julho 01, 2006

Eu blogo, tu blogas, elas blogam




















Ligad@s na Rede

Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos

O BLOG DA REDE ESTÁ NO AR

"Blogar" é uma forma de relacionamento que pode ser prazerosa, além de ser uma ação política reveladora de uma atitude de abertura e acolhimento deuma nova forma de comunicação que é ágil, dinâmica e adequada para emissão e recepção de opiniões. Os blogs são ferramentas poderosas de ação na medidaem que são tribunas que devem estar a serviço do debate de idéias.

A Rede Feminista de Saúde (RFS), ao se estabelecer na blogosfera, o faz com a convicção de que oferece às suas filiadas a possibilidade de umacomunidade virtual sem fronteiras que, se bem aproveitada, poderá darcontribuições de vulto para que o Colegiado da RFS possa sentircotidianamente o "Pulsar da Rede" e, assim, ter mais segurança naformulação e na execução de sua política.

O BLOG da REDE é um espaço institucional que veiculará idéias(pequenos artigos, editoriais do RedeFax, etc,) e imagens para comentários, cuja moderação será operacionalizada pela Área de Comunicação da RFS, acritério e sob responsabilidade da Secretaria Executiva da Rede Feminista deSaúde (RFS).

Qualquer pessoa poderá postar comentários, que serão liberados pela moderação desde que não sejam anônimos e não contenham ofensas pessoais enem institucionais de caráter calunioso, sexista, machista, homofóbico,racista, manifestações de intolerância religiosa, ou de qualquer outra ordem que atente contra a cidadania e a dignidade humana.

Até setembro de 2006, em caráter experimental, o BLOG da Rede postarápara comentários apenas os Editoriais do RedeFax, informativo eletrônicoquinzenal da RFS. Outros materiais poderão ser postados exclusivamente pordecisão Colegiado da Rede Feminista de Saúde.

O primeiro texto disponibilizado para comentários no Blog da Rede é"Eleições 2006: no tom e no ritmo ditado pelo Vaticano?", documento preliminar para orientação da Rede Feminista de Saúde sobre as Eleições2006. O documento está em elaboração e necessitamos de contribuições até 29de junho.

Acesse, comente e divulgue: http://www.redesaude.org.br/2006/blog Posted by Picasa

Marisa pede cidadania italiana














"Vão pegar no teu pé, Marisa?"

Quarta-feira, 21 de Junho de 2006

Imagens do navio negreiro

FÁTIMA OLIVEIRA

A sanha discriminatória da cientista política Lúcia Hipólito é tamanha que deixa qualquer pessoa normal atônita. Vamos reler um trecho paradigmático: “A mulher do presidente Lula, seus filhos e netos são hoje também cidadãos italianos. O que será que isto quer dizer? Como é que esta atitude será interpretada pela maioria dos brasileiros, que não querem fugir do país e que tentam, todo santo dia, fazer do Brasil um país melhor? Como o Brasil espera inspirar confiança nos investidores estrangeiros quando a família do presidente da República já conseguiu para si mesma uma rota de fuga do país?” (Rádio CBN, 25/12/2005).

É um abuso de intelectual que “se acha”... Como ousa exigir que alguém esqueça suas origens? E em nome de que a brasileira Marisa Letícia deve abrir mão de suas origens? Ela descende de italianos pobres que vieram ao Brasil “fazer a vida”.

Criada com valores e cultura italianos, é natural que queira transmiti-los à sua descendência. E por que não? Qual é o crime de Marisa Letícia por solicitar cidadania italiana? Renega seu país natal? Não. Apenas não renega sua ascendência e origem de classe.

Lúcia Hipólito não sabe que a origem de classe é eterna? Eu “cultivo, de forma quase religiosa, a minha origem de classe” (“A origem de classe é eterna”, O TEMPO, 28/8/2002). Fui criada numa família culturalmente negra, da alimentação aos mitos e ritos.

Descendo de portugueses (lado paterno) e afro-descendentes (lado materno). Convivi pouco com meu avô branco.

Recordo- me que ele era enfático ao dizer que não descendíamos de degredados (leia-se: criminosos), como a maioria de paulistas “quatrocentões”, cujos ancestrais vieram cumprir pena na colônia penal de Portugal, o Brasil.

Conheço alguns países europeus, mas jamais fui a Portugal. Estive na África do Sul em 2001, como representante do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), na III Conferência Mundial Contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância, na condição de assessora da diplomacia do Brasil.

É a primeira vez que escrevo sobre a emoção que foi descer em solo africano. Não encontro as palavras que expressem o que realmente senti. Logo eu que sou visceralmente verbal...

Amanhecia quando vi os céus da África e as savanas... Depois de mais de oito horas de vôo de São Paulo a Joanesburgo (indo para Durban), chorei enquanto descia as escadas do avião, pois fui tomada, de repente, pelas imagens dantescas descritas em “O Navio Negreiro”...

Em minha mente, afloravam, em torrentes, os versos de Castro Alves – que aprendi a declamar com a professora Sílvia Parga, em São Luís, para o I Festival de Poesias do Maranhão, no suntuoso Teatro Arthur Azevedo (1969? 1970?): “Stamos em pleno mar (...) Era um sonho dantesco... o tombadilho (...) Tinir de ferros... estalar de açoite/ Negras mulheres, suspendendo às tetas/ Magras crianças, cujas bocas pretas/ Rega o sangue das mães (...) E ri-se a orquestra irônica, estridente (...) Mas é infâmia demais! Da etérea plaga/ Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! Andrada! Arranca esse pendão dos ares!/ Colombo! Fecha a porta dos teus mares!” (“O Navio Negreiro”, Castro Alves).

Imaginei a travessia África- Brasil num navio negreiro quando descia do jumbo na terra de Nelson Mandela e de Steve Biko. Na delegação oficial do Brasil à conferência da ONU, saudando Dandara e Zumbi, em copiosas lágrimas, pisava em solo africano uma médica, conselheira do CNDM.

Não era pouco para uma tataraneta de sobreviventes de navio negreiro. Sei. Lamento jamais ser também cidadã africana, pois não posso comprovar documentalmente de qual país vieram meus ancestrais. Marisa Letícia pode. É crime?

Fátima Oliveira é médica

Artigo publicado no jornal O Tempo, de Belo Horizonte-BH
www.otempo.com.br/opiniao/lerMateria/?idMateria=47949
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junho 30, 2006

Depoimento de Maíra Pessoa

Foto: Palace Hotel, Manaus-AM













Com a criação da Zona Franca de Manaus, o estado do Amazonas
sai da estagnação econômica que sobreveio ao Ciclo da Borracha.
Hoje são mais de 100 mil empregos existentes no parque industrial.
Em compensação subiram os índices de violência, de degradação e
ocupação desordenada do solo, de poluição ambiental e de crescente
migração de outros brasileiros em busca de oportunidades.

Nota: Maíra Pessoa é jornalista, assessora de comunicação do Instituto Alfredo da Matta, respeitada instituição de saúde dermatológica do estado do Amazonas. Além de ser uma gracinha de pessoa, é muito querida pelos colegas de trabalho pela sua contagiante alegria... e é minha sobrinha. Leia seu depoimento enviado por e-mail.

Depoimento de Maíra Pessoa

Tio, interessante essa pesquisa!

Estudei grande parte do tempo, no Colégio Santa Dorotéia, na Rua Joaquim Nabuco. Isso no período de 1993 a 1998, no horário matutino. Naquele tempo, havia um "maluco beleza", que assustava a meninda, principalmente quando era dia da educação física, pois usavamos saias brancas, com micro shorts; ele custumava pegar nas pernas das meninas, na parada do ônibus, da Av. Getúlio Vargas. O seu aspecto era de mendigo, não falava, carregava um imenso saco nas costas, raspava o cabelo com gilette. As poucas vezes, que o vi comer, eram resto de comida encontrada na lixeira. Aquele personagem segundo a lenda, vagava durante o dia pela rua, mas a noite estava sempre bem vestido pela família que morava na Av. 7 de Setembro. Muitas coisas eram inventadas, até que ele era filho de pais muito velhos e por isso fazia esse tipo de coisa. Outros diziam que sofria maus-tratos e por isso ficou maluco. O certo é que o meu grupo de amigos tinha medo dele, pois algumas vezes, ele era violento. Algum tempo atrás, o encontrei vagando pela Praça da Saudade, do mesmo jeito, como naqueles velhos tempos.

Beijos em seu coração,

Maíra
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Depoimento de Edson dos Anjos

Foto: Cidade Flutuante, Manaus-AM, Cartão Postal - A Favorita













Nos anos 50/60, proliferou na orla de Manaus, entre o Mercado
Municipal e a entrada do Igarapé de Manaus, na altura da Praia
de Monte Cristo, uma cidade flutuante. Ela foi exaustivamente
mostrada em todo o país pelo cine-jornal de Herbert Richers, como
retaliação depois que sua empresa teve negada a liberação de
impostos para manutenção da sua cadeia de cinemas, tendo sido
considerado persona non grata pela Assembléia Legislativa do
Estado do Amazonas. Por quase todos os anos 70, Manaus ficaria
praticamente sem cinemas.

Nota: Edson Ramos é médico formado pela Universidade Federal do Amazonas. Começou sua militância política no PC do B. Atualmente integra os quadros do PSB. Através da sua gestão à frente do Sindicato dos Médicos do Estado do Amazonas, ganhou o respeito da opinião pública e dos seus companheiros de categoria. Orgulha-se de ter vivido parte da sua vida acadêmica nos tempos pioneiros da construção da Reforma Psiquiátrica no estado do Amazonas. Leia seu sepoimento enviado por e-mail.

Depoimento de Edson Ramos

Querido Rogelio Casado,

Parabéns pelo Blog.

Na oportunidade quero relembrar a nossa experiência à frente do Centro Psiquiátrico Eduardo Ribeiro - eu e muitos outros acadêmicos de Medicina, inspirados pelas idéias da Reforma Sanitária e Psiquiátrica, encabeçadas por você e pelo Silvério Tundis no início da década de 80.

Penso que é necessário contar esta história para que a sociedade amazonense e brasileira conheçam os detalhes desta história pioneira na luta pela Saúde Mental.

Um grande abraço

Do amigo e admirador,

Edson Ramos
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Depoimento de Nália Almeida

Foto: Palácio Rodoviário e Cine Ypiranga, Manaus-AM, Cartão Postal - A Favorita













O bairro da Cachoeirinha, nos anos 50/60, era praticamente o limite
da cidade de Manaus ao leste, local de inúmeras chácaras que cederam
lugar a um bairro essencialmente residencial. Um cinema, uma
repartição pública e uma praça, construídos em frente de um Sanatório,
constituiam o principal patrimônio do lugar. O cinema fechou e a praça
desapareceu para dar lugar a uma edificação da Universidade Estadual
do Amazonas. A Cachoerinha não está só; muito outros bairros não têm
uma praçinha sequer.

Nota: Nália Almeida é médica, da gloriosa turma de 1977. Esposa do deputado estadual Risonildo Almeida, é sobrinha do festejado poeta Thiago de Mello, o poeta que no artigo 4 dos Estatutos do Homem escreveu: "Fica decretado que o homem / não precisará nunca mais / duvidar do homem. / Que o homem confiará no homem / como a palmeira confia no vento, / como o vento confia no ar, / como o ar confia no campo azul do céu./ Parágrafo único / O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino. Leia o depoimento de Nália Almeida enviado por e-mail.

Depoimento de Nália Almeida

Olá Rogelio,

Gostei muito de ler "about you", quando cita o grande amor de sua vida. Risonildo e eu que já estamos com 30 anos de casados, sabemos da benção de encontrarmos a pessoa certa para dividirmos a vida.

Dentre os loucos de minha infância cito, além de Carmem doida, o Bombalá e a Nega Charuta (nem sei se era doida), mas tínhamos medo dela porque sempre ameaçava correr atrás dos meninos da rua quando riam dela.

Lembro também do Zé Bundinha, um rapaz da Cachoeirinha que também corria atrás da meninada.

Um grande abraço da amiga,

Nália
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Depoimento de Emília Castro

Foto: Praça da Saudade, Manaus-AM - Cartão Postal - A Favorita













Na Manaus dos anos 50/60, a Praça da Saudade fazia
um harmonioso conjunto com a sede do Atlético Rio
Negro Clube. Diz a lenda que um governador do estado,
contrariado por ter sido ali barrado, mandou erguer um
monstrengo arquitetônico defronte da praça, que hoje
sedia a Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania: um horror.

Nota: Emília de Castro é médica da Unidade Básica de Saúde da Secretaria Municipal de Saúde no bairro da Betânia, zona Sul de Manaus. Até recentemente, dividia os sonhos e ideais de vida com o saudoso Aristófanes Castro, o Velho, a quem ela chamava carinhosamente de "o Danton da minha vida". Leia o depoimento enviado por e-mail.

Depoimento de Emília Castro

Olá amigo!

Fico alegre em ajudá-lo ao meu modo e relembrar meus tempos de infância, mesmo que com medo, da inofensiva # Carmem Doida#. Me alegro por você ser um estudioso do comportamento humano e seus desvios, com suas neuroses e psicoses; próprias de nós mortais. Lembro de Carmem Doida, sim. Carmem era uma pessoa de estatura longilínea, esbelta, elegante ao natural, de postura ereta, magérrima porém musculosa, sem frequentar academias (espaços inexistentes na época, como pedem os padrões de beleza atuais). Vestia-se com simplicidade, e comportadamente; seus vestidos, listrados de fundo escuro, tendiam para o verde, azul, que mais pareciam tingido ou mistura de tons sobre tons de azul verde e marrons, sempre escuros. Religiosa, assistia a missa compenetradamente em um canto; distante de quase todos ou próximo da porta da igreja; acompanhava às procissões devotadamente, com ou sem pedra na cabeça, como se estivesse pagando promessa. Nas procissões era sempre recatada, ouvindo toda sorte de impropérios e apelidos calada, como se não fora com ela: "A Carmem Doida!" Porém, após o ritual das procissões ou se noutro dia, alguém porventura lhe chamasse CARMEM DOIDA!! ela atirava ao chão o saco de estopa ou de trigo encardido, ou branco alvo, que ora trazia às costas, ou na cabeça em uma rodilha bem feita, cheio de farinha, capim para os animais, terra, ou adubo; olhava e respondia "Carmem Doida, é a tua mãe vagabundo!" Horas quando a gritaria era demais, apelava e dizia "é a tua mãe Filho da P...!" Hora chamava-os "é a tua mãe desgraçado", e lá se ia pela cidade, caminhando apressada, sempre trabalhando, indo, ouvindo. Ocupada com saco ou muito raramente uma cesta, sempre carregada, caminhava só e se alguém de sua casa estava por perto, ela estava a alguns metros à frente ou atrás. "Carmem Doida"! Ela logo parava, olhava procurando e respondia; apanhava uma pedra e tentava atirá-las na meninada ou nos homens que se escondiam, e quem levava por vezes nada tinha com os insultos; nesta horas causava medo. Fico devendo o relato sobre outras duas pessoas que ainda não lembrei os nomes. Vou lhe enviar um número de telefone em outra ocasião, após consulta ao referido, o nome de um amigo nosso que tem uma memória de elefante; fale em nome do nosso velho Aristófanes de quem ele foi mais amigo que meu; ele certamente lhe dará grandes informações. Abraços afetuosos.

Emília
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junho 28, 2006

Depoimento de Deocleciano Bentes de Souza

Foto: Colégio Dom Bosco, Manaus-AM, Cartão Postal - A Favorita













Na Manaus dos anos 50/60, educação de qualidade
estava presente tanto nas escolas públicas quanto
nas escolas particulares, como o Colégio Salesiano
Dom Bosco. Memorialistas da infância dizem que
este colégio só era "freguês" do Colégio Estadual do
Amazonas na festa cívica do 7 de Setembro.

Nota: O jornalista amazonense Diocleciano Bentes de Souza, antes de se aposentar como professor da Universidade Federal do Amazonas trabalhou em São Paulo na Folha de São Paulo nos anos 70/80; presidiu, por duas vezes, o Sindicato dos Jornalistas do Amazonas, e esteve à frente da criação de pelo menos dois jornais em Manaus. Reconhecido memorialista da vida política e social de Manaus, seu livro "Por trás das Rotativas" é aguardado com grande expectativa. Mantém em sua casa um pequeno cinema - Cine Yayá, em homenagem à proprietária do extinto Cine Avenida -, aberto às terças-feiras para os amigos diletos. Na sua última gestão frente ao Sindicato dos Jornalistas, abrigou a Associação Chico Inácio - ong composta por familiares, usuários e técnicos de saúde mental - que passaram a dispor de uma base física para organização do movimento por uma sociedade sem manicômios: por um cochilo histórico, esse movimento simbolicamente criado em São Paulo em 1987, só passou a despertar os corações e mentes dos amazonenses a partir dos anos 2000. Leia o seu depoimento sobre os loucos de rua, enviado por e-mail: uma pequena amostra do exercício de tolerância praticado na acolhedora cidade da Manaus dos anos 50/60.

Depoimento de Deocleciano Bentes de Souza

Meu caro Rogelio,

Ela perambulava com seu filho no colo no centro de Manaus nos idos de 60. Vivia próxima dos veículos de comunicação que a cidade possuía. Na Eduardo Ribeiro, a Rádio Baré, o Jornal do Commércio, o Jornal e o Diário da Tarde. Na Saldanha Marinho, A Gazeta. Na Henrique Martins, A Tarde. Na Joaquim Sarmento, a Rádio Difusora e na Lobo D'Almada, A Crítica. Era a "Nega Maluca" uma mulher de cor que carregava seu filho de um ano de idade para todo o canto, caracterizando muito bem o personagem da marcha de carnaval "Nega Maluca" cantada pelo Black-out, com acompanhamento de Severino Araujo e seu conjunto, sucesso do carnaval daquele ano, e que chegava a Manaus através das chanchadas da Atlântida que faziam sucesso nas sessões das 16 horas no luxuoso cinema Odeon, o único lugar em Manaus que tinha um clima decente.

"Nega Maluca" vivia da caridade das pessoas sensibilizadas com a criança, que com seu amor de mãe ela não largava para nada. Suas refeições eram feitas com as sobras da Pensão Maranhense, ali na Eduardo Ribeiro. Seu filho mamava café com leite em uma garrafa de refrigerante com um bico de borracha vermelho, que ela conseguia na Leiteria Amazonas, uma das lanchonetes chiques. No finalzinho das tardes ela ia até a Rua Tapajós, levar o seu filho, para o padrinho, o Desembargador André Vidal de Araujo, ver, quando ganhava de dona Milburges algumas roupas.

Era gostoso quando a malta gritava "Nega Maluca"e ela respondia com os mais cabeludos impropérios de seu parco vocabulário, fazendo as alunas da Escola Normal ficarem ruborizadas, naquela provinciana e ingênua Manaus. Não sei do seu fim nem do seu filho.

O outro era de família tradicional de Manaus, tinha estudado música, e morava em uma bela residência na Av. Joaquim Nabuco. Todas as manhãs, bem cedinho conseguia driblar a vigilância da familia e ia para a Praça da Polícia. Era o Bombalá, o melhor maestro que a Banda de Música da nossa briosa Policia Militar já teve. Marchava garbosamente com sua batuta à frente da banda durante os exercícios de formatura que a PM realizava com seus oficiais e praças pela Av. Floriano Peixoto.

Aos domingos, Bombalá exercitava o seu trabalho de maestro durante as apresentações que a banda fazia no coreto da Praça Eliodoro Balbi. Não fazia mal a ninguem, e quando recebia aplausos respondia com um sorriso alegre com sua boca desdentada. Era o tempo em que a operação mais perigosa que a Polícia Militar executava era correr atrás dos empinadores de papagaios. Nas paradas cívicas do 5 e do 7 de setembro, lá estava o Bombalá, envergando seu pijama de listas azuis, como um prisioneiro de seus próprios sonhos. Pela sua dedicação, acredito que tenha sido reformado como oficial músico.

Tinha outro maravilhoso. Era o Tom Mix, que fazia ponto na porta do Cine Gaurany, nas sessões das 13 horas, impecavelmente vestido com seu chapéu de vaqueiro, sua blusa quadriculada, seu colete, sua calça de brim azul, suas longas botas e suas cartucheiras com os dois coltes 45 da Estrela na cintura. O filme do Roy Rogers levava uma multidão de garotos ávidos por aventura para o cinema, e ao encontrar o Tom Mix na porta do cinema fazia a nossa imaginação acreditar que o artista estava ali, vivo e a cores. Eu mesmo tinha esperança de um dia encontrar o Tom Mix montado em seu cavalo. Tom Mix era irmão do Coronel Trigueiro, comandante da Policia Militar do Amazonas, que era vizinho do Colégio Estadual e seu Velho Oeste estava restrito aos cinemas Polyteama e Guarany, onde perseguia os bandidos e os índios sioux de seus devaneios. Até hoje quando cruzo a esquina da Getúlio Vargas com a Sete de Setembro vejo o Tom Mix, com seus revólveres de espoletas, perseguindo uma quadrilha de malfeitores.

Foi uma época muito boa de Manaus.

Um abraço,

Deocleciano Bentes de Souza Posted by Picasa

Depoimento de Eliana Simonetti

Foto: Museu do Estado de São Paulo - MASP








O movimento antimanicomial paulistano
tem feito do MASP o local simbólico da luta
pela inlcusão social dos portadores de
sofrimento psíquico.

Nota: A paulistana Eliana Simonetti é jornalista. Seu depoimento sobre os loucos de rua lança um outro olhar sobre as relações entre eles e a comunidade da região onde vivem. Mas, é quando, generosamente, disponibiliza as memórias do seu pai, Irineu João Simonetti, advogado, 76 anos, nascido na região do Vale do Ribeira, uma das regiões mais pobres do estado de São Paulo, que se percebe uma matriz inspiradora de que uma outra relação é possível com os loucos, para por fim à violência da psiquiatria institucional. Casada com o psiquiatra Paulo Barnabé, um dos tradutores de um artigo do psiquiatra Franco Basaglia, intitulado "O Homem no Pelourinho", que está por merecer publicação por uma editora de porte nacional. Com Paulo fotografei Dirce, uma louca de rua na cidade de Diadema, onde fazíamos residência médica em psiquiatria social (a ser publicada brevemente neste blog). Leia o depoimento sobre os loucos de rua enviado por Eliana através de e-mail.

Depoimento de Eliana Simonetti

Rogelio,

Tenho algumas histórias sobre loucos de rua.
Uma, de minha infância, era de um homem que vivia na avenida Santo Amaro, em São Paulo, próximo à antiga fábrica do laboratório farmacêutico Wellcom.
Era um homem barbudo, sempre muito sujo, com folhas secas penduradas na barba, que andava o dia inteiro, e de vez em quando falava alto, coisas sem nexo.
Não conversava com ninguém. As pessoas do bairro lhe davam comida, naquele tempo em que ninguém tinha medo de sair de casa com um prato de comida na mão e oferecer a um passante, sem que ele precisasse pedir.
Viveu anos assim. Talvez dez. Depois, desapareceu, sem mais nem menos. Nunca mais foi visto.

Há um louco famoso em São Paulo que vive na avenida Pedroso de Moraes, no alto de Pinheiros. Montou uma cabana de plástico e lá dentro guarda suas coisas... sabe-se lá o que. De vez em quando, a polícia retira os mendigos de rua para realizar eventos (como maratonas e coisas do tipo), mas ninguém toca nesse homem. Ele é calígrafo. Muita gente leva coisas para que ele copie, com letra bonita. A molecada fica batendo papo com ele, mas fala sozinha, porque ele não tem disposição para responder muita coisa. Escreve o dia inteiro. E observa o movimento. Não sei de onde veio, ou porque se tornou morador de rua, mas é um homem forte, que não está ali por acaso. Escolheu viver assim, e ninguém é capaz de tirá-lo dali. Como ele se alimenta? Muita gente leva coisas para ele. Comida, agasalhos, água limpa... ele vive bem. Escova os dentes de manhã, fecha bem sua barraquinha, senta no gramado e escreve, escreve, escreve... está lá, que eu saiba, há 15 anos no mesmo lugar. Bairro de gente rica. E é gostado por todos os vizinhos.

Há uma mulher que de vez em quando aparece na praça Panamericana, em Pinheiros, São Paulo, fazendo discursos em altos brados, sem pé nem cabeça. Sempre bem arrumadinha, cabelo penteado, não deve morar na rua. Não pede nada a ninguém. Deve ter família e sai durante o dia para fazer seus discursos. À tarde desaparece.

No centro vive um morador de rua que conheço bem. Foi jornalista em Brasília durante muitos anos. É epilético, e enquanto trabalhou tomava os medicamentos direitinho. Um dia parou de se medicar, começou a ver discos voadores, veio para São Paulo e vive na rua, contando casos para quem quiser ouvir. Os bares e restaurantes do centro sempre têm alguma coisa para dar a ele quando tem fome. Antigos colegas jornalistas levam roupas e agasalhos no inverno. Ele não reconhece ninguém. Fala de seres extra-terrestres, recusa-se a ser medicado ou internado, diz que conhece seus direitos e que só sai de onde está morto. Então vai ficando, há 12 anos. Chamase Walter Marques. Seu irmão é um importante correspondente de um grande jornal paulista nos Estados Unidos.

Todos os loucos de rua que conheci eram mansos, ficavam na deles, não incomodavam ninguém. E eram bem tratados pela comunidade que vivia na região em que estavam.

São histórias curtas, não sei se te servem.
São Paulo tem muitos loucos de rua. E muitos moradores de rua que não tem nada de loucos. Além de muitos loucos que vivem bem, em casas bacanas, com bons empregos. Não acho que haja muita diferença entre essas gentes.

Mas além dessas lembranças, meio vagas, tenho aqui um depoimento bacana do meu pai. Ele tem 76 anos. Nasceu no interior de São Paulo, no Vale do Ribeira, região mais pobre do estado, em 1930. Um dia resolveu escrever suas reminiscências de infância, um livro de memórias que é um pouco da história de Pariquera-açu. Esse é um trecho.

Vou transcrever pra você:

"Os ensandecidos, os alienados, os loucos, são aqueles que fogem, mais que nós à curva da normalidade. Não me refiro aos que perdem seu controle crítico por bebida, e depois voltam às atividades úteis e ao convívio da família. Há os alienados agressivos em relação aos outros e a si próprios e há os mansos. Destes há os macambúzios, enfezados, introvertidos e há os de uma mansitude quase alegre.

Antonio Felipe compunha o último grupo. Morava em Iguape. Dele dizia-se haver sido contador, de boa letra e muitas letras, leitor de livros, até que lhe fugiu o tino. Homem na quadra dos 40, alto, de bom porte. Quando ele chegava corria a notícia entre a molecada que logo lhe fazia cortejo, chamava seu nome, pedia-lhe que declamasse... Barítono, de timbre tonitroante, declamava Gonçalves Dias e outros. A figura era ridícula, vestido ao normal, de sapatos ou tamancos, chapéu de palha de aba estreita na cabeça e quase sempre com uma lata, dessas que vinham com querosene, de 20 litros, sobre o chapéu (sem rodilha), meiada de água. Para que a carregava? A sua loucura devia dar-lhe as razões, para que andasse a prumo, a conduzir tão incomodo objeto, a forçar-lhe o equilíbrio, a determinar-lhe o passo ritmado, corpo estável, para que não entornasse. Por vezes vinha do lado de Registro, com destino a Iguape, outras na mão contrária, sempre a pé.

Conta-se que, vezes várias, sua mãe dava-lhe dinheiro para que fosse comprar um pão ou um maço de fósforos e Antonio Felipe sumia. Vinte dias após, lá vinha ele com o item encomendado. Onde você foi? perguntava-lhe a mãe. Até Santos, sob a linha do telégrafo, andara ele longa caminhada -- de 200 quilômetros ou mais -- para comprar os produtos que havia em qualquer venda da cidade.

Alegrava-nos ver aquele homem ereto, caminhando como se tivesse de ir a algum lugar -- e tinha, e ia -- descompromissado com a vida, com a sociedade, com a sua própria subsistência. Não causava piedade, a sua figura despojada, algo alegre, algo cômico. Na porta em que parasse havia um copo de água fresca ou um prato de comida, como se cada qual expiasse, na assistência que lhe dava, as loucuras que lhe iam na alma.

Não sei quando deixou de percorrer as estradas e as picadas, nem se morreu algures, no afã de vencê-las... A loucura de Antonio Felipe tinha algo de etéreo, de sonhador...é como se ele pousasse, ao entrar nas cidades, para percorrer o casario, declamar seus versos, mitigar sua sede e depois, ao ultrapassá-los, alçasse vôo até seu próximo pouso sem nunca interromper sua jornada.

De outro feitio era Maximiano, de Pariquera. Morava num sítio atrás da caieira, na linha Senador Prado. Inteligente, sagaz, calado e oportunista. Andava de bengala, e quase sempre com um saco às costas, vazio ou com alguma coisa: banana, mandioca, mangarito, para vender. Tinha as mãos rápidas e os braços longos e, segundo se dizia, pilhava à noite. Seu sítio? Chão de terra batida, algumas bananeiras, uma toça de bambu, casa tosca de taipa, mais embaixo, por caminho batido a pé, o rio onde se abastecia. Casmurro, não tolerava visitas. Corria todas, de bengala alçada.

Ouvi, não sei se é verdade, que morreu à míngua, em seu casebre, assistido por poucos que tomaram consciência de sua ausência e se apiedaram dele.

João Euzébio, o tenente, remanescente dos tempos da colônia. Tenente do que? Não há registro. Morava numa chácara. João Euzébio, o eremita, fechado em sua casa alta do chão para não pegar as águas das cheias, assoalhada, com paredes em jissara madura rachada e amarrada com cipó, formando um telado grosso de ripas verticais e horizontais, sobre as quais fora aplicada argila batida, solta aqui e ali, coberta de telhas, sem forro, com janelas pequenas.
Papai dizia-me que ele tivera comércio e fora abastado. Sobre seu comércio, conta-se que seu comportamento iracundo dava oportunidade a situações constrangedoras. Se estava sentado, atrás do balcão, e chegava freguês que lhe pedia 100g de fumo de corda, respondia em sua linguagem sincopada que não se levantaria para vender 100g de fumo, e assim despedia o comprador.

Tomei consciência de sua presença quando, com meus seis ou sete anos, demandava o campo de futebol. Ele devia ter para mais de 60 anos. Nessa época, se nas nossas peladas deixávamos, por descuido ou imperícia, que a bola lhe atingisse a casa, saía bravo, prometendo cortar a bola e nos bater.

São três tipos diferentes. O primeiro andarilho, portador de uma bonomia que nos encantava. O segundo prestava-se às nossas folias, algazarras e provocações. O terceiro, furibundo, nos atemorizava.

As histórias são dos anos 1940. Quem conta é Irineu João Simonetti, que hoje é advogado em São Paulo".

Espero que alguma coisa possa ser útil ao seu projeto.

Beijos,

Eliana
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Depoimento de Elcy de Souza Machado

Foto: Cemitério S. João Batista, Manaus-AM









O cemitério São João Batista
está situado há menos de 10
quadras do centro histórico de
Manaus, constituindo, ao norte,

o limite urbano da cidade nos
anos 50/60.

Nota: Elcy de Souza Machado é enfermeira e fonoaudióloga. Trabalha num dos dois únicos ambulatórios para tratamento de pessoas com transtornos mentais, numa cidade que beira os 2 milhões de habitantes e que tem apenas 1 hospital psiquiátrico público, desde 1894. Desativá-lo e criar uma rede substitutiva ao manicômio, como preconiza a Lei de Saúde Mental vigente no país, teria sido o desdobramento "natural" da Reforma Psiquiátrica implantada no Amazonas a partir de 1980, não fosse a proverbial indiferença das autoridades sanitárias dos últimos 20 anos. Leia o depoimento de Elcy sobre os loucos de rua da nossa infância enviado por e-mail.

Depoimento de Elcy de Souza Machado

Olá Rogelio,

Eu lembro de uma pessoa que ficava em uma residência próximo ao cemitério São João Batista. Figura aliás muito conhecida de toda cidade chamada de Carmem Doida. Quando as pessoas passavam ela balançava as mãos dando tchau, agora se mexessem chamando pelo seu nome ela ficava furiosa e mandava pedras etc. Eu particularmente morria de medo. Pedia para passar bem longe dela e se possível nem olhar. Nunca vi aquela pessoa com alguém do seu lado, sempre sozinha. Meus pais falavam que ela era sozinha por isso não tinha com quem conversar e que não precisava ter medo dela. Até que um dia fiquei sabendo que tinha falecido. Hoje, passo todos os dias pelo mesmo lugar e não tenho mais medo. Acho que esqueci aquela figura tão conhecida da cidade e que um dia tive tanto medo e que nunca me fez nada de mal. Gostei da idéia , voltei ao passado um pouco. Quero ti dizer que ainda temos muitos loucos pela cidade, mas nenhum igual ou parecido com a Carmem.

Elcy
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junho 27, 2006

Depoimento de Elvira França

Bandeira de Osasco/SP









Osasco/SP é considerada o berço da aviação da América do Sul; tem 70 dos seus 100 anos como subúrbio industrial e operário.

Nota: Elvira França, paulista de Osasco, reside desde os anos 80 na cidade de Manaus. A ela se incorporou com uma das suas personagens. Professora, pesquisadora, através da neurolinguística atua no campo da prevenção às drogas; é membro atuante do Conselho Estadual de Entorpecentes. Talvez, por tudo isso, em seu depoimento sobre os loucos de rua da nossa infância, não conseguiu enxergá-los em sua cidade natal. Neste caso, está explicado os Mamonas Assassinas: alguém tinha que enlouquecer aquela cidade.

Depoimento de Elvira França

Rogelio,

Na minha infância em Osasco, São Paulo, não havia propriamente louco de rua, e sim alguns bêbados. A gente ficava sempre com medo quando eles passavam, porque os adultos nos ameaçavam que eles iam nos pegar se nós não fizéssemos o que eles estavam mandando. O contato com o bêbado era uma ameaça de castigo, e por isso crescíamos com medo deles, e ao mesmo tempo com vontade de desafiá-los, porque eles representavam um poder misterioso sobre nós e nosso comportamento. "Olha o bêbado! Ele vai te pegar!" Aí, corríamos todos pra dentro de casa, mas não sem antes fazermos caretas, sons vocais que expressavam desprezo e ousadia ao mesmo tempo. Às vezes, eles se irritavam, faziam gestos de ameaça, deixavam as crianças perto da porta da escola assustadas, e elas se espremiam para entrar pelo portão, com medo que alguma agressão continuasse. Os meninos eram mais ousados, porque às vezes chegavam a se aproximar, tocar e correr, deixando o bêbado agressivo e ainda mais defensivo. Em casa, ouvíamos falar sobre os bêbados mais como ameaças e raramente era comentada sua origem, família, onde viviam. Os adultos até podiam conversar sobre eles, mas isso não ficou na memória, porque na época o mistério e o desconhecimento era mais importante para os efeitos de causar medo.

Hoje, depois de estudar sobre alcoolismo e ter vivenciado problemas de alcoolismo na família, percebi que essas pessoas sofrem de transtorno mental e seu comportamento estranho e permanência na bebida ocorre porque as alterações cerebrais afetam o controle sobre a própria vontade de deixar de beber. Tudo começa como brincadeira entre amigos, e depois pode virar dependência química. Por isso, quando vejo alguém depreciando ou maltratando alguém alcoolizado, converso com as pessoas e repasso informações a elas. Elaboro materiais didáticos para instruir as pessoas sobre o problema e sensibilizá-las para darem apoio. Enquanto no passado o "louco" que eu tive contato era o bêbado, geralmente um adulto com mais de 30 anos, hoje temos muitos jovens bebendo e é com grande tristeza que os vemos caídos pelo chão, sujos, urinados. Há algum tempo, era preciso mentir, dizer que a pessoa estava tendo ataque epiléptico, quando era necessário chamar uma ambulância de emergência, para socorrer uma pessoa alcoolizada caídas e machucadas, porque os profissionais se recusavam a atender alcoolizados, ou mendigos doentes. Felizmente, tenho experiências positivas de prestação de socorro pela SAMU, fone 192, na prestação de socorro a alcoolizados e meninos de rua agredidos.

Nesta semana encontrei um menino de rua, dependente de cola de sapateiro, que foi agredido por um adulto na rua, como reação a um palavrão, segundo o menino contou. Ele sofreu uma fratura no osso da face, estava chorando, com o rosto ensangüentado devido ao corte que sofreu na sombrancelha, e foi muito bem atendido no Hospital Infantil da Zona Leste, e depois pela Central de Resgate. O que mais me entristece é a falta de conhecimento das pessoas em relação às alterações mentais de dependentes químicos, o que faz com que ajam de modo a intensificar o problema. Por isso, acho que muitas das pessoas que consideramos "normais", quando agem agressivamente contra os "loucos", estão em piores condições, porque além de ignorantes também não têm compaixão em relação a um ser humano em condições de desvantagem física, intelectual e moral.

Elvira Eliza França

Manaus, 26 de Junho de 2006.

junho 26, 2006

Pausa para uma dica: Henrique Nardi lança livro















Imperdível: lançamento do livro de Henrique Caetano Nardi Ética, Trabalho e Subjetividade pela editora da UFRGS.
Data: 27/06/2006, a partir da 19 horas.
Local: Palavraria, Rua Vasco da Gama, 165.

Se você não está em Porto Alegre, mande buscar pelas melhores casas do ramo. Em Manaus, apenas uma livraria trabalha com a maioria das editoras universitárias: Livraria Nacional, do Paulo, João e Zemaria Pinto, na rua Vinte e Quatro de Maio. Posted by Picasa

Depoimento de Humberto Amorim

Foto: Gymnasio Pedro II, famosa Escola Estadual do Amazonas, anos 60












Pedro II, imperador do Brasil, tem uma praça com
seu nome em Manaus, porém um decreto federal não
permite que nenhuma outra escola fora da cidade do
Rio de Janeiro ostente o seu nome.

Nota: Humberto Amorim é jornalista, radialista, tradutor, intérprete simultâneo diplomado pela Universidade de Michigan e Universidade de Cambridge, jazzófilo e enófilo... e é meu amigo. Sua façanha recente: é o mais novo membro do fechadíssimo "The Wine Century Club" com sede em New York City; são 145 membros de vários países do mundo dentre os quais somente dez são brasileiros; Humberto passou a vestir a camisa 11. Próxima façanha: deve entrar para o Guinness Book por manter há 11 anos o único programa de jazz transmitido para o mundo a partir da floresta amazônica. No momento, ele pode ser visto e ouvido no Café Adrianópolis com o seu All That Jazz Band. Leia o depoimento de Humberto Amorim sobre os loucos de rua da nossa infância, enviada por e-mail.

Depoimento de Humberto Amorim

Meu caro,

Impossível esquecer o Antonio Doido que perambulava pelas ruas da Cachoeirinha e também na Praça São Sebastião. Ele não paravava de sorrir e fazia uma "aeróbica" murmurrando uma canção com as pernas em V, em movimento compassado pra-frente-pra-trás. Quando cansava se auto-aplaudia. Não incomodava ninguém. Era alimentado pelas pessoas. Não sei de onde vinha. Pelo que sei, ao se aproximar a molecada ele ia embora.

Carmem Doida. Ficava sentada todos os dias em um pequeno barranco na esquina da rua por trás do cemitério São João Batista com o Boulevard Amazonas dando "ciao" para quem passava. vestia roupas coloridas e não parava de pentear os cabelos. De vez em quando punha-se a falar muito alto como estivesse reclamando de alguma coisa.

Cabecinha - Deste não sei nada, pois tivemos um breve, porém, marcante encontro, nos idos de 1983 em frente a antiga Amacom da Marcilio Dias; quando eu atuava como guia de um grupo de turistas, me atingiu pelas costas com uma pequena pernamanca. Como resultado fui levado, sangrando um bocado para o Pronto Socorro São José (lembra?) onde levei 8 pontos.

O resultado positivo desse episódio foi o início de uma grande amizade entre eu e o dono da loja Stephen Hamilton e seu sócio Richard Bryan, ambos de saudosa memória, que foram os primeiros a me socorrer. Os turistas hospedados no Hotel Amazonas correram apavorados. Por volta das 2 horas da tarde, recuperado, levei-os para o aeroportop naquele mesmo dia. Foram generosos com as gorgetas para "eu tratar melhor do ferimento".

Um abraço,

Humberto

P.S - Se quiseres saber das minhas loucuras, temos primeiro que abrir uma garrafa de carmenere, ampará-la com um t-bone steak, e terás os relatos de quase todas, tendo em vista que posso perder o senso.
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Depoimento de Aristófanes Castro Filho

Foto: Palácio da Justiça, Manaus-AM, anos 60













O Palácio da Justiça da cidade Manaus era adornado
por vários benjaminzeiros, que não resistiram à ação
dos novos tempos trazidos pela Zona Franca.

Nota: O advogado Aristófanes Castro Filho nasceu numa época em que a cidade de Manaus conhecia a dacadência depois que o ciclo econômico da borracha foi para o beleléu (expressão popular muito usada nos anos 60). Santa decadência. Depois do surto malárico, a cidade seria poupada durante muitos anos da depredação que se instalaria com a Zona Franca de Manaus: igarapés gelados e árvores que sombreavam o passeio público vivam em harmonia com a população. Leia o depoimento de Aristófanes Castro Filho, enviado por e-mail. Lacônico, ele prefere que seja publicada a crônica escrita pelo seu pai Aristófanes Castro, o Velho, sobre os loucos públicos de Manaus. Aguarde.

Depoimento de Aristófanes Castro Filho

Comandante Rogelio,

Do meu tempo, me lembro da Carmem Doida. Que vivia com o saco de farelo de arroz na costas subindo e descendo a Eduardo Ribeiro. O meu pai tem até uma crônica sobre ela.

Depois os doidos passaram a ser todos nós. Uns de mais coragem largam tudo e passam a curtir a própria loucura, os falsos loucos ficam fazendo maldade a todos passando por normais.

Um abração,

Ary

Manaus, 23 de Junho de 2006.
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Depoimento do Prefeito Serafim Corrêa

Foto: Praça D. Pedro II, ao fundo o
Paço da Liberdade, antiga sede da
Prefeitura de Manaus









Na Manaus dos anos 50/60, cada
comunidade possuia sua praça.
Na sociedade de massas, elas foram
sendo degradadas.

Nota: O economista Serafim Corrêa foi eleito prefeito no pleito eleitoral de 2004. Goza de prestígio popular, sendo carinhosamente chamado por Sarafa nos bairros por onde passa. Sua paixão como folião do carnaval manauara atende pelo nome de BICA - Banda Independente Confraria do Armando, temida pelas letras das marchinhas que não poupam políticos que saem da linha. Entre inúmeros desafios, deve enfrentar a reurbanização das praças de Manaus, agora num contexto de sociedade de massas. Leia o depoimento de Serafim Corrêa, enviado por e-mail.

Depoimento do Prefeito Serafim Corrêa

Oi Rogelio,

Lembro de pelo menos duas figuras: a Carmem Doida e a Nega Maluca.

A Carmem andava pelas ruas e aos gritos da molecada de "Carmem Doida" ela jogava pedras, virava bicho.

Já a Nega Maluca tinha um filho pequeno que andava com ela no colo. Ela parava num bar e partia para cima de um homem, em geral o mais bem vestido, e colocava a criança nos braços dele dizendo: "Toma que o filho é teu". Os outros presentes pegavam no pé do "escolhido".

Elas se alimentavam da caridade das pessoas, principalmente dos donos da padarias. No caso das duas, quase sempre pegavam pão na Padaria Mimi na Rua 24 de maio.

Um abraço,

Serafim

Manaus, 23 de Junho de 2006.
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Depoimento de Itamara De Masi Scaini

Cartum: Rio de Janeiro-RJ, Cidade Maravilhosa







O Rio de Janeiro continua lindo, o que não presta
é a impunidade, o crime organizado e os políticos
oportunistas - praga disseminada por todo o país.

Nota: Itamara Scaini viveu parte da infância e da adolescência no Rio de Janeiro e reside em Manaus uma pá de tempo (gíria, hoje usada raramente). Psicóloga, acaba de descobrir as cidades do interior do estado do Amazonas. Seguramente está surpresa com o que viu, pois quem só conhece a beira do Rio Negro, que banha a cidade de Manaus, ainda não pode dizer que conhece a diversidade cultural indígena do estado do Amazonas. Leia seu depoimento, enviado por e-mail.

Depoimento de Itamara Scaini

Minha primeira experiência?
Claro que lembro!
Foi algo estarrecedor. Tinha 7 anos e minha família acabara de mudar de SP para o RJ. Depois de alguma procura encontramos um ótimo apartamento em Laranjeiras.

SP e RJ em 1960 eram duas cidades absolutamente diferentes e apesar de termos saído de um bairro de classe média para outro, a diferença no vestir, no relacionar-se com os vizinhos, na estrutura do bairro eram enormes.

Certo dia, indo para o Colégio - minha mãe levava diariamente minha irmã e eu - ao atravessar a Rua Gago Coutinho senti uma "presença" do meu lado e um aperto de mão da minha mãe. Olhei. Deparei-me com um enorme, mas enorme mesmo, homem de cor preta, careca, vestindo um sobretudo que lhe chegava nas canelas - era um dia de calor insuportável, e por baixo vestia uma calça amarrada por uma corda. Não vestia camisa.

A primeira coisa que me lembro é ter pensado que não havia diferença entre a cor do homem e a cor da roupa que vestia. Ele, além de falar sózinho, olhava as pessoas com um olhar de muita raiva, de provocação, de intimidação.

Aberto o sinal minha mãe quase nos fez voar para o outro lado da rua e para o outro lado ainda, oposto ao que o homem andava.

Não precisamos perguntar nada. Logo ela nos explicou que se tratava de um louco e que poderia nos fazer algum mal e que nunca, jamais, nos aproximassemos dele.

Durante décadas percorri a Rua das Laranjeiras em ambos os sentidos. Duas ou três vezes por semana encontrava com ele. Sempre vestindo as mesmas roupas. Às vezes andando frenéticamente em linha reta , falando muito e encarando todos; outras sentado, comendo um pedaço de pão.

O lugar onde ele costumava sentar-se, embaixo de uma árvore, fedia. Ele urinava, defecava e dormia sobre seus excrementos.

Alguns meninos, pequenos , às vezes gritavam com ele - não me lembro o que, e ele ameaçava jogar pedras.

Nunca soube quem o alimentava, de onde vinha, quem era.

Um dia , sem esta nem aquela, dei-me conta de que há algum tempo ele sumira. Desapareceu assim como desapareceu a lembrança dele até o momento em que recebi sua mensagem.

Tinha muito medo daquele homem, mas sempre tive muita pena também.

Um grande abraço,

Itamara

Manaus, 22 de Junho de 2006. Posted by Picasa