maio 30, 2013

Revista Fórum: Facebook censura post de Dilma Bolada crítico a Aécio Neves inspirado em notícia da Fórum; Reduzir a mortalidade materna é preciso e possível

Fórum

Facebook censura post de Dilma Bolada crítico a Aécio Neves inspirado em notícia da Fórum

A notícia publicada pela Fórum aponta que Aécio Neves é réu e será julgado por desvio de R$4,3 bilhões da saúde Leia mais

Tribalistas lançam música a favor do casamento gay

Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte gravaram canção em apoio à campanha do deputado Jean Wyllys Leia mais

Manifesto defende manutenção da maioridade penal em 18 anos de idade

Documento, lançado com 150 assinaturas de cidadãos e organizações sociais, afirma que “reduzir a maioridade penal é inconstitucional e representa um decreto de falência do Estado brasileiro” Leia mais

Jornalistas do ‘Le Monde’ denunciam uso de armas químicas na Síria

Substâncias químicas, retiradas ilegalmente da Síria pelos profissionais do Le Monde, estão sendo analisadas Leia mais

Reduzir a mortalidade materna é preciso e possível

A morte materna é um indicador de desenvolvimento, inclusive faz parte dos Objetivos do Milênio da ONU e expressa também a qualidade da saúde pública. Leia mais
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Leia nesta edição: Porque 16 não – Diminuir a idade penal não só não reduz a criminalidade como pode agravar ainda mais o problema, excluindo muitos que quase já não têm direitos. Compre aqui
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maio 29, 2013

"Os sentidos do lulismo, de André Singer", em resenha de Bruno Cava (Quadrado dos Loucos)

PICICA: "O livro tem a qualidade de não padecer do banzo pós-Lula. Contra os catastróficos do “quanto pior, melhor”, André lembra Tocqueville, que enxergava as condições revolucionários nos períodos de prosperidade. Com um final honestamente aberto e prospectivo, o ex-porta voz da presidência não renega o trabalho do lulismo, cujas contradições e paradoxos não deixa de sublinhar. O governo Lula plantou a perplexidade no seio da esquerda. Contradição, por sinal, que aparece no tom do livro, registro de muitos impasses e limites do próprio objeto que analisa. Se a leveza e os afetos alegres são grandes qualidades, o defeito aparece quando intervém outro afeto, negativo, que ao longo do texto vai deixando marcas." 

Os sentidos do lulismo, de André Singer
Resenha de SINGER, André. Os sentidos do lulismo; reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Cia. das Letras, 2012.



O livro tem a qualidade de não padecer do banzo pós-Lula. Contra os catastróficos do “quanto pior, melhor”, André lembra Tocqueville, que enxergava as condições revolucionários nos períodos de prosperidade. Com um final honestamente aberto e prospectivo, o ex-porta voz da presidência não renega o trabalho do lulismo, cujas contradições e paradoxos não deixa de sublinhar. O governo Lula plantou a perplexidade no seio da esquerda. Contradição, por sinal, que aparece no tom do livro, registro de muitos impasses e limites do próprio objeto que analisa. Se a leveza e os afetos alegres são grandes qualidades, o defeito aparece quando intervém outro afeto, negativo, que ao longo do texto vai deixando marcas.

Embora tão perto do calor da experiência do governo Lula, com sua dose de leninismo e do bom Maquiavel, André não escapa da influência da Lua do Butantã: suas teorias malsãs assombradas por moinhos satânicos, ornitorrincos inexplicáveis, avessos conspiratórios e o esplendor irreversível do estado de exceção. André não coaduna, nas conclusões, com essas teorias, mas elas estão por perto nas análises, quase à espreita de um vacilo.

Fala-se na síntese paradoxal das duas almas do PT, aquela combativa e militante, com forte teor anticapitalista, dos anos 1980-90, esta apaziguada e burocrática, controversamente socialista, dos anos 2000-10. Não dá pra negar alguma nostalgia do antigo PT, do que ele chama “espírito de Sion”. Sem, no entanto, deprimir-se meditabundo de tempos que realmente não voltarão. André também reconhece os méritos da nova alma, do “espírito do Anhembi”, como condição indissociável da construção e dos méritos do lulismo.

Para o autor, o lulismo nasce do encontro de Lula com o “subproletariado”. Este se compõe dos despossuídos e deserdados, daqueles na faixa mais desfavorecida de renda, acesso e direitos. Uma camada com dificuldades crônicas para se organizar, composta de grossa gente vivendo exclusivamente no presente, vulnerável às intempéries da economia e da política, em suma, imersa na “lei da sobrevivência”. O lulismo emerge quando essa fatia significativa da população brasileira encontra no programa de Lula uma grande oportunidade para mudar de vida. O encontro se dá ao redor das políticas sociais massificadas, especialmente a transferência de renda, assumidas como prioridade do governo.

Se, antes do governo Lula, era mobilizado por promessas populistas da direita, por aqueles que de uma forma ou de outra poderiam negociar alentos; o subproletariado resolveu aderir em massa ao projeto lulista. O governo Lula concretizou, dessa forma, a sonhada manobra do PT de enraizar-se nos grotões, favelas e periferias, revertendo a rejeição histórica e conquistando hegemonia inclusive no Nordeste, na terra por excelência dos coronéis. Deu-lhe uma sustentação inédita a qualquer outra força organizada de esquerda da história do Brasil, suportando-o inclusive nos períodos mais críticos de bombardeio pela grande imprensa, como no caso do “mensalão”.

De 2002 a 2006, o núcleo de apoio a Lula migra das classes médias urbanas para o subproletariado, enquanto as primeiras vazam parcialmente para o PSDB. O fenômeno se confirmou, além do personalismo, com a eleição de Dilma, em 2010. A formação do lulismo determinou um ciclo político longo, um substantivo realinhamento eleitoral. As políticas sociais de Lula se tornam o terreno irrenunciável da arena política, por onde passam a caminhar todos os partidos e candidatos, magnetizando até a oposição. Se, tradicionalmente, a direita mobilizava o subproletariado para chantagear a esquerda, quase com um poder moderador de veto, agora a direita se vê forçada a convergir no programa lulista.

O efeito principal do lulismo, rapidamente percebido, foi espessar o mercado interno. Com a priorização das políticas sociais, grande parcela da população se integrou no mercado de trabalho e consumo. A trava máxima do subdesenvolvimento — a miséria — começou a ser superada, desbloqueando um enorme potencial produtivo, o que viria a garantir a passagem relativamente tranquila do Brasil pela crise do capitalismo de 2008-09. Com as múltiplas políticas, o subproletariado deixou de ser o “aglomerado inorgânico e heterogêneo, sem estruturação econômica” (Caio Prado Jr.), para afinal participar da vida produtiva do país e, assim, galgar status social.

A que custo?

Para Singer, neste ponto banhado pelas emanações da Lua do Butantã, ao custo principal do esvaziamento do conteúdo anticapitalista, com o consequente esvaziamento da luta entre esquerda e direita. Dessa equação, resultou um “reformismo fraco”, sem incomodar o grande capital, ou mesmo favorecendo. Ao invés do conflito que um “reformismo forte” solicitaria, Lula prefere a posição arbitral, mediando as classes. Compromete-se, em decorrência, o espírito de Sion, o PT de luta.

Desde a campanha de 2002, Lula tratou de forjar uma imagem ordeira, de “paz e amor”. O livro explica que o subproletariado, no fundo, nunca se pautou pela radicalidade nem se cativou por ideias anticapitalistas. Nos anos 1980, hostilizava greves a ponto de apoiar o envio de tropas militares para reprimi-las. A condição vulnerável dessa classe a induz a prezar pela sensação de segurança, que a ordem e a autoridade podem propiciar. Seguindo esse raciocínio, André não hesita em atribuir ao subproletariado um conservadorismo histórico, alimentado por de séculos de colonialismo, ditadura e exclusão.

Contudo, diferentemente de parte dos críticos ao lulismo, para o autor a sociedade brasileira não se desmobilizou nesse processo. Muito menos se despolitizou. É que a lógica do conflito, agora, se dá entre ricos e pobres, e não mais na chave proletariado x capital. E, aqui, novamente o autor segue a tese da regressão política do lulismo em relação ao “espírito de Sion”, ao estado da luta de algumas décadas antes.

André reivindica realizar “análise de classe”. Por que isso seria importante? Por um lado, porque é uma análise assentada na constituição de um sujeito que intervém na realidade. É exigência de quem deseja transformar a realidade, o que depende da ação de um sujeito em constante organização. A análise de classe permite não apenas interpretar a conjuntura histórica, mas antecipar-lhe pontos de ruptura e pesquisar pelas tendências transformadoras, que esse sujeito porta. Por outro lado, costuma ser uma boa ferramenta para a prática, uma vez que a classe em questão só se manifesta na luta (de classe). O sujeito que age como classe está em luta, então a análise, quando bem determinada, não deixa de ser uma pesquisa nas lutas e das lutas.

Bom, mas é mesmo Os sentidos do lulismo uma “análise de classe”?

Eu penso que, até aonde se proponha a ir, essa análise seja alusivamente correta mas politicamente insuficiente. Não há dúvida que o lulismo contribuiu para a integração do capitalismo no Brasil. Ainda que em condição precária e informal, eles passaram a batalhar por futuro. Mais capacitados para trabalhar e consumir, os integrantes do subproletariado engrossaram os circuitos de valorização do capital, canalizando os fluxos de trabalho aos vertedouros de mais-valor: os bancos, os fundos, os credores, as grandes empresas. A expressão “mercado interno” não é outra coisa que não o fortalecimento da economia “desde baixo”.

O problema dessa análise, no entanto, está em fazê-la apenas pelo lado das condições objetivas. Quer dizer, a análise reconhece a integração do subproletariado na modernização à brasileira, mas não se desenvolvem as contradições internas ao processo. Não se vê o outro lado, o que nessa integração transforma a própria modernização. André se restringe a sentenciar que o subproletariado deseja adaptar-se ao funcionamento existente, para assim ascender socialmente e jogar o “jogo”. Assim, ele pode e quer desaparecer como subproletariado. O que, à primeira vista, parece coincidir com a tese marxista de que a missão histórica do proletariado é abolir-se enquanto classe, é na verdade o seu oposto. O proletariado deseja abolir-se porque deseja destruir a sociedade de classes. E não porque pretende integrá-la acriticamente, como se pudesse existir uma sociedade de classes só com burgueses (a utopia liberal, geralmente cínica).

Disso, fica claro que o “subproletariado” não é uma classe, do ponto de vista da luta de classe. Faltam delinear-lhe as condições subjetivas. Falta explicar o que, no seio do “subproletariado”, resiste à dominação classista e formula, desde baixo, uma alternativa constituinte. Quais são as condições subjetivas do lulismo? Que não sejam a alienação e passivação das massas: o que seria reproduzir a velha visada reacionária sobre um povão ignaro. Seguindo Marx, poderia ser formulada a pergunta sobre a subjetividade do lulismo: como ver a nova composição social do ponto de vista das forças produtivas, e não somente das relações de produção? Noutras palavras, o que há de criação e afirmação de outro mundo, de uma sociedade sem exploração e violência, por dentro da nova classe que vem nas bases do lulismo? O que compõe as forças vivas e produtivas do lulismo, sua própria composição de classe? O que ela produz de diferente, que o lulismo potencia?

Essas perguntas sequer são colocadas. André se limita a postular uma espécie de anticlasse, o “subproletariado”, cujo desenho tende a um conservadorismo intrínseco. Vale provocar: o subproletariado que, uma vez reconhecido, quer se integrar acriticamente à sociedade existente, não se parece com a figura do mestiço? Pela via transversa, o subproletariado não seria o mestiço de parte da literatura da formação do Brasil que, uma vez elevado pela modernização emancipadora à condição de cidadão, perde a cor, i.e., se embranquece? Embranquece: adquirindo os valores, os sentidos de futuro e os protocolos de convivência do colonizador branco, tornando-se ele. Em vez de acordar do sono colonial, o lulismo só propiciaria um reforço da ordem dominante, aprofundando-a e estendendo-a. Com isso, o desejo dos pobres acaba reduzido a uma procura passiva por segurança e pertencimento, ignorando-se todo o desejo por não só viver em condições objetivas melhores, mas viver (n)outra sociedade, (n)outro Brasil.

A classe trabalhadora e seus rituais de esquerda, de fato, viraram suco. O que nos deveria alegrar. Não há nada a lamentar aí, se pensarmos que o projeto intrínseco do proletariado é mesmo dissolver-se. O caso é, sem nostalgia, pegar a geleia geral do kitsch e, das massas, produzir o biscoito fino. Disso já prefigurava a geração tropicalista, quando devastava criticamente a modernização à brasileira, antes mesmo dela se concretizar com tanta amplitude. Como queria Oswald, na descida antropofágica: é preciso sondar as forças sociais em estado ativado, no que derivam dos grandes marcos civilizatórios da própria modernidade. É pesquisar na estrutura produtiva do presente, os pés no chão, onde está a nova classe, o novo trabalhador e, em consequência, a nova esquerda. A esquerda não faliu: mudou.

André tem a consciência que o lulismo é mais do que uma solução arbitral do alto, a serviço das elites, perversamente traidora da tradição das lutas, com efeitos e resultados meramente objetivos. Seu livro não é catastrófico, e ele faz concessões aos interlocutores. As contradições podem ser lidas como ambivalências, assim como nos paradoxos habitam enigmas cuja análise deve ser continuada e desenvolvida. A abertura e a alegria com que encerra o livro dão prova da generosidade de quem não consegue se divorciar da experiência vívida do lulismo. Muitos a compartilham.

Fonte: Quadrado dos Loucos

"Maternidade: uma escolha?", texto de Suely Oliveira.

PICICA: "O que se passa na cabeça de uma mulher quando ela se descobre grávida? Depende. Para muitas mulheres receber o resultado positivo para gravidez pode ser motivo de alegria, de realização, de satisfação. Mas nem sempre é assim. A maternidade pode ser um lugar de prazer quando desejada e uma tormenta ou um pesadelo se acontece quando não faz parte dos planos, quando a mulher não se sente preparada, seja emocional ou profissionalmente. Essas mulheres, muitas vezes decidem pelo aborto, como a única solução possível que lhes resta. O aborto provocado é uma prática comum a todas as classes sociais, mas a ilegalidade coloca em risco as mulheres pobres e com menos acesso aos recursos médicos, é o que aponta os principais estudos sobre abortamento no Brasil."



Maternidade: uma escolha?

Texto de Suely Oliveira.

O que se passa na cabeça de uma mulher quando ela se descobre grávida? Depende. Para muitas mulheres receber o resultado positivo para gravidez pode ser motivo de alegria, de realização, de satisfação. Mas nem sempre é assim. A maternidade pode ser um lugar de prazer quando desejada e uma tormenta ou um pesadelo se acontece quando não faz parte dos planos, quando a mulher não se sente preparada, seja emocional ou profissionalmente. Essas mulheres, muitas vezes decidem pelo aborto, como a única solução possível que lhes resta. O aborto provocado é uma prática comum a todas as classes sociais, mas a ilegalidade coloca em risco as mulheres pobres e com menos acesso aos recursos médicos, é o que aponta os principais estudos sobre abortamento no Brasil.

Ensaio fotográfico - Gravidez e Feminismo Foto de Julia Zamboni.
Ensaio fotográfico – Gravidez e Feminismo. Foto de Julia Zamboni.

E quem são as mulheres que realizam aborto no Brasil? Segundo investigação realizada em 2009 por Reinaldo Guimarães, Débora Diniz e Marilena Corrêa para o Ministério da Saúde, intitulado ‘20 anos de Pesquisas sobre o Aborto no Brasil‘ (.pdf), são predominantemente mulheres com idade entre 20 e 29 anos, em união estável, com até oito anos de estudo, trabalhadoras, católicas, com pelo menos um filho, usuárias de métodos contraceptivos e que recorrem ao misoprostol para realizar o aborto.

O aborto quando realizado de forma segura é uma prática de fácil acesso e relativamente simples, do ponto de vista médico. No Brasil, uma mulher tem direito legal a interromper uma gestação em três situações: quando resulta de violência sexual, quando há risco de vida e em caso de feto anencéfalo.

Segundo o guia documento ‘Aspectos Éticos do Atendimento ao Aborto Legal: perguntas e respostas‘ (.pdf), da ANIS – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, nesses três casos “a mulher deve procurar o serviço de aborto legal mais próximo, para se consultar com a equipe multiprofissional. Em caso de violência sexual é importante que o serviço seja procurado o mais breve, já que o procedimento só é autorizado até a 20ª semana de gestação”.

Essa semana três fatos me fizeram viajar no tempo e lembrar que sim, um dia eu também fiz aborto, eu também disse não a uma gravidez que não foi planejada, que não veio no momento certo e não guardo nenhum tipo de culpa por isso.

O primeiro desses fatos foi a Nota de Repúdio à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para criminalizar a luta pela legalização do aborto no Brasil da Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB. O documento é um manifesto da entidade contra a iniciativa dos deputados João Campos (PSDB/GO) e Salvador Zimbaldi (PDT/SP) de requerer a instalação de uma CPI no Congresso Nacional “para investigar a existência de interesses e financiamentos internacionais para promover a legalização do aborto no Brasil”. Para a AMB esta CPI representa “um atentado contra a liberdade de opinião, de organização, de debate e de disputas democráticas por mudanças na legislação”. Além disso, ao meu ver é mais uma estratégia para criminalizar as mulheres.

O segundo fato, foi a matéria “Fiz dois abortos e não me culpo”, da revista Marie Claire. Na reportagem, Marina Caruso, redatora-chefe da revista, grávida de quase sete meses, conta porque decidiu interromper duas gestações, aos 19 e 22 anos. Ao me deparar com aquela notícia lembrei imediatamente de quando entrei na universidade, cheia de sonhos, planos e engravidei depois de uma primeira e única relação sexual. Não pensei duas vezes e fiz um aborto. A sensação de ter resolvido o problema é indescritível e única. A decisão pela interrupção da gravidez é na maioria das vezes vivenciada de forma solitária e clandestina.

Por último, ontem terminei de ler o livro ‘Carta ao Filho’, de Betty Milan (Editora Record, 2013). Pensei em mim, mas também em todas as mulheres que vivenciam um aborto. A autora também conta que interrompeu uma gravidez. Ela diz: “Tenho certeza que não era infértil antes de casar, porque, na onda da “revolução sexual”, já havia engravidado e feito um aborto”. (página 76).

Sou a favor da legalização do aborto independente das razões que levam uma mulher a interromper uma gravidez. O aborto é um grave problema de saúde pública e deve ser um direito das mulheres de realizá-lo quando assim o desejarem. Cabe ao Estado, laico como o Brasil, oferecer as condições necessárias para que este direito seja garantido. Como diz uma das insígnias feministas: “A mulher decide, a sociedade respeita e o Estado garante”.

—–
Suely Oliveira é feminista, blogueira e mestranda em Psicologia na UFPE. Vive a maior parte do tempo em Recife. Tem dois filhos e uma neta. Escreve no blog Esse tal climatério.

Fonte: Blogueiras Feministas

"O problema do discurso de ódio do Facebook" (Observatório da Imprensa)

PICICA: "As corporações têm algumas obrigações. Liberdade de expressão não é discurso de ódio. Liberdade de expressão nada tem de semelhante com um grupo chamado Estuprando Violentamente Sua Amiga Só pra Diversão. E um ambiente hostil e violento torna o conceito construído em torno da palavra “amigo” apenas uma piada cruel e estúpida. Ou como destacou alguém num comentário à carta, “no Facebook, o ódio por uma minoria religiosa ou étnica leva você a ser banido, mas o ódio por metade da humanidade leva você a ser ‘curtido’”."

Observatório da Imprensa

REDES SOCIAIS

O problema do discurso de ódio do Facebook

28/05/2013 na edição 748

Tradução de Jô Amado, edição de Larriza Thurler. Informações de Mary Elizabeth Williams [“Facebook’s hate speech problem”, Salon, 21/5/13]


Quando três adolescentes da região de Chicago foram acusados, no último fim de semana, de estuprar uma menina de 12 anos – e em seguida postar um vídeo da agressão em suas páginas no Facebook – era uma história tão revoltante quanto plausível. Afinal, você não tem que procurar muito no Facebook para encontrar imagens de mulheres sendo humilhadas ou de grupos que se dedicam a rir da violência contra as mulheres. Mas uma ousada carta aberta ao Facebook, divulgada na terça-feira (21/5), espera mudar isso.

Na carta, Jaclyn Friedman, da entidade Women, Action, & the Media, a escritora Soraya Chemaly e a idealizadora do projeto Everyday Sexism, Laura Bates, e dúzias de outras ativistas e grupos exigem do Facebook que “reconheça o discurso que banaliza ou glorifica a violência contra meninas e mulheres como um discurso de ódio” e que treine seus moderadores para o reconhecerem e removerem. Pede aos usuários do Facebook que “contatem anunciantes cujos anúncios foram publicados ao lado do conteúdo que visa às mulheres pela violência”. É um pedido feito com frequência, mas pode ser que desta vez seja ouvido.

Em apenas nove anos, o Facebook tornou-se parte do cotidiano das vidas de milhões de pessoas. Não há dúvida de que tem uma quantidade assombrosa de conteúdo que se propaga a um ritmo que é impossível acompanhar. O trabalho de moderar comunidades online é um dos mais difíceis e ingratos do universo e as falsificações e adulterações são inúmeras e infatigáveis. Ainda assim, o histórico do Facebook é espantoso.

Mulher é estuprada por gangue

Normalmente, o Facebook trata as mulheres que divulgam imagens de si próprias dando de mamar como, nas palavras da educadora Emma Kwasnica, “pornógrafas”, removendo as fotografias. Apaga as fotos de sobreviventes de câncer de mama. Somente quando são desafiados direta e publicamente – ou simplesmente quando os moderadores não compreendem – essas imagens, que nada têm de pornográfico, sobrevivem. No entanto, uma busca fácil irá produzir numa fan page de “saia para cima” a imagem de uma moça que nitidamente deixou sua calcinha em casa. Um rápido exame de uns poucos grupos que existem encontrará inúmeras referências humorísticas a vadias e ao que um punho cerrado pode fazer para endireitá-las.

Muito mais inquietantes, no entanto, são as inúmeras imagens pró-estupro e agressão que aparecem por todo o Facebook – muitas vezes ao lado de anúncios inócuos de livros de áudio e empresas aéreas. Tais como a imagem de uma mulher, em cima de uma pilha de lixo e em baixo de um lance de escadas, com a mensagem “Da próxima vez, não fique grávida” ao lado de um anúncio do Pringles. É por isso que alertar os anunciantes para o contexto em que suas mensagens aparecem é tão crucial. Talvez Pringles não queira ser o aperitivo oficial de cidadãos que jogam mulheres grávidas escada abaixo. Talvez a Duracell não queira carregar o aparelho de gente que “mata putas como você”. Um meme #Fbrape divulgado no Twitter na terça-feira já inspirou um dilúvio de tuítes e algumas possíveis ações prometedoras. Zipcar, por exemplo, prometeu “Não perdoamos o discurso de ódio contra as mulheres. Estamos verificando isto imediatamente.”

Mas o problema é mais profundo que as piadas e imagens sobre estupro e violência, passando para o reino do estupro e violência concretos. Soraya Chemaly, uma das autoras do projeto, disse na terça-feira que no outono passado uma leitora entrou em contato com ela via Facebook e disse-lhe que investigasse algo que encontrara ali postado. “Ela disse que já havia comunicado várias vezes e que a coisa já vinha há bastante tempo”, disse ela. Era um vídeo, de quase sete minutos, de uma mulher que caminhava pela calçada e que é agarrada e estuprada por uma gangue. “Estava no ar há 24 dias e tinha sido visto centenas de vezes”, disse Soraya Chemaly. “É incompreensível como é que pode ter ficado no ar durante tanto tempo.” (Soraya Chemaly também tomou providências e o vídeo foi rapidamente removido.)

Liberdade de expressão não é discurso de ódio

Como destaca Soraya Chemaly, é a seletividade aparentemente aleatória da aplicação do Facebook que irrita. “Tiraram a pintura de John Currin de Bea Arthur e deixam esta porcaria”, diz ela. No meio tempo, “eles criam um ambiente onde o estupro é divertido, onde se pode ter vaidade em fazê-lo”. Um ambiente onde, segundo documentos judiciais, é alarmantemente fácil colocar um vídeo do abuso sexual de uma menina de 12 anos.

As corporações têm algumas obrigações. Liberdade de expressão não é discurso de ódio. Liberdade de expressão nada tem de semelhante com um grupo chamado Estuprando Violentamente Sua Amiga Só pra Diversão. E um ambiente hostil e violento torna o conceito construído em torno da palavra “amigo” apenas uma piada cruel e estúpida. Ou como destacou alguém num comentário à carta, “no Facebook, o ódio por uma minoria religiosa ou étnica leva você a ser banido, mas o ódio por metade da humanidade leva você a ser ‘curtido’”.

Fonte: Observatório da Imprensa

Revista Fórum: Blog do Rovai: Alô Polícia Federal, segue mapeamento da ação na Internet contra o Bolsa Família; Franklim Martins assina o projeto de Lei da Mídia Democrática

Fórum

Blog do Rovai: Alô Polícia Federal, segue mapeamento da ação na Internet contra o Bolsa Família

Franklin Martins assina o projeto de Lei da Mídia Democrática

Ex-ministro da Secom do Governo Federal assina o projeto de Lei da Mídia Democrática e fala que o avanço sobre a regulamentação do setor das Comunicações é inevitável e deve ser realizado de forma aberta e transparente
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Caixa divulga nota sobre boato do Bolsa Família

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Amado Batista diz que mereceu ser torturado durante a ditadura militar

Músico afirmou em entrevista a jornalista Marília Gabriela que os militares estavam certos porque se não fizessem “aquilo”, o Brasil poderia ter se tornado uma Cuba
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Não fique calmo. Sobre o racismo na infância

Maria Rita Casagrande dá seu testemunho pessoal sobre o racismo sofrido por ela na infância, que hoje afeta o seu filho

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Resolução na questão agrária repercutiu bem na população e obteve elogios de especialistas
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maio 28, 2013

"Anatomia do prazer: clitóris e orgasmos", texto de Érika Pellegrino

PICICA: "[...] para que me proponho a escrever um texto que talvez seja de difícil compreensão sobre um assunto que nem gosto? Porque conhecimento é valioso, e o conhecimento sobre os nossos corpos é essencial –- nos dá poder sobre quem somos, como funcionamos, porque as coisas acontecem de determinada forma. Só assim dá pra questionar e não aceitar o que é colocado como verdade e realmente se apoderar do corpo com propriedade."


Anatomia do prazer: clitóris e orgasmos

Texto de Érika Pellegrino.

Anatomia é um conhecimento básico, que aprendemos de maneira mais intensiva no primeiro ano da faculdade de medicina, apesar de retornarmos ao tema o tempo todo durante o curso. Era a matéria que eu mais odiava, muito técnica, milhares de nomezinhos de origem grega ou latina pra criar todo um novo vocabulário e entendimento sobre o corpo que eu sabia que ia usar muito pouco na minha carreira de psiquiatra. Digo isso para me desculpar de antemão por alguma imprecisão ou dificuldade de passar o conhecimento. Não sou uma especialista e também não espero que esta pequena contribuição seja capaz de esclarecer toda a questão da anatomia feminina, já que com livros cheios de descrições e desenho, professores do lado, mesas com cadáveres e peças anatômicas dissecadas já era difícil entender o que ficava onde e para que.

Foto de Matt Blum. Integra o prpjeto fotográfico 'The Nu Project'.
Foto de Matt Blum. Integra o projeto fotográfico ‘The Nu Project’.

Bom, então para que me proponho a escrever um texto que talvez seja de difícil compreensão sobre um assunto que nem gosto? Porque conhecimento é valioso, e o conhecimento sobre os nossos corpos é essencial –- nos dá poder sobre quem somos, como funcionamos, porque as coisas acontecem de determinada forma. Só assim dá pra questionar e não aceitar o que é colocado como verdade e realmente se apoderar do corpo com propriedade.

Começando do começo

Durante o desenvolvimento embrionário, até por volta de 7 semanas, todo mundo é igual, não dá pra “saber o sexo” (anatômico) ainda. Conforme a presença e expressão de certos genes e hormônios, a maioria dos embriões vai ter o tecido da região genital diferenciado em feminino ou masculino. Uma outra parte apresentará alguma alteração nessa diferenciação pelos mais diversos motivos, e a medicina vai chamar isso de intersexo; nesses casos não dá pra dizer, só olhando externamente, se o sexo anatômico é masculino ou feminino. Isso tem uma série de implicações que não vai dar tempo de discutir aqui, quem sabe em outro post.

Mas o que nos importa para o assunto de hoje é: o que a sociedade e a medicina vai chamar de meninos e meninas na verdade têm órgãos correspondentes, derivados de um desenvolvimento divergente (porém análogo) de um tecido que era comum. Vocês já repararam que na parte de baixo do pênis tem um prega (chamada rafe), assim como no meio dos testículos? Pois é, porque aquilo era separado e se uniu, e uma marca é deixada “no meio do caminho”. A mesmíssima estrutura vai formar a bolsa escrotal no masculino e os grandes lábios no feminino; o corpo do pênis no masculino e os pequenos lábios no feminino; a glande do pênis no masculino e o clitóris no feminino.



Ou seja, não existe isso de que meninos têm pênis e meninas não.

Não somos barbies, quando olhamos para nossa genitália não vemos um pedaço liso de pele, uma grande ausência do precioso falo. Vemos os nossos órgãos genitais femininos, no caso das mulheres cissexuais, a vulva, que é a parte externa da genitália, composta pelos grandes e pequenos lábios, abertura da vagina e da uretra e o clitóris, que é coberto por uma pelinha (prepúcio). E ainda lá para dentro temos a vagina. Tudo formado pelo mesmo tecido, que se arranjou de formas diferentes no período embrionário. Ou seja, se é verdade que não temos pênis, é verdade também que os homens cissexuais não têm vulva ou vagina. Mas não estamos falando por aí em “inveja da vulva”, estamos? Isso porque essa frase de efeito, usada em tom de mais pura realidade objetiva que só as ciências biológicas conseguem dar, não é mais do que uma retrato da autoridade, de quem manda, de quem e do que deve ser invejado. Não tem nada a ver com anatomia, tem a ver com machismo.



Conhecimento é poder

Mas acontece que os meninos cissexuais acabam nascendo com a sua genitália balançando lá no meio das pernas, externalizada, que ele precisa lavar, tocar, mexer até pra fazer xixi. Nossa civilização coloca símbolos fálicos para todo lado e eles se sentem orgulhosos do que têm, usam como símbolo de poder. E, no nosso mundo, poder é demonstrado de forma agressiva. “Pega no meu pau!”, dizem os meninos cissexuais na escola (ou os adultos com mentalidade de pré-adolescentes), fazendo algum gesto obceno. Se alguém duvida de sua masculinidade, estão prontos para ameaçar abaixar as calças e mostrarem o que têm ali. As meninas cissexuais não fazem isso, não só porque seriam execradas, mas porque não faz sentido. Não têm o que mostrar ali, não têm do que se orgulhar, segundo essa lógica cultural. E além do mais, ninguém questiona a “feminilidade” delas como algo ofensivo, elas já são meninas, se disserem que elas têm culhões, isso é um elogio (e não necessariamente porque o masculino é valorizado, mas também porque o que é valorizado vira automaticamente masculino).
Então, no fim das contas, paras meninas não é tão simples. As coisas não são tão proeminentes e sempre ouvimos que é feio ou errado. Não é fácil enxergar tudo, demoramos para desenvolver intimidade, para explorar mais, parece que não deveríamos estar mexendo ali. E aí fica mais difícil descobrir onde está o prazer, experimentar de que jeito é gostoso.

Poxa, sou virgem, né? E se eu ficar mexendo não posso “perder” a virgindade?

Bom, o hímen é uma pele fininha que fica na entrada da vagina, é flexível e tem uma abertura no meio. É por ali que sai a menstruação e outras secreções vaginais. Também é por onde entra o dedo ou o absorvente interno. Em alguns casos, o orifício pode ser muito pequeno e causar algum desconforto ou dificuldade para introduzir algo pela entrada da vagina, mas geralmente ele se alarga com a prática. Em outros, ele pode ser totalmente fechado, e aí na época de menstruar o sangue não tem por onde sair e geralmente precisa fazer uma pequena cirurgia para abrir.

O hímen tem poucas terminações nervosas e pode ser rompido em algum ponto quase sem percebermos, ou causando um leve desconforto, e ele fica lá, para sempre; não desaparece quando transamos pela primeira vez. Repito, ele é um resquício embrionário, um pedaço de pele. Não é lacre de segurança, nem certificado de garantia. O rompimento do hímen é comum na maioria das mulheres e pode acontecer, por exemplo, durante a penetração (de um pênis, dos dedos seus ou d@ parceir@, de um brinquedo), na primeira, segunda ou milésima vez.



Virgindade é uma construção social e não uma instância anatômica, e “perdê-la” tem a mesma definição pra meninos e meninas: é a primeira vez que fazemos sexo (e aí acho que você pode considerar o que quiser, a virgindade é sua, e sexo é uma coisa muito, mas muito ampla). Não dizemos que os meninos deixam de ser virgens quando se masturbam, não é? Então como é que podemos perder a virgindade sozinhas???

Então vamos!

Toda a região da vulva é bastante sensível à estimulação sexual, assim como a parte mais externa da vagina (mais para o fundo ela fica menos sensível), o períneo (região entre a vagina e o ânus) e o ânus. Conhecendo as áreas do nosso corpo que podem nos proporcionar prazer e treinando elas para isso vai fazer tudo ficar muito melhor. Nós temos um circuito nervoso prontinho só para ter orgasmo.

No caso do pênis, o circuito do orgasmo é o mesmo da ejaculação, então é difícil gozar sem ejacular (tanto que frequentemente usam-se essas palavras como sinônimos). Num outro momento, podemos explicar como funciona para os homens e para algumas mulheres transexuais, mas o fato é que a nossa linda anatomia nos permite simplesmente ter prazer sem absolutamente nenhuma função reprodutiva direta nisso. E apesar do patriarcado tentar voltar isso contra nós, e algumas culturas condenarem o prazer feminino porque atribui como unica finalidade sexual a reprodução, nós achamos que isso é muito ultrapassado e também não queremos transar com essas pessoas. Queremos sexo com pessoas que nos deem orgasmos!

Mas então por que até 70% das mulheres não conseguem ter orgasmos?

OK, temos um circuito nervoso prontinho para nos dar orgasmos. E também temos circuitos de linguagem no cérebro iguais aos das pessoas da China, e não sabemos escrever ideogramas. Porque o nosso cérebro aprende o que a gente treina, e se a gente não treinar ter orgasmos, vai ser bem mais difícil. E a gente não treina porque não conhece o próprio corpo. Como eu disse, os meninos cissexuais conhecem, vão lá desde cedo, uma, duas, dez mil vezes, treinam frequentemente imaginando pessoas que os excitam e vendo revistas ou filmes que são vendidos a rodo para eles (mas quase não existem direcionados ao público feminino) e aí fica todo mundo falando: fato biológico, homens são mais visuais, se excitam rapidamente e chegam mais rapidamente ao orgasmo. Aham. Mulheres são mais “sensação”, gostam mais do toque, mas será coincidência que as únicas experiências que ela teve foram com @ parceir@? Uma olhada no espelho, masturbação de vez em quando, com um certo sentimento de vergonha, debaixo das cobertas?

O que é preciso para ter orgasmos é ter orgasmos

É preciso ensinar o seu circuito nervoso, que leva os estímulos ao cérebro, que dependendo da forma que você é estimulada, fica bom assim, você goza. Repetição, repetição, repetição = comportamento aprendido. Claro que diversos fatores emocionais podem atrapalhar, mas podem ajudar também. Descubra do que você gosta. Filmes, contos eróticos, fotos? Treine sozinha, nada é ridículo, é só você e seu corpo.



Tradução: Eu nem sabia que havia uma palavra para o resultado inevitável do movimento de me esfregar na minha cadeira… o espasmo implosivo tão atordoadamente completo e perfeito que por alguns breves momentos eu não poderia questionar sua inerente validade moral. – Do quadrinho Fun Home, de Alison Bechdel

E claro, falamos de algumas questões anatômicas importantes, mas não tocamos no ponto principal aqui. A parte mais sensível (com mais terminações nervosas) do corpo do homem cissexual é a glande (a cabeça) do pênis. E o que é que eu tinha falado que tem a mesma origem embrionária na genitália feminina?

Sim, o clitóris!

Fato, o clitóris tem a única função de proporcionar prazer, mais nada. Não protege lugar nenhum, não recebe o pênis para funções reprodutivas, nada. Só serve para isso, então dê a ele a devida atenção! O circuito nervoso do orgasmo sai do feixe nervoso do clitóris — ou seja, é ele que nos faz gozar. Claro que o orgasmo é cerebral e estímulo em outras áreas pode proporcionar prazer, mas por que não facilitar? Ele está lá para isso e tem duas vezes mais terminações nervosas que o pênis. Peraí, vou repetir: duas vezes! Lá, logo acima da uretra, uma bolinha menor que uma ervilha. Tem uma pele cobrindo, mas quando você estiver excitada ela aumenta de tamanho e fica bem mais fácil de achar.



O clitóris na verdade é um órgão maior e mais comprido, pois continua internamente e enche de sangue durante a excitação sexual. Alguns estudiosos acreditam que o estímulo dessa parte interna durante a penetração poderia corresponder ao tal ponto G — que, desculpe informar, não tem um local anatômico definido, mas divirta-se procurando! O clitóris pode ser estimulado durante uma relação sexual com a mão, com vibradores específicos ou anéis vibratórios penianos, pela fricção com a pelve d@ parceir@, com a língua, os dedos…


O vídeo “Clitóris, prazer proibido” é genial, e pode mudar a sua vida, então assista (é sério, assista).


Enfim, conheça o seu corpo, se goste, goze sozinha para depois ensinar a alguém como te fazer sentir isso. Isso vale tod@s. Sei que esse texto foi majoritariamente direcionado a mulheres cissexuais, mas independente da sua anatomia genital (e se ela é compatível ou não com o seu gênero), pense na questão da necessidade de treino para conseguir ter orgasmos. Claro que pode ser ainda mais difícil, mas lembre-se que mesmo que você vá passar por uma cirurgia de transgenerização, ou tomar hormônios, você vai usar a mesma estrutura nervosa e vascular para ter orgasmos. Se você não treinar antes desses procedimentos, depois pode ser mais difícil saber como deveria ser e mesmo avaliar o sucesso ou o que dá para melhorar.

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Érika Pellegrino é médica, está fazendo psiquiatria e acha o máximo ser paga pra ouvir inúmeras historias interessantes todos os dias

Blogueiras Feministas

Somos brasileir@s, de várias partes do país, com diferentes experiências de vida. Somos feministas. A gente continua essa história do feminismo, nas ruas e na rede.

Fonte: Blogueiras Feministas

"Spinoza, Nietzsche e Negri", por Homero Santiago

PICICA: "IHU On-Line – Por que afirma em um de seus projetos de pesquisa que Spinoza e Nietzsche representam “pedras de tropeço na marcha triunfal da racionalidade emergente na modernidade”? O que seriam as “ilusões do eu”?

Homero Santiago – Ilusões do eu são aquelas, arraigadas na tradição porque arraigadas em nós mesmos, de que somos dotados de uma vontade livre capaz de tornar-se imbatível em qualquer situação (ilusão do livre arbítrio); de que somos, nós seres humanos, a fina flor da criação, o que há de melhor na natureza (ilusão do antropocentrismo); de que a própria natureza segue fins ou objetivos precisos (ilusão do finalismo), e assim por diante. São ilusões, como quaisquer outras, mas principalmente são ilusões “do eu” porque emergem de certas vivências do próprio eu: pensamos ser livres, logo imaginamos que o gênero humano é dotado de liberdade; costumamos nos representar agindo segundo fins, logo supomos que a natureza procede conforme fins; nos achamos superiores aos demais seres naturais, logo nos pomos como o centro do universo. Não são ilusões que desconhecem um fundamento; pelo contrário, o fundamento delas está enraizado em nosso próprio ser e no modo como entendemos, vivenciamos a nós mesmos. São ilusões, nesse sentido, dotadas de certa realidade (é um fato que alguém que se imagina agindo sempre segundo fins, de fato age segundo fins); a ilusão maior, porém, é transferir tudo isso para o mundo ou mesmo, em muitos casos, para a figura de um Deus criador, voluntarioso, livre, caprichoso, semelhante a nós em tudo. Ora, poucos filósofos foram tão longe na crítica dessas ilusões quanto Spinoza e Nietzsche. Tendo em conta que muito do que entendemos por modernidade, e sobretudo a racionalidade moderna – que começa a surgir no século XVI, toma forma definida no século XVII e se torna hegemônica partir do Iluminismo – ergue-se em boa medida sobre tais pressupostos ilusórios, mister é concluir que filósofos como Spinoza e Nietzsche são pedras no sapato da racionalidade moderna."


Spinoza, Nietzsche e Negri

28/05/2013
Por Homero Santiago


Entrevista de Homero Santiago, por Márcia Junges (IHU)

Pedras no sapato da racionalidade moderna, o filósofo holandês e o alemão têm proximidade em algumas de suas ideias. Filosofia política spinozana influencia de forma determinante os escritos do militante e intelectual italiano, observa Homero Santiago.

Spinoza exerceu grande influência sobre as obras de Antonio Negri, sobretudo a trilogia que publicou com Michael Hardt. “O spinozismo possui um lugar de primeira ordem como base teórica” para esses escritos, acentua o filósofo Homero Santiago na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Spinoza nos ensinaria a forjar uma política que não tivesse como centro o sujeito tradicional (dotado de livre arbítrio, ser moral, etc.), mas um sujeito, se me permite dizer assim, sujeito a uma série de ardis do poder (os mesmos que o fazem lutar por sua servidão como se o fosse por sua liberdade). É notável a importância disso quando sabemos que boa parte da reflexão política spinozana voltou-se à compreensão de um tipo de poder, o poder teológico-político, que se ergue tendo por base a disseminação do medo”, acrescenta o pesquisador. Em seu ponto de vista, isso é algo útil para entendermos nossa situação atual.

IHU On-Line – Em que aspectos as categorias espinozanas estão presentes na renovação recente do pensamento político?

Homero Santiago – Vale a pena retroceder um pouco, pois a pergunta traz à baila a própria recepção do spinozismo no século XX, que passa de maneira muito relevante pela preocupação política. Na década de 1960, quando Louis Althusser começa a apresentar os frutos de sua nova leitura de Marx, Spinoza surge como uma peça-chave. Foi com um desvio por Spinoza, ele afirma, que pôde repensar Marx. A partir daí se seguirão vários trabalhos dedicados à política de Spinoza. Numa trilha um pouco diversa, ao início da década de 1970 é publicado O Anti-Édipo, de Gilles Deleuze  e Félix Guattari , no qual o spinozismo é mobilizado, entre outras correntes de pensamento, para uma análise do capitalismo contemporâneo. Para medir a importância de Spinoza ali, basta lembrar que os autores o dão como aquele que teria formulado o problema por excelência de toda filosofia política: entender “por que os homens combatem por sua servidão como se se tratasse da sua salvação”. Já na década de 1980, temos a figura ímpar do italiano Antonio Negri, cuja reflexão política é fortemente calcada no spinozismo. Em suma, alguns dos maiores nomes do pensamento político contemporâneo se referem a Spinoza.

Por que um filósofo do século XVII interessa tanto ao século XX? Com a afirmação de Deleuze e Guattari, já vimos um pouco do porquê: como ninguém Spinoza teria posto o problema de toda filosofia política vindoura. É claro que isso não é ponto pacífico (Negri, por exemplo, não concordaria), mas já é bem significativo. Spinoza nos ensinaria a forjar uma política que não tivesse como centro o sujeito tradicional (dotado de livre arbítrio, ser moral, etc.), mas um sujeito, se me permite dizer assim, sujeito a uma série de ardis do poder (os mesmos que o fazem lutar por sua servidão como se o fosse por sua liberdade). É notável a importância disso quando sabemos que boa parte da reflexão política spinozana voltou-se à compreensão de um tipo de poder, o poder teológico-político, que se ergue tendo por base a disseminação do medo. Sem dúvida é algo muito útil para compreender nossa própria situação presente. Pensando no Ocidente, não temos mais regimes fundados sobre a teologia, mas há tempos (pensemos na guerra ao terror) conhecemos uma política que se faz pelo medo, que controla pelo medo (medo do terrorista, do desemprego, do imigrante etc.).
Por outro lado, podemos ainda invocar o lugar particular da democracia no pensamento spinozano. Spinoza foi o único a sua época, e na maioria das épocas, a apostar todas as suas fichas na democracia, afirmando ser o regime de governo superior, pois o único a permitir o pleno florescimento da natureza humana. Muitos outros aspectos do pensamento spinozano ainda poderiam ser invocados, mas esses já dão conta de sua importância para o pensamento político contemporâneo.

IHU On-Line – Dentro dessa perspectiva, como analisa as obras e o ativismo político de Antonio Negri?

Homero Santiago – Antonio Negri é uma figura sui generis. Nascido em 1933, nos anos 1960 era um jovem acadêmico promissor, docente na Universidade de Pádua; em simultâneo, um militante ligado ao grupo político que viria a ser chamado de operaista. Negri participa de boa parte da movimentação política na Itália ao longo da década de 1970; um período rico em experiências, mas também difícil, sobretudo após o aparecimento da luta armada por parte das Brigadas Vermelhas . Em 1979, Negri é preso sob várias acusações, entre elas coordenar o assassinato do primeiro ministro Aldo Moro , acusação depois deixada de lado por falta de provas. De todo modo, ele será condenado por insurreição armada contra o Estado. Acabará fugindo e vai para um longo exílio, na França, até retornar voluntariamente à Itália em 1997 e cumprir o restante de sua pena de prisão.
O ponto mais interessante, a meu ver, é como em Negri o percurso militante se alia à produção teórica. Por todo esse período, Negri vai publicando uma série de obras que tentam analisar a situação política contemporânea, compreender os novos meandros do capitalismo e, sobretudo a partir do exílio francês, promover uma reflexão marcadamente filosófica (seus principais interlocutores vão ser Guattari, Deleuze, Foucault ). São trabalhos em que nitidamente a teoria precisa desdobrar-se para, ao compreender a situação dada, saber agir; aí teoria e prática, compreensão e ação se vinculam estreitamente. E nisso tudo o papel da filosofia spinozana é de suma importância. Logo que é preso, Negri se põe a trabalhar sobre Spinoza, o que resultará num livro muito influente, todo escrito na prisão, publicado em 1981 sob o título de A anomalia selvagem . É um marco na carreira de Negri e prepara boa parte do desenvolvimento posterior de seus trabalhos. Um acerto de contas com a militância, uma reflexão sobre si a partir do estudo de um autor também perseguido, uma análise da situação política a sua volta. Negri ainda dedicará vários textos a Spinoza, e especialmente o spinozismo possui um lugar de primeira ordem como base teórica para a trilogia que ele, mais recentemente, publica com o americano Michael Hardt  e que é composta por Império (2000), Multidão (2004) e Commonwealth (2009). São obras de grande valor, pois surgem na sequência do anúncio do “fim da história” e tentam dar conta de uma reconfiguração política, econômica e social do mundo contemporâneo com vistas à transformação, àquilo que outrora se chamava de “revolução”. A questão nem é dizer se Negri e Hardt estão certos ou errados; os trabalhos deles, eu diria, valem, antes de tudo, por terem conseguido identificar, em geral com precisão, os problemas que se hoje põem ao pensamento político.

IHU On-Line – Quais são os vínculos e diferenças fundamentais entre esses dois pensadores?

Homero Santiago – A proximidade é evidente, já pelo percurso há pouco descrito. Não teria dúvidas em dizer que Negri constroi uma filosofia política que podemos qualificar de spinozana, embora com a ressalva de que ele nunca se pretendeu apenas um historiador da filosofia. Negri serve-se do spinozismo como instrumento para pensar. É um processo rico, não isento de discussões, mas muito rico, que o leva a resgatar noções spinozanas como “democracia absoluta” e “multidão”, a ideia de que a política tem de se pautar pela alegria, pela potência, que o inimigo sempre age pelo medo, e assim por diante. A meu ver podemos sumariar tudo isso, a proximidade, a retomada conceitual, com uma afirmação que Negri faz acerca de Spinoza e na qual, creio, ele se reconhece totalmente: a ontologia se resolve pela política, a ontologia spinozana é a política spinozana.
Agora, como afirmado, Negri não se preocupa em ser estritamente spinozano. Por isso, claramente dá também passos que distam de Spinoza. Por exemplo, para retomar o dito acima, ele discorda da estipulação feita por Deleuze e Guattari de que o problema da filosofia política seria o problema descoberto por Spinoza, ou seja, entender por que lutamos por nossa servidão como se lutássemos por nossa liberdade. De minha parte, acho que os franceses estavam certos em afirmar que esse era o problema de Spinoza. Para Negri, porém, haveria nisso um acento demasiado sobre a servidão, a submissão dos homens ao poder. Vários pontos poderiam ser analisados em detalhe, mas eu resumiria a distância entre Negri e Spinoza afirmando que o primeiro põe uma ênfase na liberdade que é estranha ao segundo. A liberdade é um grande tema spinozano, decerto, mas como afirma o final da Ética é algo raro e difícil; já Negri parte da liberdade, por vezes fica a impressão de que estamos como que destinados à liberdade; é ela que movimenta tudo, que faz o mundo andar, e com isso se dá pouca atenção à servidão, tema caríssimo a Spinoza. Em resumo, o homem político negriano dá a impressão de ser pouco ambíguo, não ser atravessado por tensões como são os homens spinozanos.

IHU On-Line – Quais são os “ecos” spinozanos na categoria de “multidão” de Negri?

Homero Santiago – Todos os ecos possíveis. De fato, o conceito de multidão (e diria mais: toda a trilogia de Negri e Hardt) vem dar conta daquilo que Negri em 1981, na Anomalia selvagem, dava como o problema maior da modernidade filosófica. Há um trecho do livro que diz tudo: “A revolução e a sua borda são em Spinoza o terreno sobre o qual se funda uma extraordinária operação de prefiguração do problema fundamental da filosofia nos séculos sucessivos: a constituição do coletivo como práxis. É, desse ponto de vista, verdadeiramente uma filosofia sem tempo, a spinozana: o seu tempo é o futuro!” Sublinhemos, para Negri o problema de toda a modernidade, um período que nasce de uma crise (a do Renascimento) e que é atravessado por crises, é a constituição do coletivo como práxis, da práxis comum que possa dar forma ao comum. Ora, o que a trilogia vem fazer? Qual questão a anima de alto a baixo? Responder a esse problema, que Negri descobre em Spinoza e que para ele se põe como o problema de todo o pensamento político. A resposta vem pela ideia de multidão. Ela é o sujeito político coletivo, a portadora da práxis coletiva. É um caso exemplar de resgate de uma noção spinozana a ser recalibrada com os acontecimentos de nossa época e servir à análise deles (não custa lembrar que a reconfiguração da multidão spinozana pelas mãos de Negri e Hardt depende muito das lutas ocorridas em Seattle, em 1999, e também em Gênova, em 2001).

IHU On-Line – Para Spinoza as coisas não ocorriam através de uma teleologia, e sim via operação de necessidade. Nesse sentido, seu pensamento pode ser considerado determinista? Por quê?

Homero Santiago – Vamos por partes. A filosofia spinozana é, sem dúvida, uma filosofia determinista. A questão é saber o que é esse determinismo e quais suas implicações. Primeiro, tudo é determinado. O conceito spinozano de Deus (e tudo no spinozismo, de alguma maneira, é Deus, já que se trata da única realidade) difere bastante do Deus tradicional, judaico-cristão, concebido como uma pessoa que escolhe isso ou aquilo, que desejou criar o mundo, que formulou alguns mandamentos, etc. O Deus spinozano pode ser dito a natureza, num sentido amplo, ou seja, Deus é o próprio real. Não é uma pessoa, não escolhe, não tem afetos, não decide nada, não segue fins ou objetivos; ele é o fundo do próprio real e tudo que é real dele se segue, como propriedades se seguem de uma figura geométrica (é a comparação preferida de Spinoza). Por isso, tudo é determinado. O real é apenas a grande sequência de todos os efeitos determinados de Deus, uma série infinita de causas e efeitos, em que Deus não está nem no início nem no fim tampouco acima da série; ele é a própria série. Eis o determinismo spinozano. Agora, esse determinismo é bem diferente de uma predeterminação (o prefixo “pré” faz toda a diferença). Nada daquela história de que estava escrito desde o início dos tempos que fulano estaria em tal lugar com tal roupa, e assim por diante. Isso seria pré-determinação. Posso dizer que determinadamente uma criança humana, ao nascer, será ou destra, ou canhota, ou ambidestra; não está escrito desde o início dos tempos que ela será isso ou aquilo. São duas coisas diversas.

IHU On-Line – Como Negri trabalha esse determinismo face a tentativa de mudança do real a partir do conceito de multidão?

Homero Santiago – Negri não precisou tornar-se spinozano para ser determinista. Ele foi, antes de spinozano, um filósofo marxista, e o marxismo é sem dúvida, também ele, um determinismo. Desde que o determinismo não seja confundido com predeterminação, é inteiramente compatível com a ideia de mudança, de transformação. Na história humana, há sem dúvida transformações e determinações, e isso não é contraditório. O determinismo não se opõe ao possível, à possibilidade de mudança; o fatalismo ou a predeterminação é que se opõem. O que é fatalismo? É predeterminação, ou então, em termos mais próximos dos nossos, é dizer – por exemplo – que a história acabou, como fez Fukuyama  ao final da década de 1980 com a tese do “fim da história”; é dizer que não adianta fazer nada porque nada mudará. Pelo contrário, o determinismo afirma que toda transformação é determinada, que não cai do céu e não nasce da nossa cabeça. Isso exige atenção às coisas, ao que acontece, e criatividade para ver como, dentro do que acontece, surgem possibilidades determinadas de transformação. Nesse sentido, a ideia de multidão é fundamental para Negri; é algo novo que nasce, algo que não é nem a classe operária antiga, nem uma humanidade abstrata; mas algo determinado pela própria situação do capitalismo contemporâneo. Aqui, Spinoza e Marx se aliam: é o próprio desenvolvimento do capitalismo que produz, em seu seio, algo que possa ultrapassá-lo. E todo o processo é determinado.

IHU On-Line – Pensando nessa perspectiva, como é possível compreender a liberdade em Spinoza?

Homero Santiago – Primeiramente, é imprescindível não conceber a liberdade segundo os termos mais corriqueiros, que são aqueles que legamos da tradição e que faz liberdade equivaler a livre arbítrio, liberdade de escolha entre contrários ou vontade livre; como se alguém, desde que livre, pudesse escolher o que quer que fosse não obstante todas as determinações em contrário. De maneira afirmativa, podemos dizer que liberdade é fundamentalmente autonomia; compreensão do real que nos permite agir. Brevemente: ser livre é agir. Pensemos no exemplo dado acima. Uma criança será determinadamente destra, ambidestra ou canhota. Digamos que sou destro e, por um acidente, vejo-me na condição de não mais ser capaz de escrever com a direita. É determinadamente, ainda que não fatalisticamente (isso não estava escrito desde o início), que eu era destro, que perdi a capacidade de usar a mão direita; até aí nada dependeu de mim, tudo dependeu da fortuna, a qual não está em meu poder. O que está em meu poder? A partir da situação determinada que me foi imposta por acontecimentos que não escolhi, passar a escrever com a mão esquerda. É um exemplo simplório, mas acho que resume bem a virtude capital do homem livre para o spinozismo. Ser livre é, mesmo diante das situações mais adversas, agir, não simplesmente padecer os fatos.

IHU On-Line – Para Spinoza, até mesmo o comportamento humano seria totalmente determinado, sendo então a liberdade a nossa capacidade de saber que somos determinados e compreender por que agimos como agimos. Desse modo, a liberdade para Spinoza não é a possibilidade de dizer “não” àquilo que nos acontece, mas sim a possibilidade de dizer “sim” e compreender completamente por que as coisas deverão acontecer de determinada maneira. A partir dessa constatação, é possível compreender a afirmação trágica da existência, em Nietzsche , sob uma perspectiva spinozana? Por quê?

Homero Santiago – De início, é bom precisar o que é essa “afirmação trágica da existência” em Nietzsche, pois o adjetivo “trágico” presta-se a confusões. Não se trata de uma abnegação de seus quereres em face dos acontecimentos, não é uma resignação diante dos rumos do mundo. Trágico aí aparece num sentido clássico: o posicionamento, por exemplo, que um personagem assume numa tragédia grega em face de acontecimentos que não dependem inteiramente dele, mas que não deixam de afetá-lo. O trágico não é aquele que assume a posição de sábio estoico e que se resigna, acatando tudo o que acontece; é aquele que aceita o mundo como ele é, em sua inteireza, no que agrada e no que desagrada, e busca agir neste mundo. Nesse sentido, a afirmação trágica da existência é aceitação do mundo como ele é; só que não, repito, aceitação por resignação nem por indiferença, como se falássemos de um fado (de novo, o perigo do fatalismo!); é uma aceitação amorosa (e friso o adjetivo). Nas palavras de Nietzsche, um “grande sim” ao mundo, à vida, à existência em sua totalidade, sem querer escolher partes dessa existência (ilusão que só acarreta tristeza). Entendida assim, acho que a aceitação trágica da existência também se encontra, não nesses termos evidentemente, em Spinoza. Por exemplo, a sua Ética, na parte IV, proposição 7, define a “verdadeira sabedoria” como uma “meditação sobre a vida”. Pois reconheço aí a ação de um princípio animador que é o mesmo que leva Nietzsche a falar em aceitação trágica. Nos dois casos, um “grande sim” à vida, um grande amor à vida e ao mundo. Não é à toa que Nietzsche falasse em “amor do fado” (ou do destino, amor fati) ao passo que Spinoza falasse, para designar o ápice da sabedoria e da felicidade humanas, em “amor intelectual de Deus” (e vale lembrar que Deus, aí, é sinônimo de real).

IHU On-Line – Por que afirma em um de seus projetos de pesquisa que Spinoza e Nietzsche representam “pedras de tropeço na marcha triunfal da racionalidade emergente na modernidade”? O que seriam as “ilusões do eu”?

Homero Santiago – Ilusões do eu são aquelas, arraigadas na tradição porque arraigadas em nós mesmos, de que somos dotados de uma vontade livre capaz de tornar-se imbatível em qualquer situação (ilusão do livre arbítrio); de que somos, nós seres humanos, a fina flor da criação, o que há de melhor na natureza (ilusão do antropocentrismo); de que a própria natureza segue fins ou objetivos precisos (ilusão do finalismo), e assim por diante. São ilusões, como quaisquer outras, mas principalmente são ilusões “do eu” porque emergem de certas vivências do próprio eu: pensamos ser livres, logo imaginamos que o gênero humano é dotado de liberdade; costumamos nos representar agindo segundo fins, logo supomos que a natureza procede conforme fins; nos achamos superiores aos demais seres naturais, logo nos pomos como o centro do universo. Não são ilusões que desconhecem um fundamento; pelo contrário, o fundamento delas está enraizado em nosso próprio ser e no modo como entendemos, vivenciamos a nós mesmos. São ilusões, nesse sentido, dotadas de certa realidade (é um fato que alguém que se imagina agindo sempre segundo fins, de fato age segundo fins); a ilusão maior, porém, é transferir tudo isso para o mundo ou mesmo, em muitos casos, para a figura de um Deus criador, voluntarioso, livre, caprichoso, semelhante a nós em tudo. Ora, poucos filósofos foram tão longe na crítica dessas ilusões quanto Spinoza e Nietzsche. Tendo em conta que muito do que entendemos por modernidade, e sobretudo a racionalidade moderna – que começa a surgir no século XVI, toma forma definida no século XVII e se torna hegemônica partir do Iluminismo – ergue-se em boa medida sobre tais pressupostos ilusórios, mister é concluir que filósofos como Spinoza e Nietzsche são pedras no sapato da racionalidade moderna.


Homero Santiago é doutor em Filosofia pela USP

Publicado originalmente no IHU online

Fonte: Rede Universidade Nômade