dezembro 30, 2015

A morte e a morte da esperança equilibrista. POR Carla Rodrigues (BLOG DO IMS)

PICICA: "Em cartaz no Festival de Cinema do Rio, o documentário Betinho – a esperança equilibrista, com direção de Victor Lopes, é um pequeno grande filme. Pequeno, porque toda e qualquer tentativa de dar conta do personagem em que se transformou o mineiro Herbert José de Souza estará sempre aquém da tarefa. Nascido hemofílico no sertão de Guimarães Rosa, na pequena Bocaiúva, criado em torno de presídios, hospitais e funerárias em Belo Horizonte, ator e testemunha de dezenas de episódios políticos marcantes na história do país, Betinho carregou pela curta e intensa vida inesgotáveis paradoxos." 



A morte e a morte da esperança equilibrista

POR Carla Rodrigues Carla Rodrigues | 07.10.2015




Em cartaz no Festival de Cinema do Rio, o documentário Betinho – a esperança equilibrista, com direção de Victor Lopes, é um pequeno grande filme. Pequeno, porque toda e qualquer tentativa de dar conta do personagem em que se transformou o mineiro Herbert José de Souza estará sempre aquém da tarefa. Nascido hemofílico no sertão de Guimarães Rosa, na pequena Bocaiúva, criado em torno de presídios, hospitais e funerárias em Belo Horizonte, ator e testemunha de dezenas de episódios políticos marcantes na história do país, Betinho carregou pela curta e intensa vida inesgotáveis paradoxos.


O jovem que nasceu destinado a morrer cedo viveu muito, mesmo tendo partido meses antes de completar 62 anos, vítima de complicações de uma aids à qual sobreviveu 10 longos anos depois de ter enterrado os dois irmãos também hemofílicos. Betinho – a esperança equilibrista também é um grande filme pelo que recupera da militância de Betinho em favor de uma nova forma de exercício democrático ainda não realizado na história da passagem da ditadura militar ao governo civil. Se a hemofilia parece uma condição cada vez mais rara, o mesmo pode se dizer de personagens como Betinho, cuja esperança equilibrista embalou a campanha pela anistia na voz de Elis Regina e nos versos de Aldir Blanc e João Bosco.

“Nós queríamos implantar o socialismo e a justiça social no Brasil. Era só isso que a nossa geração queria”, diz ele a certa altura, em imagens de arquivo muito felizes na captação de um Betinho absolutamente à vontade na sua casa em Itatiaia, tranquilo, seguro, cioso de que fazia ali um balanço final desta combinação vida-obra que o marcara desde sempre. O filme faz lembrar Geração Betinho, livro em que um de seus melhores amigos, Luiz Alberto Gomez de Souza, contextualiza o protagonismo de Betinho no conjunto de uma geração cujo propósito de vida era necessariamente público e coletivo. Ao retirar de Betinho um papel de herói solitário de uma trajetória única, Gomez de Souza marca Betinho como parte de um grupo de pessoas que, em 1963, para fundar um movimento político revolucionário – a Ação Popular – , passou um carnaval em Salvador redigindo um documento base discutido coletivamente e escrito pelo Betinho: “A Ação Popular é a expressão de uma geração que traduz em ação revolucionária as opções fundamentais que assumiu como resposta ao desafio da nossa realidade e como decorrência de uma análise realista do processo social brasileiro na hora histórica que nos é dado viver”.

Quando escrevi Betinho – sertanejo, mineiro, brasileiro (Planeta, 2007), sabia que qualquer biografia sobre ele ficaria aquém do personagem e de sua complexidade. Quando assisti Betinho – a esperança equilibrista, voltei a pensar no problema desta impossibilidade de dar conta do personagem a partir de algumas camadas de leitura que o filme proporciona ao espectador. Numa primeira camada, o que se vê na tela é o Betinho herói, guerreiro, um indivíduo extraordinário, o que determinados depoimentos terminam por reforçar. Numa segunda camada, falas de filhos, viúva e ex-mulher ajudam a compor, ainda que rapidamente, Betinho como uma pessoa qualquer, carregado das dificuldades emocionais que atravessam todo sujeito, histórico ou não. É numa fala dele que esta característica está mais presente: “Criou-se a ideia de que eu não erro. Mas eu também cometo erros”, admite, ele mesmo disposto a desmontar a armadilha de uma imagem do santo guerreiro.

Na terceira e, do meu ponto de vista, mais interessante camada do filme, há uma importante recuperação de imagens de arquivo que, reunidas em torno de Betinho, configuram uma maneira de contar a história recente do país. Do golpe militar de 1964, simbolizado pelo incêndio na sede da UNE, na Praia do Flamengo (“Ali eu percebi que o Brasil nunca mais seria o mesmo”), às imagens da campanha pela Anistia, embalada pelo hino encomendado para o irmão do Henfil, passando pelas imagens do armazém da cidadania lotado de cestas básicas a serem distribuídas no Natal sem Fome e pela marcha em defesa do impeachment do presidente Collor em Brasília, há uma narrativa de um país que não perdeu apenas a figura de Betinho, cuja morte já tem quase 10 anos, mas perdeu principalmente essa esperança equilibrista que buscava na democracia direta um mecanismo de aprimoramento do sistema democrático brasileiro e uma crítica ao poder representativo.


Há uma compreensão política de que o fim das grandes lideranças carismáticas acontece no mesmo momento que em se encerram também as possibilidades das grandes narrativas. Nesse aspecto, Betinho é ao mesmo tempo o último líder carismático e o primeiro a perceber e propor, revestida de campanha contra a fome, uma participação popular direta que eliminava intermediários e representantes. “Eu sou só o animador”, diz a certa altura do filme. Claro que Betinho foi muito mais do que um animador da Ação da Cidadania, mas só se destituindo do papel de líder podia indicar outra perspectiva democrática que não passasse pelas estruturas representativas formais. A recusa ao Ministério da Fome, à filiação partidária e a qualquer cargo público fazem dele um personagem único, considerando que nos últimos 20 anos muitos movimentos sociais foram sendo cooptados pelo aparato estatal, ganhando em financiamento e sobrevivência e perdendo em possibilidades de crítica. Morreram, e isso o filme mostra exemplarmente, as chances prometidas pela esperança equilibrista.



Carla Rodrigues

Carla Rodrigues é professora de Ética do Departamento de Filosofia da UFRJ. Fez especialização, mestrado e doutorado em Filosofia na PUC-Rio e pós-doutorado no IEL/Unicamp. É coordenadora do laboratório de pesquisa Escritas - filosofia, gênero e psicanálise.

Fonte: BLOG DO IMS

12 FILMES EUROPEUS IMPERDÍVEIS. Por Ana Vasconcelos Negrelli (OBVIOUS)

PICICA: "Os filmes europeus são conhecidos por não serem muito conservadores. Muitos são ousados, complexos, polêmicos, instigantes e imprevisíveis. Os 12 filmes da lista estão entre os que se enquadram numa dessas definições, mas todos tem algo em comum: são imperdíveis!" 


12 FILMES EUROPEUS IMPERDÍVEIS


Os filmes europeus são conhecidos por não serem muito conservadores. Muitos são ousados, complexos, polêmicos, instigantes e imprevisíveis. Os 12 filmes da lista estão entre os que se enquadram numa dessas definições, mas todos tem algo em comum: são imperdíveis!

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Os 12 filmes abaixo estão entre aqueles que podemos denominar de ousados, complexos, polêmicos, instigantes e imprevisíveis. Cada um possui pelo menos uma dessas características, mas todos tem algo em comum: são imperdíveis.

Não estão em ordem cronológica, nem de preferência.
Assistam todos. Vale a pena!

1. PERDAS E DANOS 

Nacionalidade: Reino Unido / França
Com forte conotação erótica, o filme dirigido por Louis Malle conta a história de Stephen Flemming e Anna, interpretados por Jeremy Irons e Juliette Binoche. Ele um político conservador do alto parlamento inglês e ela a noiva do seu filho. Os dois se envolvem num tórrido romance proibido. Anna não quer deixar o futuro marido, nem Stephen quer um escândalo na sua carreira, mas a forte atração sexual que sentem um pelo outro não permite que eles se desliguem, mesmo conscientes de que seus atos serão devastadores para as pessoas que amam. Um ótimo filme que explora a complexidade humana e mostra que a paixão pode também levar a caminhos sem volta.

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2. OS SONHADORES 

Nacionalidade: França / Reino Unido / Itália
Dirigido pelo aclamado italiano Bernardo Bertolucci, o filme conta a história de três jovens (Michael Pitt, Eva Green e Louis Garrel) que mantêm um ardente romance. O americano Matthew vai para Paris aprender a língua local e conhece Isabelle e Théo, gêmeos franceses, com os quais começa a compartilhar sua paixão pelo cinema. Cada vez mais íntimos, os jovens iniciam uma série de jogos sexuais envolvendo temas do cinema. A história se passa em plena Revolução Estudantil da década de 60.

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3. A VIDA DOS OUTROS

Nacionalidade: Alemanha
Um dos filmes mais bonitos do cinema. Dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck, o filme conta a história de Georg (Sebastian Koch) um dramaturgo que vive na Alemanha Oriental. Apesar de não aparentar ser um perigo ao regime político do país, ele e sua namorada (Martina Gedeck) passam a ser monitorados 24 horas por câmeras escondidas no seu apartamento. O agente da Stasi, escolhido para o serviço de escuta clandestina, é Wiesler (Ulrich Mühe) que, mais tarde, se envolve com a vida do casal e tem um papel fundamental em seu destino. A humanização de Wiesler no decorrer do filme é tocante e o desfecho um dos mais emocionantes do cinema.

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4. O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN 

Nacionalidade: França
Dirigido por Jean-Pierre Jeunet, o filme conta a história de Amélie, interpretada por Aundrey Tautou, desde o seu nascimento até a vida adulta. A morte da sua mãe, as manias do pai e um diagnóstico equivocado de problema cardíaco fazem parte da vida da pequena Amélie. Obrigada a permanecer por muito tempo dentro de casa por conta do falso problema no coração ela cria um mundo paralelo e fantasioso. Porém, adulta, Amélie descobre um novo sentido para a sua vida: ajudar as pessoas a serem felizes através de pequenos gestos. Cativante, lindo e sensível.

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5. TUDO SOBRE A MINHA MÃE

Nacionalidade: Espanha / França
Dirigido por Pedro Almodóvar, o filme conta a história de Manuela (Cecília Roth), uma mãe solteira, cujo seu único filho morre atropelado ao tentar pegar o autógrafo de uma atriz (Marisa Paredes). Sabendo que o desejo do filho era conhecer o pai, Manuela inicia uma jornada de redenção a procura do ex-amante, uma travesti chamada Lola que desconhece a existência do filho. No caminho ela encontra a atriz que seu filho admirava e também uma jovem freira (Penélope Cruz) cheia de problemas. Um dos filmes mais emocionantes de Almodóvar.

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6. ATA-ME

Nacionalidade: Espanha
Mais um de Pedro Almodóvar. O filme conta a história de Ricky (Antonio Banderas) que recém saído de um hospício resolve ir atrás de uma ex-atriz pornô, Marina Osorio (Victoria Abril), conhecida dele. Com ideia fixa na atriz ele invade o seu apartamento para que ela o aceite como amante e marido. Ao recusar tamanha loucura, ela é amarrada na cama por Ricky para aprender a gostar dele, mas diversos imprevistos darão novos rumos aos acontecimentos. É a melhor fase de Banderas. O filme, por sua vez, é irreverente, divertido e, sim, surpreendentemente romântico.

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7. A ONDA

Nacionalidade: Alemanha
Dirigido por Dennis Gansel, o filme se passa em uma escola na Alemanha em que o professor Rainer Wenger (Jürgen Vogel) é convocado para dar aula de autocracia, mesmo sem estar muito disposto para tanto. Então ele resolve inovar em sala de aula ao sugerir aos seus alunos que criem de forma fictícia um governo fascista, cujo nome escolhido é “A Onda”. O “novo governo” criado passa a ter uniforme e uma saudação. A brincadeira começa a se propagar sem controle dando ares de um movimento real e fanático. Quando Wenger tenta dar fim “A Onda”, as coisas se complicam ainda mais. O despertar do torpor mostra aos envolvidos a tênue linha entre o certo e o errado. Essa reflexão é o ponto alto do filme.

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8. SHAME

Nacionalidade: Reino Unido
Do aclamado diretor Steve McQueen, com atuação impecável de Michael Fassbender, o filme conta a história do publicitário Brandon que luta contra o vício em sexo. Os dias de Brandon são uma verdadeira maratona em busca de aventuras sexuais, através de pornografias, prostitutas e outros meios. Então sua irmã (Carey Mulligan) chega de surpresa para passar uns dias com ele, o que acaba por atrapalhar seu estilo de vida. A relação entre irmãos é perturbadora, assim como o filme. Aliás, as cenas de sexo não são nada eróticas, nem excitantes, mas incômodas. Brandon é escravo do seu vício e o sexo não é originário de um processo de sedução, mas da mera necessidade de uma mente em desequilíbrio.

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9. O AMANTE DA RAINHA
Nacionalidade: Dinamarca
Dirigido por Nikolaj Arcel, o filme se passa no século XVIII e conta a história da jovem britânica Carolina Mathilde (Alicia Vikander) que se torna rainha da Dinamarca depois de casar com o perturbado e fragilizado rei Christian VII (Mikkel Boe Folsgaard). Por conta da doença do rei, o alemão Johann Struensee (Mads Mikkelsen) é escolhido como o médico da corte, momento em que se aproxima da rainha. O romance entre o médico e Carolina é retratado no filme, bem como a forma em que o casal, aproveitando-se da doença do monarca, assume o poder e inicia uma reforma no país. É a entrada do Iluminismo no norte da Europa. O idealismo político de Struensee também é muito bem destacado na história. A produção do filme é grandiosa.

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10. ALABAMA MONROE
Nacionalidade: Bélgica
Dirigido por Felix Van Groeningen, o filme conta a história de Elise (Veerle Baetens) e Didier (Johan Heldenbergh) que se apaixonam apesar das diferenças de estilo de vida. Ele é um músico romântico e ela é dona de um estúdio de tatuagem. Mesmo assim o relacionamento floresce e eles têm uma filha, Maybelle (Nell Cattrysse), mas aos seis anos a criança adoece gravemente e os pais não conseguem lidar com a situação. Apesar do tema já ter sido bastante explorado em outros filmes, Alabama Monroe traz uma abordagem diferente sobre a triste situação. Não é um filme sobre superação, mas um filme sobre dor, sobre a maior de todas as dores.

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11. AZUL É A COR MAIS QUENTE 

Nacionalidade: França
Dirigido por Abdellatif Kechiche, o filme mostra a passagem da adolescência até a vida adulta da jovem Adèle (Adèle Exarchopoulos). Adèle é uma garota de quinze anos que conhece e se apaixona por Emma (Léa Seydoux), uma artista plástica de cabelos azuis. As duas vivem um intenso relacionamento, retratado através de fortes cenas de sexo. Contudo, o filme nos fala sobre algo muito mais complexo do que o amor e o sexo entre duas mulheres. O filme nos fala sobre os conflitos, descobertas, escolhas e perdas na juventude. O filme nos fala sobre os percalços do amadurecimento.

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12. A FESTA DE BABETTE

Nacionalidade: Dinamarca
Filme dirigido por Gabriel Axel, conta a história da francesa Babete que fugindo da guerra vai viver numa pacata vila onde arruma trabalho de cozinheira e faxineira na casa de duas irmãs. Após anos de trabalho para a família, Babette ganha um prêmio e resolve preparar um jantar francês que transformará para sempre a vida dos moradores da vila. Não dá para contar muito sem antecipar o filme, mas é imperdível!

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Ana Vasconcelos Negrelli

Somente alguém apaixonada pela arte e por tudo mais que alimenta a alma. .

Fonte: OBVIOUS

Foi o 15M que salvou o Podemos. Por Bruno Cava e Sandra Arencón Beltrán (UNINÔMADE)

PICICA: "No principal debate eleitoral, Pablo Iglesias usou o último minuto para pedir duas coisas. Primeiro, pediu que os cidadãos não se esqueçam da corrupção, dos despejos, do desemprego, dos aposentados, dos cortes da educação, da situação da saúde. E segundo, que sorriam para o 15M, as praças, os ativistas, os desempregados, os aposentados, os pequenos empreendedores[1]. O chamado síntese do líder do Podemos, – que se encerra, justamente, com o Sí se puede, – aponta diretamente ao movimento dos indignados que, desde 2011, deslocou definitivamente o cenário político do país.

Mas em que medida o Podemos e Iglesias, de fato, exprimem a carga democratizante do movimento quinzemaísta? Pelo menos no discurso, naquele minuto crucial, estavam presentes os seus dois momentos-chave. De um lado, a face destituinte, manifestada no grito de praças e passeatas: “não nos representam!”, “não vote neles” e “chamam de democracia mas não é”. Do outro, a face constituinte, a afirmação da alternativa em estado nascente, o “nós podemos”, misto de ilusión (reencantamento) e sua potência, e da disseminação de contrapoderes sociais ante a casta política e financeira. Eduardo Galeano, à acampada da Praça Catalunha, em Barcelona, falava do mundo novo que já pulsa na barriga deste. O escritor uruguaio realçava assim a positividade do 15M: o “sim” maior de reinvenção e desejo, por trás do “não” à corrupção, à velha política e às políticas de austeridade receitadas pela troika[2]." 

Foi o 15M que salvou o Podemos

Por Bruno Cava e Sandra Arencón Beltrán



PODEMOS2015
foto: Estrella Digital



No principal debate eleitoral, Pablo Iglesias usou o último minuto para pedir duas coisas. Primeiro, pediu que os cidadãos não se esqueçam da corrupção, dos despejos, do desemprego, dos aposentados, dos cortes da educação, da situação da saúde. E segundo, que sorriam para o 15M, as praças, os ativistas, os desempregados, os aposentados, os pequenos empreendedores[1]. O chamado síntese do líder do Podemos, – que se encerra, justamente, com o Sí se puede, – aponta diretamente ao movimento dos indignados que, desde 2011, deslocou definitivamente o cenário político do país.

Mas em que medida o Podemos e Iglesias, de fato, exprimem a carga democratizante do movimento quinzemaísta? Pelo menos no discurso, naquele minuto crucial, estavam presentes os seus dois momentos-chave. De um lado, a face destituinte, manifestada no grito de praças e passeatas: “não nos representam!”, “não vote neles” e “chamam de democracia mas não é”. Do outro, a face constituinte, a afirmação da alternativa em estado nascente, o “nós podemos”, misto de ilusión (reencantamento) e sua potência, e da disseminação de contrapoderes sociais ante a casta política e financeira. Eduardo Galeano, à acampada da Praça Catalunha, em Barcelona, falava do mundo novo que já pulsa na barriga deste. O escritor uruguaio realçava assim a positividade do 15M: o “sim” maior de reinvenção e desejo, por trás do “não” à corrupção, à velha política e às políticas de austeridade receitadas pela troika[2].

Quatro anos depois, referenciando-se no 15M, o Podemos ficou em terceiro lugar nas eleições nacionais espanholas, ultrapassando a margem dos 20% dos votos. A votação do Podemos ficou um pouco atrás dos dois partidos tradicionais, Popular (PP) e Socialista Operário (PSOE), e à frente de sua própria versão descafeinada, o Ciudadanos (C’s), uma agremiação fundada em 2005, que promete mudar sem arriscar, sem “aventurar-se” como faz o polemista de rabo de cavalo que não respeita o bom tom. O resultado das eleições do último dia 20 marcou o fim definitivo do bipartidarismo estruturante do Régimen de 1978, o quadro institucional da transição depois do fim da ditadura franquista. O fim do bipartidarismo corresponde, também, ao desencanto diante da falsa polarização entre PP e PSOE. No debate cara a cara, nada indicava com mais clareza o esgotamento dessa polarização do que a troca de acusações e o bate boca entre seus candidatos, Mariano Rajoy e Pedro Sánchez, sem qualquer discordância de fundo.

Enquanto isso, em paralelo, a sociedade experimenta um momento de envolvimento vivo e disseminado com as eleições e a política em geral, de maneira transversal por bairros e diferentes segmentos sociais, independente de participação direta ou não no acontecimento quinzemaísta. Não é difícil perceber que o bate papo saiu da zona de conforto. As conversas têm experimentado uma mudança explícita que é possível reconhecer no cotidiano, no ônibus, na fila do supermercado, nas reuniões de família e amigos, por fora de redes e coletivos politizados, saltando do balcão do bar para ocupar outros espaços.

Há alguns meses, contudo, o trem parecia ter descarrilado de vez para o Podemos. Depois de vários erros estratégicos por conta própria e ter sofrido uma feroz campanha de desconstrução, à direita e à esquerda, o encanto parecia definitivamente quebrado. Muitos apoiadores de primeira hora lhe haviam virado as costas e a ilusión escorrera pelas mãos. Tendo despencado de quase 25% das preferências nas pesquisas no começo do ano, para menos de 14%, o partido liderado por Iglesias parecia fadado a ser apenas mais uma sigla figurante nas eleições gerais de 2015, correndo o risco de ficar atrás de seu gêmeo comportado, o C’s. Como o Podemos revigorou-se? Como funcionou essa impressionante campanha na reta final? Uma religação direta com a indignação do 15M, nesse propósito, foi fundamental.

A remontada, como ficou conhecida a retomada do Podemos, só pode ser explicada se voltarmos alguns meses, para as eleições municipais realizadas em maio deste ano. O 24M de 2015 acendeu a luz amarela para a casta político-financeira que comanda a economia espanhola e europeia, quando Manuela Carmena e Ada Colau se tornaram prefeitas das maiores cidades da Espanha, dois dos principais resultados obtidos pelas plataformas municipalistas baseadas no movimento dos indignados. Ada, 41 anos, militante do movimento da moradia, porta-voz da Plataforma dos Atingidos pelas Hipotecas (PAH), venceu as eleições em Barcelona sem qualquer concessão à velha política representativa. Manuela, por sua vez, juíza aposentada de 71 anos e sem tradição partidária, elegeu-se em Madrid, depois de uma inovadora campanha que ganhou horizontalmente redes[3] e uma aliança final com o PSOE.

Até o 24M, a cúpula diretora do Podemos entendia o 15M como um “significante vazio”. O termo foi sacado das teorias sobre hegemonia e populismo do argentino Ernesto Laclau e se reporta à abertura de uma brecha no horizonte de sentido que rege o sistema político, provocada por crises e convulsões sociais e econômicas. Segundo essa leitura, o 15M de 2011 teria iniciado um processo destituinte da velha ordem representativa espanhola. A partir daí, o 15M passava então a ser atravessado por significados flutuantes e forças dispersas, segundo uma ferrenha digladiação de narrativas em busca da hegemonia discursiva. É como se o 15M passasse a não pertencer a ninguém, um significante em disputa. Caberia ao Podemos, portanto, servir de instrumento político para forjar uma unidade de equivalência entre as várias tendências destituintes do 15M, de modo a levá-lo a seu momento construtivo, à efetiva ocupação do poder. A principal conclusão política a partir dessa leitura laclaulista do movimento do 15M estaria na necessidade de formular uma alternativa de poder diante da crise da representação, isto é, um projeto positivo de ocupação do estado, a fim de responder à crise político-econômica, e impedir que ela venha a ser restaurada pelos poderes constituídos existentes[4].

Tal ênfase na construção hegemônica, de um ponto de vista politólogo, definida como juste ligne do Podemos desde o congresso de Vista Alegre, em outubro de 2014, levou o partido a fazer uma progressiva clivagem entre o momento destituinte (os protestos) e o institucional (as eleições). Esse diagnóstico, aliás, tem sido compartilhado de tempos em tempos pelos críticos do ciclo global de lutas deflagrado com as revoluções árabes de 2010-11[5]. O efeito da avaliação podemita foi, por um lado, aprofundar a crítica de coletivos e ativistas do 15M que seriam voluntaristas, românticos e horizontaloides; por outro, delegar-se a “prerrogativa da estratégia”, ou seja, cindir meios e fins e reivindicar um mandato comissário para vencer as eleições. Dessa maneira, a “máquina de guerra eleitoral” proclamada pelo podemita Iñigo Errejón mais parecia um aparelho de captura e amortecimento do 15M, do que o seu próximo passo necessário. Como consequência, em meados de 2015, ao derreter diante da “desconstrução” pelos adversários, as redes impulsionadas pelo 15M não vieram ao socorro do Podemos.

A vitória de Ada, Manuela e outras representantes das plataformas municipalistas, no entanto, colocou em xeque a linha traçada em Vista Alegre. No 24M, em vez da tese hegemonista/populista, prevaleceu o dito “modelo de Barcelona”[6], de um novo municipalismo[7], quer dizer, formações mais transversais, fragmentárias e contingentes, do que a tentativa de solidificar uma estratégica discursivo-midiática unificada aspirando à hegemonia. Colocando em termos esquemáticos, o arranjo de forças vencedor não consistiu em disputar o centro do tabuleiro em busca das ditas “maiorias sociais”, como pretendia Iglesias e o Podemos, mas ganhar pelas bordas, a partir das minorias, ou melhor, dos devires minoritários – para usar um conceito de Mil platôs (Deleuze e Guattari). Esta divisão pode parecer esquemática demais, mas é pertinente enquanto instrumento prático-teórico: por exemplo, logo depois do 24M, se pôde diagnosticar que “o consenso dirigista está em frangalhos, uma vez que as plataformas municipalistas não se basearam em projetos hegemônicos comandados por cúpulas dirigentes, mas por um efeito sinergético de toda uma ecologia de mobilizações”[8].

A remontada do Podemos aconteceu em meio a dois deslocamentos em relação às práticas pré-24M. O primeiro deslocamento foi, justamente, deixar de lado a supervalorização do discurso populista/hegemonista, que já se mostrou uma hipótese teórica politicamente errada. Na campanha para as eleições de dezembro (20D), Ada assumiu posição na linha de frente da campanha do Podemos, na forma da coligação catalã En Comú Podem, e trouxe as ruas, praças, movimentos diretamente ao primeiro plano[9]. Pelo menos na campanha, cessou a clivagem entre eleição e ativismo, e cessaram as tentativas de assumir um protagonismo estratégico no lugar dos movimentos de luta. Mais do que a figura de Ada, confluíram com Podemos as constelações de grupos e coletivos já existentes, como a PAH, o midiativismo, as mareas. Em vez de conectar-se de maneira abstrata por uma engenharia do discurso, o Podemos se ligava assim à força do 15M através de uma organização de novo tipo, de um “sindicalismo social”[10]. A referência direta às lutas, além disso, foi o principal ponto de diferenciação que Ada mobilizou com grande êxito contra o Ciudadanos[11].

Com tudo isso, a ilusión retomou um sentido material, indispensável para que se produza o transbordamento. Deixou de ser apenas engodo e captura, – o que já tinha dificuldades de seduzir alguém[12], – para preencher-se dos sentidos extravasados pelo 15M que, antes de ser “significante vazio”, é rede de indignações, êxodo. A campanha positiva do Podemos pôde, com fundo real, apelar tanto ao rechaço da casta e da corrupção, quanto a uma nova imaginação sensível, indispensável para a renovação da própria democracia. Não à toa, os teóricos mais agudos sobre o novo momento constituinte por que passa a Espanha expliquem que não se trata exatamente de uma “nova política”, mas de uma mudança do próprio conceito de política, suas fronteiras e conteúdos[13].

O segundo deslocamento da remontada foi na direção da plurinacionalidade, algo inédito para o partido fundado por professores de uma universidade em Madrid. O Podemos traçou alianças com forças das comunidades autónomas abrindo espaço na agenda, por exemplo, para consultas plebiscitárias sobre a própria independência. Além do primeiro lugar na Catalunha, as coalizões de Podemos tiveram bons resultados no País Basco (1º lugar), na Comunidade Valenciana (2º) e na Galícia (2º), todas regiões com relativa autonomia e atuação de forças independentistas.
Sobre o assunto, pensando desde América do Sul, Salvador Schavelzon apontou anteriormente a operação política do Podemos em amortecer e, no limite, neutralizar a pauta plurinacional na Espanha[14]. O antropólogo aponta corretamente como, ao inspirar-se na experiência recente sul-americana, a cúpula podemita realiza uma reductio das práticas complexas do comum e de autonomia, – tão presentes no ciclo de lutas de quéchuas, aimarás e outros grupos indígenas na América andina, – num simples discurso progressista pelo social. A consequência teórico-política desse reducionismo consiste em converter a riqueza cosmopolítica do constitucionalismo plurinacional num multiculturalismo pacificado, a serviço dos projetos neodesenvolvimentistas – repercutindo, por sinal, uma tendência da linha oficialista dos governos desses países. Ademais, esta também pode ser entendida como ainda outra deficiência decorrente de uma tradução malsucedida da “razão populista” de Laclau na Espanha pós-15M, cuja multiplicidade constitutiva indicia antes a plurinacionalidade do ciclo insurgente andino[15], do que sua recuperação “social-progressista”.

Na campanha da remontada, contudo, tudo isso se deslocou. Enquanto o PP se assume abertamente como partido do Rei, o PSOE se mostra um partido inexistente, C´s apresenta uma mudança meramente estilizada; o Podemos parece ocupar, pelo menos como potencialidade, como um instrumento nacional para a realização da plurinacionalidade além do nível regional. Esta é uma questão em aberto. É possível mesmo que, num futuro imediato, a referida abertura termine neutralizada no interior do Podemos, em face de novos acordos realizados desde a cúpula (por exemplo, com o PSOE). A despeito disso, fica o ensinamento que parte da força da remontada se construiu sobre essa tendência, levando o Podemos a mudar posturas. Isto também sinaliza um 15M indomável segundo discursos unificadores à moda nacional-popular. Sucede, portanto, mais um episódio do quiproquó entre os laboratórios de lutas da América do Sul e sul da Europa, duas séries heterogêneas que não cansam de interferir-se em seu desentendimento mesmo.

A consequência imediata da eleição do 20D foi virar de ponta cabeça o sistema representativo espanhol, uma vez que nenhuma força política chegou perto de conquistar maioria. Diante da tentativa de compor um grande bloco de governabilidade, aos moldes de uma Große Koalition, à moda alemã, já desponta a proposta de tomar a conjuntura pelo avesso, do ponto de vista das lutas, para fomentar um pacto pela ingovernabilidade, a fim de explorar as contradições, brechas e medos do poder constituído, nacional e europeu[16]. Impedir, assim, a restauração da troika nos termos de um “extremismo de centro”, uma tarefa que Podemos bem poderá assumir se não cair na tentação de aliar-se a velhas forças políticas e suas agendas. Seu êxito provavelmente dependerá, como indicam o 24M e a remontada ao 20D, do aprofundamento das tendências confluencistas, municipalistas e plurinacionais, em suma, do devir-15M do Podemos.
Bruno Cava (Rio de Janeiro) e Sandra Arencón Beltrán (Sevilha) são organizadores de Podemos e Syriza; experimentações políticas e democracia no século 21 (AnnaBlume, 2015). Os dois participam da rede Universidade Nômade.


NOTAS

[1] https://www.youtube.com/watch?v=_38NtXXDR0Y

[2] https://www.youtube.com/watch?v=mdY64TdriJk

[3] “Diez claves de la #ManuelaManía”, Bernardo Gutiérrez, http://www.yorokobu.es/diez-claves-manuelamania/ . Em português: http://uninomade.net/tenda/dez-pontos-chave-da-inovacao-de-manuelamania/

[4] “O Podemos entre multidão e hegemonia; Negri ou Laclau?”, Bruno Cava, In “Podemos e Syriza; experimentações políticas e democracia no século 21”, São Paulo: AnnaBlume, 2015. p. 123-132. Em espanhol: http://anarquiacoronada.blogspot.com.br/2015/03/podemos-entre-hegemonia-y-multitud.html

[5] Para a contextualização do caso espanhol na crise do capitalismo global e no ciclo global de lutas, “Da crise capitalista à reivenção da democracia na Espanha e na Grécia”, Bruno Cava e Sandra Arencón Beltrán, In “Podemos e Syriza”, op. cit. p. 7-38.

[6] “Piu di Podemos, vince il modello Barcelona”, Loris Caruso, http://ilmanifesto.info/piu-di-podemos-vince-il-modello-barcellona/

[7] “O municipalismo do Barcelona em Comum”, Alexandre Mendes, http://uninomade.net/tenda/o-municipalismo-do-barcelona-em-comum/

 
[8] “Ada Colau e Manuela Carmena: a indignação ao poder”, Bruno Cava, http://www.quadradodosloucos.com.br/5018/ada-colau-e-manuela-carmena-a-indignacao-no-poder/

[9] Le elezioni spagnole le ha vinte Ada Colau”, Luca Cafagna, http://www.dinamopress.it/news/le-elezioni-spagnole-le-ha-vinte-ada-colau

[10] “La remontada di Podemos: la sfida della radicalità democratica e plurinazionale”, Andrea Moresco, http://www.euronomade.info/?p=6396

[11] https://www.youtube.com/watch?v=dCrhmW2LRSI

[12] “Un problema con la ilusión”, Alberto Manconi, http://www.euronomade.info/?p=5794

[13] “Elecciones en España: los efectos de 15M, nuevas formas de pensar el poder”, entrevista com Amador Fernández-Savater, http://anarquiacoronada.blogspot.com.br/2015/12/elecciones-en-espana-los-efectos-de-15m.html

[14] “Podemos, Sudamérica, y la república plurinacional de España”, Salvador Schavelzon, http://www.rebelion.org/noticia.php?id=195069. Em português, In “Podemos e Syriza”, op. cit., p. 91-115, e também: http://uninomade.net/tenda/podemos-america-sul-e-republica-plurinacional/

[15] “Podemos y Latinoamérica, historia de un desacuerdo”, Bruno Cava e Salvador Schavelzon, http://anarquiacoronada.blogspot.com.br/2015/08/podemos-y-latinoamerica-historia-de-un.html?view=classic

[16] “Una politica dell’autonomia per andare oltre l’ingovernabilità”, entrevista com Raul Sánchez Cedillo, http://www.globalproject.info/it/in_movimento/una-politica-dellautonomia-per-andare-oltre-lingovernabilita-intervista-a-raul-sanchez-cedillo/19753

Fonte: UniNômade

A tarefa mecânica da Esquizoanálise. Por Rafael Trindade (RAZÃO INADEQUADA)

PICICA: "Deve-se reforçar o princípio de produção. E sempre lembrando Espinosa, conhecer é conhecer pela causa: como se produz? Conhecer é saber como se produz, ou seja, experimentar é o melhor jeito de maquinar. Aquele que produz sabe por onde andar, sabe experimentar, torna-se sábio. Onde estão suas pequenas máquinas pré-individuais? Onde elas se esconderam? Se apropriaram delas, a tomaram de assalto e você nem percebeu. Corra, ainda dá tempo!" 

A tarefa positiva consiste em descobrir num sujeito a formação ou o funcionamento de suas máquinas desejantes, independentemente de toda interpretação” – D&G, Anti-Édipo, p. 426
Tudo começa na cabeça do pai, que vem antes do filho. Ele desconfia, olha de esguelha: “então você deseja sua mãe!?“. Antes da neurose infantil, a paranoia adulta, “o que ele quer? Onde isso vai dar?“. É preciso proteger os fortes dos fracos, já dizia Nietzsche, Édipo funciona por contágio, ele passa por osmose do quarto dos pais para o berço do bebê, pegamos Édipo de alguém e não encontramos a vacina. Por isso a tarefa destrutiva da esquizoanálise, para desfazer as máquinas edípicas. O esquizoanalista pergunta: afinal, quais são suas máquinas desejantes?

O inconsciente molecular ignora a castração, o desejo ignora pessoas, a produtividade das máquinas desejantes ultrapassam toda forma de representação. Toda tentativa de representá-las é uma desaceleração que impedem sua produtividade. Elas não recusam por recusar, tal escolha mostra a grande velocidade com que produzem, seu processo mecânico é não consciente. Interpretá-las é entendê-las a partir de Édipo, como um conflito originário, e não se dar conta que as máquinas possuem seus próprio trajetos. Não se pode integrar as máquinas desejantes em um modelo fechado de subjetividade, este seria um uso ilegítimo das sínteses conectivas do inconsciente.

Para alcançar a subjetividade lá onde ela se faz, na imanência, precisamos encontrar o modelo de circulação dos objetos parciais, criar zonas autônomas temporárias de subjetividade. Por isso retomamos a pergunta, quais são as máquinas desejantes de cada um? Corpos que se relacionam sempre com os mesmos corpos não variam, não sabem experimentar. Todas as representações, todas as imagens enfiadas goelas abaixo nos impedem de acessar as máquinas desejantes.

Quando se pergunta pelas máquinas desejantes, há um retorno, um passo para trás, onde erramos? Deleuze e Guattari têm um palpite: a tarefa mecânica da esquizoanálise procura reverter todos os usos ilegítimos das sínteses do inconsciente! Abaixo o transcendente! Não mexam com nossas máquinas desejantes sem nosso consentimento. “Esquizofrenizar o campo analítico em vez de edipianizar o campo psicótico” (D&G, Anti-Édipo, p. 409). Conectamos máquinas e fechamos imagens globais, esquecendo que os objetos parciais não são parte de um todo. Criamos disjunções exclusivas, ignorando que o inconsciente articula com facilidade objetos contraditórios. Criamos subjetividades segregativas, bi-unívocas, por todo lado só encontramos papai e mamãe e o ego, perdendo assim o verdadeiro devir, experimentar da diferença.

A tarefa positiva da esquizoanálise é conduzida junto com a negativa. Lembremos de Bakunin, “a paixão por destruir é também uma paixão criativa!”. Afinal, em todos os lugares há perigos escondidos, é difícil escapar dos ideias ascéticos: os psicanalistas são padres, os apresentadores de televisão são padres, os políticos, padres também! Todos procurando suas inocentes ovelhas, todos com um pensamento transcendente, fundado na falta, no medo, na possibilidade ilusória de unidade e satisfação perene. Nos fazem desejar a morte: imagens. O desejo não estará liberado enquanto interpretar e acreditar em imagens.
Talvez haja tão somente uma doença, a neurose” – D&G, Anti-Édipo, p. 422
Deve-se reforçar o princípio de produção. E sempre lembrando Espinosa, conhecer é conhecer pela causa: como se produz? Conhecer é saber como se produz, ou seja, experimentar é o melhor jeito de maquinar. Aquele que produz sabe por onde andar, sabe experimentar, torna-se sábio. Onde estão suas pequenas máquinas pré-individuais? Onde elas se esconderam? Se apropriaram delas, a tomaram de assalto e você nem percebeu. Corra, ainda dá tempo!

O esquizoanalista é um mecânico, sim, é para isso que ele serve, a esquizoanálise é unicamente funcional. As máquinas devem ser desarranjadas e redispostas! Os objetos parciais precisam desfazer seus fluxos fechados e abrirem-se para o fora. Os objetos parciais até agora interpretados como parte de um todo são abertos para possibilidades do fora. Não há uma totalidade por vir, nem perdida. Não há Éden nem julgamento final. O desejo passa pelos órgãos, mas não se fecha em um organismo.
O esquizoanalista não é um intérprete, e muito menos um encenador; ele é um mecânico, um micromecânico” – D&G, Anti-Édipo, p. 448
Somente mecanicamente é que se torna possível descobrir suas máquinas desejantes, seu funcionamento, é preciso apertar e soltar parafusos. A ferrugem das máquinas são as representações que impedem seu livre funcionamento! O que flui? É o desejo, sempre o desejo fluindo pelas máquinas que cortam e conectam. É preciso ficar com os ouvidos atentos, estar à espreita, seguir as linhas de fuga como Alice seguiu o coelho, seguir os índices maquínicos até as máquinas desejantes.

Escapamos da armadilha edipiana, entramos em campo aberto, voltamos a fazer as máquinas desejantes funcionarem, encontramos nosso Corpo sem Órgãos. Deleuze e Guattari querem que cada um descubra em si a natureza dos investimentos libidinais do campo social, a relação com os investimentos pré-conscientes. As máquinas desejantes fazem conexões em todas as direções, elas encontram as saídas escondidas para a repressão do desejo.
As máquinas desejantes constituem a vida não-edipiana do inconsciente” – D&G, Anti-Édipo, p. 513
> este texto faz parte da série: Esquizoanálise <

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Fonte: RAZÃO INADEQUADA

SOBRE: VYGOTSKY, PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA, FORMAÇÃO SUBJETIVA E DESENVOLVIMENTO INFANTIL. Por Clemerson Luís Silva (OBVIOUS)

PICICA: ""o homem é construído a partir das relações sociais” (MOLON, 2011, p. 48)." 


SOBRE: VYGOTSKY, PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA, FORMAÇÃO SUBJETIVA E DESENVOLVIMENTO INFANTIL


"o homem é construído a partir das relações sociais” (MOLON, 2011, p. 48).

1. BIOGRAFIA

Nasceu na cidade de Orsha em novembro de 1968, próxima a Minsk, capital de Bielarus. Viveu maior parte da vida em Gomel, na Rússia. Sua família tinha privilégio financeiro, intelectual e social. “Seu pai era chefe de departamento do banco central de Gomele representante de uma companhia de seguros; Era um homem inteligente, irônico e sério, e sua preocupação com a cultura levou a influenciar a abertura da biblioteca pública de Gomel. Sua mãe, uma pessoa extremamente culta, falava vários idiomas e era apaixonada por poesia, porém, dedicou-se ao lar e à criação dos filhos.” (MOLON, 2011, p. 29). Vygotsky era o segundo filho dentre oito irmãos. 

Nesta família, a educação informal era extremamente valorizada. Seu pai possuía uma biblioteca em casa, que colocava à disposição de todos para leituras individuais e para promover discussões em pequenos grupos, ou seja, a sistematização dos debates intelectuais no âmbito familiar era frequente tanto na hora do chá quanto na presença de um autor (MOLON, 2011, p. 29).
 
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Vygotsky tem influenciado áreas como psicologia e pedagogia em diversos países, embora, segundo La Taille e colaboradores (1992, p. 23), sua obra não tenha grande divulgação pelo mundo devido a falta de tradução dos seus trabalhos. 

Foi pioneiro na formação intelectual. Estudou na Universidade de Moscou, na Rússia, no ano de 1917, sendo leitor voraz das áreas de Linguística, Ciências Sociais, Psicologia, Medicina, Filosofia e Artes. No mesmo ano graduou-se em Direito e Filologia, logo começou lecionar Literatura e Psicologia em Gomel até 1924, ano que também casou-se com Rosa Smekhova, com quem teve duas filhas. 

Enquanto esteve lecionando na cidade fundou a revista literária de Verask. Em 1924, com colaboradores, iniciou pesquisas e estudos voltados à Psicologia do Desenvolvimento, Educação e Psicopatologia. Entre 1925 e 1934 lecionou Psicologia e Pedagogia em Moscou e Leningrado (Rússia). O teórico começou ter problema de saúde a partir de 1920: tuberculose era a doença.
Segundo Molon (2011):

“durante o período de 1924 a 1934, Vygotsky apresentou um ritmo de trabalho muito intenso, produzindo quase 200 publicações e se envolvendo em inúmeros projetos de trabalho em várias cidades. Mas toda essa vitalidade não superou uma nova hemorragia provocada pela tuberculose. Em 2 de junho foi hospitalizado e em 11 de junho de 1934 morreu, aos 38 anos. Seu enterro ocorreu no cemitério de Novodevechii, em Moscou” (p. 34). 
 
2. PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA E A CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE

Psicologia Sócio-Histórica é a teoria criada por Vygotsky que, através dos seus estudos físicos, psicológicos e comportamentais, afirma que o desenvolvimento e processo de aprendizagem de cada sujeito se dão através da inter-relação social que estabelece no proceder da vida. Nesse processo entende-se que o ensino-aprendizagem também se desenvolve através das interações feitas com o outro, com o grupo, com o meio vivido. O sujeito precisa do outro para formar e reconhecer sua própria identidade. Molon (2011, p. 48) afirma que “o homem é construído a partir das relações sociais”. 

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Entende-se que cada sujeito ao nascer a vida (analogicamente) fosse uma folha em branco pronta para escritas com acontecimentos que construirão a história de existência e subjetividade da criança. Nasce e constrói, por meio das situações, a própria história. A “folha branca” é escrita desde o primeiro contato com o outro. Esse processo é de tamanha naturalidade humana. Enquanto novo a dependência é necessária para sobrevivência – um bebê sozinho morreria –, é necessário os cuidados de outras pessoas. É dessa forma que cada indivíduo se insere no processo histórico. As relações sociais são principais fatores para o “descrever” da história de vida do sujeito; o espaço ambiente de vivência e convivência influencia na sua formação psicomotora e emocional. 

É importante destacar que Vygotsky trouxe muitas contribuições para a educação e a aprendizagem. Por meio dos seus estudos constata-se o quanto a cultura e a história do sujeito de determinado lugar podem interferir no seu processo de ensino-aprendizagem. Vygotsky (1987, p. 88 apud RATNER, 1995, p. 8) diz que “o desenvolvimento da criança é um processo unitário, mas não uniforme; integral, mas não homogêneo”. 

3. PARTE DA FORMAÇÃO SUBJETIVA DO SUJEITO: LINGUAGEM, SIGNO E SIGNIFICADO

Ninguém nasce sabendo, tampouco no decorrer da vida saberá de tudo. Para que o ser humano possa construir a subjetividade é preciso manter contato com os outros. É formação contínua. Interagir, trocar, partilhar são instrumentos que permite ao sujeito adquirir, absorver, processar e projetar o que aprendeu no ambiente que vive.

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A linguagem é a grande ferramenta de comunicação que se tem para manter contato. É ela que, possibilitando a troca de contato com o outro permite a cada indivíduo constituído dessa interação com o outro completar-se para conquistar seu potencial. Para Vygotsky existe a formação complexa dos conceitos aprendidos pelas crianças; os conceitos serão utilizados por elas para manter comunicação, uma vez que o ser humano é espécie comunicável.

Para que a comunicação seja feita, elementos mediadores são efetuados naturalmente segundo o processo evolutivo da criança que está aprendendo. O primeiro elemento mediador são os instrumentos. A criança ao se deparar com o ambiente, com o convívio social, amplia a possibilidade de transformar e conhecer ainda mais a natureza. Os animais também tem a capacidade de desenvolver esse elemento mediador e fazer uso. O homem faz uso com mais sofisticação pela capacidade de raciocínio e lógica; o mesmo também tem a capacidade de inovar e renovar, deixando instruções para que outros também façam o mesmo ou diferente. Mas nenhuma criação é tão original quanto se pensa ser: 

Todo inventor, por mais genial que seja, é sempre produto de sua época e de seu ambiente. Sua obra criadora partirá dos níveis alcançados anteriormente e também se apoiará nas possibilidades que existem fora de si (VYGOTSKY, 1990, p. 37 apud MOLON, 2011, p. 21).
 
O segundo elemento mediador é o signo que é de prioridade humana. Só o homem é capaz de absorver o signo e a ele atribuir um significado. O signo é qualquer coisa que representa algum sentido. Levando em consideração que sentido tem dois modos de ser tratado: sentido de direção e sentido de significado. Então o signo, além de ser esse fenômeno representativo, também tem classificações. Para criança a palavra (como signo) vai ser associada ao objeto, processada a informação o objeto terá também seu significado e, consequentemente, a utilidade. A imaginação é fecunda e uma vez obtendo a informação, associações futuras serão automáticas. Por exemplo, é fácil saber o que é cama mesmo sem ver uma à frente. A palavra associa ao objeto que evoca até a utilidade do mesmo.

Todas as funções psíquicas superiores são processos mediados, e os signos constituem o meio básico para dominá-las e dirigi-las. O signo mediador é incorporado à sua estrutura como um todo. Na formação de conceitos esse signo é a palavra, que em princípio tem o papel de meio na formação de um conceito e, posteriormente, torna-se o seu símbolo (VYGOTSKY, 1989, p. 48 apud LA TAILLE; OLIVEIRA E DANTAS, 1992, p. 30).
 
O pensamento verbal também é parte da formação, aprendido, assim como os outros, por meio da interação social. De acordo com Vygotsky (1989, p. 44 apud LA TAILLE, KOHL E HELOYSA, 1992, p. 29) o “pensamento verbal não é uma forma de comportamento natural e inata, mas é determinado por um processo sócio-cultural e tem propriedades e leis específicas que não podem ser encontradas nas formas nas formas naturais de pensamentos e fala”.

4. O DESENVOLVIMENTO INFANTIL

O desenvolvimento da criança, através da relação social, também foi classificado por Vygotsky que analisou no desenvolvimento origens e formas de comportamento consciente. São relações sociais que o sujeito com o social. 

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Bock e colaboradores (2008, p. 126) afirmam que para Vygotsky o homem não era visto como ser passivo na sociedade, tornando-se consequência das relações. O homem deve ser ativo nas relações interpessoais e sociais, que age sobre o mundo e transforma ações sociais que constituem funcionamento de um plano interno. Para se compreender os aspectos do desenvolvimento de Vygotsky os autores apresentam o significado dos três aspectos do desenvolvimento infantil, a saber:

O aspecto instrumental refere-se à natureza basicamente mediadora das funções psicológicas complexas. Não apenas respondemos aos estímulos apresentados no ambiente, mas os alteramos e usamos suas modificações como um instrumento de nosso comportamento. Exemplo disso é o costume popular de amarrar um barbante no dedo para lembrar algo. O estímulo – o laço no dedo – objetivamente significa apenas que o dedo está amarrado. Ele adquire sentido, por sua função mediadora, fazendo-nos lembrar algo importante.

O aspecto cultural da teoria envolve os meios socialmente estruturados pelos quais a sociedade organiza os tipos de tarefa que a criança em crescimento enfrenta e os tipos de instrumento, tanto mentais como físicos, de que a criança pequena dispõe para dominar as tarefas. Um dos instrumentos básicos criados pela humanidade é a linguagem. Por isso, Vygotsky deu ênfase, em toda sua obra, à linguagem e sua relação com o pensamento. 

O aspecto histórico, como afirma Luria, funde-se com o cultural, pois os instrumentos que o homem usa para dominar seu ambiente e seu próprio comportamento foram criados e modificados ao longo da história social da civilização. Os instrumentos culturais expandiram os poderes do homem e estruturaram seu pensamento, de maneira que, se não tivéssemos desenvolvido a linguagem escrita e a aritmética, por exemplo, não possuiríamos hoje a organização dos processos superiores que possuímos. 

A aprendizagem tem etapas, contudo, um aprendiz não será igual ao outro. A proporção do aprendizado é totalmente diferente e completamente específico d ambiente, da cultura, ou seja, do grupo social na qual a criança estará inserida e aprendendo a conviver. 

Bock e colaboradores (2008) citando Duarte (2007), afirmam que:

“o homem se apropria da natureza objetivando-se nela para inseri-la em sua atividade social. Sem apropriação da natureza não haveria a criação da realidade humana, não haveria a objetivação do homem. Sem objetivar-se através de sua atividade o homem não pode se apropriar de forma humana da natureza... Não haveria desenvolvimento histórico se o homem se apropriasse de objetos que servissem de instrumentos para ações que possibilitassem apenas a utilização de um conjunto fechado de forças humanas e a satisfação de um conjunto também fechados de necessidades humanas. O que possibilita o desenvolvimento histórico é justamente o fato de que a apropriação de um objeto (transformando-o em instrumento, pela objetivação da atividade humana nesse objeto, inserindo-o na atividade social) gera, na atividade e na consciência do homem, novas necessidades e novas forças, faculdades e capacidades” (p. 142). 
 
É importante destacarmos que Vygotsky com sua teoria trouxe muitas contribuições para a educação e a aprendizagem, pois através de seus estudos pode-se perceber como a cultura e a história de um indivíduo podem interferir no seu processo de ensino-aprendizagem.

REFERÊNCIAS

BOCK, A. M. B.; FURTADO, O.; TEIXEIRA, M. L. T. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. Ed. 14. São Paulo: Saraiva, 2008.

LA TAILLE, Y.; OLIVEIRA, M. K.; DANTAS, H. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992.

MOLON, S. I. Subjetividade e constituição do sujeito em Vygotsky. Ed. 4. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

RATNER, C. A psicologia sócio-histórica de Vygotsky: aplicações contemporâneas. Trad.: Lólio Lourenço de Oliveira. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. 

Fonte: OBVIOUS