PICICA: "“Para mim, o estudo de Foucault não foi paradoxal em relação ao
feminismo, mas um percurso teórico que me levou a ter um questionamento
maior em relação também à História. Um encontro maravilhoso, uma nova
possibilidade de fazer ciência, que destruía aquela pretensão de verdade
única dos marxistas (…) Foucault abre comportas e não apenas portas…”
(Tânia N. Swain, entrevista realizada em 15/02/2009)
Com essas palavras, a historiadora feminista Tânia Navarro Swain
define sua relação com Michel Foucault, cujas problematizações e
conceitos lhe fornecem um olhar apurado para perceber as práticas
feministas e pensar diferentemente a produção do conhecimento histórico.
Ao seu lado, outras intelectuais feministas, como Margaret McLaren,
Dianna Taylor, Ladelle McWhorter, Chloe Taylor, Jana Sawicki, Karen
Vintges, Norma Telles e esta autora, também revelam uma atitude
receptiva e atenta aos modos de pensar que a filosofia de Foucault
inaugura, acolhendo sua enorme contribuição para os feminismos. Em seu
livro Feminism, Foucault and Embodied Subjectivity (2002), por exemplo,
Margaret McLaren propõe-se a mostrar como as reflexões foucaultianas
sobre o corpo e a subjetividade, para além das discussões sobre o poder,
trazem importantes recursos teóricos para os feminismos; já Tânia N.
Swain não apenas analisa as práticas feministas nessa perspectiva
teórica, como desdobra conceitos inspirados no filósofo, a exemplo do
“dispositivo amoroso”, para discutir as formas de captura do corpo e da
subjetividade femininos nas relações de gênero (SWAIN, 2008: 297)."

O feminismo acolhe Foucault.
Margareth Rago.*
– a historiadora e o filósofo
“Para mim, o estudo de Foucault não foi paradoxal em relação ao
feminismo, mas um percurso teórico que me levou a ter um questionamento
maior em relação também à História. Um encontro maravilhoso, uma nova
possibilidade de fazer ciência, que destruía aquela pretensão de verdade
única dos marxistas (…) Foucault abre comportas e não apenas portas…”
(Tânia N. Swain, entrevista realizada em 15/02/2009)
Com essas palavras, a historiadora feminista Tânia Navarro Swain
define sua relação com Michel Foucault, cujas problematizações e
conceitos lhe fornecem um olhar apurado para perceber as práticas
feministas e pensar diferentemente a produção do conhecimento histórico.
Ao seu lado, outras intelectuais feministas, como Margaret McLaren,
Dianna Taylor, Ladelle McWhorter, Chloe Taylor, Jana Sawicki, Karen
Vintges, Norma Telles e esta autora, também revelam uma atitude
receptiva e atenta aos modos de pensar que a filosofia de Foucault
inaugura, acolhendo sua enorme contribuição para os feminismos. Em seu
livro Feminism, Foucault and Embodied Subjectivity (2002), por exemplo,
Margaret McLaren propõe-se a mostrar como as reflexões foucaultianas
sobre o corpo e a subjetividade, para além das discussões sobre o poder,
trazem importantes recursos teóricos para os feminismos; já Tânia N.
Swain não apenas analisa as práticas feministas nessa perspectiva
teórica, como desdobra conceitos inspirados no filósofo, a exemplo do
“dispositivo amoroso”, para discutir as formas de captura do corpo e da
subjetividade femininos nas relações de gênero (SWAIN, 2008: 297).
Caminhando nessa direção, nesse trabalho, mostro como esse “casamento
teórico” aparece nas reflexões originais e nas críticas contundentes ao
patriarcado que Tania N. Swain constrói em seus inúmeros textos,
artigos e livros. Mais do que isso, destaco como a partir desse trabalho
intelectual, novas formas de pensar são criadas, denunciando as
relações de poder constitutivas dos saberes dominantes e abrindo espaços
para a imaginação criativa.
Parto da constatação de que o feminismo tem transformado
profundamente a cultura e a vida pública, no Brasil, a partir de lutas
que se dirigem para frentes muito diversificadas, no âmbito da política,
no da religião e especialmente no do pensamento. Lutar contra a
violência que sofrem as mulheres significa, a meu ver, não apenas
enfrentar situações palpáveis como o estupro, a violência doméstica, a
inferiorização, a humilhação e a exclusão física das mulheres, mas
enfrentá-las também no plano simbólico e do imaginário social,
transformando as formas misóginas e sexistas de pensar que hierarquizam o
mundo e produzem regimes de verdade autoritários e excludentes.
Significa dissolver as narrativas históricas masculinas, universalistas e
binárias, como lembra Tania N. Swain, para que seja possível
“[…]a construção de uma nova memória social, de um novo sujeito
político, filosófico, artístico, que não é mais o ‘outro’, nem o
‘diferente’, que não é mais o ‘feminino’, cuja definição seria por
oposição e inferioridade. […] Quando se recusa a ‘natureza’ dos seres,
se lhes confere uma plasticidade ‘impossível’ nas condições de
imaginação patriarcais. “(SWAIN, 2013: 59)
Se Foucault tem sido importante para Tania desenvolver seus
argumentos em relação aos feminismos, também me é útil para perceber a
crítica inovadora que ela constrói ao longo de décadas, e as
perspectivas que abre também para pensar a história dos excluídos, não
apenas a das mulheres. Nesse sentido, a noção foucaultiana de parresia,
ou coragem da verdade, constitutiva das artes da existência dos antigos,
e a de heterotopia inspiram-me a focalizar alguns movimentos dessa
historiadora militante, seja pela ousadia de afirmar um novo regime de
verdades, na contramão das interpretações e saberes instituídos, seja
pela invenção de “outros espaços” subjetivos, simbólicos e políticos,
antes não imaginados.
– audácia de pensar e dizer
Diz Foucault que a parresia, ao contrário da retórica, pode ser
definida como dizer a verdade, o falar francamente não importa para
quem, mas que não se trata de qualquer enunciação da verdade, e sim
daquela que comporta um risco. O parresiasta não é um professor, nem um
sábio ou profeta. Diz ele,
“Para que haja parresia, é preciso que, dizendo a verdade, abra-se,
instaure-se, afronte-se o risco de machucar o outro, de irritá-lo, de
deixá-lo em cólera e de suscitar de sua parte um certo número de
condutas que podem ir até a mais extrema violência. É portanto a
verdade, no risco da violência” (FOUCAULT, 2009:12).
Já as heterotopias referem-se a outros espaços, à possibilidade de
reinventarmos e darmos novos sentidos aos espaços físicos, geográficos,
políticos, afetivos ou subjetivos, que aprendemos a ver de maneira
empobrecida na Modernidade, perdendo sua multiplicidade. Ao contrário
das utopias que levam a lugar nenhum e a algum tempo distante no futuro,
as heterotopias dizem respeito ao aqui e agora e à possibilidade de
transformar o mundo exterior e interior, individual ou coletivamente.
Segundo Foucault, “Elas são a contestação de todos os outros espaços.”
(2014: 28)
Enfrentar a rigidez do pensamento hierárquico masculino nos meios
universitários, ousar dizer a própria verdade às autoridades científicas
não foi menos difícil aí do que no interior do partido político ou da
igreja, como atestam as experiências de várias militantes feministas em
vários momentos da história. A abertura para novos conceitos, teorias,
críticas, interpretações e questionamentos, especialmente aqueles vindos
do feminismo, mesmo nas universidades, teve de ser conquistada a partir
de muitos conflitos e disputas. Afinal, é a partir da luta política que
nasce uma linguagem feminista. Tania conheceu na carne a violência dos
preconceitos sexistas que precisou enfrentar para afirmar novas formas
de pensar, com Foucault e os saberes feministas.
Tendo estudado em Paris e convivido com os movimentos feministas
franceses nos anos setenta, apenas no século XXI, vinte anos depois de
ser contratada como docente pela Universidade de Brasília, consegue
colher os primeiros frutos palpáveis de seus investimentos: com o
auxílio de outra historiadora feminista, Diva do Couto Gontijo Muniz,
implanta uma área de concentração em “Estudos Feministas e de Gênero”,
no Programa de Pós-Graduação em História dessa instituição. Diz ela:
“Então nós criamos, conseguimos, imagina, criar mestrado e doutorado
em Estudos Feministas, foi a glória!” (Tania, entrevista concedida em
15/02/2009).
Certamente, olhar retroativamente o passado, quando as conquistas já
se efetivaram pode não deixar claro como o percurso foi caótico, cheio
de tentativas, acertos e erros, cheios de nuances. Desconstruir velhas
concepções, questionar o regime de verdades que inferioriza as mulheres,
trazer para a pesquisa histórica temas da esfera da vida privada,
propor e defender a existência de uma escrita feminina, lutar pela
criação e desenvolvimento de uma epistemologia feminista, enfim,
desfazer espaços confinados do saber, num mundo em que a grande maioria
não suportava nenhum desses termos significou travar uma luta árdua,
exaustiva. Como ela mesma rememora, em entrevista de 2007,
“O momento negativo mais marcante de minha carreira foi justamente a
época do totalitarismo de um deus ex machina marxista, redutor, que
impunha suas verdades, suas análises teleológicas e positivistas e só se
admitiam textos e discussões em torno de tese/antítese/síntese, de
dominador /dominado, e de uma futurologia desencarnada de um comunismo
paradisíaco, finalidade de toda história humana. Imagem caricatural, mas
reveladora de um fascismo ideológico que grassou na UnB durante muitos
anos, invertendo apenas o discurso da Ditadura Militar, para impor a
sua. “(Tania, entrevista concedida a Estevão C. de Resende Martins,
2007: 297).
Para ela, portanto, Foucault trouxe expressivas contribuições para os
feminismos, permitindo, com seus operadores conceituais, dar
visibilidade a outras estórias, fenômenos e processos vividos pelas
mulheres, silenciados pela racionalidade masculina. Um destes operadores
é a noção de genealogia, que supõe uma forma de história que explica a
constituição de saberes, discursos e domínios de objeto, sem ter como
referência um sujeito transcendental em relação ao campo de eventos, ou
que permanece o mesmo ao longo da história.
Essa rejeição do sujeito foi tomada por muitas feministas como recusa
da capacidade de ação moral e política e de transformação social, como
discutem McLaren (2002) e McWhorter (1999), por entenderem que o sujeito
da filosofia de Foucault é totalmente determinado, produzido por
relações de poder, sem capacidade de ação e resistência. Deixou-se de
perceber, assim, que, para ele, no capitalismo industrial, generaliza-se
uma forma de poder – as “disciplinas” – que visa a domesticar ou a
assujeitar os indivíduos, produzindo “corpos dóceis”. Ponto que Tânia
compreendeu muito bem e estendeu para pensar a produção de “corpos
dóceis” femininos, distribuídos e classificados entre as “normais” e as
“anormais”, as “castas” e as “histéricas” e “fatais”.
Para essa historiadora, a epistemologia feminista e o pensamento
foucaultiano convergem, permitindo-lhe encontrar novos modos de pensar a
História, os mecanismos de dominação na atualidade, inclusive na
produção do passado e das identidades, e elaborar com maior clareza
teórica as suas próprias dúvidas e posições.
“A História, hoje, seria fator de desordem do discurso, apontando a
falácia das hegemonias, como construções interpretativas”, observa ela
(SWAIN, 2004).
É nesse contexto intelectual que sua proposta de uma “história do
possível” adquire forma. Em relação a esta, Tania revela sua
insatisfação com a maneira pela qual se começara a construir uma
história das mulheres, mantendo-se os mesmos moldes tradicionais da
narrativa histórica dominante, como se a mera inclusão das novas
personagens num discurso tradicional fosse suficiente para dar conta da
presença feminina no mundo. A seu ver, não se configurava uma história
construída na perspectiva do feminismo e, portanto, a narrativa
histórica, mesmo incluindo mulheres, ao reproduzir o sistema binário que
define homens e mulheres de uma determinada maneira, conservava seu
formato masculino, legitimador das desigualdades sexuais, como se em
todas as sociedades, mulheres e homens fossem considerados do mesmo
modo, de acordo com uma natureza imutável, com seu “destino biológico”.
Como afirma,
“[…]a História, esta narrativa que recorta a vida e o passado em
textos produzidos segundo a percepção da realidade dos historiadores,
esconde e ignora imensos períodos do viver humano” (SWAIN, 2000: 12).
Tratava-se de pensar a produção de outras narrativas históricas, fora
da ordem discursiva androcêntrica, que explicitassem os valores e
representações que as informavam e que fossem capazes de dar a perceber
diferentes formas de vida, diferentes interpretações, outros códigos de
conduta e referências simbólicas também no passado. Aceitando com
Foucault e posteriormente com a “virada linguística”, a importância do
discurso como prática discursiva, como materialidade que constitui os
objetos e sujeitos de que fala, Tania defende como uma das tarefas
fundamentais, na escrita da história, a busca dos múltiplos sentidos que
podem ser encontrados em cada gesto, atitude, ação, sentimento ou
emoção. Para além dos inúmeros artigos em que esclarece suas concepções,
suas palavras a esse respeito, proferidas em entrevista, são bastante
esclarecedoras:
“[…] a história do possível é uma perspectiva feminista em que se
pensa a história como uma invenção, (…) o que se tem feito é repetir o
que se conhece proximamente, não apenas esse presente, mas um passado
muito próximo (…), então, outros espaços de outros tempos que nos
deixaram poucos indícios, em que esses indícios não foram trabalhados,
podem ter havido relações sociais muito distintas do que conhecemos hoje
entre homens e mulheres marcados essas violências profundas. O que me
instiga, o que quero estudar é: será que existiam essas figuras Mulher e
Homem? Será que não existiam outros tipos de relacionamento que não
passavam pela sexualidade? Essas ideias, não tirei do meu bolso, é uma
questão que percebi em leituras e viagens, no Taiti, são sociedades que
foram encontradas no século XVIII, totalmente diferentes do que
conhecemos… (SWAIN, entrevista concedida em 27/01/2009).
Tania explica que, em suas pesquisas históricas e antropológicas,
deu-se conta das profundas diferenças que caracterizam as sociedades e
que passam despercebidas. Assim, em algumas delas, por exemplo, o sonho
tem enorme importância e aquele que sabe contá-lo ganha certo status,
tornando-se uma espécie de mensageiro especial (SWAIN, 2008b). Outro
exemplo esclarecedor diz respeito ao emprego de termos que
invisivelmente reforçam representações sociais dominantes, como o uso do
termo “vagina”, ao invés de “vulva”, para se referir aos órgãos sexuais
femininos, especialmente nas comparações com o sexo masculino: “vulva é
externo, vagina é interno, fica lá dentro, (é melhor dizer) o pênis e a
vulva, já que a vagina é uma parte da genitália feminina.”
Seus exemplos poderiam se suceder infindavelmente, mas destaco o
artigo “História: construção e limites da memória social” (2008b), em
que Tania relê a história da colonização no Brasil, desde o século XVI,
comparando as fontes primárias com as interpretações feitas
posteriormente pelos historiadores. Seu olhar feminista desconstrói as
narrativas desqualificadoras e as representações sexistas e racistas
construídas pelos viajantes sobre as formas de organização dos
indígenas, sobre a sexualidade das mulheres, supostamente fogosas e
promíscuas, instituindo sua amoralidade. Num excelente trabalho
genealógico, mostra como os documentos foram apropriados e
reinterpretados pela historiografia masculina, subsumidos por conceitos
misóginos que cristalizam imagens profundamente negativas a respeito dos
e das primeiros habitantes da terra, tidos como bárbaros, incivilizados
e incapazes de cidadania. Ela destaca como, nesse registro histórico, o
estupro, ao lado de outras formas da violência de gênero, nunca
aparece, como se a Colônia fosse mesmo o “Paraíso Tropical” imaginado ou
desejado: “Tudo se passa também em uma espécie de euforia lasciva, onde
a violência está ausente e a sexualidade é a celebração de uma enorme
festa em prol da mestiçagem”. Como denuncia a historiadora, Gilberto
Freyre, por exemplo, não hesita em afirmar que as índias se ofereciam
para os brancos fogosamente, enquanto “as mais ardentes se esfregavam
nas pernas daqueles que ‘supunham ser deuses’” (FREYRE apud SWAIN,
2008b: 40).
– o feminismo como poética do pensamento
Se Tania constrói uma ampla crítica ao imaginário social e aos modos
de existência vigentes em nossa atualidade, onde a violência de gênero
física e simbólica se faz insistentemente presente; se desconstrói as
representações sociais instituídas como naturais e universais,
evidenciando sua contingência ao mostrar que foram produzidas
historicamente, pode-se dizer que o foco de suas análises se centra nas
discussões teóricas em torno da sexualidade, do corpo e da
subjetividade. Inspirada por Foucault e em diálogo com outras teóricas
feministas, sua opção a coloca na intersecção entre a história, a
antropologia, a filosofia e os estudos literários, já que está mais
voltada para a crítica das condições de produção do pensamento
ocidental, dos discursos sexistas e dos modos como a produção científica
se realiza.
Em seus inúmeros textos e livros, nota-se a busca constante da
transformação dos modos de conhecer, a intenção de fazer ciência na
perspectiva feminista, isto é, trazendo para a linguagem a
corporalidade, a sexualidade e a subjetividade e desfazendo antigas
fronteiras demarcadas pelo sistema de pensamento binário. Nesse sentido,
seu trabalho abre espaços que ouso chamar de heterotópicos, como diz
Foucault (2014), pois inventam “outros espaços” no plano do pensamento,
permitindo a emergência da multiplicidade de fenômenos, temporalidades,
sentidos, contestações, antes encobertos pelo sentido único instituído
como verdadeiro.
Assim, vinculando-se ao “feminist criticism” e em busca da superação
do “campo de possibilidades epistemológicas” que, a seu ver, restringe
os meios de percepção de outros fenômenos e práticas, ela explica,
recorrendo a Gayle Rubin:
“Por “campo de possibilidades epistemológicas”, entendo um horizonte
de percepção do social/humano, um universo discursivo povoado de
representações e imagens, constituindo uma rede categorial, que tende a
reduzir a apreensão do mundo e da história a densos esquemas
interpretativos, que seriam denominados por Foucault de “regimes de
verdade” (Foucault, 1979: 14). Estes blocos de ferramentas analíticas
intentam produzir a verdade última e definitiva sobre o mundo físico ou
social e contra estes totalitarismos científicos erigiram-se os
movimentos feministas da atualidade e o ‘feminist criticism’” (SWAIN,
2002b).
Crítica radical da lógica da identidade, fundada em oposições
binárias, Tania desafia as definições masculinas da identidade feminina,
as partilhas entre masculino e feminino, natureza e cultura,
heterossexualidade e homossexualidade, normal e patológico, razão e
loucura, desmistificando as interpretações falocêntricas que, da igreja à
ciência e à mídia, pretendem produzir os corpos, formar a opinião
pública e instituir o imaginário social. Segundo suas análises, o desejo
masculino aparece como regulador dessa ordem social e moral, como
aquele que define e impõe modos de ser e sentir ditos verdadeiros e
únicos para todos, incluindo as mulheres, construindo, portanto, os
significados estigmatizantes da diferença, do desvio e da anormalidade.
Assim, a preocupação com os limites sexuais da produção do
conhecimento se evidencia em seu trabalho intelectual, o que implica o
questionamento constante das representações sociais que instituem os
lugares sociais para mulheres e homens, as primeiras na esfera da vida
privado ou na natureza, e os segundos no mundo público e na cultura. É
claro que, com essas motivações, a transformação não só dos temas, mas
do próprio discurso histórico se torna uma questão fundamental. Num
balanço sobre o seu trabalho de historiadora, ao discutir as práticas e
procedimentos da disciplina, ela afirma que o considera essencialmente
interdisciplinar.
“Os aportes das teorias feministas (com destaque para Teresa de
Lauretis, Linda Hutcheon, Colette Guillaumin, Monique Wittig, Adrienne
Rich), de Análise do Discurso, de Representações Sociais, do Imaginário e
Imaginação Social e, sobretudo, da extraordinária obra de Michel
Foucault têm me auxiliado a compor uma interpretação do real e uma
concepção de ciência sobre a qual constitui meu trabalho. Algumas
noções, oriundas destes diversos vieses teóricos, foram nodais ao longo
de minha carreira acadêmica, tanto na docência, quanto na produção
bibliográfica, tais como: discurso, descontinuidade, sexo social,
patriarcado, tecnologias de produção de gênero, dispositivo da
sexualidade (ao qual acrescentei o dispositivo amoroso, da violência),
processo de subjetivação, assujeitamento, pedagogias sociais, condições
de possibilidade, condições de produção e de imaginação, matrizes
discursivas, política de localização, inteligibilidade social, matrizes
de sentido e muitas outras, suscetíveis de fundamentar minha
interpretação do real, etc “(SWAIN, 2002b).
É interessante observar a aceleração do ritmo que toma seu pensamento
na virada do milênio, fruto também do amadurecimento pessoal e
profissional. Várias de suas reflexões adquirem uma forma mais densa,
enquanto a inspiração intelectual também se estende a Deleuze e às
feministas deleuzianas, como Rosi Braidotti e Elisabeth Grosz, cujas
análises aparecem desde o primeiro número da revista Labrys, estudos
feministas, criada em 2002.
– heterotopias feministas
Dois anos antes, a convite de outra conhecida “feminista histórica”,
Danda Prado, Tania publica O que é Lesbianismo? (2000), livro em que
desconstrói de maneira polêmica e impactante a suposta identidade
lésbica, embaralhando inúmeras possíveis respostas à questão em jogo e
revelando as armadilhas aí supostas. Simulando várias situações em que
atos, pensamentos e sonhos são perscrutados, a autora pergunta: o que
faz de uma mulher uma “lesbiana”? Suas ações? Seus sonhos? Seus
desejos?, acenando de modo contundente para o estreito universo dos
enquadramentos com que opera o sistema hegemônico de interpretações
sociais.
Vale lembrar que, até algumas décadas atrás, o lesbianismo era visto
como monstruosidade ou “perversão sexual”, segundo o discurso médico
construído desde o século XIX, com base em assunções morais religiosas. A
lésbica, por negar na prática o ideal de mulher-mãe-assexuada, era
estigmatizada e marginalizada como ser abjeto, como mostram as pesquisas
do feminismo lésbico e de autores vinculados ao movimento gay, desde a
década de 1970. Aliás, segundo Tania, mesmo a conexão entre feminismo e
lesbianismo não se deu sem problemas, as feministas considerando-se
mulheres “normais”, em oposição às figuras que destoavam de seu padrão
identitário. Ainda não se havia aprofundado o amplo debate sobre “o
sujeito do feminismo”, nem se falava em feminismos plurais e múltiplos,
no Brasil, como ocorre nas décadas seguintes.
“Deserto: outrora terra árida, extensão de sal. Atualmente todo lugar que não é habitado pelas lesbianas.”
Com esta epígrafe sugestiva de Monique Wittig, Tania inicia seu
livro, logo seguido por uma “pequena advertência”, em que conta que, no
primeiro dia do curso do ano anterior, escrevera no quadro a seguinte
frase: “Minha única pretensão é mudar o mundo!”, mas em que avisa que
toda resposta tem valor transitório.
Num estilo irônico, às vezes, cômico, Tania imagina duas jovens que
passeiam e se acariciam, ou duas senhoras grisalhas que se encontram e
abraçam, e pergunta como defini-las: “amigas? irmãs? amantes?
lésbicas?”. É assim que cria várias situações e jogos que nos
surpreendem em sua familiaridade e, ao mesmo tempo, questionam nossas
interpretações e reações cotidianas. Essas cenas permitem-lhe
desconstruir a noção de lesbianismo, revelar sua triste história, tanto
quanto destacar os efeitos de poder que teve sobre uma enorme quantidade
de mulheres, excluídas como não-mulheres e, pior ainda, como
aberrações.
Vale lembrar como agiram os regimes totalitários em relação às
figuras da anormalidade, baseados nas concepções eugenistas do século
XIX. A “heterosexualidade compulsória” serviria, segundo esse ideal
racista, para garantir a construção e perpetuação de uma “humanidade
eugênica”, como analisa ela. Observa também como agem as “tecnologias de
reprodução do gênero” (LAURETIS, 1994) que, nos meios de comunicação,
no cinema, na literatura, nas artes, na imprensa reafirmam as imagens
tradicionais de mulheres e homens, veiculam representações asimétricas
de sexualidade e banalizam a violência sexual e de gênero. Tania encerra
o denso livro, perguntando novamente em tom jocoso: “Mas o que é ser
lésbica? O que é ser mulher?”, ao que travessamente responde: “boa
questão!” (SWAIN, 2000: 95).
Desdobrando essa discussão, no trabalho intitulado “Identidade
Nômade: Heterotopias de mim”, Tania propõe um jogo performático por meio
da sua própria narrativa autobiográfica (SWAIN, 2002a). Irônica, põe em
discussão o tema deleuziano do nomadismo, da invenção de novas
subjetividades, valendo-se também da noção foucaultiana de “heterotopia”
(Foucault, 2014). Ao mesmo tempo, essa estratégia narrativa centrada no
eu também lhe é útil para lançar críticas ao pensamento falocêntrico,
que naturaliza a identidade. Assim, ela pergunta:
“Quem somos “nós”, assim, encerrados em corpos sexuados, construídos
enquanto natureza, passageiros de identidades fictícias, construídas em
condutas mais ou menos ordenadas? Quem sou eu, marcada pelo feminino,
representada enquanto mulher, cujas práticas não cessam de apontar para
as falhas, os abismos identitários contidos na própria dinâmica do ser?”
(SWAIN, 2002a: 327)
Se aqui Tania visa a desestabilizar noções naturalizadas que afirmam a
identidade sexual ancorada no corpo biológico, nas discussões
apresentadas nos textos seguintes, dedicados ao tema da velhice,
aparecem as mesmas estratégias discursivas e referências teóricas. No
artigo “Velha? Eu? Auto-retrato de uma feminista” (2006a) parte com
humor e originalidade para uma crítica performática dos estigmas
modernos que encerram o corpo, a sexualidade e a identidade da mulher
madura na categoria da velhice, associada, por sua vez, à da menopausa.
“É ainda e sempre o ‘dispositivo da sexualidade’ em ação, descrito por
Foucault”, denuncia ela.
Lembre-se que a menopausa foi definida pelo discurso médico como o
“ocaso” da sexualidade feminina, ou seja, como um momento em que sua
vida sexual se encerraria, e em que, ao contrário dos homens, as
mulheres deixariam de ter desejo sexual, sendo, portanto, despojadas de
seu principal papel na sociedade, o de reprodutoras e mães, como
desconstroem os saberes feministas. Expondo-se ousadamente no texto e
afirmando uma recusa radical de um corpo e de uma identidade
pré-estabelecidos, Tania desafia:
“Meus cabelos são compridos e brancos, crime de lesa majestade para
uma mulher no Brasil. Visto-me como bem me apetece, para escândalo
das/dos colegas e para alegria dos alunos, que partilham minhas
preferências. Nunca torturei meus pés nestes sapatos pontudos e de salto
alto (elegantes!) que nos impedem de correr, saltar, ter uma postura
correta. Sinto-me bem e confortável nos meus running shoes que me
transportam entre conferências e palestras, das bancas de tese às aulas
habituais.” (SWAIN, 2006: 263).
Sua crítica desconstrói as interpretações que fazem da velhice um
período associado à degenerescência e à morte, um momento de perda de
potência das mulheres, brancas ou negras, de quem se exigem padrões
estéticos elevados, entre beleza e juventude:
“Mas o que é afinal a velhice? Vemos florescer, mesmo nas fileiras
dos feminismos, os “grupos de jovens”, face às feministas “clássicas”,
tradicionais, “idosas”, velhas, enfim. O que faz a coerência dos grupos
de “jovens”? Quais são seus limites, seus objetivos, seus laços? Como a
idade pode determinar o pertencimento, senão em um mundo traçado,
estabelecido, definido, onde os gostos e preferências se estabelecem
segundo a publicidade, a propaganda, avatar último de uma globalização
avassaladora em marcha? E quais são os detalhes sutis que colocam
alguém, inexoravelmente entre as “velhas”? A terceira idade começa aos
30 ou 31 ou 42 ou 54? E a quarta idade e a quinta? Qual é a ruga ou a
quantidade de cabelos brancos que determinam esta passagem?” (SWAIN,
2006: 264).
Enquanto muitas feministas rejeitaram as lições de Foucault, Tania
opta por aprender com este pensador incendiário. Nessa direção,
questionando os limites do que o filósofo francês concebe como
“dispositivo da sexualidade”, bastante pertinente para pensar a produção
dos corpos e das identidades naturalizadas no mundo masculino, a
historiadora propõe a noção de “dispositivo amoroso”. Nesse caso, tem em
vista dar contas das diferenças que afetam as mulheres. Como ela
explica, no imaginário social, enquanto para os homens o sexo é
fundamental, para elas, o amor é colocado em primeiro lugar, como se os
primeiros fossem feitos para o prazer, enquanto as mulheres, futuras
mães cívicas, fossem destinadas exclusivamente ao amor pelo próximo e ao
cuidado com o outro. Diz ela:
“Nas fendas do dispositivo da sexualidade, as mulheres são
“diferentes”, isto é, sua construção em práticas e representações
sociais sofre a interferência de um outro dispositivo: o dispositivo
amoroso. Poder-se-ia seguir sua genealogia nos discursos – filosóficos,
religiosos, científicos, das tradições, do senso comum – que instituem a
imagem da “verdadeira mulher”, e repetem incansavelmente suas
qualidades e deveres: doce, amável, devotada (incapaz, fútil,
irracional, todas iguais!) e, sobretudo, amorosa. Amorosa de seu marido,
de seus filhos, de sua família, além de todo limite, de toda expressão
de si.” (SWAIN, 2008a: 297).
– o dispositivo amoroso
As reflexões que se seguem, nesse texto, são bastante instigantes,
pois ampliam e desdobram o conceito foucaultiano de “dispositivo da
sexualidade”, para dar conta da produção dos corpos femininos a partir
de outras práticas culturais e sociais, de tecnologias de gênero
diferenciadas. O “dispositivo amoroso” – esse conjunto de práticas
discursivas, técnicas, instituições, leis, medidas administrativas,
enunciados científicos, proposições filosóficas e morais, como explica
Foucault em relação ao termo “dispositivo” (FOUCAULT, 1979: 244) – é
criado, então, para evidenciar a maneira pela qual as mulheres são
assujeitadas pela disciplina corporal e pela educação dos sentidos
impostas em casa, na família, na escola, pela pedagogia, pela ciência,
pelas artes, pelo cinema, pelas propagandas veiculadas pela mídia. Diz
ela:
“O dispositivo amoroso, assim, cria mulheres e, além disto, dobra
seus corpos às injunções da beleza e da sedução, guia seus pensamentos,
seus comportamentos na busca de um amor ideal, feito de trocas e
emoções, de partilha e cumplicidade. A sexualidade às vezes é até
acessória. As tecnologias sociais do gênero investem os
corpos-sexuados-em-mulher em práticas discursivas que propõem como
axioma a “natureza” feminina, um pré-conceito ancorado no senso comum,
propagado e instituído por um conjunto de discursos sociais.” (SWAIN,
2008a: 298).
Discutindo as múltiplas formas de servidão impostas às mulheres, na
atualidade, a partir desses jogos de saber-poder, o artigo
progressivamente se desloca de uma crítica mais geral para referir-se ao
próprio eu, afirmando sua própria percepção do que se configura como
uma forma de dominação em nosso mundo, e de como responder a esta. Lê-se
nessa “escrita de si”:
“Sinto necessidade de mudar de nível, de mudar, apenas. Não, não sou
contra a sexualidade, ao contrário. Tenho, entretanto, um engajamento
feminista, um engajamento comigo mesma, que impede o cego assujeitamento
às imposições do social sobre meu corpo e meu ser. Procuro, ao
contrário, perfurar as evidências infladas de certezas e verdades, as
que criam obrigações e fixam identidades, encobrindo a face do poder.”
(SWAIN, 2008a: 301)
Em seguida, ela explicita sua interpretação da noção de “estética da existência”, porém, referida à sua própria experiência:
“Quem sou eu, fora da sexualidade? Quem sou, fora das normas do sexo?
Por que devo me curvar às regras que impõem a sexualidade como fundo de
verdade do ser? De fato, pouco me interessa saber quem eu sou, já que
não sou mais a mesma, no momento desta enunciação.
A liberdade não é uma palavra vã. Se ela se encontra no fim do
arco-íris, sua conquista é o caminhar crítico da construção de mim, que
me leva onde nunca fui, que me afasta daquilo que não serei nunca mais,
livre, porém, das servidões bio-sociais. É assim que concebo a estética
da existência: a produção crítica de mim, enquanto sujeito político e
histórico, transitando em temporalidades e lugares inusitados, quebrando
os grilhões do natural, da sexualidade compulsória, das novas servidões
que se anunciam ao criar nossos corpos.” (SWAIN, 2008a: 301)
– uma revista digital feminista
Sonho projetado há muito tempo, produto de muitos contatos realizados
no Brasil e no exterior, a revista feminista digital internacional
Labrys, estudos feministas, também publicada em francês e com artigos em
inglês e em espanhol, foi criada no segundo semestre de 2002, por sua
iniciativa, com o apoio de Marie-France Depêche. Conta com um grupo de
feministas de várias instituições, integrando o conselho editorial.
A palavra grega Labrys designa um machado com lâmina dupla, utilizado
como arma ou instrumento sagrado pelas antigas populações das Amazonas,
segundo os registros arqueológicos; para Tania, é “um símbolo maior de
afirmação do feminino”, como afirma no número 3 da revista. Em todos os
números, uma cuidadosa explicação histórica sobre o termo dá conta das
formas de sua utilização ao longo do tempo, do sentido sagrado que
possui em diferentes culturas, justificando sua escolha para dar nome à
publicação. Eis um fragmento dessa explicação:
“[…] Imersas no mito, as Amazonas revivem em seus símbolos, como a
“Labrys”, que imprime suas lâminas duplas nos muros do palácio de
Cnossos, o “palácio da dupla machadinha”. Creta contém imagens e
esculturas da Labrys, feita de diversos materiais, de todo tamanho, das
joias buriladas à escultura gigante. Labrys aparece também nos selos, e
orna vasos, sarcófagos, decorações murais. É associada a várias
divindades femininas da mitologia greco-romana, como Gaia, Réa, Ártemis,
Diana e aparece também em outros lugares do mundo, como na Índia e no
Egito. Labrys é ainda hoje, um símbolo maior de afirmação do femininº.”
(labrys)
Já no primeiro número, o editorial defende, com todas as letras, a
importância dos feminismos, em suas múltiplas expressões, enfatizando
sua dimensão transgressora e subversiva. Explicitando seu desejo de
reinvenção, criando o que define como uma “poética do pensamento”, e
buscando criar pontes que articulem as feministas de regiões próximas ou
distantes, tecendo novas redes, ela escreve:
“Labrys – estudos feministas” pretende ser um lugar de fala
feminista, um lugar de inquietação sobre o feminismo, cadinho de
experiências e experimentações, onde os modelos teóricos “verdadeiros”
dão lugar a uma poética do pensamento, descentrado, sem medo do paradoxo
e da aporia, cérberos dos caminhos pavimentados pela “verdade”. Este é
um espaço de re-invenção: criar laços de solidariedade que atravessem os
continentes, misturar as pistas que levam às largas avenidas do senso
comum, dos discursos redutores que agrilhoam o humano em moldes
corporais e identitários. E sobretudo, criar práticas sociais que
busquem as similitudes, em lugar das diferenças” (nº.1-2. julho-dezembro
2002).
Desde o início, Tania destaca a dimensão política desse ativismo
feminista cultural, que recusa enquadramentos conceituais, teóricos ou
de qualquer outro tipo, e que visa a uma profunda transformação social e
cultural. Entende que para destruir a ordem patriarcal é necessário
muito esforço, a começar dando visibilidade ao que vem sido reprimido,
silenciado, não dito e não publicado: as vozes feministas e o árduo e
longo trabalho das feministas em todo o mundo, questionando, criticando,
subvertendo a cultura patriarcal, acenando para outras possibilidades
de existir, de organizar socialmente e de construir para o bem público. A
palavra é a principal arma dessa militância, já que, segundo ela, “a
palavra é ação e o gesto que desfaz os contornos é também um movimento
de criação contínua” (Idem). O feminismo como uma “poética do
pensamento” é o que advoga Tania, abrindo novas formas de expressão para
as mulheres em luta.
O movimento feminista, na medida mesmo em que se amplia, em que
adentra múltiplos espaços, em que dialoga com outros movimentos sociais
que proliferam no Brasil, e em que se institucionaliza, ao ser chamado a
dialogar com o Estado e a participar de espaços como os Conselhos da
Condição Feminina e a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres,
criada em 2004, sofre profundas transformações. Uma delas, menos
positiva, refere-se à captura do potencial subversivo que apresentava
nos primeiros tempos, como alertam várias feministas (OLIVEIRA, 1990,
THAYER, 2010). Essa investida biopolítica reflete-se também no próprio
discurso feminista, muitas vezes, árido, “realista” e objetivo, ou seja,
masculino, eliminando toda sorte de preocupação com a forma e com as
próprias dimensões femininas da linguagem, como a subjetividade e a
imaginação poética.
É contra essa tendência que feministas como Tania se rebelam,
evidenciando a importância de transformar não apenas as práticas sociais
e políticas, não apenas o mundo da política institucional, as leis e o
direito, o que é absolutamente necessário, como se sabe, mas também os
modos culturais, as formas de pensamento e de expressão que configuram
esses efeitos nas várias áreas da atuação pública ou social.
Não é de se estranhar, nessa direção, que Foucault, Deleuze e Derrida
se tornem referências teóricas das mais impactantes para ela. Suas
discussões sobre a linguagem, portanto, têm um sentido altamente
político, já que se trata de reivindicar o direito à expressão feminina e
feminista, o que implica uma subversão dos modos discursivos
dominantes, ou, em outras palavras, o que convoca à criação de uma
poética feminista.
Poética feminista é aqui entendida como subversão das formas
narrativas tradicionais, desbloqueamento das palavras e embaralhamento
dos gêneros literários, de modo a construir uma linguagem feminista ao
mesmo tempo corporificada, que dê passagem à imaginação feminina, não
mais demonizada como perigo ou histeria. Caótica, anárquica, excessiva,
para além das normas instituídas da gramática universal, essa escrita
foge dos enquadramentos disciplinares da ciência e busca saídas na
literatura. Entre a ciência e a arte, imbuída de razão e emoção,
articulando o discurso científico e o artístico, colocando-se no espaço
“entre”, em constante devir, é uma escrita de fronteira como as
subjetividades de que se nutre ou que produz.
No contexto dessas discussões, Ana Carolina A. de Toledo Murgel chama
a atenção para as críticas que fazia Heloísa Buarque de Hollanda, em
1981, quando, no artigo “A imaginação feminina no poder”, reclamava das
dificuldades que enfrentava o feminismo, com “uma certa incapacidade,
enquanto linguagem, para enfrentar seus fantasmas mais delicados” (apud
MURGEL, 2010: 116). Segundo Hollanda, na busca da igualdade, o feminismo
acabara por reproduzir um discurso masculino e, com ele, “os mitos que
sustentam o modo de produção capitalista.”
Showalter desdobrou ousadamente essa discussão, ao propor para a área
de estudos literários a “ginocrítica”, como modo cultural de conhecer a
literatura produzida por mulheres, sem enquadrá-la em modelos
masculinos que tenderam a desvalorizá-la (SHOWALTER, 1986: 8). Buscava,
portanto, libertar a escrita feminina dos moldes masculinos de uma
história linear da literatura, que mais exclui do que dá conta da
experiência feminina. Para ela, essa tarefa é absolutamente necessária
para dar visibilidade à potencialidade da cultura feminina, levando-se
em conta que as mulheres certamente ficam muito divididas tanto porque
são filhas de uma tradição masculina, como porque caminham em busca de
novas formas femininas de escrita de si. Em suas palavras:
“Somos tanto filhas da tradição masculina, dos nossos professores do
colégio, dos da universidade, dos orientadores e editores, de uma
tradição que nos pede para sermos racionais, marginais e agradecidas,
quanto irmãs de um movimento de novas mulheres que engendra outro modo
de consciência e compromisso, que pede que renunciemos ao pseudo-sucesso
de símbolos da feminilidade e às irônicas máscaras do debate acadêmico
“(SHOWALTER, 1986: 18).
É claro que nem sempre essas discussões são bem-vindas nos meios em
que se respeitam divisões como as que colocam as feministas “práticas”,
de um lado, e as “teóricas”, de outro, instalando-se inadvertidamente na
oposição binária teoria/ação, que o próprio feminismo critica. Segundo
esta lógica, as questões da linguagem refletem um idealismo tradicional,
ao que opõem o materialismo de suas atividades, dando continuidade às
antigas querelas com que se defrontavam marxistas e não-marxistas,
“materialistas” e “idealistas”, nas décadas de 1960 e 1970. Para as
feministas denominadas “práticas”, a militância só pode ser pensada fora
das universidades, fora da produção intelectual e dos seminários e
congressos acadêmicos feministas, muito embora os resultados das
realizações intelectuais, os resultados das pesquisas históricas,
antropológicas ou sociológicas sejam rapidamente absorvidos quando da
publicação e circulação dos livros e artigos produzidos.
Nessa direção, vale ainda lembrar a provocativa crítica de Foucault,
quando argumenta que o pensamento é também uma forma de experiência, que
há “acontecimentos do pensamento”, e que os historiadores deveriam se
perguntar por que a história das ideias em geral se refere ao pensamento
das elites, enquanto a história social trabalha com as práticas e
comportamentos das camadas populares. Conversando com Arlette Farge, ele
aponta:
“Se é verdade que as representações foram muito frequentemente
interpretadas em termos de ideologia (primeiro erro); que o saber foi
frequentemente considerado como um conjunto de representações (segundo
erro), o terceiro erro consiste em esquecer que as pessoas pensam e que
seus comportamentos, suas atitudes e práticas são habitados por um
pensamento”. (FOUCAULT, 1994: 654)
Essa é, sem dúvida, uma discussão que ultrapassa as fronteiras
nacionais, sendo vários os livros que debatem o tema, questionando a
rejeição ao pensamento pós-estruturalista por parte de muitos grupos
feministas. É também uma discussão importante para Tania, leitora de
Foucault, Deleuze e Derrida, que, preocupada com a criação de novas
formas de expressão do pensamento e, em especial, do pensamento
feminista, abre um amplo espaço de debate e circulação de ideias com o
lançamento da revista Labrys, estudos feministas.
Os vinte e cinco números existentes foram lançados semestralmente ao
longo de mais de uma década. Todos são esteticamente trabalhados com
imagens específicas, em cores e portam algum tipo de som musical,
referenciado pela temática. Reúnem artigos de feministas de inúmeros
países, desde o Brasil, Peru, Bolívia e Argentina ao Canadá, França,
Espanha, Índia e China, até o momento, podendo ampliar-se ainda mais.
Mulheres escritoras, artistas, poetas, intelectuais, cientistas,
militantes políticas, aventureiras do passado e da atualidade são
estudadas, interpretadas e descritas pelos olhares feministas de outras
mulheres. A revista, nesse sentido, cumpre um amplo papel de aglutinação
das intelectuais feministas, de divulgação de autoras nacionais e
internacionais, de difusão de suas ideias e de promoção de debates na
área dos feminismos. Em se tratando de uma produção digital, pode ser
acessada por quem quer que seja, gratuitamente, e assim traz uma gama de
autoras e de temas feministas a que não se teria acesso com facilidade e
rapidez.
Os números 1-2, referentes a julho-dezembro de 2002, trouxeram a
pioneira dos estudos feministas no Brasil, a socióloga Heleieth I. B.
Saffioti, falecida em 2010, que analisa as “Contribuições feministas
para o estudo da violência de gênero”. Outros artigos discutem as
teorias e os movimentos feministas, com Elizabeth Grosz, Francine
Descarries, Linda Hutcheon, Lola G. Luna e Rosi Braidotti, dando também a
conhecer a história desses movimentos no Brasil e no exterior.
Intelectuais brasileiras, como Rachel Soihet, Diva Gontijo Muniz, Norma
Telles, Lúcia Helena Vianna, Marie-France Dépêche, Marilda Ionta,
Elisabeth Rago, Susel Oliveira da Rosa, Ana Carolina Arruda de Toledo
Murgel, Luana S. Tvardovskas, Célia Orlato Selem, entre outras,
contribuem com pesquisas inovadoras, escrevendo a história de mulheres
desconhecidas e de suas valiosas obras, desfazendo as densas névoas de
silêncio que as ocultaram por décadas ou séculos.
Sexualidade, homossexualidade, corpo, gênero e teoria queer são temas
também abordados por especialistas como Guacira Lopes Louro, Carmen
Lúcia Soares, Denise B. Sant’Anna, Silvana Goellner, Cláudia Maia e
Christine Détrez. Enquanto a antropóloga Rita L. Segato problematiza de
maneira inovadora o tema da violência de gênero, Constância Lima Duarte
focaliza “O discurso autobiográfico de Nísia Floresta”.
Vários dossiês foram organizados desde o início da revista, tendo em
vista divulgar os feminismos em sua dimensão teórica e prática e seus
aportes em todo o mundo. Assim, o nº. 6 da revista traz o dossiê
“Paroles du Québec”, produzido por Francine Descarries e Tania N. Swain;
no nº. 8, María Luisa Femenías apresenta os “Feminismos en la
Argentina”, reunindo diversas escritoras argentinas contemporâneas; o
nº. 9 nos brinda com o “Dossiê India”, organizado por Susan Dewey; no
nº. 10, aparece o “Dossiê Espanha”, em que Ana de Miguel Álvarez discute
as perspectivas feministas na Espanha, no século XXI, entre outros
valiosos textos; já o nº. 11 traz o dossiê “Feminismos no Peru”,
enquanto o nº. 14 entra com o tema “Nous, féministes du Québec”; os nos.
15/16 introduzem o “Feminismo na China” e apresentam o dossiê “Memórias
insubmissas: mulheres nas ditaduras latino-americanas”, organizado por
Margareth Rago, enquanto o nº. 19 discute o “Feminismo no México” e
assim como os números 20/21, acolhe as viajantes e aventureiras do
passado, dando a conhecer as motivações de suas buscas, os percursos que
realizaram, os obstáculos que tiveram de vencer, assim como seus
escritos, entre trabalhos científicos e registros de viagem. Figuras que
aparecem, ainda, nos números posteriores, trazendo uma ampla gama de
ousadas mulheres com trajetórias criativas e radicais.
Vale explicar que não se trata apenas de uma temática a ser abordada
em cada número da revista, já que, sendo digital, abre inúmeros arquivos
e espaços preenchidos por dicas de leituras, resenhas, obras de arte e
comentários livres.
Reconhecida hoje não apenas nos meios acadêmicos feministas, essa
revista tem trazido uma valiosa contribuição tanto para a divulgação das
idéias e dos debates travados nos meios feministas em todo o mundo,
como ainda para a própria construção do pensamento feminista
transnacional, pois permite a conexão virtual de autoras de diferentes
partes do mundo. Nesse sentido, é uma das primeiras e uma das poucas
revistas feministas digitais no país, trazendo a marca da excelente
qualidade das reflexões teóricas, das pesquisas históricas e das
entrevistas divulgadas.
– potencializando os feminismos com Foucault
As pertinentes apropriações do instrumental teórico foucaultiano que
Tania opera permitem-lhe, de um lado, criticar e denunciar a dominação
patriarcal, em suas diversificadas formas de manifestação, do poder
disciplinar à biopolítica e à governamentalidade neoliberal; de outro,
favorecem uma leitura potencializadora das práticas feministas que
poderiam passar despercebidas sem as noções adequadas para a sua
visibilização. Possibilitam, portanto, discutir tantos as tecnologias do
poder que capturam corpos e subjetividades femininos, quanto pensar as
práticas da liberdade, as resistências e transgressões criadas pelos
feminismos contemporâneos.
Assim seus temas abrangem um amplo leque de problematizações: das
análises sobre a violência patriarcal contra as mulheres, a produção dos
“corpos dóceis” femininos, a denúncia da normatização da vida feminina
na modernidade e as dimensões de captura dos três dispositivos, como ela
destaca, o amoroso, o da sexualidade e o da violência que impõem a
“heterossexualidade compulsória”, às criações feministas, a partir do
trabalho sobre si, de um cuidado de si na produção de subjetividades
éticas, e do cuidado com o outro, no sentido de fortalecimento da
solidariedade e das relações de amizade entre as mulheres.
Daí, seu incansável esforço para dar a conhecer a história das
mulheres e sua produção literária, artística, política, no passado e no
presente, que revelam o desejo de dotar as mulheres de um passado com
que possam se identificar e fortalecer tanto quanto a aposta nos
benefícios que a cultura feminina reinventada pelos feminismos pode
trazer para nosso mundo bastante dilacerado por conflitos, interesses e
ambições. Encerro com suas palavras de esperança e incentivo:
“Inventar-se, construir-se como a outra de si mesma, cuja imagem no
espelho reflete movimento, energia, ultrapassando toda coerção
patriarcal, isto é o apelo da liberdade. Construção não só como reação
às imposições da diferença sexual, mas caminhando para além do sexo, da
sexualidade, como subtração aos dispositivos de seus poderes de
domesticação e de opressão. Feministas em ação são aquelas cuja
diferença só se verifica do translado de si para si, na reinvenção
contínua da subjetividade e na ação transformadora desta realidade
estabelecida sobre o conflito, o poder, a dor e a morte. Feministas,
sujeitos de transformação, arautos de liberdade. Vocês são o futuro”
(Swain, 2014: 50).
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Notas.
*Esse artigo retoma idéias publicadas recentemente no livro de M.
Rago – A aventura de contar-se: feminismos, escrita de si e invenções da
subjetividade (Unicamp, 2013).
**A narrativa partilhada foi publicada em: RAGO, Margareth. O feminismo acolhe Foucault. São Paulo: Labrys. Revista Eletrônica Estudo Feministas – Julho/Dezembro, 2014.
Fonte: Territórios de Filosofia