dezembro 29, 2013

"Hidrelétricas perdem até 30% com clima, diz Coppe" (IHU)

PICICA: "As mudanças climáticas tendem a exigir investimentos adicionais do Brasil em geração elétrica da ordem de US$ 50 bilhões até 2035 ou 2040, disse ontem o pesquisador Roberto Schaeffer, professor de planejamento energético do programa de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ)."

Hidrelétricas perdem até 30% com clima, diz Coppe

As mudanças climáticas tendem a exigir investimentos adicionais do Brasil em geração elétrica da ordem de US$ 50 bilhões até 2035 ou 2040, disse ontem o pesquisador Roberto Schaeffer, professor de planejamento energético do programa de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ).

A reportagem é de Francisco Góes e publicada pelo jornal Valor, 13-06-2012.

Os recursos teriam de ser aplicados em projetos de geração térmica a gás e em novas linhas de transmissão de eletricidade, que ajudariam a compensar perdas de até 30% na capacidade de geração de usinas hidrelétricas afetadas pelas mudanças de clima.

"Para o mercado não ficar desabastecido [em consequência do efeito das mudanças climáticas sobre a oferta de água para as hidrelétricas], o país teria que instalar outras plantas [térmicas a gás] que iriam repor a energia perdida das fontes hídricas, sobretudo aquelas a fio d'água [sem reservatórios]. Seria uma espécie de seguro pelas mudanças climáticas, algo que estimamos em cerca de US$ 50 bilhões [até 2035]", disse Schaeffer. Ele disse que o investimento em usinas térmicas e no reforço às linhas de transmissão de energia elétrica tem o objetivo de fazer com que o sistema brasileiro fique "invulnerável" à mudança climática.

Schaeffer afirmou que as projeções constam de estudos sobre possíveis cenários de mudança climática no Brasil e seus efeitos sobre o setor energético brasileiro. "Quando analisamos como as mudanças climáticas vão impactar a temperatura e os níveis de chuvas, notamos que há uma tendência de o Nordeste virar uma região árida, quase um deserto, e a Amazônia se savanizar", disse Schaeffer.

Nesse cenário e considerando que grande parte da expansão hidrelétrica está na região norte, incluindo usinas a fio d'água, chegou-se à conclusão de que poderia se perder até 30% de capacidade de geração hidrelétrica até 2035-2040. "Em alguns momentos, poderia ter déficit de capacidade instalada batendo em quase 30%."

A conta considera ainda que a mudança climática poderia levar a períodos secos ainda mais secos e a períodos úmidos talvez mais úmidos, mas sem efeitos nos casos das hidrelétricas a fio d'água.

Schaeffer participou de painel sobre clima no Fórum sobre Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável, dentro da programação paralela da Rio+20.

No debate, o pesquisador da Coppe reconheceu que a crise econômica na Europa está colocando as preocupações com a mudança climática em segundo plano. "Com a crise, esse assunto [a mudança do clima] deixa de ser prioridade e, ao não investir ou deixar de manter linhas de pesquisa [sobre o tema], se perde tempo", disse Schaeffer.

Ele reconheceu, porém, que a crise trouxe um efeito positivo relacionado à redução das emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global como resultado de uma menor atividade econômica. O pesquisador disse que, em momentos de crise, tende-se a descontinuar certos programas. Citou como exemplo incentivos ou legislações que podem estar sendo criadas para estimular transporte público mais limpo e para aumentar a eficiência energética.

Fonte: IHU

dezembro 28, 2013

"Para uma definição ontológica de esquerda e direita", por Silvio Pedrosa

PICICA: "O quê, ao fim e ao cabo, importa, a fim de que se possa retirar todas as implicações das atitudes da(s) esquerda(s) diante da teleologia do comum (em nada aparentada a qualquer movimento dialético) é, de fato, o modo pelo qual elas se articulam para fazer com que esse movimento se realize segundo uma perspectiva da organização imanente do poder constituinte, e não da ordem transcendente do poder constituído³, construindo uma democracia cada vez mais multitudinária, participativa e aberta. Diante dos desafios que a contemporaneidade coloca em marcha, ser de esquerda, mais do que nunca, é estar dentro dos movimentos, lá onde se pode produzir diferença qualitativa entre o antes e o depois, lá onde como afirma Negri é possível distinguir entre diferença e repetição." 




Para uma definição ontológica de esquerda e direita


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Ontologia política nas ruas do Brasil em 2013
 
O historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva publicou uma boa contribuição ao debate sobre a questão a respeito do quê é ‘ser de esquerda hoje?’ no site Carta Maior, cujo título é “A ‘esquerda’, o mapa e a montanha”. Nele, por vários ângulos, o autor fustiga a questão sobre como se (re)configuram as clivagens ideológicas no mundo contemporâneo – mais especificamente no mundo pós-queda do muro de Berlim que o autor identifica, diferenciando-se da maioria dos analistas de esquerda disponíveis no colunismo político nacional, não como momento da instauração de uma crise da esquerda, mas como momento de libertação do stalinismo e do socialismo real. Ao longo do exercício, o autor fornece alguns critérios para a atualização da díade que emergiu do ‘grande salão da assembleia’ na Revolução Francesa.

Inicialmente, caracteriza ‘direita’ e ‘esquerda’ por diferentes perspectivas diante do fluxo do tempo: a direita definir-se-ia por uma postura refratária a mudanças na ordem, no estado de coisas vigente numa determinada época. Segundo o historiador, ‘a direita teme o futuro, teme mudanças, odeia transformações. Por que? Porque sabe que o futuro é contra ela, não lhes será favorável e, acima de tudo, é incerto e mesmo desconhecido.’ Reconhecendo a multiplicidade de posições possíveis, Teixeira da Silva aponta, entretanto, para um ‘ponto comum’ entre as diversas esquerdas, que “em oposição à direita’” acreditam que “a sociedade se move, se transforma, se aprimora”. O autor, então, continua afirmando que o perguntar-se pela existência da esquerda “é perguntar se ainda acreditamos na mudança” e conclui que não existe uma “essencialidade de esquerda”, mas, sim, “a busca e a aceitação da mudança, [a ideia] que a sociedade se transforma e que o futuro será sempre melhor se quisermos lutar por isso”, a esquerda sendo, para concluir, “uma cartografia do futuro”.

A intervenção de Francisco Carlos é, sem dúvida, distinta da maioria das análises disponíveis no mainstream do debate político em curso no país por colocar a questão não apenas em termos sócio-políticos – como, por exemplo, os que seguem os critérios de aposta na liberdade (direita) e na igualdade (esquerda) como é o traço distintivo da díade proposta por Norberto Bobbio – e partidários – que insistem na polarização situação-oposição, PT-PSDB como elemento de clivagem fundamental do espectro ideológico brasileiro, critério que, não raro, resvala no governismo, no ufanismo e, mesmo, no stalinismo-, mas, ao estabelecer ‘esquerda’ e ‘direita’ como atitudes diante do tempo, em tomá-la em suas implicações ontológicas. É, portanto, nesse terreno que gostaríamos de aduzir alguns comentários.

A chave para entender a posição do autor nos parece, ao mesmo tempo, a chave que torna relativamente problemática a caracterização da ontologia política proposta. A expressão ‘cartografia do futuro’, implicando o contínuo mapeamento dos processos e temas de mudança nas sociedades se apresenta, a um só tempo, como o melhor insight do texto e o elemento que expõe a fragilidade da concepção de esquerda proposta: a ideia mesma de ‘futuro’. Pois, ao fim e ao cabo, o ‘futuro’ não existe. Para utilizar a metáfora proposta pelo autor: não há pico de montanha a ser alcançado. O quê existe é o porvir no qual se desenrolam as lutas. Esse, entretanto, não é um problema terminológico menor, mas atravessa toda a estrutura da argumentação de Teixeira da Silva, cujo argumento da confiança na mudança da sociedade como traço definidor da esquerda perpassa todo o texto, a direita desejando a mudança apenas por ocasião de reações a processos de mudança inicialmente desencadeados, ou seja, reativamente.

Qual o problema central desse critério? Ele não corresponde às esquerdas ou aos vários ramos da direita em suas manifestações concretas, mas corresponde a seus tipos ideais (que não estão errados enquanto se restringem à tentativa de traçar uma big picture, mas que naufragam diante das idiossincrasias políticas do terreno material das lutas). Nem a direita, na atualidade, se define através de uma recusa irrestrita da mudança, nem a esquerda se move apenas por intenso entusiasmo depositado na esperança de um futuro. A aceleração das mudanças sociais, políticas e institucionais nas últimas quatro décadas não foi fruto de uma bem-sucedida ofensiva política da direita que apostou na mudança, numa nova ordem social e política, no neo-liberalismo contra o estado de bem estar social e ordem que emergiu do pós-II guerra? E a postura conservadora de variados governos e mesmo partidos de esquerda ao longo das últimas décadas, cedendo ao ideário neoliberal como norte de condução de suas políticas, não insinua que o problema é outro que não estritamente a mudança?
Assim, se certamente a atitude diante da mudança ou, mais amplamente, do tempo é decisiva para uma definição ontológica de esquerda e direita, o modo como distinguimos esse abrir-se ao porvir deve ser mais refinado para que consigamos estabelecer clivagens que apurem de forma mais detalhada a díade. E nesse ponto cabe remeter a um aforismo d’O crepúsculo dos ídolos de Nietzsche:

Sussurrado no ouvido dos conservadores. — O que antes não se sabia, o que hoje se sabe, se poderia saber — uma reversão, um retorno, em qualquer sentido e grau, não é absolutamente possível. Nós, fisiólogos, ao menos sabemos isso. Mas todos os sacerdotes e moralistas acreditaram nisso — eles quiseram levar a humanidade a uma medida anterior de virtude, ‘aparafusá-la’ de volta. (…) 
Mesmo os políticos imitaram nisso os pregadores da virtude: também hoje há partidos que sonham, como objetivo, que todas as coisas andem para trás como caranguejos. Mas ninguém é livre para ser caranguejo. Não adianta: há que ir adiante, passo a passo adiante na décadence (– eis a minha definição do moderno ‘progresso’…). Pode-se estorvar esse desenvolvimento e, mediante esse estorvo, represar, recolher, tornar mais veemente e súbita a degenerescência mesma: mais não é possível fazer. –”¹

O modo como Nietzsche define sua concepção do “moderno ‘progresso’” é o movimento da própria modernidade que, como assinalou Marx, faz desmanchar tudo aquilo que é sólido no ar. Ora, a emergência tanto do par esquerda-direita, quanto da consciência histórica que se articula em torno da noção de progresso, são manifestações próprias da modernidade. O quê se deve questionar a partir dessa constatação e do aforismo nietzschiano é que a realização da mudança está para além dos desejos e mesmo das possibilidades tanto da esquerda, quanto da direita. O quê, de fato, lhes cabe é a tentativa de ‘estorvar… represar, recolher’, como assinala Nietzsche em relação aos conservadores,  ou acelerar o movimento das mudanças, a gestão do ritmo segundo o qual o novo irrompe, desgarrando-se do velho.

Não é, portanto, por questão de filigranas terminológicas que questionamos a ideia de futuro, mas por quê nela se cristaliza toda a estrutura argumentativa da exposição. O movimento que impele ao futuro, como o vento que carrega o angelus novus de Walter Benjamin, ao progresso é inexorável. A flecha do tempo foi lançada e não está em questão, por conseguinte, se ela será ou não disparada. O quê se coloca ao alcance dos sujeitos é, antes, o porvir enquanto instante, enquanto borda do tempo que se abre na desmedida onde somos capazes de criar novos mundos, novos valores, onde se dá a produção do comum. Estamos na ponta da seta.

Direita e esquerda, então, se distinguem pelo modo como se posicionam diante da desmedida, o momento mesmo em que o fluxo do tempo transborda no porvir, criando o novo. À criação de novos valores, de novos espaços de democracia, enfim, do comum, como respondem ‘esquerda’ e ‘direita’ em termos ontológicos? A direita opera sempre pela tentativa de controle e a instituição de uma medida que faça canalizar a produção do comum sob o signo da exploração parasitária pelo consórcio estado-mercado. As esquerdas, entretanto, já provaram ser capazes de atitudes distintas diante daquilo que poderíamos chamar de governo do porvir, embora não poucas das suas versões já tenham similarmente à direita, contribuindo para aquilo que Antonio Negri chama de “mercado mundial do transcendentalismo parasitário”. É nesse ponto que, segundo ele, “o futuro se opõe ao porvir; a estatística, ao kairòs; a repetição, à diferença.”²

É nesse sentido, portanto, que podemos falar em ‘esquerda conservadora’ e, dar o passo necessário: perguntar-se pela validade da díade direita-esquerda diante do fracasso não apenas do socialismo real, mas mesmo das experiências democráticas na Europa e na América Latina. Essa pergunta, todavia, não está corretamente endereçada, pois o quê cabe questionar, de fato, não é a substância mesma da divisão, mas seus modos de ser, pois aquilo que está hoje em questão não é a esquerda como essência, o quê sequer existe (e nesse ponto Teixeira da Silva acerta em cheio), mas a experiência concreta das esquerdas. A ontologia política, desde o ponto de vista da esquerda, é, por definição, materialista. E nesse ponto, embora sejam inegáveis os fracassos da esquerda institucional, tampouco é possível não perceber que mais do que o encerramento da própria divisão, o quê acontece na atualidade é a emergência de uma nova esquerda capaz de enfrentar o problema do ritmo do tempo desde uma perspectiva do (auto-)governo do comum e da desmedida e não do controle, do comando capitalista.

O quê, ao fim e ao cabo, importa, a fim de que se possa retirar todas as implicações das atitudes da(s) esquerda(s) diante da teleologia do comum (em nada aparentada a qualquer movimento dialético) é, de fato, o modo pelo qual elas se articulam para fazer com que esse movimento se realize segundo uma perspectiva da organização imanente do poder constituinte, e não da ordem transcendente do poder constituído³, construindo uma democracia cada vez mais multitudinária, participativa e aberta. Diante dos desafios que a contemporaneidade coloca em marcha, ser de esquerda, mais do que nunca, é estar dentro dos movimentos, lá onde se pode produzir diferença qualitativa entre o antes e o depois, lá onde como afirma Negri é possível distinguir entre diferença e repetição.


1. Friedrich Nietzsche, O crepúsculo dos ídolos ou como se filosofa com o martelo, IX, § 43, pp. 92-93.


2. Antonio Negri, Kairòs, Alma Venus, Multitudo – nove lições ensinadas a mim mesmo, p. 131.


3. Para a distinção entre ordem e organização: “Pela ordem do ser, da verdade, ou da sociedade, entendo a estrutura imposta como necessária e eterna desde cima, de fora da cena material das forças; utilizo organização, por outro lado, para designar a coordenação e acumulação dos encontros acidentais (no sentido filosófico, i.e., não necessário) e desenvolvimentos desde baixo, do interior do campo imanente de forças. Em outras palavras, não concebo a organização como projeto de desenvolvimento ou como a visão projetada de uma avant-garde, mas sim como uma criação imanente ou a composição de uma relação de consistência e coordenação. Nesse sentido, a organização, a composição de forças criativas, é sempre uma arte.” Cf. Michael Hardt, Gilles Deleuze – um aprendizado em filosofia, p. 17.

Fonte: O lado esquerdo do possível

"Projeto libera instalação de usinas hidrelétricas na Amazônia" (IHU)

PICICA: "O interesse do Ministério de Minas e Energia (MME) em destravar o acesso às reservas indígenas não está restrito à exploração de recursos minerais. Os grandes rios da Amazônia, região que concentra 98% das terras indígenas do país, são a próxima fronteira de geração de energia elétrica do país. Oficialmente, o MME tem evitado abordar o assunto. Procurado pelo Valor, o ministério não retornou ao pedido de entrevista. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), no entanto, tem batido na tecla sobre a necessidade de acelerar a liberação de projetos de geração que impactem terras indígenas. O modelo analisado seria parecido ao proposto para a exploração mineral, ou seja, o pagamento de royalties para aldeias que tiverem terras invadidas por barragens de hidrelétricas." 

Projeto libera instalação de usinas hidrelétricas na Amazônia

O interesse do Ministério de Minas e Energia (MME) em destravar o acesso às reservas indígenas não está restrito à exploração de recursos minerais. Os grandes rios da Amazônia, região que concentra 98% das terras indígenas do país, são a próxima fronteira de geração de energia elétrica do país. Oficialmente, o MME tem evitado abordar o assunto. Procurado pelo Valor, o ministério não retornou ao pedido de entrevista. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), no entanto, tem batido na tecla sobre a necessidade de acelerar a liberação de projetos de geração que impactem terras indígenas. O modelo analisado seria parecido ao proposto para a exploração mineral, ou seja, o pagamento de royalties para aldeias que tiverem terras invadidas por barragens de hidrelétricas.

A reportagem é de André Borges e publicada pelo jornal Valor, 09-05-2012.

A Constituição Federal, em seu artigo 231, já prevê que o "aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do Congresso Nacional".

"Está na Constituição, mas falta a lei que regulamente esse artigo", diz Aloysio Guapindaia, diretor do Departamento de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável da Funai. "Pelas regras atuais, não liberamos nenhuma usina que atinja terra indígena."

Parlamentares chegaram a analisar a possibilidade de que a exploração dos rios para geração de energia fosse incluída no Projeto de Lei 1.610/96, mas segundo o senador Romero Jucá (PMDB), relator do projeto original, a orientação final foi de que esse tema fosse tratado em um PL à parte. "É mais viável não misturar as coisas. A inclusão das hidrelétricas poderia atrasar ainda mais a tramitação do projeto de mineração", comenta.

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), está fazendo um levantamento sobre as obras de infraestrutura que afetam as reservas indígenas. Segundo Cleber Buzatto, secretário-executivo do Cimi, há cerca de 450 empreendimentos em andamento ou projetadas no país que atingem de alguma forma as reservas. A maioria dessas obras está ligada a projetos de mineração e geração de energia.


Fonte: IHU

"Amazonas: levante popular anti-indígena", por Vanessa Nicolav

PICICA: "Humaitá em chamas! – sobre o atual conflito em curso e a posição do Estado brasileiro. Por Vanessa Nicolav"

Amazonas: levante popular anti-indígena

27 de dezembro de 2013  


Humaitá em chamas! – sobre o atual conflito em curso e a posição do Estado brasileiro. Por Vanessa Nicolav

Neste exato instante, a cidade de Humaitá, no extremo sul do estado do Amazonas, vive um intenso conflito. Como de costume, praticamente toda a informação a respeito desta situação disponível na internet e nos meios de comunicação não dá conta de sua complexidade e tampouco explicita o pano de fundo e as motivações dos fatos que se desenrolam.

Primeiro acompanhe uma breve cronologia dos fatos que levaram à conflagração de um conflito de imensas proporções.

 

Nos últimos dias os Tenharim foram surpreendidos com a controversa morte de seu cacique Ivan Tenharim. Ele foi encontrado desacordado e ferido próximo à Transamazônica, foi levado ao hospital e não resistiu. As causas de sua morte ainda não foram averiguadas, o que tem gerado profunda indignação entre os indígenas, já acostumados com o descaso do governo brasileiro em relação às suas questões. Após esta fatalidade, uma sucessão de fatos igualmente estranhos levou a um conflito sem precedentes na cidade de Humaitá.

Correm rumores do desaparecimento, desde o dia 16 de Dezembro, de três homens no KM 123 no trecho da BR – Transamazônica, que atravessa a Terra Indígena (TI) Tenharim. Um servidor da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) conversou com as lideranças indígenas, repassando o que estava acontecendo na cidade e as acusações que pesavam contra eles. Nas duas vezes os índios negaram qualquer envolvimento sobre os desaparecidos e ainda disseram que as aldeias estavam abertas para averiguação, buscas e investigação por parte da Polícia Federal (PF) ou do Exercito.
A população saiu às ruas exigindo maior participação da PF para a busca e localização dos desaparecidos que, segundo eles, encontram-se na Terra Índigena dos Tenharins.

Porém, ao invés de um protesto legítimo, o que de fato está ocorrendo é um estado de terror, possivelmente financiado pelos madeireiros, já que, muitas vezes, órgãos como a FUNAI e a Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) se colocam como empecilhos aos interesses escusos desses.
Há dois dias servidores da FUNAI e a população de Humaitá pedem apoio e ajuda da PF para conter as ações dos populares, que, sem nenhum impedimento, já atearam fogo em carros, barcos e no prédio da FUNAI e da FUNASA entre os dias 25 e 26 de Dezembro. 11 carros e 2 barcos das FUNAI foram queimados, assim como sua sede, a Casa do Índio e a Casa da Saúde do Índio – todas engolidas pelas chamas e saqueadas sem que a Polícia Militar (PM) impedisse.

Esta ação coloca em risco a vida de diversos moradores da cidade, que residem próximo aos locais incendiados, dos servidores da FUNAI, que neste momento se encontram escondidos em casas de conhecidos, temendo possíveis ataques dos manifestantes e de diversos indígenas da etnia Tenharim.

É importante sabermos que esse conflito oculta interesses econômicos e políticos disfarçados de comoção popular legítima. Não se trata apenas de três pessoas desaparecidas, mas sim de um longo conflito entre uma cultura ocidental, civilizatória e desenvolvimentista, e a existência indígena que, objetivamente, dificulta ou atrasa a realização de interesses do modo de produção capitalista. O agronegócio agradece a cada vez que indígenas se enfraquecem.

Humaitá é uma zona de intensos conflitos com madeireiros, que procuram extrair ilegalmente madeira de áreas protegidas (ou terras indígenas) para comercializá-las. São esses mesmos madeireiros que possuem o poder econômico (e portanto político) na região e, como sabemos, conseguem fazer com que seus interesses sejam levados a cabo. Há indícios de que justamente esses indivíduos estejam se aproveitando da comoção popular para patrocinar o caos, do qual se beneficiam, acirrando o ódio e incendiando os ânimos –assim os manifestantes (que têm sua razão para estar insatisfeitos) são utilizados como massa de manobra para favorecer interesses de uma elite. Afirma-se até que boa parte da gasolina que vem sendo utilizada aos montes esteja sendo paga por eles ou seus representantes, que não concordam, entre outras coisas, com os pedágios das terras indígenas, e se organizam para combatê-los com todo o tipo de recurso.

 

A PM e a PF, compactuando com esse ódio étnico, vêm sendo claramente negligentes, afirmando até mesmo que não é a primeira vez que os índios “causam” uma situação como essa e que até mesmo merecem a represália que vêm sofrendo. Desde que o cacique Ivan foi morto, há mais de 15 dias, a PF nem mesmo foi até a TI averiguar, simplesmente deixando a coisa acontecer; eles se mexeram apenas quando desapareceram homens brancos. O Estado brasileiro está sendo conivente; índios, cidadãos e servidores da FUNAI estão em perigo e não são tomadas as medidas necessárias para divulgar corretamente o que ocorre e conter a violência que se alastra de maneira completamente irresponsável. Até as 14h30 do dia 26 de Dezembro, não havia aparecido sequer uma viatura da PM para fazer prontidão à porta da FUNAI; dezenas de pessoas mexeram na cena do crime, tiraram fotos e pegaram o que quiseram do local, e após quase um dia inteiro de distúrbios é que a polícia decide comparecer ao local.

Não se trata de defender ou atacar indígenas, mas de denunciar a negligência do Estado e dos meios de comunicação brasileiros, prontos a defender os interesses daqueles que os mantêm: industriais, fazendeiros e a burguesia, passando por cima de populações desfavorecidas e/ou marginalizadas.
Precisamos furar esse bloqueio midiático e pressionar o Estado para que haja rapidamente. Centenas de indígenas estão ameaçados apenas por serem indígenas e muitos deles estão sendo conduzidos ao Batalhão de Infantaria do Exército para que possam ser protegidos. Servidores da FUNAI têm sua vida em risco por serem identificados como protetores dos índios.

Por favor, passe esse texto adiante, divulgue essa situação, entre em contato com quaisquer pessoas que você conhecer e que possam ajudar a mobilizar esforços para reverter essa situação calamitosa em curso.
Temos que colocar isso a limpo e no foco das notícias.
Há vidas em risco nesse exato instante. Contamos com toda ajuda.

Veja também aqui e aqui.

Humaitá, 26 de dezembro de 2013

Fotografias de Idivan Assayag.

dezembro 27, 2013

"Hidrelétricas em afluentes do Amazonas podem ter impacto ecológico grave" (IHU)

PICICA: "Um estudo realizado nos Estados Unidos sugere que um grande número de represas planejadas por governos do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador e Peru para serem instaladas nos afluentes do rio Amazonas podem ter um grande impacto ecológico em toda a região."

Hidrelétricas em afluentes do Amazonas podem ter impacto ecológico grave

Um estudo realizado nos Estados Unidos sugere que um grande número de represas planejadas por governos do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador e Peru para serem instaladas nos afluentes do rio Amazonas podem ter um grande impacto ecológico em toda a região.

A reportagem é da BBC Brasil e reproduzida pelo portal do jornal O Estado de S. Paulo, 20-04-2012.

A pesquisa foi liderada por Matt Finer, do Centro para Legislação Ambiental Internacional, sediado em Washington, e avaliou o impacto conjunto de mais de 150 represas planejadas por estes governos.

O estudo, publicado na revista especializada PLoS One, afirma que 60% destas represas podem afetar o fluxo de água que corre da cordilheira dos Andes e é vital para alimentar o Amazonas.

"Os resultados do estudo são muito preocupantes, devido à ligação importante entre as montanhas andinas e as planícies amazônicas", disse Finer.

"Parece que não existem planos estratégicos para as conquências [que podem ocorrer] quando se perturba uma conexão ecológica que existe há milhões de anos", disse o pesquisador.

Grandes afluentes


Finer e a equipe de pesquisadores do Centro para Legislação Ambiental Internacional analisaram represas planejadas para seis grandes afluentes do Amazonas: Madeira, Caquetá, Marañon, Napo, Putumayo e Ucayali.

O pesquisador disse à BBC que até agora o fluxo livre nestes seis rios praticamente não foi afetado.

Mas,"com a construção de duas megarrepresas no rio Madeira, que já estão quase terminadas, o número de conexões não afetadas cairá para cinco. E com a variedade de represas planejadas para pelo menos quatro afluentes, poderia sobrar apenas uma ou duas vias que fluem livremente. Quais as implicações para o futuro? Ninguém sabe", afirmou.

O pesquisador disse à BBC que levou em conta no estudo todas as represas hidrelétricas planejadas com capacidade de mais de 2MW. "Contamos 151 projetos".

"Cerca de 40% já estão em uma etapa avançada de planejamento, ou seja, já existem processos contratuais. O número representa um grande aumento, já que atualmente existem 48 represas com capacidade de mais de 2MW na Amazônia andina."

"É importante destacar que 53% das represas novas seriam de 100 MW ou mais e isto é um aumento de mais de seis vezes no número de represas grandes. Atualmente, por exemplo, só existe uma grande represa de mais de 1.000 MW na Amazônia andina, mas há projetos para outras 17", afirmou Finer à BBC.

O pesquisador também disse que o rio Amazonas está "intimamente ligado às montanhas dos Andes por mais de 10 milhões de anos".

"Os Andes fornecem a grande maioria dos sedimentos, nutrientes e material orgânico para o Amazonas, alimentando um ecossistema que é um dos mais produtivos do planeta. Muitas das espécies de peixes importantes economicamente desovam apenas em rios alimentados pelos Andes."

O estudo destacou também que mais de 80% das represas planejadas na região contribuiriam para a devastação da floresta - uma conseqüência da construção de estradas ou das inundações geradas pelas represas.

Necessidades energéticas

Matt Finer disse à BBC que "a falta de políticas regionais" se deve principalmente a duas razões.

"Os projetos estão sendo avaliados de forma individual antes de ser construídos e, além disso, a trajetória dos rios que nascem nos Andes é complexa e passa por muitos países", afirmou.

Muitos governos afirmam que as represas são necessárias para atender às necessidades energéticas e de desenvolvimento econômico.

"Encontramos nos informes oficiais divulgados pelos governos do Equador, Peru e Bolívia, por exemplo, a afirmação de que a energia hidrelétrica é uma peça central de seus planos energéticos no longo prazo", disse Finer.

"A demanda doméstica projetada para os três países é de 7.000 MW adicionais, devido a um maior uso de energia e a esforços para substituir as centrais termelétricas."

"Nós responderíamos aos governos que, utilizando uma análise estratégica, eles poderiam identificar melhor e priorizar as represas de impacto baixo ou médio e eliminar a necessidade de construir represas de alto impacto", acrescentou Finer.

O estudo recomenda um planejamento estratégico que avalie o impacto de represas em escalas espaciais maiores, por exemplo, em toda a bacia de um rio.

A pesquisa também sugere criar um plano estratégico para garantir que o livre fluxo dos rios, desde os Andes até a Amazônia, seja mantido.


Fonte: IHU

"Drogas: “Fizemos a guerra contra o inimigo errado”", por Felipe Rousselet

PICICA: "O psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, professor da Unifesp e diretor do Proad, afirma que a política de drogas deveria combater as razões que levam  à dependência química e não as drogas em si" 


Drogas: “Fizemos a guerra contra o inimigo errado”
O psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, professor da Unifesp e diretor do Proad, afirma que a política de drogas deveria combater as razões que levam  à dependência química e não as drogas em si 

Por Felipe Rousselet 

A edição 126 da revista Fórum, que já está nas bancas e nas lojas da Livraria Cultura, traz um dossiê sobre a política de drogas no Brasil. Uma das matérias, intitulada “Internação é solução?”, aborda os métodos de tratamento disponíveis na rede pública de saúde no país e as formas mais eficientes para se lidar com a questão da dependência química.

Uma das fontes entrevistadas foi o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, professor da Escola Paulista de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e diretor do Proad (Programa de Orientação e Assistência a Dependentes), onde trabalha há 24 anos.
Para Silveira, o tratamento ambulatorial é mais barato e eficiente que qualquer internação, seja ela voluntária, involuntária ou compulsória. Segundo ele, o modelo focado em internações é artificial, uma vez que “é muito fácil ficar longe de uma droga quando você está internado” e a maioria dos dependentes recai quando voltam para sua rotina normal.

O psiquiatra também falou sobre ações de descriminalização das drogas e afirmou que elas são positivas e não causam um aumento do número de usuários nem inchaço do sistema de saúde pública.
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Drogas: “Fizemos a guerra contra o inimigo errado”
A Lei de drogas e a criminalização da pobreza
Colírios, isqueiros e inspiração

Leia a íntegra da entrevista com o Dr.Dartiu Xavier da Silveira:  

Fórum – Qual a estrutura disponível hoje para o tratamento da dependência química na rede pública de saúde no Brasil? 

Dartiu Xavier da Silveira – A estrutura para tratamento de dependentes químicos disponível no Brasil é o Caps AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas). O problema não é que o modelo Caps seja ruim. Ele é muito bom. O problema é que não tem número suficiente para as pessoas e, segundo, nem todos os Caps AD estão devidamente capacitados. Existem equipes que não são muito bem formadas, então, o que está faltando é aumentar o número e capacitar melhor os que já existem.

Fórum – Em relação aos repasses de recursos públicos para as chamadas comunidades terapêuticas nos últimos anos, qual a opinião do senhor quanto à atuação destas entidades e também quanto aos convênios com o poder público?

Dartiu – conheço algumas comunidades terapêuticas que são grupos muito sérios, formados por gente preparada e que conhece o problema. Mas isso é a exceção da exceção, a raridade. A maioria não está nem perto disso. Muitas vezes não conhecem o básico partem apenas do princípio de boa fé, das boas intenções, achando que isso vai resolver um problema complexo, como é a dependência de álcool e drogas.

O que acontece é que, recentemente, houve uma séria de investigações, sobretudo de conselhos regionais de psicologia, que identificaram que diversas comunidades terapêuticas trabalham como um sistema carcerário, onde as pessoas são submetidas a humilhações e torturas. Isso desmoralizou ainda mais as comunidades terapêuticas.

Não tenho nada contra grupos terapêuticos leigos fazerem propostas de reinserção social, mas eles não podem vender um pacote de tratamento de dependência, que não é o que eles fazem. E muito menos receber verba pública para isso.
Fórum – O que o senhor acha das políticas de internações involuntárias e compulsórias? 

Dartiu – A primeira coisa é que a maioria das pessoas, da população em geral, acredita falsamente que o melhor método de tratar a dependência química é a internação. Isso não é verdade. A eficácia das internações é menor que a do tratamento ambulatorial.

Já partimos deste pressuposto de que não é o melhor tratamento. Além de ser muito mais caro, se você pensar em dinheiro público, fazer a internação de uma pessoa do que prover um tratamento ambulatorial. Já não se justifica a prática como política pública, uma vez que é muito mais cara e menos eficaz.

Agora, quando vamos para a questão da internação involuntária ou compulsória, na psiquiatria estão muito bem caracterizadas as situações em que se pode fazer a internação involuntária. São situações em que a pessoa perdeu totalmente a noção de realidade, o que chamamos de psicose. A imensa maioria dos dependentes químicos não é psicótica. Então, não se aplica a necessidade da internação compulsória, ou involuntária, para a grande maioria das pessoas.

Outra coisa, supervisiono um serviço de Caps AD na Cracolândia. Quando existe um paciente que precisa de uma internação, mesmo voluntária, a gente não consegue vaga. Então, é um contrassenso as pessoas ficarem advogando uma internação compulsória, ou involuntária, quando não existem nem vagas para pessoas com necessidade constatada por uma junta médica. É muito mais um jogo político e midiático o que algumas pessoas fazem com a internação compulsória do que um problema.

Fórum – Esses limites que determinam se uma pessoa deve ser internada de forma compulsória, ou involuntária, estão sendo respeitados? Especialmente em São Paulo e Rio de Janeiro, que adotaram a prática como política pública no enfrentamento da dependência química?

Dartiu – Não. Não estão sendo respeitados. A gente vê que na rede pública existe esse problema de conseguir vagas. Mas, na rede privada, nós vemos internações involuntárias a rodo. O resultado disso é que a grande maioria recai um mês depois de sair da internação. É um tratamento caríssimo e que tem o interesse financeiro dos hospitais psiquiátricos e da classe médica ao defenderem um modelo caro e pouco eficaz.

Questiono sempre a ética desses grupos. Tenho três pacientes meus que sofreram internação involuntária de outros médicos, antes de serem atendidos por mim, e que hoje em dia estão com advogados movendo ações contra as clínicas por cárcere privado. Eles ficaram internados contra a vontade, mais de 10 meses, sofrendo uma série de humilhações e abusos, alguns deles até agressões físicas.

Fórum – Qual a razão desta ineficiência da internação?

Dartiu – Existem dois grandes motivos que podemos destacar. O primeiro é que grande parte dessas internações é feita com usuários de drogas, e não com dependentes. Na verdade, seria a mesma coisa se você pegasse uma pessoa que usa álcool, interná-la contra a sua vontade e depois querer que ele não volte a usar álcool. É claro que vai voltar, ele não era dependente, era apenas um usuário. Ele gosta de álcool.

A nossa sociedade vê de uma maneira muito preconceituosa as drogas ilícitas e as lícitas são vistas de uma forma excessivamente tolerante. Na minha visão, grande parte das pessoas internadas contra a vontade não são nem dependentes.

O outro problema é que, mesmo quando são dependentes, é muito fácil ficar longe de uma droga quando você está internado. Uma situação ideal, protegida. O difícil é não usar a droga quando você está enfrentando seus problemas, o chefe que te enche a paciência, a mulher que te deixa nervoso, o filho que te dá problema. Na hora de voltar para os problemas do dia a dia é que pessoas recaem. Então, é por isso que se preconiza que o processo de deixar a droga deve ser feito com o indivíduo levando sua vida normalmente. É muito artificial o modelo de internações.

Fórum – Qual a opinião do senhor sobre o uso de medicamentos no tratamento da dependência química?

Dartiu – É muito importante o uso de medicamentos. O posicionamento contra a medicação é uma coisa muito de antigamente e é baseado em preconceitos.

A grande justificativa é que a pessoa trocaria uma droga por outra droga, nesse caso, uma droga farmacêutica. Mas isso não acontece na prática. As pessoas não ficam dependentes destes remédios que, na verdade, ajudam muito no processo de saída da dependência.

Considero que a maneira ideal de tirar alguém da dependência é associar medicação com uma psicoterapia. Somente com a psicoterapia fica muito difícil.

Fórum – A fiscalização das comunidades terapêuticas por parte do poder público, em especial o Ministério da Saúde, é suficiente para garantir a qualidade no atendimento ao dependente químico?

Dartiu – Não, acho que não. Acho que nem existe a possibilidade de fazer este tipo de controle na medida em que elas não aplicam o modelo que o próprio Ministério da Saúde preconiza.

Se o modelo do Ministério é baseado em equipes multidisciplinares de atendimento integral a saúde, que é o modelo dos Caps AD, as comunidades terapêuticas oferecem coisas absolutamente alternativas. Uma ou outra se aproxima do modelo preconizado pelo Ministério, mas são exceções.

Fórum – Como o senhor avalia as políticas de redução de danos no tratamento da dependência química?

Dartiu – A política de redução de danos é algo que as pessoas tiveram muito medo quando ela começou a ser implantada na década de 80. Foi a época da epidemia de Adis e tinham muitos usuários de drogas contaminados e contaminando outras pessoas.

Aí surgiram aqueles programa de troca de seringas. Participei de um destes programas e muita gente dizia que a gente era maluco porque iríamos incentivar o uso de drogas. Mas  não é porque uma pessoa tem uma seringa que ela vai se injetar. E depois tiveram vários estudos em todo o mundo provando que as políticas de redução de danos não estimulam o uso de drogas. Ela apenas protege o usuário de danos decorrentes do uso. Não é uma postura de incentivo ao uso, pelo contrário, é de proteção à saúde de quem não consegue parar de usar. Eu, por exemplo, uso no meu cotidiano estas estratégias de redução de danos.

O mundo inteiro está se apropriando dessas estratégias. Só os países mais fundamentalistas, mais radicais, como a China e países islâmicos, que possuem uma postura muito moralista em relação às drogas, não utilizam.

Fórum – Em que ponto o Brasil se encontra em relação a políticas de redução de danos? Precisamos avançar?

Dartiu – Embora o Ministério da Saúde se declare oficialmente a favor das políticas de redução de danos, a gente não vê elas acontecendo na prática. Elas aconteciam muito mais na década de 90.
Atualmente, embora seja o mote oficial dizer que vão favorecer as políticas de redução de danos, o que prevalece é o modelo proibicionista, que já comprovadamente é ineficaz. O discurso é um e a prática é outra.

Fórum – O senhor acha que o modelo de combate às drogas, de encarceramento de usuários confundidos com traficantes, aumenta o preconceito sobre as políticas de redução de danos?
Dartiu – Colabora muito. Vejo isso no meu trabalho na Cracolândia. Quando teve aquelas ações desastrosas da prefeitura, isso desestabilizou muito o trabalho que vinha sendo desenvolvido há anos. Houve um prejuízo muito grande. A gente sabe que essas medidas repressivas pioram muito a situação.

O maior país defensor, que implantou e serviu como modelo dessa guerra às drogas, foi os EUA. Hoje, eles já estão questionando todo o modelo. Tem dois estados americanos onde foi liberado o consumo recreacional da maconha. Em 19 estados, o uso medicinal. Eles estão muito mais próximos das políticas de redução de danos do que nós. e já constataram que nós perdemos a guerra às drogas, que o enfoque não é mais esse.

Fizemos a guerra contra o inimigo errado. A guerra não era para ser feita contra as drogas, e sim contra o que leva o indivíduo a se tornar dependente. Essa é a guerra.

Fórum – O senhor pode citar algum exemplo de país que mudou essa lógica proibicionista e teve bons resultados? 

Dartiu – Tem vários países que fizeram isso em experiências isoladas, mas nós temos o exemplo recente da política portuguesa. Há dez anos, ela se modificou totalmente e descriminalizou o uso de drogas. Não aumentou o número de usuários, diminuiu, permitiu o acesso deles aos serviços de saúde, facilitou o tratamento e diminuiu as doenças relacionadas. Só teve benefícios. Não conseguem listar um dano causado por esta mudança de política.

Fórum – O que o senhor, como profissional da saúde pública, acha de iniciativas que caminhem na direção da descriminalização ou legalização das drogas?

Dartiu – Olha, vejo que a descriminalização é um grande progresso. O que a gente não sabe ainda, por que nunca foi feito, é a legalização. Que é a proposta do Uruguai. Como a gente não tem nenhum modelo anterior, não sabemos o que vai acontecer.

Embora, nós tenhamos alguns indícios como, por exemplo, o que aconteceu com a Lei Seca nos EUA. Quando o álcool foi proibido pela Lei Seca americana, no começo do século XX, foi um desastre. Ela foi revogada 14 anos depois porque causou muito mais danos que benefícios. Acharam que a lei ia resolver o problema do alcoolismo. Não resolveu, as pessoas em vez de comprar a bebida no bar da esquina, iam ao alambique clandestino, o “traficante”.

Agora, todas as medidas que visem a descriminalização do uso são parte de uma tendência mundial. Diversos países europeus já fazem isso. O indivíduo não é mais criminalizado pelo uso. Isso já se faz há 20 anos nos países mais civilizados do mundo.

Fórum – O que o senhor acha do argumento de pessoas contrárias a descriminalização das drogas de que a medida poderia aumentar o número de dependentes químicos e “inchar” o sistema público de saúde?

Dartiu – Acho que não tem fundamento nenhum. Não vai aumentar o número de dependentes químicos. A única coisa é que você vai deixar de perseguir quem é usuário. Agora, quem é usuário e não se tornou dependente, esse indivíduo não precisa do sistema público.

(Foto de capa: Agência Brasil)

Fonte: IHU

"O editor de maconha", por Sergio da Motta e Albuquerque

PICICA: "Na Roma antiga, editor era o promotor de jogos sangrentos exibidos em arenas como o famoso Coliseu, na mesma cidade. A informação veio do livro Assombração, de Chuck Palahniuc (Rocco, 2007, RJ), também autor de Clube da Luta, que acabou nas telas de cinema em 1999. Como livros escritos por autores de ficção não são boas fontes de informação, resolvi buscar outra mais especializada. Encontrei a VROMA, uma comunidade acadêmica virtual norte-americana dedicada à divulgação da cultura clássica. Palahniuc estava certo: editores na antiguidade realmente programavam e promoviam jogos de gladiadores e outros espetáculos cruéis para a sociedade romana.

O significado da palavra mudou bastante com a passar da história. Editor, hoje em dia na imprensa, é o profissional responsável pelo conteúdo de publicações: ele escolhe o que vai ser publicado e prepara o material para publicação dentro do espaço editorial do jornal. Pode também chefiar editorias de diversos temas de interesse jornalístico: política, economia, lazer, tecnologia e outros. No final de 2013 surgiu uma nova e surpreendente especialidade para o profissional da edição: o editor de maconha."


NOVOS TEMPOS

O editor de maconha

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 17/12/2013 na edição 777



Na Roma antiga, editor era o promotor de jogos sangrentos exibidos em arenas como o famoso Coliseu, na mesma cidade. A informação veio do livro Assombração, de Chuck Palahniuc (Rocco, 2007, RJ), também autor de Clube da Luta, que acabou nas telas de cinema em 1999. Como livros escritos por autores de ficção não são boas fontes de informação, resolvi buscar outra mais especializada. Encontrei a VROMA, uma comunidade acadêmica virtual norte-americana dedicada à divulgação da cultura clássica. Palahniuc estava certo: editores na antiguidade realmente programavam e promoviam jogos de gladiadores e outros espetáculos cruéis para a sociedade romana.

O significado da palavra mudou bastante com a passar da história. Editor, hoje em dia na imprensa, é o profissional responsável pelo conteúdo de publicações: ele escolhe o que vai ser publicado e prepara o material para publicação dentro do espaço editorial do jornal. Pode também chefiar editorias de diversos temas de interesse jornalístico: política, economia, lazer, tecnologia e outros. No final de 2013 surgiu uma nova e surpreendente especialidade para o profissional da edição: o editor de maconha.

O New York Times (8/12) informou que o diário Denver Post, do Colorado, Estados Unidos, havia designado Ricardo Baca, de 36 anos, “ex-editor de música e entretenimento”, como editor de marijuana em novembro deste ano. O jornal contraria todas as estatísticas de queda de circulação visível em quase toda a imprensa americana. Sua circulação diária passou de 491.400 exemplares em março de 2010 a 615.315 no mesmo mês deste ano.

Na Holanda, uso tolerado

O Denver Post mostrou ao mundo que o jornal impresso ainda tem muito espaço, principalmente entre o público jovem, se acreditar na inovação dos temas, e ousar abordar em profundidade e interesse temas atuais que ainda envergonham a velha imprensa tradicional. Que já tem, em grande maioria de suas publicações, posição formada e fechada sobre temas controversos: formalismo, avaliações rasas e medo de afastar leitores com assuntos polêmicos dominam as pautas enquanto a circulação dos impressos cai a cada ano nos países mais desenvolvidos do mundo ocidental.
O periódico do Colorado é um jornal sério e bem-sucedido, que nos últimos quatro anos foi premiado com o prêmio Pulitzer quatro vezes. O novo editor tem 12 anos de trabalho no Post, e já começou sua nova função. No início deste mês, ele ainda estava a selecionar, entre 70 currículos, alguém para a função de crítico de maconha. Ricardo Baca sabe que tem muita coisa pela frente:

“Ele já esteve em contato com jornalistas em outros países, a explorar como as novas leis estaduais comparam-se com as de outros países como a Holanda, onde o uso de drogas recreacionais é ilegal, mas tolerado. E ele também esteve em contato com repórteres em Washington, outro estado que legalizou o uso da cannabis, para potencialmente trabalhar com eles.”

Até seis pés 

O New York Times desmistificou uma visão equivocada que muitos têm da Holanda como paraíso do consumo das drogas. Seus “cafés do bagulho” são conhecidos em todo o mundo, mas na Holanda o que existe na realidade é pragmatismo e tolerância com o uso da erva: a autoridade pública simplesmente tem olhado para o outro lado nas últimas décadas para o consumo confinado da maconha. A atitude liberal das autoridades holandesas acabou por trazer um problema para o governo: o turismo dos usuários de drogas no sul do país. Políticos conservadores entraram em ação e tentaram proibir o consumo da diamba para estrangeiros, informou o diário russo RT News, da Rússia (06/06) A grita dos conservadores foi grande no país, que acabou com um consenso onde cada cidade escolhe se os estrangeiros podem ou não usar a maconha dentro de seus limites.

O Daily Cronic, um diário norte-americano dedicado à causa da liberação da cannabis para uso recreativo, informou (19/07) que a Holanda enfrenta outro problema grave com relação a sua política informal sobre a maconha: como o cultivo da planta é proibido no país, traficantes criminais continuam a abastecer os famosos cafés de Amsterdam, criando uma situação onde convivem tolerância e civilidade na porta da frente das casas noturnas que vendem marijuana, e práticas criminosas na parte de trás das lojas que atendem as necessidades dos “malucos” batavos. Na realidade, o país não possuiu um sistema legal de distribuição, produção e consumo da droga. A Holanda descriminalizou o uso da maconha em 1976, e não foi muito além disso. O país não tem uma política oficial de liberação do uso da cannabis, mas sua fama de paraíso dos usuários de marijuana firmou-se no imaginário da população mundial.

As lições do caso holandês com o consumo de cannabis já foram absorvidas pelos dois estados americanos que vão começar 2014 com a maconha liberada para uso e distribuição: Colorado e Washington. Cada um deles tem um modelo diferente. O Colorado parte de uma concepção popular, civil e regionalizada para abastecimento e consumo da droga, enquanto Washington tem um planejamento mais centralizado, orientado para o mercado e organizado verticalmente, isto é, de cima para baixo. Apenas o Colorado vai permitir a plantação de até seis pés da planta para consumo pessoal. Em Washington, o cultivo continuará proibido.

Uso, compra, venda e plantio 

Os dois modelos também têm muito em comum. A Reuters (07/11) informou que a posse até 28,35 gramas não está sujeita a nenhuma penalidade para usuários com mais de 21 anos de idade. A venda será legalizada em estabelecimentos comerciais especiais no Colorado. Em Washington o caminho escolhido foi seguir a prática já estabelecida e legalizada na distribuição e venda de bebidas alcoólicas, informou a agencia. Que também anotou a reação de políticos conservadores contra a liberação do uso recreativo da droga menos perigosa de todas, incluindo o álcool. Que apesar de legal, é uma das drogas mais danosas ao ser humano desde quando começou a ser usado. Mesmo assim, congressistas conservadores apontaram centenas de riscos e supostos danos provocados pela erva que muitos gostam de usar, e querem que o presidente Obama intervenha nos dois estados contra as medidas adotadas em Colorado e Washington.

Mas não precisamos ir muito longe para encontrarmos um modelo eficiente e moderno para a liberação do uso recreativo da cannabis sativa: aqui mesmo na América do Sul, o pequenino Uruguai vem dando lições de inovação e inteligência há algum tempo sobre a legalização e consumo legal da maconha.

O portal G1, da Globo (10/12), informou que o projeto de legalização completa da marijuana foi aprovado no Senado daquele país, que vai ser em abril de 2014 a primeira nação do mundo a por em prática um programa completo de legalização do uso, compra, venda e plantio da maconha para cidadãos maiores de 18 anos. As iniciativas norte-americanas limitam-se, por enquanto, a dois estados e não possuem a dimensão e o alcance nacional das novas leis do nosso pequeno vizinho do Sul.

Mudança e inovação

Os uruguaios vão poder comprar nas farmácias ou clubes específicos para os consumidores até 40 gramas de maconha (mais que os americanos). Para o plantio até seis pés da planta não será necessário registro. Quem quiser plantar mais do que isso terá que fazer parte de um cadastro nacional. Para quem acredita que a maconha é “uma porta de entrada para o mundo das drogas pesadas”, o Daily Cronic informou que na Holanda, “apenas 14% dos usuários de cannabis dizem que podem adquirir outras drogas de seus fornecedores de maconha”. Mais de 80% não podem comprar drogas perigosas com seus vendedores de marijuana. A porta de entrada não existe quando se separa o consumo e venda da cannabis do uso e comercialização ilegal de drogas pesadas.
O projeto da administração de José Mujica atende a essa necessidade de separação. O papel central do estado será alienar o narcotráfico do negócio da venda ilegal da maconha e impedir o avanço das drogas mais perigosas entre os jovens no país. Esta foi a intenção do governo ao propor o projeto desde o início: separar o consumo da maconha do abuso as drogas pesadas, como o crack, a cocaína , o ecstasy e a metanfetamina. Um órgão regulador foi criado para fiscalizar a implementação do programa e controle de possíveis excessos de qualquer parte e interferências de interesses contrariados pela nova legislação uruguaia sobre a marijuana.

Com relação ao papel da imprensa, o pequeno Denver Post, jornal do interior dos Estados Unidos, ensinou uma coisa ou duas a quem já decretou a morte da plataforma tinta-papel. Apostando em temas inovadores e atuais sem medo do conservadorismo que reina na maioria das redações dos grandes jornais, o periódico vem crescendo em circulação e atraindo público mais jovem para a leitura de jornais impressos. O jornal de Denver viaja rápido como nossos dias. Não navega as mesmas águas estagnadas que seus decadentes irmãos maiores da imprensa norte-americana.

O Denver Post abriu um caminho novo para o jornalismo tradicional em crise. Novos assuntos devem ser abordados pela imprensa sem medo, preconceito ou pudor. Novas editorias precisam ser criadas para atender as demandas mais sofisticadas da sociedade atual. Pautas mais ousadas precisam ser apresentadas com coragem e sem medo da experimentação e do novo. O público mais jovem já cansou do formato tímido, conservador e repetitivo da imprensa escrita. O mundo não se resume ao que ela reporta. A sociedade mudou e a imprensa convencional dos jornalões precisa acordar para as novas realidades que surgem em nossos dias. O leitor contemporâneo anda entorpecido com a repetição envelhecida do atual modo de fazer e pensar o jornalismo tradicional. Impresso ou não, é hora de mudança e inovação.

***

Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor 

dezembro 26, 2013

"Disidencia: hacia una topografía inconclusa", por Verónica Gago y Diego Sztulwark

PICICA: "La disidencia es, clásicamente, la construcción de un lugar que se posiciona frente a un centro de poder. En América Latina, la disidencia puede pensarse en distintos momentos como figuras cambiantes, como itinerarios que abren a descomposiciones y recomposiciones de la topografía política. Esto supone una tesis: el poder muta en relación a esas figuras disruptivas, tratando alternativamente de subsumirlas, metamorfosearlas, quebrarlas y/o disolverlas. Está siempre a su espera, atento a lo que ellas producen y simultáneamente probando su propia capacidad de captura."


por Verónica Gago y Diego Sztulwark 

De la resistencia al impasse

La disidencia es, clásicamente, la construcción de un lugar que se posiciona frente a un centro de poder. En América Latina, la disidencia puede pensarse en distintos momentos como figuras cambiantes, como itinerarios que abren a descomposiciones y recomposiciones de la topografía política. Esto supone una tesis: el poder muta en relación a esas figuras disruptivas, tratando alternativamente de subsumirlas, metamorfosearlas, quebrarlas y/o disolverlas. Está siempre a su espera, atento a lo que ellas producen y simultáneamente probando su propia capacidad de captura.
Durante la década del 90, en Argentina, la disidencia constituía un variopinto repertorio de contestaciones y resistencias al esquema neoliberal de gobierno que era, básicamente, la explicitación de reformas que habían tenido su origen en las dictaduras militares y en el genocidio perpetrado por el terrorismo estatal. La disidencia, entonces, estaba claramente nutrida y difundida por una red de prácticas que planteaban en el plano de la justicia y la memoria, de los derechos humanos, laborales y sociales, una apuesta de acción política no institucional. Esto suponía, en lo concreto, desarrollar formas de antagonismo que iban más allá de las fronteras delimitadas por el Estado para aquello designado como espacio político. También, este proceso nos llevó, de un modo, a trazar una genealogía (o una historia no lineal) con las luchas de los años 60/701. Entre la transición democrática (y su fallido proyecto de reconciliación nacional) de los años 80 a la explicitación del proyecto neoliberal durante los 90, la disidencia tomó la forma de una pluralidad resistente.
Podemos ubicar el inicio de un segundo momento en el pasaje de la resistencia a la crisis como acontecimiento que hizo visible y audible una multiplicidad de sujetos y espacios políticos de nuevo tipo. La crisis de 2001 en Argentina fue el momento donde esa red de prácticas resistentes toma cuerpo en la lucha callejera, se abre a un protagonismo marcado por la presencia de los sectores de desocupados que van más allá de su mera definición como excluídos y donde las iniciativas de los diversos movimientos sociales se convierten en una forma de hacer, pensar y proponer que redefine y organiza de manera radical el conflicto político. Tal dinámica desplegada en iniciativas concretas (del piquete al escrache, de la asamblea a la red de trueque) renueva las imágenes y las nociones de la política desde abajo.
Es entonces cuando el antagonismo se vuelve destituyente: el protagonismo social declara el fin de la legitimidad política del neoliberalismo e inaugura un verdadero inicio de la posdictadura2 al comienzo del siglo. La disidencia, entonces, se convierte en la constatación popular de la representación vaciada del sistema político y, en contraposición, en la propuesta de modos de resolución de la vida concreta a partir de dispositivos (comunitarios, organizativos, de movilización y negociación) de los propios movimientos sociales. La disidencia, como figura política, deviene propositiva y, más que una fórmula negativa o de desplazamiento continuo, se encarna en la dinámica de creación social en marchaLa disidencia funciona simultáneamente como una modalidad de innovación política y de crítica institucional. Y es, sobre todo, una posición inmanente: no se trata de una forma de distancia crítica o prudente, sino de un proceso de inmersión, una perspectiva interior, a la dinámica propia de crisis e invención desde posiciones también múltiples que se apropian del espacio público y sus dilemas.
Esa fase de autonomía en ebullición es brutalmente interrumpida con el crimen de dos militantes del movimiento de desocupados que busca aleccionar por el terror: nuevamente, la masacre aparece como posibilidad real y efectiva frente al avance territorial y experimental de la organización popular3.
En el 2003, el período que se inicia con el gobierno de Néstor Kirchner (tras una victoria con un bajísimo porcentaje de votos) opera como una suerte de freno a la posibilidad de una escalada del conflicto social y la represión estatal. En ese sentido, se propone una tregua que rápidamente, por algunos signos fuertes desde el gobierno, apuesta al reconocimiento de las luchas sociales como capital simbólico y se traduce como signo y contenido de ciertas políticas estatales.
La polarización producida desde entonces movió el eje de la coyuntura, reponiendo al gobierno y al Estado como vectores principales de la topografía política. Esto fue posible gracias a que el gobierno operó una política de doble reconocimiento: de las luchas sociales, especialmente aquellas vinculadas a los derechos humanos, por un lado, y de la necesidad de reconstrucción del sistema de gobierno, por el otro. La resultante fue un esquema de nuevos alineamientos que debieron pronunciarse a favor o en contra de la gestión en curso. Ya durante el mandato siguiente de Cristina Fernández de Kirchner, una serie de conflictos fuertemente corporativos (con los sectores vinculados al campo, con algunos sectores sindicales, etc.) tensó aún más ese esquema de alineamientos, a partir del cual el sistema de representación recobró una vitalidad que había estado ausente por un largo tiempo y los movimientos sociales quedaron atravesados –y en general partidos- por esa nueva línea divisoria impulsada desde arriba.
Entre el gobierno y su antagonismo formal, emergen figuras de la oposición, se desarrolla el lugar delcrítico. Entre los movimientos sociales más autónomos que no se ajustan exactamente a esas posiciones, se produjo una situación de impasse4 que inmovilizó y neutralizó buena parte de los lenguajes y las prácticas anteriores. Una cierta desorientación se apoderó de quienes rehusaron pronunciarse al interior del binarismo que delimita el tablero de juego según clasificaciones preestablecidas. El problema es que esta polarización política acentuada durante los últimos años presiona en favor de una simplificación que opera por un dualismo excluyente a la hora de abordar los problemas que surcan los diferentes territorios. Y ese binarismo tiene, sobre todo, un espacio de ultra-centrismo5 organizado por tres polos: un polo exportador-extractivita generador de divisas, un polo fundado en una retórica tecnológica-industrialista, y un polo fundado en la dinámica de “derechos” (sociales y humanos).
De este modo, por ejemplo, o bien se es sensible a las luchas que se desarrollan en torno a la nueva economía neo-extractivista; o bien se da crédito a las dinámicas ligadas a retórica de la ampliación los derechos sociales sin reparar críticamente en lo que podríamos llamar la “base económica” del modelo --como si el desafío no consistiese, justamente, en articular (y no en enfrentar) lo que cada territorio enuncia como rasgo democrático y vital.
El potencial de riquezas de los procesos actuales se juega en la posibilidad de combinar los diferentes ritmos y tonos de las politizaciones, en la capacidad de articular lo que hoy se presenta como las disyunciones campo-ciudad, interior-capital, consumo-empleo, etc. Así como en reconocer las premisas transversales a las luchas por la reapropiación de recursos naturales, los diferentes procesos de valorización de los servicios, de la producción, y de las redes sociales como fuentes de la riqueza común y disputa por una infraestructura popular en los territorios.

América Latina en transición: disidencia en el postneoliberalismo

   se vive una transición. La disidencia que tiene como eje el neoliberalismo ha concluido para muchos. Más bien, se trata de discutir y problematizar lo que se ha denominado “post-neoliberalismo”. La disidencia frente al post-neoliberalismo consiste en abrir los espacios de resistencia y debate sobre el neodesarrollismo como modalidad en que el país se inserta en el mercado mundial y las consecuencias que esto implica en términos de destrucción y sumisión para ciertos modos de vida.
El neodesarrollismo no es un modelo económico, sino un ensamble objetivo-subjetivo entre tecno-ciencia aplicada tanto al bíos (modos de vida) como al zoé (vida biológica). Su fuerza no es sencilla: proviene del ensamble de una retórica de los derechos colectivos amalgamada con políticas de contención social, financiadas con los ingresos de commodities.  Pero son esos modos de vida, de la vida metropolitana, la vida común (esa que se pone en juego en la catástrofe de trenes en Once, o la que se activa en la resistencia a la minería en Famatina) la que emerge como clave disidente.
La vida política y el debate intelectual no han logrado, hasta ahora, imaginar formas diferentes de la felicidad popular por fuera de un modo único de instrumentación basado en la inserción del país en el mercado global como exportador de materias primas tecnológicamente asistidas.  La apelación al crecimiento con que se han conquistado los consensos políticos y la creencia de que la política, así entendida, basta para transformar la realidad se ha convertido en el límite mismo, en el tope de lo pensable, abriendo una interrogación difícil sobre el deseo social que se viabiliza a través de estas configuraciones discursivas e institucionales. A su vez, esta dinámica necesita confrontarse a un dinamismo mayor: en los países llamados “emergentes”, el surgimiento de un mundo capitalista “popular” está estrechamente ligado a la capacidad de recuperar experiencias y prácticas de autogestión capaces de lidiar con relaciones, transacciones y políticas no estatales en una sociedad crecientemente heterogénea. Esta capacidad es regenerada una y otra vez desde abajo, en relación directa con el mercado. Es esta realidad creciente la que opera como contrapunto permanente de una formulación institucional acabada y estable.
Volvamos a la cuestión: hoy ser disidente supone una diferencia respecto de otras dos figuras ya mencionadas: el opositor y el crítico. El opositor es interior a la realidad, es un pretendiente a ocupar un lugar central en ella. El crítico es objetor, custodia un ideal, y quisiera modificar esta o aquella cuestión. La disidencia, en cambio, atañe al modo de vida, y por tanto no es un discurso, sino un estado subjetivo capaz de dar cuenta de una materialidad concreta. El disidente no se encuentra en estado de debate, sino de minorización: su sensibilidad y su modo de pensar –en ese sentido, de vivir- no acaban de cuajar con la realidad instituida y mediatizada a la vez que conecta con otras dinámicas subterráneas pero no marginales.
El disidente precisa de un coraje muy particular. Debe sostener una perspectiva en contra de la verdad que afirman ciertas opiniones mayoritarias. Tiene que hacerse un cuerpo (común) capaz de sostenerse en estas verdades minoritarias. Por lo tanto, la disidencia requiere de una práctica, de una dimensión colectiva. Es fundamental este enlace entre disidencia y comúnEn el fondo la disidencia habla otra lengua. Se nutre de otros afectos. Lee con otros prismas. Tiene otra memoria, y otra economía.

¿Tiempos excepcionales o tiempos de excepción?

¿Hay una relación entre disidencia y excepción? Se dice que vivimos en estado de excepción permanente. El poder de esta afirmación surge de la yuxtaposición de sentidos que la acosan. La excepcionalidad es, al mismo tiempo, la norma y la historia de los “oprimidos” (Benjamin), y una condición de reproducción del poder (estado de excepción, según Carl Schmitt). Pero también es el brillo de toda singularidad y el nombre de un momento reflexivo que intenta extenderse al conjunto de la experiencia. Por allí vamos.
Sin embargo, cabe distinguir el presente como excepción de una retórica del presente como excepcionalidad. Walter Benjamin se encuentra en el cruce de un entuerto. Citado a favor del desarrollo, que apunta a un mañana mejor, es un crítico radical de la noción evolutiva de progreso y de toda política que se enuncie en nombre del futuro, desdeñando sufrimientos del presente. Hay que liberar la excepcionalidad de la ideología de la víctima. ¿No nos es necesario detectar los nuevos peligros del presente que en la proliferación del homenaje institucional quedan invisibles?, ¿no es cierto, acaso, que ciertos olvidos son necesarios para la lucha y la creación?
La constitución de una nueva voluntad política-estatal (que no se da sólo en la Argentina, sino que adopta diversas formas en la región y en muchas partes del mundo) ha resultado eficaz a la hora de reconocer actores y procesos históricos en el ámbito de la producción de derechos; de legitimar el sistema institucional y político nacional,  de incluir contingentes sociales en la ampliación de la esfera del consumo; de consumar procesos de inserción –sobre todo neo-extractivos y de producción de alimentos- en el mercado global; y de integración política regional. Sin embargo, su activismo no ha alcanzado a sustituir (ni por “arriba” ni por “abajo”) el poder de la razón neoliberal. Por arriba, porque los designios de los actores globales -tales como los mercados financieros y las grandes empresas multinacionales- no han sido desplazados por una nueva espacialidad social e institucional capaz de regular los procesos estratégicos (como la determinación de precios y regulación de contratos; la creación de dispositivos tecnológicos y pautas de consumo); por abajo, porque la ampliación del consumo y de derechos no ha venido de la mano de una nueva capacidad pública de comprender y regular las prácticas depredatorias ligadas a la promesa de “abundancia” (de la especulación inmobiliaria a las redes narcos;  de la economía informal a al lavado de dinero; del trabajo neo-esclavista, a la trata de personas).
Estas paradojas determinan las prácticas discursivas a la vez que se alimentan de ellas. Bien se concilia con las mismas admitiendo la complejidad con la que nos toca lidiar, bien se toma conciencia de las tendencias biopolíticas que ellas viabilizan (y que acaban por reconfigurar  la vida en común) y se las convierte en objeto de investigación política.

La disidencia como perspectiva de un nuevo conflicto social

El nuevo conflicto social es el marcador más visible y confiable a la hora de comprender la matriz actual de la explotación de lo común, así como los límites del potencial democrático que cabe atribuir a la regulación estatal.
Nos referimos, con ese término, a una serie de episodios violentos que van desde el desalojo de campesinos de sus tierras a partir de la extensión de los agro-negocios, así como al desplazamiento de comunidades producto del avance de las inversiones extractivas de mega-minería e hidrocarburos; pero también a la proliferación de episodios criminales vinculados a la generalización del negocio de la droga en los barrios, con complicidad de sectores de las policías, la justicia y del poder político.
El nuevo conflicto sociaes el reverso vergonzante y la contracara oscura del modo de acumulación neo-desarrollista al menos en dos aspectos fundamentales: forma parte de la constitución material de modos de vida y de explotación de la riqueza común con la que inevitablemente se articulan las prácticas de gobierno y, al mismo tiempo, comparte el énfasis de valores concernidos en la retórica del crecimiento y de la ampliación del consumo entendido en una perspectiva de generalización de prácticas mercantiles.
Esta “contracara” debilita la retórica de la “inclusión” en dos aspectos esenciales: revela el régimen de expropiación despiadada de lo común sobre la que se sustenta; y erosiona el imaginario mismo de un espacio social fundado en la vigencia de la ecuación entre trabajo asalariado y ciudadanía en el cual valdría la pena incluirse.
Este nuevo conflicto social ya no se calca de modo preciso sobre el esquema con el cual hemos atravesado la crisis del 2001: estado contra movimientos sociales. Sino que emerge de las nuevas condiciones de relanzamiento capitalista y nuevos modos de producción de estatalidad y de instrumentos de gobierno.
Estas condiciones se anudan, sobre todo, en la articulación entre grandes negocios globales y una innovadora empresarialidad popular: se trata de formidables generadores de ganancias enlazadas en torno a distintos tipos de valorización rentística (que poco y nada tienen que ver con la ideología industrializadora del modelo nacional y popular). Pero también de modalidades salvajes de expropiación de la riqueza común, y en la introducción de una dimensión de violencia terrorista en la gestión de territorios.
Estas actividades empresariales, tan diferentes entre sí, sin dudas, comparten además otras características importantes como el recurso a la ilegalidad, su potencia de reorganización/valorización de los territorios –muchas veces periféricos-, y su organización reticular, reproducida desde arriba, pero también desde abajo.
Luego de dos décadas ininterrumpidas de acelerada acumulación, estas nuevas tramas del poder económico poseen hoy una gran capacidad desestabilizadora, y de refuncionalización de las fuerzas de seguridad a sus servicios, como lo demuestra el caso paraguayo. La notable modernidad de sus estructuras comerciales, contrasta con el contenido conservador y despótico de sus modales políticos.
El nuevo conflicto social se extiende también al mundo del trabajo, en la medida en que nos enseña a comprender el vínculo entre súper-explotación/ consumo/producción de nuevos modos de vida que vemos desarrollarse en el mundo de la industria y los servicios (de los talleres textiles a la lógica del transporte). En ambos casos, la creciente regulación estatal no altera significativamente, sino que se enraíza en lo que podríamos llamar un  neoliberalismo popular acondicionado a nuevos modos de gobernar.
El nuevo conflicto social, decíamos, no se calca como un esquema siempre vigente sobre los modos de politización que enfrentaron a gobierno y movimientos sociales durante la crisis del 2001. Como cabe señalar, en buena medida los movimientos sociales participan hoy del gobierno, alterando la relación entre gobierno y territorio. Sin embargo, la activación de organización social en torno a esta violencia expropiatoria y terrorista no ha dejado de hacerse presente actualizando la necesidad de la investigación militante y la producción de conocimientos y iniciativas organizativas a la altura de las circunstancias.
La disidencia, en este punto, se renueva como forma de la investigación política: apuesta a la presencia de experiencias con la potencia suficiente para disolver el espacio de la representación estatal y mediática (en la medida en que la verdad y la justicia van unidas, la investigación supone una ética contra la criminalidad del poder) y, al mismo tiempo, recurso a una imaginación necesaria que nos ayuda a comprender las capas más profundas de eso que podemos asumir como verdad.

Apuntes finales para la investigación política

Muchas veces en nuestra actualidad la energía comunicacional y los debates de la esfera pública parecen agotarse en la lucha política inmediata en torno al control de la decisión política. La tarea de la investigación política queda relegada del debate colectivo, y cae bajo sospecha de operar en función directa de esta disputa. De este modo, la primera víctima de la polarización política es la práctica del discurso político no especializado, aplastado por el sistema de la opinión, caracterizado por un lenguaje preelaborado por el mundo de los medios.
Marcamos aquí una primera paradoja: la ultra politización de la opinión (régimen periodístico, militante, jurídico, etc.) va acompañada de una pérdida relativa de la capacidad de elaborar lenguajes y preguntas de un modo autónomo. Llamamos investigación política a la invención de procesos de recuperación de potencia en relación con la capacidad de los no especialistas de elaborar preguntas, lenguajes y saberes sobre la existencia colectiva.
De este modo, una primera orientación que proponemos apunta a reconocer una disposición indispensable para la praxis de la investigación política: lo que podríamos llamar la “arbitrariedad” (palabra en la que insistía el filósofo argentino León Rozitchner), es decir, las formas de la autorización que nos damos para advertir peligros. Para avisar sobre la connotación negativa que pueden tener determinadas prácticas, aunque nazcan de zonas queridas de nuestra propia experiencia.
Una segunda orientación fundamental refiere a la dirección de nuestra atención hacia lo que podríamos llamar, inspirados en la filosofía de Nietzsche,  las “zonas oscuras” de la existencia social, aquellas en las que se elaboran las fuerzas que luego nos afectan, y nos fuerzan a pensar. Esta dimensión opaca puede referir a zonas de la subjetividad, de la política y de la economía, a aquello escapa a la legalidad y a los umbrales de visibilidad instaurados por el régimen de la opinión.
Una tercera indicación tiene que ver con el método de la “problematización”, pretendidamente extra moral (al decir de Foucault), que indaga en las mutaciones de las prácticas (prácticas discursivas) para evaluar tanto aquello que, en contacto con nuevas realidades, estamos dejando de ser, como aquello que estamos comenzando a ser.
Una cuarta observación: se trata de tomar en serio el mundo de las intensidades, no sólo el de las significaciones discursivas,  Se tiene que poner en el primer lugar “afectos” (y “hábitos”, es decir, articulación entre afectos), en contra posición con la inflación de “linguismo” que caracteriza a la idea de “hegemonía” o “batalla cultural” de las retóricas del llamado “populismo” sudamericano.
Una quinta orientación refiere a profundizar en las articulaciones menos visibles de lo que en un sentido amplio podemos llamar la “maquinaria” de gobierno de lo social, de la producción de imágenes, del gobierno de la moneda, de cómo funcionan y se multiplican las soberanías en los territorios, de la gestión del consumo, etc. De ese modo, la investigación se liga a su propia vocación de participar de las formas actuales de politización.
Finalmente, si los “movimientos sociales” ya no guardan el aspecto de antaño y más bien tienden a ser parte de esta frágil mecánica del gobierno, la propia investigación militante se ve forzada a mutar al menos en dos direcciones diferentes y simultáneas: hacia la problematización de las nuevas formas de gobierno; y hacia la activación de lo que podemos llamar las nuevas movilidades sociales, que de un modo completamente diferente al de los movimientos de la década pasada, prefiguran un nuevo mapa de luchas y de lenguajes para sus formas de hacer y, sobre todo, de problematizar la actualidad. La disidencia, si habría que repensarla bajo esta luz, refiere a un modo de problematizar los consensos de la época (siempre un determinado ensamblaje entre lo que se ve y lo que se oye) y de construir una inteligencia común sobre las injusticias del presente. 

Verónica Gago y Diego Sztulwark pertenecen al Colectivo Situaciones (Argentina), un colectivo de investigación militante.

Notas
1 Nos referimos al amplio ciclo de luchas de radicalización política que incluye a diversas organizaciones que tenían la hipótesis de un cambio revolucionario en nuestro país. La violencia del terrorismo estatal es la respuesta contrainsurgente a este proceso.
Se puede ver el desarrollo de esta idea en Colectivo Situaciones (2002): 19 & 20. Apuntes para el nuevo protagonismo social, Buenos Aires: De Mano en mano. Disponible en http://tintalimon.com.ar/
3 Nos referimos a la masacre del 26 de junio de 2002, en el Puente Pueyrredón, donde fueron asesinados por la policía los militantes piqueteros Maximiliano Kosteki y Darío Santillán, pertenecientes a los Movimientos de Trabajadores Desocupados de Guernica y Lanús, del sur del conurbano bonaerense.
4 Ver al respecto AAVV (2009): Conversaciones en el impasse. Dilemas políticos del presente, Tinta Limón: Buenos Aires. Disponible en www.tintalimon.com.ar
5 Para el desarrollo de este término se puede ver: "Notas de la coyuntura argentina" en http://www.uninomade.org/notas-de-la-coyuntura-argentina/ y "Cacerolas bastardas"en http://www.revistacrisis.com.ar/cacerolas-bastardas.html

Fonte: Lobo Suelto!