fevereiro 03, 2016

Neopopulismo. POR Bernardo Carvalho (BLOG DO IMS)

PICICA: "Quando li pela primeira vez Lições de literatura, de Vladimir Nabokov, que agora sai no Brasil pela editora Três Estrelas, com tradução de Jorio Dauster, era o início da febre do multiculturalismo e tudo indicava que a literatura estava condenada ao relato da identidade e da experiência mais ou menos exótica dos autores. Uma passagem do livro me marcou especialmente, como argumento contra os arautos do relato da experiência: "A literatura não nasceu no dia em que um menino chegou correndo e gritando 'lobo, lobo', vindo de um vale neandertal com um grande lobo cinzento em seus calcanhares: a literatura nasceu no dia em que um menino chegou gritando 'lobo, lobo', e não havia nenhum lobo atrás dele"." 


Neopopulismo


POR Bernardo Carvalho Bernardo Carvalho | 28.10.2015






Quando li pela primeira vez Lições de literatura, de Vladimir Nabokov, que agora sai no Brasil pela editora Três Estrelas, com tradução de Jorio Dauster, era o início da febre do multiculturalismo e tudo indicava que a literatura estava condenada ao relato da identidade e da experiência mais ou menos exótica dos autores. Uma passagem do livro me marcou especialmente, como argumento contra os arautos do relato da experiência: "A literatura não nasceu no dia em que um menino chegou correndo e gritando 'lobo, lobo', vindo de um vale neandertal com um grande lobo cinzento em seus calcanhares: a literatura nasceu no dia em que um menino chegou gritando 'lobo, lobo', e não havia nenhum lobo atrás dele".
 De lá para cá, as coisas mudaram um pouco, o mercado de livros cresceu muito, empurrando a ficção literária para os limites da hipertrofia. E no lugar da redução ao relato da experiência identitária do autor, surgiu uma nova ameaça que já vai tomando contornos hegemônicos de academicismo, só que fora da academia: um conservadorismo literário, consequência da falência da crítica, substituída pela autoridade da opinião do leitor. Nesse novo populismo impulsionado pela internet, a naturalidade do lugar-comum subjuga o pensamento crítico, sob a batuta de oportunistas que se fazem passar por justiceiros e representantes da voz e do gosto do leitor contra a arbitrariedade das exceções, contra o elitismo de supostas igrejas, contra tudo o que sai da linha e parece incompreensível, demasiado irregular, estranho ou extraordinário. O resultado é menos democrático do que parece: uma impostura e um empobrecimento da democracia, confundida com a norma da maioria, servindo-se da chancela da reprodução dos preconceitos, das convenções e do senso comum como critérios objetivos para alardear o que é bom e o que é ruim.

Nessas circunstâncias, salta aos olhos outra passagem do livro de Nabokov, que reúne uma seleção de suas aulas ao longo de quase vinte anos (entre 1941 e 1958) nas universidades de Wellesley e Cornell: "É instrutivo pensar que não há uma única pessoa nesta sala, ou mesmo em qualquer aposento do mundo, que, em certo ponto bem escolhido no espaço-tempo histórico, não será assassinada ali mesmo, aqui e agora, por uma maioria que se crê dona do bom senso e sente um ódio que é justificado por seus padrões morais. (...) E quanto mais brilhante o homem, quanto mais incomum, mais próximo ele estará do paredão. A estranheza e o perigo sempre andam juntos. (...) Tratemos (...) de louvar os seres não convencionais porque, na evolução natural das coisas, o macaco talvez não houvesse se transformado no homem caso não tivesse aparecido um ser estranho na família".

A grandeza do pensamento crítico está no risco que ele assume para dizer o que muitas vezes contraria o senso comum (e o que o leitor quer ler ou ouvir). É o contrário do arremedo de crítica que pontifica na internet, ajustando o alcance e a correspondência de suas opiniões às convenções da hora, dançando conforme a música, ecoando a inércia do gosto. Para essa crítica, um romance pode ser chato, pode não convencer, pode ter personagens que não são de carne e osso etc. Mas ela nunca reconhecerá o risco de uma forma singular de pensamento, de uma experiência incomum, não convencional. Porque, para essa concepção empobrecida da crítica, a literatura é antes de tudo um produto. E o crítico, um agente na defesa dos direitos do consumidor.

Uma amiga recém-chegada de Frankfurt traz novas de um amigo editor, contratado por uma prestigiosa editora inglesa. Segundo ele, o que antes estava implícito, agora é anunciado aos editores, diariamente e com todas as letras: seus salários dependem do sucesso de vendas dos livros que vocês lançam e dos autores que vocês contratam. Sem resultados excepcionais de público, não há editor que permaneça empregado, nem se descobrir o novo Kafka ou o novo Joyce ou o novo Beckett. O novo Kafka, o novo Joyce ou o novo Beckett só serão o novo Kafka, o novo Joyce e o novo Beckett se venderem o suficiente para pagar os salários de seus editores.

A lógica, cristalina e irrefutável, já vinha sendo aplicada há séculos e com relativo sucesso a produtos tão diversos quanto tomates, automóveis e armas. Na literatura, entretanto, havia um certo pudor. Já não há. Antes, um best-seller era suficiente para pagar o prejuízo dos livros de exceção que não vendiam mas que faziam o nome de uma editora. Isso já não é possível devido às proporções que o mercado editorial tomou. Um círculo vicioso foi criado no qual a literatura está atrelada às vendas e, em consequência, ao gosto geral. E é mais do que natural que, nessas circunstâncias, a crítica que contraria os preconceitos, as convenções ou o gosto do leitor já não seja bem-vinda.

Mais preocupado com Kafka e Joyce do que com editores e vendas, Nabokov imagina as condições ideais para quem enfim se senta para escrever um livro: "Sua caneta está adequadamente cheia, a casa silenciosa, o fumo e os fósforos reunidos, a noite apenas no começo... e o deixaremos nessa situação agradável ao sairmos pé ante pé; fechada a porta, trataremos de afastar da casa, com toda firmeza, o cruel monstro do bom senso [common sense] que vem se arrastando pelos degraus para dizer em voz chorosa que o livro não está destinado ao grande público, que o livro nunca, nunca vai... E nesse instante, antes que ele deixe escapar a palavra v-e-n-d-e-r, o falso bom senso deve ser morto a tiros".



Bernardo Carvalho

Bernardo Carvalho é escritor e jornalista, autor dos livros Nove noites, O filho da mãe e Reprodução, entre outros.

Fonte: Blog do IMS

fevereiro 02, 2016

Esperando Godot

PICICA: "Publicado em 16 de dez de 2012
Filme baseado na peça homônima de Samuel Beckett."

Esperando Godot

Ederson Lomeu

Julio Cortázar e a última jogada de Podemos. Por Guillermo Zapata (UNINÔMADE)

PICICA: "O contexto está saturado de sinais, há demasiado ruído. Há uma brecha atrapalhando a orientação. Todos os dias há noticias, fofocas, propostas, desmentidos, passeios. Não há uma leitura binária das coisas, que é o sistema de sinais do bipartidarismo, duas caras da mesma coisa. Há evidência de que pelo menos quatro grandes forças políticas batalham ao mesmo tempo pelo sentido. Há, aliás, forças territoriais com agenda própria. Há, além disso, e nos importam, apostas municipais com processo próprio. Hoje, a luta política não é por quem tenha razão ou razões, mas por quem tenha a capacidade de definir o campo dos outros. Define o espaço do restante quem conseguir abrir um novo espaço. Em consequência, não há como vencer politicamente nesse cenário sem desafio. A política hoje é mover-se." 

Julio Cortázar e a última jogada de Podemos

Por Guillermo Zapata, no eldiario, 25/1/16 | Trad. Sandra Arencón Béltran



reloj



Todas as citações do texto são de Cortázar. Do preâmbulo e as “instruções para dar corda no relógio”. Por que se formos falar, no fundo, do tempo, quem melhor do que Julio?

Iniciativa

“Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar.”

O contexto está saturado de sinais, há demasiado ruído. Há uma brecha atrapalhando a orientação. Todos os dias há noticias, fofocas, propostas, desmentidos, passeios. Não há uma leitura binária das coisas, que é o sistema de sinais do bipartidarismo, duas caras da mesma coisa. Há evidência de que pelo menos quatro grandes forças políticas batalham ao mesmo tempo pelo sentido. Há, aliás, forças territoriais com agenda própria. Há, além disso, e nos importam, apostas municipais com processo próprio. Hoje, a luta política não é por quem tenha razão ou razões, mas por quem tenha a capacidade de definir o campo dos outros. Define o espaço do restante quem conseguir abrir um novo espaço. Em consequência, não há como vencer politicamente nesse cenário sem desafio. A política hoje é mover-se.

Telas

“Dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo.”

Os meios de comunicação não são, ainda hoje, capazes de produzir um sentido coerente. Isto quer dizer que não são capazes de designar lugares como fizeram até agora. O motivo é que não estão, empresarial e politicamente, concordando entre si. O motivo é que não há um plano comum.O motivo é que estão viciados na mesma narrativa. Não podem tampouco ignorar o que está acontecendo. Antena 3 tem que demonstrar tanto uma campanha contra as forças da mudança quanto a sua própria narrativa irônica dela. As telas, porém, identificam também os ataques. Quem é atacado é forte, quem não é, fraco. Atacam-se o Podemos e o PP e com isso se revela a fraqueza do PSOE e do Ciudadanos. Ambos compartilham uma narrativa que não funciona; eles se parecem mais do que se poderia imaginar a priori. Ambos têm o sentido de estado. E o estado já não é um elemento forte, como sabem o PP e o Podemos.

Pablo Iglesias é acusado de ser excessivamente midiático. Como se o midiático não fosse já parte indissolúvel da própria materialidade da política. Como se o performativo não fosse a própria forma da política. Sempre que o Podemos intervém, ele leva em conta o signo, a narrativa, a forma. A forma é conteúdo mais do que o próprio conteúdo, o que vamos fazer dele. Podemos tem que intervir aí onde o nomeiam. Tenta-se definir nos meios de comunicação o que o Podemos é. Não intervir aí seria deixar que nomeiem você, quer dizer, que paralisem você.

Desafio

“Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio com outros relógios.”

Blefar significa tencionar que o seu adversário não aceite uma aposta que, do contrário, faria você perder. Um desafio, a seu passo, significa sempre a possibilidade de que o seu adversário aceite a aposta e que isso não leve diretamente à vitória ou derrota, mas a um novo jogo. A proposta que Podemos lança também não é uma chantagem, mas um desafio.

Desafiar é obrigar o outro a sair do lugar onde está, porque se não sair esse lugar não mais existirá enquanto tal. Um desafio é algo que obriga, insisto, o outro a mover-se. Não necessariamente a mover-se na direção que o desafio coloca, mas numa direção que esteja à altura do desafio. Temos visto nesses dias movimentos em forma de desafio, um por ação (Podemos), outro por omissão (PP), e duas paralisias (PSOE e Ciudadanos). O PSOE chama o desafio de chantagem para fingir que não existe e assim voltar à casinha. O Ciudadanos aponta o desafio como uma forma de velha política para seguir aparecendo como um árbitro neutro, numa situação que não tem nada de neutra. Como tudo em política, a chamada à neutralidade entre as partes é uma maneira de salientar e separar as partes. Chamar-se de neutro não é o mesmo que sê-lo.

Monstro

“Quer mais alguma coisa? Aperte-lhe o pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego.”

Desde o 15M, a política é monstruosa. Há várias formas do monstruoso. Uma é aquela que une partes dispersas gerando uma figura nova, uma quimera que aparece para uns como milagre e para outros como horror. Outra forma do monstruoso é a da concreção material de um medo abstrato. A entrada dos deputados do Podemos no congresso (como, antes, dos vereadores e vereadoras das “prefeituras da mudança”) foi uma primeira expressão dessa monstruosidade. Os 69 deputados abstratos viraram concretos, materializaram-se.

Alça-se o desafio desse ensinamento do dia do congresso dos deputados: a representação arranca as negociações do âmbito da retórica e baixa-as à terra. Qualquer pacto com Podemos é um pacto com isto que você vê aqui. Não é uma linha vermelha, não é uma abstração, somos estas pessoas, nós falamos assim, temos essas trajetórias. Isso também torna material qualquer outra das alianças monstruosas. Vendo Pablo Iglesias como vice-presidente revela também a concreção material de um governo de grande coalizão. De repente, novas eleições se vislumbram como uma saída para voltar à abstração e à retórica. O problema não é a ausência de uma cultura de pactos, mas assumir de uma vez (ou não) que a mudança é material, e não simbólica, e que não há marcha ré nos processos sociais que têm levado o Podemos e as confluências ao parlamento. O que passa não fica. E essa é a forma mais horrível do monstro para um poder que hoje não sabe mais como lançar uma linha própria. O recuo de Ciudadanos de uma força com todo o dinamismo das forças econômicas a uma força “de estado, responsável, centrista” define bem esse processo.

Carreiras

“Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio.”

O desafio político que o Podemos coloca não nasceu de uma consulta a suas bases. Podemos dota-se de uma direção que constrói a tática a partir de uma estratégia definida desde o congresso  partidário de Vista Alegre, em outubro de 2014. Contudo, é preciso avaliar alguns elementos importantes. Em primeiro lugar, foi definida a estratégia da máquina eleitoral, mas não a estratégia da máquina parlamentar. Em segundo lugar, o desafio (por sua própria condição de desafio e não de blefe) poderia se tornar antes estratégico do que tático, se o resto das forças interpeladas o aceitar. Ao mesmo tempo, é absolutamente impossível desenhar um desafio desse tipo acompanhado de uma discussão coletiva. A discussão coletiva impossibilita esse tipo de ações que precisa de surpresa e antecipação. Simultaneamente, a proposta consegue ampliar o campo de vontade e participação de círculos, simpatizantes etc, uma vez que abre um campo político que não é simplesmente reativo, mas afirmativo. O tamanho da pergunta para as forças da mudança democrática não é pequena: como construir organizações, com seus processos de liderança e suas estruturas de direção, que sejam abertas, democráticas, plurais? Que papel tem a imensa maioria que sustentam os processos sociais produtores de transformações na relação de forças do poder institucional, no próprio jogo interno desse poder? Esta não é uma mera pergunta ética, mas efetiva. Porque uma vez formado qualquer governo que venha a formar-se, esse “fora” é que vai determinar o destino do mesmo. Não é uma pergunta apenas para o Podemos, como também para todos os processos organizadores de mudança, estamos todos atravessados por essa pergunta. Não deixemos de no-la fazer.

Cinismo

“O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as velas do relógio.”

Há na proposta de Podemos e na recepção dela, em sua interpretação pelas mídias, um importante componente de cinismo, de desconfiança ante as próprias instituições, reduzidas a um mero jogo de poder entre forças. Fomos habituando-nos (a Catalunha é um exemplo mais forte) ao fato que as eleições não passam de um momento de acumulação de forças para um momento posterior, no qual os partidos usam essa força e a interpretam para compor governos.

Assim, coloca-se com tranquilidade que o PP não proponha Rajoy como presidente, ou que o PSOE o faça com o próprio Sánchez ou, inclusive, que uma terceira pessoa seja escolhida por outras forças para a presidência, sem sequer ter concorrido nas eleições. O mais interessante de tudo isso é que se trata de um fenômeno que começamos a interiorizar a partir da cidadania. Ninguém exige um referendo para empossar possíveis presidentes que não tenhamos votado.

Não há na proposta do Podemos o menor lampejo de cooperação entre as forças. Isso não implica que a proposta seja desonesta, mas sim que não há nela o mais ínfimo afã por tecer uma cumplicidade com o PSOE. Para esclarecer: não exijo essa cumplicidade nem essa cooperação. Só chamo a atenção para o seguinte: quando se mostram as democracias acostumadas a pactuar, se esquece que são países cujos modelos constitucionais não estão em crise. Não são países onde a luta escapa do mais do mesmo, travada entre modelos distintos. A proposta do Podemos revela a dimensão instituinte das forças sociais de mudança e convida os velhos atores do Régimen de 78 a deixá-lo para trás. Esse é, talvez, o elemento fundamental, faz-se necessário antes um passo ainda não dado para que, efetivamente, possa haver cooperação.

Afetos

“Um outro tempo começa, as árvores perdem as folhas, os barcos voam, como um leque o tempo se enche de si próprio.”

Mas o caso é que há também na proposta de Podemos um tanto de tecer ou retecer afetos. Procurando uma solução consensual com suas alianças plurinacionais e também reconhecendo o papel da Izquierda Unida-Unidad Popular (IU-UP), como uma força social e política que não pode ser desdenhada, não só por sua força eleitoral (um milhão de votos, não esqueçamos), mas também porque esse passo, esse fechamento com o Régimen de 78, do qual aquela tomava parte, já foi realizado. IU-UP tem condições de ser uma força política que abra um novo momento político (de novo, não é blefar, mas lançar um desafio) e nessa abertura as possibilidades de uma cooperação, até pouco tempo muito incerta, aconteçam.

É provável que o único fator subsistente para completar o mapa de afetos que possa romper com esse cinismo institucional, funcional às forças do 78, seja iniciar uma caminhada para tecer o tempo novo e os afetos com a própria cidadania. Talvez, tenhamos que discutir juntos sobre essa “jogada”, sobre esse possível novo governo, sobre um possível fechamento. Talvez, tenhamos que voltar a nos encontrar e trocar ideias sobre o projeto de país. Não para tirar grandes conclusões: mas para seguir juntos.


Guilhermo Zapata, escritor e apresentador de TV, é vereador em Madrid pela plataforma municipalista Ahora Madrid, desde 2015.

tradutora:
Sandra Arencón Béltran é pesquisadora, co-organizadora do livro Podemos e Syriza (AnnaBlume, 2015), e participa da rede Universidade Nômade.

Fonte: UNINÔMADE

6 vídeos com as peças curtas de Samuel Beckett (NOTATERAPIA)

PICICA: "As peças curtas de Samuel Beckett são espécies de exercícios do escritor naquilo que é a marca de seu teatro: testar os limites da teatralidade. Em sua maioria, as obras estão na fronteira da linguagem: as personagens quase desvanecem nas narrativas, as histórias aparecem pelas entrelinhas da metalinguagem e as figuras sombrias e cinzentas tendem a desaparecer na materialidade do teatro. Que Beckett é o principal dramaturgo do século XX, isto é um fato, mas é conhecendo suas obras curtas, inclusive aquelas sem palavras, que chegamos no abismo da linguagem e entendemos um pouco mais do que é, foi e deve ser o teatro."

beckett


6 vídeos com as peças curtas de Samuel Beckett

 

As peças curtas de Samuel Beckett são espécies de exercícios do escritor naquilo que é a marca de seu teatro: testar os limites da teatralidade. Em sua maioria, as obras estão na fronteira da linguagem: as personagens quase desvanecem nas narrativas, as histórias aparecem pelas entrelinhas da metalinguagem e as figuras sombrias e cinzentas tendem a desaparecer na materialidade do teatro. Que Beckett é o principal dramaturgo do século XX, isto é um fato, mas é conhecendo suas obras curtas, inclusive aquelas sem palavras, que chegamos no abismo da linguagem e entendemos um pouco mais do que é, foi e deve ser o teatro. 

*Todos os vídeos estão em português ou com legendas em português ou espanhol. Por se tratarem de obras em que as personagens pouco falam, dá para entender bem.

1- Ohio Impromptu (1981)


2- Eu Não (1972)


3- Ato sem palavras I (1956)


4- Ato sem palavras II (1956)


5- Catástrofe (legenda em espanhol) (1982)


6- Come & Go (legenda em espanhol) (1965)

 


Fonte: NOTATERAPIA

OUTRAS PALAVRAS: ​ Varoufakis desafia a ditadura dos mercados; As razões da tempestade na Saúde; Zika, produto das mudanças climáticas?; Viagem insólita à periferia dos EUA; Quando a Editora Globo é reacionária mesmo sem querer; Assim agem os mega-bilionários; E se outro jornalismo for viável?

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Boletim de atualização - Nº 611 - 01/02/2016



Varoufakis desafia a ditadura dos mercados
Depois de experimentar arrogância e brutalidade da elite financeira, ex-ministro grego propõe uma saída: transparência total, para expor os que sequestraram a política. Yanis Varoufakis, entrevistado por Nick Buxton (Outras Palavras)

As razões da tempestade na Saúde
O que a explosão de dengue e zika, e a ação de um ministro caricaturesco, têm a ver com a tentativa de desmontar o SUS e os ecos do "ajuste fiscal". Por Guilherme Boul (Outras Palavras)

Zika, produto das mudanças climáticas?
Doença, antes muito restrita, espalha-se pelo mundo. No Brasil, foco principal, há coincidência impressionante entre multiplicação de seu vetor e aquecimento dos centros urbanos. Por Cíntya Feitosa, no Observatório do Clima (Outras Mídias)

Viagem insólita à periferia dos EUA
Retratos da Desigualdade: em Baltimore, 25% da população está abaixo da linha de pobreza; índice de homicídios é duas vezes maior que no Rio; polícia agride negros e há bizarros "desertos de comida". Por Pedro Abramovay, no Quebrando o Tabu (Outras Mídias)

Quando a Editora Globo é reacionária mesmo sem querer
Análise de uma reportagem em “Galileu” revela: revista é contra violência policial, mas mantém todos os preconceitos contra pobres que transgridem. Por Alceu Luis Castilho

Assim agem os mega-bilionários
Retrato de um sistema em degradação moral: nove das dez pessoas mais ricas do mundo estão envolvidas com trabalho escravo e infantil, superexploração, espionagem e patrocínio de golpes de Estado. Por Mauro Lopes (Blog)

E se outro jornalismo for viável?
Campanha de financiamento autônomo de Outras Palavras começa veloz. Novas parcerias com produtores culturais ampliam contrapartidas a quem contribui. Em meio à crise da velha mídia, parece haver esperanças. Por Antonio Martins (Blog)

Maurice Merleau-Ponty: o que significa “ver”? (COLUNAS TORTAS)

PICICA: "O título sugestivo de “O olho e o espírito”, último ensaio de Maurice Merleau-Ponty, escrito em 1960, nos dá pistas para o objeto de sua investigação. Que tipo de relação podemos estabelecer entre “o olho e o espírito”, ou, igualmente, entre “ver e pensar”, especialmente em nossa tentativa incessante de atingir o “ser” das coisas? O que representa a pintura quando pensamos nessa tentativa, que é (ou parece ser) a de todas as artes e ciências? O que significa, por fim, ver?"


Maurice Merleau-Ponty: o que significa “ver”?



Merleau-Ponty, 1908 - 1961. Imagem: The Montreal Review.
Merleau-Ponty, 1908 – 1961. Imagem: The Montreal Review.

O título sugestivo de “O olho e o espírito”, último ensaio de Maurice Merleau-Ponty, escrito em 1960, nos dá pistas para o objeto de sua investigação. Que tipo de relação podemos estabelecer entre “o olho e o espírito”, ou, igualmente, entre “ver e pensar”, especialmente em nossa tentativa incessante de atingir o “ser” das coisas? O que representa a pintura quando pensamos nessa tentativa, que é (ou parece ser) a de todas as artes e ciências? O que significa, por fim, ver?

Em geral, a ciência tem tratado dos assuntos que lhe dizem respeito com uma distância que a caracteriza enquanto tal. Ela “manipula as coisas e renuncia a habitá-las”, isto é, ao mesmo tempo em que aborda seus objetos de estudos com esta distância, aborda-os como se eles estivessem predestinados às possibilidades de nosso conhecimento, “ao mesmo tempo como se ele [pensamento científico] nada fosse para nós e estivesse no entanto predestinado aos nossos artifícios”[1].

A ciência moderna, contudo, é muito mais “flexível” e pode-se dizer que esta, de certa forma, não esqueceu suas origens se comparada à ciência clássica, que em seu exercício buscava algo de transcendental. Ela passou a ser muito mais crítica em relação a si mesma e a seus métodos, e a entender-se como produto de um mundo preexistente.  Para Merleau-Ponty, a ciência não pode, em sua busca por compreender as coisas em si mesmas, se desvencilhar de um mundo dado, sensível e percebido por um corpo; “não esse corpo possível que é lícito afirmar ser uma máquina de informação, mas esse corpo atual que chamo meu, a sentinela que se posta silenciosamente sob minhas palavras e meus atos”[2]. Isto é, não um corpo ideal e potencialmente onisciente, mas o corpo real e tangível.

Na pintura, contudo, essa interação com o mundo que se dá por intermédio do corpo faz-se muito mais evidente, pois “é oferecendo seu corpo ao mundo que o pintor transforma o mundo em pintura”[3]. É fato que não há pintura sem pintor; ainda assim, o pintor não é este observador distante que se prosta frente ao visível. Em um quadro, sujeito e objeto se fundem. Ambos estão imbricados, o que faz com que a visão de algo, como a de uma paisagem por um pintor, não seja um tipo de “representação do mundo”, como diz o autor, mas sim certo movimento do observador em direção ao mundo com o qual ele coexiste. Consequentemente, ao perceber o mundo, percebo-me. Não observo as coisas com distância: estou fundido a elas e elas a mim. “Digo de uma coisa que ela é movida, mas, meu corpo, ele próprio se move, meu movimento se desenvolve.”[4], e esta é uma qualidade própria do ver. E, ainda a propósito da pintura, não a observamos de longe (ou pelo menos não deveríamos).  Mesmo a interação mais ingênua e despretensiosa de alguém com uma obra acontecem por meio do corpo que percebe todas as suas qualidades.

É por esta razão que a pintura não pode ser universal: porque nenhuma de suas tentativas captará as coisas em si mesmas, e sim suas particularidades, percebidas sempre por intermédio do artista, o que faz com que cada obra produzida não seja um progresso ou um retrocesso de nossa busca em direção ao ser, mas sempre uma fração nova de um todo inapreensível em si mesmo.

O pintor é, portanto, aquele que mais propriamente consuma o ato de ver, já que é por meio desta interação com os objetos de sua pintura, com este permear as coisas e deixar ser permeado por elas, que ele dá luz à sua arte, visão única de um corpo único em interação inevitável com o mundo. Por isso Merleau-Ponty expressa tanta admiração pela obra de Cézanne, pintor francês do século XIX: pois, tendo ficado conhecido por pintar diversas vezes a mesma montanha Sante-Victoire e por explorar possibilidades absolutamente novas da cor e da perspectiva, ele parece ser aquele que melhor captou a relação de movimento entre os corpos observador e observado, retratando “o instante do mundo”.

Monte Sainte-Victoire (1887), Paul Cézanne.

Referências

[1] ↑ MERLEAU-PONTY, M., O olho e o espíritoCosac Naify, 2004, p.15.
[2] ↑ O olho e o espírito… p. 17.
[3] ↑ O olho e o espírito… p.18.
[4] ↑ O olho e o espírito… p.19.
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Fonte: COLUNAS TORTAS

fevereiro 01, 2016

Cioran ou o fascínio pelo lamento. Por Contreraman (OBVIOUS)

PICICA: "É como se Cioran ficasse envergonhado, em termos de ausência de elegância, com o espetáculo patético e errante desse ser - o ser humano - que se diz predestinado para qualquer coisa que inventa. Isso não é um espetáculo de bom gosto, parece dizer o romeno. Isto não se diz. Isto é absurdo."


Cioran ou o fascínio pelo lamento


É como se Cioran ficasse envergonhado, em termos de ausência de elegância, com o espetáculo patético e errante desse ser - o ser humano - que se diz predestinado para qualquer coisa que inventa. Isso não é um espetáculo de bom gosto, parece dizer o romeno. Isto não se diz. Isto é absurdo.

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Todo leitor de Cioran (Emil Cioran, escritor e filósofo romeno, autointitulado pensador privado) tem um motivo pessoal para, com base em um fascínio de origem biográfica particular, não largá-lo e entronizá-lo como grande influência existencial. No meu caso, era porque ele, Cioran, ou seja, seus escritos, haviam feito com que eu voltasse a rir. Conheço um empresário que lê Cioran como quem solta impropérios e uma espécie de pus intelectual a que ninguém mais dá conta. Cioran é o único filósofo que o dramaturgo, diretor e ator Mário Bortolotto lê porque, em poucas palavras, é agradável e fala o que lhe agrada.

Pouco importa que o romeno importe, sem citar, juízos de outros autores mais célebres e mais rigorosos. Pouco importa que o flaneur desocupado da rua do Odeon não se caracterize por uma lógica implacável como as de seus detratores. Pouco importa que Cioran não tenha se entronizado como alguém respeitável que poderia ser estudado por gente de peso. Cioran fascina às vezes mais por ele mesmo do que por aquilo que escreveu. Mas Cioran viveu.

Tudo na vida do filho de pastor ortodoxo foi uma queda. Diz sempre que foi feliz na infância, nos montes de Sibiu, e que sentiu o fim da alegria quando foi obrigado a descer à cidade. Outra queda foi ter de estudar, quando só queria flanear pelas noites, dado que tinha forte insônia. Foi fazer um curso em Paris e andou toda a França de bicicleta. Prestou contas do que fez e teve a bolsa renovada. Só parou de almoçar e jantar como estudante na Sorbonne quando ficou velho demais e lhe cortaram a mordomia. Ia às vernissages de amigos célebres para ficar escondido. Poderia ter morrido de fome se não tivesse tido seus livrinhos reproduzidos em edições de bolso. Tentou recusar a visita de famosos resenhadores (por exemplo, Mitterrand), mas ao final cedeu. Ficou velho em companhia de Simone de Boué quando se apaixonou perdidamente por uma alemã. Andou sempre nas margens, o romeno.

Mas, se em toda a prosa desse vagabundo chique vemos uma amostra de sangue escorrendo pela vida e pelas calçadas cansadas da Cidade Luz, vemos também uma tentativa desesperada de resistir, e continuar elencando impropérios contra uma existência que quase ninguém tem a coragem de interromper. É como se Cioran ficasse envergonhado, em termos de ausência de elegância, com o espetáculo patético e errante desse ser - o ser humano - que se diz predestinado para qualquer coisa que inventa. Isso não é um espetáculo de bom gosto, parece dizer o romeno. Isto não se diz. Isto é absurdo. Em todas as linhas do habitante da rua do Odeon parece haver um desprezo atroz por tudo o que parece querer valer-se por si, como se não pudesse, como se tudo fosse condenado em seu próprio nascimento - uma ignonímia, em suma. Mas como não matamos todos, nem nos matamos, lamentamos. Não é possível que seja apenas isso. Mas se é assim mesmo, então que seja. Bebamos mais uma dose.

A lucidez extemporânea do pensador privado Emil Cioran é ainda usada, aqui e acolá, por milhares de desiludidos como uma espécie de mural de flagelações a que muitos se recusam para não passar ridículo. Só não se sabe o que ele, Cioran, teria dito sobre o amor. Ou melhor, sabe-se bem: nada. Que é uma ilusão. Ou algo pior, restrito à troca de fluidos entre receptáculos falsamente animados.



Contreraman

E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem..

Fonte: OBVIOUS

Os 15 quadros de Edward Hopper que melhor retratam a solidão no mundo moderno (NOTATERAPIA)

PICICA: "Edward Hopper, artista norte-americano retratou em incríveis quadros a solidão do mundo moderno. Nascido em 1882, o pintor viveu até 1967 e fez retratos realistas e únicos de pessoas em estado de solidão. As obras causam um impacto enorme, pois não só nos vemos inseridos naqueles cenários, como também entramos em contato com a crua solidão do outro." 

automat

Os 15 quadros de Edward Hopper que melhor retratam a solidão no mundo moderno

 
Hoje, mais do que nunca, estamos conectados 24 horas por dia, 7 dias por semana. Facebook, whatsapp, instagram… tudo que fazemos chega ao mundo em milésimos de segundos, tão rapidamente quanto recebemos informações sobre qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta num simples toque em nossos smartphones. Mas será que isso nos livra da solidão?

Edward Hopper, artista norte-americano retratou em incríveis quadros a solidão do mundo moderno. Nascido em 1882, o pintor viveu até 1967 e fez retratos realistas e únicos de pessoas em estado de solidão. As obras causam um impacto enorme, pois não só nos vemos inseridos naqueles cenários, como também entramos em contato com a crua solidão do outro.

O NotaTerapia selecionou 15 das mais impactantes obras de Hopper. Confira:













Hotel By A Railroad - Edward Hopper



Fonte: NOTATERAPIA

Laio e Crísipo: heróis como são ou como deveriam ser. Por Wagner Correa de Araujo (OUTRAS PALAVRAS)

PICICA: "Em releitura da tragédia grega, dramaturgo usa elementos pop urbanos para fazer questionamento estético e moral, oscilando entre o poético e o trágico" 

Laio e Crísipo: heróis como são ou como deveriam ser


160127_Laio e Crísipo - foto João Julio Mello

Em releitura da tragédia grega, dramaturgo usa elementos pop urbanos para fazer questionamento estético e moral, oscilando entre o poético e o trágico

Por Wagner Correa de Araujo | Imagem: João Júlio Mello


Laio e Crísipo está em cartaz no Teatro Serrador, Metrô Cinelândia – Rio (
mapa) — Fone: (21) 2220.5033. 
Últimas apresentações: sexta e sábado, 29 e 30/1, às 21h — Duração: 80 minutos. 


Num tempo além do tempo, em subversão cronológica, um trio mítico grego (Laio, Jocasta, Crísipo), ligado por uma visceral paixão erótica, se encontra num desses recantos baratos de prostituição. No desfrute do prazer pelo mero prazer, mas imunes ao signo da maldição que os marcou na ancestralidade, novamente vivem os impulsos sexuais que os conduziram, em cronometragem milenar, ao fato trágico, entre a Frígia e Tebas.

Mas, dessa vez, o rei Laio (o pai assassinado no acaso da fatalidade de Édipo) divide simultaneamente os gozos seminais entre a rainha Jocasta e o jovem príncipe Crísipo, do qual fora preceptor indicado por outro rei, Pélops. Missão que nos idos relatos lendários, entre aulas de lutas marciais e lições filosóficas, conduzira a uma vertiginosa atração homoafetiva (Laio/Crisipo), a primeira registrada nos anais greco/mitológicos.

Pedro Kosovski, autor de Laio e Crísipo, e da premiada Caranguejo Overdrive, já enveredara no explorado lastro edipiano em Edypop, mas, agora, superando as fragilidades do texto antecedente. Com sua pegada experimental, num mix de linguagens estéticas, o dramaturgo novamente faz uso de elementos pop/urbanos nesta re-contextualização do mito, entre o poético e o trágico, com superlativa carga de sensualidade

Sua original abordagem traz, ao dúplice desejo copular de Laio, um componente inédito ao incorporar Jocasta, neste metafórico ménage a trois, na contemporaneidade de um “inferninho”. E nesta nuance revisionista da narrativa historicamente estabelecida atinge sua personificação, se aproximando da melhor vertente de modernas releituras da tragédia grega.

Dando ressonância inventiva à proposta da direção de Marco André Nunes, uma impecável arquitetura cênica, na cenografia (Aurora dos Campos), nos figurinos (Marcelo Marques), na iluminação (Renato Machado) e na incisiva reverberação da trilha sonora ao vivo (Felipe Storino).

O enérgico gestual (Marcia Rubin) do elenco, em exponencial performance, extrapola os limites da eroticidade no domínio atlético de Laio (Erom Cordeiro), na entrega juvenil de Crísispo (Ravel Andrade) e na liberação comportamental de Jocasta (Carolina Ferman).

Na transgressão do mito original, na transcendência de épocas, na impunidade da culpa pelo prazer orgiástico de seus personagens, a peça, no seu questionamento estético/moral, acaba assumindo o desafio da reinterpretação do simbológico conceito de Sófocles sobre seu mais célebre rival tragediógrafo: “Eu pinto os homens como eles deveriam ser; Eurípides os pinta como eles são”.

Wagner Correa de Araújo


Jornalista especializado em cultura, roteirista, diretor de televisão, crítico de artes cênicas. Dirigiu os documentários "O Grande Circo Místico" e "Balé Teatro Guaíra 30 Anos" . Participou como critico e jurado de festivais de dança e cinema, no Brasil e na Europa.

Por que continuamos a gritar: FORA VALENCIUS! Por Deborah Sereno (JORNALISTAS LIVRES)

PICICA: "Trabalhar no território é ir para a rua construir possibilidades de produção de vida para uma população extremamente vulnerável, significa um trabalho coletivo e de corresponsabilização e presença. Trabalho artesanal. Intersetorial porque implica a articulação com diferentes áreas como Educação (Educação Inclusiva), Cultura, Trabalho (Economia Solidária), entre outros. Dizemos então que a Reforma Psiquiátrica é um processo complexo e a construção dessas redes é a maior complexidade." 

Por que continuamos a gritar: FORA VALENCIUS!

Deborah Sereno*, especial para os Jornalistas Livres 
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Desde a audiência em 10 de dezembro de 2015, com representantes de mais de 600 entidades e movimentos sociais, quando o Ministro da Saúde Dr. Marcelo Castro anunciou a nomeação de seu amigo, o psiquiatra Valencius Wurch Duarte Filho para o cargo de Coordenador de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde, essas mesmas entidades, junto aos trabalhadores de saúde mental, usuários e familiares, estudantes e professores universitários de diversas áreas da saúde gritam de diversas maneiras em diferentes locais: “FORA VALENCIUS!”


A nomeação de Valencius Wurch ameaça (e ultraja!) seriamente a Reforma Psiquiátrica Brasileira. Vale repetir seu lastimável currículo: Valencius foi diretor do maior manicômio privado da América Latina, a Casa de Saúde Dr. Eiras de Paracambi, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. A instituição foi fechada judicialmente em 2012 por violações dos direitos humanos. Entenda-se com isso maus tratos físicos, práticas recorrentes de eletrochoque, falta de comida, falta de colchões, falta de roupas, internações de longuíssimas durações (décadas!), excesso de medicalização. Violações cujos efeitos eram (e ainda são) devastadores para os internos, cronificantes, de despersonalização, dessubjetivação, aniquilamento do sujeito. Basta um Google no nome da instituição e os relatos e imagens que se vê são aterradores. Aterradores e terrificantes como tudo o que já sabemos, já vimos ao vivo com nossos próprios olhos e no cinema, nos documentários, na literatura sobre os horrores dos manicômios. São verdadeiros campos de concentração.


Por isso usuários, familiares, trabalhadores da saúde mental, movimentos sociais, estudantes e professores universitários, gritamos nas ruas de diversas capitais, nas redes sociais, na ocupação dentro da sala da Coordenação de Saúde Mental em Brasília, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, no Fórum Social Mundial em Porto Alegre e continuaremos a gritar até que ele saia: MANICÔMIO NUNCA MAIS! FORA VALENCIUS!


O Manifesto de Bauru, primeiro documento brasileiro a pedir a extinção dos manicômios e denunciar a estrutura opressiva destas instituições e a produção social da loucura foi elaborado durante o II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental, em 1987. Com o slogan POR UMA SOCIEDADE SEM MANICÔMIOS! instituiu-se o 18 de maio como o Dia da Luta Antimanicomial, comemorado todos os anos em todo Brasil.


O passo seguinte, a tramitação da Lei Paulo Delgado (n.3657/1989), que dispunha “sobre a extinção progressiva dos manicômios e sua substituição por outros recursos assistenciais”, tramitou por 12 anos no Legislativo, sendo duramente atacada pelo lobby formado por psiquiatras, professores de psiquiatria e diretores de hospitais psiquiátricos, entre eles o Dr. Valencius. Em entrevista ao Jornal do Brasil em junho de 1995, ele criticou “o caráter ideológico e não técnico” dos fundamentos da reforma, os quais se baseariam “em situações ultrapassadas”.


Como efeito dessa pressão, a Lei Nacional de Reforma Psiquiátrica 10.216/2001 que foi aprovada é uma modificação do projeto original. A Lei 10216 regula a Politica Nacional de Saúde Mental e “dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental”. A progressiva extinção dos hospitais psiquiátricos preconizada na Lei Paulo Delgado, deu lugar à reorientação do modelo assistencial e manteve as estruturas hospitalares como um dos recursos integrantes desse modelo. A Lei 10216 garante os direitos dos usuários de saúde mental, regula as internações involuntárias e compulsórias e visa ao tratamento extra-hospitalar, em liberdade, de base comunitária, no território, como política pública de saúde mental do SUS. A rede de serviços substitutivos de pequena e média complexidade para atendimento psicossocial no território, criada desde então, tem reconhecimento internacional por instituições como OMS, OPAS e serve de referência para outros países. A eficiência dessa rede é atestada pela profusão de trabalhos acadêmicos e científicos sobre o tema e mantém seu vigor pela força da militância e pelo esforço dos trabalhadores, usuários e familiares, os que mais reconhecem seus benefícios.


São conclusões baseadas em muito trabalho. E é importante que se fale dos trabalhadores de saúde mental: equipes interdisciplinares compostas por profissionais de saúde como terapeutas ocupacionais, psicólogos, fonoaudiólogos, psiquiatras, pediatras, fisioterapeutas, educadores físicos, oficineiros, enfermeiros, assistentes sociais e apoiadores, trabalhando em pé de igualdade. São as equipes dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) que, instalados em números ainda insuficientes mas em pontos estratégicos da cidade, atendem demandas de saúde mental e de uso abusivo de álcool e outras drogas de crianças, jovens e adultos. São os CAPS também que apóiam e articulam a rede de cada usuário junto às equipes das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e aos Núcleos de Apoio a Saúde da Família (NASF) da Estratégia Saúde da Família (ESF), esses últimos na atenção básica. Vale citar o trabalho dos agentes comunitários de saúde, que batem de porta em porta todo mês em todas as casas para oferecer cuidado no território que ele próprio habita e sabe no corpo o que é viver ali. Também digno de menção, é o trabalho das equipes de acompanhantes comunitários das residências terapêuticas, que apoiam e participam da construção de cotidianos e das formas de morar de pessoas que passaram décadas nos manicômios. E por fim, as equipes de redutores de danos, que não se furtam, por exemplo, a entrar num cano, literalmente, para atender o jovem casal que vive ali, usuário de drogas, ela grávida. E não é que a equipe entra lá para tirá-los à força e colocá-los em alguma instituição onde ficarão trancados. Entram lá para saber se precisam de alguma coisa, se eles estão bem. Voltam noutro dia. E no outro… Isso é cuidado, vínculo, processo, construção de redes de referência, de apoio, de solidariedade, exatamente na direção oposta do confinamento e do isolamento promovido pelas internações em hospitais psiquiátricos.


Trabalhar no território é ir para a rua construir possibilidades de produção de vida para uma população extremamente vulnerável, significa um trabalho coletivo e de corresponsabilização e presença. Trabalho artesanal. Intersetorial porque implica a articulação com diferentes áreas como Educação (Educação Inclusiva), Cultura, Trabalho (Economia Solidária), entre outros. Dizemos então que a Reforma Psiquiátrica é um processo complexo e a construção dessas redes é a maior complexidade.


Com isso reconhecemos que ainda há muito a se fazer, desafios. Há também uma infinidade de tensões e conflitos de interesses em seu campo, tais como o subfinanciamento, a falta de investimento em novos serviços (é urgente a criação demais CAPS, mais Serviços Residenciais Terapêuticos, mais leitos em hospitais gerais); a precarização dos serviços, consequência do subfinanciamento; o cuidado com a saúde dos trabalhadores e das equipes; a gestão por Organizações Sociais (OS) e os diferentes modelos de cada OS, muitas vezes conflitantes com os objetivos da Reforma;a volta dos manicômios disfarçados de comunidades terapêuticas para tratamento de usuários de álcool ou outras drogas; as ameaças de retrocesso promovidas pela associação brasileira de psiquiatria e diretores de hospitais psiquiátricos inconformados com esta política antihospitalocêntrica e antimedicocêntrica.Preferimos mil vezes os conflitos, as tensões e as divergências de posições à verdade absoluta e o consequente silenciamento de vozes. Buscar soluções a esta pauta enorme (e há ainda outras, como a formação do trabalhador de saúde nas universidades, e mais…), dar lugar a isso, é disto que precisamos para seguir avançando ainda mais na consolidação desta politica publica. O momento é de avançar e não de recuar! Por isso gritamos: NÃO HAVERÁ RETROCESSO! FORA VALENCIUS!


* Deborah Sereno é Psicanalista, docente do Curso de Psicologia da FAHCS/PUCSP; doutoranda do Depto Psicologia Social PUCSP; Supervisora do Programa QUALIFICACAPS MS (2014-1015) sereno.deborah@gmail.com

Objeção de consciência, pacífica porém corrosiva. Por Chico Whitaker (OUTRAS PALAVRAS)

PICICA: "Diante de um mundo hierárquico e brutal, é preciso testar a opção da recusa — como os operários que cruzam os braços, ou os jovens que rechaçam as guerras" 

Objeção de consciência, pacífica porém corrosiva



Jovens norte-americanos convocados para a guerra do Vietnã expressam sua recusa. Perseguidos, centenas tiveram de asilar-se no Canadá; mas seu movimento ajudou a colocar opinião pública contra o conflito

Diante de um mundo hierárquico e brutal, é preciso testar a opção da recusa — como os operários que cruzam os braços, ou os jovens que rechaçam as guerras 

Por Chico Whitaker

Seja a mudança que você quer para o mundo”
Ghandi

Aprendi muito em minha passagem como vereador pela Câmara Municipal de São Paulo nos anos 90. Da compreensão mais clara da função do Poder Legislativo e das distorções das suas relações com o Executivo à constatação das minhas limitações pessoais para a vida partidária e para a luta por subir na pirâmide do poder político.

Outro aprendizado me foi proporcionado pela experiência de relatar e depois presidir Comissões Parlamentares de Inquérito sobre corrupção dentro da Câmara: funcionários técanicos honestos davam encaminhamento burocrático a processos com irregularidades; bons advogados colocavam seus conhecimentos a serviço da impunidade de criminosos, pelo princípio do direito de todos à defesa. Isto tornava essas pessoas cúmplices eficazes da corrupção e eu não via como evitá-lo.

Esse sentimento de impotência muitas vezes nos imobiliza. Como hoje frente à evolução das coisas no Brasil e no mundo. Mas talvez um modo de agir usado contra a guerra há muito tempo – a objeção de consciência – possa abrir pistas de ação.

No final da I Guerra Mundial movimentos pacifistas, de não violência, propunham ações coletivas de desobediência civil [1]. Quem as colocou mais em evidência, já depois da II Guerra Mundial, foram os jovens norte-americanos que se recusavam a ir para o Vietnam por “objeção de consciência”. A consciência do que era e significava essa guerra os impedia de participar.

Obviamente isto infringia a lei e eles eram presos, processados e condenados. Muitos preferiam fugir para o Canadá, que os acolhia. Mas o número de “objetores” cresceu o suficiente para influir na opinião pública, que levou a guerra do Vietnam a acabar.

A segunda guerra mundial foi diferente da primeira pelo desenvolvimento da tecnologia de destruição, comandado pelo complexo industrial-militar, na expressão usada por Eisenhower quando deixou o governo dos Estados Unidos. Passou-se da bárbara guerra de trincheiras a barbáries como a do genocídio com bombas atômicas. Um relato do que foi essa loucura, em Hiroshima, pode ser visto em artigo da Revista de Estudos Avançados da USP [2].

Já a terceira, que dizem que já começou, difere das duas primeiras ao tornar todo o planeta um cruento campo de batalha. Como as guerras anteriores, a atual vitima tanto soldados como crianças e mulheres, assim como adultos sem uniforme militar. Mas a destruição maciça de vidas se faz por bombardeios e enfrentamentos entre exércitos mas também inesperadamente por iniciativa quase autônoma de alguns poucos indivíduos, e mesmo de combatentes isolados ou suicidas, em qualquer lugar do mundo. E até agora ninguém viu muito bem como esse processo poderá ser bloqueado.

Esse quadro não deixa de ser assustador. O Brasil e a América Latina têm sido poupados da onda mortífera que está se espalhando. Mas conseguiremos ficar livres dela, por obra de algum milagroso tratado internacional, como os muitos que pretenderam civilizar as guerras, proibindo por exemplo que sejam atacadas ambulâncias brancas pintadas com uma cruz vermelha, ou obrigando que seja respeitada a vida e a dignidade dos prisioneiros de guerra? Na verdade são contraditórios à lógica da guerra…

Quase só nos resta sonhar com algo impossível: o surgimento — por obra e graça de uma grande elevação do nível da consciência das pessoas sobre a loucura da guerra e sobre os reais interesses que as provocam — de tantos objetores que as guerras se tornem impossíveis, por falta de soldados… Nesse sonho, os pilotos à distância de drones armados para substituir os soldados se recusariam a disparar, os mercenários necessários para “ocupar o terreno” parariam por falta de retaguarda, as próprias armas começariam a faltar, por objeção de consciência dos trabalhadores convocados para fabricá-las. Mas como impedir a ação de combatentes mobilizados por convicções religiosas, como os capazes, hoje, de crueldades filmadas para ampla difusão e estranha propaganda?

Temos portanto que deixar de lado esse sonho. Até porque há algo ainda mais aterrador que permanece no horizonte: que essa terceira guerra mundial leve ao apocalipse nuclear. Para que ele ocorra bastará disparar uma das incontáveis ogivas nucleares estocadas ou carregadas em permanência por aviões e submarinos, que nem sabemos por onde estão transitando, e o horror tomará conta da Terra, pelo desencadeamento instantâneo das ações-reações… Esperemos em todo o caso que nenhum dos que dirigem as estruturas políticas do mundo resolva ir mais longe do que testar bombas atômicas para afirmar seu poder, dando razão ao psiquiatra polonês Lobaczewski, que criou a Ponerologia, como estudo do Mal no Poder — no governo e na sociedade em geral — quando ele é assumido por psicopatas… [3]

Nesse quadro, parece estar fora de nosso alcance parar as guerras [4]. O que precisamos mesmo é de um Deus pacificador… Mas não podemos ficar imobilizados esperando o pior. Temos que cuidar das atividades que continuam por nossa conta, enquanto sobrevivermos à violência… E é nessa perspectiva que a objeção de consciência se apresenta como uma possibilidade de ação.

Na verdade ela é uma variante da greve, como forma de recusar o que nos é imposto. Os operários das fábricas no início da revolução industrial descobriram que, cruzando os braços, as fábricas paravam. Ou seja, eles viram que tinham muito mais poder do que parecia. Sem contar com o trabalho obediente de seus operários os patrões não podiam mais fabricar os produtos com os quais obtinham os lucros que buscavam. Através de greves se conseguia conquistar direitos e melhores condições de trabalho, baixar o nível da exploração, obrigar patrões e governos a respeitar os trabalhadores.

Nos dias de hoje a automação das fabricas, povoadas mais de robôs do que de gente, diminuiu esse poder dos operários. Mas os que fazem os robôs funcionarem têm ainda mais poder que os trabalhadores do começo da revolução industrial. Se um ou dois operadores de computadores cruzarem os braços – ou fecharem as mãos – podem parar toda a fábrica.

Essa descoberta desvenda o poder que temos todos como cidadãos. Somos nós que mantemos, com a nossa infinidade de tipos de trabalho, não somente maquinas mas toda a sociedade funcionando. Por isso mesmo os trabalhadores em geral conseguiram que o direito de greve se ampliasse para todas as áreas de atividade humana.

Mas as greves que conhecemos só obtêm resultados quando uma efetiva maioria de trabalhadores decide declará-la. E nem sempre isto é possível, porque os que dominam dispõem de meios para enfraquecer apoios. Um grevista sozinho é despedido com base na lei…

A objeção de consciência é um tipo de greve que pode ser declarada individualmente. Se uma única pessoa se recusar a participar de uma determinada atividade por objeção de consciência – por exemplo porque considera que não é ético roubar dinheiro público, ou envenenar alimentos, ou enganar eleitores ou consumidores – ela cria pelo menos um problema jurídico para quem a emprega. E recusar-se a fazer algo para não se tornar cúmplice de coisas que prejudicam a todos é tão inusitado que pode chegar mais facilmente a ser notícia…

Uns poucos que ousassem recusar-se a alguma coisa por essa razão já poderiam causar estragos no poder dos que querem manter tudo como está. Como o exemplo bem sucedido contamina, ele poderá tocar a consciência dos outros e se espalhar, diante do que se considera errado, que não devia acontecer, que não devia ser feito.

É bem evidente que a objeção de consciência não pode ser declarada por pessoas isoladas. Cada decisão desse tipo não pode deixar de ser pessoal, pelas suas consequências para o objetor. Mas ela só é realmente possível se estiver apoiada na solidariedade. Nos diferentes tipos de fragilidade de cada um de nós, na impotência e no medo que podemos sentir, só embarcaríamos nessa – ou começaríamos a embarcar – se nos tornássemos objetores apoiados por outros ou juntamente com outros. E precisaríamos ajuda psicológica, política e jurídica, e mesmo reencontrar emprego. E também apoios financeiros, como nos Fundos de Greve que os operários organizavam quando decidiam cruzar os braços. Mais ainda, teríamos que ampliar, onde já exista, a legislação que crie e assegure o direito à objeção de consciência, como se garantiu o direito de greve.

Nós hoje nos indignamos (“Indignai-vos”, escreveu um respeitado cidadão-ativo francês [5]) frente a situações e ações com as quais não concordamos, que consideramos antiéticas, ruins para nós e para todos, onde a lógica econômica e política prevalece até sobre o mais evidente bom senso.

O que nos impede de dar um passo a mais para tornar eficaz nossa indignação, usando o poder que temos de recusar, resistir, desobedecer, em nossas próprias atividades? Por uma exigência de consciência, divulgando ao máximo o motivo de nossa atitude… No jornalismo, no direito, na medicina, na publicidade e na comunicação, na polícia e na segurança, no uso de nossas poupanças, na administração pública, no partido e na atividade política, etc. etc. e mesmo frente à lei que nos é imposta por representantes que foram eleitos mas “não nos representam”, como disseram os “indignados” espanhóis.

Por objeção de consciência, as pessoas podem se negar a colocar sua inteligência e seus conhecimentos a serviço de atividades condenáveis, do ponto de vista do respeito à vida dos seres humanos e à própria natureza. Um estudo publicado nos Estados Unidos em 2010 – “Os mercadores da dúvida” [6] – mostra que o inaceitável acontece: há cientistas pagos para semear dúvidas e com isso garantir a continuidade de bons negócios, como sobre o caráter cancerígeno do tabaco e até há pouco sobre a responsabilidade das atividades humanas no aquecimento global…

Poderíamos enfrentar até o consumismo exacerbado que exige que a máquina de produção mundial funcione a todo vapor, e leva a um enorme desperdício de recursos. Muita gente deixaria de comprar coisas supérfluas, por objeção de consciência, quando tomasse consciência de ter sido transformada em cúmplice do mecanismo de busca insaciável de lucro da economia de mercado.

No Brasil vem ganhando apoio a ideia de que superaremos nosso sentimento de impotência se formos para a rua protestar. De fato as coisas só mudam com pressão de baixo para cima. A repressão e a tortura durante os muitos anos da ditadura atingiram seus objetivos: atemorizaram e emudeceram as pessoas. Mas cada vez mais gente está criando coragem e considera que as coisas mudarão se milhares ou dezenas de milhares vierem para a rua demonstrar seu descontentamento. Manifestações como as de junho de 2013 se repetem em menor proporção mas com muito mais frequência. Surgem muitos novos movimentos, com financiamentos espúrios ou estimulados por organizações, partidos, lideranças. Mas nem os meios de comunicação comprometidos com um ou outro campo conseguem manter por muito tempo essas mobilizações.

De fato elas podem até derrubar ditadores – como na Primavera Árabe. Mas nem sempre têm os resultados esperados. O descontentamento volta, com a incapacidade dos novos governos em resolver os problemas. E estes sempre contam com uma enormidade de recursos e de pessoas a seu serviço, profissionalmente, numa extensa e diversificada gama de ações, e conseguem calar os descontentes. Por seu lado os cidadãos não conseguem se manter permanentemente mobilizados. Cansam, e têm que trabalhar para ganhar a vida. Diminuindo a pressão das ruas, aumenta o sentimento de impotência, abrindo caminho para o desanimo e até a desesperança, que nunca são bons conselheiros.
Buscamos então eficácia política. Mas na nossa cultura, pelo menos aqui no Brasil, consideramos que o caminho para isso é a criação de partidos. Mas eles já nascem com todas as distorções geradas pelo fato de se situarem na lógica da luta pelo poder – é o seu DNA. Não podem existir senão a partir da adesão de pessoas que já fazem parte do mundo da política ou aspiram a nele entrar, em geral fechadas à inovação ou à renovação de lideranças.

É preciso continuar criando organizações. Só organizados conseguimos enfrentar um sistema político e econômico extremamente poderoso. Mas precisamos ir além dos partidos e dos movimentos que levam as pessoas às ruas. Seria o caso de criar um movimento político voltado especificamente para a disseminação do imperativo da objeção de consciência, como um modo pacifico e humilde de mudar o mundo? Diga-se de passagem que tais movimentos já existem, ainda que pequenos, pelo menos na Europa.

Hoje já sabemos como construir organizações horizontais – em rede – que permitiriam a um movimento desse tipo se auto expandir infinitamente, inclusive até o nível mundial, por cima de todas as fronteiras. E contamos com tecnologias de intercomunicação horizontal livre em que se torna possível a ajuda e o estimulo mútuos e a multiplicação de adesões e apoios, assim como a difusão instantânea de notícias sobre vitorias – essenciais para persistir – e derrotas, com as quais aprender e se precaver.

Se o imperativo da objeção de consciência começasse a ser mais amplamente discutido e assumido pelos milhares de pessoas e organizações que já agem pela Terra afora para mudar o mundo, talvez pudéssemos avançar mais depressa. Poderia ser uma pequena revolução cultural, rumo a outros valores, frente à total dominação de nossas sociedades pelo dinheiro, principal instrumento da lógica capitalista individualista e competitiva. Não valeria a pena tentar?



1     Em seu discurso perante o Congresso dos Estados Unidos o Papa     Francisco incluiu Dorothy Day, ativista destes movimentos, numa     curta lista de norte-americanos exemplares. Está em andamento o     processo de sua canonização.

2     Hiroshima, a     catástrofe atômica e suas testemunhas,     Cristiane Izumi Nakagawa, Revista Estudos Avançados, USP, n. 84,     maio/agosto 2015, ver em www.scielo.br     e www.scopus.com.

3     Andrzej     Łobaczewski, Political     Ponerology: A Science on the Nature of Evil Adjuste d for Political     Purposes,     (Grande Prairie: Red Pill Press, 2006). Em     português,     Ponerologia: Psicopatas no Poder [EBook Kindle], via Amazon     Whispernet.

4     A perspectiva é ainda mais     preocupante se considerarmos que guerra e nuclear podem se combinar     mais facilmente, sem precisar de bombas… Bastará comprar     clandestinamente combustível usado de usinas nucleares e lançar     sobre a população os elementos radioativos que nele existem em     grande quantidade. Já houve tentativas de fazer esse tipo de     negócio…

5     Stephane Hessel,     diplomata francês que participou da Resistência Francesa à     invasão alemã e contribuiu para a elaboração da Declaração     Universal dos Direitos Humanos. Seu pequeno livro “Indignai-vos”,     de 2010, foi vendido em milhões de exemplares e traduzido para mais     de 20 línguas. Falecido em 2013 aos 95 anos.

6     Les marchands de doute,     Naomi Oreskes e Erik M.Conway, Bloomsbury Press, New York 2010 e     Editions du Pomier, Paris 2014.

Chico Whitaker


arquiteto, político e ativista social brasileiro