janeiro 06, 2016

'Toda a representação está num impasse'. Entrevista especial com Giuseppe Cocco (IHU)

PICICA: "O cenário político para 2016, segundo ano do segundo mandato da presidente Dilma, “será dominado por pelo menos três embates interligados: o processo de impeachment, os desdobramentos da crise econômica e a chegada em Brasília da Lava Jato”, calcula Giuseppe Cocco na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail.

Depois de se encerrar o ano de 2015 com “taxas oficiais de 10,70% de inflação e uma recessão de 3,7%”, este ano, tanto para a política quanto para a economia e para a resolução ou ampliação de questões sociais, “será ainda pior” do que o anterior, por conta de dois aspectos centrais: a enxurrada de aumento dos preços administrados, como o gás, o transporte público e o combustível, e o panorama de recessão que “corre para a depressão”, avalia.

Segundo Cocco, a troca do Ministro da Fazenda no final do ano passado também não apresenta uma mudança significativa e faz com que o Brasil inicie 2016 “sem nenhuma perspectiva definida”. “A gestão de Nelson Barbosa não tem como inventar muita coisa, não há muitas margens de manobra. Para avançar, podemos propor duas linhas de reflexão: (1) voltar sobre o modelo predador implementado por Lula-Dilma (que chamaremos do ‘modo Odebrecht de governar’) e (2) avançar algumas hipóteses sobre a eventual inflexão no Ministério da Fazenda (que de maneira alguma será uma guinada à esquerda)”, pontua.

Na entrevista a seguir, o cientista político comenta ainda as dificuldades que a presidente Dilma e o governo enfrentarão tanto por conta da baixa popularidade, quanto por causa da atual situação financeira dos estados e municípios, que “estão literalmente quebrados, sem pagar serviços básicos, atrasando vencimentos dos servidores, sem pagar fornecedores, sem capacidade nenhuma de investimento, e com o sistema de saúde – que já era péssimo – colapsado”. E acrescenta: “Para termos uma ideia das loucuras que foram feitas desde 2011 é preciso fazer uma ginástica incrível: é desses dias a notícia de que ficamos com R$ 214 bilhões de dívida por causa dos empréstimos subsidiados do BNDES às empresas (184 bilhões irão para a dívida pública e 30 bilhões serão pagos pelo Tesouro). Depois há o capítulo incrível da renúncia fiscal, que passou de 3,68% do PIB (em 2011) para 4,76% (em 2014). A crise dos municípios e dos estados vem dessa política que esvaziou os fundos de participação dos estados e dos munícipios”.

Giuseppe Cocco é graduado em Ciência Política pela Université de Paris VIII e pela Università degli Studi di Padova, é mestre em Ciência, Tecnologia e Sociedade pelo Conservatoire National des Arts et Métiers e em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne), é doutor em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e editor das revistas Global Brasil, Lugar Comum e Multitudes. Coordena a coleção A Política no Império (Civilização Brasileira)." 

'Toda a representação está num impasse'. Entrevista especial com Giuseppe Cocco

“O governismo não acredita na sociedade, mas somente no Estado e no capital (ou seja, nas hibridizações dos dois). Nesse horizonte, ele deverá necessariamente implementar as reformas que o ‘mercado’ quer”, afirma o cientista político.

Imagem: migueldaoud
O cenário político para 2016, segundo ano do segundo mandato da presidente Dilma, “será dominado por pelo menos três embates interligados: o processo de impeachment, os desdobramentos da crise econômica e a chegada em Brasília da Lava Jato”, calcula Giuseppe Cocco na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail.

Depois de se encerrar o ano de 2015 com “taxas oficiais de 10,70% de inflação e uma recessão de 3,7%”, este ano, tanto para a política quanto para a economia e para a resolução ou ampliação de questões sociais, “será ainda pior” do que o anterior, por conta de dois aspectos centrais: a enxurrada de aumento dos preços administrados, como o gás, o transporte público e o combustível, e o panorama de recessão que “corre para a depressão”, avalia.

Segundo Cocco, a troca do Ministro da Fazenda no final do ano passado também não apresenta uma mudança significativa e faz com que o Brasil inicie 2016 “sem nenhuma perspectiva definida”. “A gestão de Nelson Barbosa não tem como inventar muita coisa, não há muitas margens de manobra. Para avançar, podemos propor duas linhas de reflexão: (1) voltar sobre o modelo predador implementado por Lula-Dilma (que chamaremos do ‘modo Odebrecht de governar’) e (2) avançar algumas hipóteses sobre a eventual inflexão no Ministério da Fazenda (que de maneira alguma será uma guinada à esquerda)”, pontua.

Na entrevista a seguir, o cientista político comenta ainda as dificuldades que a presidente Dilma e o governo enfrentarão tanto por conta da baixa popularidade, quanto por causa da atual situação financeira dos estados e municípios, que “estão literalmente quebrados, sem pagar serviços básicos, atrasando vencimentos dos servidores, sem pagar fornecedores, sem capacidade nenhuma de investimento, e com o sistema de saúde – que já era péssimo – colapsado”. E acrescenta: “Para termos uma ideia das loucuras que foram feitas desde 2011 é preciso fazer uma ginástica incrível: é desses dias a notícia de que ficamos com R$ 214 bilhões de dívida por causa dos empréstimos subsidiados do BNDES às empresas (184 bilhões irão para a dívida pública e 30 bilhões serão pagos pelo Tesouro). Depois há o capítulo incrível da renúncia fiscal, que passou de 3,68% do PIB (em 2011) para 4,76% (em 2014). A crise dos municípios e dos estados vem dessa política que esvaziou os fundos de participação dos estados e dos munícipios”.

Giuseppe Cocco é graduado em Ciência Política pela Université de Paris VIII e pela Università degli Studi di Padova, é mestre em Ciência, Tecnologia e Sociedade pelo Conservatoire National des Arts et Métiers e em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne), é doutor em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e editor das revistas Global Brasil, Lugar Comum e Multitudes. Coordena a coleção A Política no Império (Civilização Brasileira).

Confira a entrevista.

Foto: Ricardo Machado / IHU
IHU On-Line - Como inicia o segundo ano do mandato da presidente Dilma?
Giuseppe Cocco – O que dizer? De maneira mais geral, o primeiro ano do segundo governo Dilma foi um desastre proporcional ao desastre que foi o primeiro mandato, e não poderia ser diferente: o governo e a coalizão, que provocaram o desastre, passaram por cima da maior mobilização social que o país conheceu (em junho de 2013) e, usando a força e o dinheiro do controle do aparelho estatal, se reelegeram mentindo para depois impor à população o remédio amargo (um ajuste fiscal violentíssimo) contra a doença que eles mesmos criaram. Como foi previsto, a política econômica conseguiu alcançar taxas oficiais de 10,70% de inflação e uma recessão de 3,7%. Passamos da estagflação de antes para a quase-depressão de hoje. Não sei se todo o mundo realiza o desastre num país como o Brasil, que lida com pobreza e extrema pobreza: quando o PIB encolhe, a dívida pública aumenta inercialmente, fazendo mais que encolher os investimentos sociais. Ou seja, tudo piora, a renda dos mais pobres piora, os serviços mais essenciais pioram e a dívida pública cresce, pedindo ainda mais cortes [1].


Lobbies pós-coloniais

Sem a mínima condição de enfrentar a crise política e moral, a popularidade de Dilma ficou abaixo da taxa de inflação. Enquanto isso, os estados e os municípios estão literalmente quebrados, sem pagar serviços básicos, atrasando vencimentos dos servidores, sem pagar fornecedores, sem capacidade nenhuma de investimento, e com o sistema de saúde – que já era péssimo - colapsado. E isso por quê?



“Como foi previsto, a política econômica conseguiu alcançar taxas oficiais de 10,70% de inflação e uma recessão de 3,7%

 

Por ter enchido o bolso dos grandes bancos e das grandes montadoras multinacionais e de um oligopólio mafioso de empreiteiras oriundas da ditadura. Encheram o bolso das grandes empresas sem cobrar nada e não deu em nada, a não ser na modernização do tradicional coronelismo neocolonial numa oligarquia de lobbies pós-coloniais. E tudo sem transparência nenhuma, ao ponto que para termos uma ideia das loucuras que foram feitas desde 2011 é preciso fazer uma ginástica incrível: é desses dias a notícia de que ficamos com dívida de R$ 214 bilhões por causa dos empréstimos subsidiados do BNDES às empresas (184 bilhões irão para a dívida pública e 30 bilhões serão pagos pelo Tesouro). Depois há o capítulo incrível da “renúncia fiscal”, que passou de 3,68% do PIB (em 2011) para 4,76% (em 2014). A crise dos municípios e dos estados vem dessa política que esvaziou os fundos de participação dos estados e dos municípios. Ao passo que os pobres que recebem o Bolsa Família devem mostrar contrapartidas (escola, vacina das crianças), Dilma foi uma mãe com as empresas e não cobrou nada. Pior, parte dessas isenções veio da Isenção da Contribuição Previdenciária, criando o tal de “rombo da Previdência”, um “rombo” que nós todos pagaremos, e uma reforma que a Dilma fará (se superar o processo de impeachment), ou o sucessor [2] . Até governistas incondicionais denunciavam – antes de junho de 2013 - essa política maluca de financiamento nacional ao capital multinacional. [3] É exatamente isso: o Estado contra a sociedade.

Depois de termos pagado para o país e as grandes cidades estarem repletos de obras inúteis (megabarragens, novos estádios, teleféricos etc.), agora pagamos para termos um enorme déficit primário destinado a pagar juros e swaps cambiais: ou seja, ao passo que serviços básicos – como saúde, educação e mobilidade urbana – estão sem recursos, se continua subsidiando as grandes empresas: por exemplo, no Rio de Janeiro, a SuperVia, controlada pela onipresente Odebrecht, acaba de receber do quebrado Estado do Rio de Janeiro subsídio de R$ 39 milhões para pagar a conta de luz [4] . E 2016 será ainda pior: já está anunciada uma nova enxurrada de aumentos dos preços administrados (o gás, os transportes públicos) no meio de uma recessão que corre para a depressão.

Falta de confiança e base social

Sem “confiança”, sem “base social”, política monetária e política fiscal não resolvem nada mesmo, sequer do ponto de vista do próprio “ajuste” (a saída do Levy tem aqui uma primeira explicação). O lulismo perdeu suas bases e sua dinâmica em junho-outubro de 2013. O desejo constituinte de junho (em particular com as mais de 10 ocupações de Câmaras e Assembleias Legislativas) foi destruído pelo governismo aliado à grande imprensa, mas o conatus destituinte foi irreversível. O que ganhou nas eleições de outubro de 2014 não foi uma (impossível) essência de esquerda do PT-lulismo, mas apenas seu aparelho, poderoso, mas morto e – com ele – sua corrupção: corrupção da democracia, corrupção como exploração.

O governo Dilma não traiu os votos que recebeu, porque ele apenas continua sendo o que já era: como poderiam Lula e Dilma guinar à esquerda se - diante de junho - apenas responderam pela repressão (desde a mais rasteira desqualificação até a intervenção do Exército e tribunais militares na Maré) e fomentando “movimentos sociais” totalmente manipulados? Não havia nenhum mistério e, do mesmo modo, não houve nenhum milagre.

A divisão interna à coalizão e à própria chapa da reeleição amplifica a crise já duríssima na qual se encontra o governo. Sem definição desse conflito (que nos mostra que é o Estado que é o teatro da “guerra de todos contra todos”), nenhuma política econômica conseguirá indicar uma saída do impasse, qualquer que seja, pois não haverá o elemento básico disso: a confiança, a volta dos investimentos, a mobilização do tecido de cooperação social.


“Depois de termos pagado para o país e as grandes cidades estarem repletos de obras inúteis, agora pagamos para termos um enorme déficit primário destinado a pagar juros e swaps cambiais


O governismo organiza dois grandes argumentos: um técnico e o outro político. Tecnicamente, o processo nasceria maculado pela abertura em interesse próprio por parte de Eduardo Cunha; politicamente, não haveria alternativas que não sejam ainda piores.

Ora, no plano técnico, poderíamos dizer que a crise política é mesmo essa situação na qual se torna explícito que todo o sistema da representação está funcionando em prol do interesse próprio e nesse sentido como uma oligarquia: está tudo maculado, a começar pelo ajuste que impuseram para cima dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, pois que felizmente as instituições continuam funcionando, o processo não é tecnicamente “maculado”: Cunha agiu institucionalmente, como Presidente da Câmara (do mesmo jeito que o STF agiu como STF). Aliás, o governismo entendeu perfeitamente e está tentando retomar a iniciativa política.

Falta de alternativas políticas

Quanto à falta de alternativas políticas na linha de sucessão, por que não pensar então em novas eleições gerais? De toda maneira, se trata mesmo do discurso que o governismo organiza desde muito tempo, pela destruição das alternativas (em outubro, destruiu a possibilidade de termos um segundo turno sem o PSDB). É fundamentalmente um discurso de medo. Mas lembremos: quando o Collor foi impedido, o PT não se preocupou com isso.

Lembremos também, o PT não se preocupou de leiloar o Rio de Janeiro em nome de seus projetos de poder: ao Garotinho antes e ao Cabral depois. Cunha é produto do governo do Garotinho e é parte estrutural do dispositivo político que faz funcionar o governismo. A “imoralidade” de Cunha é exatamente a mesma que a “imoralidade” do PT e do governo federal e também da oposição (que por isso fica quieta). Toda a representação está num impasse.

Por exemplo, Cunha é acusado de ter recebido R$ 52 milhões pela liberação de 3,5 bilhões do FGTS em investimentos no Porto Maravilha do Rio de Janeiro [5], várias vezes inaugurado pela Dilma (em maio de 2013, no MAR, logo antes que a cidade explodisse no levante de junho e agora mesmo em dezembro de 2015, no Museu do Amanhã, no momento que a saúde pública do Rio de Janeiro e o Estado como um todo estão implodindo). Trata-se de um projeto do Prefeito Eduardo Paes e na realidade “puxado” ativamente pela Globo (que levou R$ 56 milhões da Prefeitura para a gestão dos Museus – construídos com dinheiro público e entregues à gestão da Fundação Roberto Marinho [6]). O PT está em primeira linha, não apenas como governo federal, mas também com sua vice-prefeitura e a Secretaria Municipal de Habitação (onde o secretário Jorge Bittar – da Mensagem ao Partido - removia os pobres na própria área portuária). O PT também controla – na cota do ex-ministro da Pesca (Luiz Sérgio [7]) - a presidência da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro [8]. As obras da zona portuária são executadas pelo oligopólio de sempre, as mesmas empreiteiras, Odebrecht, OAS e Carioca Engenharia, reunidas no Consórcio Porto Novo [9].

Então, embora o marketing do PT adore transformar Cunha (como transformou o Levy) no responsável isolado de todos os males e o governo numa vítima, o fato é que – como escreveu um antropólogo em seu Twitter – o “PT é co-mandante” dessas atividades do Cunha e pouco se importava (e nada se importa) não apenas pela “moralidade” das operações, mas também das consequências para as mulheres, os pobres, os índios, os pescadores, os jovens. A questão, pois, continua a ser política, de uma luta política que a sociedade quer fazer para refundar a representação como um todo e o governismo quer interditar e manipular (como tentou pela negociação com o próprio Cunha).

Para concluir, podemos enfatizar duas linhas de reflexão:

(1) O Rio é a cidade-sede do regime de exploração predatória promovido e fomentado pela coalizão de governo (não por acaso é também aqui que se mobiliza a frente do PMDB pró-Dilma). Ou seja, é aqui no Rio que encontramos em todo seu esplendor a lógica cínica das coalizões que o PT montou: Garotinho, Eike, Picciani, Pezão, Cunha.

 


“Quanto à falta de alternativas políticas na linha de sucessão, por que não pensar então em novas eleições gerais?

(2) Precisamos desmontar a armadilha do discurso sobre a “peemedebização do PT”: parece uma crítica contundente, mas na realidade é uma justificativa, uma maneira de “jogar” para cima do PMDB um julgamento negativo que sempre – mesmo que seja lá no finalzinho – salva o PT. Ora, o autoritarismo de Dilma, a origem carioca da Lava Jato, os investimentos inúteis e megalomaníacos do Rio de Janeiro (Porto de Sepetiba, Copa, Olimpíada, Submarino Nuclear, Polo Petroquímico, Arco Metropolitano, Porto Maravilha, Metro, Teleférico), tudo isso nos mostra que o PT é um problema igual ao PMDB e ao PSDB: seus projetos são os mesmos, desde 1995 e a criação - por César Maia - do Planejamento Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro e - por Fernando Henrique Cardoso - do Conselho Federal pelas Ações Estratégicas no Rio de Janeiro: a luta partidária nunca foi para a reformulação dos projetos em prol dos interesses da mobilização democrática. Porto de Sepetiba, Copa da Fifa, Olimpíada, Arco Metropolitano, Porto Maravilha: está tudo nos projetos elaborados por esses dois âmbitos que nada tinham de democrático e ainda menos de popular; enquanto isso, a guerra contra os pobres continua a todo vapor.

IHU On-Line - Em que aspectos o contexto político do início de 2016 é diferente do contexto do início de 2015, ou é uma continuidade?
Giuseppe Cocco – O ano de 2016 será dominado por pelo menos três embates interligados: o processo de impeachment (que já comentamos); os desdobramentos da crise econômica (que comentarei respondendo à próxima pergunta); e a chegada em Brasília da Lava Jato. Como já disse, precisamos de uma análise materialista da Lava Jato e do tema mais geral da corrupção.

Não se trata de um problema moral, mas de um problema político e econômico, de economia política: o que o governismo defende? O governo popular ou o “modo Odebrecht de governar”?! A Lava Jato não nos mostra apenas a repetição da tradicional corrupção (“sempre se roubou”), mas algo novo, e isso em dois níveis.

Em primeiro lugar, o de junho de 2013 foi um levante democrático contra o consenso organizado em torno da emergência da “nova classe média”. Foi um levante contra o modelo que no Rio tinha (e ainda tem) a cidade-sede. Seus operadores são as empreiteiras e seu modelo o “rico”: o Eike Batista. Ainda em abril de 2012, Dilma declarava: “Eike é ‘orgulho do Brasil’” [10]. Quem bancou o “orgulho” foi o BNDES: o Estado bancou o “rico” e o “rico” faliu: em 2010 as ações da OGX valiam R$ 23,27, quando saíram da Bolsa, em 30 de outubro de 2013, valiam apenas 13 centavos. A falência do “rico” de sucesso, tratada por todo o mundo como um caso isolado, foi, ao contrário, antecipada pelas manifestações de junho e ela mesma antecipou a falência da política Brasil Maior como um todo. Vejam o que dizia o líder do governo no Senado (atual Ministro de Minas), Eduardo Braga (PMDB) em abril de 2012: “Nós não conseguiremos construir esse PIB, se uma série de ações não forem concluídas (...). Uma delas é baixar a taxa de juros. Do outro lado, o programa Brasil Maior estabeleceu, em sua segunda etapa, uma série de desonerações que estão em duas MPs (...). Então, essa agenda é a agenda do país” [11] .

Antes de desmoronar na Bolsa de Valores, o modelo econômico de Lula e Dilma desmoronou na sociedade e só vamos sair disso quando a sociedade for capaz de afirmar outra trajetória: outros valores. Não é a Lava Jato que determina a crise do crescimento, mas a debilidade do crescimento apesar de um ciclo incrível de investimentos que explica a Lava Jato. Estes investimentos sequer funcionam do ponto de vista da “racionalidade” (ou seja, da “produtividade”) capitalista e a conta já chegou, sem esperar pelas Olimpíadas, pela apoteose negativa do modelo Lula-Dilma. Pensemos no caso da militarização vergonhosa da favela da Maré para a Copa da Fifa: a ocupação da Maré custou R$ 1,7 milhão por dia [12] ao longo de 15 meses (para que depois o Exercito saísse deixando tudo no mesmo patamar), ou seja, algo como R$ 700 milhões, mais do que o dobro do que a Prefeitura investiu em uma área que precisaria de um verdadeiro Plano Marshall.



“Não é a Lava Jato que determina a crise do crescimento, mas a debilidade do crescimento apesar de um ciclo incrível de investimentos que explica a Lava Jato

 

Lava Jato


Mas há uma segunda dimensão, ainda mais importante, que a Lava Jato nos mostra: a dimensão sistêmica e generalizada da corrupção é, na realidade, parte consistente do modo de inserção – com propaganda do Lula e gestão “das” Odebrecht – do Brasil na economia globalizada. A corrupção é hoje um mecanismo fundamental de extração de lucros excepcionais do mesmo tipo que empresas como a Zara procuram pela exploração do trabalho escravo no Brasil ou em Bangladesh. Como bem escreveu Alexandre Mendes [13], há uma correlação direta e funcional entre o trabalho quase-escravo e as megaobras: como no caso da barragem de Jirau (e por causa disso da revolta operária de 2012 que antecipou junho e o ministro Gilberto Carvalho na época qualificou de banditismo) ou nas obras das Olímpiadas [14].

O capitalismo contemporâneo contém uma dimensão predatória da qual a corrupção e a guerra aos pobres são duas dimensões estruturais, assim como o vemos nos Estados Unidos, mas também na Rússia e na China ou nos negócios entre polícias e milícias nas favelas e periferias brasileiras. São esses “negócios” que aparecem na Lava Jato: a compra da refinaria de Pasadena nos Estados Unidos, as obras no Peru, as operações em Portugal, na África e por aí vai.

O que a Lava Jato mostra é o que a multidão já sabia e afirmou em junho: que o modelo pós-colonial de desenvolvimento do PT apenas hibridiza aquele neocolonial do PMDB (como não lembrar que é o PP de Maluf e da ditadura que conquistou a taça do maior número de deputados investigados pela Lava Jato) e, em nome do intervencionismo, assistimos à construção oligárquica de um mercado oligopolista (de Global Players escolhidos pelo BNDES de maneira sigilosa) que precisa se alimentar de lucros extraordinários... até quebrar.

A tibieza da oposição tucana está no fato de ser parte desse mesmo modelo de exploração (sobre isso ver o artigo de fôlego de Bruno Cava) [15]. O que é esse oligopólio? Pegamos a Odebrecht e a cidade-sede desse modelo oligárquico de exploração predatória do trabalho e do comum: encontraremos (em parceria com as outras grandes envolvidas nos escândalos da Petrobras) a empreiteira em praticamente todas as grandes obras e quase todas bancadas por dinheiro público (do BNDES, da CEF): o arco metropolitano [16], o aeroporto internacional Galeão (o dinheiro da compra da própria concessão pela Odebrecht e da obra é todo do BNDES), o Porto Maravilha, a obra do Maracanã para a Copa, a construção da linha 4 do metrô (só ficou de fora a Cidade Olímpica, que é construída pela tradicional empresa “dona” da Barra da Tijuca, a Carvalho Hosken, cujo proprietário declarou recentemente que o bairro não é para pobres [17]). As obras do PAC eram quase todas entregues à empresa de Fernando Cavendish, a Delta, ligada ao bicheiro Cachoeira (o mesmo do caso Waldomiro Diniz, do primeiro escândalo envolvendo o então ministro da Casa Civil), sem que se esqueça o jatinho do Eike onde viajavam empreiteiro e governador e a dança dos guardanapos em Paris [18].

Em um belo e atualíssimo livro sobre as “guerras imperiais”, Alain Joxe escreveu: “Para os membros da classe rentista global, o que ainda se chama de ‘corrupção e conflito de interesses’ são (...) modalidades técnicas legítimas e eles se espantam, pois, que processos de instrução ainda sejam abertos em torno de negócios que eles vivenciam como perfeitamente normais”. Lula, Palocci, Paes, Cunha e Cia se sentem como novos managers, novos ricos, novos Eike desses mesmos negócios... predatórios que na realidade são parte de uma nova acumulação originária, dessa vez dentro do padrão hegemônico do capitalismo financeiro: por isso, uma década de aplicação desse modelo não afastou o Brasil da dominação financeira e neoliberal, mas a aprofundou dramaticamente. O nacional-desenvolvimentismo se diz democrático, mas só pensa como horizonte a soberania e como motor da política, o Estado, e o Estado é esse daí: dos Cunha, Maluf, Sarney, Paes... agora do PT junto e igual ao PMDB.

É por isso que o PT passa indiferentemente da demagogia desenvolvimentista ao mais violento ajuste ultraneoliberal. Seu “projeto” não tem conteúdo, a não ser surfar nessa onda sem querer minimamente transformá-la. Até junho de 2013 podíamos ter dúvidas sobre a falta de bases sociais para apoiar um aprofundamento reformista. Em junho, só cego não viu que o PT era o partido da ordem e pela ordem, do valor desse novo regime de exploração, do qual ele quer participar, mas não quer por nada transformar.

Novo regime de exploração

Estamos dentro de um novo regime de exploração que se organiza, por um lado, pela procura de lucros excepcionais produzidos pela corrupção e, pelo outro, por um controle oligopolista do “mercado” e tendencialmente autoritário do trabalho. O capital é hoje controlado por uma classe predadora e oligárquica de rentistas da qual passaram a fazer parte os burocratas cinzas do lulismo: “Muitos funcionários das burocracias de Estado se acostumaram a que as leis sejam redigidas pelos lobistas.” [19]. Qual é a figura fundamental da Lava Jato senão o tal de lobista? No dia 5 de dezembro de 2015, ainda no meio da onda de choque da lama tóxica da Vale em Mariana (MG), não lemos nos jornais que o “novo código de mineração foi escrito no computador de advogado de mineradoras”? [20]. Os ministros viram lobistas e os lobistas viram diretamente ministros, governadores, secretários: eis o governador de Minas fazendo coletiva de imprensa na sede da empresa responsável pelo desastre. A ministra da Agricultura pedindo empenho contra preconceito no uso de agroquímicos (quer dizer os agrotóxicos que empestam nossas mesas).

Só que o levante de junho destituiu o consenso e abriu o caminho à Lava Jato. Esta operação (claramente inspirada na operação italiana Mani pulite [21]), além de se alimentar por uma dinâmica republicana que o próprio PT fomentou, tem como base social também todo o tecido empreendedor que necessariamente ficou excluído por essa oligarquia de novos ricos predadores [22].

Então, para concluir, eu não acredito – como acreditam o PT e a esquerda do PT – que o projeto republicano seja suficiente para lutar contra a exploração e – por isso – não penso que a Lava Jato vá mudar algo sozinha. A única luta eficaz contra a corrupção é aquela que vem junto da luta contra a exploração e isso passa pela radicalização democrática. Mas criticar a Lava Jato em nome desse regime de exploração predatória – aquela que assistimos com as remoções e militarizações de favelas, destruição de reservas indígenas, condições nos transportes coletivos – é imperdoável e, até agora, ineficaz.

Nosso desafio é de continuar trabalhando na ou pela brecha democrática, na relação entre o destituinte e o constituinte (por exemplo, as ocupações das escolas de São Paulo como novas assembleias constituintes, como escreveu Alexandre Mendes) e novas institucionalidades, inclusive novas formas de representação, aquilo que podemos enxergar na Espanha e que vai além do Podemos (como argumentam Bruno Cava e Sandra Arencón Beltrán [23]).


“O governismo não acredita na sociedade, mas somente no Estado e no capital (ou seja, nas hibridizações dos dois). Nesse horizonte, ele deverá necessariamente implementar as reformas que o 'mercado' quer


IHU On-Line - O que muda no governo com a troca dos ministros da Fazenda? Quais são as linhas centrais da política econômica a serem adotadas por Nelson Barbosa? Ao assumir o cargo ele declarou que o maior desafio do Brasil é fiscal, cuja solução só depende do governo, e reiterou também que somente com estabilidade fiscal será possível ter crescimento sustentável. Nesse sentido, a política a ser adotada por ele deve ser diferente da do ex-ministro Levy?

Giuseppe Cocco – A entrada do Joaquim Levy foi um golpe – previsível - de Lula e Dilma. E a saída também: passamos mais de ano (pois o ajuste começou em novembro de 2014) com uma violentíssima política de austeridade totalmente inútil. Ao passo que se empurrava a economia para uma recessão brutal, liberou-se a farra do realismo tarifário (na contramão da queda mundial do preço do petróleo). Tudo isso para nada, para reproduzir o impasse em níveis maiores. Entramos em 2016 sem nenhuma perspectiva definida.

A gestão de Nelson Barbosa não tem como inventar muita coisa, não há muitas margens de manobra. Para avançar, podemos propor duas linhas de reflexão: (1) voltar sobre o modelo predador implementado por Lula-Dilma (que chamaremos do “modo Odebrecht de governar”) e (2) avançar algumas hipóteses sobre a eventual inflexão no Ministério da Fazenda (que de maneira alguma será uma guinada à esquerda).

(1) De maneira geral, a política econômica de Lula-Dilma é autoritária e desastrosa porque é fundamentalmente técnica e nisso repete a dogmática neoliberal, sendo que a economia mainstream sabe – mesmo que seja pelo avesso do que nós queremos – que a política fiscal e a política monetária não se mudam por decretos, pois se fundam na confiança, ou seja, na política, nas relações sociais: aquilo que o governo Dilma – depois de junho - não tem (por isso o governo é uma fonte de crise). Sem que mudem as relações sociais, não há como romper essa armadilha, ela reaparece de outra forma.

Os economistas mainstream (neoliberais) chamam isso de “fundamentos da economia” e com isso entendem as reformas que o Estado tem que fazer e empurrar goela abaixo para cima da sociedade.

Nós chamamos isso de dinâmicas constituintes da sociedade (da democracia) que produz outros valores, contra o Estado, pela paz. A recomposição da economia com a política não se faz sem passar pelo social, pela mobilização da sociedade. Essa é, aliás, a razão do desastre do ajuste que Dilma e Lula encomendaram ao Bradesco e que Levy tentou executar.

O controle da inflação dos preços deu ao Plano Real uma base social; as políticas sociais e o freio às privatizações legitimaram os dois governos Lula. Hoje não estamos em nenhuma dessas condições: como cobrar sacrifícios depois de 13 anos de governo? Como cobrar mobilização para manter um modelo de exploração predatório do qual o ex-presidente virou um garoto de propaganda e a Presidente uma gerente?

(2) Creio que a mudança do Ministério da Fazenda teve como divisor de água a prisão do senador Delcídio Amaral. Essa significou a impossibilidade de colocar – no curto prazo - a Lava Jato no forno de uma bela pizzaria. Se Dilma e Lula insistissem em manter a negociação com Cunha (sua saída da presidência sem cassação do mandato), o PT iria sofrer uma gigantesca sangria, com a saída de dezenas de parlamentares e dirigentes. Decidiram romper com Cunha e assumiram como inevitável a perda do grau de investimento. Talvez agora tentem tocar em duas teclas: aumentar a pressão fiscal e fazer a reforma da Previdência, articulando os dois toques no tempo das eleições municipais. Por um lado, no primeiro semestre, aumentar a arrecadação fiscal por meio da CPMF e eventualmente do Imposto sobre as Grandes Fortunas (e outras medidas fiscais) e com isso o governismo continuará gritando à “guinada à esquerda”, comemorando nesse caso também a vitória contra o processo de impeachment; pelo outro lado, no dia seguinte das eleições municipais, fariam a reforma da Previdência. O governismo não acredita na sociedade, mas somente no Estado e no capital (ou seja, nas hibridizações dos dois). Nesse horizonte, ele deverá necessariamente implementar as reformas que o “mercado” quer.

O governismo não tem muitas escolhas, mas ninguém sabe se vai funcionar: vão conseguir articular a temporalidade das duas operações dentro do aprofundamento da crise política e econômica? Somente se, por um lado, o hard power, o grande capital, os bancos e a grande mídia, apoiar essa operação não apenas no plano político mas também voltando a investir, e, pelo outro, a sociedade não se mobilizar, e isso ninguém sabe. Além disso, há uma outra variável imprevisível: a Lava Jato, que, a cada vez que parece esvaziar-se, volta com tudo.

Por Patricia Fachin

Notas:

[7] O extinto Ministério da Pesca é por sua vez objeto de investigação da Polícia Federal, vide http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2015/10/assessor-da-secretaria-da-pesca-e-preso-no-df-pela-policia-federal.html. (Nota do entrevistado)
[10] http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,dilma-diz-que-eike-e-orgulho-do-brasil-imp-,865908. (Nota do entrevistado)
[15] Podem os governos progressistas sobreviver ao próprio sucesso? http://www.quadradodosloucos.com.br/5106/podem-os-governos-progressistas-sobreviver-ao-proprio-sucesso. (Nota do entrevistado)
[16] Antes dela era a Delta, do empresário Cavendish, amigo do governador Sergio Cabral. A Delta tinha também o contrato de construção da Transcarioca, que foi para a Andrade Gutierrez depois do escândalo dos guardanapos. Sobre a Delta, vide http://www.ihu.unisinos.br/noticias/509042-qdeltafaznopaisoqueaprendeunorioqdizmarcelofreixo. (Nota do entrevistado)
[19] Les guerres de l’Empire global, La Decouverte, Paris, 2012, p. 232. (Nota do entrevistado)
[21] Circula uma falácia sobre essa história: atribui-se à Mani Pulite a chegada ao poder do Berlusconi quando na realidade o Berlusconi chegou ao poder porque a esquerda tinha pacificado (reprimido) os movimentos autônomos da década de 1970. Exatamente o que Dilma e Lula estão fazendo desde junho, em parceria com Alckmin e Cabral. Não por acaso a Lei Antiterrorismo que tipifica como tal os movimentos sociais é enviada por Dilma e apoiada pelo Senador Nunes do PSDB de São Paulo. (Nota do entrevistado)
[22] Vide para isso a análise de Bruno Cava, Podem os governos progressistas sobreviver ao próprio sucesso? (Nota do entrevistado)

Para ler mais:



  • 27/11/2015 - Precedente de Delcídio assombra parlamentares e paralisa Brasília
  • 05/10/2015 - O modelo desenvolvimentista é um projeto inconcluso. Entrevista especial com Márcio Pochmann
  • 31/03/2015 - “Assistimos ao começo do fim. O PT tende a virar um arremedo do PMDB”. Entrevista com Frei Betto
  • 18/06/2015 - “As revoluções não admitem mais o protagonismo de um único coletivo”
  • 23/05/2014 - Zara admite que houve escravidão na produção de suas roupas em 2011
  • 08/04/2014 - A “ocupação” da Maré. Artigo de Cândido Grzybowski
  • 01/11/2013 - Ascensão e queda de Eike espelham trajetória recente do Brasil, afirma jornal
  • 04/12/2015 - 'Brasília se tornou versão tropical de Jogos Vorazes', diz 'FT'
  • 11/11/2015 - Os dilemas do ajuste fiscal
  • 01/09/2014 - Para Odebrecht, é obrigação tentar influir no governo
  • 19/09/2012 - Com BNDES e negócios com políticos, Odebrecht ergue 'império' em Angola
  • 08/06/2015 - Contra a oligarquia financeira, sejamos Teseu e Ariadne
  • 01/12/2015 - Crimes e castigos do capital
  • 23/01/2015 - Alta de juros terá impacto bilionário na dívida pública
  • 02/09/2015 - O medo do “fantasma da inflação” paralisa a economia brasileira. Entrevista especial com Amir Khair
  • 11/09/2015 - “É contraditório cortar gastos e elevar juros numa economia em recessão”. Entrevista especial Gentil Corazza
  • 04/11/2015 - Ajuste fiscal pode reduzir PIB do Brasil no futuro, diz Nobel de economia
  • 05/10/2015 - Brasil deve abandonar metas de inflação e adotar banda cambial flutuante, diz analista
  • 07/10/2014 - Junho 2013 x Outubro 2014
  • 23/09/2015 - Crise política e a desconstrução do país. Entrevista especial com Moysés Pinto Neto
  • 07/12/2015 - Multidão, a democracia como potência. Entrevista especial com Homero Santiago
  • 27/08/2015 - Brasil 2003 - 2015: balanço de uma experiência 'popular'
  • 04/09/2015 - Cantes de ida y vuelta: entre primavera e outono. Reflexões entre o 15M na Espanha e junho de 2013 no Brasil
  • 15/12/2015 - A política brasileira com as vísceras expostas. Entrevista especial com Moysés Pinto Neto
  • 11/12/2015 - Infraestrutura logística portuária: O Estado cooptado pelo setor privado e a população à mercê do capital. Entrevista especial com Roberto Moraes Pessanha
  • 13/12/2015 - Um impeachment a serviço de governos, empresas e partidos. Entrevista especial com Marcelo Castañeda

  • Fonte: IHU

    OUTRAS PALAVRAS: A democracia em declínio e os tambores da guerra; Arábia Saudita, o verdadeiro Estado Islâmico; Nas periferias brasileiras, nasce um novo feminismo; Assim se produzem policiais violentos; Quatro (ou cinco) degraus de aprendizagem; Parkour em Gaza: criar em meio à devastação; Outra Olimpíada será possível?; O ano em que o teatro carioca zombou da crise

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    Boletim de atualização - Nº 600 - 5/1/16



    Enfraquecidos pela ditadura financeira, governos veem-se impotentes, desgastam-se, são derrotados. Surge uma tentação: e se saída estiver no ódio ao outro e nas armas? Por Immanuel Wallerstein (Outras Palavras)

    Arábia Saudita, o verdadeiro Estado Islâmico
    Retrógrado, misógino, intolerante, Reino de Saud financia e estimula o ISIS. Decapitou 47 opositores, no primeiro dia do ano. É o grande aliado do "mundo livre" no Oriente Médio… Por Nuno Ramos de Almeida (Outras Palavras)

    Nas periferias brasileiras, nasce um novo feminismo
    Com textos poéticos, campanhas e vídeos, grupo de jovens descobre caminhos para desafiar a dominação patriarcal onde ela é mais crua e violenta – nas bordas das metrópoles. Por Inês Castilho, na página da Oca Tupiniquim, parceira de Outras Palavras (OCA)

    Assim se produzem policiais violentos
    Privação do sono. Pauladas. Gás lacrimogênio. Humilhações constantes. PMs submetem jovens recrutas a “treinamento” bárbaro, e formam uma polícia brutal. Por Thiago Guimarães, na BBC Brasil (Outras Mídias)

    Quatro (ou cinco) degraus de aprendizagem
    Romper com paradigmas tradicionais de Educação exige preparar-se para ensinar criativamente. Um passo decisivo é examinar o processo do aprender. Por Alex Bretas, nas 50 Ferramentas para uma Educação Fora da Caixa (Outras Palavras)

    Parkour em Gaza: criar em meio à devastação
    Em meio a prédios destruídos, centenas de jovens palestinos correm, pulam e dizem: "Não sabemos do futuro, é é a única coisa que nos faz sentir livres". Por Loulou D'Azy, na Vice (Outras Mídias)

    Outra Olimpíada será possível?
    Um relato dos I Jogos Indígenas Mundiais. Um ano antes da Rio-2016, esportes inusitados, protestos políticos constantes e um clima de confraternização oposto ao mercantil. Por Eliana Loureiro (Outras Palavras)

    O ano em que o teatro carioca zombou da crise
    Breve balanço da temporada 2015: nem recessão econômica, nem decadência política, impediram ousadia estética, fusão com outras linguagens, verdade sem disfarces. Por Wagner Correa de Araujo (Outras Palavras)


    janeiro 05, 2016

    Cientistas do Brasil - Manuela Carneiro da Cunha (UNIVESP TV)

    PICICA: "Publicado em 6 de out de 2012
    O programa Cientistas do Brasil recebe a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, professora aposentada do Departamento de Antropologia da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. A professora Manuela já chefiou os departamentos de Antropologia da USP e da Unicamp, foi presidente da Associação Brasileira de Antropologia, presidente-fundadora da Comissão Pró-Índio de São Paulo e tem 9 livros publicados. Ela dá entrevista à jornalista Mônica Teixeira, coordenadora-geral da Univesp TV, sobre sua carreira e suas principais pesquisas. Neste mesmo programa, Manuela conversa com outros dois pesquisadores: a antropóloga Sylvia Caiuby Novaes, que coordena o Laboratório de Imagem e Som em Antropologia da USP, e o antropólogo Mauro Almeida, professor da Unicamp e autor, entre outros, de "A Enciclopedia da Floresta. O Alto Juruá: prática e conhecimentos das populações", em parceria com Manuela Carneiro da Cunha."

    Cientistas do Brasil - Manuela Carneiro da Cunha

    Univesp TV

    Ruy Braga: O retorno da luta de classes no Brasil (TV BOITEMPO)

    PICICA: "Publicado em 24 de ago de 2015
    Ruy Braga comenta a atualidade da obra de Domenico Losurdo para compreender o ressurgimento da questão da luta de classes no Brasil contemporâneo, pós-lulismo. Trata-se da fala de abertura de Braga na mesa "Lutas de classe: sindicalismo, partidos e movimentos sociais", com Domenico Losurdo, André Singer, Ruy Braga e Breno Altman (mediação).

    Confira o debate completo aqui: http://bit.ly/LosurdoBragaSinger

    Confira a coluna de Ruy Braga no Blog da Boitempo aqui: http://bit.ly/RuyBlogBoitempo"

    Ruy Braga: O retorno da luta de classes no Brasil

    TV Boitempo

    OUTRAS PALAVRAS: Agamben: o flerte do Ocidente com o totalitarismo; Especial: Retrospectiva sobre violência policial no Brasil, em 2015; Para superar o capitalismo, sistema de morte (I); Stiglitz: como evitar a “grande queda livre”; Por uma internet mais subversiva;Israel, país culturalmente aberto?; Reflexão a partir da foto de uma criança queimada; A primavera Rózà e a poética da revolução hoje; A face social das músicas de Gilberto Mendes


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    Boletim de atualização - Nº 599 - 4/1/16

    Estado de Segurança: governos movimentam-se para restringir liberdades, atemorizar cidadãos e reduzi-los, enfim, à passividade. Isso nada tem a ver com "combate ao terrorismo". Por Giorgio Agamben 

    Especial: Retrospectiva sobre violência policial no Brasil, em 2015
    Em seis textos, uma história que é preciso compreender, para enfrentar. Tortura, chacinas, grupos de extermínio, repressão a manifestações políticas. Show de horrores, enfim. (1 2 3 4 5 6) Por Alceu Luís Castilho

    Para superar o capitalismo, sistema de morte (I)
    Novos ensaios em "Outras Palavras": informado pela Teologia da Libertação e pensamento do papa Francisco, colunista escreve sobre grandes impasses contemporâneos. No primeiro texto, o papel dos bancos e da aristocracia financeira. PorMauro Lopes

    Stiglitz: como evitar a “grande queda livre”
    Na virada do ano, Nobel de Economia adverte de novo sobre risco de colapso global. Para escapar, diz, será preciso derrotar políticas como o “ajuste fiscal” brasileiro. Por Antonio Martins


    Por uma internet mais subversiva
    Em resposta ao Facebook, Google e plataformas precarizantes como Uber, pesquisadores e ativistas mobilizam-se para criar redes pós-capitalistas, onde se compartilhe propriedade e trabalho (A.M.)


    Israel, país culturalmente aberto? 
    Ministério da Educação de Telaviv veta romance sobre caso de amor entre uma judia e palestino e abala crença na suposta liberalidade israelense (A.M.) 
     

    Reflexão a partir da foto de uma criança queimada
    Naturalização dos fogos de artifício ocorre apesar das mutilações e mortes causadas pelo ritual, bancado também com dinheiro público; indústria do turismo agradece (A.L.C.) 

    A primavera Rózà e a poética da revolução hoje
    Baseada em cartas de Rosa Luxemburgo, peça que reestreará em 2016 sugere: é possível reabrir a hipótese revolucionária, mas ela será tecida de corpos, afetos, intimidade e desejos. Por Alana Moraes e Jean Tible 

    A face social das músicas de Gilberto Mendes
    Falecido no dia 1º, compositor musicou poema de Haroldo de Campos sobre os 19 sem-terra assassinados em 1996 no sudeste do Pará; foi militante do PCB 
    (A.L.C.)

    [Vídeo] – Modos de existência – Gilbert Simondon – Prof. Dr. Eduardo Viveiros de Castro (FILOSOFIA EM VÍDEO)

    PICICA: "Gilbert Simondon (1924 – 1989) foi um filósofo e tecnólogo francês.

    Nascido em Saint-Étienne, estudou na Ecole Normale Supérieure e na Sorbonne, obteve na última o doutoramento em 1958. Foi aluno de Georges Canguilhem, Martial Guéroult e Maurice Merleau-Ponty.

    Sua obra perpassa investigações em tecnologia, técnica, estética e individuação. Sua tese complementar de doutorado Du mode d’existence des objets techniques, publicada em 1958, teve repercussão imediata pelo caráter ousado da proposta anti-fenomenológica e não tecnofóbica apresentada por Simondon para se pensar a gênese dos objetos técnicos, exigindo como análise dos mesmos o tratamento específico das realidades de seus funcionamentos e utilizações. Conquanto a relevância de sua obra, Simondon é ainda pouco lido, embora esporadicamente citado. Sua tese principal foi dividida em duas partes para publicação: L’individu et sa gènese physico-biologique (1964) e L’individuation psychique et collective à la lumière des notions de forme, information, potentiel et metaestabilité (1989).

    Eduardo Batalha Viveiros de Castro (Rio de Janeiro, 19 de abril de 1951) é um antropólogo brasileiro, professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro."

    simondon1


    [Vídeo] – Modos de existência – Gilbert Simondon – Prof. Dr. Eduardo Viveiros de Castro

    Gilbert Simondon (1924 – 1989) foi um filósofo e tecnólogo francês.

    Nascido em Saint-Étienne, estudou na Ecole Normale Supérieure e na Sorbonne, obteve na última o doutoramento em 1958. Foi aluno de Georges Canguilhem, Martial Guéroult e Maurice Merleau-Ponty.


    Sua obra perpassa investigações em tecnologia, técnica, estética e individuação. Sua tese complementar de doutorado Du mode d’existence des objets techniques, publicada em 1958, teve repercussão imediata pelo caráter ousado da proposta anti-fenomenológica e não tecnofóbica apresentada por Simondon para se pensar a gênese dos objetos técnicos, exigindo como análise dos mesmos o tratamento específico das realidades de seus funcionamentos e utilizações. Conquanto a relevância de sua obra, Simondon é ainda pouco lido, embora esporadicamente citado. Sua tese principal foi dividida em duas partes para publicação: L’individu et sa gènese physico-biologique (1964) e L’individuation psychique et collective à la lumière des notions de forme, information, potentiel et metaestabilité (1989).


    Eduardo Batalha Viveiros de Castro (Rio de Janeiro, 19 de abril de 1951) é um antropólogo brasileiro, professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

     

     

    Eduardo Viveiros de Castro Mesa 1 Modos de existência

    EncontroSimondon

    Publicado em 7 de mai de 2012
    :::::::::: APRESENTAÇÃO :.
    A obra de Gilbert Simondon permanece, ainda hoje, muito pouco conhecida no cenário acadêmico e intelectual brasileiro, apesar de seu crescente destaque, não apenas no campo da filosofia, mas também no das ciências sociais contemporâneas. Filósofo marginalizado e frequentemente reduzido à questão da técnica, Simondon oferece recursos poderosos e ainda muito pouco conhecidos para se pensar as relações sociais entre humanos e também entre humanos e não-humanos de perspectivas variadas, sejam elas sociológicas, antropológicas, políticas, filosóficas, epistemológicas ou estéticas. Suas concepções de informação, tecnicidade, individuação, transdução, metaestabilidade, transindividual, concretização, invenção e tecno-estética, entre outras, vêm oferecendo alternativas valiosas para o avanço na compreensão de temas centrais da contemporaneidade como o trabalho, a mobilização coletiva, as transformações sociais, a presença da tecnologia na vida cotidiana, as tensões entre ética e ciência, as relações entre indivíduo e sociedade, biologia e técnica, natureza e cultura etc. O Grupo de Pesquisa Conhecimento, Tecnologia e Mercado (CTeMe), impelido pela urgência de retomar o movimento do pensamento de Simondon, de colocar seus conceitos e suas ideias para funcionar no contexto contemporâneo, convidou alguns pesquisadores brasileiros e estrangeiros de diversas áreas -- sociologia, antropologia, filosofia, arte, design e computação -- e instituições -- Conicet (Argentina), Fatec (Jundiaí), PUC-SP, UBA (Argentina), UFRJ (IFCS e Museu Nacional), UFPR, UnB, Unicamp e Unifesp -- envolvidos em atividades de alguma forma relacionadas à importância e urgência do pensamento de Simondon, para três dias de debates no IFCH/Unicamp. A escolha dos pesquisadores convidados foi criteriosa, orientada não por política institucional e especialização disciplinar ou temática, mas sim por afinidades estético-políticas distribuídas em redes heterogenéticas. Certamente, muitos outros pesquisadores brasileiros que vêm trabalhando com as ideias simondonianas poderiam ter sido convidados para este encontro ou citados aqui; trata-se de um estímulo para que ele se desdobre em novas oportunidades de ampliar cada vez mais o coletivo mobilizado em torno da urgência do pensamento de Simondon. Por hora, e para um encontro que começou como um sonho sem nenhum fundamento na realidade burocrática e institucional das agências de financiamento e do mundo acadêmico brasileiro atual, até que não nos saímos tão mal. O encontro "Informação, tecnicidade, individuação: a urgência do pensamento de Gilbert Simondon" ocorreu nos dias 2, 3 e 4 de abril de 2012 no Auditório I do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com acesso livre e transmissão pela internet (streaming).

    :::::::::: PROGRAMAÇÃO (Auditório I do IFCH/UNICAMP) :.
    __________Dia 02 de abril de 2012
    19h - Mesa 1 -- Modos de existência -- Palestrantes: Laymert Garcia dos Santos (Unicamp), Muriel Combes e Eduardo Viveiros de Castro (UFRJ). Mediador: Christian P. Kasper (UFPR).
    __________Dia 03 de abril de 2012
    9h30 -- Mesa 2 -- Tecnopolíticas -- Palestrantes: Henrique Parra (Unifesp), Silvio Rhatto (Saravá.org) e Rafael Diniz (WiMobilis). Mediador: Stefano Schiavetto (Unicamp).
    14h30 -- Mesa 3 -- Individuações -- Palestrantes: Oswaldo Giacoia Jr. (Unicamp), Pablo E. Rodríguez (Conicet) e Peter Pál Pelbart (PUC-SP). Mediador: Rodolfo E. Scachetti.
    __________Dia 04 de abril de 2012
    9h30 -- Mesa 4 -- Informação -- Palestrantes: Diego J. Vicentin (Unicamp), Cecilia Diaz-Isenrath (UBA, Argentina) e Emerson Freire (Fatec, Jundiaí). Mediadora: Marta M. Kanashiro (Labjor/Unicamp).
    14h30 -- Mesa 5 -- Sócio-antropotécnica -- Palestrantes: Carlos E. Sautchuk (UnB), Daniela T. Manica (UFRJ) e Christian P. Kasper (UFPR). Mediador: Rainer M. Brito (UFSCar).
     
    Fonte: FILOSOFIA EM VÍDEO

    O HOLOCAUSTO BRASILEIRO: O Genocídio de 60 mil brasileiros. Por Alexandre Ferreira (DIREITOS HUMANOS, DESCONSTRUÇÃO E PODER JUDICIÁRIO)

    PICICA: "Sobre o ocorrido no "Colônia", a história lhe deu o nome que merece ter. Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, um dos primeiros a lutar pelo fim dos manicômios, após visita a Colônia, declarou: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo presenciei uma tragédia como essa”." 

    O HOLOCAUSTO BRASILEIRO:
    O Genocídio de 60 mil brasileiros

    Por Alexandre Ferreira 





       
         Como num ritual, uma das “pacientes” pega de suas próprias fezes e passa sobre sua barriga. O objetivo? Proteger-se do tratamento que lhe era dedicado: choques e estupro, a dura realidade do "Colônia", o maior hospício do Brasil, fundado em 12 de outubro de 1903.

         A história do local que matou mais de sessenta mil pessoas, mesmo com a obra primorosa de Daniela Arbex, publicada pela Editora Geração, permanece desconhecida no país. Mostra razões claras para o ativismo em Direitos Humanos, para a eliminação do tratamento manicomial.

         Barbacena, em Minas Gerais, entre os anos de 1969 e 1980, recebeu meninas grávidas violentadas por patrões, esposas confinadas para que seus esposos pudessem morar com amantes, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres  queperderam os seus documentos... Alguns eram apenas tímidos, outros eram parte das minorias indesejáveis, os negros, prostitutas, homossexuais e os alcoólatras.

         Em 1961, a instituição tinha 5.000 “pacientes”; a capacidade inicial era de 200 leitos. Nesse período, o de maior lotação, 16 pessoas morriam por dia, vítimas do frio, inanição e eletrochoques. O livro informa que 70% dos internados não tinham diagnóstico de doença mental.

         Dos 60 mil mortos no interior da Colônia, 1.853 tiveram seus restos mortais vendidos sem autorização para universidades brasileiras, quando o mercado ficou sobrecarregado de tantos corpos, começaram a ser decompostos em ácido no pátio do hospital, na frente dos “pacientes”, e então as ossadas eram comercializadas.

         O trabalho de Daniela Arbex foi de devolver identidade aqueles que foram trancafiados e tiveram as suas cabeças raspadas. A nudez exposta, viram-se obrigados a urinar e defecar em público, desesperar-se com a fome, a descaracterização da personalidade e da dignidade, a sanidade desconstituída pouco a pouco, por meio de seções intermináveis de eletrochoques, que culminavam em morte. Revela, sem sensacionalismo, com carinho e sensibilidade, memórias tristes, mas que merecem ser reavivadas para que nunca mais aconteçam.

         As memórias de quem se alimentava de ratos, bebia água de esgoto ou urina, daqueles tantos pacientes que dormiam sobre capim e se amontoavam uns sobre os outros para se afugentar do frio, que matou outros tantos nas noites geladas da Serra da Mantiqueira. Que aprenderam a cuidar uns dos outros, a proteger-se do frio, e que puderam recomeçar o seu caminho após anos de sofrimento. São também as memórias daquelas mães que viram seus filhos roubados após o parto desumanizado da Colônia.

         Desde a publicação de Daniela, a luta pela reforma manicomial já alcançou avanços, mas ainda há muito por fazer. A principal delas é a Lei Antimanicomial, 10.216/2001, que representa uma tentativa válida de reconhecer dignidade e atenuar as limitações sociais e econômicas das pessoas que sofrem com transtornos mentais.

         Sobre o ocorrido no "Colônia", a história lhe deu o nome que merece ter. Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, um dos primeiros a lutar pelo fim dos manicômios, após visita a Colônia, declarou: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo presenciei uma tragédia como essa”. 

    Fonte: DIREITOS HUMANOS, DESCONSTRUÇÃO E PODER JUDICIÁRIO

    janeiro 04, 2016

    [Vídeo] – O Futuro não é mais o que era – Henri Bergson – Prof. Dr. Franklin Leopoldo e Silva

    PICICA: "Henri Bergson (1859 — 1941) foi um filósofo francês. Conhecido principalmente por Ensaios sobre os dados imediatos da consciência, Matéria e Memória. Sua obra é de grande atualidade e tem sido estudada em diferentes disciplinas – cinema, literatura, neuropsicologia, bioética, entre outras. Recebeu o Nobel de Literatura de 1927." 

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    [Vídeo] – O Futuro não é mais o que era – Henri Bergson – Prof. Dr. Franklin Leopoldo e Silva

    O Prof.Franklin Leopoldo e Silva desenvolve algumas ideias de Bergson sobre temporalidade e sobre a ideia de Futuro.

    Henri Bergson (1859 — 1941) foi um filósofo francês. Conhecido principalmente por Ensaios sobre os dados imediatos da consciência, Matéria e Memória. Sua obra é de grande atualidade e tem sido estudada em diferentes disciplinas – cinema, literatura, neuropsicologia, bioética, entre outras. Recebeu o Nobel de Literatura de 1927.

    Palestra destacada do ciclo de palestras organizadas por Adauto Novaes, Mutações, O Futuro não é mais o que era.


    Fonte: Filosofia em Vídeo

    A fotografia de rua: a alma dos distraídos. POR Rejane Borges (OBVIOUS)

    PICICA: "Há pessoas que passam a vida toda ao nosso lado e não conseguem perceber nossa essência, muito menos a essência de certas particularidades. Porque não percebem esses detalhes, essenciais detalhes. Não captam, não intuem. Não vêem a gravidade ou a beleza das coisas se elas não estiverem evidentes. Por outro lado, há pessoas, nem tão próximas de nós, que conseguem observar estes detalhes de algum nosso momento, conseguem captar a alma de algumas nossas circunstâncias, de alguns lugares, das coisas, das horas. E o fazem por não estarem distraídos nas expressões, nos olhares e nos modos de andar alheios. E o fazem porque gostam dos outros a ponto de os outros não os aborrecerem de tédio quando estão a praticar as atividades mais comuns.

    É o caso do aposentado britânico Bill Harris - apaixonado por captar esses pequenos grandes momentos, tão comuns no dia-a-dia, mas tão raros nas percepções. Bill sempre gostou de pessoas - particularmente, de observá-las. É do tipo que senta em um banco de praça, ou de um shopping, e fica o dia todo apenas a observar quem por ele passa." 


    A fotografia de rua: a alma dos distraídos


    A fotografia de rua capta basicamente o que há de mais comum: os pequenos momentos. Os pormenores do cotidiano, aqueles a que ninguém dá muita confiança, nem se lembra, muito menos se importa. Uma mulher pensativa com sua sacola de compras a atravessar a rua, um casal de jovens a olhar uma vitrine, amigos que se encontram nas esquinas. Apenas detalhes.

    bill harris fotografia cotidiano quotidiano

    Há pessoas que passam a vida toda ao nosso lado e não conseguem perceber nossa essência, muito menos a essência de certas particularidades. Porque não percebem esses detalhes, essenciais detalhes. Não captam, não intuem. Não vêem a gravidade ou a beleza das coisas se elas não estiverem evidentes. Por outro lado, há pessoas, nem tão próximas de nós, que conseguem observar estes detalhes de algum nosso momento, conseguem captar a alma de algumas nossas circunstâncias, de alguns lugares, das coisas, das horas. E o fazem por não estarem distraídos nas expressões, nos olhares e nos modos de andar alheios. E o fazem porque gostam dos outros a ponto de os outros não os aborrecerem de tédio quando estão a praticar as atividades mais comuns.

    É o caso do aposentado britânico Bill Harris - apaixonado por captar esses pequenos grandes momentos, tão comuns no dia-a-dia, mas tão raros nas percepções. Bill sempre gostou de pessoas - particularmente, de observá-las. É do tipo que senta em um banco de praça, ou de um shopping, e fica o dia todo apenas a observar quem por ele passa.

    Conta que sua mente faz composições, monta e arranja cenas. Vê sempre tudo enquadrado, como se seus olhos fossem uma câmara. Então começou a fotografar todas aquelas desatenções, todas as coisas que passam despercebidas. 

    O que Bill faz é a chamada fotografia de rua, um método um tanto despretensioso, mas original por causa da espontaneidade das fotos. Sem composições padronizadas, se criam imagens a partir do quase nada. Tudo o que se tem é o que se vê. E é excitante justamente porque é algo que não podemos controlar, como o movimento, os ângulos ou a luz. Talvez seja o método em que mais se precisa da velha e boa intuição. Ou devo dizer talento?

    bill harris fotografia cotidiano quotidiano

    Na fotografia de rua, a única coisa que podemos controlar é a lente e o momento do clique, nada mais. A fotografia de rua nem dá margem para uma escolha do fotógrafo acerca do quê fotografar. Ele simplesmente fotografa porque as coisas estão acontecendo naquele instante. E a escolha do instante de fotografar é muito mais um sentimento do que uma escolha. 

    Obviamente, para um bom resultado é fundamental que se tenha uma câmara boa e rápida. Isso significa evitar atraso entre a pressão e o clique do botão do obturador. Se a câmara é rápida, então se consegue exatamente a imagem desejada e não o que aconteceu um décimo de segundo depois. 

    A essência da fotografia de rua é captar os momentos, e os momentos acontecem em um piscar de olhos, às vezes literalmente. A fotografia de rua eterniza sutilezas que durariam apenas um segundo. E já há muito se diz: os pequenos momentos....não há nada maior do que eles, não?

    bill harris fotografia cotidiano quotidiano
    bill harris fotografia cotidiano quotidiano
    bill harris fotografia cotidiano quotidiano
    bill harris fotografia cotidiano quotidiano
    bill harris fotografia cotidiano quotidiano
    bill harris fotografia cotidiano quotidiano
    bill harris fotografia cotidiano quotidiano
    bill harris fotografia cotidiano quotidiano
    bill harris fotografia cotidiano quotidiano

    Mais fotografias de Bill Harris podem ser conferidas neste site.

    rejane borges

    Gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros.

    Fonte: OBVIOUS

    Os zeróis de Ziraldo. POR Bruno Cava Rodrigues

    PICICA: "Publicado em 24 de setembro de 2010
    Nos anos 1960, quando produziu as ilustrações, Ziraldo estava à altura de seu tempo. Inspirado por Warhol, Lichtenstein e todos quantos, o artista verteu ao terreno brazuca as propostas velhacas da Pop Art. Daí surrupiou da comunicação de massa e recodificou os signos. Os heróis viram zeróis, criaturas demasiado humanas, aprisionadas em sua condição de imagem e incapazes de atuar em um mundo convulsionado. O criador acompanha as criaturas, brinca e envelhece com elas, e se permite ao riso trágico, numa época de ditaduras políticas e monopólios culturais. Os zeróis sabem que os heróis de verdade jazem anônimos." 

    Os zeróis de Ziraldo.



    Terminou esta semana, no Rio, a exposição Zeróis: Ziraldo na tela grande. Organizada no Centro Cultural Banco do Brasil, as 44 obras inéditas roubaram a cena, ofuscando a mostra contígua de Anita Malfatti. Se os duzentos e tantos quadros desta belartista não surpreendem nem empolgam, na sua previsibilidade, em Zeróis pôde-se compreender quão rica e plurissignificante é a obra do cartunista e chargista Ziraldo Alves, e quanto ele merece todo o crédito como das maiores cabeças criativas de sua geração. Trata-se de uma seqüência de telas ao estilo da Pop Art, que mobiliza o olhar, desconcerta e desvela feixes míticos da modernidade, sem jamais perder a ternura e o humor.

    No caldeirão de Zeróis, em cores homogêneas e traços velozes, mistura-se um pouco de cada: Dali, Manet, Goya, Super-Homem, Guerra do Vietnã, Mulher-Maravilha, Mickey Mouse, Shazam, Tarzan. Combinação realizada num estilo bastante pessoal, acessível e trocista, que convida o espectador-participante a percorrer a história contada no quadro.



    Nos anos 1960, quando produziu as ilustrações, Ziraldo estava à altura de seu tempo. Inspirado por Warhol, Lichtenstein e todos quantos, o artista verteu ao terreno brazuca as propostas velhacas da Pop Art. Daí surrupiou da comunicação de massa e recodificou os signos. Os heróis viram zeróis, criaturas demasiado humanas, aprisionadas em sua condição de imagem e incapazes de atuar em um mundo convulsionado. O criador acompanha as criaturas, brinca e envelhece com elas, e se permite ao riso trágico, numa época de ditaduras políticas e monopólios culturais. Os zeróis sabem que os heróis de verdade jazem anônimos.

    Quando penso na matriz de Ziraldo, criador da Turma do Pererê (1960) e de Menino Maluquinho (1980), não me vem à mente Oswald de Andrade, porém Cassiano Ricardo. Ziraldo está mais  para a poética de Martim Cererê do que Serafim Ponte Grande. Ele faz política meique na surdina. Ao invés da acidez e escracho de Oswald, Ziraldo adota um tom maroto, irônico, bem-humorado da composição tropicalista. Subversão do cânone, mas sem levantar muita bandeira, sem panfletar manifestos, sem bradar palavras-de-ordem — coisa de artista de fina estampa, como o argentino Quino.



    Ziraldo não apaga apenas o limite entre arte elevada e popular, como outros artistas Pop, ele vai além e implode a distinção entre arte séria e brincadeira. Eis aí retorno à infância que, oposto à religião da arte e sua transcendência, resgata um sentido mágico e panteísta. E, portanto, de forte capilaridade política.

    A força de quem não tem nada a perder. POR Carla Rodrigues (BLOG DO IMS)

    PICICA: "(...)a luta feminista se encontra com o debate – filosófico, psicanalítico – sobre o feminino e sua atualidade na política hoje. A razão feminina (sintagma que pode parecer paradoxal, já que o feminino reivindica outra forma de razão que não seja a masculina e, portanto, talvez não possa ser chamada mais de razão) interroga os pressupostos do poder e do saber (jurídico, científico, médico, só para ficar com exemplos que me interessam). Ao abalar os pressupostos da razão masculina como sinônimo de razão universal, as sufragistas do início do século XX e as feministas do início do século XXI participam de um processo político amplo que vem mudando a cara do mundo ocidental nos últimos 100 anos." 



    A força de quem não tem nada a perder

    POR Carla Rodrigues | 29.12.2015

     


    Quando As sufragistas começa, há vozes em segundo plano reproduzindo o tipo de discurso que havia no parlamento inglês contra a igualdade de voto para as mulheres. Uma das frases – “As mulheres estão muito bem representadas pelos seus pais, maridos e irmãos” – aponta a atualidade política do filme. A reconstituição da luta feminina por direitos civis e trabalhistas passa pela liderança política da feminista Emmeline Pankhurst, vivida na tela por Meryl Streep, e pela força das ideias anarquistas que embalaram as mulheres na campanha pelo voto, depois da derrota na primeira votação parlamentar.


    A história começa em 1912 quando a Câmara dos Comuns – constituída apenas por homens – decide não conceder o voto às mulheres. Esgotadas as possibilidades de vitória pelas vias institucionais, as mulheres buscam outras formas de reivindicar seus direitos, formas que, além de lutar pelo sufrágio universal, também denunciam o fracasso da estrutura de representação parlamentar, resumida de maneira exemplar na frase “Não vamos respeitar uma lei que não é respeitável”. Aqui se pode aproximar as sufragetes de 100 anos atrás das mulheres nas ruas hoje,  reivindicando não apenas a derrubada do PL 5069 proposto pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, mas também denunciando sua absoluta falta de legitimidade para representar interesses públicos e coletivos.

    Num dos diálogos marcantes, Maud Watts está presa, encara um policial e diz: “Somos metade da humanidade. O senhor não vai poder prender a todas nós”. Estava dado aí um dos argumentos feministas desde a Revolução Francesa, o de que não há regime político digno de ser chamado de democracia sem a participação das mulheres. No rastro da denúncia desta exclusão, vieram outras denúncias de outras exclusões, de tal forma que a luta das mulheres ganhou uma paradoxal marca de luta pelo direito das minorias. 

    Entre 1912 e 1928, quando enfim o voto feminino foi aprovado na Inglaterra, as sufragistas intensificaram sua luta a partir de estratégias mais radicais. Quanto mais a repressão policial agia, mais um pequeno grupo de mulheres resistia. Nesse cabo de guerra, a opressão do Estado funcionou – lá como no Brasil de 2013, aliás – como combustível para resistência. Nesse processo, vai se tornando explícito que as mulheres submetidas a regimes de trabalho e de vida social de opressão não tinham mais nada a perder, de tal forma que a prisão ou mesmo a morte já não podiam mais significar uma razão para ceder.

    Neste ponto, a luta feminista se encontra com o debate – filosófico, psicanalítico – sobre o feminino e sua atualidade na política hoje. A razão feminina (sintagma que pode parecer paradoxal, já que o feminino reivindica outra forma de razão que não seja a masculina e, portanto, talvez não possa ser chamada mais de razão) interroga os pressupostos do poder e do saber (jurídico, científico, médico, só para ficar com exemplos que me interessam). Ao abalar os pressupostos da razão masculina como sinônimo de razão universal, as sufragistas do início do século XX e as feministas do início do século XXI participam de um processo político amplo que vem mudando a cara do mundo ocidental nos últimos 100 anos. 

    Se esta é uma percepção possível a partir do filme, as mesmas cenas também podem nos fazer pensar em tudo que ainda falta mudar. Na lavanderia, elas trabalham mais horas, ganham menos que os homens, em condições insalubres, e estão sujeitas ao assédio sexual do patrão. Os direitos civis vieram, é verdade, mas o lugar de subalternidade na estrutura capitalista ainda é marca de submissão feminina, aqui entendida como opressão a toda e qualquer voz insurgente contra a hierarquia do poder patriarcal. Qualquer semelhança com os tempos que ainda correm não é mera coincidência.

    Para uma breve retrospectiva das reflexões da colunista sobre a luta das mulheres em 2015, consulte:

    #primaveradasmulheres
    Está dada a partida a um referente vazio 
    Sobre a plasticidade do machismo na cultura brasileira 
    A tal da governabilidade
    Receber e reconhecer Judith Butler no Brasil
    Sobre sexo, livros e morte 
    O cisgênero não existe
    Fonte: BLOG DO IMS

    Quando você mata dez milhões de africanos, você não é chamado de “Hitler”. Por Liam O’Ceallaigh (GELEDÉS)

    PICICA: "Olhe para essa foto. Você sabe quem é?

    A maioria das pessoas não ouviu falar dele.

    Mas você deveria. Quando você vê seu rosto ou ouve seu nome, você deveria sentir um enjoo no estômago assim como quando você lê sobre Mussolini ou Hitler, ou vê uma de suas fotos. Sabe, ele matou mais de 10 milhões de pessoas no Congo.

    Seu nome é Rei Leopoldo II da Bélgica." 



    Quando você mata dez milhões de africanos, você não é chamado de “Hitler”


    king-leopold-of-belgium-congo-genocide

    O seguinte texto foi escrito por Liam O’Ceallaigh para a página Diary of a Walking Butterfly, em dezembro de 2010. O original pode ser acessado aqui

    O texto foi retirado e traduzido por http://muitoalemdoceu.wordpress.com/.

    Leopoldo II foi Rei da Bélgica de 1865 a 1909, data de sua morte. Ele comandou o Congo de 1885 a 1908, quando cedeu o controle do país ao parlamento belga, após pressões internas e internacionais.

    Olhe para essa foto. Você sabe quem é?

    A maioria das pessoas não ouviu falar dele.

    Mas você deveria. Quando você vê seu rosto ou ouve seu nome, você deveria sentir um enjoo no estômago assim como quando você lê sobre Mussolini ou Hitler, ou vê uma de suas fotos. Sabe, ele matou mais de 10 milhões de pessoas no Congo.

    Seu nome é Rei Leopoldo II da Bélgica.

    Ele foi “dono” do Congo durante seu reinado como monarca constitucional da Bélgica. Após várias tentativas coloniais frustradas na Ásia e na África, ele se instalou no Congo. Ele o “comprou” e escravizou seu povo, transformando o país inteiro em sua plantação pessoal com escravos. Ele disfarçou suas transações comerciais como medidas “filantrópicas” e “científicas” sob o nome da Associação Internacional Africana. Ele usou o trabalho escravo para extrair recursos e serviços congoleses. Seu reinado foi mantido através de campos de trabalho, mutilações corporais, torturas, execuções e de seu próprio exército privado.

    A maioria de nós não é ensinada sobre ele na escola. Não ouvimos sobre ele na mídia. Ele não é parte da narrativa de opressão repetida amplamente (que inclui coisas como o Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial). Ele é parte da longa história de colonialismo, imperialismo, escravidão e genocídio na África que se chocaria com a construção social da narrativa de supremacia branca em nossas escolas. Isso não se encaixa bem nos currículos escolares em uma sociedade capitalista. Fazer comentários fortemente racistas recebe (geralmente) um olhar de reprovação na sociedade “educada”; mas não falar sobre genocídios na África cometidos por monarcas capitalistas europeus está tudo bem.

    Mark Twain escreveu uma sátira sobre Leopoldo chamada “King Leopold’s Soliloquy; A Defense of His Congo Rule” [Solilóquio do Rei Leopoldo; Uma defesa de seu mando no Congo], onde ele ridiculariza a defesa do Rei sobre seu reinado de terror, principalmente através das próprias palavras de Leopoldo. É uma leitura simples de 49 páginas e Mark Twain é um autor popular nas escolas públicas americanas. Mas como acontece com a maioria dos autores politizados, nós geralmente lemos alguns de seus escritos menos políticos ou os lemos sem aprender por que é que o autor os escreveu. A Revolução dos Bichos de Orwell, por exemplo, serve para reforçar a propaganda anti-socialista americana de que sociedades igualitárias estão fadadas a se tornar o seu oposto distópico. Mas Orwell era um revolucionário anti-capitalista de outro tipo – um defensor da democracia operária desde baixo – e isso nunca é lembrado. Nós podemos ler sobre Huck Finn e Tom Sawyer, mas King Leopold’s Soliloquy não faz parte da lista de leituras. Isso não é por acidente. Listas de leitura são criadas por conselhos de educação para preparar estudantes a seguir ordens e suportar o tédio. Do ponto de vista do Departamento de Educação, os africanos não têm história.

    Quando aprendemos sobre a África, aprendemos sobre um Egito caricatural, sobre a epidemia de HIV (mas nunca suas causas), sobre os efeitos superficiais do tráfico de escravos, e talvez sobre o apartheid sul-africano (cujos efeitos, nos ensinam, há muito estão superados). Nós também vemos muitas fotos de crianças famintas nos comerciais dos Missionários Cistãos, nós vemos safáris em programas de animais, e vemos imagens de desertos em filmes. Mas nós não aprendemos sobre a Grande Guerra Africana ou o reinado de terror de Leopoldo durante do Genocídio Congolês. Tampouco aprendemos sobre o que os Estados Unidos fizeram no Iraque e Afeganistão, matando milhões de pessoas através de bombas, sanções, doença e fome. Números de mortos são importantes. Mas o governo dos Estados Unidos não conta as pessoas afegãs, iraquianas ou congolesas.

    Embora o Genocídio Congolês não esteja incluído na página “Genocídios da História” na Wikipédia, ela ainda menciona o Congo. O que é hoje chamado de República Democrática do Congo é listado em referência à Segunda Guerra do Congo (também chamada de Guerra Mundial Africana e Grande Guerra da África), onde ambos os lados do conflito regional caçaram o povo Bambenga – um grupo étnico local – e os escravizaram e canibalizaram. Canibalismo e escravidão são males terríveis que certamente devem entrar para a história, mas eu não pude deixar de pensar sobre que interesses foram atendidos quando a única menção ao Congo na página era em referência a incidentes regionais, onde uma pequena minoria das pessoas na África estava comendo umas às outras (completamente desprovida das condições que criaram o conflito, e das pessoas e instituições que são responsáveis por essas condições). Histórias que sustentam a narrativa de supremacia branca, sobre a inumanidade das pessoas na África, são permitidas a entrar nos registros históricos. O homem branco que transformou o Congo em sua plantação pessoal, campo de concentração e ministério cristão – matando de 10 a 15 milhões de pessoas congolesas no processo – não entra na seleção.
    Sabe, quando você mata dez milhões de africanos, você não é chamado de “Hitler”. Isto é, seu nome não passa a simbolizar a encarnação viva do mal. Seu nome e sua imagem não produzem medo, ódio ou remorso. Não se fala sobre suas vítimas e seu nome não é lembrado.

    Leopoldo foi apenas uma das milhares de coisas que ajudaram a construir a supremacia branca, tanto como uma narrativa ideológica quanto como uma realidade material. Eu não pretendo dizer que ele foi a fonte de todo o mal no Congo. Ele teve generais, soldados rasos e gerentes que fizeram sua vontade e reforçaram suas leis. Ele era a cabeça de um sistema. Mas isso não nega a necessidade de falar sobre os indivíduos que são simbólicos do sistema. Mas nós nem mesmo chegamos a isso. E como isso não é mencionado, o que o capitalismo fez à África e todo o privilégio que as pessoas brancas ricas receberam do genocídio congolês permanecem escondidos. As vítimas do imperialismo, como costuma acontecer, são invizibilizadas.


    Fonte: Geledés