dezembro 27, 2012

"O custo oculto dos presentes de natal", por George Monbiot

PICICA: Não se iluda. Maniqueísmos à parte, há um lado bom do consumo; mas há, também, um lado perverso no período de natal. Esse lado escroto do consumismo de natal é estimulado pela máquina de fazer "doido", mas que não responde por tudo; ela só reforça o lado "doido" dos sujeitos que não sabem o que fazer com a angústia do desamparo. A exigência do gozo termina por promover uma incansável busca de objetos, que tira do sujeito a liberdade, alterando a sujetividade e reduzindo o prazer do ato criativo. Ao tornarem-se incapazes de reinventar a criatividade, banindo de sua existência o que há de singelo e delicado nos pequenos gestos, agem como estraga-prazeres. É aquele tipo que nos "amigos ocultos" compra um presente "caro", com altas expectativas de que venha "merecer" algo semelhante, não sendo raro a decepção com o resultado. Sujeitos com egos empobrecidos, vivem dominados pelo objeto. De que se protege esse sujeito? Para entender os afetos vinculados a esse empobrecimento do ego, recomendo a leitura do velho Freud acerca das complexas relações entre o ego e o ideal do ego. Mas, se você padece desse mal, uma análise vai muito bem. Só ela para dar conta da desterritorialização do sujeito, condição fundamental para uma existência criativa. (RC)

O custo oculto dos presentes de natal

George Monbiot
Publicado no www.monbiot.com
Traduzido por Isis Reis, do Canal Ibase


Não há nada de que precisem, nada que já não possuam, nada até que eles queiram. Então você compra para eles uma rainha acenando, movida a energia solar; uma escova para o umbigo, um suporte prateado de sorvete para a banheira; um “hilário” andador inflável; um produto de plástico com funções eletrônicas chamada Terry, a tartaruga que xinga; ou – e de alguma forma eu acho isso relevante – um mapa-mundi de parede para eliminar os países já visitados.

Eles parecem divertidos no primeiro dia de Natal, idiotas no segundo e vergonhosos no terceiro. Até o décimo segundo eles estão no aterro. Por trinta segundos de entretenimento duvidoso, ou um estímulo hedonista que não dura mais do que um trago de nicotina, comissionamos o uso de materiais cujos impactos vão ser sentidos por gerações.

Fazendo pesquisa para seu filme “A História das Coisas”, Annie Leonard descobriu que dos materiais que circulam na economia de consumo, apenas 1% permanece em uso seis meses após a venda. Mesmo os bens que poderíamos ter esperado manter, logo são condenados à destruição, seja por obsolescência programada (quebrando rapidamente) ou obsolescência percebida (se tornando fora de moda).

Mas muitos dos produtos que compramos, especialmente para o Natal, não podem se tornar obsoletos. O termo implica uma perda de utilidade, mas eles não tinham utilidade desde o início. Uma camisa eletrônica que simula sons de bateria, um cofrinho falante do Darth Vader; uma capa de iPhone em forma de orelha, uma latinha que resfria embalagens individuais de cerveja, um decantador de vinho eletrônico, uma chave de fenda sônica que também é controle remoto; creme dental de bacon; um cão dançante: não se espera que ninguém os use ou mesmo olhe para eles após o dia de Natal. Eles são projetados para provocar agradecimentos, talvez um risinho ou dois, e depois serem jogados fora.



Por James Provost, via Flickr (Creative Commons)

A fatuidade dos produtos é acompanhada pela profundidade dos impactos. Materiais raros, eletrônicos complexos, a energia necessária para a fabricação e transporte é extraída e refinada e combinada em compostos de inutilidade total. Quando você leva em conta os combustíveis fósseis cujo uso comissionamos em outros países, a fabricação e o consumo são responsáveis por mais da metade de nossa produção de dióxido de carbono. Estamos ferrando o planeta para fazer termômetros de banho movidos a energia solar e enfeites de mesa de bonequinhos golfistas.

As pessoas no leste do Congo são massacradas para facilitar atualizações de smartphones de utilidade marginal sempre decrescente. Florestas são derrubadas para fazer “tábuas de queijo personalizadas em forma de coração”. Rios são envenenados para a produção de peixes falantes. Este é o consumo patológico: uma loucura coletiva epidêmica que consome o mundo, tornada tão normal pela publicidade e pelos meios de comunicação que mal percebemos o que aconteceu conosco.

Em 2007, segundo o jornalista Adam Welz registra, 13 rinocerontes foram mortos por caçadores ilegais na África do Sul. Este ano, até agora, 585 rinocerontes foram baleados. Ninguém está inteiramente certo por quê. Mas uma resposta é que pessoas muito ricas no Vietnã estão agora espalhando chifres de rinocerontes em sua comida ou cheirando-os como se fossem cocaína, para exibir sua riqueza. É grotesco, mas pouco difere do que quase todos nos países industrializados estão fazendo: destruindo o mundo vivo através do consumo inútil.

Esse boom não aconteceu por acidente. Nossas vidas foram encurraladas e moldadas a fim de incentivá-lo. As regras do comércio mundial forçam os países a participar do festival de lixo. Governos cortam impostos, desregulam negócios e manipulam as taxas de juros para estimular o consumo. Mas raramente os engenheiros dessas políticas param e perguntam “gastar em quê?”.
Quando cada desejo e necessidade concebíveis forem cumpridos (entre aqueles que têm dinheiro disponível), o crescimento depende da venda daquilo que é totalmente inútil. A solenidade do Estado, o seu poder e majestade, são aproveitados para a tarefa de entregar Terry, a tartaruga que xinga, em nossas portas.

Homens e mulheres adultos dedicam suas vidas à fabricação e comercialização deste lixo, e sacaneiam a ideia de viver sem ela. “Eu sempre tricoto os meus presentes”, diz uma mulher em um anúncio de televisão para uma loja de eletrônicos. “Bem, você não deveria”, responde o narrador. Um anúncio para o mais recente tablet do Google mostra pai e filho acampando na floresta. Sua fruição depende das características especiais do Nexus 7. As melhores coisas da vida são de graça, mas nós encontramos uma maneira de vendê-las para você.

O crescimento da desigualdade que tem acompanhado o boom de consumo garante que a maré econômica ascendente não levante todos os barcos. Nos EUA, em 2010, notáveis 93% do crescimento nos rendimentos foram acumulados para o 1% mais rico da população. A velha desculpa, que temos que destruir o planeta para ajudar os pobres, simplesmente não cola. Para algumas décadas a mais de enriquecimento para aqueles que já possuem mais dinheiro do que sabem como gastar, as perspectivas de todos os outros que viverão nesta terra são diminuídas.

Quando o mundo enlouquece, aqueles que resistem são denunciados como loucos. Asse um bolo, escreva um poema, dê um beijo, conte uma piada, mas pelo amor de Deus, pare de destruir o planeta para dizer a alguém que você se importa. Tudo o que você mostra é que não se importa.


Fonte: Canal Ibase

"A importância do marco regulatório", por Gibran Luis Lachowski

PICICA: "[...] a discussão sobre uma política pública de comunicações é tema de abrangência nacional há décadas, tanto é que em 2009, resultado sistematizado de dezenas de debates municipais, estaduais e regionais, o assunto culminou na realização de uma vigorosa ação de democracia direta, a saber, a 1ª Conferência Nacional de Comunicação. O evento teve participação de membros dos poderes executivo e legislativo, do empresariado e da sociedade civil organizada, com encaminhamento de cerca de 700 propostas ao governo federal e ao Congresso Nacional." 

 

REGULAÇÃO EM DEBATE

A importância do marco regulatório

Por Gibran Luis Lachowski em 24/12/2012 na edição 726

Ainda é costumeiro ver desinformação espalhada por articulistas, comentaristas, cronistas, repórteres, editores e apresentadores de veículos midiáticos sobre a importância de o Brasil ter um marco regulatório das comunicações. Um dos recentes exemplos colecionados é o do jornalista e membro da Academia Goiana de Letras Hélio Rocha que, no artigo “Uma receita de autoritarismo”, publicado em 7/12/2012 no jornal O Popular, de Goiânia, qualificou a iniciativa como “um esquema de controle da mídia”. O diário pertence à Organização Jaime Câmara, que integra o oligopólio das comunicações na região Centro-Oeste, conforme o projeto “Donos da Mídia”, que mapeia os sistemas e mercados do setor no país.

Rocha não mencionou, todavia, que a discussão sobre uma política pública de comunicações é tema de abrangência nacional há décadas, tanto é que em 2009, resultado sistematizado de dezenas de debates municipais, estaduais e regionais, o assunto culminou na realização de uma vigorosa ação de democracia direta, a saber, a 1ª Conferência Nacional de Comunicação. O evento teve participação de membros dos poderes executivo e legislativo, do empresariado e da sociedade civil organizada, com encaminhamento de cerca de 700 propostas ao governo federal e ao Congresso Nacional.

Conforme o Coletivo Brasil de Comunicação Social (Intervozes), que integrou o campo da sociedade civil organizada, entre as proposições estão: o entendimento de que a comunicação seja tida como direito humano constitucional; o combate ao monopólio e oligopólio midiático; a garantia de espaço para produção regional independente; regras mais democráticas e transparentes para concessões de rádio e tv e renovação de outorgas. Também, a proibição de outorgas para políticos com mandato eletivo, definição do acesso à internet banda larga como direito fundamental, em regime público, universal, contínuo e com controle de preços.

Um cenário para incluir na análise

A discussão sobre a necessidade de uma política pública para o setor das comunicações torna-se ainda mais importante para a democracia quando se verifica o funcionamento dos meios midiáticos em pequenas cidades do interior de estados brasileiros em que ainda é forte a cultura colonialista.
Isso transparece, muitas vezes, em lugares com predominância de economia agropecuária, personalização política de “neocoronéis”, relações clientelistas no serviço público, ambiente de perseguição contra manifestações que questionem a ordem estabelecida e sensação de impotência diante de poderes institucionais e\ou reconhecidos como tais. Essa combinação leva a uma baixa autoestima da população mais pobre, dificulta o desenvolvimento de uma cultura de reflexão acerca dos assuntos diários e do jornalismo pautado no interesse público.

O quadro explanado permite introduzir na discussão o cenário noticioso de Alto Araguaia (MT) e Santa Rita do Araguaia (GO), conforme dados obtidos a partir de um projeto de pesquisa realizado este ano e desenvolvido na Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat)\campus de Alto Araguaia.

O estudo apontou uma produção midiática sobre diversificados assuntos, com bom potencial jornalístico local/comunitário. Entretanto, identificou abordagens geralmente institucionalizadas – com destaque para “autoridades” do evento, acontecimento ou articulação, sobremaneira quanto a figuras ligadas ao poder público. Isso também ficou patente pela reprodução de releases em cerca de 20% dos materiais investigados (um em cada cinco). Também se observou que os principais veículos de Alto Araguaia e Santa Rita trazem conjuntos reduzidos de informações, voltados a responder questões superficiais – como horários, contatos e expectativas – e são tomados como notícias prontas e acabadas, quando deveriam significar pontos de partida.

O ambiente de pesquisa

Alto Araguaia localiza-se na região sudeste de Mato Grosso, a 420 km da capital (Cuiabá), com 15.644 habitantes, segundo dados do IBGE/2010. Possui economia em grande parte movida por um terminal ferroviário de carga de grãos, que faz ligação com o porto de Santos (SP) para escoamento no exterior. O mosaico político da cidade é composto por 14 partidos, contudo há prevalência de algumas antigas famílias (como Maia e Niedermeier), dando às relações de poder certo traço colonial. O atual prefeito é o advogado Alcides Batista Filho (PT), que não disputou a reeleição em nome de uma aliança política com Jerônimo Samita Maia Neto (PR), eleito ocupante da vaga majoritária pela quarta vez.

Alto Araguaia faz divisa com Goiás por meio de uma ponte que passa sobre o rio Araguaia e tem como primeiro vizinho o município de Santa Rita do Araguaia, situada na região sudoeste do estado, a 500 km da capital (Goiânia), com 6.924, de acordo com o IBGE. A cidade tem características rurais mais acentuadas, com menor volume de empreendimentos comerciais, maior contribuição da agricultura e pecuária para a economia local, o que fica patente nos tipos de intervenção do poder executivo. Quanto ao ambiente político, também o município resguarda relações de poder caracterizadas por ranço colonial, sendo o atual prefeito integrante de uma das “famílias fundadoras” do local (advogado Carlos Salgueiro/PSD, que, entretanto, disputou a reeleição e perdeu para João Batista/PSDB, jornalista e ex-vereador).

As cidades recebem as notícias principalmente por meio de dois sites e uma emissora de televisão, todos situados em Alto Araguaia. São eles, respectivamente, o “Jornal ComTexto“, o “André da FM“ e a TV Integração (canal 11), cujos dados para a pesquisa foram coletados de seu endereço eletrônico (www.tvinet.com.br), onde é postada a maioria dos vídeos de matérias que compõem o programa jornalístico da emissora, Araguaia no ar, transmitido de segunda à sexta, das 12h às 13h.

O “Jornal ComTexto” é remanescente do impresso Notícia Agora, foi fundado em fevereiro de 2004 e tem como editor-chefe o jornalista Ivon Ribeiro. O outro funciona desde 2008 sob a direção do locutor Carlos André de Freitas, o André da FM, que também trabalha na Rádio Aurora, em Alto Araguaia. A Aurora é a única emissora de rádio existente nos dois municípios. A TV Integração, também a única nas duas cidades, pertence aos quadros da Rede Record, que em Mato Grosso tem a TV Gazeta como afiliada. Não há jornal diário, semanal ou mensal em Alto Araguaia e Santa Rita do Araguaia.

Detalhes do projeto de pesquisa

A coleta e análise de dados concentraram-se nas notícias veiculadas em junho nos veículos mencionados. Excluiu-se da investigação o material interpretativo (reportagem; inexistente ao menos no período investigado) e opinativo (como artigos e colunas). A coleta e análise de informações se deram a partir de sete critérios, sendo quatro de âmbito geral (origem geográfica, temas, fontes de informação e origem produtiva) e três quanto ao jornalismo feito na internet (multimidialidade, hipertextualidade e interatividade). Contudo, este artigo atém-se aos iniciais.

No que diz respeito à origem geográfica, verificou-se destacado caráter local, pois entre as notícias divulgadas no mês estudado (286), 179 (62,58%) se voltaram para Alto Araguaia e Santa Rita do Araguaia, 52 (18,18%) trataram de assuntos estaduais, 32 (11,18%) de internacionais e (8,04%) de nacionais.

Quanto aos temas, se observaram estritamente os conteúdos locais (179 notícias). Enfoque marcante para as questões relativas a acontecimentos do cotidiano da vida urbana (“Cidades/Variados”, com 65,9%) e da política (31,2%), que ocuparam quase a totalidade das matérias. A primeira “editoria” divulgou, por exemplo, notícias sobre acidentes automobilísticos, assaltos, atitudes de preservação do meio ambiente, oportunidades de emprego, de concurso e de qualificação, projetos de combate à desigualdade social, eventos comunitários e cobrança por mais investimentos em educação superior. A outra se resumiu ao âmbito eleitoral (sobremaneira às candidaturas a prefeito), às ações parlamentares (indicações, projetos de lei e promoção de audiências públicas) e atos do poder público (principalmente lançamento de projetos e iniciativas de assistencialismo).

O quesito fontes de informação mostrou o tom oficial e institucionalizado da maior parte dos materiais. Tendo por base estudiosos do jornalismo, como Nilson Lage e Mário Erbolato, definiram-se três tipos de fonte, quais sejam: explícita, com 135 (75,4%); implícita – repórter apenas narra –, com 33 (18,4%); e genérica – não caracterizada ou em off –, com 11 (6,1%). O primeiro tipo se subdividiu em três: oficial; não-oficial ou independente; e individualmente ligada ao acontecimento. As oficiais corresponderam à maioria dentre as fontes explícitas (86 das 135 ou 63,7%) e se expressaram principalmente como pré-candidatos, vereadores, presidentes de partidos, secretários municipais, chefes de repartições e responsáveis por corporações policiais. As não-oficiais ou independentes (movimentos sociais, sindicatos e dirigentes de médios empresários) e as individualmente envolvidas com os acontecimentos (exemplo: presa em flagrante, acadêmica premiada, estudante atleta, beneficiado em projeto social) apareceram nas 49 restantes (36,2%).
Em relação à origem produtiva (autoria), a maioria das notícias foi feita pelas equipes profissionais dos meios investigados, entretanto com presença considerável de releases. Das 179 matérias locais 140 (78,2%) tiveram confecção dos veículos. As assessorias de imprensa apareceram como autoras em 28 (15,6%), desconsiderando-se as feitas por repórteres que também são funcionários de prefeitura. Supostos colaboradores ou similares (sem identificação explícita) despontaram em 08 notícias (4,4%), podendo, de maneira geral, se somar à categorização anterior, totalizando 20%. E outros veículos pontificaram como autores em 03 (1,6%).

Uma nova etapa do projeto de pesquisa, sobre o processo de produção jornalístico, pode auxiliar na compreensão dos fatores que mais influem nesse cenário midiático, desde o tipo de formação acadêmica dos trabalhadores da notícia até os mecanismos de sustentação financeira dos veículos. Entretanto, os dados e análises expostos confirmam a importância de se aprofundar e se estender para todo o Brasil o debate acerca da implantação de um marco regulatório nas comunicações.

***

[Gibran Luis Lachowski é jornalista e professor do curso de Comunicação Social (habilitação Jornalismo) da Universidade do Estado de Mato Grosso]
Fonte: Observatório da Imprensa

"O que podemos aprender com hippies e punks", por Rafael Azzi

PICICA: "Nenhuma sociedade sobrevive sem algum tipo de relação entre produção e consumo. O consumismo não é o mero incentivo ao consumo; é o pensamento de que uma vida boa e feliz depende inteiramente da quantidade de bens materiais que se pode consumir. Ao nível dos países, é a ideia de que o bem estar de uma nação deve ser medido apenas pelos números de produção e consumo de bens. Nesse contexto, o principal papel do Estado seria estimular a população para que consuma cada vez mais. Para o consumismo, o sucesso de uma sociedade ou de um indivíduo é medido simplesmente pela quantidade de produtos consumidos." Essas noções estão de tal forma naturalizadas no imaginário coletivo que causa estranhamento demonstrar que elas representam uma ideologia cuja origem pode ser investigada à luz da história recente da sociedade ocidental."



Marcha ao Pentágono, 21/10/1967

Absorvidos aparentemente pelo mercado, eles retornaram pela atualidade de sua crítica radical ao consumismo e desejo de produzir com autonomia

Por Rafael Azzi

Atualmente há um determinado tipo de ideologia que conquistou grande parte da sociedade. Essa ideologia vem gerando consequências como prejuízo à saúde dos indivíduos, aumento da desigualdade social e degradação do meio ambiente. Trata-se de uma ideia sedutora e perigosa que hoje está mais difundida no mundo do que qualquer religião ou outra forma de pensamento. Essa ideologia é o consumismo.

Nenhuma sociedade sobrevive sem algum tipo de relação entre produção e consumo. O consumismo não é o mero incentivo ao consumo; é o pensamento de que uma vida boa e feliz depende inteiramente da quantidade de bens materiais que se pode consumir. Ao nível dos países, é a ideia de que o bem estar de uma nação deve ser medido apenas pelos números de produção e consumo de bens. Nesse contexto, o principal papel do Estado seria estimular a população para que consuma cada vez mais. Para o consumismo, o sucesso de uma sociedade ou de um indivíduo é medido simplesmente pela quantidade de produtos consumidos.

Essas noções estão de tal forma naturalizadas no imaginário coletivo que causa estranhamento demonstrar que elas representam uma ideologia cuja origem pode ser investigada à luz da história recente da sociedade ocidental.

No campo das ideias, o primeiro estímulo para o desenvolvimento da economia de consumo foi dado pelo escocês Adam Smith. Em 1776, o economista publicou o texto A riqueza das nações, no qual defendia que o verdadeiro progresso econômico ocorre quando os indivíduos são livres para buscar os próprios interesses. Assim, quando todos agem de forma egoísta, a sociedade como um todo se beneficia. Cabe ao Estado interferir o menos possível nessa dinâmica e apenas deixar que as pessoas invistam livremente em seus interesses individuais. Surge então a teoria que sustenta, até hoje, a essência do capitalismo.

Logo, as inovações técnicas da Revolução Industrial permitiram que um grande número de pessoas tivesse acesso a bens materiais que estavam nas mãos da elite. O princípio de democratização do consumo foi levado adiante por Henry Ford que, ao criar sua companhia, em 1901, tinha como objetivo que todas as classes pudessem adquirir um carro, até então um artigo de luxo. Ford realizou seu desejo em 1908, com o lançamento do primeiro Modelo T, um automóvel resistente, barato, simples de dirigir e fácil de consertar.

O industrial pretendia que seu carro popular fosse feito para durar e se preocupava em não fazer melhorias que tornassem o modelo anterior obsoleto. Graças ao desenvolvimento da linha de montagem e da escala de produção, Ford conseguiu baratear cada vez mais o preço de seu Modelo T, que passou de US$950, em 1909, para US$290, em 1924.

Devido ao desenvolvimento da linha de montagem, produtos industrializados mais complexos como os carros e os eletrodomésticos deixaram de ser privilégio e se tornaram acessíveis para muitos. As famílias médias norte-americanas logo possuíam bens materiais em abundância, destinados às mais diversas ações. As empresas, movidas por questões econômicas, mudariam radicalmente a visão e o papel do consumo na sociedade.

Durante a década de 1920, percebendo que logo poderiam ter um excesso de produção, as empresas resolveram investir no aumento da demanda. A solução seria fazer com que as pessoas quisessem comprar coisas novas mesmo que as coisas antigas ainda estivessem funcionando. Acabava a era do consumo que servia para suprir as necessidades. A criação e o constante estímulo à aquisição de bens materiais se tornariam ações centrais no desenvolvimento da sociedade. A chave para a prosperidade econômica era a criação organizada da insatisfação, pois se todos estivessem satisfeitos ninguém teria interesse em comprar coisas novas. A insatisfação social seria organizada de duas maneiras: a obsolescência dos produtos e a propaganda.

A obsolescência dos produtos faz parte de uma estratégia de mercado que pretende manter o consumo constante fazendo com que os produtos parem de funcionar (obsolescência programada) ou tornem-se obsoletos em pouco tempo (obsolescência percebida), tendo que ser substituídos.

A obsolescência programada consiste em simplesmente reduzir a vida útil do produto, fazendo com que ele funcione cada vez menos tempo. Esse tipo de obsolescência teve início com as lâmpadas elétricas. Em 1924, as lâmpadas duravam cerca de 2.500 horas, enquanto que em 1940 o padrão já havia sido reduzido para 1.000 horas.

No que se refere à obsolescência percebida, trata-se da essência da política das empresas contemporâneas: lançamentos no mercado de novos modelos com mínimas atualizações, apenas com o objetivo de tornar obsoletos os produtos anteriores. Assim, os consumidores sentiriam a necessidade de se manter sempre atualizados com bens de última geração, descartando produtos antigos, ainda que estejam em funcionamento.

Hoje, tais estratégias comerciais, iniciadas na primeira metade do século 20, chegaram ao extremo, sobretudo em relação aos bens tecnológicos. Aparelhos de telefonia móvel são produzidos para serem trocados, em média, a cada ano. Um exemplo tradicional de obsolescência percebida é o Ipod: lançado em 2001, o aparelhinho já havia passado por seis “gerações” em 2009, levando-se em conta apenas o modelo “clássico”. Se incluirmos as variações do mesmo produto, como o Shuffle, o Nano, o Mini e o Touch, são impressionantes 24 modelos de um mesmo produto, tudo isso em apenas 11 anos. Além disso, a bateria do primeiro modelo de Ipod era produzida para durar apenas um ano; depois desse período, o consumidor seria obrigado a comprar um novo produto, pois o aparelho era produzido de uma forma que praticamente impossibilitava a reposição de bateria.

De forma ampla, essas práticas comerciais aumentaram de forma drástica a demanda por recursos naturais e aceleraram a produção de lixo. Cada vez mais computadores, celulares e eletrodomésticos, ainda em pleno funcionamento, são descartados. A obsolescência dos produtos aumentou a demanda; mas isso ainda não era suficiente para as empresas, pois o consumidor não possuía a autonomia de escolher quando se atualizar. A solução seria encontrar uma forma de aumentar a insatisfação e estimular os desejos de consumo. Surgem então as técnicas de controle e de manipulação das massas desenvolvidas a partir das teorias psicanalíticas de Freud sobre o ser humano.

Eleito pela revista Time um dos norte-americanos mais influentes do século 20, Edward Bernays foi o criador da propaganda moderna. Ele utilizou as ideias de seu tio, Sigmund Freud, para manipular as emoções e os desejos das massas. Bernays acreditava que ao conhecer as motivações das pessoas, seria possível influenciar seu comportamento sem que elas se dessem conta disso. Ao vincular bens materiais a desejos inconscientes, Bernays ensinou às indústrias como fazer as pessoas desejarem algo de que não precisam de fato. A propaganda não se limitaria mais a apresentar o produto e a informar sobre suas qualidades. Agora, a publicidade teria o objetivo de influenciar a audiência, produzindo respostas emocionais e não racionais aos produtos. Nesse momento, surge a noção de consumismo como é compreendida atualmente, tornando-se uma forma de explorar mentes, emoções e identidades das pessoas.Medos e inseguranças são manipulados de modo a serem traduzidos em desejos de produtos materiais, e a sociedade é então condicionada a desejar sempre além.

Para aumentar o desejo das pessoas, o consumismo instiga as inseguranças e as carências emocionais, gerando cada vez mais ansiedade e depressão nos indivíduos. Tal fato ocorre pois a propaganda na cultura consumista é baseada em uma falsa promessa de felicidade. Os bens materiais são vendidos como uma forma de suprir carências que não são do âmbito material. Estimula-se a busca da solução de problemas emocionais através da aquisição de produtos comerciais. A propaganda vende a ideia de que mais produtos nos farão mais amados, mais estimados, mais felizes e mais valorizados. A verdade é que, quanto mais tempo o indivíduo gasta focado na aquisição dos bens, menos tempo ele possui para cultivar vínculos afetivos com a família, os amigos e a comunidade.

A dinâmica “mais produtos = menos vínculos” não foi pensada ao acaso. Bernays acreditava que as massas eram irracionais e perigosas e que deveriam ser controladas. Para ele, a democracia sem o controle da população configurava um fator de risco para a estabilidade social. Nesse sentido, seu método de propaganda buscava manter as massas ocupadas em busca da felicidade através de bens materiais. Quanto mais o consumismo é estimulado, menos as pessoas se interessam pela participação ativa na política. Na cultura consumista, as pessoas são induzidas a acreditar que a felicidade não depende do Estado ou da sociedade, mas dos produtos criados pelas empresas. O cidadão que busca a realização pessoal através da participação política transforma-se no consumidor que passivamente aguarda as empresas realizarem seus desejos. A liberdade política torna-se então a liberdade de consumir. Dessa forma, a combinação de democracia e consumismo é a fórmula perfeita para manter o povo longe do poder e preservar o status quo.

Além da apatia política, a cultura consumista estimula o egoísmo, a inveja e promove a desagregação social. Em uma sociedade baseada no consumismo, não basta ter o suficiente para viver bem; o consumismo é comparativo. Assim, manipula-se o desejo a fim de possuir mais do que o outro: mais do que o vizinho, mais do que o colega de trabalho, mais do que as pessoas que aparecem nas mídias sociais e tradicionais. Isso gera uma infinita insatisfação e um ciclo de consumo cada vez em proporções maiores. As pessoas tornam-se isoladas, centradas nos próprios desejos; e, por sua vez, a sociedade é construída de forma mais fragmentada.

O consumo tem se consolidado como o objetivo central da vida pessoal, arregimentando as esferas do lazer, da cultura, da vida social e familiar. Os shoppings estabeleceram-se como novos templos de dedicados súditos, espaços nos quais as pessoas reúnem-se, consomem e passam seu tempo livre. Entretanto, deve-se observar que, ao contrário dos antigos templos e das praças públicas, nos shoppings a vida social se empobrece e é reduzida ao simples ato solitário de comprar.

Porém, o consumismo nem sempre triunfou sem oposição. Algumas vozes dissonantes surgiram no decorrer do século 20. Dentre elas, as mais expressivas estão ligadas à cultura hippie nos anos 60, e do movimento punk, nos anos 70.

A cultura hippie floresceu nos anos 1960 nos EUA, epicentro do consumismo. Os hippies rejeitavam as hierarquias e as instituições estabelecidas, contestavam os valores da classe média, opunham-se às armas nucleares e à guerra e eram comumente vegetarianos. Eles utilizavam-se de artes alternativas como o teatro de rua e o rock psicodélico para expressar suas ideias e valores. Opondo-se à política tradicional, cultivavam ideias não doutrinárias e libertárias em favor da paz, do amor e da vida em comunidade.

Desiludidos pela sociedade moderna extremante individualista, egoísta e competitiva, decidiram viver em comunidades próprias e independentes, adotando um estilo de vida coletivo que estimulava a cooperação e a comunhão com a natureza. Nessas comunidades, as decisões são consideradas coletivamente, não havendo hierarquias, e todos os participantes exercem alguma função. Adota-se como prática o cultivo dos próprios alimentos e o comércio ocorre entre os moradores através da troca ou da permuta.

Já a cultura punk surgiu nos anos 70 nos EUA e na Inglaterra. Ela se caracteriza por ser um movimento extremamente urbano que, de forma ampla, defende uma visão anarquista centrada na autonomia do indivíduo, opondo-se à mídia tradicional, ao Estado, às instituições religiosas e às grandes corporações capitalistas.

A primeira manifestação cultural do punk foi no âmbito musical. O punk rock surge como a retomada de um estilo autêntico, no qual o mais importante é a expressão individual, pois os membros estavam profundamente decepcionados com a cena do rock que, na época, se mostrava vinculada à grande indústria da música. O showbizz americano e inglês tinha como preocupação produzir estrelas e divulgá-las em grandes shows, criando artistas que, na visão dos punks, careciam de autenticidade. Assim, a cultura punk começou a produzir músicas curtas e bastante simples, tocadas com pouco mais do que três acordes, sendo facilmente reproduzidas por qualquer pessoa sem formação musical. Essa concepção musical tinha como objetivo instigar outros jovens a criar suas próprias bandas. Surgia então uma grande expressão do anticonsumismo: a cultura do “faça você mesmo” (do inglês do it yourself – DIY).

O princípio do “faça você mesmo” relaciona-se ao questionamento tanto da necessidade de comprar coisas quanto dos processos existentes que impulsionam a dependência do indivíduo às estruturas sociais vigentes. De acordo com a cultura punk, os indivíduos podem se expressar e produzir trabalhos sérios, ainda que com recursos limitados. As bandas punks gravavam suas próprias músicas, produziam e distribuíam os álbuns, e se apresentavam em garagens ou em porões, evitando o controle das grandes corporações e assegurando a liberdade de suas performances. Suas ideias circulavam através de fanzines, isto é, publicações caseiras realizadas, editadas e distribuídas por fãs.
Aparentemente, esses dois movimentos culturais perderam a força inicial após alguns anos, tendo sido, de certa forma, assimilados pela moda e pela sociedade consumista, ainda que isso soe paradoxal. Entretanto, pode-se afirmar que suas ideias demonstravam força suficiente para, cinquenta anos depois, ressurgirem como uma possibilidade alternativa à atual cultura de consumo.

Na verdade, longe de estarem esquecidos, muitos desses valores permanecem na nossa cultura em áreas inusitadas. É possível afirmar que a contracultura dos anos 60 promoveu o desenvolvimento do computador pessoal e a organização da internet. A concepção de uma grande rede mundial sem fronteiras, sem qualquer autoridade central, na qual indivíduos são livres para compartilhar informações, deve-se à influência hippie da cultura americana. Os valores hippies baseados nas ideias de comunhão e de colaboração mostram-se cada vez mais presentes no mundo virtual e tecnológico. Exemplo disso são os sites de construção coletiva estilo wiki; bem como os softwares livres e de código aberto, nos quais todos podem contribuir livremente e de forma espontânea para o desenvolvimento, o compartilhamento, a edição e a difusão de ideias e de conhecimento.

Na sociedade contemporânea, a internet permite o compartilhamento de ideias, tornando-se um instrumento capaz de estimular novas formas de consumo e de conexão entre as pessoas. A noção de consumo colaborativo vem crescendo em meio à troca de ideias, pondo em cena práticas alternativas que envolvem trocar, emprestar, reusar e revender objetos. Torna-se cada vez mais comum grupos que se organizam e se reúnem a fim de trocar roupas, brinquedos e livros; planejando caronas; compartilhando carros e aparelhos eletrônicos; praticando a permuta de serviços; fazendo uso do sistema de book crossing ou couchsurfing. As atividades são realizadas e negociadas diretamente entre as pessoas, estimulando os laços de comunidade e permitindo viver bem com menos dinheiro. Em tais práticas, o indivíduo é valorizado pelo modo como interage com a comunidade, marcando o surgimento de um novo tipo de capital: o capital social.

O movimento do “faça você mesmo” hoje é mais presente do que nunca. Através de vídeos e aulas pela internet, na rede é possível ter acesso a possibilidades infinitas de aprender a produzir e a divulgar suas próprias realizações, fugindo da cultura passiva consumista e buscando a realização pessoal de forma ativa. Hoje pode-se plantar vegetais em casa, fazer cerveja caseira, costurar as próprias roupas e até mesmo produzir objetos manufaturados. A produção pode ser individual ou coletiva, e os objetos podem ser feitos para o próprio consumo ou para a venda, pois o século 21 aumentou a produtividade da produção de pequena escala. Pode-se exercitar a criatividade, desenvolver novas habilidades e talentos e a criatividade em novas formas de produzir bens de consumo. A ética do “faça você mesmo” dá poder aos indivíduos e às comunidades, encorajando o emprego de abordagens alternativas para a solução de problemas.

Assim, observa-se que a sociedade consumista enfraquece os laços sociais, estimula o individualismo, e retira a autonomia dos indivíduos, que se tornam consumidores passivos, cujo único poder é a escolha entre a marca A ou a marca B. Em contrapartida, a cultura hippie e seus ideais fortalecem a ideia de coletividade e de colaboração. O princípio do “faça você mesmo” estimula a autonomia, dá poder e liberdade aos indivíduos.

Um novo modelo cultural pode entrar em cena, criado à luz de ações que priorizam a partilha de produtos e de conhecimentos, a produção de bens de consumo, e o comprometimento crítico por seu modo de vida, a fim de consolidar conexões sociais e comunitárias. Meio século depois do surgimento dos hippies, eles e os punks são mais atuais que nunca: já temos todas as ferramentas que possibilitam promover  de uma sociedade mais feliz, socialmente mais justa e ecologicamente sustentável, bem como o desenvolvimento de uma economia de abordagem essencialmente humana, e não simplesmente monetária. Teremos coragem para usá-los?

Fonte: OUTRAS PALAVRAS

"Amazônia Pública: Estrada de Ferro Carajás"

PICICA: "Esse vídeo faz parte de uma série de reportagens intitulada "Amazônia Pública", produzida pela Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo."

Amazônia Pública: Estrada de Ferro Carajás 

A Estrada de Ferro Carajás, com 892 km, liga as minas da Serra dos Carajás (PA) a portos no MA, onde o minério extraído pela Vale sai para exportação



Esse vídeo faz parte de uma série de reportagens intitulada "Amazônia Pública", produzida pela Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo.  O trabalho foi realizado entre os meses de julho a outubro de  2012 em três regiões amazônicas: no pólo de mineração em Marabá (PA); na bacia do Rio Tapajós; e em Porto Velho e as hidrelétricas do rio Madeira.

Essa reportagem conta a história da Estrada de Ferro Carajás, inaugurada no crepúsculo da ditadura militar, que com seus 892 km liga as minas da Serra dos Carajás (PA) aos portos de Itaqui e Ponta da Madeira, no Maranhão, onde o minério extraído pela Vale S/A é embarcado para exportação. Até 2016, a empresa pretende aumentar a produção de ferro na região de 110 milhões para 230 milhões de toneladas/ano e, para isso, precisa duplicar a ferrovia. Na pressa para concluir o projeto de US$ 19,4 bilhões, esbarra na resistência de movimentos sociais da região, que alertam para os possíveis impactos sociais e ambientais da obra.

 Acesse: http://apublica.org/amazoniapublica/

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil

dezembro 26, 2012

Alabê de Jerusalém - um espetáculo que é uma lição de amor à Vida e amor à Terra... lição esquecida pela Secretaria de Estado de Cultura do Amazonas

PICICA:  Em homenagem à mangueira que perdeu a vida em Manaus para uma falsa homenagem ao menino Jesus. Perdoe-me, é que corre-me nas veias sangue paraense do meu velho pai.

"O Brasil e a Crise na Justiça", por Hugo Albuquerque

PICICA: "Certamente desde que por obra e graça do golpe de 64 a nossa melhor composição do STF foi desfeita -- que contava com juristas do porte de um Victor Nunes Leal, um Hermes Lima ou de um Evandro Lins e Silva --, as coisas andem mal, com repercussão também nos cursos de letras jurídicas. O resultado é que as gerações de juristas formadas depois está longe do brilhantismo das anteriores, os cursos de Direito perderam o ímpeto transformador de antes e se converteram em fábricas de burocratas. Se os juristas de hoje estão longe dos de antigamente, a escolhas do executivo, mesmo em governos de "esquerda" consegue ser pior. Não teríamos como reproduzir de forma alguma a qualidade do STF pré-64, mas isso não quer dizer que os 11 melhores jurístas possíveis sejam hoje os ministros daquele tribunal."

 

O Brasil e a Crise na Justiça

Final de ano, período entre Natal e ano novo, e estamos diante de uma grave crise na Justiça. Não custa lembrar que antes de ser uma pátria de chuteiras, o Brasil era uma pátria de bacharéis, mas por qualquer motivo perdeu a vocação para tanto. Isso até o julgamento da Ação Penal 470, vulgo julgamento do "mensalão", cereja no bolo no processo de aumento do poder do Supremo Tribunal Federal (STF) -- e de todo um estado de coisas que apontam para a judicialização da vida no nosso país. Como aponta o sempre atento Paulo Nogueira, passamos de especialistas em futebol e economia para, também, entendedores de Direito. 
Ainda assim, seguindo a sagaz observação de Paulo, não é para tanto: o STF não tem a confiança de metade da população, em que pese toda a superexposição positiva dada pela mídia, o que demonstra que a coisa é grave, mas confrontável. E, sobretudo, que precisa ser confrontada mesmo pela sociedade, haja vista a maneira como Joaquim Barbosa e Luiz Fux foram indicados para aquele tribunal (ainda mais o último, depois de sua lamentável confissão de como conseguiu a indicação), sem contar todos os demais -- dentre os quais se inclui até um primo do ex-presidente Collor, indicado pelo próprio antes dele ser defenestrado em processo de impeachment.
Mesmo assim, tomemos cuidado: o STF pode não estar com a bola toda, mas atuações punitivistas espetaculares são populares aqui e em todo mundo "civilizado" desde sempre: e bem o sabem filósofo Sócrates e o aniversariante de ontem, Jesus Cristo. A massa pune e quer sangue; o desejo de vingança é expressão máxima do homem na civilização, talvez pelo ressentimento de viver sob as amarras civilizatórias;  no caso da AP 470, qualquer análise lógica dos fatos apontam para tanto: no lugar de se mostrarem isentos, os ministros se revelaram escravos do punitivismo midiático, sem provas e sem teoria como nos lembra Luiz Moreira ou que para condenar, só com atos de ofício como postula Pedro Serrano. 
As coisas também são mais complicadas do que isso: é preciso lembrar que a dureza dos ministros com José Dirceu ou o militante italiano Cesare Battisti (sobretudo com o último) contrasta com sua leniência com banqueiros como Daniel Dantas. Naquela corte, a opção entre o uso do garantismo penal e do direito penal do inimigo varia conforme o réu -- mas não conforme o freguês, que parece ser o mesmo em todos esses casos de relevo. Se as massas detêm um desejo confuso e geral de punição, a mídia corporativa sabe bem quem deve ser objeto dessa fúria toda.
Mesmo julgamentos poucos populares, mas que geraram direitos, apresentam um modus operandi: a corte apareceu como salvadora dos fracos e oprimidos, como se os direitos dos gays (ainda mitigados, apesar da conquista do direito à união estável) ou dos ativistas pela liberação de certas substâncias alucinógenas (como no caso da marcha da maconha) decorressem da boa vontade dos ministros, face ao suposto autoritarismo das massas, e não da atuação de inúmeros ativistas e organizações -- embora reconheçamos que as reivindicações legítimas que lograram êxito por ali foram aquelas que, de algum modo, conseguem ecoar também nos salões da elites, ao contrário, por exemplo, da causa indigenista, relegada sempre ao segundo plano.
A recente crise institucional entre o STF e o Congresso Nacional, peça final do julgamento da AP 470, foi um episódio curioso. O STF deliberou pelo aumento de sua própria competência e, ato contínuo, invadiu a esfera de competência do Legislativo por meio da suspensão de um dispositivo constitucional vigente (!). Ainda assim, como anota o juíz Marcelo Semer, a disputa parece um tanto mais retórica, uma vez que o Congresso se empenhou em aumentar o poder do STF gradativamente nos últimos anos, verticalizando a jurisdição e lhe colocando em um pedestal institucional. Lula e FHC merecem destaque nessa empreitada.
Certamente desde que por obra e graça do golpe de 64 a nossa melhor composição do STF foi desfeita -- que contava com juristas do porte de um Victor Nunes Leal, um Hermes Lima ou de um Evandro Lins e Silva --, as coisas andem mal, com repercussão também nos cursos de letras jurídicas. O resultado é que as gerações de juristas formadas depois está longe do brilhantismo das anteriores, os cursos de Direito perderam o ímpeto transformador de antes e se converteram em fábricas de burocratas. Se os juristas de hoje estão longe dos de antigamente, a escolhas do executivo, mesmo em governos de "esquerda" consegue ser pior. Não teríamos como reproduzir de forma alguma a qualidade do STF pré-64, mas isso não quer dizer que os 11 melhores jurístas possíveis sejam hoje os ministros daquele tribunal.   
Lula e Dilma têm responsabilidade nisso. O PT, assim como boa parte do país, se preocupou demais com assuntos de matéria econômica e pouco com o Direito. O partido da estrela apresentou, é verdade, soluções mais justas no campo econômico, mas não consegue dimensionar o tamanho devido à economia -- e o economicismo grassa no governo Dilma -- ao passo que lida pessimamente com as instituições. O recente veto ao projeto de lei que concederia autonomia às defensorias públicas -- projeto ratificado, inclusive, pelas lideranças do partido e por sua própria Casa Civil e Ministério da Justiça -- é uma mostra disso: falta na cúpula senso jurídico.
Há dois atrás, quando expus as razões do meu voto em Dilma, ressaltei que de todos os três âmbitos de atuação de um governo -- política externa, política econômica e política institucional --, o ponto mais fraco de Lula foi certamente no terceiro item. E as coisas prosseguem nesses termos, embora agora a ferida esteja exposta: os onze ministros do STF, triste ironia em um país no qual o futebol é tão popular, são tanto menos hábeis ou representativos do que os outros onze, que se alternaram na escrete canarinho nos últimos anos. Por outro lado, continuamos pensando muito em economia e pouco em direitos. É um cenário desalentador e fascinante ao mesmo tempo.
Fonte: O Descurvo

"Agentes da lei defendem legalização das drogas", por André Balocco

PICICA: "“Você já viu alguém tomando conta de uma vinícola com fuzis?”, emenda a juíza aposentada Maria Lúcia Karam, presidenta da organização. “Não viu, mas nos EUA, na época da proibição, era assim. A violência só acabou com a descriminalização”, conclui."

Agentes da lei defendem legalização das drogas



Formada por delegados, policiais e juízes, Leap Brasil diz que guerra aos narcóticos é a grande causadora da violência no país e defende regulação da produção pelo Estado



Rio - ‘Quem morre na guerra contra as drogas não é o usuário: é o policial e o traficante’. A frase, dita pelo ex-chefe do Estado-Maior da PM, coronel Jorge da Silva, resume bem a ideia de um movimento que vem ganhando corpo entre os profissionais responsáveis por aplicar a lei no Brasil: a guerra contra as drogas está perdida. Formada por policiais, delegados e magistrados, a Leap Brasil (Agentes da Lei contra a Proibição) acredita que somente a legalização do consumo e a regulação da produção serão capazes de conter a espiral de violência causada pela luta entre Estado e narcotráfico.

“Você já viu alguém tomando conta de uma vinícola com fuzis?”, emenda a juíza aposentada Maria Lúcia Karam, presidenta da organização. “Não viu, mas nos EUA, na época da proibição, era assim. A violência só acabou com a descriminalização”, conclui.
O coronel da PM Jorge da Silva (E), a juíza Maria Lúcia Karam e o delegado Orlando Zaccone:
 unidos pelo fim das mortes causadas pela ‘guerra’ | Foto: Carlo Wrede / Agência O Dia
Criada em 2010, a Leap Brasil vai ampliar sua atuação em 2012. Ela é baseada na sua coirmã norte-americana — de onde vem o maior interesse pela continuidade da política, por conta do bilionário lucro do mercado das armas. “Foi uma política criada pelo Nixon (presidente nos anos 60/70) para combater o movimento dos direitos civis nos EUA, que questionava a Guerra do Vietnã. Como não podiam prender pelo ativismo, prendiam pelo uso de drogas”, acrescenta o coronel Jorge da Silva. “Fui criado no Morro do Adeus, no Alemão, e até os anos 70 as armas eram as pedras atiradas pela garotada”.

O coronel acredita que o fim da guerra às drogas levará as comunidades do Rio a uma nova onda de solidariedade. E de paz. “Já enterrei muitos policiais. Quem morre é o preto, o pobre e o favelado. Vi muito mais gente morrendo na guerra contra as drogas do que por usar drogas”, conclui. “Ser a favor da legalização não é ser a favor da glamourização da droga”.

Procurada, a Secretaria de Segurança informou que não comentaria o assunto.

Delegado fala em ‘hipocrisia’

Delegado titular da 18ª DP, Orlando Zaccone tem pronto o discurso de defesa da Leap Brasil, organização da qual é o primeiro-secretário. “A diferença entre o traficante e o empresário é a legalização”, diz o policial. “Há hipocrisia neste tema. Enquanto o banco HSBC aparece no noticiário de economia pagando multa por lavagem de dinheiro do tráfico, só policiais e favelados morrem nesta guerra”, diz. “A guerra contra as drogas afeta a vida e a saúde de muito mais pessoas do que as próprias drogas”.

Pai, inspetor diz não temer ‘apologia’

Com 17 anos de polícia e membro-fundador da Leap Brasil, o inspetor Francisco Chao garante: não quer que sua filha, ainda criança, use drogas. “Mas se ela quiser, não vou conseguir impedir, mesmo sendo policial. Por isso, prefiro a droga legalizada, porque o Estado terá controle”, diz ele, que tem no currículo a prisão do traficante Elias Maluco, assassino do jornalista Tim Lopes, após intensa caçada no Alemão. “Na Europa, não se bebe na rua. Com as drogas legalizadas, devem fazer a mesma coisa ”.


Fonte: Arma Branca

"INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA - Especialistas criticam sua prática judicializada" (INFONOTÍCIAS DEFNET)

PICICA: "O professor da Escola de Serviço Social da UFRJ Eduardo Mourão Vasconcelos destaca que o crack chamou a atenção da sociedade porque, pela primeira vez, o uso da droga está chegando aos locais públicos no Rio de Janeiro.

“A cidade reterritorializa a pobreza, mas houve mudanças nessa dinâmica. A partir da década de 70, a territorialização muda, com formas mais humanizadas de tratamento. Mas é comum que as cidades turísticas e que recebem mega eventos esportivos ou culturais adotem a limpeza urbana e políticas higienizantes”, relata. De acordo com ele, com a rápida chegada do crack na cidade nos últimos cinco anos, houve uma tendência de se “apelar para a limpeza urbana” – com ações como a retirada, pela Polícia Militar, de usuários das ruas e o encaminhamento para centros de reabilitação compulsórios.  Para Vasconcelos, entretanto, “o vazio assistencial não justifica a internação compulsória em massa”."

INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA - Especialistas criticam sua prática judicializada


Especialistas criticam internação compulsória para usuários de crack

 



Tratamento inadequado faz com que muitos retornem ao uso do crack. (Tânia Rêgo/ABr) *(imagem publicada com um ser humano sentado no chão ao lado de um velho e roto sofá coberto por papelão, um sujeito em situação de rua, um brasileiro)
Rio de Janeiro - A maior dificuldade no enfrentamento ao uso de crack e outras drogas é a inexistência de uma rede de assistência forte e a falta de investimento dos governos nos últimos anos, analisa o psiquiatra Paulo Amarante, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz) e presidente da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme).

Desde 2002 existe uma legislação no Brasil que criava os Centros de Atenção Psicossocial para álcool e drogas (CAPs), que hoje são raríssimos. O governo federal, os estados e municípios não investiram”, afirma o pesquisador.

Para ele, o serviço oferecido pelos CAPs é eficiente por não trabalhar com a exclusão nem com a internação compulsória. “Ele não interna no sentido clássico, mas tem que ter leitos 24 horas, leitos de assistência, onde as pessoas sentem que são atendidas sem perder os seus direitos. A grande questão da internação compulsória, de todo tratamento feito sem vontade, é que ele tem baixa eficácia.”

Segundo Amarante, de 95% a 97% das pessoas internadas contra a vontade, seja de forma involuntária ou compulsória, retornam ao uso da droga. “Porque a pessoa não vai para a droga só pela droga, ela vai para a droga por alguma necessidade interna, alguma coisa social, alguma questão da sua estrutura familiar ou social que não dá conta do seu sofrimento, do seu vazio, não dá conta de algo que ela precise, então ela busca a droga”, relata.

Além da ampliação dos serviços ambulatoriais, Amarante defende a política de redução de danos, já implantada em diversos países. “Em vez de a pessoa usar o crack lá na rua, onde pode se cortar com a lata, ela tem um local onde é assistido. Pode parecer polêmico, mas é um certo preconceito, da nossa ideia de tratamento, de que tem que ser com uma abstinência completa”, diz.

“Se a pessoa está com uma carência, está com uma necessidade, é difícil de administrar. Você pode fazer drogas substitutivas, administradas. Quando chegam os redutores de risco, primeiro o usuário vê com desconfiança, depois vê que eles estão ajudando, e chega uma hora que a pessoa pergunta como ela faz para se tratar e sair daquilo”, completa.

O psiquiatra lembra da importância dos consultórios de rua, para fazer a abordagem e criar vínculos com os usuários. “Os redutores de risco se apegam àquilo que existe dentro de todo mundo, que é a vontade de melhorar, a vontade de se cuidar. Muitas vezes, o usuário está desesperado, sem domínio desse controle, aí se entregam às drogas”. 

Amarante cita também a inclusão pela arte como uma solução que tem obtido sucesso em vários lugares.

Especialista em psiquiatria forense e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria, o médico Talvane de Moraes afirma que o investimento em saúde mental no Brasil caiu muito de 1993 para 2011, com a redução de 120 mil leitos para cerca de 32 mil. Ele defende que a internação só deva ser usada como último recurso e a partir de uma relação médico-paciente, nunca por ordem judicial. “A internação psiquiátrica é um ato médico. A Constituição de 1988 preconiza a prevalência da vida e da liberdade, então qualquer modalidade de internação só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes. A internação deve ser usada sempre como exceção.”

A psicóloga Luana Ruff, pesquisadora do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ipub/UFRJ), lembra que o crack é uma droga de ação e dependência muito rápidas. “O crack é uma droga que causa devastação, muitos usuários se encontram em situação de rua e as pessoas têm dificuldade de procurar tratamento.”

Como caminhos para minimizar o problema, Luana aponta o trabalho em rede. “A abordagem clínica individualizada, com consulta médica, consulta psicológica, tratamento prioritariamente ambulatorial, equipe multidisciplinar e consultório na rua, para a criação de vínculo para, a partir daí, o usuário procurar a assistência”.

O professor da Escola de Serviço Social da UFRJ Eduardo Mourão Vasconcelos destaca que o crack chamou a atenção da sociedade porque, pela primeira vez, o uso da droga está chegando aos locais públicos no Rio de Janeiro.

“A cidade reterritorializa a pobreza, mas houve mudanças nessa dinâmica. A partir da década de 70, a territorialização muda, com formas mais humanizadas de tratamento. Mas é comum que as cidades turísticas e que recebem mega eventos esportivos ou culturais adotem a limpeza urbana e políticas higienizantes”, relata. De acordo com ele, com a rápida chegada do crack na cidade nos últimos cinco anos, houve uma tendência de se “apelar para a limpeza urbana” – com ações como a retirada, pela Polícia Militar, de usuários das ruas e o encaminhamento para centros de reabilitação compulsórios.  Para Vasconcelos, entretanto, “o vazio assistencial não justifica a internação compulsória em massa”.

O médico Luiz Carvalho Netto, coordenador de enfermaria da Unidade Docente-Assistencial de Psiquiatria do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (HUPE-Uerj), lembra que, apesar de o álcool ser a droga que causa mais danos à sociedade, ocrack causa mais problemas ao indivíduo.







De acordo com ele, o Brasil é o maior consumidor de crack e o segundo de cocaína, atrás apenas dos Estados Unidos. “Como perfil, nós temos como usuários homens adultos jovens, de baixa escolaridade e baixa faixa de renda, com família desestruturada e envolvimento em atividades ilegais. Cerca de 45% das pessoas experimentam a cocaína antes dos 18 anos e os usuários começam com drogas lícitas, como cigarro e álcool, até chegar ao crack.”



Para o tratamento, Netto aponta que o acesso a consultas precisa ser mais rápido, já que há uma tendência de o usuário desistir do tratamento na medida em que aumenta a espera pela primeira consulta.

Edição: Lílian Beraldo 
FONTE - http://www.ebc.com.br/noticias/saude/2012/12/especialistas-criticam-internacao-compulsoria-para-usuarios-de-crack-e

LEIAM SOBRE O TEMA NO INFOATIVO.DEFNET - 

OS NOVOS MALDITOS E AS NOVAS SEGREGAÇÕES: da Lepra ao Crack http://infoativodefnet.blogspot.com.br/2012/02/os-novos-malditos-e-as-novas.html


Fonte: INFONOTÍCIAS DEFNET

"Prisão perpétua em Manicômios Judiciários: Primeiro Censo revela violações de direitos em hospitais de custódia" (Arma Branca)

PICICA: "O estudo completo foi publicado no livro “Custódia e Tratamento Psiquiátrico no Brasil: Censo 2011”, de Debora Diniz. O livro, com tiragem de 3 mil exemplares, está sendo distribuído pelo Ministério da Justiça para bibliotecas, centros de pesquisa, órgãos e agências governamentais no campo da saúde mental e do sistema prisional, gestores, ministério público e demais instâncias jurídicas, além de OABs e Conselhos Federais ligados ao tema, entre outros. O livro também foi publicado em versão eletrônica. O e-book, com download e distribuição gratuita, pode ser encontrado aqui." EM TEMPO: A dica é do ex-Vice Presidente do Conselho Federal de Psicologia Marcus Vinicius Oliveira.

Prisão perpétua em Manicômios Judiciários: Primeiro Censo revela violações de direitos em hospitais de custódia




Estudo sistematiza, pela primeira vez, as informações psiquiátricas, jurídicas e sociodemográficas de uma população invisível e vulnerável: "os loucos infratores"

Censo nos Estabelecimentos de Custódia
 e 
Tratamento Psiquiátrico 2011
Ser contado é uma forma de existir. A partir de agora, os loucos infratores internados em hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico e alas psiquiátricas em presídios em todo o Brasil passaram a existir. O Censo nos Estabelecimentos de Custódia e Tratamento Psiquiátrico 2011, contou 3.989 homens e mulheres vivendo em regime de clausura para tratamento psiquiátrico compulsório por determinações judiciais: um contingente temido, pois são indivíduos tidos como perigosos para a vida social. Entretanto, o estudo mostra que o diagnóstico psiquiátrico de sofrimento mental não é o que determina a periculosidade de uma pessoa. O estudo foi financiado pelo Ministério da Justiça, por meio do Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN).

Principais resultados

Campo psiquiátrico: não há periculosidade inerente aos diagnósticos psiquiátricos. Há uma concentração populacional de esquizofrênicos o que deve indicar um filtro de entrada pelas perícias psiquiátricas, mas não uma periculosidade inerente a esse grupo. Indivíduos com diferentes diagnósticos psiquiátricos cometem de forma semelhante mesmas infrações penais. Ao contrário da clínica psiquiátrica civil, em que não há previsões de internação por tempo longo prédeterminado, o tempo médio de medida de segurança sem conversão de pena é de seis anos no país.

Campo penal: não são garantidas as determinações legais de permanência, laudos e decisões judiciais. A média de atraso para laudos psiquiátricos (10 meses, sendo que a legislação determina até 45 dias), média de atraso para exames de cessação de periculosidade (32 meses, sendo que a legislação determina a cada 12 meses), a presença de 606 indivíduos internados há mais tempo que a pena máxima em abstrato para a pena relativa ao ato infracional cometido, e a identificação de 18 indivíduos internados há mais de 30 anos são indicativos de graves violações de direitos.

recidiva específica para homicídio é de 1% no total da população e de 5% no total da população em medida de segurança, o que contesta a hipótese da grave periculosidade penal do louco.

Com uma esquizofrenia residual e deficit de atenção e inteligência,
Reginaldo (D) está há 31 anos detido em Salvador,
 tempo superior ao máximo permitido no país
Foto: Iano Andradade
Campo social: o perfil da população internada em medida de segurança representa a desigualdade do país: indivíduos negros, com baixa escolaridade, periférica inserção no mundo do trabalho, sem vínculos familiares. Há uma concentração de 12 homens para cada mulher, o que torna a situação das mulheres ainda mais dramática dado o perfil do crime cometido por elas (majoritariamente homicídio contra a família) e a baixa presença populacional para a garantia de direitos.

Campo legal: a medida de segurança se justifica por um dispositivo frágil do ponto de vista psiquiátrico e penal – a periculosidade do indivíduo. A medida de segurança não deve ser aplicada por tempo indeterminado, mas 17% da população internada após a Lei 10.216/2001 recebeu medida de segurança por tempo indeterminado. O segundo grupo populacional internado é de deficientes mentais (classificados pelo CID 10 como “retardo mental), sendo 16% da população total. O Brasil é signatário da Convenção de Pessoas Portadoras de Deficiência, a primeira do século XXI, em que se proíbe o tratamento da deficiência por confinamento.

Dados

A pesquisa apresenta dados nacionais e por instituição como a população total, população em medida de segurança, população temporária, proporção entre mulheres e homens, infrações penais mais comuns, população internada por instituição, indivíduos internados há mais tempo que a pena máxima em abstrato para a infração cometida, indivíduos internados há mais de trinta anos, quem são as vítimas dos indivíduos que cometeram crimes contra a vida, média de espera por laudos e exames de cessação de periculosidade, entre outros.

Avaliação

Os Hospitais de Custódia e Tratamento Psiquiátrico são instituições híbridas de confinamento penal e internação psiquiátrica. Elas abrigam indivíduos pobres, analfabetos, negros e em sofrimento mental, os desaparecidos da vida social. A periculosidade não é demonstrada pelos diagnósticos psiquiátricos nem pela trajetória criminal dos indivíduos. A reforma psiquiátrica dos anos 2000 não atingiu os HCTPs: a loucura ainda é mantida sob encarceramento para a proteção social. Políticas sociais devidas a essa população – em particular saúde e assistência – são periféricas para a
garantia de direitos. O principal direito violado é o direito a estar no mundo. Esses são indivíduos em regime de abandono perpétuo.

Quem fez a pesquisa

A pesquisa foi realizada pela Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, presidida pela médica Cássia de Castro. A coordenadora geral da pesquisa foi a antropóloga Debora Diniz, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da Anis. A entidade co-executora foi a Universidade de Brasília. Outros centros e institutos de pesquisa atuaram como consultores e
especialistas em diferentes etapas da pesquisa, tais como: IPUB/UFRJ; IBCCRIM; Ministério Público Federal; UERJ; Fiocruz; MPDFT; Justiça Federal; e MPGO. 



Publicação

O estudo completo foi publicado no livro “Custódia e Tratamento Psiquiátrico no Brasil: Censo 2011”, de Debora Diniz. O livro, com tiragem de 3 mil exemplares, está sendo distribuído pelo Ministério da Justiça para bibliotecas, centros de pesquisa, órgãos e agências governamentais no campo da saúde mental e do sistema prisional, gestores, ministério público e demais instâncias jurídicas, além de OABs e Conselhos Federais ligados ao tema, entre outros. O livro também foi publicado em versão eletrônica. O e-book, com download e distribuição gratuita, pode ser encontrado aqui.

Com informações: Anis

Fonte: Arma Branca