março 29, 2013

"Devir minoritário no “devir-evangélico” do Brasil", por Pedro Grabois

PICICA: "Para tornar mais nítido o que entendo por “devir minoritário”, a intervenção de Gilles Deleuze (1925-1995) é bastante oportuna. Deleuze traça uma interessante distinção entre maiorias e minorias. Estas não diferem entre si pelo número, não se trata de uma questão quantitativa, isto é, uma minoria pode ser mais numerosa que uma maioria. Enquanto a maioria se define por um modelo ao qual seria preciso estar conforme – e o exemplo dado por Deleuze é o do “europeu médio adulto macho habitante das cidades” –, a minoria configurar-se-ia como devir, como processo, não referindo-se a modelo algum. É neste sentido que Deleuze defende a ideia de um “devir minoritário”, que arrastaria por caminhos desconhecidos a todos aqueles que consentissem em segui-lo. Ele aponta que quando a minoria cria modelos é porque quer tornar-se majoritária, não sendo isto propriamente um problema, pois justamente do Estado, do ser reconhecido, do impor seus direitos dependem a sobrevivência e a salvação da minoria. No entanto, a potência da minoria está naquilo que ela cria e esta criação, mesmo passando para um modelo, permanece independente. “O povo é sempre uma minoria criadora, e que permanece tal, mesmo quando conquista uma maioria: as duas coisas podem coexistir porque não são vividas no mesmo plano”, declara Deleuze." 

Devir minoritário no “devir-evangélico” do Brasil

28/03/2013
Por Pedro Grabois


 munzer

Por Pedro Grabois

Por um “devir minoritário” no “devir evangélico” do Brasil: um esboço.

Muito tem se falado sobre os evangélicos no Brasil, sobre seu crescimento: em números por todo o território nacional, em presença nos espaços midiáticos e na política representativa. Em diferentes discursos sobre esse segmento da população brasileira, é frequente a vinculação entre o perfil do evangélico ao de uma pessoa reacionária, conservadora, preconceituosa, alienada, e portanto, racista, sexista e homofóbica.

Embora tal perfil exista (e isso não se pode negar), associar, de forma insistente, um ao outro soa como injusta redução, visto que a presença evangélica no Brasil, suas transformações, seu devir enfim, apontam para algo muito mais plural e diverso do que aquilo que se tenta delinear em pretensiosas formulações. Os próprios evangélicos, quando olham para si próprios, tem, pelo menos, duas opções: ou reforçam a fragmentação do mundo evangélico, lançando olhares desconfiados sobre seus pares; ou aproveitam a pluralidade dos grupos para experimentar, nos diferentes espaços que encontram, outras formas de relacionar-se consigo mesmos e com os outros. Neste segundo caso, eles mesmos reconhecem-se como parte de um grupo plural e diverso, impossível de ser representado univocamente. Não há, portanto, motivo para ignorar a heterogeneidade dos evangélicos, uma vez que eles mesmos afirmam diariamente esta impossibilidade de homogeneização.

Eu mesmo, enquanto evangélico “por opção”, falo a partir desses diferentes atravessamentos vividos no âmbito do movimento evangélico. Estou longe de ver o fenômeno “evangélicos no Brasil” como algo fechado e amarrado. Prefiro pensar num “devir evangélico” do Brasil e naquilo que pode se constituir como um devir minoritário neste devir evangélico.

Não falo apenas de, mas por um devir minoritário no devir evangélico do Brasil. Este acontecimento bastante marginal, mas não sem importância, no “interior” do campo evangélico brasileiro, não está apenas diante de meus olhos, mas nele tomo parte cotidianamente. Falo em defesa de um devir minoritário no devir evangélico sem a pretensão de dizer que se trata de um devir minoritário dos evangélicos brasileiros em geral. Embora também não se possa negar que o devir minoritário esteja no próprio gérmen desse devir evangélico, sobretudo pela relação entre as “identidades” evangélico e pobre na história recente do país, seria muita pretensão dizer que haja de fato um movimento de grande alcance que tomaria de assalto todo o meio evangélico brasileiro. Há uma potência no movimento evangélico e nas formas de vida por ele, especificamente, mobilizadas, mas a direção dessa força não está dada. Portanto, cabe dizer que o devir minoritário e o devir evangélico são dois processos que se atravessam ou que podem se atravessar.

Para tornar mais nítido o que entendo por “devir minoritário”, a intervenção de Gilles Deleuze (1925-1995) é bastante oportuna. Deleuze traça uma interessante distinção entre maiorias e minorias. Estas não diferem entre si pelo número, não se trata de uma questão quantitativa, isto é, uma minoria pode ser mais numerosa que uma maioria. Enquanto a maioria se define por um modelo ao qual seria preciso estar conforme – e o exemplo dado por Deleuze é o do “europeu médio adulto macho habitante das cidades” –, a minoria configurar-se-ia como devir, como processo, não referindo-se a modelo algum. É neste sentido que Deleuze defende a ideia de um “devir minoritário”, que arrastaria por caminhos desconhecidos a todos aqueles que consentissem em segui-lo. Ele aponta que quando a minoria cria modelos é porque quer tornar-se majoritária, não sendo isto propriamente um problema, pois justamente do Estado, do ser reconhecido, do impor seus direitos dependem a sobrevivência e a salvação da minoria. No entanto, a potência da minoria está naquilo que ela cria e esta criação, mesmo passando para um modelo, permanece independente. “O povo é sempre uma minoria criadora, e que permanece tal, mesmo quando conquista uma maioria: as duas coisas podem coexistir porque não são vividas no mesmo plano”, declara Deleuze.

“Evangélicos e católicos somos maioria absoluta no país. [Em] nenhum Estado democrático de direito, minoria vai cercear maioria”, declarava um influente e midiático líder evangélico em ato contra a PLC 122 (que criminaliza a homofobia) em junho de 2011. Este discurso inflamado de ódio e paixão é parte do avesso do que tratamos aqui, é parte de um devir majoritário, que, não se pode negar, atravessa muitas mentes e corações evangélicas e não-evangélicas no Brasil de hoje e de antigamente. Bastante conhecido de todos, é em geral sobre esse devir majoritário, sobre esse conservadorismo, que se insiste em falar. O discurso majoritário lança mão de um ecumenismo oportunista que une setores evangélicos e católicos para pautar os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, sobretudo no que diz respeito ao aborto, e os direitos ligados à cidadania LGBT, sobretudo no que diz respeito à homofobia e ao casamento civil igualitário. Digo ecumenismo oportunista, justamente porque os movimentos evangélico, ecumênico e de diálogo interreligioso são, ao contrário, movimentos historicamente marcados por uma dimensão muita mais libertadora e emancipadora no que se refere a conquista de direitos e lutas sociais e políticas daqueles que são perseguidos por sistemas de poder hegemônicos. É no “lastro histórico” desses movimentos que se pode encontrar um devir minoritário no devir evangélico do Brasil. É sobre esse devir minoritário que se deveria falar quando se fala dos movimentos evangélicos no Brasil de hoje. Como criar algo novo e “lutar por uma justiça” para além da (e até mesmo contrária à) Justiça instituída, se só tratamos do oportunismo dos outros?

Há hoje diferentes movimentos de dentro das próprias igrejas ou a elas atrelados, que não somente reconhecem aquilo que já não se pode negar – a existência de discriminações insistentemente dirigidas a mulheres, pobres, negros e gays “dentro” e “fora” da vida da fé -, mas que também se empenham em enfrentar toda forma de dominação na sociedade e no interior da própria vida comunitária das igrejas. Não podemos mais negar a capacidade da religião, e aqui especialmente dos evangélicos, como força política criadora de outros modos de vida, de outras formas de subjetivação, que não se sujeitam a e não aceitam tacitamente o poder das velhas práticas instituídas concernentes a todos os problemas da vida contemporânea (cultura, sexualidade, raça, gênero, drogas, classe, políticas, etc.).

Basta circular um pouco pela região metropolitana do Rio de Janeiro para encontrar uma série de pessoas – de diferentes gerações, mas com número expressivo de jovens – e grupos do e no meio evangélico que questiona o racismo, o classismo, o machismo e a homofobia presentes não apenas nas igrejas, mas nas escolas, ruas da cidade, no campo, nas universidades, nos ambientes familiares e de trabalho. De forma organizada em movimentos ou em redes sem ponto central, é cada vez mais frequente encontrarmos isso que chamo de uma “nova subjetivação evangélica”. Essa nova subjetivação aponta para algo que ainda não sabemos bem o que é, mas que passa por um resgate histórico das próprias contribuições da lutas dos evangélicos por justiça, no sentido de quebrar com os sistemas de inclusão/exclusão que hoje se apresentam ainda como inescapáveis evidências.
Essa nova subjetivação evangélica é atravessada por um devir minoritário. Ela está, assim, em cada ação afirmativa local e global: quando o crente comum expressa sua identidade estratégica dentro de uma série de disputas e reivindicações que atravessam hoje a sociedade. Essa identidade estratégica não faz apenas menção ao ser cristão e ao ser bíblico como essência, mas insere essa dimensão de pertencimento numa agenda propositiva que entrecruza-se com outras identificações: mulher, trabalhadora, estudante e negra, por exemplo. Não se trata de demarcar e fixar a própria identidade, mas perceber o quanto ela mesma é processo (não apenas individual) de subjetivação, processo de ir em direção ao outro, ao outro que há nos outros e ao outro constitui a nós mesmos.

Esse devir minoritário no devir evangélico do Brasil, sendo um movimento essencialmente dos leigos e não dos pastores (mas sem excluí-los), não passa necessariamente por uma revisão da elaboração teológica ou da fé devocional de cada um. Trata-se antes de um movimento que começa por um questionamento cada vez mais abrangente das velhas práticas de demonizar o outro e que aponta para novas formas de afirmar o direito que o outro tem de ser outro, e subsequentemente, o direito que nós temos de ser outros. Esse devir minoritário, essa nova subjetivação evangélica não significa, necessariamente a abertura de novas igrejas, com novas roupagens ou novas morais.

O que temos diante de nós é antes um movimento marginal, sutil e radical que atravessa as pessoas e instituições. É neste espaço do novo que a fé, a espiritualidade e também a religião têm chance de dizer não ao devir majoritário, que por detrás do discurso da família e dos bons costumes esconde, dentre outras coisas, a morte e o encarceramento de milhares de jovens pretos e pobres, filhos de um projeto religioso e social fundamentalmente excludente. Além do dizer não, tem-se a chance de construir outros modos de vida, que sejam radicalmente afirmativos das vidas e vozes que têm sido abafadas, dentro e fora do meio evangélico.

Pedro Grabois é articulador da Rede Fale, evangélico da igreja batista, blogueiro do www.justicaintegral.blogspot.com e doutorando em Filosofia (Uerj).

Imagem: Capa de HQ sobre Thomas Müntzer (1489-1525), teólogo protestante, citado por Marx como um dos primeiros comunistas, que liderou uma insurreição de sem terras até ser derrotado no campo de batalha pelo exército dos senhores. Sob tortura, não “abjurou” da causa, declarando como últimas palavras que omnia sunt communia (tudo é comum de todos).
Fonte: Rede Universidade Nômade do Brasil

"Sobre o infeliz debate com Feliciano", por Rita de Cássia de Araújo Almeida

PICICA: "O infeliz debate com Feliciano levanta questões muito importantes, na verdade, questões fundamentais e sobre as quais devemos pensar. Algumas delas: Queremos um Estado laico ou um Estado que fique subordinado a esta ou aquela crença religiosa? Queremos um Estado que aposte no respeito às diferenças – sejam elas de cor, credo, gênero ou identidade sexual – ou queremos um Estado que reforce discursos machistas, homofóbicos, racistas e/ou preconceituosos? Queremos um Estado que se paute no debate democrático ou na profusão e imposição de conceitos e discursos já prontos, em geral, moralistas e hegemônicos? Queremos um Estado que promova a educação para a liberdade, por defender o aprendizado de múltiplas verdades, ou uma educação que se baseie em dogmas e que, por isso, acredite numa única verdade? Queremos participar mais da vida política do nosso País ou o nosso compromisso com a democracia deve terminar ao apertamos o botão “confirma” da urna eletrônica? Queremos que o voto seja uma relação de compromisso entre eleitor e eleito ou um cheque em branco? Queremos debater ideias, propostas, projetos ou queremos apenas ser capazes de distinguir entre dois tipos de políticos ou partidos: os “ficha limpa” e os “ficha suja”?" 

Sobre o infeliz debate com Feliciano

por Rita de Cássia de Araújo Almeida
psicanalista


Dizem por aí que política não se discute. Na minha modesta opinião tal afirmação é o maior dos contra sensos, afinal, a boa política é exatamente aquela que se constrói a partir de um bom debate de ideias, ou seja, no travar de uma boa discussão. Vale lembrar que quando eu falo de política, me refiro aquela que tem como pressuposto ético a construção do bem estar comum, do bem da coletividade.

Não sei se é uma característica apenas da política brasileira, mas percebo que nosso debate político tem se tornado cada vez mais pobre e rasteiro. Nossa tão comemorada e ainda jovem democracia carece de um bom debate ideológico (de ideias) que ultrapasse as questões meramente econômicas (inflação, juros, crescimento econômico, PIB) ou que transcenda o clamor pelos chamados “políticos ou partidos ficha limpa”.

Eu confesso que também participei deste acalorado debate e me coloquei ao lado dos que exigiam “ficha limpa” para os nossos digníssimos candidatos, mas diria que hoje, essa bandeira não me seduz tanto como antes. Percebo que, depois dela, nossa discussão política tomou um rumo ainda mais tosco e empobrecido, já que a grande questão passou a ser: quem é ficha limpa e quem não é, ou qual o partido político se tornará um exemplo de limpeza, livre da corrupção e do mau-caratismo - como se isso fosse o suficiente para qualificar nossa política.

Mas eu queria mesmo tratar do nosso debate político mais atual que é a eleição do Deputado Marco Feliciano para a Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. E temos visto um debate ferrenho sendo travado por conta desta inusitada eleição, já que o referido Deputado, que também é Pastor Evangélico, é famoso por fazer declarações racistas e homofóbicas, completamente destoantes de uma comissão que pretende defender minorias e vítimas de violência e opressão e ainda mais destoante do cristianismo que ele diz professar.

A verdade é que este fato, apesar de ter levantado temas que parecem óbvios para muitos de nós – que ninguém pode ser desqualificado, discriminado ou desrespeitado pela sua cor, pela sua identidade sexual, pela sua escolha religiosa ou ceticismo – ele eleva muito o debate político. O infeliz debate com Feliciano levanta questões muito importantes, na verdade, questões fundamentais e sobre as quais devemos pensar. Algumas delas: Queremos um Estado laico ou um Estado que fique subordinado a esta ou aquela crença religiosa? Queremos um Estado que aposte no respeito às diferenças – sejam elas de cor, credo, gênero ou identidade sexual – ou queremos um Estado que reforce discursos machistas, homofóbicos, racistas e/ou preconceituosos? Queremos um Estado que se paute no debate democrático ou na profusão e imposição de conceitos e discursos já prontos, em geral, moralistas e hegemônicos? Queremos um Estado que promova a educação para a liberdade, por defender o aprendizado de múltiplas verdades, ou uma educação que se baseie em dogmas e que, por isso, acredite numa única verdade? Queremos participar mais da vida política do nosso País ou o nosso compromisso com a democracia deve terminar ao apertamos o botão “confirma” da urna eletrônica? Queremos que o voto seja uma relação de compromisso entre eleitor e eleito ou um cheque em branco? Queremos debater ideias, propostas, projetos ou queremos apenas ser capazes de distinguir entre dois tipos de políticos ou partidos: os “ficha limpa” e os “ficha suja”? Sim, meus caros leitores e leitoras, eleitores e eleitoras, porque a última que eu “ouvi” sobre o caso é que o PSC, partido de Marco Feliciano, sustenta sua manutenção na Comissão de Direitos Humanos alegando que ele é “ficha limpa”.

E foi nessa hora que senti saudades de um tempo, que eu conheço mais de ouvir falar, em que tínhamos na vanguarda da política nacional extraordinários, valentes e notórios “fichas sujas”. Homens e mulheres considerados foras da lei, condenados, presos, torturados e/ou extraditados por defender os ideais de uma sociedade mais livre, democrática e justa.

O infeliz debate com Feliciano precisa abrir nossos olhos, ouvidos e principalmente nossa boca, e nosso corpo inteiro precisa se ocupar de discutir política ou estamos sujeitos a ter como nossos representantes nas Câmaras, Congressos e Senado tipos como esse, comprometidos apenas com sua própria verdade ou a verdade de seu gueto e de parco ou nenhum compromisso com o bem estar comum.

PS: E aproveitando a oportunidade: Feliciano, definitivamente, NÃO ME REPRESENTA. 


Fonte: Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar...

março 28, 2013

"Como os ingleses reagiram aos abusos da mídia", por Venício A. de Lima

PICICA: "Há duas lições básicas para o Brasil no que vem ocorrendo na Inglaterra desde o escândalo que revelou os crimes do tabloide News of the World – relevadas, é claro, as enormes diferenças entre as duas sociedades.

A primeira, específica para os que ainda não conseguem conviver com a ideia, é de que a regulação – veja só – da mídia impressa é necessária, é possível e é democrática. Ela é fundamental para que a liberdade de expressão seja de todos e não apenas de alguns poucos. Ela visa garantir direitos, e não o contrário.

A segunda lição, importantíssima, se refere ao “como” os ingleses conseguiram viabilizar a nova regulação da mídia impressa: através da negociação, do entendimento entre os seus principais partidos, da situação e da oposição, no Parlamento." 

Como os ingleses reagiram aos abusos da mídia


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Parlamento cria órgão regulador autônomo, independente tanto do governo quanto das empresas de comunicação, com poderes para defender cidadãos. No Brasil, tema continuará tabu?

Por Venício A. de Lima, no Observatório da Imprensa

Quatro meses depois da publicação do Relatório Leveson (ver “Alguma lição para o Brasil?“), os três principais partidos ingleses – Conservador, Trabalhista e Liberal Democrata – anunciaram em 18/3 o fechamento de um acordo para regulação da imprensa (jornais, revistas e internet) no Reino Unido.
A nova instância, independente do governo e das empresas de mídia, substituirá a agência autorreguladora Press Complaints Commission, formada por integrantes da própria imprensa, que o Relatório Leveson considerou incapaz de coibir os crimes cometidos pela imprensa britânica além de funcionar, na prática, como um lobby dela mesma, a imprensa.

A agência reguladora terá poderes de um órgão fiscalizador, poderá aplicar multas de até um milhão de libras (cerca de três milhões de reais) ou de até 1% do faturamento das empresas de mídia; adotará medidas gerais para proteção do cidadão comum, além de poder obrigar jornais, revistas e sites de internet com conteúdo jornalístico a publicar correções de matérias e pedidos de desculpas. Mais importante: o novo órgão regulador será amparado legalmente por uma Carta Real (Royal Charter), assinada pela rainha Elizabeth II, da qual constará uma cláusula rezando que “não pode ser adulterada pelos ministros”, mas apenas pela maioria de dois terços nas duas Câmaras do Parlamento britânico.
A adesão das empresas de mídia ao órgão será voluntária, mas a não adesão implicará o risco de punições ainda maiores caso elas sejam enquadradas nas novas normas.

O texto final deverá ser submetido à rainha Elizabeth II em maio.

Registre-se ainda que se trata de um novo órgão regulador para a mídia impressa e sites jornalísticos na internet. O rádio e a televisão, no Reino Unido, já são regulados pelo Ofcom.

Apesar de óbvias reações contrárias, de um modo geral, o acordo produzido no Parlamento britânico foi bem “digerido” pelos grupos de mídia ingleses e contou com o apoio de empresas do porte e da importância do The Guardian, do Financial Times e do The Independent.

Duas lições para a Terra de Santa Cruz

Há duas lições básicas para o Brasil no que vem ocorrendo na Inglaterra desde o escândalo que revelou os crimes do tabloide News of the World – relevadas, é claro, as enormes diferenças entre as duas sociedades.

A primeira, específica para os que ainda não conseguem conviver com a ideia, é de que a regulação – veja só – da mídia impressa é necessária, é possível e é democrática. Ela é fundamental para que a liberdade de expressão seja de todos e não apenas de alguns poucos. Ela visa garantir direitos, e não o contrário.

A segunda lição, importantíssima, se refere ao “como” os ingleses conseguiram viabilizar a nova regulação da mídia impressa: através da negociação, do entendimento entre os seus principais partidos, da situação e da oposição, no Parlamento.

Ao contrário de vizinhos nossos como a Argentina, a Venezuela e o Equador, no Brasil o principal partido no governo, o PT, tem apenas 17% dos deputados na Câmara e 17% dos senadores no Senado. Por óbvio, não tem força política para aprovar, sozinho, medidas sobre as quais já tomou posição pública – como é o caso, por exemplo, de um novo marco regulatório para as comunicações. A articulação com outros partidos é simplesmente indispensável. É preciso buscar pontos em comum e tentar vencer resistências – e interesses – que tem prevalecido nas comunicações brasileiras há décadas.

Todo esse complexo processo certamente passa pela mobilização da sociedade, inclusive de setores capazes de influenciar votos de deputados e senadores que hoje constituem a ampla aliança que governa o país.

O que pode ser feito?

Uma diferença fundamental entre a Inglaterra e o Brasil, por óbvio, é o envolvimento dos respectivos governos na questão. A negociação no Parlamento inglês ocorreu por inciativa do primeiro-ministro. No Brasil, o atual governo assumiu a [incrível] posição pública de que não trata dessa questão.
À sociedade civil resta continuar trabalhando, mobilizando a “vontade das ruas”.

Ao lado da campanha liderada pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) – “Para Expressar a Liberdade – Uma nova lei para um novo tempo” – e do esforço para elaboração de uma proposta que possa se transformar em Projetode Lei de Iniciativa Popular, há de se envolver ativamente os partidos políticos e o Congresso Nacional.

Aos partidos – seus dirigentes, quadros e, sobretudo, seus deputados e senadores – comprometidos com a universalização da liberdade de expressão, cabe conversar, negociar, buscar pontos comuns que consigam vencer resistências históricas e tornem possível a aprovação pelo Congresso Nacional de um novo marco regulatório para as comunicações no Brasil.

É esse o principal exemplo inglês.

***

Venício A. de Lima é jornalista e sociólogo, pesquisador visitante no Departamento de Ciência Política da UFMG (2012-2013), professor de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor de Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012, entre outros livros


Fonte: OUTRAS MÍDIAS

"¿Espacios de no-consenso en Europa?", por Peio Aguirre

PICICA: "La heterogeneidad de los perfiles de los hablantes ya marcaba de entrada la situación. Sennett, sociólogo y urbanista; Mouffe, post-marxista convencida; y Gilroy, abogado del multiculturalismo racial en el ámbito anglosajón. Ante el reto de tener que debatir sobre la dañada idea actual de Europa, los tres centraron sus intervenciones en la posibilidad de imaginar una Europa que no esté ocupada (como ahora lo está) por el neo-liberalismo reinante." 

PEIO AGUIRRE


Peio Aguirre escribe sobre arte, cine, música, teoría, arquitectura o política, entre otros temas. Los géneros que trabaja son el ensayo y el metacomentario, un espacio híbrido que funde las disciplinas en un nivel superior de interpretación. También comisaría (ocasionalmente) y desempeña otras tareas. Escribe en el blog “Crítica y metacomentario”.

27 marzo 2013



El pasado 15 de marzo una conferencia reunió en el Royal Collage of Arts de Londres a las luminarias teóricas Richard Sennett, Chantal Mouffe y Paul Gilroy ante una audiencia mayoritariamente estudiantil con la intención de debatir sobre sociedades no-consensuales en la actual configuración de Europa.

La heterogeneidad de los perfiles de los hablantes ya marcaba de entrada la situación. Sennett, sociólogo y urbanista; Mouffe, post-marxista convencida; y Gilroy, abogado del multiculturalismo racial en el ámbito anglosajón. Ante el reto de tener que debatir sobre la dañada idea actual de Europa, los tres centraron sus intervenciones en la posibilidad de imaginar una Europa que no esté ocupada (como ahora lo está) por el neo-liberalismo reinante.

Mouffe siempre acaba por recordar sus postulados, en este caso, la descripción del consenso como un obstáculo para la Democracia. Un consenso que ella identifica en el nacimiento del discurso neo-liberal del “centro”, sin partidos ni de izquierda ni de derechas. Estas posiciones marcadas por la centralidad y las medias tintas lo único que vienen haciendo desde los 80 es fortalecer la expansión ideológica neo-liberal. Mouffe habló de política y de partidos, y ante su escepticismo sobre la anarquía o los movimientos sociales como los “Indignados” o el movimiento Occupy, defendió la necesidad de nuevos partidos fuertes de izquierdas como el SYRIZA en Grecia o Olivier Besancenot en Francia. Recordó Mouffe, que a un populismo de derechas le corresponde un populismo de izquierdas (por ejemplo Beppe Grillo en Italia) y que resulta limitado pensar el populismo como únicamente de derechas. Parecía transmitir Mouffe que el choqué de trenes de distinta naturaleza siempre producirá algo nuevo o desconocido, en lugar de esta prolongación de desidia social en la que la política ha caído y donde la ciudadanía ha perdido ya su total confianza.

Todo esto le sonaba extraño a Sennett quien, en lugar de partidos, prefiere hablar de ciudades. El consenso le dio pie a referirse a su concepto de espacios dialógicos (diálogo), que él opone a los espacios dialécticos. Sennett habla de la cooperación dialógica entre distintos. Su último libro Juntos. Rituales, placeres y políticas de cooperación (Anagrama, 2012) incide en esa línea, es decir, una experiencia de la que se deduce su preferencia en el diálogo entre diferentes al consenso de los semejantes. Bien, aquí Mouffe y Sennett hablaban de lo mismo. Pero en una muestra de cómo la izquierda puede ser tan distinta, o plural (los tres hicieron alusiones a su posición desde la izquierda), Sennett diferenció su lógica “dialógica” de la “dialéctica”, pues esta última remite de nuevo al consenso desde su destilación final en la “síntesis”.

Tal simplificación o instrumentalización teórica dejó claro que aquel no era un marco adecuado para un debate sobre posiciones teóricas marxistas contemporáneas. Sennett siguió con su argumentación sobre las ciudades, trazando mapas o haciendo ver por qué Londres tiene más en común con Frankfurt que con, por ejemplo, Leeds. Para el urbanista una nueva constelación de ciudades en Europa es la solución para superar la caduca organización de los estados-nación. No estamos ya ante la vieja dicotomía ciudad versus campo, sino ante la necesidad de trazar mapas entre ciudades gemelas, hermanas o primas. Lo que de algún modo se planteaba era la posibilidad de imaginar nuevas cartografías de minorías, identidades y lenguas dentro de Europa. Algo que ya tiene un fondo en todo lo que se ha venido hablando sobre un regionalismo crítico aplicado al urbanismo y al concepto de estado-nación.

Gilroy ocupó el centro del debate entre Mouffe y Sennett y más bien se erigió en un enlace entre los dos primeros, recordando cómo la seguridad es el principal obstáculo para una relación europea próspera. Asimismo salieron las bienintencionadas propuestas de trabajar menos y consumir mejor, apostar por la sostenibilidad, hasta la defensa y recuperación de la posición del artesano (por ende del arte) en esta necesidad de reconectar comunidades a los procesos sociales y económicos (Sennett).
Una anécdota sobre la academización de esta clase de debate político (no lo olvidemos, nos encontrábamos en una escuela de arte) se produjo cuando Sennett comenzó lacónicamente a decir que él no tenía un pequeño, sino un gran desacuerdo con Chantal, quien al escuchar aquello se revolvió sobre su asiento llena de fruición exclamando “Great!” para regocijo del público allí presente. Pero el aparente antagonismo quedó en nada, muestra de cómo la propia teoría política ya no es capaz de es identificar a ningún enemigo sino solo mediar la ambigüedad entre la diferencia y lo común. Para acabar: más consenso.
Fonte: A*DESK

“La comunicación en 140 caracteres juega a favor del enemigo” - Entrevista al periodista Pascual Serrano, autor de “La comunicación jibarizada” (Rebelión)

PICICA: "Opina Pascual Serrano que, enormemente condicionada por las nuevas tecnologías, este tipo de comunicación “juega a favor del sistema, pero ello no significa que la izquierda no deba utilizarla”. Aunque en los términos adecuados. Por ejemplo, vinculando artículos de reflexión inteligente a mensajes condicionados por el formato de twitter. “Hemos de plantear la batalla en todos los ámbitos”, añade.


Aumentar tamaño del texto Disminuir tamaño del texto Partir el texto en columnas Ver como pdf 28-03-2013

Entrevista al periodista Pascual Serrano, autor de “La comunicación jibarizada”
“La comunicación en 140 caracteres juega a favor del enemigo”



Invitado por la Asociación Valenciana José Martí de Amistad con Cuba y el CEPS, el periodista y escritor Pascual Serrano ha presentado en Valencia su último libro, “La Comunicación Jibarizada. Cómo la tecnología ha cambiado nuestras mentes” (Ed. Península). En el libro analiza las características del pensamiento jibarizado, que el autor considera en un sentido muy amplio: la dispersión de las ideas; el ritmo trepidante y la obsesión por la inmediatez; el “picoteo” de información, la comunicación incesante, la saturación informativa y la ausencia de rigor, entre otras. Opina Pascual Serrano que, enormemente condicionada por las nuevas tecnologías, este tipo de comunicación “juega a favor del sistema, pero ello no significa que la izquierda no deba utilizarla”. Aunque en los términos adecuados. Por ejemplo, vinculando artículos de reflexión inteligente a mensajes condicionados por el formato de twitter. “Hemos de plantear la batalla en todos los ámbitos”, añade.
  -Arrancas “La comunicación jibarizada. Cómo la tecnología ha cambiado nuestras mentes” (Ed. Península) afirmando que para transmitir informaciones complejas, el emisor necesita tiempo para la exposición y el receptor, concentración exclusiva. ¿Qué espacio le queda al pensamiento crítico cuando se enfrenta a un público/audiencia modelado por el lenguaje audiovisual y de los 140 caracteres de twitter?
 
-El ejemplo de twitter es el más elocuente, pero no se trata del único formato ni el único soporte, la jibarización de la que hablo en el libro se encuentra presente en muchos ámbitos y ramificaciones: la simultaneidad de mensajes, la sobresaturación de información, la obsesión por la inmediatez... Son estructuras y pautas que actúan en contra del pensamiento crítico y a favor del sistema. Ahora bien, insisto siempre, la izquierda está condicionada por los medios del enemigo y, en consecuencia, ha de utilizarlos. Hemos de plantearles la batalla en todos los ámbitos. ¿Qué podemos hacer? Por ejemplo, vincular a los 140 caracteres de twitter un artículo de Juan Torres sobre las causas de la crisis. 

-¿Cómo podría recuperarse la idea de pensamiento crítico?
 
-En primer lugar, defendiendo el papel esencial de la escuela pública. También me parece fundamental reivindicar el libro, y por varias razones. Porque hay un autor reconocido que se juega su prestigio y trayectoria al publicarlo. Además, en el libro el lector encuentra una reflexión terminada y mucho más elaborada que en Internet. Por el contrario, en la red todo es inconcluso y mucho más dinámico. Habría que plantear también la propiedad colectiva de los medios de comunicación, bien a través de la propiedad estatal bien mediante la propiedad comunitaria financiada con recursos públicos. Es ésta la única manera de salirse de los criterios de mercado y los objetivos de rentabilidad empresarial. 

-¿Podría incurrir en el elitismo el periodismo/comunicación reflexivo y crítico que propones? ¿Puede pecar de excesivamente denso y complejo hasta el punto de quedarse en círculos cerrados?
 
-Siempre hubo un público minoritario para los contenidos más complejos y otro popular para los mensajes más sencillos. A partir de ahí una sociedad, con su modelo educativo y comunicativo, debe plantearse si intenta elevar el nivel de los sectores populares o reducir el de los más formados. Nosotros hemos logrado que el ingeniero escriba en su móvil sin acentos, en cambio el operario manual sigue sin comprender el conflicto sirio. Es evidente que estamos en la segunda opción, la de reducir el nivel de los más formados. 

-¿Consideras que caben puntos intermedios? Un periodismo crítico y reflexivo, pero también directo y fácil de entender por el lector/audiencia.
 
-Seguro, pero hace falta talento del comunicador. Existen muchos ejemplos de comunicadores con grandes dotes de divulgación. Ahí están los documentales de Michael Moore por ejemplo. 

-Apuntas asimismo el problema de la sobresaturación informativa. Pero, ¿cómo escapar a ella en un mundo crecientemente complejo y fragmentado en múltiples campos de conocimiento? (rescates financieros, crisis ecológica, desahucios, inmigración, América Latina….).
 
-Seleccionando, el problema no es sólo el exceso, es la ausencia de referentes que nos ayuden a seleccionar. Como no tenemos filtros y queremos abarcarlo todo, elegimos los más breve, lo más jibarizado. Y entonces no lo entendemos y debemos seguir buscando. Debemos de cambiar nuestro método. Es preferible, ante un tema complejo, un extenso reportaje de Le Monde Diplomatique o un libro que no un centenar de noticias de veinte segundos en televisión. 

-La oferta informativa en la Red es infinita. Pero también es cierto que el internauta (igual que el lector de prensa) selecciona uno o varios medios, los que sigue periódicamente (incluso sigue en la red los medios tradicionales). O que en las redes sociales también se difunden artículos largos y reflexivos. ¿Podrían estos argumentos relativizar la influencia de Internet?
 
-Para comenzar hemos de saber que, en internet, redes sociales incluidas, terminamos yendo a los grandes medios mayoritariamente. Así lo muestran los estudios. Las redes lo que han provocado es que el modelo de medio de comunicación que intentaba dar respuesta a las necesidades informativas en todos los ámbitos (nacional, internacional, cultura, deportes, etc...) está desapareciendo. Ya no entramos a la portada de El País o de rebelion.org, vemos las secciones, los titulares y elegimos. A través de las redes la gente llega a informaciones concretas sin pasar por la portadas. Por último, es verdad que en internet caben los textos largos, alguien me podrá decir que, incluso, más que en el papel, lo que dudo es que la gente pueda estar leyendo durante un hora en su pantalla un texto sin desviarse hacia un hipervínculo, interrumpir por un mensaje de chat o evitar la tentación de consultar su correo. 

-Se dice en muchas ocasiones que Internet y las nuevas tecnologías se expansionan en detrimento de la capacidad de razonamiento, al proponer lenguajes simples y con predominio de la imagen. Pero, ¿podría interpretarse que la Red incorpora fórmulas tradicionales sólo que con formatos nuevos? Me refiero a que la prensa del XIX también difundía folletines y se recreaba con los grandes crímenes. O que la propaganda obrera siempre se ha basado en imágenes y consignas. O que el periodismo sensacionalismo es algo muy antiguo…
 
-Es verdad que siempre hubo eso. Pero las técnicas de superficialidad y espectacularidad actuales son mucho más fascinantes y hacen más difícil que la reflexión compleja pueda competir. Me sorprendo, en las presentaciones de La comunicación jibarizada, como los docentes cuentan alarmados que los jóvenes no leen, no soportan una charla de más de veinte minutos, no pueden permanecer una hora sin un estímulo cibernético. 

-En tu anterior libro, “Contra la neutralidad”, planteas ejemplos de periodistas comprometidos, que inyectan pasión en sus textos. ¿Es esto compatible con el rigor de las informaciones? ¿Y con una información que apele al raciocinio del lector?
 
-Por supuesto que es compatible. Para eso escribí el libro. Para mostrar el compromiso y el rigor juntos en las crónicas de John Reed o Kapuscinski. Y en la medida en que ellos interpretan y analizan, sin pretender hacer un panfleto, e incorporan los antecedentes y el contexto necesario están estimulando la reflexión por parte del lector. La que no permite el raciocinio del lector es la información que no aporta los suficientes elementos de contexto para comprender los acontecimientos. 

-Dedicas un capítulo de “La comunicación jibarizada” al ritmo trepidante y la inmediatez. ¿Pero alguna vez el periodismo ha sido, salvando las tecnologías dominantes en cada periodo histórico, algo diferente? En cualquier filme de periodistas aparece la obsesión por las primicias y por alcanzar el mito de la información en tiempo real.

-Una cosa es querer informar el primero de un acontecimiento, y otra es correr a contar el recuento del 5% de los votos en las elecciones de Afganistán y nunca informar del resultado del 100% porque ya se ha perdido el interés por el asunto. Nos sucede como a los niños el día de Reyes, solo queremos desempaquetar noticias, pero no comprenderlas. 

-Afirma Pablo Iglesias, presentador de La Tuerka, que la izquierda se maneja muy bien en el campo del análisis y los diagnósticos de situación. Pero fracasa estrepitosamente a la hora de pasar a la difusión y llegar a la gente. Y esto es así porque no asume que las reglas del juego las marca el enemigo y, en consecuencia, no incorpora sus formatos (tertulias, lenguaje muy simple y directo, etc.) ¿Qué opinas?
 
-Tiene razón. Hay determinadas cuestiones formales que no las terminamos de comprender o lo hacemos tarde. Necesitamos décadas para aceptar que un documento escrito, si tenía márgenes, interlineado mayor y gráficos era más agradable y lograba más lectores. En vídeo, muchos siguen sin preocuparse por la iluminación, el encuadre o contar con varios ángulos de grabación. Claro, también puede suceder lo contrario, que desde el periodismo no comprometido y comercial tienden a simplificarnos y frivolizar cada día más, en el contenido y en la forma, y eso crear unos cánones estéticos que nos condicionen. 

-Has afirmado muchas veces que el periodismo alternativo que se realiza en España es muy deficiente. ¿Observas con el tiempo alguna mejoría? 
 
-Seguimos dominados por el adjetivo fácil, la ausencia de fuentes rigurosas, la no búsqueda del dato necesario. En pocas palabras, el buen trabajo periodista. Es tanta la necesidad de comunicar y tanta la pulsión ideológica que nos domina, que olvidamos el periodismo. Además, es que la gran mayoría de los colaboradores de los medios de comunicación alternativos no están pensando en hacer periodismo sino con ejercitar la militancia. Y no es lo mismo. 

-¿Por qué incluso la militancia de izquierda no considera como “suyos” los medios alternativos e, incluso, atiende muchas veces mejor a los periodistas de medios convencionales?
 
-Porque incluso en la izquierda continuamos rindiendo culto al medio masivo y al dominante. Pero esto no es algo nuevo. Históricamente se ha despreciado y minusvalorado a los medios alternativos. Pienso en el líder del partido político de izquierda que se iba corriendo al “ABC” para hacer unas declaraciones. O cuando alguien te remitía un texto a Rebelión.org, te decía si se lo podías publicar ya que no lo habían hecho “El País” o “El Mundo”. Ya entonces se asumía que la prensa alternativa jugaba en segunda división. 

-Por último, ¿Qué futuro profesional aguarda a los periodistas de izquierda que todavía quedan?
 
-Por primera vez no mucho mejor futuro que a los de derecha con la crisis que están viviendo las empresas. Pero creo que hay esperanza. En los últimos meses han aparecido media docena de experiencias colectivas en formato de cooperativa que, a diferencia del periodismo alternativo, tienen como objetivo una solución laboral para sus miembros. Estas experiencias, además, pueden ser más viables que algunas grandes empresas. Porque estás últimas deben dar muchos beneficios a los accionistas, y las cooperativas lo único que pretenden es garantizar la subsistencia de sus trabajadores.

Rebelión ha publicado este artículo con el permiso del autor mediante una licencia de Creative Commons, respetando su libertad para publicarlo en otras fuentes.


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Fuente: Rebelión

março 27, 2013

"O pacto social entre capital, trabalho e pobreza no Brasil. Entrevista especial com Tales Ab'Sáber" (IHU)

PICICA: "IHU On-Line – Qual é o partido que pode ser considerado de esquerda hoje no Brasil?
Tales Ab’Sáber – Se há alguma esquerda, que sustente algum grau de crítica ao modo de ser do capitalismo contemporâneo, ela está fragmentada e se tornou de fato irrelevante, pelas próprias más avaliações do mundo e do tempo. Um mínimo grupo de sindicalistas que anima um partido nanico, com segundos na tevê, como ocorre no Brasil, não é de fato uma esquerda digna das grandes tradições críticas e da intensidade política da tradição.
Além disso, temo fortemente pelo mal entendimento das práticas de poder e de alienação muito avançadas na técnica do mundo de hoje, que creio que a esquerda de fato não sabe conceber, realística e criticamente. Por não saber pensar estas coisas – a indústria da diversão, o poder do fetichismo da mercadoria, a submissão sadomasoquista à indústria cultural – a esquerda, quando se aproxima do poder, faz um pacto apressado e mimético com elas.
A única esquerda à altura do tempo efetiva entre nós, mas irrelevante para a política real e partidária, me parece ser a esquerda de alta exigência teórica e crítica que se protegeu na universidade. A voz desta vida intelectual de esquerda deveria poder alcançar de algum modo a vida pública mais ampla." 


O pacto social entre capital, trabalho e pobreza no Brasil. Entrevista especial com Tales Ab'Sáber

Em dez anos de gestão petista, “se produziu um novo e raro pacto social entre capital, trabalho e pobreza no Brasil, em uma espécie de social democracia mínima, que levou à verdadeira hegemonia política lulista ao final de seu segundo mandato, em 2010”, diz professor da Unifesp.

Confira a entrevista.

“O Fla-flu político-ideológico para a manutenção do governo Lula, e para a afirmação de seu sucesso, desmobilizou um tanto das exigências sociais críticas da própria esquerda, que passou a nivelar expectativas e desejos por baixo, se aproximando fortemente da ordem conservadora, o que, para um país com déficits, como é o Brasil, não é bom. Além disso, a política, o manejo cotidiano da vida pública, regrediu abertamente a um estado generalizado de complacência com a corrupção e a incompetência; ou a esquerda se instalou finalmente na fratura exposta da política fisiológica brasileira”. A descrição é do professor da Unifesp, Tales Ab’Sáber (foto abaixo), em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ele, “dialeticamente, e curiosamente, a gigantesca crise do Partido dos Trabalhadores coincidiu com o tempo do governo de Lula – e, dada a contradição radical com sua própria história, creio que não poderia ser diferente –, o que precipitou sua efetiva renovação, e acabou fazendo com que o partido saísse um passo na frente na necessária renovação geral da vida política brasileira”. E conclui: “pela primeira vez o Brasil sentiu a força ideológica da soma de democracia, mercadoria e emprego, de modo que esta experiência, a do capitalismo integrado, vinda muito tardiamente e do todo, repercutiu sobre todo o povo brasileiro. Em termos políticos clássicos, o líder popular apoiado pelo que restou da esquerda, com vínculos sindicalistas fortes, comandou um imenso processo de aceitação da hegemonia – como dizia Gramsci – do modo de ser do capitalismo contemporâneo por estas bandas, cacifando a vida ruim dos pobres no Brasil com o acesso a celulares, tevês de plasma e carros populares, de modo que todos, trabalhadores e mercados, ficaram satisfeitos”.

Tales Ab’Sáber, psicanalista e ensaísta, é professor de Filosofia da Psicanálise na Universidade Federal de São Paulo – Unifesp. Formado em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – USP, é mestre em Artes pela mesma instituição. Também é psicólogo pelo Instituto de Psicologia da USP, onde defendeu doutorado sobre clínica psicanalítica contemporânea. É membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. É autor de, entre outros, Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica (São Paulo: Hedra, 2011) e A música do tempo infinito (São Paulo: Cosac Naify, 2012).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Passados 10 anos, como era o Brasil antes e como é agora, depois da passagem do PT pela Presidência da República?

Tales Ab’Sáber – Não há dúvida de que houve um pequeno salto de civilização no Brasil nestes dez anos. Mas acredito que, de fato, pequeno. O fato de o governo petista ter insistido, através de práticas econômicas e sociais de inclusão social, mas também através de uma política fortemente simbólica a respeito desta inclusão – principalmente nos dois governos Lula – no compromisso do Estado e da nação com a inserção social das massas pobres brasileiras, e os bons resultados econômicos e simbólicos destas políticas, que também dizem respeito ao lugar do Brasil no mundo, talvez tenham estabelecido como definitiva a necessidade de que o crescimento econômico nacional esteja atrelado e comprometido a uma simultânea dinâmica social de transformação e inclusão. Se isso for verdade, a irreversível dinâmica nacional de associar crescimento e integração social, o Brasil ganhou um ponto muito importante no processo de sua modernização real atrasada.

Crescimento com inclusão

Até muito recentemente não havia garantias políticas nem a perspectiva de que a máxima concentração de renda tradicional brasileira e o desprezo das elites brasileiras pela vida popular levassem a uma solidificação desta posição: a do crescimento com inclusão. As elites brasileiras conceberam por duzentos anos um país sem este tipo de veleidade civilizatória – e nos primeiros 66 anos do país ainda se deram ao grande luxo antimoderno de ser uma elite de senhores de escravo, em pleno século XIX – e, sendo assim, podiam manter a vida do país no regime da máxima concentração, como sempre foi, por que não? Esta conquista, que talvez seja a principal dos governos petistas, é fruto dos processos políticos competitivos da democracia de massas, que envolveram o próprio surgimento e desenvolvimento do PT, e da orientação popular, ou neopopulista de mercado, como escrevi sobre Lula, dos últimos tempos.

No entanto, tal inserção social ainda é muito incompleta e foi acompanhada de imensas mazelas, tanto políticas quanto culturais. De fato ela não está garantida, e pode ser revertida por um novo ciclo de acumulação capitalista no país. Ainda, por outro lado, a inserção dos pobres, exclusiva e preferencial via consumo, ilude com o acesso ao mercado e seu fascínio pelas coisas. O que seria, na prática, uma vida decente para os pobres no país, o que, se considerarmos as garantias básicas de direitos cidadãos, como educação, saúde, transporte e moradia decentes, absolutamente não é verdade. Também, o Fla-flu político-ideológico para a manutenção do governo Lula, e para a afirmação de seu sucesso, desmobilizou um tanto das exigências sociais críticas da própria esquerda, que passou a nivelar expectativas e desejos por baixo, se aproximando fortemente da ordem conservadora, o que, para um país com déficits, como é o Brasil, não é bom. Além disso, a política, o manejo cotidiano da vida pública, regrediu abertamente a um estado generalizado de complacência com a corrupção e a incompetência; ou a esquerda se instalou finalmente na fratura exposta da política fisiológica brasileira. Sem falarmos no rebaixamento cultural mais amplo e irrestrito, onde se insere inclusive, e principalmente, a classe média alta e os ricos nacionais, satisfeitos de modo caipira e bem desinteligente com um mundo imediato de consumo de quinquilharias do luxo mundial, e com a vida voltada para um hedonismo o mais barato concebível. Desse ponto de vista, a política geral das humanidades da esquerda no poder, de fato bem liberal, nos últimos dez anos, não pode ser considerada suficientemente boa.

IHU On-Line – Passados 10 anos, como era o PT antes e depois da passagem pela Presidência da República?

Tales Ab’Sáber – A história do PT depois da sua chegada ao poder federal é uma mistura de “uma montanha russa com uma casa dos horrores”. A transformação acelerada do PT em um novo tipo de partido tradicional brasileiro teve início com as decisões de real politique levadas a cabo para eleger Lula em 2003: alianças com partidos tradicionais, de centro e até de direita, para garantir uma coalizão governista e maior tempo de TV, e a aceitação de uma aberta política da imagem, da espetacularização dos atributos do líder Lula, para operar seu novo e alavancado carisma pop junto à vida popular, o que ocupou o lugar das antigas políticas de esclarecimento e exigências públicas críticas, que sempre distinguiram a atuação, iluminista e inteligente, do PT na política brasileira.

O PT ganhou a eleição exatamente no feitio, propagandístico e de espetáculo no lugar da política, que foi o de seus adversários de direita, Collor ou Fernando Henrique, em pleitos anteriores. E este modo de partir para os efeitos alienantes e acríticos da nova política da imagem, ancorada no potencial carismático do líder, já era, em meu entender, uma conversão política bem radical do Partido dos Trabalhadores aos novos tempos. No poder, o partido aceitou as decisões conservadoras sobre a política econômica, dando garantias de contratos ao grande capital, aceitou a gestão fisiológica, e mesmo corrupta, da máquina política de Brasília, expulsando inapelavelmente a esquerda do partido, e liberou Lula para ser o garoto propaganda, regressivo e fetichista, da imagem de seu próprio governo.

Aumento da renda com foco no consumo

Tudo isso era compensado pelo projeto de acelerar o aumento da renda dos pobres, orientado para o consumo. Em 2005, em um episódio de imensa incompetência no manejo dos compromissos assumidos, veio a crise grosseira do mensalão, escancarando publicamente a nova ordem de práticas, de fato as mais velhas conhecidas no Brasil, do novo PT do poder. José Dirceu caiu, e com ele todo o núcleo central do partido que orbitava junto a Lula. O partido saiu marcado por uma contradição realmente insolúvel para a sua história: ele era o novo grande promotor de práticas corruptas, e de apropriação de riqueza pública na política brasileira. Rompeu-se a última barreira, acelerou-se a montanha russa, surgiu, para mim e para muitos, a casa dos horrores. Lula saiu a campo para defender em um corpo a corpo de imagem seu governo combalido e que corria riscos, e neste momento a conversão à política do espetáculo foi de grande importância; o PMDB passou a ser o regulador da real política petista no congresso; Lula ficou maior que seu partido – cujos nomes principais tinham que se haver com polícia e tribunais – e após os sucessos de sua política de transferência de renda e crédito para os pobres, no segundo mandato, ele determinou, de modo meio imperial, mas com tino político perfeito, a renovação forçada do partido, sustentando a neófita política Dilma Rousseff e, no ano seguinte, o novíssimo quadro petista Fernando Haddad, em São Paulo. Dialeticamente, e curiosamente, a gigantesca crise do Partido dos Trabalhadores coincidiu com o tempo do governo de Lula – e, dada a contradição radical com sua própria história, creio que não poderia ser diferente –, o que precipitou sua efetiva renovação, e acabou fazendo com que o partido saísse um passo na frente na necessária renovação geral da vida política brasileira.

Nada disso impediu que uma parte significativa dos companheiros petistas, que escaparam à degola do mensalão, enriquecesse abertamente em um processo de franco aburguesamento com o período no poder. O caso de Antonio Palocci se recusando a declarar as empresas que lhe pagaram milhões por assessorias, nas vésperas de sua entrada para o governo Dilma, de modo que o político abriu mão do ministério, mas não do dinheiro e dos negócios, é bastante exemplar a este respeito. O da secretária de Lula indicando amigos para órgãos reguladores e demandando deles, muito à vontade, sucessivos favores em dinheiro, é outro. E neste processo, mais uma vez, os petistas apenas confirmaram o movimento mais geral e muito tradicional da política brasileira, o que quer dizer, em outras palavras, que outros partidos, incluindo aí o refinado PSDB, não fariam melhor.

IHU On-Line – Quais os mecanismos utilizados pelo PT para se manter tanto tempo no poder Executivo federal dentro de uma democracia direta? Qual a importância das alianças e da política de coalizão nesse sentido?

Tales Ab’Sáber – Creio que os mecanismos usados para o predomínio petista, que é a própria configuração do governo, foram as quatro posições assumidas pelo governo Lula:
1) aceitação da real politique fisiológica e arcaica brasileira,
2) manutenção dos contratos e dos preços do capitalismo financeirizado brasileiro de então, com autonomia e garantia de gestão pró-mercado do Banco Central brasileiro,
3) políticas de investimento e de aumento de renda, via transferência e via crédito, para os muitos pobres, visando a dinamização e o aumento do mercado interno e
4) aberta e calculada política da imagem de Lula, junto aos pobres e à indústria cultural global, ao ponto dele chegar a alcançar um novo nível de mistificação política, o do carisma pop. Com estas ações se produziu um novo e raro pacto social entre capital, trabalho e pobreza no Brasil, em uma espécie de social democracia mínima, que levou à verdadeira hegemonia política lulista ao final de seu segundo mandato, em 2010.
Sobre a política de coalizão: no Brasil ela coincide com a cessão, em regime de “porteira fechada”, de grandes “nacos” do poder público e do Estado, para a gestão privada, eu diria quase privatizada, do partido que faz parte da aliança governista e que recebeu a benesse nos jogos do poder, de modo que as ações destas verdadeiras partes autônomas do poder de Estado não estão sincronizadas ou afinadas com a política geral do governo majoritário. Nosso presidencialismo de coalizão produz uma política privatizada para os partidos, cuja gestão da coisa pública é, em geral, incompetente e fortemente corrupta. Esta estrutura institucional, da própria política, tem imensos custos para o país, e pode levar a grandes instabilidades e crises. Ela teria que ser redesenhada, mas todas as forças políticas se igualam e estão satisfeitas nela, desde que o PT passou a fazer parte e dar legitimidade para o clube da partilha do Estado. Lula estabeleceu este estado de coisas, não muito diferenciado do modo tucano de acolher o PFL em seu governo, e Dilma foi obrigada a fazer o teatrinho da faxina política, que apenas troca um gestor incompetente e corrupto de um dado partido, por outro igual, do mesmo partido.

IHU On-Line – O senhor afirma que “o mensalão é a instalação do PT na política de direita brasileira”. Desde quando o PT deixou de ser um partido de esquerda?

Tales Ab’Sáber – Desde quando o PT assumiu, de modo conservador, que sua tarefa histórica é a modernização do capitalismo brasileiro, buscando ser o fio da meada de um pacto social difícil, dada a imensa disparidade de poder entre as classes no país. Ao assumir esta posição, no governo, o PT liquidou o lugar histórico do PSDB – que era exatamente este, mas sem compromisso social forte – com o adendo de que o partido tucano seria o tampão para barrar, pelo centro, a chegada do PT, então sentido como anticapital, ao poder. E não por acaso o partido também se aburguesou, e se tornou corrompível no poder, o que tem muita lógica com o projeto assumido.

O sucesso amplo de tal posição política petista junto ao grande poder e ao grande dinheiro nacional também significou o rebaixamento geral das práticas, e mesmo das expectativas culturais exigentes, do velho PT ao ramerrão geral da baixaria, tradicionalmente própria das elites brasileiras. Este foi o outro pacto social: o do encontro da baixa cultura de elite com a regressão cultural petista satisfeita. Mas que pode significar isto, se os pobres estão satisfeitos no consumo, os ricos estão liberados e felizes, e os companheiros de Lula enriquecem com os bons negócios do Estado? A regressão cultural é, desse modo, hegemônica.

IHU On-Line – Quais os principais efeitos políticos regressivos que a “política do absurdo para salvar a própria pele”, como o senhor definiu a atuação do PT no mensalão, pode provocar?

Tales Ab’Sáber – Para mim o que houve de mais lamentável no inteiramente lamentável episódio histórico do mensalão foi a incapacidade total do PT, e do governo Lula, de politizar de modo afirmativo e verdadeiramente progressista o fato de homens do partido terem sido apanhados em práticas ilegais, e que eram, até então, endêmicas no país. O fato do partido se ver envolvido em práticas corruptas, de circulação de dinheiro não contabilizado, com origem em fontes públicas, para a gestão da política nacional, e de ser exatamente este o estado generalizado das coisas políticas entre nós, era forte o suficiente, expressivo o suficiente, exemplar o suficiente, para produzir uma ação política propositiva e transformadora deste estado de coisas, para precipitar, a partir do protagonismo histórico do PT, e sua autocrítica exigente, uma reforma política que banisse definitivamente tal estado de degradação e submissão da vida política nacional aos jogos e diretos do dinheiro.
O PT, por estar no centro do lugar em que todos estavam, e por sua grande história de negação ética destas mesmas coisas da política brasileira em que estava envolvido, podia, e eu diria, tinha mesmo a obrigação, de propor uma mudança na regra do jogo que corrompera o próprio partido, o que o instalou na política de direita brasileira. Mas isso não ocorreu. Que posição o partido e o governo tomaram? A que havia verdadeiramente de pior no espaço e nas tradições políticas brasileiras. Apanhados em graves ilícitos, com provas fartas a partir da denúncia de um político, de direita, participante ativo do esquema, o PT, sem nenhuma crítica ou autocrítica, produziu uma negação geral dos fatos, e demandou do Supremo a tradicional impunidade dos poderosos brasileiros... Não apenas o partido foi apanhado em ato de circulação de dinheiro ilegal – como um velho Maluf qualquer, digamos assim de modo metafórico – como ao negar explicitamente o inegável, e exigir a indevida impunidade, apostando na degradação institucional e política a favor do poder, o partido se comportou inteiramente, efetivamente, em toda a linha, como um Maluf qualquer... Não apenas as práticas, mas toda a ação simbólica foi de direita, e o resultado institucional e político do affaire, se estes políticos regressivos vencessem o jogo, seria a reafirmação da impunidade da justiça brasileira para os poderosos, um dos mais graves males de nossa democracia danificada...
O PT jogou inteiramente na regressão, contra sua história, e contra toda expectativa de vida política inteligente no partido, e contra o país, demandando a impunidade das elites, a mesma que degrada a vida da justiça e da política brasileira, tornando-as mafiosas, igualando-se a um Maluf qualquer, aquele que, condenado, continua dizendo nunca ter sido condenado. Por isso falei em “a aposta em uma política do absurdo para salvar a própria pele”, neste episódio lamentável em toda extensão e profundidade que podemos alcançar. Com estas ações públicas o PT se fez idêntico, em todos os passos, antes durante e depois, ao modo de ser da direita brasileira. E, por isso, há profunda coerência na foto, exigida pelo político de direita, de Lula cumprimentando Maluf no jardim de sua mansão, que revelou aos petistas escandalizados aquilo que cuidadosamente eles tentam ocultar de si mesmos. Uma atuação política pública desastrada em toda linha, horrível e lamentável, além de, não por acaso, incompetente e derrotada.
IHU On-Line – Qual é o partido que pode ser considerado de esquerda hoje no Brasil?

Tales Ab’Sáber – Se há alguma esquerda, que sustente algum grau de crítica ao modo de ser do capitalismo contemporâneo, ela está fragmentada e se tornou de fato irrelevante, pelas próprias más avaliações do mundo e do tempo. Um mínimo grupo de sindicalistas que anima um partido nanico, com segundos na tevê, como ocorre no Brasil, não é de fato uma esquerda digna das grandes tradições críticas e da intensidade política da tradição.
Além disso, temo fortemente pelo mal entendimento das práticas de poder e de alienação muito avançadas na técnica do mundo de hoje, que creio que a esquerda de fato não sabe conceber, realística e criticamente. Por não saber pensar estas coisas – a indústria da diversão, o poder do fetichismo da mercadoria, a submissão sadomasoquista à indústria cultural – a esquerda, quando se aproxima do poder, faz um pacto apressado e mimético com elas.
A única esquerda à altura do tempo efetiva entre nós, mas irrelevante para a política real e partidária, me parece ser a esquerda de alta exigência teórica e crítica que se protegeu na universidade. A voz desta vida intelectual de esquerda deveria poder alcançar de algum modo a vida pública mais ampla.

IHU On-Line – Como definir o que seria o pensamento de esquerda política em nossos dias?

Tales Ab’Sáber – Existe uma new left mundial que tem alguns parâmetros importantes para o pensamento de esquerda, como orientar o crescimento global e a crítica ao poder a favor das massas violentadas e alienadas em injustiça presentes em todo o mundo, ao mesmo tempo em que ela não cede da crítica racional e exigente às mazelas do capitalismo ali onde ele se tornou universal.
Esta esquerda mantém viva uma avaliação muito rigorosa das contradições e novas ordens de violência do momento atual de globalização do capital e dos mercados e de redução dos espaços de potencial democrático assim como das novas tecnologias de informação a espaços de mera circulação da mercadoria e de seu sistema do espetáculo, de imagem lixo, baixa informação e fofocas.
Em geral, trata-se de uma crítica independente e universitária, mas é uma reserva de racionalidade e exigência de valores humanos que pode ser ativada em algum momento de falência e de crise da acumulação do capital, o que ocorreu, por exemplo, em 2008. Obama, que chegou ao poder nos Estados Unidos por causa da crise real do capitalismo mundial, promovida pelos grandes terroristas de Wall Street, era alimentado e informado por parte desta esquerda acadêmica norte-americana. De todo modo, já é plenamente possível falarmos de uma verdadeira crise do pensamento político de direita em nossos dias.

IHU On-Line – Como se deu o processo da integração capitalista brasileira? O senhor continua achando que essa foi a grande obra de Lula na presidência, seu grande legado?

Tales Ab’Sáber – Certa vez Caio Prado Jr. disse que se tivesse que definir o Brasil em uma única palavra ele diria que é um país muito atrasado. A integração capitalista brasileira foi um processo extremamente atrasado e atravessado pelo déficit de cidadania e de relações econômicas e políticas entre as classes sociais que trabalhassem na direção da reparação social da escravidão original e da integração de todos na vida simbólica e material do presente. O Brasil atravessou o século XIX, o século do significante universal do progresso, com escravidão, o que significa integração social zero, e ainda no tardio 1964, por motivos internos que recebiam por aqui o influxo da guerra fria norte-americana, o país mergulhou em uma ditadura de extrema direita, autoritária e antipopular, que geriu de modo muito conservador o imenso crescimento econômico do século XX brasileiro. Mais uma aposta na não integração social. A democracia demorou a dar as caras e algum mínimo resultado por aqui.
Os dez anos de Sarney, Collor e Itamar foram praticamente perdidos para o efeito e a necessidade de integração das massas pobres na economia moderna e na plena cidadania. FHC, com o combate à inflação, criou as bases para o sucesso do governo petista, oito anos depois, mas com seu rígido controle monetário, corte total dos gastos públicos e grande elitismo, praticamente parou o país, efeito econômico deletério para os mais pobres. Sobraram para Lula as condições de reanimar a economia visando o mercado interno e um simulacro de um tipo de pleno emprego, sem o qual a ordem ideológica capitalista simplesmente não funciona, em nenhuma parte.
Pela primeira vez o Brasil sentiu a força ideológica da soma de democracia, mercadoria e emprego, de modo que esta experiência, a do capitalismo integrado, vinda muito tardiamente e do todo, repercutiu sobre todo o povo brasileiro. Em termos políticos clássicos, o líder popular apoiado pelo que restou da esquerda, com vínculos sindicalistas fortes, comandou um imenso processo de aceitação da hegemonia – como dizia Gramsci – do modo de ser do capitalismo contemporâneo por estas bandas, cacifando a vida ruim dos pobres no Brasil com o acesso a celulares, tevês de plasma e carros populares, de modo que todos, trabalhadores e mercados ficaram satisfeitos.
Para isso se rebaixaram as exigências críticas e éticas do PT, se aceitou a gerência global dos números do mercado financeiro local e pobres e ricos sintonizaram no projeto Lula, em um pacto não explicitado realizado em seu nome, aceitando o seu desenho e os seus limites. Evidentemente, ao contrário do que diz a propaganda geral, os ricos ganharam imensamente mais no processo. De resto, nos últimos tempos temos visto a grande dificuldade de Dilma Rousseff em governar o país de modo a produzir um verdadeiro maior desenvolvimento econômico, diminuindo os juros devidos pelo governo aos mercados, e a nova dificuldade política que esta primeira cisão histórica do governo petista com parte do capital vem produzindo.

IHU On-Line – Quais os rumos do PT depois que ele deixar o poder? Poderá ser novamente considerado um partido de esquerda quando voltar a ser oposição?

Tales Ab’Sáber – O PT se originou e tem um vínculo, hoje nada profundo, mas eficazmente simbólico, com a história da democratização brasileira após a violenta ditadura de extrema direita brasileira de 1964. Em sua fundação, em 1981, convergiram para um amplo projeto, que então tentava equacionar a ideia de um socialismo democrático, várias forças e estratos sociais brasileiros de esquerda, de algum modo reencenando no interior do partido a tentativa de aproximação entre as classe sociais que existiu no Brasil e que foi violentamente cortada em 1964. Estas forças heterogêneas, que viam na sua própria aproximação em um partido a possibilidade de um verdadeiro movimento de democratização social no país, que envolviam sindicalistas, intelectuais de esquerda, religiosos ligados à teologia da libertação latino-americana, passaram fortemente a investir na figura estratégica do grande líder popular, Lula. As intensas discussões democráticas do partido convergiam para o trabalho da liderança nacional de Lula, o que acabou, nos últimos tempos históricos, constituindo o carisma quase mítico do presidente.

Deste modo, o PT sempre vai poder, em tom de fábula, ou mesmo de farsa, recontar os tempos heroicos da congregação nacional das esquerdas que ele de fato significou, nos anos 1980 e 1990. E dado o imenso atraso cidadão e material de grande parte do povo brasileiro em relação à realidade do tempo do mercado e da cidadania plena, o partido sempre terá uma margem de não integração social para representar na política. Isso tranquiliza o seu patronato político que, se não forem presos, ou caírem na lei da ficha limpa, terão ainda longa vida para o poder.

Todavia, o importante é a adequação política ao jogo do poder brasileiro, como ele é, que deu imensos resultados para Lula, e que permite, à direita e ao capital no Brasil, receber do PT influxos sociais pró-capitalistas que eles próprios são incapazes de realizar.


Para ler mais:




Fonte: IHU

"SP: Entre a Crise da Paz da Armada e o Evento Haddad", por Hugo Albuquerque

PICICA: "[...] uma notícia alvissareira no meio de tantas más notícias veio à tona: Fernando Haddad interveio no que seria uma desastrosa reintegração de posse e, assim, evitou uma catástrofe comparável ao Pinheirinho. São episódios curiosos nesses tempos bicudos em terras bandeirantes: se a pós-modernidade é marcada pelo binômio desespero-segurança, o que resta para a Paz?" 

 

SP: Entre a Crise da Paz da Armada e o Evento Haddad

Portinari: Guerra e Paz
O estado de São Paulo está intranquilo. Depois de anos de diminuição dos índices de criminalidade, de repente, as coisas voltaram a se abalar. Pelo sétimo mês consecutivo, a violência continuou a subir, colocando em xeque o governo de Geraldo Alckmin (PSDB). Por outro lado, uma notícia alvissareira no meio de tantas más notícias veio à tona: Fernando Haddad interveio no que seria uma desastrosa reintegração de posse e, assim, evitou uma catástrofe comparável ao Pinheirinho. São episódios curiosos nesses tempos bicudos em terras bandeirantes: se a pós-modernidade é marcada pelo binômio desespero-segurança, o que resta para a Paz?


Houve uma relativa paz no estado nos anos 00, abalada apenas pelo episódio conhecido como "ataques do PCC" -- em maio de 2006 --, que logo pareceu ser um ponto fora da curva. Com uma política linha dura, fundada no consenso de atuação dura da polícia, judiciário inclemente e um ministério público militante policialesco, São Paulo se orgulhava dos seus ganhos na área. Isso, até agora há pouco. Os dados da própria Secretaria de Segurança Pública não são animadores. 2012 foi, de fato, um corte nessa aparente tendência.  

A política de arrocho militar, aplaudida pelas classes abastadas e elogiada pela boa técnica estatística do positivismo tupiniquim, é uma falácia. Ao tentar descrever uma tendência real pela falácia do "aqui praticamos repressão policial-judicial-carcerária, a taxa de homicídios caiu, logo a repressão policial-judicial-carcerária é a responsável pela queda na taxa de homicídios (logo, pela paz)" constrói-se um raciocínio circular, feito de efeitos e não de causas. É como atribuir a um fator que atua no sintoma -- a crise de violência, uma febre -- o desaparecimento do sintoma vendido como cura da doença. O que fazer, se a violência volta a crescer mesmo a mantida a fórmula de reprimir? Como explicar? 


O que é paz? A paz armada da ocupação? Dificilmente. A paz só subsiste como realidade ética de coexistência comum e amorosa. A paz, como historicamente ela veio à tona, é uma falácia. É estar livre para  exercer a minha violência, estar seguro em relação a uma ameaça externa pela coerção fantástica que eu submeto os outros. A paz romana, a paz imperial da ocupação sempre ruiu, pois quando qualquer coisa sai do lugar, os bárbaros invadem. Na São Paulo do século 21º, os bárbaros -- esses doces seres inventados pelos civilizados em todos os tempos e lugares -- corresponde à massa de ex-escravos, imigrantes, brancos pobres, estocados em periferias infectas, sem lazer, sem paz.

Esses bárbaros estão sob a mira de uma arma policial, duplamente punidos nossa sociedade: esmagados pelas forças de repressão como suspeitos -- em um aqui-agora no qual ser suspeito é ser culpado e merecedor, não raro, de suplícios -- e naturalmente expostos à violência epidêmica das áreas densamente povoadas e sem-infraestrutura.



A partir daí, a disputa pelo significado da paz torna-se cabal. É possível conquistar a paz pela melhoria da organização da sociedade ou só, e somente só, por meio da imposição da força, de uma ordem coercitiva? Uma paz conquistada pela coerção e pelo policialismo é mesmo paz, haja vista que o outro está sob estado de violência? E tal violência é múltipla, a extra-policial, uma vez que se aloja na própria maneira como se dá a disposição urbana e a duplicação da metrópole. A violência, criminalmente expressa, é apenas uma resposta confusa ao que poderia ser uma resposta política de rebelião face à ordem imperial. No fim das contas, ela é pior, uma vez que há violência em toda parte, sem razão, sem sentido.

O que há é o estado de exceção permanente ao qual está submetida a população oprimida e desabrigada. O gesto de Haddad ontem, por exemplo, é um rompimento nesse ciclo de violência: diante da iminência de uma reintegração de posse violenta, a intervenção que a suspendeu e possibilitou uma interlocução entre as partes. Mas não foi uma intervenção miraculosa ou providencial, Haddad fez apenas e literalmente um gesto comum, desinterdidando o diálogo. O que pode ser o caminho para pensar uma nova política e sua gestão: atuar a partir daí.

Há inúmeras linhas de forças se tensionando nesse momento em São Paulo. Nada é simples como parece, mas há um inequívoco exaurimento político e social do atual modelo. Só há saídas movendo-se para fora dele, reconhecendo a potência criativa dos pobres e suas demandas pelas geração de direitos. A cômoda e sádica paz armada que manteve a violência latente pela última década foi-se -- e não há, para o bem e para mal, mais volta.


Fonte: O Descurvo