março 28, 2014

"2 mil Waimiri-Atroari DESAPARECIDOS NA DITADURA", por Egydio Schwade

PICICA: "O Governador do Amazonas, Danilo Areosa, pedia providencias para garantir “a construção da estrada através do território indígena, a qualquer custo”, considerando o índio um inútil, que precisava “ser transformado em ser humano útil à Pátria”. E prosseguia: “os silvícolas ocupam as áreas mais ricas de nosso Estado, impedindo a sua exploração, com prejuízos incalculáveis para a receita nacional, impossibilitando a captação de maiores recursos para a prestação de serviços públicos”. (A Critica / Manaus 27 de novembro de 1968). Seu colega, Governador de Roraima, Fernando Ramos Pereira, completou: “Sou de opinião que uma área rica como essa não pode se dar ao luxo de conservar meia dúzia de tribos indígenas atravancando o seu desenvolvimento”. (Resist. Waimiri-Atroari / Marewa / Itacoatiaria / 1983, pg 6)."

 

2 mil Waimiri-Atroari DESAPARECIDOS NA DITADURA


Por Egydio Schwade

É justo e necessário o país se mobilizar pelos desaparecidos políticos da Ditadura no Brasil (1964-1984). Entretanto, por que não há o mesmo interesse na busca dos índios desaparecidos durante a Ditadura Militar por se oporem a política do governo sobre seus territórios? Em 1968, o Governo Militar invadiu com a rodovia BR-174, Manaus – Boa-Vista, o território Kiña (Waimiri-Atroari). Em 1975, pelo menos 2000 pessoas já haviam desaparecido, todos pertencentes ao povo Kiña. Isso porque se opunham ao processo de invasão de seu território imposto pelos militares.

O massacre ocorreu em etapas. Na primeira delas quem esteve a frente da construção da rodovia foi o Departamento de Estradas e Rodagem / Amazonas (DER/AM). Os relatórios mensais dos trabalhos sempre se faziam acompanhar com pedidos de armas e munição como este: “Vimos pelo presente, solicitar seu especial obséquio no sentido de ser expedida pelo S.F.I.D.T., uma autorização para compra de 6 revólveres “Taurus” calibre 38 duplo (…), 2 espingardas calibre 16, 53 caixas de cartuchos calibre 16, 16 caixas de balas calibre 38 longo, 25 caixas de cartuchos calibre 20, e 2 caixas de balas calibre 32 simples. Esclarecemos, outrosssim, que referida munição será uttilizada como medida de segurança e de certo modo manutenção (…)”. (Of.DER-AM/DG/No. 170/68 de 04 de abril de 1968. Ass. pelo Eng. Otávio Kopke de Magalhães Cordeiro, Diretor Geral, ao Major Luiz Gonzaga Ramalho de Castro).

Oficialmente a FUNAI era encarregada da política indigenista, mas logo ficou evidente que a a área Waimiri-Atroari ficaria sob o controle militar. A segunda etapa se inicia no ano seguinte. Em junho de 1968, o Pe. João Calleri, nomeado pela FUNAI para a direção dos trabalhos de atração, fez um plano minucioso para os primeiros contatos e posterior fixação dos índios fora do roteiro da BR-174. No entanto, foi obrigado pelo Major Mauro Carijó, Diretor do DER/AM, a mudar o seu plano o que causou a trágica morte do Pe Caleri e seus auxiliares, em outubro de 1968. Isso possibilitou uma intensa campanha de repúdio aos Waimiri-Atroari criando uma situação favorável à intervenção militar brutal.

O Governador do Amazonas, Danilo Areosa, pedia providencias para garantir “a construção da estrada através do território indígena, a qualquer custo”, considerando o índio um inútil, que precisava “ser transformado em ser humano útil à Pátria”. E prosseguia: “os silvícolas ocupam as áreas mais ricas de nosso Estado, impedindo a sua exploração, com prejuízos incalculáveis para a receita nacional, impossibilitando a captação de maiores recursos para a prestação de serviços públicos”. (A Critica / Manaus 27 de novembro de 1968). Seu colega, Governador de Roraima, Fernando Ramos Pereira, completou: “Sou de opinião que uma área rica como essa não pode se dar ao luxo de conservar meia dúzia de tribos indígenas atravancando o seu desenvolvimento”. (Resist. Waimiri-Atroari / Marewa / Itacoatiaria / 1983, pg 6).

No final de 1968 o Comando Militar da Amazônia instalou um quartel no Igarapé Sto. Antonio do Abonari, que passou a controlar a vida e o destino dos índios. A partir daí a FUNAI se tornou apenas um joguete do Governo Militar a serviço do 6º BEC – Batalhão de Engenharia e Construção. O abastecimento de armas e munição ficou a cargo do Exército, não demandando mais autorização especial. Trabalhadores, soldados e funcionários da FUNAI invadiam a área indígena enpunhando armas e utilizado-as contra os índios. Revólveres, metralhadoras, cercas elétricas, bombas, dinamite e gás letal, foram algumas das armas utilizadas pelo Exécito na guerra contra os índios durante a  construção da BR-174.

Entre 1972 e 1975 a população Kiña reduziu de 3.000 (estimativa do P. Calleri em 1968, confirmada por levantamento mais minucioso da FUNAI em 1972) para menos de 1.000 pessoas, sem que a FUNAI e os militares apresentassem as causas dessa depopulação. Esses 2.000 Kiña desapareceram sem que fosse feito um só registro de morte. Durante o processo de alfabetização desenvolvido por nós e continuado pelo lingüista Márcio Silva, os Waimiri-Atroari tiveram, em curto período, uma das raras oportunidades de revalarem o que o seu povo sofreu durante a Ditadura, sofrimento que nenhum outro segmento da sociedade brasileira passou.

Desapareceram nove aldeias na margem esquerda do Médio Rio Alalaú; pelo menos seis aldeias no Vale do Igarapé Sto. Antonio do Abonari; uma na margem direita do Baixo Rio Alalaú; três na margem direita do Médio Alalaú; as aldeias do Rio Branquinho, que não aparecem nos relatórios da FUNAI; e pelo menos cinco aldeias localizadas sobre a Umá, um varadouro que ligava o Baixo Rio Camanau, (proximidades do Rio Negro) ao território dos índios Wai Wai, na fronteira guianense. Pelo menos uma delas foi massacrada por bombardeio de gás letal, com apenas um sobrevivente (Sobreviventes dessas cinco aldeias foram nossos alunos em Yawará / Sul de Roraima). A partir do 2º semestre de 1974 as estatísticas da FUNAI começaram a referir números entre 600 e 1000 pessoas e, em 1981, restavam apenas 354.

Em 1987 o Governo Federal passou o comando da política indigenista à responsabilidade da empresa Eletronorte que apenas mudou de estratégia, continuando o controle das informações e a política de isolamento dos índios como ao tempo dos militares.

Essa é uma das histórias envolvendo os povos indígenas e a Ditadura Militar no Brasil. Casos semelhantes podem ser observados com os índios Krenhakarore do Peixoto de Azevedo no Mato Grosso, os Kané (tapayuna ou Beiços-de-pau) do rio Arinos no Mato Grosso, os Suruí e os Cinta Larga de Rondônia e Mato Grosso e outros. No entanto, nenhum desses homens, mulheres e crianças é citado nas relações dos desaparecidos da Ditadura.

"A Anistia, o STF, Amarildo e Dona Claudia Ferreira: elos da história!", por Francisco Carlos Teixeira

PICICA: "A decisão dos nossos juízes anistiou previamente, por ausência de sentido de justiça e ignorância de nossa história, aqueles que matariam Amarildo e Claudia."
25/03/2014 - Copyleft

A Anistia, o STF, Amarildo e Dona Claudia Ferreira: elos da história!

A Anistia, o STF, Amarildo e Dona Claudia Ferreira

A decisão dos nossos juízes anistiou previamente, por ausência de sentido de justiça e ignorância de nossa história, aqueles que matariam Amarildo e Claudia.








Segundo relatório recentemente publicado pelo Forum Brasileiro de Segurança Pública, a cada dia a polícia brasileira mata cinco pessoas. Da mesma forma, dezenas de policiais são mortos nos confrontos com o crime organizado, muitos deles – pessoas honradas – abatidos de forma desigual pelo tráfico fortemente armado. Outra organização independente, a “Human Rights Watch”, em relatório também deste ano, denunciou a sistematicidade da tortura nas prisões brasileiras, ressaltando que mesmo sob a custódia de um Estado (de Direito), a tortura é uma realidade cotidiana no Brasil. Em alguns casos recentes, como no Maranhão, as condições de tutela dos apenados chegou a causar condenações internacionais ao país.  Refletir sobre números tão absurdos é uma necessidade imperiosa [1].

Em 28 de agosto de 1979 o general Figueiredo – aquele que pediu inutilmente para ser esquecido! – aprovava a Lei 6.683, que estabelecia a anistia para atos considerados criminosos, de motivação política, cometidos entre 1961 e 1979. A lei, aprovada ainda sob regime discricionário e autoritário, sem a plena capacidade do Congresso Nacional decidir, estabelecia um princípio único no mundo: os possíveis acusados de atos de violência e tortura cometidos sob cobertura do Estado autoritário eram colocados fora do alcance da Justiça. Em suma, os homens que torturam, sequestraram, mataram e se desfizeram de corpos e das provas de tais crimes, eram “anistiados” no mesmo diploma que “perdoava” os que lutaram pelo retorno da democracia no país.

A Anistia, uma luta de pessoas que sofreram a ditadura e do conjunto do povo brasileiro, foi, pela Lei de Figueiredo, violentada e depravada no Brasil. A Anistia, foi em princípio, um amplo movimento popular. Sob o impulso das ruas, de milhares de comitês e de centenas de atos pela liberdade de presos e retorno dos exilados, e pela reassunção de cargos de onde centenas de brasileiros foram alijados ao arrepio da lei exigia-se o restabelecimento dos direitos de todos os brasileiros. A ditadura, entretanto, abriu uma cunha jurídica no texto legal – de tipo jabuticaba, ou seja, tipicamente “nacional” - para proteger aqueles que torturaram e mataram pessoas indefesas, sob a tutela do Estado, na maioria dos casos em próprios, prédios, do Estado, sob administração do Estado e por funcionários do Estado. Assim, a ditadura se autoanistiou. Pegou, desavergonhadamente, carona nas lutas populares, para colocar no ninho alheio o seu ovo de impunidade. A violência era uma política de Estado e aquele Estado se autoanistiou em 1979.

Mas, não precisava ser assim. A Constituinte de 1988 poderia ter mudado isso. Não o fez. Sob impacto da ação do chamado “Centrão”, o então “blocão” da direita brasileira que armou o controle dos trabalhos da Assembleia Constituinte, bloqueou toda iniciativa nesta direção. Assim, o regime híbrido, dito de transição, entre a ditadura civil-militar e a democracia procurava, e conseguia, colocar-se à margem, para além, do alcance da Justiça.  Os autores desta façanha – ou seja, os atores componentes da AD/Aliança de Democrática oriundos da ARENA/PDS que abandonaram, na vigésima quinta hora, a ditadura para unir-se ao projeto encabeçado por Tancredo Neves (trazidos por José Sarney, cujo o colo foi o depositório do levante nacional contra o autoritarismo) – foram capazes de barrar quaisquer esforços de imposição de punições, afastamentos ou demissão dos torturadores.

Da mesma forma, a o véu da corrupção foi mantido sob as instituições nacionais, confirmando a prática nacional de usar as leis somente contra os inimigos. No pós-Ditadura não houve CPIs, inquéritos ou investigações sobre homens e instituições que violaram as leis, que se enriqueceram de forma ilícita ou daqueles que quebraram as normas constitucionais em 1964 e nos anos subsequentes.

Tratava-se, claramente, dos limites de uma transição “tutelada”, onde homens do “antigo regime” reinavam como os condutores da abertura democrática. As presidências José Sarney e Collor de Mello, tiveram, claramente, a função de evitar que a história fosse escrita a partir de uma clara denúncia dos atos bárbaros da ditadura. Vieram, então, homens da resistência, que lutaram pela democracia: Itamar Franco, FHC e Lula da Silva. Cada um deles, ao seu modo, buscou corrigir os aspectos mais dolorosos do “esquecimento” do passado recente. Mas, em nome da “unidade nacional” e da “conciliação” de todos os brasileiros decidiram-se pelo “esquecimento” da história do tempo presente no Brasil. Todos que exigiam transparência, Justiça e restabelecimento de direitos foram vistos como “encrenqueiros”, “revanchistas” e “radicais”.

Este era o “transformismo” brasileiro: sempre negar o passado, sempre pregar o esquecimento, sempre defender a “paz social” – claro, que negros escravos, índios, os mortos e torturados, desde a Revolta dos Alfaiates na Bahia, passando pelas terríveis punições da Revolta da Armada, até os torturados durante o Estado Novo (1937-1945) e, depois, pelo Regime de 1964, culminando nos tantos “Amarildos” ficariam esquecidos em nome da “paz” e da “reconciliação” social.

“Glória, à todas as lutas inglórias, da nossa História”! Assim, a história do Brasil se construiu em continuidades e esquecimentos.

Tratava-se de “superar o passado”, “esquecer uma página triste da nossa história”. Queimar os registros da escravidão, para apagar a “mancha” na histórias nacional.

No entanto, esforços foram feitos por familiares dos presos e desaparecidos do Regime de 1964, colocando em questão o “esquecimento”, e algumas entidades, entre elas “Tortura Nunca Mais”, insistiram em buscar toda a verdade. Em enterrar, não a história do tempo presente, mas, os corpos ainda insepultos da ditadura. Coube a Dilma Rousseff, ela mesmo uma militante anti-ditadura, dar o passo mais avançado, instalando uma Comissão da Verdade.

A Comissão, de mandato e poderes restritos, possui o mérito de abrir aqui e ali frestas no silêncio e recusar-se, pela primeira vez no Brasil, a “virar a página” de um livro que ainda não foi escrito. Os resultados, ainda que parciais, já são uma ruptura, uma novidade, na sociedade brasileira. De posse de tais resultados cabe, ainda uma vez, bater ás portas do STF e pedir que o silencio e o esquecimento sejam, desta vez, quebrados. Por que? Porque é história, nossa história, nosso tempo e nossa obrigação. Mas, há algo ainda maior a exigir o fim do silêncio: a história, entre nós, se repete!

A tortura, como no geral a violência, a truculência e arrogância cotidiana nas relações sociais no Brasil – em especial entre a dita “elite” (aqueles mesmos que não andam de ônibus ou de trem e metrô e para os quais tudo vai bem!) e a massa do povo -, não foi uma invenção do regime de 1964. No máximo tornou-se, desde então, uma política de Estado. Nem mesmo, como poderíamos pensar de forma indulgente, foi produto de um ensinamento técnico importado do exterior, seja de manuais franceses da primeira Guerra da Indochina ou da Guerra da Argélia, seja dos manuais norte-americanos utilizados urbi et orbi. Uma elite com mais de 400 anos de escravidão não precisa de lições de como torturador seu próprio povo. A novidade era, em 1964, a transformação da tortura em política de Estado, sua extensão e sua aplicação por objetivos específicos e contra grupos de militância política cujos membros, muitos, eram oriundos da própria elite do país.

Antes, na escravidão e na República Velha, a tortura era para escravos, pobres, migrantes – internos e externos – e marginais, no melhor sentido da expressão, todos aqueles estranhos à “boa sociedade”. Foi o Estado Novo (1937-1945) que generalizou, ampliou, treinou e montou as bases da violência sistemática de Estado como política no Brasil.  Órgãos públicos como Deops, Dops, Polícia Especial – foram, numa expressão corrente – “o ovo da serpente”, todos gestados no Estado Novo. Depois, na “democracia” estabelecida em 1945 e tolerada pelas elites até 1964 (malgrado os golpes “falhados” em 1954, 1955, 1956 e 1961) criaram-se centros policiais de tortura e morte, com os mesmos homens do Estado Novo: as “invernadas”, como de Olaria no Rio de Janeiro, as “escuderias” policiais – como a autodenominada “Le Cocq” -, as “Rotas” e os esquadrões que torturavam e matavam.

Depois de 1964, os esquadrões da morte vicejaram. Policiais treinados na torturado foram emprestados aos órgãos militares, delegados organizaram “repúblicas” próprias onde exerciam o direito de vida e morte sobre oponentes do regimes, criminosos de direito comum ou quaisquer outros que merecessem sua atenção.

Pelo menos em duas ocasiões, uma em 1963/1964, e a outra de quando da criação da chamada Operação OBAN, em 1969, policias, militares, grandes empresários e autoridades civis se uniram para montar e financiar centros de tortura no país. Muitos destes policiais, alguns com codinomes de “doutor” ou de “capitão” passaram-se, mais tarde, pura e simplesmente para o crime organizado, e lá estão, ainda hoje, impunemente.

A cadeia explicativa da tortura no Brasil (enquanto uma política sistemática) ainda hoje vigente une os porões da polícia do Estado Novo, os órgãos de repressão mantidos vivos na “democracia” de 1946-1964 (como os Dops), a simbiose polícia PMs militares e grandes empresários temerosos do “comunismo”, com autoridades civis, aos quais juntar-se-iam a polícia civil, os paramilitares e milicianos dos nossos dias.

Uma exemplar história sem rupturas

Deixamos passar, ignoramos, maltratamos todas as possibilidades, desde 1945, passando pela Constituição de 1988, até hoje, de criar formas jurídicas, e princípios políticos, que pudessem impedir a repetição do trauma histórico, fundante da pior vicio da vida política brasileira: a violência sistemática contra pobres. Pior de tudo: os políticos que fundaram e refundaram a “democracia” brasileira, como os liberais de 1945 e 1946 e os homens no poder em 1985 e 1988, preferiram um discurso, e uma construção da narrativa de nossa história, centrada no “esquecimento”, em “virar a página”, em “deixar no passado” e em “perdoar à todos” (como se vítimas e algozes fossem iguais) que enlutaram e envergonharam a história do tempo presente no Brasil.

No Brasil, nenhum lugar seria Nuremberg!

E no Brasil, ninguém seria acusado de tramar contra a liberdade, em organizar-se, em prédios e sob a cobertura do poder público, para sequestrar, torturar, matar, ocultar e, então, mais uma vez, repetir toda a história. Os homens que compuseram o Tribunal de Segurança Nacional, entre 1935 e 1945, não só não foram tocados ou “incomodados” em seus postos e nos seus salários, como ganharam cargos prestigiosos, na “democracia” de 1945-1964, na mais alta magistratura do pais. Muitos tornaram-se ministros do Supremo Tribunal Federal e de outras instâncias. Torturadores do Estado Novo tornaram-se delegados da polícia e do Dops depois de 1945 e foram eles que ajudaram e participaram da repressão depois de 1964. Suas vítimas foram esquecidas, os crimes ocultados. Trauma transforma em recalque e repetição.

Crimes mal-ditos, ocultados, como traumas guardados no fundo d´alma, se repetem. Os mesmos homens, “grandes” juristas como Francisco Campos e Carlos Medeiros, que apoiaram e fundaram o Estado Novo, tornaram-se os redatores dos Atos Institucionais liberticídas de 1964 e chefes de polícia de 1937, como Filinto Müller, assumiram funções de coordenação da repressão e de poder depois de 1964. O trauma mal-dito, oculto, transforma-se me repetição. Os torturados de 1935 e 1937 renasceram nos “Amarildos” de 2013.  Mas, nem então, foi dito basta! A nossa história não se repete como comédia, como quereria Marx. Pior, a história do Brasil gagueja o mesmo trauma: da escravidão, das Leis Celeradas da República Velha, dos porões do Estado Novo até o Regime de 1964 somos uma sucessão de gaguejos. Graciliano Ramos, Stuart  Angel Jones, Amarildo: são todos um só!

Contudo, o pior gaguejo, o entalo da fala, o lapso da razão, deu-se em 2010. Portanto, em plena democracia da Nova República fundada em 1988. Neste ano, o Supremo Tribunal Federal, recusou a ação da OAB questionando a validade da Lei 6.683 e reafirmaram a anistia dos torturadores. A democracia brasileira, e suas sumidades jurídicas, tiveram uma chance única na proposta da OAB: romper com as continuidades, impor o respeito pela dignidade humana e a punição pelo pior de todos os crimes. O STF, então, recusou-se “a abrir velhas feridas”.

Indo além, a Justiça brasileira estendeu a anistia aos torturadores vindouros num futuro imprevisível: crimes em curso, como sequestro e ocultação de cadáveres, e, acima de tudo, os crimes posteriores à própria anistia – como o atentados contra os jovens do Riocentro, a OAB e o poder legislativo do Rio nos últimos anos da ditadura – foram prévia, e futuramente, anistiados. Na ocasião, a justiça encenou uma farsa, e em 2010 o STF tornou tal farsa numa tragédia permanente da vida brasileira.

Uma massa de policiais civis, militares e alcaguetes comemoraram sua liberdade de tipo “007”: a liberdade para matar!

Quando deu-se de forma debochada, evidente, pornográfica a tortura, morte e ocultação do pedreiro Amarildo, no Rio em 2013, estávamos repetindo, gaguejando, a nossa própria história. Os crimes cometidos contra as massas de escravos brasileiros, contra os trabalhadores migrantes, estrangeiros e nacionais, na República Velha, contra os oponentes do Estado Novo e, enfim, dos resistentes contra o regime de 1964 se repetiriam de forma sistemática e crescente. Agora, restabelecida formalmente a “democracia”, as vítimas não seriam mais grupos de advogados, militantes, professores e estudantes da classe média brasileira. Depois de 1988, com a anistia e a decisiva e forte ação do STF de não punir a tortura no Brasil, os trabalhadores, os “associais” e “marginais”, os pobres, negros, gays e índios seriam o alvo central de um poder que nunca prestou conta, em toda nossa história, de seus crimes. Mata-se sistematicamente. Impunemente. Abertamente. Cadáveres são ocultados por funcionários públicos, arrastados em praça pública por viaturas públicas; negros nus reencenam involuntariamente aquarelas de Debret, amarrados e espancados em postes públicos, por “justiceiros” e por homens que, com fardas e viaturas públicas, somam mais de cinco dezenas de mortes por “autos de resistência”, protegidos pelo Estado e amparados pela Justiça.

A decisão do STF, em 2010, como o general Figueiredo em 1979, será inesquecível. A decisão dos nossos juízes supremos anistiou previamente, por ausência de sentido de justiça e ignorância de nossa história, aqueles que matariam Amarildo e, agora, Dona Claudia Ferreira.

[1] EL PAIS (edição brasileira): “Polícia brasileira mata cinco pessoas a cada dia”, 27/02/2014. Ver, ainda, no mesmo jornal, o artigo: “Tortura é problema crônico em cadeias do Brasil”, em 21/01/2014.

(*) Professor Titular de História Contemporânea/IUPERJ


Fonte: Carta Maior

"Coisa absurda, senão grave", por Muniz Sodré

PICICA: "Vale a pena refletir um tanto sobre duas frases do estadista e jornalista francês Georges Clemenceau (1841-1929): (1) “O homem absurdo é aquele que nunca muda”; (2) “a guerra é uma coisa grave demais para ser confiada aos militares”. Vale igualmente, a título de exercício, deslocar a primeira frase para uma questão identitária qualquer, pessoal ou coletiva, como a identidade profissional do jornalista. Quanto à segunda, é oportuno especular sobre a possibilidade de que aquilo que se vem chamando de comunicação, ou seja, o grande vetor simbólico do turbocapitalismo, tenha magnitude maior do que a prática tradicionalmente confiada aos jornalistas." 

JORNALISMO & COMUNICAÇÃO

Coisa absurda, senão grave

Por Muniz Sodré em 25/03/2014 na edição 791

Reproduzido da revista CULT nº 188; intertítulos do OI


Vale a pena refletir um tanto sobre duas frases do estadista e jornalista francês Georges Clemenceau (1841-1929): (1) “O homem absurdo é aquele que nunca muda”; (2) “a guerra é uma coisa grave demais para ser confiada aos militares”. Vale igualmente, a título de exercício, deslocar a primeira frase para uma questão identitária qualquer, pessoal ou coletiva, como a identidade profissional do jornalista. Quanto à segunda, é oportuno especular sobre a possibilidade de que aquilo que se vem chamando de comunicação, ou seja, o grande vetor simbólico do turbocapitalismo, tenha magnitude maior do que a prática tradicionalmente confiada aos jornalistas.

De fato, parece-nos um absurdo cognitivo enfiar a cabeça na areia, como no atributo mítico do avestruz, em face da realidade atual das mudanças do jornalismo e da própria mídia dita “de massa”. Por outro lado, essa realidade é grande demais para ser instrumentalmente apropriada – e compreendida – por uma única e específica categoria profissional.

Na segunda metade do século 19, o jornalismo foi fundamental para o aperfeiçoamento das condições liberais de discussão e persuasão, abrindo caminho para a democracia das opiniões num espaço público consentâneo com a Revolução Industrial e com o liberalismo político e econômico. O jornal era uma entidade republicana. Dentro deste escopo, seria até possível conceber o jornalismo como um projeto político maior do que o “jornal” em si mesmo. Já em 1920, o educador e filósofo pragmatista John Dewey dizia que o jornalismo deveria ir além do mero relato objetivo de acontecimentos (o modelo em que a imprensa “reporta” e o leitor consome) para se tornar um meio de educação e debate públicos. Favorecendo o diálogo mais direto entre cidadãos e jornalistas, a atividade jornalística, mais do que “reportar”, teria em seu âmago a promoção da “conversa” pública, incrementando os dogmas da “soberania do povo”.

Na segunda metade do século 20, os mass media (imprensa, rádio e televisão) buscaram a estandardização de bens e de opiniões, ampliando tecnicamente o espaço público. Este tinha sido simultaneamente político e cultural. Com os desdobramentos tecnológicos da mídia massiva, deu-se um alargamento da esfera pública, mas apenas em suas dimensões materiais ou funcionais, sem real correspondência histórica com o que antes significavam política e cultura para a consolidação da república burguesa. O funcionamento do que se chamou “indústria cultural” não exigia mais do que a eficácia dos fluxos informacionais e a mobilização da atenção pública pela retórica diversificada do entretenimento. Os grandes críticos da cultura, Adorno à frente, sustentavam que essa realidade prática prescindiria de maiores horizontes intelectuais.

Consequências danosas

Agora, não se trata de uma coisa nem de outra: a mídia eletrônica (internet e suas derivações), biombo ideológico do capitalismo financeiro, institui-se em arquivo mundial do saber, com foco cultural na sincronização dos afetos em escala global. A palavra de ordem é velocidade, e não espírito republicano. Desde a década final do século passado, a tecnologia digital passou a impulsionar e consolidar a fragmentação dos públicos da mídia anterior sob as formas de individualidades comunicantes ou interativas. A antiga interação, regida pelo modelo de uma “massa” anônima e heterogênea, dá lugar à interatividade, que implica um processo gradativo de apropriação da tecnologia da comunicação pelos usuários. O fundo coletivista do modelo de massa anônima transforma-se no de um individualismo de massa. O que conta aqui não é a opinião argumentada, mas a opinião emocional ou afetual.

Aos desavisados, isto bem que poderia parecer apenas mais uma construção teórica para dar conta das novas relações sociais que espelham a lógica ou a ideoestrutura visível e consciente do mercado de bens e serviços. Elas sempre estiveram implícitas na dimensão industrial do jornalismo, mas ganharam um vulto ampliado no âmbito da financeirização e da tecnologização do mundo.

E o fato é que hoje tais relações constituem-se como objeto prioritário dos estudos de mídia, especialmente nos Estados Unidos, conforme especificou o professor Ronald Yates, da Universidade de Illinois, ao justificar a substituição de meras communications por media na designação do seu college: ”O que nós realmente fazemos é estudar e ensinar ‘comunicação midiatizada’ [mediated communications] (…). Nós estudamos e ensinamos mídia – mídia velha, mídia nova, mídia emergente, mídia futura. Em resumo, o College of Communications é sobre mídia. O mais importante de tudo isso (…) não é encontrar uma nomenclatura precisa, mas dar conta das mudanças que estão ocorrendo (…) Essas mudanças nas formas de distribuição [de informação e entretenimento] e na maneira como as pessoas pensam a respeito da mídia provocaram mudanças no escopo das comunicações como disciplina.” (LIMA, Venício A. “História, fronteiras conceituais e diferenças”. In: Observatório da Imprensa, nº 749, 4/6/2013).

No campo da formação profissional universitária, noticiou-se no final de 2010 que “a Universidade do Colorado estuda fechar seu curso de graduação em Jornalismo para criar um programa que combine preceitos jornalísticos e de ciência da computação”. O novo curso seria algo próximo de uma “graduação em mídias”. Segundo a mesma fonte, ao menos outras trinta escolas, entre elas Wisconsin, Cornell, Rutgers e Berkeley, consideram modificar os cursos para que se adequem às novas tendências do mercado de trabalho. O foco teórico e profissional é acomunicação midiatizada por ferramentas tecnológicas (mediated communications).

Assim, o jornalismo, foco bicentenário da liberdade de expressão consagrada pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e ratificada pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, tende a ser desconsiderado como um conteúdo democrático em benefício da ideia de um serviço ao consumidor, o que dá ensejo a algo como um jornalismo de dados.

Isto não equivale a dizer que tudo leva aos caminhos teóricos da comunicação, às ditas teorias da comunicação. Já Wilbur Schramm, um dos principais nomes do marketing acadêmico da comunicação (aliás, um esperto do auto-marketing…), após a Segunda Grande Guerra, chamou a atenção para o fato de que a Journalism Quaterly, a mais antiga revista acadêmica da área (fundada em 1924 com o nome de Journalism Bulletin), não publicou, durante os seus primeiros 21 anos, “um único artigo sobre teoria da comunicação”.

Mas equivale a dizer, sim, que a difusão do conceito de comunicação ligado ao jornalismo deve-se principalmente aos americanos, assim como lhes é devida a difusão de inovações técnicas neste setor para o resto do mundo. Ainda hoje, Calhoun, presidente do Conselho de Pesquisa em Ciências Sociais dos Estados Unidos desde 1999, vê na comunicação “o campo mais importante para o estudo de muitas dimensões-chave das mudanças sociais”, com uma notável diversidade de linhas de pesquisa, mas que “ainda não desenvolveu maneiras fortes o suficiente para integrar e se beneficiar dessa sua diversidade”.

A palavra “campo” não tem aí como referentes a produção e o consumo de jornalismo, e sim o espaço acadêmico de reflexão e constituição de um saber positivo sobre a comunicação. Apesar de sua importância social, o jornalismo é tão só uma parte desse campo, que recobre uma variedade de outras práticas, além dos problemas atinentes ao laço coesivo das sociedades humanas. Restringir-se ao jornalismo oitocentista – que permanece colado ao sistema de produção e distribuição de informações – é reduzir esse escopo teórico.

Em outras palavras, a questão corporativa vem toldando durante muito tempo o problema conceitual desse campo de conhecimento. E isto não é exclusivo da comunicação. Mais de um scholar estrangeiro da sociologia pôde observar que a excessiva concentração de esforços na formação profissional (com vistas à realização de pesquisas de opinião, surveys empresariais etc.) tem consequências danosas para a reflexão de longo alcance sobre o campo disciplinar, portanto, para a produção da própria sociologia enquanto forma histórica de intervenção intelectual na sociedade.

Gestão logotécnica

Reinterpretado como “território livre” da cidadania contemporânea, o consumo expande-se hoje no quadro confortável (sem conflitos, ao contrário do que costuma ocorrer no plano dos direitos reais ou daqueles ligados ao trabalho) da inserção dos indivíduos no mercado, neutralizando ou pasteurizando a dinâmica tensional inerente ao jogo democrático da cidadania ativa, portanto abrindo o caminho sociopolítico para a pasteurização do jornalismo. É bom lembrar que, ao redigirem a Constituição dos Estados Unidos, os fundadores daquela nação garantiram já na Primeira Emenda (Amendment I), os direitos de liberdade de expressão e liberdade de imprensa, ao lado de quatro outros, por reconhecerem a tensão comunitária da diferença entre sociedade e Estado. Tensão, aliás, que vem se exasperando nas ruas do Brasil desde junho passado, inclusive com o ensaio de meios próprios de comunicação.

Mas, além do economês, o que esperar de um paquiderme burocrático como o Ministério da Educação solto na solidão do planalto? Nem sequer os doutos do Supremo Tribunal Federal parecem ter entendido alguma coisa do fenômeno comunicacional. As recentes diretrizes curriculares do MEC que separam o jornalismo da Comunicação, isolando-o ao modo de uma ilha sem pontes, constituem um caso exemplar de contramão ao mesmo tempo cognitiva e profissional.

A metáfora geográfica comparece aqui para sugerir como oportuna a leitura de um famoso poema sobre um análogo de “ilha”, o Monte Lu, composto por Su Shi, tido como um dos poetas e ensaístas chineses mais influentes durante a Dinastia Song, no século 11. “Nós não conhecemos a verdadeira face do Monte Lu porque estamos todos dentro”, diz um dos versos.

O acidente geográfico metaforiza a especificidade dos locais em que acontecem os fatos históricos. O poema chinês pretende indicar que a mera descrição do Monte Lu é insuficiente para compreendê-lo, sendo imperioso abrir-se para os diferentes ângulos, para a aceitação de diferentes perspectivas. Mas principalmente abrir-se para uma exterioridade, de onde possam provir vozes críticas, não meramente descritivas. Pode-se ampliar a alusão até “regiões” do conhecimento cujos discursos sobre suas práticas específicas, por motivos de reprodução burocrática de sua história, não conseguem ultrapassar a autorreferência interna.

O jornalismo é um desses lugares. Historicamente autolegitimada pelo ideário liberal e hoje pelo discurso da competência técnica, a corporação jornalística – cada vez mais concentrada por estratégias empresariais e fechadas em modelos de negócios – dificilmente se abre para a crítica do “senso comum” profissional, daquilo que o francês Pierre Bourdieu chama de “enorme depósito de pré-construções naturalizadas, portanto, ignoradas como tal, que funcionam como instrumentos inconscientes de construção”.

A esse senso comum se pode aplicar a metáfora do Monte Lu. Assim, uma exterioridade,a exemplo de uma ciência social específica deste campo produtivo e cognitivo, revela-se inaceitável por parte de uma certa parte de jornalistas e outros entes, já que estes produzem um discurso supostamente consciente do sentido de suas práticas, mais adequado à gestão logotécnica daquilo que julgam ser o social. Não é jornalismo reinventado como micro-história do cotidiano, isto é, um jornalismo que reinvente analiticamente o amanhã em seu relato do ontem ou do instante. É uma produção apedêutica, apolítica – absurda, para se retomar o dito de Clemenceau.

E a questão, como a da guerra, é também grave.

***

Muniz Sodré é jornalista, sociólogo, professor da Escola de Comunicação da UFRJ, pesquisador da comunicação e do jornalismo e autor de Comunicação do grotesco (Vozes, 1973) e Monopólio da fala (Vozes, 1977) 

março 27, 2014

A PARTIR DE AGORA - As jornadas de junho no Brasil - Filme Completo

PICICA: Para Christiane Maciel, Francisco Costa Lima, Thiago Roney, Arllen Lira, Luan Duarte e a juventude presente no levante de junho de 2013 em Manaus.


Realizado a partir de entrevistas com ativistas de cinco capitais brasileiras, o material não é apenas uma ferramenta para o debate e a compreensão das Jornadas de Junho, mas também um instrumento de organização da luta política, característica marcante da militância audiovisual de Carlos Pronzato, que também dirigiu, entre outros, "O Panelaço - a rebelião argentina" (2002) e "Carlos Marighella - Quem samba fica, quem não samba vai embora" (2011).

Direção, roteiro e concepção: Carlos Pronzato
Direção de produção: Cristiane Paolinelli
Edição: Ricardo Gomes (Coletivo Das Lutas RJ)
Edição teasers e pesquisas de imagens adicionais: Richardson Pontone
Trilha: Apanhador Só - "Feliz 2014" e El Efecto - "Pedras e sonho"
Realização: Lamestiza Audiovisual

Brasil, fevereiro de 2014.

"Cidades e corpos rebeldes", por Clóvis Gruner

PICICA: "Ao contrário do que afirmaram, em um estranho uníssono, a mídia conservadora e parte de nossos intelectuais à gauche, uma parcela da juventude brasileira está nas ruas há muito tempo. Mesmo o MPL não apareceu do nada: criado em 2005, ele somou forças a outras movimentações sociais, urbanas e rurais. São jovens, principalmente, os que ocupam as ruas para se solidarizar com as comunidades indígenas vitimadas pela truculência desenvolvimentista do Estado e das grandes empreiteiras; para denunciar a violência contra a mulher nas “Marchas das vadias”; protestar contra o preconceito e festejar a liberdade nas “Paradas da Diversidade”. São jovens, principalmente, os que chamam a atenção para as precárias condições de nossas escolas e de nossa educação; que dão as mãos a trabalhadores de diferentes categorias em seus movimentos reivindicatórios; que acusam o nosso racismo; que sofrem no corpo e denunciam corajosamente as muitas e cotidianas formas de violência policial."

 

Cidades e corpos rebeldes

26/03/2014
Por Clóvis Gruner


Por Clóvis Gruner, historiador e professor da UFPR, para o dossiê UniNômade sobre as manifestações



Foi como em um roteiro de filme experimental, improvisado e imprevisível. E o que começou com as mobilizações organizadas pelo Movimento Passe Livre para reivindicar a revogação do aumento de 20 centavos nas passagens do transporte público paulistano, tornou-se a maior onda de manifestações desde a campanha pelas “Diretas Já!”, no começo dos anos 80. Passados alguns meses, olhar para as “Jornadas de junho”, como vêm sendo romanticamente chamadas por alguns, é assumir desde logo uma posição ambígua frente aos eventos.

Se, por um lado não cessam de aparecer análises as mais diversas; por outro qualquer coisa que se diga é provisório. E não apenas porque os ecos das manifestações ainda ressoam, mas porque elas próprias ainda não cessaram completamente. Seguindo caminhos improvisados e imprevisíveis, elas continuam nos confrontos entre PMs e manifestantes; nas intensidades discursivas das redes sociais, virtuais ou não, que denunciam as muitas formas de violência do Estado; nas narrativas autônomas das mídias alternativas, a problematizar as coberturas e os discursos autorizados da chamada “imprensa tradicional”.

Minha contribuição ao debate se dará a partir de duas perspectivas que se entrelaçam. Primeiro, tento situar o lugar das manifestações de junho em uma temporalidade mais longa e estruturada, pensando-a como tributária das rupturas provocadas pelos eventos do quase mítico Maio de 68, tomado aqui como um símbolo que permite sintetizar outros tantos eventos mais ou menos próximos e mesmo anteriores a ele – a participação anarquista na Guerra Civil espanhola, a Primavera de Praga, as grandes manifestações contra a guerra do Vietnã, algumas das formas de resistência às ditaduras na América Latina, etc… Depois, busco compreender as singularidades das manifestações frente às décadas de retomada democrática, iniciada com a chamada “Nova República”, aprofundada e sob certo ponto de vista consolidada pelos três últimos governos.

***

Em um texto escrito em 1950, O que é política, a filósofa Hannah Arendt propõe uma chave de leitura que me interessa explorar rapidamente. A pensadora alemã define a política como um lugar de aparecimento de rostos, multiplicidades, diferenças e intervalos. Rostos porque a política não é feita de abstrações, mas de corpos que falam e agem. Multiplicidades porque não se trata de homogeneizar os sujeitos políticos, mas de fazer explodir singularidades – movimentos, desejos, ações singulares. A multiplicidade faz aparecer as diferenças e os intervalos: a política faz-se também na reciprocidade entre os diversos, que constituem relações naqueles interstícios – nos intervalos ou nos “espaços entre os homens” – que os aproximam sem, por isso, anular-lhes a diferença. “A política”, diz, “baseia-se no fato da pluralidade dos homens”. Ela deve organizar e regular o convívio de e entre diferentes, não de iguais. Razão porque, para Arendt, o “sentido da política é a liberdade”.

Entre os eventos políticos do século 20, o Maio francês talvez seja o que melhor sintetize esse potencial emancipador da política. Ao recusar as utopias clássicas, – o liberalismo de mercado e o socialismo estatizante, – os jovens franceses recusaram, igualmente, a fusão do indivíduo na totalidade (seja o partido, a igreja ou Estado), o mundo burocratizado da política tradicional e as noções tradicionais de militância e revolução. Sabemos que do ponto de vista das demandas mais estritamente institucionais, os estudantes parisienses mal e parcamente conquistaram aquilo que os motivou a ir às ruas, a reforma universitária. Mas o “Maio de 68” transformou por outro lado nossa forma de ouvir música, de ler, de assistir um filme, de trepar etc… Principalmente, alterou radicalmente nossa maneira de pensar e fazer política, nos chamando a atenção para a necessidade de mantermo-nos sensíveis aquilo que é atual no contemporâneo.

Se por um lado é inegável a sobrevivência dos velhos modos de fazer política, também o é a força e a pertinência dos chamados “novos movimentos sociais” que nas últimas décadas pautaram boa parte do debate público – os grupos gays, feministas, negros, indígenas, ambientalistas; as movimentações e ocupações de ruas e edificações urbanas pelos punks; das universidades pelos estudantes; a sublevação dos guetos e bairros periféricos pelos imigrantes e seus descendentes, etc… Em que pese suas muitas diferenças, essas movimentações tem em comum uma aspiração a uma singularização irredutível às muitas tentativas de alinhamento e apropriação de suas reivindicações pelas formas tradicionais de política. Principalmente, uma espécie de recusa teimosa, de inspiração libertária, do Estado e suas instituições.

O filósofo italiano Giorgio Agamben, comentando aquilo que define como “política da singularidade qualquer”, observa que na maioria das manifestações pós-Maio chama atenção a “relativa ausência de conteúdos determinados de reivindicação”. Principalmente, a ausência de uma reivindicação ou um projeto específico de poder ou de controle das instituições políticas tradicionais. Para Agamben, não se trata mais de uma “luta pela conquista ou controle do Estado, mas luta entre o Estado e o não-Estado”, ou seja, a própria humanidade. A ausência de um projeto de poder e de uma identificação imediata com o Estado são duas entre outras características que aproximam estes movimentos: a inexistência de um centro ou direção comuns; a busca constante da autonomia, com a constituição de agrupamentos sem uma direção, hierarquia ou disciplina centralizadas; o diálogo não raro conflituoso com os partidos políticos, mesmo os de esquerda e, enfim, a inexistência mesmo de uma identidade fixa comum ao próprio grupo: o que constitui a comunidade são interesses que não impedem o aparecimento e a pertinência de singularidades.

***

Ora, me parece é este também um perfil possível das manifestações de junho. Em um primeiro momento, o motivo das manifestações foi minimizado, como se se tratasse de coisa pouco importante o direito a um transporte público acessível e de qualidade. Perdeu-se de vista que estavam em jogo alguns direitos fundamentais, entre eles a humanização das cidades, a mobilidade urbana e a ocupação do espaço público. E garantir o acesso ao transporte público é condição fundamental ao exercício destes direitos. À medida que as movimentações ganharam volume e legitimidade, passou-se a martelar, principalmente nas mídias tradicionais, a ideia de que “o gigante acordou”, como se estivéssemos de fato “adormecidos”.

Ao contrário do que afirmaram, em um estranho uníssono, a mídia conservadora e parte de nossos intelectuais à gauche, uma parcela da juventude brasileira está nas ruas há muito tempo. Mesmo o MPL não apareceu do nada: criado em 2005, ele somou forças a outras movimentações sociais, urbanas e rurais. São jovens, principalmente, os que ocupam as ruas para se solidarizar com as comunidades indígenas vitimadas pela truculência desenvolvimentista do Estado e das grandes empreiteiras; para denunciar a violência contra a mulher nas “Marchas das vadias”; protestar contra o preconceito e festejar a liberdade nas “Paradas da Diversidade”. São jovens, principalmente, os que chamam a atenção para as precárias condições de nossas escolas e de nossa educação; que dão as mãos a trabalhadores de diferentes categorias em seus movimentos reivindicatórios; que acusam o nosso racismo; que sofrem no corpo e denunciam corajosamente as muitas e cotidianas formas de violência policial.

Principalmente entre a esquerda governista, criticaram-se as muitas “caras” das manifestações, a falta de foco e de objetivos claros, temeu-se e especulou-se sobre quem se apropriou de que e para que fins. Ora, essa pluralidade e dispersão não apenas são um traço das democracias e das manifestações coletivas, mas foram em grande medida resposta a um crescente distanciamento entre o governo e os movimentos sociais. A estratégia do desenvolvimento a qualquer custo, hoje vigente no país, complementa o esforço por diluir o tema dos direitos humanos nos índices de diminuição da pobreza percebidos na última década. Nada tenho contra as ações sociais patrocinadas pelo atual e pelos dois últimos governos; quaisquer iniciativas que tenham por fim diminuir nossos escandalosos índices de miséria são sempre bem vindas. Minha questão é outra. O combate à pobreza e à miséria, em que pese sua urgência, não esgota o problema. Uma política ativa de respeito aos direitos humanos precisa assegurar a laicidade do Estado e a igualdade dos direitos civis; conduzir firmemente o processo de acerto de contas com nossa ditadura civil militar; respeitar e fazer respeitar as diferenças de gênero, étnicas e religiosas, entre outras; afiançar o acesso à saúde; investir na educação pública e de qualidade, em todos os níveis; combater a violência institucional, dentro e fora das penitenciárias; etc.

Mas o que vemos é o contrário disso: enquanto os critérios pelos quais medimos nosso nível de civilização continuam a basear-se quase exclusivamente no acesso ao mercado e na ampliação do consumo, vemos avançar, com a conivência silenciosa do governo, o ódio contra as minorias, gays em especial; a desocupação violenta de comunidades como Pinheirinho; a militarização dos morros cariocas e o assassinato de moradores da periferia; a proliferação da tortura principalmente nas penitenciárias, presídios e delegacias; a construção de Belo Monte e a violência crescente contra as comunidades indígenas; o uso recorrente do poderio militar do Estado contra os movimentos e manifestações sociais, frequentemente criminalizados etc.

E é nesse aspecto que reside a singularidade das manifestações de junho frente à experiência histórica de que é também tributária, o Maio de 68. Vivemos até recentemente um idílio democrático compreensível em função de nosso passado recente. Por outro lado, renunciamos quase inteiramente a um exercício fundamental para a renovação e o aprofundamento democráticos, que é a crítica à própria democracia. Para as gerações formadas sob o jugo da experiência autoritária, criticá-la parecia implicar o risco de retornarmos aquele estado de coisas de que buscamos nos afastar. Mas a crítica à democracia é necessária não apenas porque faz avançar as instituições e a experiência democráticas mas, no caso específico do Brasil, só por ela conseguiremos lidar com e nos livrar dos entulhos autoritários ainda presentes na nossa cultura e instituições políticas.

Nesse sentido, as manifestações de junho revelam uma sensibilidade capaz de captar demandas que, por dispersas que pareçam, são parte da experiência de uma geração felizmente desacostumada à ditadura e, por isso, mais atenta às fragilidades e contradições da democracia, bem como à necessidade de fazê-la avançar, inclusive confrontando e denunciando suas muitas formas de violências físicas e simbólicas. Além disso, trata-se de buscar construir alternativas de participação e ocupação do espaço público que não exclusivamente as institucionais, e de valorizarmos outros critérios de inserção na vida pública além dos índices de consumo.

Por último, mas não menos importante, as manifestações de junho e seus principais protagonistas – tais como o MPL – nos alertaram para o caráter trágico da política. Se as utopias tranquilizam, a tragédia nos obriga a encarar os desafios e os limites, as frustrações e fracassos, mas também as possibilidades de uma política que se faz voltada ao presente e que recusa as promessas messiânicas de um amanhã de redenção e realizações plenas. Não há futuro, apenas um presente que é o mundo que precisamos encarar. Michel Foucault chamou a isso “heterotopia”; o historiador e crítico de arte inglês T. J. Clark cunhou a expressão “política antiutópica”; eu prefiro chamar essa geração que toma de assalto as ruas de “pós-utópica”. Mas talvez o nome não seja o mais importante, e sim certa clareza que me parece atravessar as manifestações de junho e suas muitas narrativas: a de que a política, pelo menos a que se vive cotidianamente nas ruas, é imprevisível e, como tal, não nos é possível saber o que nos espera logo ali. O futuro, afinal, é indisciplinado. 


Contato do autor: clovisgruner@gmail.com

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Fonte: Universidade Nômade Brasil

"Por uma nova internacional", por Tatiana Roque

PICICA: "A maior potência do movimento desde junho surgiu, a meu ver, nos momentos em que diferentes lutas se encontraram, produzindo mobilizações completamente imprevisíveis.

Uma das maneiras pelas quais o capitalismo codifica as formações sociais, para integrá-las em sua própria dinâmica, é a da comunitarização, ou seja, o isolamento produzido pela fixação de uma identidade. Enxergar as reivindicações como parte da esfera privada de um grupo, problemas que só concernem àquela comunidade. Pode-se até tolerar a dimensão coletiva e política de um grupo social, contanto que ele não se conecte a outras minorias, ou que se conecte pelo exterior, garantindo que as lutas dos outros permaneçam estrangeiras."

Por uma nova internacional

25/03/2014
Por Tatiana Roque


por Tatiana Roque, professora da UFRJ

tatiana
Imagem: Cartas e linhas de erro (ver abaixo)


#Somos todos garis

Black blocs e professores, midialivristras e garis, ocupas e rolezinhos, além de outros encontros explosivos: passe livre, sem-tetos, movimentos autônomos, advogados militantes, militantes partidários em fuga, estudantes, anarquistas, camelôs e outros tantos desgarrados.

A maior potência do movimento desde junho surgiu, a meu ver, nos momentos em que diferentes lutas se encontraram, produzindo mobilizações completamente imprevisíveis.

Uma das maneiras pelas quais o capitalismo codifica as formações sociais, para integrá-las em sua própria dinâmica, é a da comunitarização, ou seja, o isolamento produzido pela fixação de uma identidade. Enxergar as reivindicações como parte da esfera privada de um grupo, problemas que só concernem àquela comunidade. Pode-se até tolerar a dimensão coletiva e política de um grupo social, contanto que ele não se conecte a outras minorias, ou que se conecte pelo exterior, garantindo que as lutas dos outros permaneçam estrangeiras.

Por isso, não dá pra combater o cinismo capitalista entrando no gueto, falando uma língua particular (não é minoria). Por outro lado, também não mobilizamos nenhuma força subjetiva renunciando à singularidade de cada grupo social (não é povo).

É sim, usando muito do gueto, de sua sensibilidade e de seu dialeto próprio, mas para conectá-lo a outras lutas. Assim, podemos inventar um devir autônomo imprevisível – a partir de conexões transversais entre atores diferentes, lutas transnacionais.

O devir-gari das novas lutas poderia ser esse potencial de conexão entre problemas de grupos sociais distintos, mesmo muito distintos do ponto de vista das identidades. Como dizer que a onda laranja dos últimos dias foi uma mobilização específica de um grupo social com fronteiras nítidas? A inteligência, a sensibilidade e o estilo dos garis foi determinante, mas como negar os muitos tipos de apoio, a ação das mídias alternativas e, sobretudo, o clima que já tinha sido preparado pelos movimentos dos últimos meses? E como negar que a singularidade dos garis tenha transformado os #nãovaitercopa que ainda estão por vir?

Um novo internacionalismo que exclui a forma-Estado, construindo práticas de um universal minoritário. A emergência da figura universal da consciência minoritária como devir de todo mundo! (como diziam os compadres Deleuze e Guattari).



Imagem: trabalho de Fernand Deligny com crianças autistas (publicado em livro, ed. Arachneen).

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Fonte: Universidade Nômade Brasil

"Saber pensar, saber fazer", por Sylvia Debossan Moretzsohn

PICICA: As novas diretrizes curriculares para a formação em jornalismo em debate.

DIRETRIZES CURRICULARES DE JORNALISMO

Saber pensar, saber fazer

Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 25/03/2014 na edição 791



A revista Cult deste março publica uma série de artigos, a que chama de “dossiê”, sobre as novas diretrizes curriculares para a formação em jornalismo, com uma chamada de capa que repete a conhecida estratégia discursiva na qual uma aparente pergunta é de fato uma afirmação. Assim, o ponto de interrogação poderia ser perfeitamente eliminado: pelo sentido geral das análises, as diretrizes estabeleceriam “o fim do jornalismo crítico”, ao criarem “um abismo entre teoria e prática”.

Decretar o fim do jornalismo crítico não é pouca coisa. Se a comissão de especialistas do MEC tem esse assombroso poder, supõe-se que, até o momento, em suas quatro décadas de existência, os cursos de Comunicação Social tenham formado legiões de jornalistas muito críticos. Que, entretanto, não devem estar trabalhando em jornal nenhum, ou não devem estar conseguindo exercitar seu senso crítico, a julgar pelos trabalhos acadêmicos que têm por objeto o jornalismo produzido nas grandes empresas de comunicação.

E não só por isso: de acordo com o professor Ciro Marcondes Filho, organizador do “dossiê”, o espírito crítico “se aprende e se desenvolve nos bancos universitários, não nos computadores das redações de jornal”. Pois – é a conclusão lógica – as redações de jornal são inescapavelmente alienantes: pura e simplesmente uma linha de montagem onde não há espaço para pensar.

Mas então não adiantaria formar jornalistas para trabalhar nessas redações. Ou, quem sabe, o que desejamos mesmo é formar críticos do jornalismo, desses que ignoram as condições de produção mas repetem o discurso afiado – e previsível – que rejeita tudo o que vem da “grande mídia”, porque, de alguma forma, o que vem dali serve aos interesses do capital.

Não deixa de ser interessante observar que, nas páginas internas, uma das ilustrações do “dossiê” reproduz capas de Última Hora, Realidade, Pasquim, Jornal da Tarde, Opinião: “jornalismo feito de grandes reportagens e engajamento político”, como diz a legenda. Jornalismo crítico, por suposto. Jornalismo dos anos 1950 aos 80. Produzido por jornalistas em geral autodidatas, de gerações anteriores à criação dos cursos de Comunicação, ou que passaram ao largo deles.

Manobra esperta

Professor titular da ECA-USP, Ciro inicia seu artigo com uma citação de Cláudio Abramo desdenhosa da “meia dúzia de atrevidos em Brasília” que se arrogam o direito de definir o que deva ser um curso de jornalismo. Manobra duplamente esperta, pois acena com um nome referencial no jornalismo brasileiro para pinçar um comentário feito há quase três décadas e legitimar uma crítica à “meia dúzia de atrevidos” da comissão atual. Além disso, sugere que o citado jornalista compactuaria com o ponto de vista geral do autor do artigo.

Pelo contrário. Morto em 1987, Abramo fazia críticas ácidas aos cursos de Comunicação Social de sua época. No livro póstumo que reproduz duas longas entrevistas sobre sua carreira e sobre o jornalismo (A regra do jogo, Companhia das Letras, 1988), são vários os trechos em que ele ironiza a formação dos estudantes. Por exemplo:

“Acho engraçado quando vejo nos currículos disciplinas como Teoria da Comunicação. Não sei o que é isso, não tenho a menor noção do que deva ser. (...) Teoria da Comunicação não tem nada a ver com jornalismo. (...)
“Quanto à semiologia, eu a gozo muito mas a conheço pouco. Uma vez li a tese de um amigo, em Paris, e me diverti muito porque aquilo não tinha sentido algum – todo o trabalho era desprovido de significado, uma algaravia só. Mas a tese acabou aprovada na Sorbonne e esse amigo deve agora estar dando aulas no Brasil” (p. 250).

Em relação às teorias, Abramo era uma metralhadora giratória. Desdenhava também de Adorno, Benjamin, escola de Frankfurt: “tudo lixo”. Logo em seguida emendava: “É interessante, mas não deve substituir o outro conhecimento, a outra cultura” (p. 248). Poderia estar completamente errado – e certamente estava, porque não é possível ignorar a relevância dos estudos sobre indústria cultural ou as contribuições da semiologia, semiótica e análise de discurso para a formação do jornalista –, mas era propositalmente enfático e exagerado, para provocar aqueles que despejavam teorizações sem vinculá-las à realidade concreta da profissão.

Homem culto, no sentido em que essa palavra era empregada antigamente, versado em literatura e artes, membro de uma família que aliava a cultura à militância, Abramo considerava que o jornalista precisava ter “uma formação cultural sólida, científica ou humanista” e a experiência prática do mundo, para poder atuar sobre ele: “É preciso andar na rua e saber que ela é feita de paralelepípedos. Não adianta apenas ler a respeito: é necessário pisar aquele chão, sofrer o sol, saber ver nos rostos da multidão o que é uma pessoa e o que é outra” (p. 113).

Criticava, também, a composição do quadro docente das escolas da época:

“É uma ironia que eu, Janio de Freitas, Mino Carta, Alberto Dines, Washington Novaes e outros não estejamos dando aulas na universidade. (...) a regra geral é a do professor que está ali apenas para fazer carrière universitária. Na verdade, a escola deveria ter aberto a carreira para jornalistas feitos, o que teria dado um outro viés aos cursos de jornalismo” (p. 250).

E, mais adiante:

“(...) os jornais e as empresas têm de lutar para que os cursos de jornalismo melhorem, têm de exigir que os professores sejam mais eficientes e examinados por bancas compostas por jornalistas competentes. É assim que se faz. Concentrando-se uma massa de bons professores, consegue-se fazer uma boa escola” (p. 251-2).

Rejeição ao profissional

Todas essas observações são diametralmente opostas às de Ciro Marcondes Filho, que deplora a tendência à valorização, na avaliação curricular para concurso público, à atuação profissional na área, em detrimento da produção acadêmica. Haveria um privilégio aos “academicamente menos competitivos”. Acadêmico “competitivo”, como se sabe, é aquele que “produz” muito – publica, publica, publica, às vezes o mesmo artigo eternamente reescrito: aquele que segue obedientemente as regras produtivistas da Capes, tantas vezes criticadas em diversos fóruns de pesquisadores, sem que nada de objetivo se tenha feito até agora para alterar essa situação.

As escolas – pelo menos as públicas e algumas de grande tradição no ensino privado – podem ser ainda precárias, mas melhoraram muito nas últimas duas décadas, e um dos grandes avanços foi a possibilidade de acolher professores oriundos do meio profissional, capazes de orientar a prática laboratorial, que evidentemente pressupõe experimentação, não simplesmente a reprodução de modelos. Mas, para orientar experimentações, é preciso saber fazer.

Pelo contrário, Ciro considera que “não são os profissionais do jornalismo que devem formar novos jornalistas”.

Com tantas divergências de fundo, é no mínimo curioso que o professor tenha resolvido abrir seu artigo com a referência ao renomado jornalista.

Mais curioso ainda é ler que “as escolas de jornalismo hoje em dia existem basicamente para dar emprego a jornalistas”. A substância do argumento se revela quando pensamos que, nesse caso, as escolas de engenharia existiriam para dar emprego a engenheiros, as de medicina, a médicos, e assim por diante.

Polêmica antiga

Parece bem evidente que a polêmica em torno das diretrizes – que não é nova, a rigor é tão antiga quanto a própria criação das escolas de Comunicação, e se acentuou há 15 anos, quando começaram as discussões a respeito da avaliação dos cursos – é uma luta política pela ocupação de espaços no meio acadêmico, indissociável da disputa sobre o que seja o jornalismo.

O documento aprovado pelo MEC é uma leitura penosa, que tropeça numa profusão de notas de rodapé, às vezes a cada palavra. Apresenta justificativas teóricas contraditórias, que afirmam a existência de uma nova concepção de jornalismo – não muito bem definida –, assinalam mudanças fundamentais ocorridas com a internet mas reafirmam o jornalismo como profissão aparentemente nos mesmos moldes de sempre.

Do ponto de vista da formação, ignora a hipótese de desenvolvimento de uma carreira acadêmica: aponta exclusivamente a via “profissional” para o jornalista. Talvez por isso, circunscreve a “trabalhos práticos de cunho jornalístico” os TCCs, descartando a hipótese de desenvolvimento de monografias de cunho teórico, o que é completamente inaceitável. 

Entretanto, isso não autoriza a dizer, como afirma o organizador do “dossiê” da Cult, que as diretrizes desvinculam “a formação do jornalista da cultura científica e humanística da área da comunicação”. No “eixo de fundamentação contextual”, o documento informa o objetivo de “embasar o conhecimento das teorias da comunicação, informação e cibercultura, suas dimensões filosóficas, políticas, psicológicas e socioculturais”, etc. Já o “eixo de formação humanística” visa a “capacitar o jornalista a exercer a sua função intelectual de produtor e difusor de informações e conhecimentos de interesse para a cidadania, privilegiando a realidade brasileira, (...) suas raízes étnicas, (...) cultura popular, crenças e tradições, arte, literatura, ciência, tecnologia” e assim por diante.

Ausência de debate

As suspeitas em relação ao sentido das diretrizes decorrem, provavelmente, do clima que separava os dois grandes grupos de professores desde o início da polêmica sobre a avaliação dos cursos: os que pretendiam estabelecer o jornalismo como curso específico e os que desejavam mantê-lo como habilitação da área de Comunicação Social. Na época, entre os que defendiam a autonomia, houve quem comparasse os profissionais a um computador: bastava “ligar na tomada e começar a trabalhar”. Isso, sim, representava o cancelamento de qualquer sentido crítico na formação do estudante.

Recordei esse comentário no início de 2009, numa crítica à condução dos debates – melhor dizendo, à falta de debates –, quando a comissão de especialistas esteve no Rio para uma reunião com professores e estudantes (ver “Duas surpresas na audiência do MEC“).

No “dossiê” sobre as diretrizes publicado agora, José Arbex Jr., jornalista e professor na PUC-SP, elogia o entendimento do ensino do jornalismo como campo específico, “que não deve e não pode ser diluído na geleia geral da Comunicação Social”, mas critica a orientação restritiva, voltada para “práticas adequadas às necessidades das grandes empresas e ao ‘mercado’”, o que esvaziaria “qualquer possibilidade de reflexão crítica”.

Na verdade, a perspectiva crítica dependerá, sempre, da qualidade do corpo docente e das demandas dos alunos. Mas a crítica principal é à falta de debate: Arbex lamenta que a comissão não tenha sequer considerado as propostas da Confecom, a Conferência Nacional de Comunicação, também realizada em 2009, “preparada por audiências públicas realizadas em 27 unidades da federação, envolvendo diretamente 30 mil pessoas”. É um importante chamado à realidade concreta: “O ensino do jornalismo não ocorre em qualquer época e numa localidade abstrata, mas no início do século 21 e num país chamado Brasil”.

Arbex condena, também, o nível de generalidade na descrição do quadro em que se pratica o jornalismo no país, sem qualquer menção ao monopólio da comunicação por meia dúzia de famílias e “às relações promíscuas entre os ‘donos da mídia’, os políticos e os grandes proprietários de terras, indústrias e sistema financeiro”. Esse nível de generalidade estaria evidente na escolha do enfoque teórico adotado: “Por exemplo, ao citar uma afirmação de Manuel Castells segundo a qual na ‘era da Informação (...) os meios de comunicação não são os detentores do poder’. Qualquer cidadão que conheça minimamente como funciona a esfera política brasileira terá que qualificar muito cuidadosamente essa afirmação”.

Fim da mediação (e do jornalismo)

Uma avaliação mais precisa e fundamentada sobre o papel do jornalismo no contexto da internet seria necessária para desfazer alguns equívocos que vêm se alastrando no meio acadêmico e entre militantes “midialivristas”. Bem a propósito, a Cult destaca em sua capa a entrevista com a professora Ivana Bentes (“Respeitosamente vândala“), ex-diretora da ECO-UFRJ, que aparece sorridente fazendo o gesto típico de alguém que manda os outros tomarem nas partes – e aqui não se sabe se ela se dirige aos leitores ou a “tudo isso que aí está”. A professora critica as diretrizes do MEC, que classifica de “quase tragédia”, fruto de um pensamento retrógrado e “corporativista”. Condena a manutenção da “mística da excepcionalidade da atividade jornalística”, ou seja, a preservação do papel do jornalista como mediador, como se esse papel não fosse cada vez mais necessário na algaravia das redes, para que possamos, todos, manter algum referencial de credibilidade em meio a tantos boatos, manipulações, montagens, fraudes e inconsistências que circulam no mundo virtual.

Pelo contrário, Ivana desdenha do “quê, quem, como, onde”, como se o respeito às informações elementares para a compreensão do que quer que seja decorresse do adestramento da “formação fordista”. E afirma, como tantos entusiastas do “fim do jornalismo”, que a mídia somos nós. “Odeia a mídia? Torne-se mídia!”

Sim, torne-se mídia e vá tentar apurar alguma coisa: crimes cotidianos como o da mulher que foi arrastada presa a um camburão, crimes financeiros, o contexto em que se deflagram greves, a situação dos hospitais e do transporte público. Vá apurar, porque jornalismo não existe sem apuração: quê, quem, como, onde, quando, por quê.

A não ser que “tornar-se mídia” signifique sair por aí dizendo o que der na telha.

Insistindo no óbvio

Mas talvez seja: um dos professores entrevistados para o “dossiê” sobre as diretrizes defende a destruição do “mito” de que o jornalista deva ser fiel aos fatos, pois o jornalista “é um produtor de sentidos para o mundo”.

Deveria ser óbvio que o jornalismo se distingue de outras atividades de comunicação justamente por esse compromisso com a objetividade – o respeito à verdade factual, como se diz. O que não quer dizer que deva se ater aos fatos, mesmo porque isso é impossível: todo relato carrega consigo uma interpretação. Mas uma coisa é desejar ater-se aos fatos, outra é ser fiel a eles. Jornalismo é, com certeza – e como todo discurso –, produção de sentido, mas precisa basear-se em fatos.

Toda escola, independentemente de seu grau e de seus objetivos, deveria existir para ajudar a formar cidadãos com autonomia intelectual. Os cursos de jornalismo, ou de Comunicação Social com habilitação em jornalismo – isso, a rigor, tanto faz –, existem para formar cidadãos com essa autonomia, que pretendem exercer a profissão de jornalista. Claro, no meio do caminho podem mudar de rumo, podem decidir seguir a carreira de pesquisadores: é uma opção. Mas não se pode perder de vista o objetivo principal: não se trata de formar “jornalistas teóricos” ou “teóricos do jornalismo”, mas jornalistas de fato, capazes de exercitar seu espírito crítico na prática diária da profissão, o que é certamente a tarefa mais difícil.

Para isso é preciso saber pensar, mas também saber fazer.

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Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

Fonte: Observatório da Imprensa

março 26, 2014

Peter Cohen - Homo Sapiens 1900 (Um documentário sobre a Eugenia)

PICICA: Um documentário fascinante sobre a Eugenia. Veja o documentário e concorra a prêmio: um doce de cupuaçu japonês para quem identificar quem era o psiquiatra que queria introduzir nas políticas públicas do Amazonas a eugenia psiquiátrica, e qual foi o governador que rechaçou a pretensão higienista.


Peter Cohen - Homo Sapiens 1900

"A Grande Beleza: O Vazio e a Cosmética do Pós-Moderno", por Hugo Albuquerque e Isabella Eid

PICICA: "A Grande Beleza traz a carga dramática, um ar de decadência elegante que é, certamente, uma das formas de se enxergar o momento europeu. É a decadência vista de dentro, não do continente, mas do ponto de vista do europeísmo na forma em que ele tomou no “fim da História”. Se a História acabou e não chegamos à utopia, é certo que o futuro faliu “conosco” dentro. E o “conosco” certamente se refere aos europeus, rifados neste mundo cheio de turistas asiáticos, consumidores árabes muçulmanos e assim por diante – que aparecem às revoadas em cenas específicas. É possível sentir um fundo melancólico, comum a outras obras recentes como Um Castelo na Itália de Valéria Bruni Tedeschi, também de 2013 – a Europa não mais se pertence, a desterritorialização promovida pela globalização arrancou o solo histórico europeu." 

A Grande Beleza: O Vazio e a Cosmética do Pós-Moderno



Por Hugo Albuquerque e Isabella Eid,

Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, o italiano A Grande Beleza de Paolo Sorrentino (2013) é um belo, vibrante e inquietante espetáculo estético que lança questões importantes sobre a pós-modernidade e a Europa atual – além de apresentar algumas respostas que, antes de tudo, merecem ser entendidas. O protagonista, Jap Gambardella (Toni Servillo), é um escritor sexagenário, uma versão dândi do homem (pós-)moderno: um eu central que é fio de ligação para inúmeros retalhos de memórias, circunstâncias e sensações em um mundo no qual o vácuo e o nada se tornam dolorosamente presentes; autor de apenas uma única – e aclamada – obra publicada há décadas, ele está sempre confrontado com o fato de não ter escrito mais nada, enquanto promove festas de arromba, ajuda amigos falidos e trabalha como jornalista cultural.

A Grande Beleza traz a carga dramática, um ar de decadência elegante que é, certamente, uma das formas de se enxergar o momento europeu. É a decadência vista de dentro, não do continente, mas do ponto de vista do europeísmo na forma em que ele tomou no “fim da História”. Se a História acabou e não chegamos à utopia, é certo que o futuro faliu “conosco” dentro. E o “conosco” certamente se refere aos europeus, rifados neste mundo cheio de turistas asiáticos, consumidores árabes muçulmanos e assim por diante – que aparecem às revoadas em cenas específicas. É possível sentir um fundo melancólico, comum a outras obras recentes como Um Castelo na Itália de Valéria Bruni Tedeschi, também de 2013 – a Europa não mais se pertence, a desterritorialização promovida pela globalização arrancou o solo histórico europeu.

Mas antes de qualquer julgamento, ou acima de qualquer tentativa de julgar, é preciso entender. E a persona de Jap, desenhada por Sorrentino, ainda que acuse o estado da arte do paradigma [de supremacia] europeu é uma entidade trágica – o que torna a película trágica, mas não pelos motivos que o autor dela talvez desejasse. Não é a tragédia da cultura e da civilização europeia face à invasão dos bárbaros, da passagem do tempo em que a doce foi a vida – quando Jep e uma de suas musas passa do lado da Fontana de Trevi, um marco óbvio de Roma e do cinema italiano – , mas a da própria condição trágica em si de estar nessa situação, precisando apelar, talvez inconscientemente para esse recurso, para essa muleta.

Há, contudo, algo de relevante quando o filme escapa à Europa, e que interessa, quando ele aporta no pós-moderno em si. E aí, ele passa a interessar mais nas linhas do que nas entrelinhas. É a bem desenhada expressão do kitsch pós-moderno, feito de baladas tecno, da miscelânea estética pronta à “surpreender” – tanto que resta absolutamente previsível –, do torpor. E aí poucos filmes foram tão bem-sucedidos na exposição estética dessas formas. É difícil sair do cinema sem a sensação de termos nos dado conta do óbvio; antes de dar a pensar, algo se faz sentir, mas é possível criar experiências que estejam no sensível em um grau maior: e aqui, depois de se deparar com as festas incrivelmente animadas e vazias, da alegria triste do nosso tempo, é impossível não se dar conta de quantas situações parecidas não vemos em qualquer parte: festas de formatura, baladas, carnavais. Pura casca sem conteúdo.

Difícil não lembrar também de uma obra como O Homem sem Conteúdo, de Giorgio Agamben, que já no início dos anos 1970, dissecando “a estética moderna” já antevia o aprofundamento de uma produção artística desprovida de carne, um objeto morto produzido pela subjetividade absolutamente livre de “um artista”. É certo que Agamben talvez entenda a estética com uma cosmética, mas superado esse ponto, é exatamente essa sensação que se tem quando nos deparamos, nessa película, com o vazio aleatório da performance de um artista que, nua, choca sua cabeça contra as paredes de uma ruína.

Enquanto isso, Jap se vê engolfado pela presença de presenças femininas fortes; uma recém-falecida ex-namorada, que sempre o amou -- apesar dele só ter descobrido isso após a morte dela -- torna-se objeto constante de suas lembranças; a filha de um amigo (Sabrina Ferilli) que se dedica a ser stripper de luxo e a quem este lhe confia os “cuidados”; uma velha conhecida de círculo intelectual que lhe desafia por sua inércia artística.

Em duas cenas, temos um complemento interessante: a editora de Jep, uma simpática anã, lhe serve uma sopa quando lhe trata pelo diminutivo; indagada do porquê daquilo, ela responde sobre a importância dos amigos fazerem uns aos outros se sentirem crianças novamente; no outro flanco, quando depois de uma de suas festas, Jep confessa que não escreveu mais nada porque “nem Flaubert foi capaz de escrever sobre o Nada”. O devir-criança e um pessimismo niilista aparecem lado a lado no paradoxo constitutivo de uma Europa, uma Itália e um tempo na encruzilhada.

No fim, aparecem um pomposo cardeal papável e uma centenária missionária considerada “santa”, os quais trazem o filme para a zona das respostas, ou da tentativa de fazê-las; e elas apontam, de um lado, para crítica à decadência da Igreja pelo abandono da espiritualidade em detrimento da glória mundana na figura do cardeal e, por outro lado, para o valor da espiritualidade “verdadeira” na forma de uma volta às “raízes” – que é a única coisa que a velha monja diz comer, justamente por “saber da sua importância”.

Cabe apontar, quanto a esta aura tradicionalista que envolve a zona de respostas do filme, que a estética do homem, enquanto maioria, é vítima do retorno do Mesmo. Explica-se: O ser do homem médio racional, desapegado de qualquer elaboração cultural, ou de qualquer manifestação sensível, equivale ao espírito majoritário que norteia, também, o homem pós-moderno – flashs, luxúria, música alta, luzes, dinheiro, dinheiro!  --, ambos possuem um liame secreto e mais potente do que parece.

Se seguíssemos essa lógica cíclica, não seria impossível antever a sucessão de uma sociedade voltada a preservação da tradição, da família e da religião, a tendência à estrutura simples ou à ilusão da pulsão de morte como resposta ao exaurimento hedonista -- exaurimento este como uma das possibilidades do Moderno.

O filme aponta  para esta reação como uma saída, mas não deixa de mostrar outro aspecto: o retorno da humanidade, da paixão, do sensível. Se analisarmos a escola romântica, verificamos que esta representou uma volta de valores tradicionais e medievalistas -- o herói burguês perfeito, forte, lindo e corajoso e honesto -- mas também, paradoxalmente, da paixão e do singelo. E isso, apesar dos pesares, isso se aplica aqui, ao mesmo tempo em que ele se fecha, também se abre a algo pré-moderno que resiste ao pós-moderno -- e mesmo decidindo pela captura no final, a questão é que aqui é deixado um em-aberto que tem lá sua potência.

No fim, no entanto, não há como sublinhar a conclusão definitiva: em um mundo vazio, nos quais as certezas, incontestavelmente, se chocaram no rochedo, a resposta final seria a religião, a tradição e a privação como âncora necessária – algo capcioso, sobretudo em um momento no qual um Putin reconstrói a Rússia justamente calcado nesses valores, isto é,  se apresentando como condutor de um reduto conservador face a um mundo em caos. Se é isso que nos resta nessa ida para o futuro, o que será de nós? Como ser felizes se a solução ao alcance seria, apenas e tão somente, um refúgio interior e deslocado no passado? 

Fonte: O Descurvo