setembro 10, 2015

Braços que se abrem: um novo olhar crítico sobre o conservadorismo da política de refúgio. Por Diana Thomaz (UNINÔMADE)

PICICA: “Aylan se tornou um símbolo que abriu os olhos do mundo. Precisamos estar de braços abertos para ajudar aqueles que precisam.”

Braços que se abrem: um novo olhar crítico sobre o conservadorismo da política de refúgio

Por Diana Thomaz
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“Aylan se tornou um símbolo que abriu os olhos do mundo. Precisamos estar de braços abertos para ajudar aqueles que precisam.”

Essas foram as palavras pronunciadas pelo primo de Aylan Kurdi quando da realização de um memorial no dia 5 de setembro em Vancouver em homenagem à família síria e seus mortos. As imagens do menino de três anos afogado na costa turca de fato chamaram a atenção do mundo para a realidade brutal daqueles que buscam refúgio e para a violência de políticas que tentam impedir sua mobilidade. Segundo dados do ACNUR, cerca de 366.402 pessoas atravessaram o Mediterrâneo em busca de proteção esse ano. Dentre estas, 2.800 morreram ou são tidas como desaparecidas. O número de refugiados que chegam ou tentam chegar às fronteiras da União Europeia, porém, não devem ser encarados como configurando um cenário de “crise”. Em primeiro lugar, os números não são significativos se considerarmos a capacidade de recepção dos países do bloco ou o número vultuosamente superior de migrantes forçados situados nos países em desenvolvimento próximos às áreas de conflito (as estimativas são de que de 85% a 95% dos refugiados do mundo se situem no sul global). Em segundo lugar, a retórica da crise invoca medidas excepcionais que prometem apenas agravar o sofrimento dos que buscam proteção: a União Europeia vem há meses discutindo a possibilidade de atacar militarmente as redes de atravessadores que organizam os trajetos irregulares para Europa em embarcações precárias. Na contramão da retórica do conservadorismo e da xenofobia, iniciativas individuais e comunitárias por toda a Europa têm demonstrado hospitalidade e solidariedade com os refugiados, seja na arrecadação de doações, na criação de alternativas de acomodação para essas pessoas, ou até mesmo através de protestos e manifestações públicas críticas à brutalidade de políticas governamentais, com no caso da Hungria.

A imagem de Aylan e a maior visibilidade à realidade do refúgio nas últimas semanas, porém, não expuseram apenas a postura restritiva e violenta da UE. O governo canadense também se viu diretamente envolvido e responsabilizado pela morte do menino, seu irmão e sua mãe. A política de refúgio canadense está igualmente sendo posta em questão pela população, podendo inclusive afetar o resultado das próximas eleições federais, marcadas para o dia 19 de outubro. Após a hiper-divulgação da foto de Aylan, descobriu-se que a família do menino tem parentes que moram no Canadá e que estes haviam tentado trazê-los ao país. A tia do menino, Teema Kurdi relatou à mídia que quando Aylan, seu irmão e seus pais tentaram fugir da cidade de Kobani, que foi devastada pelo Estado Islâmico no ano passado, a ONU se negou a registrá-los como refugiados e o governo turco não os concedeu vistos de saída, o que tornava sua vinda ao Canadá virtualmente impossível. As tentativas de Teema de trazer a família para o país em segurança levaram-na a contactar um parlamentar local que escreveu uma carta diretamente ao ministro da imigração, Chris Alexander, do Partido Conservador, propondo que Teema, seus amigos e vizinhos financiassem a acolhida deles no Canadá.

A descoberta de que o governo canadense teria sido cúmplice na morte de Aylan chocou o país e interrompeu a campanha eleitoral de Chris Alexander a uma vaga no parlamento. A política de refúgio nacional passou a figurar no centro das discussões e discursos pré-eleitorais. O primeiro-ministro Stephen Harper, também do Partido Conservador, tem sido fortemente questionado acerca do pequeno número de refugiados que o Canadá tem recebido nos últimos anos e os pífios esforços do país em contribuir com políticas de reassentamento de refugiados sírios. Em sua defesa, Harper afirmou que “o Canadá tem a política de imigração mais generosa do mundo, admitindo per capita mais pessoas do que qualquer outro país”. Porém, como a rede CBC demonstrou, o primeiro-ministro juntou nesses número imigrantes econômicos e refugiados. O Canadá de fato recebe um número relativamente grande de pessoas de outros países: foram 165.000 apenas em 2014. Porém os refugiados correspondem a apenas 10% deste total.

O questionamento da política de refúgio canadense fez emergir uma série de fatos até então pouco discutidos nacionalmente. Como exemplo temos o fato de que o número de solicitações de refúgio no país caiu pela metade nos últimos anos de governo conservador. E isso se dá pelo estabelecimento de uma série de políticas e táticas que dificultam o acesso à proteção do refúgio no país, como destacou matéria recente no The Guardian. Essas políticas e táticas incluem, por exemplo, a instalação de agentes de fronteira em aeroportos em diferentes partes do mundo, que atuam no sentido de impedir que refugiados embarquem em voos para o Canadá. Aqueles que conseguem chegar ao Canadá, por sua vez, encontram uma série de empecilhos, que chegam ao ponto do aprisionamento. Os que não tem documentos, cuja chegada é vista como “irregular”, são detidos em instalações de “prevenção da imigração” ou até mesmo em prisões comuns (o Canadá é o único país ocidental a encarcerar migrantes e presos comuns juntos). Isso vai totalmente contra o direito internacional dos refugiados, uma vez que a Convenção de 1951 da ONU sobre o assunto explicita que os Estados não devem penalizar refugiados que entrem de forma irregular. As diferentes políticas excludentes sofridas pelos refugiados e imigrantes no Canadá foram documentadas pelo site Never Home, organizado pelo movimento “No One is Illegal” já bastante conhecido no país em sua luta contra a ideologia dos controles migratórios.

Não é possível prever o resultado das próximas eleições e afirmar categoricamente que a maior visibilidade crítica à política de refúgio do país será suficiente para tirar os conservadores do poder. Porém, a retórica anti-refugiados – como se eles fossem aproveitadores dos benefícios sociais canadenses ou uma potencial ameaça a segurança nacional – se tornou mais frágil diante da comovente foto do menino de três anos. Não será fácil, por exemplo, justificar políticas que buscam impedir a vinda de refugiados e sua vida livre no Canadá se a maior busca no Google relacionada ao tema no país agora é “como patrocinar um sírio?”. Assim como na Europa, a população canadense vem denunciando a miséria e o cinismo do conservadorismo, indo inclusive às ruas em movimentos de boas vindas aos refugiados em diferentes cidades do país.

Como afirmou o primo de Aylan, a morte do menino de fato se tornou um símbolo trágico que abriu os olhos do mundo. Não podemos permitir a perversidade do compartilhamento de suas imagens deslocadas de seu sentido e contexto, isoladas da luta altamente arriscada de todos aqueles que fogem por suas vidas. E cabe a nós lutarmos também. Nos cabe agora responder à expectativa de que esse novo mundo ciente seja capaz de, através de redes de solidariedade que germinam por toda parte, abrir seus braços para os que precisam, derrubando os muros do conservadorismo e construindo uma nova forma global de se pensar e praticar a cidadania.
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Diana Thomaz é mestre em Relações Internacionais pela PUC-Rio e doutoranda na Balsillie School of International Affairs no Canadá.

Fonte: UniNômade

Cantes de ida y vuelta: entre primavera e outono. Reflexões entre o 15M na Espanha e junho de 2013 no Brasil. POR Giuseppe Cocco e Raul Sanchez Cedillo (IHU)

PICICA: ""As experimentações democráticas deixaram de existir e é uma visão estatal e centralizadora que vigora: o luto do socialismo e do autoritarismo estatal ainda não foi feito. A crítica do mercado e dos mecanismos da democracia representativa serve apenas para mistificar práticas de exploração do trabalho e, ainda pior, práticas arcaicas! (...) Na Europa e na América Latina, a esquerda nos mostras que é incapaz de pensar além do Estado: seja ele socialista ou neokeynesiano no regime discursivo, ele apenas serve para conter as lutas no regime de fato. Entre os dois continentes, a urgência é sair dessa dupla armadilha, ir para o êxodo da invenção de novas institucionalidades", advertem Giuseppe Cocco, sociólogo e professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, e Raul Sanchez Cedillo, tradutor, filósofo e membro da Universidad Nómada da Espanha."

Cantes de ida y vuelta: entre primavera e outono. Reflexões entre o 15M na Espanha e junho de 2013 no Brasil

"As experimentações democráticas deixaram de existir e é uma visão estatal e centralizadora que vigora: o luto do socialismo e do autoritarismo estatal ainda não foi feito. A crítica do mercado e dos mecanismos da democracia representativa serve apenas para mistificar práticas de exploração do trabalho e, ainda pior, práticas arcaicas! (...) Na Europa e na América Latina, a esquerda nos mostras que é incapaz de pensar além do Estado: seja ele socialista ou neokeynesiano no regime discursivo, ele apenas serve para conter as lutas no regime de fato. Entre os dois continentes, a urgência é sair dessa dupla armadilha, ir para o êxodo da invenção de novas institucionalidades", advertem Giuseppe Cocco, sociólogo e professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, e Raul Sanchez Cedillo, tradutor, filósofo e membro da Universidad Nómada da Espanha.

Eis o artigo.

“Não queremos correntes, mas elos”
Célio Gari

1. Desde sempre somos antropofágicos, jamais fomos modernos.

Uma das razões que explica a densidade do diálogo entre o tropicalismo antropofágico (brasileiro) e a antropologia simétrica (europeia) é sem dúvida a convergência das críticas que os anima: desde sempre somos antropofágicos; jamais fomos modernos. O animismo é um sincretismo que mestiça bárbaros e selvagens: a outra modernidade com o não moderno.

Afirmando que desde sempre somos antropofágicos, o tropicalismo recusou e recusa os atalhos nacional-populares pelos quais se embrenhava a esquerda socialista e anti-imperialista e mais em geral o terceiro-mundismo na procura de raízes de identidade e autenticidade; afirmando que jamais fomos modernos, a antropologia simétrica atacou as raízes da razão instrumental ocidental, ou seja os procedimentos de purificação que impõem um sem numero de assimetrias entre ciência e vida, entre mente e mão, alma e corpo, cultura e natureza. O tropicalismo antropofágico nos mostra que as raízes do nacional-popular são na realidade as do colonialismo europeu e que esse se reproduz como colonização interna, produzindo imaginários espelhados na dialética do escravo e do senhor, das peles e das mascaras. A antropologia simétrica explica que o conteúdo do processo colonizador é sua razão (a ciência) e que essa se afirma como biopoder: poder sobre a vida dos colonizados pelos mecanismos de sua purificação instrumental, aqueles que acabam atribuindo a potência prática e constituinte da invenção cientifica aos tribunais constituídos na instrumentalidade dos laboratórios de experimentação e formalização. Como diziam os jovens “operaistas” italianos, não nos interessa a ciência, mas o principio de seu desenvolvimento e, pois, a técnica não será o prémio para quem ganha a luta de classes, mas o terreno dessa luta e ao mesmo tempo de sua requalificação.

O nacional-popular (o socialismo) e a técno-ciência são – ambos – intrínsecos ao capitalismo e organizam seu poder nos laboratórios, pela imposição da separação e até a oposição entre ciência “pura” e ciência “humana”, entre objeto e sujeito, entre pensamento racional e pensamento selvagem, entre o norte racional e o sul selvagem.

Os laboratórios, enquanto mecanismos de purificação do pensamento, são os dispositivos centrais de reprodução do eurocentrismo no Sul e também no Norte como colonização ao mesmo tempo externa e interna. No “não lugar sem fora” que define o espaço–tempo da globalização imperial, o Ocidente não é mais o laboratório do mundo, ou seja não constitui mais o futuro radioso (capitalista ou socialista) de um progresso positivo e linear. A própria noção de futuro está em crise e com ela aquela de progresso, inclusive quando se apresentam como “epistemologias do Sul”. Os órfãos do anti-imperialismo e dos muros totalitários dizem que a noção de Império é eurocêntrica, mas somente não podem aceitá-la por não ser suficientemente ocidental e assim procuram um “fora” paranoico no saudosismo por “novas guerras frias”, na farsesca oposição entre, por um lado, o capitalismo “liberal” de UE e Estados Unidos e, por outro lado, capitalismo “social” de China, Rússia e Brasil (BRICS).

Já não há mais cobaias nos laboratórios. Sejam elas ratos ou aranhas, estão todas exercendo seu direito de fuga das alternativas binárias que o pensamento pós-colonial produz no Norte e no Sul[1] . Se hoje ainda há um “fora” é aquele que se constitui no êxodo, entre as redes e as ruas.

2. “Los cantos de ida y vuelta”: de maio a junho.

Jamais fomos modernos, mas os laboratórios do poder não cessam de capturar e hierarquizar a potência do saber produzido pela cooperação social, pelas relações constitutivas de democracia real. Mesmo aqueles que se dizem preocupados com seu “desenvolvimento”, exatamente porque procuram construir os “laboratórios” desse futuro, acabam querendo colocar aranhas e ratos de volta nas gaiolas de um saber purificado, impotente e ... insensato. Sempre fomos antropofágicos, mas a esquerda nacional desenvolvimentista e soberanista continua falsificando as pautas da “reforma”, sonhando com o “socialismo em único país” e funcionando de fato como autoritário abre-alas da direita e de sua globalização neoliberal: entre megabarragens e megaeventos, os índios são transformados em miseráveis e os pobres em trabalhadores terceirizados; os imigrantes são sempre subalternizados e a cidadania é reduzida a uma operação de imunização do corpo da nação produtiva, assim como a pensam Dilma e Serra no Brasil, Chevènement e Le Pen na França, Renzi e Salvini na Itália, Thilo Sarrazin e Merkel na Alemanha.

Se a antropologia simétrica nos diz que nunca formos modernos e, pois, que nenhum laboratório nunca produziu ciência da mesma maneira que nenhum tribunal jamais fez justiça, o perspectivismo ameríndio coloca a produção do saber nos mil platôs desenhados pelas trocas de trocas de pontos de vistas. O homem é um nó de relações: a impureza da mestiçagem universal, sujeito e objeto, cultura e natureza. Não se trata, pois, de pensar o Norte desde o Sul, nem o Sul desde o Norte, mas pensar entre, no êxodo: o agenciamento, o devir-Sul do Norte e o devir-norte do Sul, os “cantos de ida y vuelta”: a situação pós-colonial não é apenas das ex-colónias, mas também da metrópole. O pensamento é selvagem e civilizado.
O perspectivismo ameríndio, a filosofia da percepção assim como a esquizo-análise são as faces múltiplas de um mesmo processo de produção do saber: discursos e atos políticos que constituem as sociedades, os grupos, as “classes”. A justiça é luta e não um tribunal e isso exatamente na medida que a verdade não está em nenhum laboratório, mas na coragem de destruí-lo: o ousar saber precisa sempre de um saber ousar.Exercendo nosso direito de fuga, nos concentraremos aqui a pensar o que acontece entre o Norte e Sul, entre Espanha e Brasil, ou seja entre as situações mais dinâmicas da Europa e da América do Sul, mesmo que essa “dinâmica” tenha sentidos opostos.

Dos levantes que seguiram a onda das primaveras árabes, o 15 de maio de 2011 na Espanha (15M) foi com certeza aquele que na Europa mais conseguiu generalizar-se e manter-se no tempo e o de junho de 2013 no Brasil foi aquele que na América Latina mais se massificou, radicalizou e – apesar de tudo – continua durando. Nos dois casos, entraram em cena novas personagens: as multidões do trabalho metropolitano.

O 15M nasceu imediatamente como um levante contra uma representação sequestrada pelo duplo dispositivo de comando: o do sistema financeiro e o do sistema dos partidos; se firmou como movimento emergente e distribuído através das redes sociais, seguindo o exemplo das primaveras árabes e da Geração à Rasca portuguesa e se traduziu rapidamente em uma ocupação generalizada do espaço público (as Acampadas). O 15M, é algo como uma “criticalidade auto-organizada”: não um “movimento único”, mas um acontecimento ampliado onde apareceu o país do outro lado do espelho: “Now, here, you see, it takes all the running you can do, to keep in the same place”. Estar no mesmo lugar significa estar numa situação aberta ao acontecimento onde a energia potencial distribuída transforma o status quo em processo constituinte. A exceção aqui é a persistência inédita dessa “criticalidade auto-organizada” do sistema de lutas sociais. Criticidade é o fato de uma evolução não-linear com arranjos que expressam tensões éticas, políticas, eróticas, biopolíticas. O 15M passou por pelo menos 3 desdobramentos: a conexão com plataformas de luta oriundas dos movimentos que diziam “Nós não pagaremos pela crise de vocês”, como a Plataforma de Afectados por la Hipoteca (PAH); a emergência de um sindicalismo social (com as Mareas da educação e da saúde); os movimentos de ocupação nas cidades (os Centros Sociais) e a criação de um sistema rede emergente, multiníveis, entre as redes e as ruas, entre as pessoas e os coletivos (a tecnopolítica).

Com essa capacidade de durar (e com sua resiliência) o 15M começou a ser atravessado pela questão da representação eleitoral em dois momentos: logo em 2011, quando se recusou a escolher entre o pior e o menos pior e deixou o PSOE ser derrotado pelo PP; nas eleições europeias de junho de 2014 quando se apresentaram duas formações políticas novas: o Partido X, Partido do Futuro e o Podemos. Apesar de o Partido X ser oriundo das redes tecnopolíticas internas ao 15M, foi o Podemos que teve um nítido sucesso e conseguiu pautar o debate da transformação eleitoral e institucional da duração do 15M e que, hoje em dia, mesmo com inevitáveis dificuldades – devidas à sua hipótese organizacional e estratégica –, pode tornar-se a alcunha de uma mudança política constituinte na Espanha e na União Europeia. Podemos não é o único projeto de assalto institucional, mas apenas o mais bem sucedido até a data de hoje, em nítida competição (que precisa ser um saudável exercício da democracia) com processos como o do Guaynem e Ganemos em Barcelona, Madri, Zaragoza e em menor medida em La Coruña, Málaga, etc.

O junho brasileiro de 2013 explodiu como uma greve metropolitana contra o aumento das tarifas de transportes (chamada pelo Movimento Passe Livre – MPL) e se tornou o maior levante da história do Brasil, generalizando-se a todo o País e a todas as pautas de democratização, apara além do regime pós-ditadura cristalizado na “Constituição de 1988”: por um lado, ele foi fazendo convergir numa revolta geral o sem numero de lutas de resistência contra o modelo de cidade legada pela hibridização entre o neo-desenvolvimentismo e a construção da “cidade global”; pelo outro, ele desdobrou-se pela multiplicação das acampadas diretamente dentro dos parlamentos: as tentativas de ocupação do Congresso em Brasília se reproduziram depois com as ocupações de pelo menos 12 Câmaras de Vereadores ou Assembleias Legislativas (em Porto Alegre, Belo Horizonte, Campinas, Rio de Janeiro ...). A forma da greve metropolitana virou referência de um sem numero de movimentos autônomos de greve: no Rio de Janeiro, com os professores que em outubro do mesmo ano voltaram a ocupar a Câmara desafiando a violência policial em 3 dias de enfrentamentos campais e com a luta vitoriosa dos Garis em fevereiro de 2014. Essas greves indicaram o terreno da constituição de coalizões sociais. Mas junho de 2013 foi descontruído: a resistência à violência policial que inicialmente massificou o levante virou o terreno de uma repressão feroz que paralisou as mobilizações dos pobres; em seguida, o marketing bilionário do governismo (do PT em particular) conseguiu – apos destruir a possibilidade de um “lulismo sem Lula” (com Marina Silva) e mentindo descaradamente, polarizar e mistificar o pleito eleitoral de outubro de 2014. A irresponsabilidade de uma política totalmente corrupta foi tão grande que acabou puxando a mobilização de uma direita que tinha ficado completamente paralisada e hoje está nas ruas atravessando a justa indignação popular.

3. O que Podemos entre Espanha e Brasil?

Na Espanha, o 15M foi uma mobilização geral contra toda a “representação” monopolizada pelo sistema dos partidos nascido com o regime constitucional pós-franquista de 1978, incapaz de bloquear e sequer frear o processo de destruição do sistema de proteção social. No Brasil, junho de 2013 foi um levante metropolitano contra uma “representação” que se tornou um obstáculo a implementação de um verdadeiro welfare. No norte, o trabalho está se tornando precário e pobre, passando por uma brasilianização. No sul, o pobre está sendo posto a trabalhar de maneira precária, passando por uma “europeanização” que na realidade é uma brasilianização: não mais por causa do atraso e do subdesenvolvimento, mas da modernização e da globalização. No 15M houve a recusa da austeridade neoliberal, mas também a afirmação da potência nova do devir-pobre do trabalho em produzir uma nova geração de direitos, de produzir uma outra cidade. Em junho de 2013, o trabalho dos pobres reivindicou um novo tipo de direitos, antecipou a crise da aventura neoliberal no terreno da transformação dos valores. O devir-pobre do trabalho, trocando de ponto de vista com o devir-trabalho dos pobres, indica um devir-Brasil (um devir-Sul) da multidão do trabalho na Espanha e um devir-Espanha (um devir-Norte) da multidão dos pobres no Brasil. Os levantes plebeus do 15 de maio de 2011 e de junho de 2013 duraram no fazer-se das multidões na Espanha como no Brasil.

A autonomia das lutas afirmou-se inicialmente como base de uma crítica sistemática da representação e da autonomia do político que visa desarticular as dimensões produtivas das lutas no terreno da composição orgânica do Estado, dos partidos e das corporações. Contudo, as multidões espanholas e brasileiras hoje precisam lidar com o desafio de saber o que podem para que sua potência se afirme como brecha democrática, como “democracia real agora”. Como atravessar a representação sem deixar que a autonomia constituinte do movimento seja reduzida novamente em autonomia do político?

Uma das especificidades de Podemos na Espanha é de fazer referência explicita, além do 15M, ao virtuosismo dos “governos progressistas” da América do Sul. Por um lado, ele se desmarca de experiências eleitorais parecida por sua combinação entre potência do ciberativismo e em particular da politização das redes sociais e uma hiper-liderança promovida pelo uso da mídia tradicional - como o italiano Movimento 5 Stelle-; pelo outro, é mesmo nessa ida y vuelta para o Sul que pode se transformar numa tremenda armadilha. O ciclo dos governos chamados de “progressistas” acabou e, pior, não deixa transparecer nenhum “virtuosismo”, sequer residual ou inercial. O chavismo, tornando-se um socialismo do século XXI já reproduziu em menos tempo todas as mazelas do capitalismo de Estado e sobrevive hoje como um regime falido, apoiado apenas na capacidade repressiva do Exercito e mais em geral do Estado. Não se trata apenas da Venezuela agonizante. A Argentina também chega extenuada ao fim do kirchnerismo, o regime tendo que apoiar um candidato oriundo do “menemismo”. No Equador também há sinais de esgotamento diante de amplas manifestações sociais, em particular dos indígenas. Em todos os casos, e isso inclui também a Bolívia de Evo, as experimentações democráticas deixaram de existir e é uma visão estatal e centralizadora que vigora: o luto do socialismo e do autoritarismo estatal ainda não foi feito. A crítica do mercado e dos mecanismos da democracia representativa serve apenas para mistificar práticas de exploração do trabalho e, ainda pior, práticas arcaicas!

Mas é no caso do Brasil, no País que é o baricentro geoeconômico do subcontinente e o fiador que estabilizava o conjunto do ciclo que o esgotamento se apresenta da maneira mais radical e devastadora. A crise brasileira estourou definitivamente no momento em que vários observadores internacionais pensavam enxergar sua vitalidade: nas eleições de outubro de 2014. Da complexidade da situação brasileira, interessa extrair três grandes traços: (1) em primeiro lugar sua dimensão subjetiva, (2) em segundo lugar, o determinante objetivo e, enfim, (3) o desdobramento político-teórico.

(1) No plano subjetivo do evento, diferentemente dos outros países da América do Sul, o movimento de junho de 2013 antecipou a crise objetiva (econômica e política) abrindo uma gigantesca brecha para uma virada em termos de radicalização democrática. Diante disso, o Lulismo (desde o governo, passando pelo PT e o próprio Lula) mobilizou todos os recursos que o poder político e econômico lhe dava para fechar a brecha ao longo de três linhas de intervenção: a desqualificação do levante identificado como um todo a um regurgito “fascista”; a vergonhosa promoção de algumas redes de jovens patrocinados pelo próprio PT como sendo “o” movimento; o planejamento e coordenação federal de um fortíssimo esquema de repressão aplicado em todos os níveis federais. Além disso, o governismo usou sua potentíssima máquina de marketing para fazer a propaganda de uma suposta “onda conservadora” na sociedade e de uma “campanha de ódio” nas redes sociais. O PT e o “lulismo” usaram todo seu poder (estatal) para fechar a brecha democrática muito simplesmente porque eles não cabiam nela. Com efeito, a “brecha” se caracterizava por permitir dois deslocamentos virtuosos: o primeiro era imanente à própria dinâmica do levante como possibilidade para os pobres de poder lutar sem serem mortos e foi exatamente isso que se expressou na vitoriosa campanha pelo Amarildo – o pedreiro torturado, assassinado e desparecido pela polícia pacificadora da favela da Rocinha no Rio de Janeiro-; o segundo dizia respeito à recusa do dispositivo binário que regia toda a comunicação do Lulismo e que consistia em alimentar uma luta “ideológica” (o PT contra a elite branca) tanto violenta quanto vazia e totalmente falsa, pois governam pelas grandes empreiteiras, os bancos e quando falam de redução da desigualdade a pensam como emergência de uma “nova classe média”. Junho de 2013 era insuportável para o PT e Lula porque impedia de continuar surfando cinicamente nos atrasos brasileiros para justificar sua corrupção política e moral, ou seja o fato de governar pelo e com os ricos.

(2) O determinante objetivo tem duas dimensões, embutidas uma na outra: a crise no Brasil não chega – como na Europa – pelo fato de o governo ter se recusado de fazer políticas anticíclicas, mas porque as fez; em seguida, diferentemente dos outros países da América do Sul, o governo Lula-Dilma – uma vez reeleito - inverteu de 180 graus suas prioridades e passou a aplicar uma dura política econômica de austeridade. Independentemente do que isso significa do ponto de vista do estelionato eleitoral, o fato é que o Brasil se encontra hoje mergulhado numa grave crise econômica, governada por um violentíssimo dispositivo de cortes orçamentários, cortes de direitos trabalhista, aumentos das taxas de juros e ao mesmo tempo aumentos generalizados das tarifas administradas (dos serviços públicos: particularmente de transportes, gasolina e eletricidade). Ou seja, os pobres no Brasil terão que aguentar um longo período de recessão com alta inflação: o governo Dilma está realizando um verdadeiro confisco da renda dos trabalhadores e das camadas intermediarias do empresariado.

O longo período dos governos Lula-Dilma pode ser dividido um duas fases. Entre 2003 e 2008, o PT seguiu à risca as receitas neoliberais mas se deixou atravessar por pequenas inovações que constituíram algumas pequenas brechas. Tudo isso se resume a 3 dimensões: a massificação das políticas neoliberais de distribuição de renda (o Bolsa Família); as políticas de acesso (em particular no ensino superior com Prouni, Reuni e Cotas raciais); a valorização do salario mínimo que, além de melhorar o nível de renda dos trabalhadores pobres permitiu um upgrade geral de um sistema de proteção social.

A partir de 2009, depois da grande crise financeira, o governo Lula-Dilma passou a políticas de aceleração do crescimento teoricamente inspiradas no velho nacional-desenvolvimentismo e de fato planejadas e implementadas a partir da tradução em termos de política econômica do jogo eleitoral, ou seja da corrupção sistémica da qual o PT passou a ser não apenas “mais um” dos atores, mas “o” principal articulador. Assim, ao passo que a pequena redução da desigualdade produzida na primeira fase era processada como emergência de uma “nova classe média” destinada a ser – no plano subjetivo - a base do novo consenso e ao mesmo tempo – no plano objetivo – a destinatária de políticas de reindustrialização, de megaobras e megaeventos e construção de um Brasil Maior. Foi um festival de subsídios públicos aos global players: desde as grandes montadoras multinacionais até as grandes empreiteiras, passando pelo grande agronegócio.

Tudo isso alimentado pelo total envolvimento da Petrobras na exploração “nacional” das jazidas de petróleo em águas muito profundas (o pré-sal), pelas grandes obras (oriundas dos projetos megalomaníacos da ditadura) como as megabarragens hidrelétricas na Amazónia, o submarino e as centrais nucleares, os megaeventos (Copa da FIFA e Olimpíadas como paradigmas). Não houve nenhuma reindustrialização e os investimentos nas megaobras e megaeventos apenas saturaram as metrópoles de todo o país e a “conta” chegou antes do Brasil se tornar Maior e a tal da “nova classe média” já foi para o espaço.

(3) Temos aqui uma implicação teórica importante sobre a razão dessa convergência do Brasil Maior neo-desenvolvimentista para as mesmíssima e até mais violentas políticas de austeridade. O que caracteriza os “limites” dos governos progressistas da América Latina não são os compromissos com o “extrativismo”. Claro, o extrativismo é uma das características fundamentais do capitalismo em todo o subcontinente e é com esses interesses “velhos” que os governos que eram “novos” tiveram que negociar e se aliar. Mas não é isso que define a especificidade das tentativas de políticas econômicas. Pelo contrário, o esgotamento dos novos governos e a crise vieram por como eles tentaram sair do extrativismo. No caso brasileiro isso aparece claramente: ao invés de apostar na radicalização democrática e nos processos, o PT e o Lula só acreditam – como a própria escolha da figura da Dilma explicita – no Estado e no Grande Capital (os Global Players). Com isso, não houve nenhuma ruptura do extrativismo e nenhuma aceleração da mudança, mas apenas um aprofundamento da inserção nas dimensões mafiosas do capitalismo contemporâneo e de suas formas de controle do território e do Estado. As jazidas de acumulação do capitalismo cognitivo no Brasil estão nas metrópoles e dizem respeito à mobilização dos pobres como pobres: um trabalho do pobre que não passa mais, previamente, pela relação salarial. Longe de pensar em reconhecer – pela radicalização democrática – a potência produtiva de novos valores, o PT de Lula e Dilma apenas se juntaram às velhas e novas máfias pelas quais o capitalismo cognitivo captura a excedência produzida nos territórios. A máfia neodesenvolvimentista (das grandes empreiteiras de obras públicas) foi se juntando à máfia oligárquica do agronegócio e às difusas que controlam os territórios produtivos das metrópoles, numa orgia improdutiva que só fez disparar a inflação, aprofundar as desigualdades e segregações urbanas.

4 – Coalizões Sociais e Municipalismos Constituintes

A grande vitória de junho de 2013 está nas lutas e nas práticas de coalizões sociais que no Brasil olham para o Municipalismo Constituinte que se expressou com os êxitos eleitorais do 24M na Espanha.

As coalizões sociais já estão num devir-municipalista ao passo que os jovens governos municipais precisam continuar atravessados pelos agenciamentos das coalizões sociais. Os Ganemos nasceram como oportunidades de ensaiar nas eleições municipais o assalto institucional proposto por Podemos, mas também como inflexão significativa, para além de Podemos. O processo de construção de Podemos, com a Assembleia Constituinte de Vista Alegre (em novembro de 2014), tem cobrado um preço demasiadamente alto porque limita a polifonia e um estilo de fazer política que pressupõe uma cooperação de tipo distribuído. Em cidades como Barcelona, Madri ou Zaragoza o “efeito Podemos” tem se composto desde o inicio por iniciativas cidadãs que funcionam como pontos de atração e bifurcação do sistema-rede criado no 15M. O municipalismo, como o caso de Ahora Madrid demonstra, soma mais que Podemos: sem a tesão de Municipalia antes e logo depois de Ganemos Madrid, a vitória teria sido impossível, pois a radicalidade democrática que é o “código 15M” teria ficado dominado por relações de forças entre entidades fechadas e encasteladas.

No Rio de Janeiro, é o ponto de vista da luta dos Garis do Rio de Janeiro que nos introduz diretamente no contexto desse devir. A luta dos garis estourou em fevereiro de 2014 e foi talvez a maior vitória do movimento de junho. Os garis se inspiraram diretamente nas dinâmicas autônomas e horizontais de junho e suas reivindicações reverberaram com potência nas redes e nas ruas. A luta foi rápida e vitoriosa (com um aumento salarial de 37%) e contou com um amplo apoio social, se tornando a referência de todo o ativismo. Mas, ao passo que o ativismo foi extenuando-se numa espiral sem fim de atos e repressão, os garis se embrenharam no êxodo para fora da escravidão de suas condições de trabalho e em fevereiro de 2015 se apresentaram de novo para a luta salarial (que conseguiu arrancar 8% de aumento já no momento da política de austeridade) e apresentar uma chapa independente contra o sindicato mafioso. A reposta da Prefeitura do Rio (ou seja do PT e do PMDB) se faz ao longo de dois eixos complementares: por um lado, uma repressão feroz; pelo outro, automação e terceirização. Do lado da repressão, são centenas de demissões, incluídos os membros da chapa autônoma que disputava a direção do sindicato mafioso, mais de 30 garis sob inquérito policial por “organização criminosa” e várias ameaças de todos os tipos. Do lado da automação, o Município do Rio passou a implementar conteiners de coleta do lixo que permitem aos caminhões de operar automaticamente (sem os garis pendurados atrás tendo que correr feito loucos para manter as metas de produção) e a terceirizar o trabalho dos motoristas bem como gestão do próprios caminhões. Ou seja, a luta dos garis já conseguiu – em pouco menos de um ano – determinar aquele processo de inovação que a condição neo-escravagista na qual eram mantidos permitia de adiar. Ao mesmo tempo, com todas as dificuldade que isso pode implicar, a prática dos garis, com os círculos de cidadania, o trabalho nas favelas, as conexões com as outras tentativas de construção de um “sindicalismo social”, colocam os Garis na posição de aprofundar suas lutas diretamente no terreno de saber quem é que tirará proveito dessa modernização que eles mesmos determinaram: o capital e suas máfias ou os garis como agentes ambientais de uma nova cidadania? A “coalizão social” aparece aqui não apenas como o terreno necessário e urgente para que a luta autônoma tenha condições de entrar no terreno constituinte, da gestão da empresa de limpeza urbana, da questão do ambiente e da saúde nas comunidades e favelas. A luta é metropolitana e implica a construção de coalizões de trabalhadores e moradores para que a modernização da coleta se traduza em melhoria das condições de trabalho de garis que poderão, além de manter o emprego, ser agentes de proteção ambiental nos territórios onde isso é mais urgente. O Comum já é o terreno de luta autônoma dos garis que, não por acaso, se constituíram num Circulo de Cidadania, o Circulo Laranja.

No caso da Espanha, o êxito nas próximas eleições gerais das confluências baseadas na transversalidade e na radicalidade democrática, seguindo o exemplo de Ahora Madrid, Barcelona en Comù, Zaragoza en Comù etc., significaria a mudança histórica do sistema rede 15M em um sistema de ordem superior, capaz de integrar o sistema político e representativo. Essa seria uma ruptura constituinte, algo que é, em todos os casos, a chave da situação diante da qual toda “autonomia do político” é um obstáculo para que a promessa do 15M se realize: Democracia Real Ya.

O desprezo pela relação entre singularidade e estrutura, entre dinâmicas nacionais e contextos continentais ou entre exceção e ciclo poderia nos levar a privilegiar de maneira narcisista ou voluntarista as experiência mais fortes ou mais próximas, ou pensar em uma estratégia de proliferação linear. Se a situação brasileira constitui uma perspectiva sobre a transição de fase que vive todo o continente sul-americano, o caso espanhol é inseparável da decomposição-mutação do subsistema europeu centrado na União Europeia (UE) como consequência das políticas de austeridade e das opções políticas e geoestratégicas subjacentes. A “germanofobia” não constitui uma chave séria de esclarecimento do enigma democrático europeu. Com efeito, lógica supostamente internacionalista dos opositores de esquerda ao projeto da UE não foge da ontologia das nações como chave de existência política do capital e também de seu contrário: o povo-nação-soberano submetido a um direito político estrangeiro. Aqui, a narrativa nacional-popular se mostra, tanto na Europa quanto na América Latina, como uma gigantesca armadilha. A obsessão pela soberania nacional apenas nos lembra o das andere Mal als Farce de Marx: os subsídios do governo do PT à multinacionais automotivas são emblemáticos: quanto mais o discurso é neo-soberanista, quanto mais a política real amplifica toda forma de dependência.

As lutas são tão globais quanto os processos de acumulação e precisam de espaços adequados: como a União Europeia ou o Mercosul: na Europa, se trata de conectar a defesa do sistema de proteção social com as lutas dos subalternos e dos imigrantes e apátridas; na América do Sul, a conquista de um sistema de proteção social já precisa – desde o início – inventar uma nova esfera, juntando as lutas dos indígenas com o êxodo dos refugiados, passando pelas multidões dos pobres que vivem e produzem as metrópoles.

Na Europa e na América Latina, a esquerda nos mostras que é incapaz de pensar além do Estado: seja ele socialista ou neokeynesiano no regime discursivo, ele apenas serve para conter as lutas no regime de fato. Entre os dois continentes, a urgência é sair dessa dupla armadilha, ir para o êxodo da invenção de novas institucionalidades.

O sistema mundo está se autodestruindo. Nesta situação, somente o terreno europeu e o terreno sul-americano permitem de continuar a luta por democracia real. A oposição entre guerra e democracia se coloca como principal antagonismo no sistema mundial. A UE está hoje rodeada de zonas de guerra. Na América do Sul, a guerra está dentro das fronteiras, no coração das grandes metrópoles. Nas fronteiras da UE, a guerra é contra os migrantes e os refugiados, tratados como animais desembestados e perigosos. Nas metrópoles e nas florestas sul-americanas a guerra é contra os pobres e contra os índios, mas também contra os refugiados e os imigrantes.

Deve haver um modo de nomear o inimigo e o adversário sem convoca-lo e realiza-lo como em uma profecia auto-confirmada. Deve haver um partido dos sem-partido. Nem o suposto realismo decisionista do populismo, nem as dialéticas negativas ou progressistas que acompanham a esquerda contem alguma chave para evitar a catástrofe do sistema mundial. É preciso passar do (inter)nacionalismo à democracia real dos subalternos, do resistencialismo cínico ao poder constituinte, da comunidade à constituição do comum. Temos que ser prudentes, mas poderosamente altermodernos e não-modernos.

Nota:

[1] Elas fugiram na floresta Lacandona, nas ruas de Seattle e Genova, gritando Que se Vayan Todos nas ruas de Buenos Aires, acampando na Praça Tahrir e na Puerta del Sol, defendendo a vida em Gezi Park e levantando-se contra as tarifas de transportes, megaeventos e mega-obras nas florestas e nas metrópoles brasileiras.

Para ler mais:



  • 26/05/2015 - O Podemos e os enigmas que vêm do Sul
  • 08/04/2015 - A liberdade para além do valor de troca massificado
  • 07/08/2015 - A tempestade de agosto. O muro está caindo e ninguém sabe o que está atrás dele
  • 08/05/2014 - A felicidade tecnológica: de um capitalismo sem futuro a um futuro sem capitalismo
  • 29/01/2014 - Potências e problemas de uma política dos 99%. Entrevista com o filósofo Jacques Rancière
  • 18/02/2010 - Conjuntura da Semana Especial. Belo Monte: Uma obra emblemática
  • 06/07/2011 - 15M. A força que brota das redes sociais. Entrevista especial com Esther Vivas
  • 16/06/2015 - Bem-vindos à era dos pós-partidos políticos
  • 21/05/2015 - Quatro anos de 15M: é hora de partido?
  • 15/06/2015 - “O que aconteceu em junho de 2013 no Brasil ainda não acabou”
  • 01/09/2015 - O que há por trás da crise de imigrantes na Europa?
  • 26/05/2015 - Eleições em Barcelona e Madri marcam a virada política na Espanha. As duas prováveis prefeitas eleitas são herdeiras de movimentos sociais
  • 07/06/2011 - 15M: redes e assembléias, por Antonio Negri
  • 13/07/2015 - A globalização financeira e o reordenamento das metrópoles. Entrevista especial com Bruno Cava
  • 29/05/2015 - Eleições municipais espanholas e a relação de novas forças partidárias. Entrevista especial com Bruno Cava
  • 29/07/2015 - O imobilismo e a tentativa de resgatar o sentimento progressista. Entrevista especial com Talita Tibola
  • 27/05/2015 - A batalha dos Garis: barrar o ajuste fiscal e reintegrar os demitidos!
  • 30/06/2015 - Ada Colau e Manuela Carmena: a indignação no poder
  • 18/02/2015 - Economia no chão: do ajuste fiscal à recessão. Entrevista especial com José Silvestre
  • 23/03/2015 - As manifestações de Março de 2015 são o avesso de Junho de 2013. Entrevista especial com Giuseppe Cocco
  • 23/10/2014 - "Dilma e Aécio são o ‘Estado contra a sociedade’. Duas faces de um mesmo esgotamento”. Entrevista especial com Giuseppe Cocco
  • 07/12/2013 - "O levante de junho: uma potentíssima bifurcação dentro da qual ainda estamos". Entrevista especial com Giuseppe Cocco
  • 15/06/2011 - "O momento político é da multidão". Entrevista especial com Giuseppe Cocco
  • 10/03/2011 - O Complexo do Alemão e as mudanças na relação entre capitalismo mafioso e capitalismo "cognitivo". Entrevista especial com Giuseppe Cocco
  • 05/08/2015 - Espanha: Com inspiração bolivariana, posição do Podemos sobre Venezuela provoca críticas
  • 31/01/2015 - Na Espanha, a hipótese Podemos

  • Veja também:



  • A financeirização da vida. Revista IHU On-Line, Nº. 468
  • Metrópole como usina biopolítica. Revista IHU On-Line, Nº. 464
  • Brasil. Crises e desafios. Revista IHU On-Line, Nº. 461
  • #VEMpraRUA: Outono Brasileiro? Leituras. Cadernos IHU ideias, Nº. 191

  • Fonte: IHU

    O doutorado informal e a possível mergulhaprendizagem. Por Alex Bretas Vasconcelos (OUTRAS PALAVRAS)

    PICICA: "Ao contrário da prática acadêmica convencional, ela requer pesquisadores envolvidos afetivamente com seus temas, dispostos a compartilhar cada descoberta e preocupados com sentido ético de sua aplicação"

    O doutorado informal e a possível mergulhaprendizagem


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    Ao contrário da prática acadêmica convencional, ela requer pesquisadores envolvidos afetivamente com seus temas, dispostos a compartilhar cada descoberta e preocupados com sentido ético de sua aplicação 

    Por Alex Bretas

    Imagine você:

    2-1
    Você não é só você! Você está inserido num emaranhado de conexões de pessoas que se relacionam contigo, entre si e com outras pessoas:

    2-2
    Ao ser afetado pelo exemplo do outro, você olha para os lados, enche o pulmão de ar e… toma coragem para mergulhaprender:


    2-3
    Você persiste no seu mergulhaprender, fazendo disso um processo contínuo, e vai encontrando parceiros no caminho:

    2-4
    E, a cada mergulho, você se sente mais potente para partilhar sua história, suas sabedorias e entregar ao mundo os frutos da sua jornada.

    Você se transforma a cada vez que compartilha seus aprendizados, e isso impacta quem te rodeia. Essas pessoas, por sua vez, começam a influenciar outras:

    2-5
    Até que, então, mais alguém se inspira pelo seu exemplo, respira fundo e começa a mergulhaprender:

    2-6
    E assim foi o jeito que encontrei de apresentar visualmente o caminho do doutorado informal, partindo da questão:

    Como poderíamos fundar uma nova compreensão de aprendizagem significativa a partir do doutorado informal e de outras referências inspiradoras? No post “O que é um doutorado, segundo quem?”, eu trouxe a explicação de Matt Might a respeito do conceito de doutorado. Procurei utilizar o mesmo método de criar uma sequência simples de imagens, porém destacando o que acredito serem alguns dos principais elementos do doutorado informal a partir de uma metáfora.
    Mas, o que é doutorado informal?

    O mergulho como metáfora do aprender

    É preciso ousadia para mergulhar. Essa coragem vem da curiosidade, de se perguntar: o que será que tem neste oceano? Como será a visão a partir de lá?

    Como eu me sentiria mergulhando? Qual deve ser a sensação? Estar genuinamente curioso é um dos pontos-chave do doutorado informal e de vários outros caminhos de aprendizagem que apostam radicalmente na autonomia.Essa ousadia, por outro lado, também tem sede de experiência. Mergulhadores iniciantes anseiam pelo momento em que poderão, finalmente, vivenciar o fundo do mar. A conexão com a ação é explícita desde o início. Isso demanda disposição para sair da zona de conforto e experienciar uma outra forma de perceber e estar no mundo, exatamente como ocorre na aprendizagem.

    Após a experiência do primeiro mergulho, é como se a curiosidade se transformasse em inquietação: uma jornada se inicia. A cada imersão, adentramos num espaço novo com perguntas, medos e vontades; a cada retorno à superfície, temos algumas respostas e perspectivas novas, mas ainda mais perguntas. Visto sob essa ótica, mergulhar guarda uma importante semelhança com aprender: ambos são alimentados pela curiosidade, mas acabam por gerar mais vontade de saber. O movimento de imergir-emergir revela, então, a recursividade do processo de aprendizagem — voltar à terra firme nos dá mais “coceira nas ideias” para mergulhar novamente, e mais fundo.

    A jornada de se descer cada vez mais no fundo do mar não é uma aventura individual. É preciso sempre que haja ao menos uma dupla que acompanha o mergulhador para checar o equipamento, ajudar a planejar o mergulho e até mesmo doar seu ar caso algo dê errado. Além disso, a dupla vivencia a experiência junto, unindo-se ao seu parceiro para apreciar aquele novo cenário e compartilhar as descobertas feitas.

    Parceiros de jornada são essenciais para nos aventurarmos na ousadia de aprender a descobrir e a ver mundos velhos com lentes novas. No doutorado informal, precisamos de gente perto que esteja atenta e que seja capaz de nos afetar. Precisamos de amigos comprometidos com nosso processo de mergulhaprendizagem. “Quando vamos até o fundo do mar, descobrimos que ali jamais poderíamos viver sozinhos. Então, levamos mais alguém. E esta pessoa, chamada de dupla, companheiro ou simplesmente amigo, passa a ser importante para nós. Porque, além de poder salvar nossa vida, passa a compartilhar tudo que vimos e sentimos. E em duplas, passamos a ter equipes, e estas passam a ser cada vez maiores e mais unidas. E assim entendemos que somos todos velhos amigos mesmo que não nos conheçamos. E este elo que nos une é maior do que todos os outros que já encontramos. E isso faz com que nós, mais do que amigos, sejamos irmãos. Faz de nós, mergulhadores”. (Carta aos Mergulhadores — Jacques Yves Cousteau)

    Aprendizagem significativa

    David Ausubel, um pesquisador norte-americano, propôs na década de 60 que o reconhecimento dos conhecimentos prévios dos aprendizes é um fator-chave para estimulá-los a aprender. Partir da potência e das realidades de cada um para criar oportunidades de reconstruir e recombinar saberes seria, então, a missão dos espaços de aprendizagem. Ausubel propôs seu conceito de aprendizagem significativa no contexto escolar, mas não é difícil perceber a pertinência do que ele afirma não somente para crianças e jovens em escolas, como também para todo e qualquer ser humano.
    Não estando restrita à ideia de Ausubel, mas se alimentando dela, uma nova compreensão de aprendizagem significativa universal pode basear-se nos elementos do mergulhaprender: curiosidade, experienciação, recursividade (processo) e cooperação. O doutorado informal — que é o que estou fazendo neste momento com a Educação Fora da Caixa — passa a representar, então, uma jornada de mergulhaprendizagem que se sustenta a partir da livre escolha do doutorando, do que faz sentido para ele.

    Reconhecendo sua curiosidade, inquietação ou propósito, qualquer pessoa pode iniciar uma jornada em busca de novas lentes e descobertas e entregar para o mundo algo que seja verdadeiramente significativo para si e para os outros. Em qualquer área, e da forma que for mais recompensador a cada um. O doutorado informal, entendido como uma aventura de mergulhos e aprendizagens, também carrega consigo outro elemento essencial: o empoderamento. Acreditar que o que já somos e sabemos não é só o bastante, mas bastante, é fundamental para mergulharmos rumo aos aprendizados e experiências que queremos — o que retoma a teoria de Ausubel. O mais interessante é que se sentir empoderado (eu posso!) não é somente um passo para se lançar num doutorado informal, é também uma consequência do processo. A cada pequena partilha que o doutorando entrega para o mundo, seu empoderamento e sua emancipação crescem.

    É como Joseph Jacotot, o mestre ignorante de Jacques Rancière, descobriu: a partir do princípio da emancipação, aprender se torna uma busca incessante. Mas, para a chama permanecer acesa, é preciso não embrutecer. Nessa busca do mergulhaprender, cada gota precisa ser de sabedoria. André Camargo, numa resposta ao meu texto “O que é um doutorado, segundo quem?” é quem diz: “Pensar a formação humana a partir do cultivo da sabedoria envolve ir além mesmo de buscar um conhecimento vivo. Supõe transferir o foco não apenas da informação para o conhecimento, e do ensino para a aprendizagem, mas do conhecimento para a legitimidade desse conhecimento — como usamos o que conhecemos. Em que medida o conhecimento que conquistamos serve à vida? Eis a questão. Afinal, a história do século XX é a história de como o conhecimento sem sabedoria está nos levando a um colapso sem precedentes”.

    A noção de sabedoria, de um conhecimento com consciência conecta-se ao ideal da ecopedagogia: transformar as relações humanas, sociais e ambientais que vivemos hoje. E é bem por aí que os doutorandos informais precisam seguir: de doutores dispostos a deixar tudo como está já temos o suficiente. O caminho, além de passar pela curiosidade, experienciação, persistência e cooperação, também vai nos requerer (e despertar) um punhado de empatia.

    ———

    Diversas ideias contidas neste ensaio partiram de contribuições de outras pessoas que atenderam ao chamado da escrita colaborativa. Minha gratidão aos coautores: Milena Franceschinelli, Sérgio Araújo, Jessé Pacheco, Elena Oliveira, Caroline Bucker e André Camargo. Valeu, gente!





    Alex Bretas Vasconcelos

    Fonte: OUTRAS PALAVRAS

    setembro 09, 2015

    BBC] Racismo Científico Darwinismo Social e Eugenia

    PICICA: "NiceOrion  
    Até hoje aboriginals em todo o mundo são maltratados e excluídos; em todos os continentes os povos originários sofrem e sofrem muito, até pq eles não servem ao capitalismo. Até hoje, um número desproporcional de aborígenes na Austrália, de negros e indígenas/latinos darkskin nos eua, no Brasil... são encarcerados nas prisões. Onde a maioria é branca, negros e darkskins são encontrados em nrs altíssimos nos presídios, nos guetos, nas favelas. E em menor número nas universidades, em bons postos de trabalho... No Brasil até hoje não se demarcou as terras indígenas, embora a nossa Constituição Federal nos obrigue a fazê-lo, enquanto os reis do gado desmatam tudo, índios e quilombolas sofrem ameaças e morrem nos campos, enquanto nas cidades o negro profissional é preterido pelo patrão, que prefere um funcionário branco. Não criem celeumas, pesquisem, estudem. O racismo está presente, não acabou. Embora seja uma estupidez ser racista, entre nós há muitos."

    BBC] Racismo Científico Darwinismo Social e Eugenia [DUBLADO]

    Delzymar Dias

    Nas telas, Pequeno Príncipe questiona mercado e família. POR Lais Fontenelle (CARTA CAPITAL)

    PICICA: "Ao traduzir para vida cotidiana valores do livro de Saint-Exupéry, animação de Mark Osbourne mostra-se ácida, diante de mundo marcado por egoísmo, cálculo e alienação"

    Cinema

    Nas telas, Pequeno Príncipe questiona mercado e família

    Ao traduzir para vida cotidiana valores do livro de Saint-Exupéry, animação de Mark Osbourne mostra-se ácida, diante de mundo marcado por egoísmo, cálculo e alienação 

    por Lais Fontenelle — publicado 01/09/2015 
    Divulgação
    Pequeno-Príncipe (2).jpg
    O aviador do livro de Saint-Exupéry segue com destaque no filme

    “O problema não é crescer, mas esquecer”, ensina o Pequeno Príncipe. Quando tinha oito anos, sofri a primeira grande perda em minha vida. Meu primo mais novo, na época com três anos, foi levado por uma doença comum na infância, mas que para ele foi fatal. A catapora não marcou e feriu somente sua pele, mas toda a história de nossa família. Pedro nos deixou sem palavras e com saudades. Tinha personalidade forte, como todas as crianças da família, os cabelos de um loiro quase branco e uma risada tão contagiante como a do Pequeno Príncipe – personagem que me acolheu nesse momento de dor e me guiou em profundos ensinamentos baseados em valores humanos e não materialistas. Hoje, posso olhar para o céu e ouvir as estrelas para não esquecer de Pedro, do seu sorriso e da infância que compartilhamos.

    O livro O Pequeno Príncipe, do francês Antonine Saint-Exupéry, emociona e ajuda as pessoas a entender a essência da vida há mais de 70 anos. Foi traduzido para cerca de 250 idiomas e dialetos, e vendeu mais de 150 milhões de cópias em todo o globo. É há meio século o livro infantil mais vendido no Brasil, e somente no ano passado vendeu mais de 140 mil exemplares. Seu autor faleceu um ano após o seu lançamento, em 1943, numa missão da Segunda Guerra Mundial, sem poder dimensionar o alcance da obra.

    O livro conta a singela história de amizade vivida por um aviador e um principezinho que mora no longínquo asteroide B612 e ama uma rosa. Quando o príncipe sai em viagem pela Terra, esbarra com o aviador encalhado num deserto e ali compartilham histórias e ensinamentos sobre as dores e as delícias de ser humano.

    Seus ensinamentos tratam do que é realmente importante nessa vida fugaz que levamos na Terra. Contemplar as estrelas, cativar amigos, amar e respeitar animais e plantas, cooperar mais do que competir, olhar e escutar mais do que assistir, trocar mais do que acumular. Bem diferente do que a sociedade de consumo quer nos fazer crer.

    A animação homônima ao livro chegou às telas esse mês, dirigida pelo americano Mark Osbourne, e traz uma nova e igualmente bela narrativa para esse clássico da literatura infanto-juvenil.

    Desta vez, quem fica amiga do Aviador, hoje um velhinho, é uma garotinha de olhos curiosos, abandonada pelo pai e confinada pela mãe numa casa cinza. Com tarefas obsessivamente calculadas por uma mãe ausente, a menina tem uma rotina espartana durante as férias de verão, para conseguir vaga numa escola de renome que promete futuro de sucesso.

    Sem tempo para dedicar-se ao ócio, aos amigos, ao contato com a natureza ou ao exercício de sua criatividade, a menina experimenta os dias sozinha e assim vai perdendo a essência da infância, até ser resgatada pelo vizinho excêntrico – um velhinho aviador que lhe conta a história do Pequeno Príncipe e com quem acaba por passar suas férias.

    Seus pais não têm tempo de cuidar dela – como muitos, atualmente, que terceirizam os cuidados dos filhos para babás, creches ou tablets. O pai da protagonista vive longe, trabalha muito e mantém contato com ela somente no aniversário – por meio de um mesmo presente que envia todo ano, com um cartão que nada diz e ela tristemente coleciona. A mãe também trabalha demais e não a escuta, "adultizando" essa menina para ser seu par – e dizendo que faz isso para lhe garantir o futuro, sem perceber que assim lhe arranca o presente.

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    A trama principal do 'Pequeno Príncipe' de Osbourne gira em torno da pequena garota de infância cinza (Foto: Divulgação)
    Triste retrato da infância de hoje, abandonada e afastada de sua essência em meio a tantas atribuições do universo adulto.

    Fui assistir ao filme em família e fiquei feliz ao perceber que a amizade e os ensinamentos compartilhados entre o adulto e a criança ainda emocionam todas as gerações. A meu lado um pai com a filha no colo derramavam lágrimas que mostram haver saída para a vida cinza e planejada que a maioria de nós experimenta nos grandes centros urbanos.

    O filme emociona e faz refletir sobre os valores que aprisionam as crianças contemporâneas numa infância igualmente cinza e solitária, com a agenda repleta de atividades supostamente desempenhadas para lhes garantir um bom lugar na Terra – a mesma que estamos destruindo pelos padrões de consumo e produção que adotamos.

    Aparentemente perdidos na árdua e deliciosa tarefa de cuidar dos filhos, pais e mães da atualidade acabam recorrendo às promessas que o mercado lhes oferece. Tenho sido com frequência chamada a falar nas escolas sobre o tema da desaceleração na rotina das crianças, e minha fala debruça-se sobre a importância de respeitarmos a infância e seu tempo: de encantamento e conexão, em que contemplar e imaginar são atividades essenciais na construção de significados para o mundo real.

    É preciso desacelerar e desconectar para entrar em contato com a criança que fomos e com as que estão ao nosso lado. Rever nossas urgências e o que é realmente importante para promover uma infância plena. Crianças não são feitas para ser criadas em bolhas. Elas precisam se relacionar, cair para aprender a levantar, perder para aprender a sonhar e elaborar. Precisam de histórias vividas e narradas para se lembrar. E não precisam, para ser felizes, de objetos e atividades que as cansem para desligar-se à noite. Não precisam de um coach para aprender a brincar – sim, parece que estes personagens existem!

    Crianças precisam de muito pouco para crescer de forma saudável e se tornar adultos melhores. Precisam de tempo e espaço para brincar e se relacionar entre pares, com adultos e com a natureza. E nós, adultos, temos o dever e a responsabilidade de oferecer a elas o que é realmente essencial – embora invisível aos olhos.

    Fonte: Carta Capital

    “A História da Eternidade”, de Camilo Cavalcante: o pão, a arte, o amor e a culpa. POR Fabricio Ramos (ARTE_DOCUMENTO)

    PICICA: "O pão, o mar, os desejos, o amor e a culpa. A nossa eterna história, ambientada num vilarejo agreste do sertão nordestino, contada através do cinema de Poesia"

    “A História da Eternidade”, de Camilo Cavalcante: o pão, a arte, o amor e a culpa

    O pão, o mar, os desejos, o amor e a culpa. A nossa eterna história, ambientada num vilarejo agreste do sertão nordestino, contada através do cinema de Poesia

    Captura de Tela 2015-03-28 às 14.36.02

    “A História da Eternidade” parece um título pretensioso para um filme, mas o primeiro longa do diretor pernambucano Camilo Cavalcante, que também assina o roteiro, cumpre a promessa, por assim dizer, que o título insinua, embora por caminhos mais poéticos do que dramáticos, mais sinestésicos do que narrativos.

    Dividido em três atos, o filme conta três histórias de amor que irrompem num vilarejo do árido sertão nordestino. A poesia e a música são a substância dessa história de amores, desejos e culpas, de fome de pão e de mar no sertão.

    O velho e angustiado sonho sertanejo de ver o sertão virar mar se realiza numa das mais belas sequências do filme, protagonizada por Irandhir Santos (o Tio) e Débora Ingrid, que é a jovem Afonsina. Essa é uma das histórias de amor, por assim dizer, que compõem a narrativa – subtrama do filme que trata de sonho, tragédia e arte. Irandhir, aliás, impressiona com a naturalidade e a potência com que representa um artista mambembe, sensível e epiléptico, absolutamente incompreendido por todos, e desprezado por seu irmão, o rude pai de Afonsina.

    Abordando o sofrimento e a morte, a perda e a solidão, o sonho e a opressão, e até flertando com incestos, o filme confronta as imposições das necessidades materiais num ambiente de precariedade, mas não de miséria, com os anseios mais profundos por arte e fantasia, liberdade e prazer, que compõem a dimensão moral e psicológica do ser humano, a nossa dimensão espiritual, se quisermos.

    Afonsina pede que o pai a leve para ver o mar, mas o pai a acusa de louca de pedir isso numa situação difícil daquelas, mas promete matar quatro bodes e dar uma festa no bar do vilarejo. Durante a festa, o pai – um amargo e autoritário patriarca – se ressente de toda a sua vida jogando-se aos pés da filha e dizendo que fez tudo errado, reconhecendo (ou melhor, gritando sob um estado de catarse emocional e embriaguez alcoólica) seus erros da forma mais errada possível, pelo menos para Afonsina. Levando uma vida de servidão familiar, a bela e debutante menina sertaneja, entretanto, sempre exibe um sorriso sonhador, misto de sedução e ingenuidade, de alegria verdadeira e de sonhos vivos, intensos, teimosos. Só a Arte sinestésica do Tio permitirá a Afonsina ver o mar em pleno horizonte do sertão.

    (Em tempo, as repetidas e sonoras cenas das refeições da família de Afonsina, seu pai e quatro irmãos, me remeteram ao “O Cavalo de Turim”, filme de Béla Tarr, sobre o qual já comentei aqui nesse blog. No filme de Bela Tarr havia um clima de desolação, de miséria e ascese (até mesmo verbal), enquanto no filme de Camilo Cavalcante, ao contrário, revela até uma relativa fartura, uma comida saborosa, uma certa alegria no apetite, sem que isso implique em qualquer redução da atmosfera de austeridade da vida no vilarejo. “Nem só de pão vive o homem”).

    Captura de Tela 2015-03-28 às 14.39.52

    Querência, mulher que perdeu o filho e cai num estado de melancolia e tristeza, primeiro enfrenta e depois aceita o insistente, na verdade persistente “fazer a côrte” do cego sanfoneiro, que a deseja com sinceridade e leveza (curiosamente, o cego, segundo Querência, vê muito melhor do que muita gente que tem o olho são, e não à toa, ele usa um relógio de pulso). Das três histórias, é a que apresenta o tema do sofrimento e redenção.

    Uma senhora sexagenária vive só, cuida da igreja, sempre pronta a acudir, cheia de verdadeira compaixão, os moradores nas situações difíceis (a personagem que poderia ser a típica beata, mas que no filme não é nada caricata). Recebe com muita alegria a visita do jovem neto que tinha ido para São Paulo com os pais e que volta tatuado, diferente para aquela avó, fugindo secretamente de problemas que arranjou na metrópole violenta. De repente, a avó se percebe sexualmente viva e ativa, mas culpa-se por isso ao ponto de se autoflagelar tal como os penitentes daquelas irmandades mais radicais. Ela está viva, sexualmente viva, como um vulcão, mas está só com o neto e tenta a todo custo reprimir os seus pungentes desejos. É nessa história, dentre as três “histórias de amor”, que percebemos alguma presença da psicanálise na narrativa de Cavalcante, embora a inserção do neto queira remontar a temáticas sociais.

    Em suma, o filme se divide naqueles três atos, chamados 1. “Pé de Galinha”, 2. “Pé de Bode”, e 3. “Pé de Urubu”, todos alegorizados com a imagem de uma árvore com os respectivos animais em seus galhos, na abertura de cada ato. Este último ato é um tanto exagerado em relação ao clima poético e sutil dos anteriores, mas é também o ato da eclosão da tragédia e da catástrofe, e também da redenção e da comunhão, sentimento este, o de comunhão, que perpassa todo o filme em diferentes e controversas manifestações, mas que culmina, bem no final, nos acenos mútuos entre a jovem Afonsina, a redimida Querência e a reprimida e culpada avó sexagenária. Um aceno entre gerações, entre mulheres de um mundo quase isolado com uma história e uma eternidade própria, e entre descaminhos de vidas que convivem, mas não se conhecem no sentido mais íntimo, e que vivem.

    Como já dito, predomina no filme a sinestesia poética, que estimula e impacta as emoções do espectador, seja através da belíssima fotografia de Beto Martins, com sua luz especialmente cuidadosa, seus planos e ângulos bonitos e eficazes narrativamente, ou através da música, esta um elemento substancial do filme para o envolvimento do público. A trilha sonora original foi criada por Zibgniew Preisner, autor das músicas dos filmes de Krzysztof Kieślowski, e por Dominguinhos, que morreu em 2013, sendo este – a trilha para o filme – o seu último trabalho.

    O cineasta Camilo Cavalcante, que possui importante experiência em curtas e médias (que o tornaram uma espécie de colecionador de prêmios) fez um filme de extrema beleza fotográfica e temática, poética e narrativa. Vou procurar ver com urgência seus trabalhos anteriores (inclusive o curta homônimo desse filme que é objeto deste texto), e esperar com ansiedade sua próxima história, digo, filme (que não deverá levar uma eternidade para aparecer, visto que ele já está trabalhando no seu segundo longa). Recomendo que todos façam o mesmo: vejam tudo desse cara.

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    Por Fabricio Ramos.

    Fonte: arte_documento

    TATJANA TOLSTAJA, ESCRITORA - O BELO E A CONSOLAÇÃO

    PICICA: "Como escreveu alguém num blog: «A uma dada altura a SIC passou aquele que talvez tenha sido o melhor programa de televisão alguma vez feito.» Entre 1 de maio de 2001 e 15 de maio de 2002 e depois repetido em 2006 a SIC, na rubrica (quinzenal) "Noites Longas", apresentou um programa de entrevistas que tinha como título holandês "Van De Schoonheid en de Troost" no original; "Of Beauty and Consolation" na versão inglesa e "O Belo e a Consolação" na tradução portuguesa, que em alguns programas mudou para, "Da Beleza e Consolação"; deve ter tido a ver com os vários tradutores envolvidos, já que traduziam de ouvido e ver (algumas legendas de origem e o titulo estavam em holandês).
    A ordem por que passou na Sic foi: Richard Rorty, filósofo; Simon Schama, historiador; Martha Nussbaum, filósofa; George Steiner, escritor e filósofo; Roger Scruton, filósofo; Stephen Jay Gould, zoólogo e paleontólogo; Edward Witten, cientista e matemático; Steven Weinberg, cientista; Gary Lynch, neuropsicologista; Leon Lederman, cientista experimental; Vladimir Ashkenazy, pianista e maestro; Catherine Bott, soprano; Rudi Fuchs, director de museu; Karel Appel, pintor; John Coetzee, escritor; Elizabeth Loftus, psicóloga; Germaine Greer, escritora; Wole Soyinka, escritor; Yehudi Menuhin, violinista e maestro; Dubravka Ugresic, escritora; Grand Finale (debate em Amesterdão entre alguns dos participantes); György Konrád, escritor; Jane Goodall, escritora e etóloga; Tatjana Tolstaja, escritora e Rutger Kopland, poeta e psiquiatra.
    Esta ordem devia ser igual à que passou na televisão holandesa VPRO, já que é costume vir uma "running order" a acompanhar os programas. A série constava de 24 conversas (deviam ser 26, mas dois; Freeman Dyson, cientista e Richard Dufallo, maestro, nunca chegaram a vir (não se sabe a razão), com vinte e quatro pessoas extraordinárias com diferentes percursos e visões da vida: artistas, cientistas, músicos e filósofos.
    Apresentada por Wim Kayzer (jornalista , cineasta e escritor) e produzida por Vera de Vries, foi pela primeira vez transmitida pela televisão holandesa VPRO, em 2000. No site da VPRO (http://www.vpro.nl/programma/schoonhe...) existe documentação áudio e vídeo em inglês sobre a série. Encontrei também referencias a um livro em holandês de Wim Kayzer de titulo "Het boek van de schoonheid en de troost" (O livro da beleza e consolação), que saiu na mesma altura em que a série foi apresentada na Holanda. Pela pesquisa que fiz só teve edição holandesa.
    Aqui vos deixo para quase todos, os programas de "O Belo e a Consolação", legendados em português, seguindo uma ordem aleatória, com a única certeza que o último a colocar será o debate final."

    TATJANA TOLSTAJA, ESCRITORA - O BELO E A CONSOLAÇÃO

    francisco grave