ensinasse a terminar uma história de amor. Nos ensinam álgebra e geografias remotas nas escolas, mas não nos ensinam coisas básicas da vida, como identificar o final de um caso e agir."
Em tempo: A dica de leitura é da psicanalista Rita Almeida.

Nós não soubemos acabar. Por Fabio Hernandez


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Nós não soubemos acabar.



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Nós não soubemos acabar. Isso hoje é claro para mim e, imagino, para você. Nós não soubemos acabar. Acabamos muito depois do que teria sido razoável. Acabamos não quando havia uma construção da qual nos lembrarmos e sim quando já não restava nada mais que ruínas que evocavam sofrimento e pesar numa dosagem desnecessariamente elevada. Existe um tempo para iniciar e existe um tempo para terminar. Errar no tempo para terminar é muito pior do que errar no tempo para começar. Num caso, logo compensamos as alegrias ainda não gozadas. No outro, é irreparável a dor que advém do prolongamento vão do que deveria ter sido encerrado lá atrás.

Nós não soubemos acabar.

Pôr fim a uma relação amorosa é uma arte tão desafiadora quanto tocar com graça uma flauta. A covardia nos detém muitas vezes. Outras vezes, o desfecho é adiado por uma última, ou penúltima, ou antepenúltima, lufada de esperança. E há ocasiões em que nossa ação é impedida apenas por uma inércia para a qual não encontramos e nem buscamos explicação. Sei lá. Talvez nas escolas devesse haver uma disciplina que nos ensinasse a terminar uma história de amor. Nos ensinam álgebra e geografias remotas nas escolas, mas não nos ensinam coisas básicas da vida, como identificar o final de um caso e agir.

Nós não soubemos acabar.

O fim em geral é claro, apenas a gente finge que não vê. Onde havia antes compreensão e tolerância, ergue-se a impaciência. Onde havia antes generosidade, ergue-se um rigor por vezes cruel. Onde havia antes ternura, ergue-se uma crescente grosseria. Onde havia antes disposição para dividir, ergue-se o egoísmo. O que foi amor virou desamor. Os fatos gritam. Mas as pessoas fingem não ouvi-los. Fingem muitas vezes demasiadamente além do aceitável. E então sofrem bem mais do que o necessário.

Nós não soubemos acabar.
Sobre o Autor
O cubano Fabio Hernandez é, em sua autodefinição, um "escritor barato".

OUTRAS PALAVRAS: Oriente Médio: EUA viram as costas aos curdos; Cinco enfermidades da era digital; Governo federal tenta demitir Paul Singer; Por um feminismo que vá além das mulheres; Cultura cubana: rompendo o clichê

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Boletim de atualização - Nº 552 - 2/9/2015

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Surpresa nas eleições dos EUA – mas nem tanto…

Immanuel Wallerestein analisa cenário: emergência de outsiders revela desconforto com sistema. Mas mudanças necessárias não virão das urnas
(na foto, Bernie Sanders, que lidera disputa no Partido Democrata e se considera socialista) (Outras Palavras)

O
riente Médio: EUA viram as costas aos curdos
Washington diz combater o Califado Islâmico. Mas rechaça, por interesse geopolítico, grupos guerrilheiros que demonstraram capacidade de vencer fundamentalismo. Por Joris Leverink (Outras Palavras)
 
C
inco enfermidades da era digital
"Pescoço de Smartphone" afeta em especial adolescentes, degrada coluna e pode exigir cirurgia. Uso abusivo de aparatos também atinge visão, audição e humor. Por Janet Allon, traduzida por Cynara Menezes, em seu blog (Outras Mídias)

Governo federal tenta demitir Paul Singer
Dispensa visaria acomodar apetites da base de apoio ao Planalto. Teórico e defensor histórico da Economia Solidária, Singer revela: ajuste fiscal bloqueou 60% das verbas para setor. Pela Equipe da Fundação Rosa Luxemburgo
(Outras Mídias)

P
or um feminismo que vá além das mulheres
Ele pode ter como programa desconstruir a categoria "mulher" e ampliar sua mirada para toda forma de subalternidade, invisível e silenciada. Por Carla Rodrigues
(Outras Palavras)


Os quadrinhos desconcertantes de Rafael Corrêa
Artista gaúcho com notável poder de síntese e traço leve e sugestivo encara agora o desafio de desenhar sua própria doença.
Por Gabriela Leite e João Rabello (Blog)


Cultura cubana: rompendo o clichê
Poeta cubano oferece, em
Outras Palavras, curso de quatro aulas sobre os aspectos centrais de uma tradição cultural riquíssima, mas ainda submetida a embargo (Blog)

Uma “entrevista” com Florbela Espanca. Por Camila Nogueira (GELEDÉS)

PICICA: "A portuguesa Florbela Espanca (1894 – 1930) foi uma das maiores poetisas de todos os tempos. As frases abaixo foram extraídas de diversos poemas de sua autoria, presentes em livros como “Trocando Olhares” e “Charneca em Flor”."

Uma “entrevista” com Florbela Espanca. Por Camila Nogueira


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A portuguesa Florbela Espanca (1894 – 1930) foi uma das maiores poetisas de todos os tempos. As frases abaixo foram extraídas de diversos poemas de sua autoria, presentes em livros como “Trocando Olhares” e “Charneca em Flor”.

Do DCM

Florbela, qual foi sua principal fonte de inspiração?
 
Gargalhadas de luz. Pétalas que caem uma a uma. Um verso é um olhar, um sorriso, e os de Dante eram o seu amor a soluçar aos pés da estremecida amante.


Há alguma característica que diferencie os poetas das demais pessoas?

As almas dos poetas são incompreensíveis. São almas de violeta, que são poetas também. Só quem embala no peito dores amargas e cretas pode, em noites de luar, entender-nos.

Você sempre quis seguir o caminho da poesia?

Não é questão de escolha, e sim de vocação. Nos meus beijos extáticos e pagãos!… Trago na boca o coração dos cravos! Boêmios, vagabundos e poetas.

Alguma dica a dar àqueles que aspiram tornar-se poetas?

Procuremos somente a Beleza, que a vida é um som d’água ou de bronze e uma sombra que passa.

O que a estimula a escrever?

A Noite. Por que ela é tão escura? Talvez nela exista uma saudade igual à que eu contenho.

Que saudade?

Não sei de onde me vem essa saudade. Talvez da Noite, ou de ninguém. Eu nunca sei quem sou, ou o que tenho.

O que mais?

Minha piedade.

Como assim?

Tenho pena de tudo e de todos. Daquele a quem mentiram, de quem mente, dos que andam pés descalços pela vida. Da rocha altiva sobre o monte, dos que não são iguais ao resto, e dos que se ensanguentam na subida. Tenho pena de mim, pena de você… De não beijar o riso de uma estrela… Pena dessa má hora em que nasci. De não ter asas. De não ser Esta… A Outra… E mais Aquela… De ter vivido e não ter sido Eu.

Sua condição como mulher influenciou sua poesia?

Ó Mulher, como és fraca e como és forte! Como sabes ser doce e desgraçada. Nós, mulheres, somos capazes de fingir quando, em nossos peitos, nossas almas se estorcem amarguradas.

Bem, acho que isso quer dizer sim. Mudando de assunto, o Amor foi um dos assuntos mais recorrentes em sua poesia. O que tem a dizer sobre ele?

É vão o amor, o ódio, ou o desdém; inútil o desejo e o sentimento… Lançar um grande amor aos pés de alguém é um completo desperdício, como lançar flores ao vento.

Hmmm…

O amor quando é sentido não se pode disfarçar… Os lábios podem mentir, mas os olhos são indiscretos – revelam tudo que sentem.

O que mais?

Um grande amor é sempre grave e triste.

Imagino, Florbela, que o melhor seja jamais amar…

De modo algum! Viver neste mundo sem amar é pior que ser cego de nascença.

Nesse caso, o que temos a fazer?

Com misericórdia, amar quem não nos ama, e deixar que nos preguem numa cruz.
Sobre o Autor
Camila Nogueira, nossa correspondente de literatura, tem a impressionante capacidade de ler romances de 600 páginas em dois dias — e depois citar frases inteiras da obra. Com apenas 18 anos, ela já leu as obras completas dos maiores mestres da literatura – como Balzac, Dumas, Fitzgerald e Dickens.

Fonte: Geledés

Comunicado urgente à classe média: não há vagas na FIESP, por Fernando do Valle (ZONACURVA)

PICICA: "Forjada no preconceito e na exclusão, a ideologia predominante entre a classe média rechaça a participação política, despreza o Estado, inclusive como ente regulador, e abraça sem ponderação a ideologia do mercado. Não há espaço para a solidariedade e o pensamento próprio, mais fácil terceirizar os neurônios para mantras absorvidos na grande mídia, e repetidos no elevador."

Comunicado urgente à classe média: não há vagas na FIESP

por Fernando do Valle



Quando adolescente nos anos 80, era tomado por indignação com a paisagem cotidiana nos finais de tarde das avenidas da Zona Sul de São Paulo em que trabalhadores voltavam à periferia no final da tarde pendurados na porta ou na parte externa dos ônibus. Várias vezes, abordei o assunto em ambientes de classe média, a maioria não se importava, achava que o problema não era deles.


Os ônibus continuam cheios e os vagões do metrô abarrotados, mas é inegável que a tolerância com situações degradantes como aquela diminuiu entre a população pobre. O que infelizmente não muda é a ilusão de certa classe média de que por um descuido dos quatrocentões da Fiesp irá ocupar uma vaguinha na próxima reunião da alta roda no prédio da Paulista.

Em vez da solidariedade aos de baixo, comportam-se como garçons convictos de que foram convidados para a festa VIP. O pânico surge do medo de ser confundido com a classe C no momento em que engole o hambúrguer fast food no shopping com ar-condicionado, com direito à comédia Globo Filmes. Se agradar ao CEO, talvez um jantar no Outback.

Essa miopia sempre tornou tranquilo o sono de certos banqueiros e empresários, ou melhor, donatários hereditários, que espoliam nosso país há muito tempo. Forjada no preconceito e na exclusão, a ideologia predominante entre a classe média rechaça a participação política, despreza o Estado, inclusive como ente regulador, e abraça sem ponderação a ideologia do mercado. Não há espaço para a solidariedade e o pensamento próprio, mais fácil terceirizar os neurônios para mantras absorvidos na grande mídia, e repetidos no elevador.

Raramente avançam além de seu papel de consumidor e poucos atuam na esfera pública como agente de transformação social ou política. A quantidade de votos do anódino Celso Russomano na última eleição é um sintoma. Para seus eleitores, cidadania e direitos humanos não têm utilidade, nos resta a “cidadania do consumo”: ai se me engambelarem no momento sagrado da compra, me revolto e exijo direitos.  Fora isso, salve-se quem puder.

classe média hábitos
A classe média se conforma pelo consumo (desenho de Steve Cutts)O

O comportamento bovino é guiado pela propaganda e também por um jornalismo que não colabora na reflexão e na defesa do interesse público, apenas domestica o ser humano, como afirma o jornalista espanhol Ignacio Ramonet.

Defender os interesses do 1% que controla o dinheiro não credencia ninguém dos 99% a ser aceito no clube dos bilionários. Parece surreal, mas muitos parecem não se dar conta disso. E o grande capital está cada vez mais concentrado, em 2016, a grana que estará nas mãos de 1% ultrapassará o montante dos 99% da população mundial, segundo estudo da organização não-governamental britânica Oxfam. Mais um motivo para exigir mais justiça e menos privilégios.

Essa justiça só será alcançada com mais inclusão, educação, cultura e através da luta contra a concentração da renda nas mãos de poucos. Já passou da hora da classe média se libertar de sua identidade de grupo ‘quentinha’ embasada no discurso excludente e classista. Caso isso não ocorra, o caminho para mudanças efetivas será mais árduo.


Sou blogueiro e jornalista. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

Fonte: Zonacurva

A reconquista da cidade como bem comum. POR Sandra Mara Ortegosa (Fórum Século XXI)

PICICA: “A urbanização tem cada vez mais constituído um sítio primário de infindável acumulação de capital que administra suas próprias formas de barbárie e violência sobre populações inteiras em nome do lucro. A urbanização se tornou o centro de atividades econômicas avassaladores em escala planetária nunca antes vistas na história da humanidade.” (David Harvey)

A reconquista da cidade como bem comum


Sandra Mara Ortegosa  
Sandra Mara Ortegosa
 

"Em conseqüência do boom automobilístico e imobiliário impulsionado pelo governo, as metrópoles brasileiras encontram-se mergulhadas num cenário de caos e crescente deterioração da qualidade de vida."


“A urbanização tem cada vez mais constituído um sítio primário de infindável acumulação de capital que administra suas próprias formas de barbárie e violência sobre populações inteiras em nome do lucro. A urbanização se tornou o centro de atividades econômicas avassaladores em escala planetária nunca antes vistas na história da humanidade.” (David Harvey) 

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As manifestações de junho de 2013, deflagradas pelo Movimento Passe Livre (MPL) contra o reajuste das tarifas de ônibus e metrô, e que ficaram conhecidas como Jornadas de Junho, parecem ter tirado a sociedade brasileira do estado de torpor em que se encontrava até então, levando multidões às ruas das cidades do país inteiro. Mais de um milhão de pessoas saíram às ruas no dia 20 de junho de 2013, no maior protesto da história do país depois do impeachment do ex-presidente Collor, trazendo à tona uma infinidade de pautas e agendas políticas que colocam em cheque o cenário de paz e prosperidade veiculado pela propaganda oficial do governo. Os enormes gastos públicos em obras para sediar os megaeventos da Copa e das Olimpíadas, beneficiando empreiteiras corruptas e provocando a expulsão de centenas de famílias, principalmente no Rio de Janeiro, contribuíram para agravar ainda mais o clima de indignação e descontentamento que tomou conta das ruas. 

Uma das características em comum entre as Jornadas de Junho e os protestos que eclodiram no mesmo período em diversas partes do mundo (Primavera Árabe, Istambul, Occupy Wall Street, 15M na Espanha) é o fato dessas manifestações terem sido convocadas pelas redes sociais, sem a participação de partidos ou sindicatos, denotando uma profunda crise no sistema de representação política e um questionamento do modelo de desenvolvimento econômico que, no caso brasileiro, tem privilegiado consumismo, mediante o endividamento da população; a construção de grandes obras impactantes, como é o caso da Belo Monte; o agronegócio, em detrimento dos direitos dos povos indígenas; e a realização de megaeventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, deixando um rastro de elefantes brancos em nossas cidades. 

A mesma tropa de choque da PM, que mata diariamente dezenas de jovens pretos e pobres e joga bombas de gás contra famílias de trabalhadores para defender os interesses do mercado imobiliário, entrou em cena na repressão dessas manifestações, tornando evidente a precariedade de nossa democracia, ainda fortemente impregnada de resquícios da ditadura. No Rio de Janeiro, a relação entre um projeto de cidade segregacionista e a militarização dos territórios populares, com a instalação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), é cada vez mais gritante. 

As facilidades de crédito para aquisição de um automóvel fizeram com que o número de veículos particulares dobrasse em nossas cidades. Os congestionamentos do sistema viário em São Paulo, por onde circulam mais de cinco milhões de carros diariamente, chegam a ultrapassar 300 quilômetros de extensão e o tempo médio de deslocamento é, em média, superior a três horas. Com o avanço da crise econômica, é previsível que essa tragédia urbana se agrave, como reflexo da precarização das condições de trabalho, do aumento do desemprego e consequente aprofundamento das desigualdades sociais. 

Em conseqüência do boom automobilístico e imobiliário impulsionado pelo governo federal, as metrópoles brasileiras encontram-se hoje mergulhadas num cenário de caos e de crescente deterioração da qualidade de vida urbana. A priorização do transporte individual materializou-se numa paisagem urbana degradante, repleta de vias expressas, viadutos, pontes e túneis, que seguem exclusivamente a lógica da expansão do mercado imobiliário. Sob essa lógica, espaços públicos, edifícios históricos, áreas verdes, bairros inteiros e relações afetivas são destruídos. 

Sob a forma de parcerias público-privadas, grandes espaços públicos tornaram-se alvos de lucrativos empreendimentos imobiliários. Em Recife, o Movimento “Ocupe Estelita” luta há três anos contra um empreendimento que pretende construir 12 torres de 40 andares no cais José Estelita, desfigurando a paisagem histórica desse lugar estratégico e de significativo valor cultural e simbólico para a cidade. 

Da mesma forma, em São Paulo, o Movimento Parque Augusta, resiste à tentativa de privatização dessa que é uma das últimas áreas verdes no centro da metrópole. A resistência popular contra essas investidas do mercado imobiliário tem se dado com a efetiva ocupação pública dessas áreas, através da realização permanente de eventos culturais, shows, feiras e rodas de conversa, que têm contribuído no crescimento da consciência cidadã sobre questões urbanas. 

Movimentos como esses são exemplos do novo ativismo urbano que vem ganhando expressão no país e no mundo afora, oferecendo-nos uma oportunidade de revermos a lógica de produção do espaço urbano, revalorizando a cidade como um bem público e coletivo, locus privilegiado para uma governança urbana inclusiva, democrática e acima dos interesses privados. O que parece cada vez mais claro é que existe um grau de indignação latente, que entra em choque com o modelo de representação política arcaico, que não mais se coaduna com as possibilidades abertas pelo mundo conectado em rede, nem tampouco com essa concepção de cidade como mercadoria. 


Por: Sandra Mara Ortegosa
 
Arquiteta e socióloga pela USP. Phd em Antropologia pela PUC-SP