janeiro 28, 2016

A Saúde Mental fora da lei, por Marcelo Veras

PICICA: "O que ocorre quando uma política de saúde mental é orientada por um modelo hospitalocêntrico? Talvez muitos das novas gerações de profissionais da saúde mental, que já foram formadas em CAPS e demais serviços substitutivos, não tenham conhecido uma verdadeira instituição asilar. Cabe à todos que conheceram os asilos não deixar essa memória se apagar. A lógica asilar é o fracasso do discurso e da conversação, nela prevalecem o poder e a disciplina como forma de tornar os corpos e mentes dóceis ao Outro social." 


A Saúde Mental fora da lei

por Marcelo Veras

Quem pensa que Saúde Mental é um estado da mente se engana. Saúde Mental é um país. Por isso o leitor não deve estranhar quando às vezes dizemos "nós da Saúde Mental" como dizemos "nós, povo de Pasárgada". Este texto traz uma pergunta: será que nós da Saúde Mental estamos fora da lei? Será que ainda temos legitimidade em nosso país quando somos conduzidos por quem não nos representa? Passados quinze anos da promulgação da lei 10.216, que deveria reorientar definitivamente a modalidade de atendimento em saúde mental no Brasil, é possível constatar que a expressão “Mental” foi incapaz de fornecer a coerência necessária para a efetivação dessa política sem que potentes significantes mestres ameaçassem seu retorno. Como toda lei, esta igualmente foi feita para o cidadão. Devolveria ao louco seu direito à cidadania mas, como efeito colateral necessário, criaria mais um Ideal que pesaria sobre o sujeito em sua relação com o mundo no qual ganharia um maior protagonismo. 

Não há reivindicação de direito que não seja presidida pelo imperativo de um ideal. Ou seja, na demanda pelos próprios direitos o cidadão está sempre certo. Ele tem o Outro como garantia e a identificação como direito assegurado pelo estado, direito a se identificar. É possível, contudo, estabelecer uma distinção entre o que é objeto da demanda de cidadania e o que é o objeto da pulsão. Assim, a demanda do sujeito distingue-se da demanda do cidadão. Ela implica em uma pergunta singular feita ao Outro visando apenas o seu ser falante, uma demanda cujo gozo em questão faz dele um eterno traidor do discurso universal. A cidadania segue cálculos coletivos, já a singularidade de um sintoma implica em estratégias privadas que sempre apontam para uma falha estrutural, o Outro nunca lhe dará aquilo que ele pede. Em sua relação com o gozo, nenhuma política evitará que o sujeito seja um fora da lei. A psicanálise, nesse sentido, não pode tampouco se prestar a oferecer a lei que falta sobre o gozo, este será sempre um problema para o sujeito na sua relação com o mundo.

Tratando-se de sujeitos psicóticos, em sua maioria, os que foram beneficiados pela lei, cabia perguntar que efeitos clínicos e que efeitos terapêuticos podiam ser esperados do novo contexto. O que parecia inicialmente ser um avanço irreversível, com mais cidadania e menos asilo, mostrou-se com o tempo ser um passo sob ameaça constante de retrocesso. Tivemos inicialmente que lutar para explicitar como a lógica do ato médico era incompatível com a clínica da reinserção social e abordagem interdisciplinar. Em seguida tivemos que lutar contra a tendência inquietante de tratar o espaço mental pela religião. Agora, com a mudança do comando da política nacional de saúde mental percebemos que os velhos significantes mestres nunca se afastaram realmente. 

O que ocorre quando uma política de saúde mental é orientada por um modelo hospitalocêntrico? Talvez muitos das novas gerações de profissionais da saúde mental, que já foram formadas em CAPS e demais serviços substitutivos, não tenham conhecido uma verdadeira instituição asilar. Cabe à todos que conheceram os asilos não deixar essa memória se apagar. A lógica asilar é o fracasso do discurso e da conversação, nela prevalecem o poder e a disciplina como forma de tornar os corpos e mentes dóceis ao Outro social. 

Prefiro a babel democrática dos diversos discursos. Queixa-se com frequência de que a pluralidade do discurso interdisciplinar é infernal, que é nela que reside a maior dificuldade em fazer existir uma unidade terapêutica sintetizada no projeto terapêutico individual. Ora, somente o espaço público e democrático poderá garantir e suportar o choque dos discursos criando um lugar para o sujeito. Mais o sujeito é capturado por um único discurso, mais ele tende a ser eclipsado. 

A Saúde Mental não é um conceito organizado a partir de Um discurso ou de Uma lei. Seu objeto é a loucura de cada um, loucura inapreensível quando se busca alcançá-la através da pureza asséptica de uma ciência qualquer. É por isso que a clínica é mais do que um simples discurso, ela implica um ato. Livrar o sujeito das identificações que o condicionam preservando, contudo, o sintoma que é sua forma irredutível de existir. Este é um princípio lacaniano, uma identificação somente é necessária quando é sintoma. O desconforto do mundo moderno diante do sintoma é patente. Alimenta-se a esperança de poder eliminá-lo com os avanços da ciência. Espera-se que ele passe despercebido no mundo se for aceito socialmente. O conservadorismo de muitos políticos que agora se arvoram a legislar sobre a saúde mental – na maioria das vezes sob um fundo religioso - parte invariavelmente da premissa de que todo sintoma é handcap. 

O modo como vejo a psicanálise participando do debate é justamente apontando para a impossibilidade de se encontrar um discurso comum sobre o sujeito. Não alimentar esperanças de que algum projeto terapêutico, principalmente aqueles com a melhor das intenções, seja possível sem preservar e fomentar a liberdade individual. Mesmo quando a doença mental é objeto de uma ciência específica nada pode ser dito do sujeito dessa doença. É aqui que doença e loucura são conceitos que nunca se superpõem. Saúde Mental é muito mais do que tratar de uma doença, ela inclui igualmente o tratamento do Outro, de sua falha, sua incompletude. Estamos em um desses momentos em que tratar o Outro é mais importante do que tratar a loucura. Continuando o processo atual, em breve "nós da Saúde Mental" escreveremos um cartaz dizendo: 

“A Saúde Mental adverte, a política nacional faz mal à saúde.”


Fonte: Marcelo Veras

A Sociedade Contra o Estado: reflexões acerca do poder político. Por Steff Oliveira (OBVIOUS)

PICICA: "Alternativas para (re)pensar nas formas do poder político e social."


A Sociedade Contra o Estado: reflexões acerca do poder político


Alternativas para (re)pensar nas formas do poder político e social.

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No livro A Sociedade Contra o Estado, Pierre Clastres apresenta uma alternativa para se pensar sobre o poder político. A “revolução copernicana”, nome dado a essa proposta, consiste no reconhecimento de que o modo ocidental de poder político não está presente em todas as sociedades da mesma forma, e que se pensarmos o poder político a partir de um modelo ocidental pressupondo-o como único e universal estaremos contribuindo com eurocentrismo que desqualifica as demais sociedades, culturas e tradições.

Negar a existência de outras maneiras de poder político por que ele não se apresenta da forma como o conhecemos, ou seja, como um Estado (democrático de preferência), revela que estamos habituados a caracterizar sociedades e culturas diferentes pelo que elas não possuem em comparação com a nossa e por isso mesmo tendemos a incorrer no erro de considera-las arcaicas.

Durante o livro, Clastres chega a concluir que essas sociedades não são sem Estado, mas sim contra o Estado e como exemplo disso, apresenta mitos, modos de agir e noções do pensamento ameríndio que revelam um esforço consciente para que o poder político não se centralize ao ponto de assumir a forma de Estado. 

Para Clastres, o importante é percebermos a necessidade de mudar nosso modo de análise e pensamento para não criar a impressão equivocada de que essas sociedades, com seus modos de ser e viver, são arcaicas e sem política.

Para complementar essa discussão, o antropólogo brasileiro Renato Sztutman introduziu outro ponto, trata-se da ação política ameríndia. Sztutman descreve que o papel dos indivíduos na sociedade deve ser pensado como maneira de entender a importância da organização estabelecida, no caso de inúmeros povos, sem um Estado que dite quem fará o que, quem manda, quem obedece e etc.. Para elucidar essa noção Sztutman utiliza, por exemplo, as figuras do pajé e do chefe nas sociedades indígenas.

Essa ação política de que Sztutman nos fala, só é entendida pela noção de construção da pessoa, a magnificação de um indivíduo se dá pela sociedade, ou seja, o indivíduo não tem poder político necessário para exercer a coerção pela força, uma vez que o poder político que lhe é dado não é fixo porque depende de sua magnificação. Algo que só acontecerá caso a sociedade entenda que aquele chefe, pajé e etc. são necessários dentro da tribo.

A reflexão que Sztutman propõe é pensar a ação política ameríndia sabendo que ela poderá se constituir de várias maneiras, desde pessoas e grupos, até mecanismos que impeçam a estabilidade, porque não se trata de algo fixo. Existe uma grande preocupação para que a magnificação não congele e se torne algo parecido com o poder político estatal estruturado.

Assim, podemos concluir que o modelo de poder político europeu adotado pelas sociedades ditas civilizadas onde o Estado é apenas mais um modelo entre os diversos que existem no mundo e por isso mesmo, não devemos toma-lo como universal. Essa percepção é fundamental para que ao reconhecer as diversidades tenhamos uma postura pautada na valorização das sociedades, culturas e pessoas e não na inferiorização como vem acontecendo a séculos, mas isso é só o começo...

REFERÊNCIAS: CLASTRES, Pierre. Copérnico e os selvagens in A sociedade contra o Estado. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

STUTZMAN, Renato. Caraibas e Morubixabas: a ação política ameríndia e seus personagens. R@U – Revista dos alunos de antropologia dos alunos do PPGAS da UFSCAR, n° 1, volume 1, 2009. Disponível em https://sites.google.com/site/raufscar/



Steff Oliveira

Socióloga de formação e Astróloga nas horas vagas. Apaixonada por gat@s, sorvete, o infinito, música e amig@s.

Fonte: Obvious

Construir a invencibilidade no go. Por Raúl Sánchez Cedillo (UNINÔMADE)

PICICA: "O 15M abre o período do jogo de go, que desloca essa fantasia de uma justa viril entre soberanos que concorrem por um poder vazio. Ao contrário, no go se trata de ocupação e hegemonia d/no espaço do político, mediante movimentos distribuídos de uma multidão de fichas de igual valor (feijões, pessoas, cidadãos), até impedir ao adversário o exercício eficaz de seus poderes, até cercá-lo e paralisá-lo. A estratégia pertence à multidão cidadã, e a forma do cerco consiste na expansão e articulação eficaz da participação e a radicalização democrática dos subalternos. Algo muito distinto do papel de plateia para torneios dos grandes mestres do xadrez." 

Universidade Nômade Brasil

Construir a invencibilidade no go

Por Raúl Sánchez Cedillo, na Contraparte, 26/1/16 | Trad. UniNômade



Iglesias



Em situações como esta, não adianta ficar enrolando com pistas ou mcguffins: o que quer que aconteça, na próxima primavera haverá eleições.

E já falaram os simpáticos paroquianos que dirigem a Comissão Europeia. Estavam apenas esperando. O seu papel é relativamente fácil: eles somente têm que preocupar-se em lembrar que a disputa parlamentar e a liberdade dos eleitores é somente uma performance que não deveria durar muito e que somente pode terminar numa missa aos defuntos da mudança sistêmica e um aleluia ao austericídio das classes subalternas. Sabem perfeitamente que as próximas eleições serão uma espécie de segundo turno do 20D, quer dizer, algo completamente normal em países como a França, Portugal, Polônia, Áustria, Finlândia, Eslováquia ou Eslovênia, apenas para citar estados membros da União Europeia. Não gostam, entretanto, da distribuição da função e da possibilidade crescente de desenlaces poucos favoráveis ao 1%.

Compartilhamos com a freguesia de Juncker a pouca estima das virtudes da arte dramática parlamentar e a franqueza crua na descrição das alternativas em jogo: não há uma sequer que mude os ditames da ditadura comissária do Eurogrupo. Somos igualmente céticos quanto às leituras que veem no resultado das eleições do 20D uma mensagem da cidadania que deve ser interpretada. Tanto Lênin quanto Carl Schmitt chegaram a dizer que os parlamentos da democracia liberal eram uma feira de ventríloquos para um ausente, o povo. Mas hoje, como apontaram recentemente Francisco Jurado e Juan Moreno Yagüe, a presença e a decisão da multidão cidadã não podem deter-se às portas dos parlamentos, sob pena de desperdiçar o projeto constituinte a que a ordem dos acontecimentos nos condenou.

A “grande jogada”

É preciso respeitar e seguir com atenção as aparições em cena de Pablo Iglesias e interpretar o sentido de seus gestos, a “jogada” de sua proposta de um governo de coalizão e as maneiras como ela foi anunciada. Contudo, o paradoxo dos parlamentos nas democracias constitucionais reside no fato que o mandato representativo, diferentemente do imperativo, permite aos representantes fazer o que bem entender dele, quase sempre com consequências nefastas. Lembremos, por exemplo, da rebelião contra Suárez de Herrero de Miñon, Fernández Ordóñez e outros barões da Unión de Centro Democrático (UCD), na legislatura de 1979-1982, ou no voto quase unânime do grupo socialista no Congresso e Senado a favor da reforma constitucional do art. 135, tornando absoluta a prioridade do serviço da dívida em detrimento aos direitos sociais (sim, Pedro Sánchez votou nela num dia confuso). Sabemos que a proposta de governo apresentada pelo grupo formado por Podemos e as confluências é uma performance, um ato que se realiza, sobretudo, enquanto efeito num dado contexto que têm os atos de fala. A proposta de Pablo nos diz algo mais sobre as intenções de quem fala do que da realidade de que ele fala. Porém, existiria algo aí, nos gestos do grupo encabeçado por Iglesias, além de metáforas enxadristas? A rigor, seria cabível pensar que o Podemos pode chegar a formar um governo com o PSOE?

A resposta está no grau de liberdade excepcional que, depois do 20D, ficou sob a gestão de Pedro Sánchez. A arbitrariedade que o mandato representativo permite, bem como o prognóstico funesto que os tempos reservam ao seu partido, constituem um fator que acrescenta alguma incerteza à representação em curso, se bem que em doses muito escassas.

Pedro sem causa

Pedro Sánchez precisa governar a qualquer custo se quiser seguir com vida política, mas sabe que somente poderá respirar quando tenha acabado com a de seus adversários mais próximos: a) os barões de seu partido, as pessoas do grupo PRISA e os grupos cujo porta-voz e patriarca ocorre de ser Felipe González; b) Pablo Iglesias e os representantes das confluências.

Por isso, o buraco da agulha por que Pedro Sánchez pretende passar é tão pequeno que nos obriga a submergir nas incertezas da mecânica quântica. Embora a vida do fóton Pedro nos pareça curta, ele parece convencido que nenhum instrumento de medir político pode determinar se ele efetivamente passou pelo buraco da agulha ou foi desviado por um gráviton de Sevilha. Trata-se, então, de manter-se em sua condição de onda até que os adversários sucumbam num furdunço de interferências. Claro, tudo tem que ser feito segundo uma ordem. Primeiro, seria caso de conter as hordas baronais com a promessa que um eventual governo de coalizão com Podemos será na realidade uma emboscada, que vai permitir acabar com a ameaça que ele implica. Logo, seria o momento de entabular negociações com Pablo Iglesias, aceitando o desafio com a convicção de quem sabe que as tarefas de governo serão muito mais devastadoras (fustigada pela tormenta perfeita de Troica, IBEX e “grande coalizão” tertuliana) para quem advoga pela ruptura, do que para quem nem sequer pretende quebrar a regra de ouro do equilíbrio orçamentário. Romper as negociações devido à obstinação de Podemos no assunto do referendo catalão não seria senão ceder-lhe um ponto de consolação, antes dele subir no cadafalso socialista. Pedro Sánchez não se dispõe, portanto, a cruzar o Rubicão. Em vez disso, considera em qualquer caso que pode ser o melhor piloto no jogo do frango contra os barões e contra Pablo Iglesias. Outro rosto bonito destroçado nas corridas.

Por quê? Porque a aceleração é crescente, o balanço de custo e benefício entre ele e Pablo Iglesias desigual demais e, sobretudo, porque o carro de Pedro Sánchez está sem freios. Ou alguém derruba a parede de separação no meio deles, ou a sua beleza se tornará bidimensional. Tudo isto sabe-o perfeitamente Pablo Iglesias. Sabe que o custo eventual de compartilhar ou ficar com todas as culpas pela não formação do “governo de mudança” é um risco que vale a pena, porque ao fim e ao cabo: a) ele não suporá em médio prazo nenhum fortalecimento do PSOE, pelo contrário; b) é infinitamente pior a perspectiva de uma divisão interna no grupo parlamentar em torno de questões, por exemplo, como e quando realizar o referendo sobre a Catalunha, ou então, sobre os graves conflitos internos ao redor da gestão e controle desde baixo do governo e do grupo parlamentar “confederado”, no cenário do pacto com Pedro Sánchez, isto é, num horizonte que somente pode ser entendido como chorar e rir ao mesmo tempo e, c) e isto é decisivo, não podes governar enquanto força minoritária com um partido que, retórica à parte, deseja pública e ostensivamente uma impiedosa pasokização.

O tempo do go

Por isso, nada de xadrez. Entre outras coisas, porque se calcula que no xadrez o número de posições aceitáveis se situe entre 10^40 e 10^123, ao mesmo tempo que, como vimos, aqui as posições e movimentos sensatos podem ser contados com os dedos de uma mão. Mas há algo nessa fixação com o xadrez que remete ao caroço da teoria do poder político de Pablo Iglesias, concebido precisamente como uma disputa entre soberanos e príncipes, como um espaço vazio que uma ou outra elite precisa ocupar, para dar-lhe um uso ad libitum imperatoris. Existe algo mais do que retórica no recurso ao discurso malfadado do compromisso histórico italiano, que em sua versão original se traduziu na autoimolação do PCI de Berlinguer no altar da austeridade, ante as demandas sociais e a repressão implacável daquele antepassado do 15M que foi o Movimiento de 77. Existe a convicção de que haja um autonomia do político (do Estado de partidos, da classe política, dos parlamentos) em relação à potência composta dos contrapoderes sociais e cidadãos, e que, em última instância, o tipo de mudança política se ventila nas jogadas de mestre desse intelectual coletivo que é o Partido (ou mais precisamente: a sua direção carismática).

Ainda assim, tal como ensina a própria história do PCI de Togliatti e Berlinguer, a autonomia do político é sempre para o pior, a saber: para a desarticulação da relação democrática entre o novo tipo de contrapoderes sociais que nasce com o 15M, com a PAH, as Mareas e o municipalismo, e o instrumento — somente um instrumento — que permita desbloquear a infiltração das ruas no parlamento e a sua subsequente transformação numa assembleia subordinada ao exercício direto do poder constituinte por parte dos cidadãos. Estamos ante tensões e ambivalências que somente começarão a aclarar-se dentro de semanas ou meses, quando o obstáculo Sánchez tiver sido removido do caminho.

Continua sendo certo que a estrela polar da mudança política é o mandato constituinte exprimido a partir do 15M. Daí seja bem mais urgente pensar na sequência que se abrirá a partir da convocação de novas eleições, do que na gestão do resultado eleitoral, passando pela ampliação e a radicalização democráticas das confluências e seu reflexo na eleição das candidaturas e da construção dos programas políticos. Será o caso, então, de oferecer um governo radicalmente democrático, que mire tanto as sedes europeias da ditadura comissária, quanto a participação real (incomodada, então) da cidadania na definição e organização dos processos constituintes no Reino da Espanha.

Construir a invencibilidade


Sun Tzu repara nos preparativos da vitória e lembra que o exército vitorioso somente entra em combate depois de ter obtido a vitória, dito de outra forma, que a invencibilidade depende de si próprio, enquanto que a vulnerabilidade corresponde ao inimigo. Seguramente, Pablo Iglesias reparou nisso e não esquecerá que, com as novas eleições, se trata de construir, em comum, a invencibilidade das forças da mudança, à margem de golpes de gênio enxadrista. Yanis Varoufakis exprimiu a sua preocupação ante a possibilidade de um pacto de governo com os socialistas. Talvez seja porque ele, o especialista da teoria dos jogos, saiu escaldado demais da disputa com a besta do Eurogrupo.

O 15M abre o período do jogo de go, que desloca essa fantasia de uma justa viril entre soberanos que concorrem por um poder vazio. Ao contrário, no go se trata de ocupação e hegemonia d/no espaço do político, mediante movimentos distribuídos de uma multidão de fichas de igual valor (feijões, pessoas, cidadãos), até impedir ao adversário o exercício eficaz de seus poderes, até cercá-lo e paralisá-lo. A estratégia pertence à multidão cidadã, e a forma do cerco consiste na expansão e articulação eficaz da participação e a radicalização democrática dos subalternos. Algo muito distinto do papel de plateia para torneios dos grandes mestres do xadrez.


Raúl Sánchez Cedillo é tradutor e pesquisador residente a Madrid, participa da Universidad Nómada, escreve para vários sites, escreveu artigos com Felix Guattari, Toni Negri, entre outros.

Fonte: UniNômade

janeiro 27, 2016

Scola, síntese do cinema italiano. POR José Geraldo Couto (BLOG DO IMS)

PICICA: "O cinema de Ettore Scola (1931-2016) é o lugar em que se encontram três tradições muito fortes do cinema italiano: o neorrealismo (mais da vertente de De Sica do que da de Rosselini), a comédia social de costumes (Monicelli, Risi, Steno, Germi) e o cinema propriamente político, ou de “impegno civile” (Francesco Rosi, Elio Petri, Gillo Pontecorvo)."



Scola, síntese do cinema italiano

POR José Geraldo Couto José Geraldo Couto: no cinema | 22.01.2016




O cinema de Ettore Scola (1931-2016) é o lugar em que se encontram três tradições muito fortes do cinema italiano: o neorrealismo (mais da vertente de De Sica do que da de Rosselini), a comédia social de costumes (Monicelli, Risi, Steno, Germi) e o cinema propriamente político, ou de “impegno civile” (Francesco Rosi, Elio Petri, Gillo Pontecorvo).


Ettore Scola no set de filmagem
Sua obra nasce no início dos anos 1960, quando o cinema italiano era talvez o melhor do mundo, com pelo menos três gênios em seu apogeu (Visconti, Antonioni e Fellini) e o surgimento de uma nova geração (Bertolucci, Bellochio), sem contar gêneros como o giallo, o faroeste espaguete e “lobos solitários” como Pasolini e Zurlini.

Scola não chegou a criar um universo estético próprio, inconfundível, a exemplo de Antonioni ou Fellini. Como o americano Woody Allen e o brasileiro Jorge Furtado, ele faz parte da linhagem dos cineastas-roteiristas, talvez mais roteiristas do que cineastas, no sentido em que dão mais atenção ao roteiro do que propriamente à construção de imagens, à organização do espaço e do movimento.

Seus melhores filmes, a meu ver, são aqueles em que a intenção de criar um afresco crítico da sociedade italiana não abafa os personagens, não os torna meros tipos ou símbolos. Penso em Nós que nos amávamos tanto (1974), Feios, sujos e malvados (1976), Um dia muito especial(1977) e A família (1987). Embora em todos eles se possa detectar um certo esquematismo, este é amplamente compensado pela vivacidade dos diálogos e situações, sem falar da categoria excepcional dos atores (Vittorio Gassman, Marcello Mastroianni, Nino Manfredi, Sophia Loren etc.).

Em Casnova e a revolução (1982), um roteiro engenhoso, inspirado levemente no conto “Bola de sebo”, de Maupassant, e um elenco internacional extraordinário conseguem tornar envolvente e divertido o que, sem essas qualidades, poderia ser uma alegoria pesada sobre os destinos da Europa burguesa.

Realismo caloroso

Onde a intenção alegórica pesa mesmo é em O baile (1983), que me parece uma exibição frustrada de virtuosismo ao buscar retratar toda a história do século XX numa sequência de danças, sem um único diálogo – artificialismo comparável ao do francês O artista (Michel Hazanavicius, 2011). Onde eu vejo afetação, porém, há quem veja sensibilidade, originalidade e imaginação criadora. É um dos filmes mais amados por certos fãs de Scola.

Para o meu gosto e temperamento, o cinema do diretor ganha mais sentido e consistência quando mantém um pé no realismo caloroso, terra a terra, da comédia social de onde surgiu, em vez de tentar emular a fase mais exuberante de Fellini (seu principal mestre e inspirador).

Um exemplo eloquente talvez seja esta cena enganosamente simples de Nós que nos amávamos tanto em que dois amigos se reencontram por acaso depois de décadas num estacionamento de Roma. Um deles, Gianni (Vittorio Gassman), casou com uma ricaça e se aburguesou, abandonando o idealismo da juventude. O outro, Antonio (Nino Manfredi), segue sendo um modesto padioleiro de hospital – e comunista.

A situação equívoca faz com que Antonio julgue que o amigo agora é um guardador de carros. As mutações no rosto de Gassman, bem como o afeto caloroso de Manfredi, valem por um curso de atuação. É um grande momento de Ettore Scola e do cinema italiano.




Corpo estranho

Uma pequena joia corre o risco de ser soterrada pelos blockbusters de verão e pelos “filmes do Oscar”. Estou falando de Body, da polonesa Malgorzata Szumowska, vencedor do prêmio de direção no festival de Berlim de 2015.


Trata-se, resumidamente, da história de um promotor da polícia técnica (Janusz Gajos) e sua filha anoréxica (Justina Suwala), que vivem na mesma casa mas mal se falam desde que a mulher do promotor (e mãe da moça) morreu.

Com um humor absurdo típico do leste europeu e uma atenção aos detalhes que torna cheios de vida os “tempos mortos”, a diretora transita com desenvoltura na corda bamba entre o ceticismo do protagonista e o misticismo de uma terapeuta da filha (Maja Ostaszewska), que diz ter o poder de se comunicar com os mortos (em sua casa há até retratos de Chico Xavier). O filme todo é muito bom, mas a sequência inicial, em que o promotor comparece ao local onde um homem se enforcou, é digna de antologia.

José Geraldo Couto

José Geraldo Couto é crítico de cinema, jornalista e tradutor. Trabalhou durante mais de vinte anos na Folha de S. Paulo e três na revista Set. Publicou, entre outros livros, André Breton (Brasiliense), Brasil: Anos 60 (Ática) e Futebol brasileiro hoje (Publifolha). Participou com artigos e ensaios dos livros O cinema dos anos 80 (Brasiliense), Folha conta 100 anos de cinema (Imago) e Os filmes que sonhamos (Lume), entre outros. Escreve regularmente sobre cinema para a revista Carta Capital.

Fonte: Blog do IMS

KAIRÓS. La reinvención de la democracia en el Mediterráneo

PICICA: "Kairós. La reinvención de la democracia en el Mediterráneo es un documental sobre el ciclo de luchas y movimientos sociales que empezó a finales del 2010 en Túnez, en la pequeña ciudad de Sidi Bouzid, y que posteriormente se ha extendido por todo el Mediterráneo. El documental parte de las entrevistas realizadas en el marco del archivo online Proyecto Kairós (projectkairos.net) en cinco países distintos: Túnez, España, Italia, Grecia y Turquía, y está dividido en cuatro capítulos (I) El Mar (II) El Gobierno (III) La Red (IV) La Multitud. El documental traza un recorrido por distintos movimientos sociales: la ocupación de las plazas, Democracia Real Ya, la PAH, No TAV, la revuelta de Gezi y Taksim, SYRIZA, la caída de Mubarak, las bloggers tunecinas, los hospitales autogestionados de Grecia o las formas de organización tecnopolítica. Se establece así una miríada de relaciones y puentes entre movimientos de distinto tipo, y se deja constancia documental de un ciclo de luchas inédito en esta región del mundo que es el Mediterráneo.
Guión: Adrià Rodríguez
Imagen y sonido: Adrià Rodríguez
Voz en off: Estelle Collinet
Agradecimientos: Mercedes Mangrané, Antonio Felices, Adela Alòs, Josep Mª Rodríguez, Estelle Collinet, Alejandra Calvo, María Ruido, Memed Cemil, Antonio Vilar, Merve Watson, Pelin Girgin, Ulus Atayurt, Vincenzo Pellicano, Ceren Coskun, Anna Curcio, Gigi Roggero, Roser Caminal, Marianna Sica, Miriam Sol, Martí Fradera, Miguel Albarracín, Mick Byrne, Jesús Carrillo, Wassim Ltaief, Cihan Ínan, Lilia Weslaty, Mario Sei, las compas de la Fundación de los Comunes, de Agora99 y del IN3 de la UOC, y de Sitesize, el equipo del MNCARS, del MUSAC y del congreso URBANRISE. Y a todas las personas que se han prestado a ser entrevistadas y que siguen luchando día a día para hacer del Mediterráneo un lugar digno para vivir.
Duración: 46min

Licencia: Creative Commons BY-SA
Más info: projectkairos.net"



KAIRÓS. La reinvención de la democracia en el Mediterráneo from adria rodriguez on Vimeo.

KAIRÓS. La reinvención de la democracia en el Mediterráneo


Roberto Ferri – O Barroco Contemporaneo e o Tenebrismo Mitológico, por Patricia Abilio (OBVIOUS)

PICICA: "O pintor Roberto Ferri nasceu em Taranto, Itália, em 1978. Em 1996 ele se formou na Liceo lisippo Artístico, uma escola de arte em sua cidade natal. Começou a estudar pintura autodidata até 1999, quando mudou-se para Roma, para aumentar a sua investigação sobre a pintura antiga, começando da segunda metade do século XV até o final do século XIX e aprofundou seus estudos com Gaetano Castelli Francesco Zito. Para chegar, finalmente, a uma fusão estilística surpreendente entre o Renascimento e o maneirismo florentino, caravaggismo e pintura barroca do século XVII. Em 2006 graduou-se com honras da Academia de Belas Artes, em Roma. Sua obra está representada em colecções particulares em Roma, Milão, Londres, Paris, Nova Iorque, Madrid, Barcelona, ​​San Antonio (Texas), Qatar, Dublin, Boston, Malta, e do Castelo de Menerbes em Provence." 


Roberto Ferri – O Barroco Contemporaneo e o Tenebrismo Mitológico


Impossível não notar o extremo realismo de suas pinturas que são predominantemente figurativas e cheias de simbolismo. Seus personagens, tanto homens como mulheres, têm que a estrutura muscular voluptuosa bem representada na beleza clássica, no estilo Miguel Ângelo, uma beleza remota dos padrões modernos.

O pintor Roberto Ferri nasceu em Taranto, Itália, em 1978. Em 1996 ele se formou na Liceo lisippo Artístico, uma escola de arte em sua cidade natal. Começou a estudar pintura autodidata até 1999, quando mudou-se para Roma, para aumentar a sua investigação sobre a pintura antiga, começando da segunda metade do século XV até o final do século XIX e aprofundou seus estudos com Gaetano Castelli Francesco Zito. Para chegar, finalmente, a uma fusão estilística surpreendente entre o Renascimento e o maneirismo florentino, caravaggismo e pintura barroca do século XVII. Em 2006 graduou-se com honras da Academia de Belas Artes, em Roma. Sua obra está representada em colecções particulares em Roma, Milão, Londres, Paris, Nova Iorque, Madrid, Barcelona, ​​San Antonio (Texas), Qatar, Dublin, Boston, Malta, e do Castelo de Menerbes em Provence. 

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Notamos que o trabalho de Roberto Ferri está profundamente inspirado no estilo dos pintores barrocos, especialmente Caravaggio, mas também sugere uma predileção por outros mestres do romantismo e simbolismo. No entanto, em toda esta influência clássica, Roberto Ferri sutilmente deslocado para a arte contemporânea, tornando-se um pintor moderno que pacificamente coexisti com as velhas estruturas, propondo uma dualidade e contradição artístico que o artista consegue superar com uma grande técnica e uma beleza única. Talvez seja a hora de pensar que nada é antigo ou moderno, e simplesmente nos deixar arrastar para as dualidades de nossos próprios sentimentos. 

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Impossível não notar o extremo realismo de suas pinturas que são predominantemente figurativas e cheias de simbolismo. Seus personagens, tanto homens como mulheres, têm que a estrutura muscular voluptuosa bem representada na beleza clássica, o estilo Miguel Ângelo, uma beleza remota nos padrões modernos, mas no fundo ainda são válidos na imaginação de hoje. Os personagens são poderosos e cheios de energia, que muitas vezes estão em situações impossíveis, com solavancos que são fundidos em conjunto ou que surgem como defeitos naturais, se asas ou lanças presas na carne. 

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Evidentemente o uso de luz e sombras, o legado direto de Caravaggio foi incorporado pelo artista, porém com uma habilidade e técnica impecável. Um submundo mágico escuro que nos conta histórias através de seus personagens, mas especialmente envolvendo com esse jogo de luz e sombra que dá a sua obra um aspecto surreal, infernal onde nada é o que parece e tudo é possível. Os temas e assuntos retratados são caracteristicamente clássicos, portanto os corpos nus e a anatomia nos remete à mitologia erotizada, sem o menor julgamento moral. Figuras híbridas e cyborgues também fazem parte do repertório pitoresco e metamorfoseado. É a descida ao inferno de Dante as figuras estranhas e comuns nos encantam e causam estranheza, o artista utiliza do passado para renovar e transcender o presente. É belo, atraente e fascinante.


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Patricia Abilio

Sou culta, fajuta, sou rasa..

Fonte: Obvious

Retrato de um Judiciário arrogante. Por Fernando Marcelino (OUTRAS PALAVRAS)

PICICA: "Privilégios. Mordomias. Salários nababescos. Negócios com o poder econômico. Na trajetória do ministro Gilmar Mendes, sinais de uma instituição marcada por elitismo e horror ao povo" 

Retrato de um Judiciário arrogante


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Privilégios. Mordomias. Salários nababescos. Negócios com o poder econômico. Na trajetória do ministro Gilmar Mendes, sinais de uma instituição marcada por elitismo e horror ao povo
Por Fernando Marcelino

A trajetória do Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes é uma alegoria do Judiciário brasileiro.

Gilmar Ferreira Mendes nasceu na cidade de Diamantino, MT, em 30 de dezembro de 1955, filho de Nilde Alves Mendes e de Francisco Ferreira Mendes, prefeito de Diamantino pela Arena durante o período militar. Gilmar se formou bacharel em direito pela Universidade de Brasília em 1978. Fez o mestrado com o tema Direito e Estado na mesma universidade, obtendo o certificado de conclusão em 1987.

Exerceu na administração pública os cargos de Procurador da República com atuação em processos do Supremo Tribunal Federal (outubro de 1985 a março de 1988). Foi adjunto da subsecretaria-geral da Presidência da República (1990 e 1991) e consultor jurídico da Secretaria-Geral da Presidência da República (1991 e 1992). Desempenhou a função de assessor técnico na Relatoria da Revisão Constitucional na Câmara dos Deputados (dezembro de 1993 a junho de 1994). Foi assessor técnico no ministério da Justiça, na gestão do Ministro Nelson Jobim (1995 e 1996), período no qual colaborou na coordenação e na elaboração de projetos de reforma constitucional e legislativa. Foi subchefe para assuntos jurídicos da Casa Civil, de 1996 a janeiro de 2000, e Advogado-Geral da União, de janeiro de 2000 a junho de 2002. Foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal por FHC em 2002.

Vem de uma família de fazendeiros e juízes do Mato Grosso, onde são influentes. O patriarca, desembargador Joaquim Pereira Ferreira Mendes, foi por quase dez anos presidente do Tribunal de Justiça do Estado (1908-1913, 1916-1917 e 1918-1920), sendo o único a presidi-lo por mais de duas vezes. O neto Milton Ferreira Mendes seguiu os passos do avô e exerceu o cargo de juiz, e depois foi promovido a desembargador em Mato Grosso por oito anos. A família conseguiu emplacar ao menos dez sucessores de prestígio na carreira jurídica, entre eles os desembargadores Mário Ferreira Mendes, Joazil Mendes Gardés e o juiz Élcio Sabo Mendes. Juiz membro do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), Yale Sabo Mendes é reconhecido nacionalmente pela atuação no Juizado Especial do Planalto, em processos relacionados ao Direito do Consumidor. Ele é irmão do desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF), Ítalo Fioravanti Sabo Mendes. Dois deles já trabalham em Brasília: o ministro Gilmar e Ítalo Ferreira Mendes.

O último membro da família Mendes a despontar é Djalma Sabo Mendes, nomeado defensor público-geral do Estado. Foi uma escolha pessoal do governador Blairo Maggi, amigo pessoal do ministro Mendes. Os Mendes ainda contam com o juíz Élcio Sabo Mendes Júnior, que atua em Rio Branco (AC). Ele é filho do juiz aposentado Élcio Sabo Mendes, tio do ministro Gilmar. Além disso, a família conta com o procurador do Estado aposentado Djalma Mendes, pai do defensor-geral Djalma Sabo Mendes.

A família tem representantes em várias esferas de poder, seja por meio da magistratura ou na política. O sucesso da família na magistratura, além da herança política, certamente contribuiu para que o irmão caçula do presidente do STF, Francisco Ferreira Mendes Júnior, o Chico Mendes (PR-MT), chegasse ao posto de prefeito de Diamantino, inclusive por dois mandatos (1).

Em 2015, Gilmar Mendes foi à Justiça contra o líder do MTST Guilherme Boulos por conta de coluna publicada na Folha de S. Paulo em que é chamado de “bravateiro de notória ousadia”. O ministro do STF decidiu processar Guilherme Boulos por danos morais e pede indenização de R$ 100 mil. A ação corre na Justiça do Distrito Federal. No texto, intitulado “Gilmar Mendes e o Bolivarianismo” publicado em 13 de novembro de 2014, Boulos comenta uma declaração de Mendes, dada no início daquele mês, alertando para o risco de que o STF “se converta numa corte bolivariana”, com a possibilidade de “governos do PT terem nomeado dez de seus onze membros a partir de 2016″. O líder do MTST relembrou algumas de suas decisões que “favoreceram o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda e o ex-senador de Goiás Demóstenes Torres – ambos do DEM e abatidos em escândalos de corrupção – e o banqueiro Daniel Dantas, preso pela PF e libertado por ordem de Mendes”. Será que Gilmar Mendes ficou furioso com o líder sem-teto porque sua família é vista, por muitos, como uma das grandes invasoras de terras indígenas no Mato Grosso do Sul? (2)

É evidente que a conduta ética de Mendes está longe de ser consenso.

Segundo levantamento da revista Carta Capital em 2009, a contratação de cursos da empresa de Mendes – o Instituto Brasiliense de Direito Público – por diversos órgãos federais teria rendido ao menos R$ 3 milhões.

Outro episódio controverso deu-se quando Mendes ainda era era o chefe da Advocacia Geral da União (AGU), durante o governo FHC, antes de ser nomeado para o STF. Segundo reportagem da revista Época em 2002, a AGU pagou R$ 32.400,00 ao instituto de Mendes no período em que era comandada por ele.

Vale lembrar também que Mendes concedeu duas vezes habeas corpus para que fosse solto o banqueiro Daniel Dantas, que havia sido preso na Operação Satiagraha sob suspeita de desvio de verbas públicas, crimes financeiros e tentativa de suborno para barrar a investigação da Polícia Federal. A decisão foi mantida depois pelo plenário do STF. O grupo Opportunity, de Daniel Dantas, adquiriu participações em várias empresas privatizadas no governo FHC, em especial no setor de telecomunicações. E pasmem: a jornalista Monica Bergamo (Folha de São Paulo) anunciou que, após 32 anos de serviço público, Guiomar Feitosa Mendes, mulher de Gilmar Mendes, está se aposentando, depois de ter trabalhado mais de 23 anos no STF. Ela será agora gestora da área jurídica do escritório do advogado Sergio Bermudes, do Rio. Ou seja, a mulher do Ministro Gilmar vai trabalhar com o advogado de Daniel Dantas!”

Gilmar Mendes é casado com Guiomar Feitosa de Albuquerque Lima. A família Feitosa é uma importante família política do Ceará, grande empresária de transportes urbanos, grandes proprietários rurais e tem ocupado vários cargos parlamentares no estado. Em julho de 2013 um filho do casal, Francisco Feitosa Filho, casou com Beatriz Barata, neta do maior empresário de ônibus do Rio de Janeiro, Jacob Barata. Gilmar e Guiomar foram padrinhos do casamento.

Apesar da família rica, a esposa de Gilmar custa caro aos cofres públicos: “Dos 608 mil reais gastos com as mulheres dos ministros do STF, 437 mil custearam viagens de Guiomar Feitosa de Albuquerque Ferreira Mendes, esposa do ministro Gilmar Mendes. Entre 2009 e 2011, ela acompanhou o marido 20 vezes ao exterior, gasto médio de quase 22 mil reais por viagem – em 2012, não há registro de viagens dela. O ato interno citado pelo STF como fundamento legal para o gasto com as passagens também respalda que elas sejam de primeira classe.” (3)

Gilmar Mendes, maestro de sofismas, desfigura a ideia de Estado social e democrático. Entretanto, Mendes é apenas um notório exemplo de magistrado que transforma o Judiciário num tribunal político de baixo nível, o que reafirma o que Boulos disse em seu artigo: “o Judiciário é o único poder da República que, no Brasil, não tem nenhum controle social. Regula a si próprio e estabelece seus próprios privilégios. Mas questionar isso, dizem, é questionar a democracia. É bolivarianismo”. Contudo, podemos encontrar outros exemplos nas cortes federais e estaduais. Estudos recentes sobre o Judiciário indicam que elites jurídicas provêm das mesmas trajetórias, famílias, universidades e classe social (4).

No escritório de advocacia Sérgio Bermudes, onde trabalha a esposa de Gilmar Mendes, também encontramos outros vínculos com as famílias dos ministros do STF: Elena Landau, Gabriel de Orleans e Bragança e Marianna Fux, esta última sócia desde 2003. Marianna Fux, a filha do ministro do STF Luiz Fux, tentou virar desembargadora no Rio de Janeiro e esbarrou nos requisitos mínimos para o preenchimento do cargo. Mais “sorte” teve a advogada Letícia Mello, que foi nomeada para o cargo de desembargadora do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, que abrange o Rio de Janeiro e o Espírito Santo. Letícia tem 37 anos e é filha do ministro do STF e presidente do TSE Marco Aurélio Mello e da desembargadora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. A família Mello é uma das mais importantes famílias políticas de Alagoas. Letícia é neta do advogado Plínio Affonso de Farias Mello e de D. Eunice Mendes de Farias Mello. Plínio Affonso, que era irmão de Arnon Affonso de Mello, governador de Alagoas e senador da Republica, pai do ex-presidente Fernando Collor de Mello. O ministro Marco Aurélio Mello foi indicado para o STF pelo seu primo Fernando Collor de Mello.

Gilmar Mendes não é uma exceção. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, 16% dos integrantes do Judiciário no estado do Rio são parentes de outros membros desse poder. (5) Esta situação seguramente se reproduz em maior ou menor grau nos outros estados.

Recentemente uma reportagem da revista Época (6) mostrou que juízes estaduais e promotores dos Ministérios Públicos dos estados criam todo tipo de subterfúgio para ganhar mais do que determina a Constituição. Hoje o teto é de R$33.763, mas os juízes e promotores engordam seus contracheques com ao menos 32 tipos de auxílios, gratificações, indenizações, verbas, ajudas de custo. Na teoria, os salários – chamados de subsídios básicos – das duas categorias variam de R$ 22 mil a R$ 30 mil. Os salários reais deles, no entanto, avançam o teto pela soma de gratificações, remunerações temporárias, verbas retroativas, vantagens, abonos de permanência e benefícios concedidos pelos próprios órgãos. É uma longa série de benefícios, alguns que se enquadram facilmente como regalias.

Conforme o levantamento, a média de rendimentos de juízes e desembargadores nos estados é de R$ 41.802 mensais; a de promotores e procuradores de justiça, R$ 40.853. Os presidentes dos Tribunais de Justiça apresentam média ainda maior: quase R$ 60 mil (R$ 59.992). Os procuradores-gerais de justiça, chefes dos MPs, recebem também, em média, R$ 53.971. Fura-se o teto em 50 dos 54 órgãos pesquisados. Eles abrigam os funcionários públicos mais bem pagos do Brasil. Há salários reais que ultrapassam R$ 100 mil. O maior é de R$ 126 mil.

A institucionalização de famílias dentro do Estado representa uma afronta a qualquer pretensão de organização da sociedade de maneira democrática. No sistema judicial há grande ênfase em muitas das dimensões familiares (7). Nos grandes escritórios jurídicos, as relações familiares também são importantes. O familismo e o nepotismo do Judiciário produzem e reproduzem diversas formas de desigualdade social. Estas relações formam grandes redes de interesse e de nepotismo dentro do Estado junto aos poderes executivo, legislativo, judiciário, os tribunais de contas, o ministério público, os cartórios, as mídias e alguns setores empresariais.

É inacreditável que estes distintos operadores da classe dominante creiam que estariam a nos “civilizar pelo rigor das leis”. O desejo de justiça e democracia é bloqueado pelo Judiciário que favorece privilégios. É a mordomia de toga, marca do autoritarismo que resta na sociedade brasileira. Nessas condições, não pode haver ilusões quanto a qualquer auto-reforma do Judiciário. A pressão de diversos juízes e desembargadores para esvaziar as funções do CNJ demonstra que o Judiciário brasileiro é corporativista, defensor de privilégios e tem ojeriza à plebe. E para piorar é protegido contra o povo e não submetido a eleições.

NOTAS
 
(1) http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/a-grande-familia-de-gilmar-mendes/


(2) Ler, entre outros textos, http://www.plantaobrasil.com.br/news.asp?nID=84109


(3) O Globo. Marcos Cavalcanti – 16.11.2009

http://oglobo.globo.com/blogs/inteligenciaempresarial/posts/2009/11/16/mulher-de-gilmar-mendes-vaitrabalhar-com-advogado-de-daniel-dantas-240837.asp

(4) http://www.cartacapital.com.br/politica/esposas-a-tiracolo-7116.html

(5) Um dos estudos é o de Frederico Normanha Ribeiro de Almeida em sua tese de doutorado (USP) – “A nobreza togada: as elites jurídicas e a política da Justiça no Brasil”.


(6) http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/04/1266496-magistrados-emplacam-parentes-no-tj-rj.shtml


(7) ttp://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/06/juizes-estaduais-e-promotores-eles-ganham-23-vezes-mais-do-que-voce.html


(8) Ver estudo de Ricardo Costa de Oliveira sobre o nepotismo no Poder Judiciário. Disponível em: http://www.encontroabcp2014.cienciapolitica.org.br/resources/anais/14/1403654137_ARQUIVO_ABCP2014-final-Politica.pdf

Fernando Marcelino


Natural de Curitiba, é militante do MTST\PR. Também é mestre em Ciência Política e Doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O manifesto do congresso (acadêmico), por CHRISTY WAMPOLE (Revista Serrote)

PICICA: "Ritual obrigatório em universidades de todo o mundo, o congresso naufraga em hábitos pouco questionados e parece servir menos ao debate que aos critérios de produtividade pura e simples das “Administrativersidades”. Em dez regras bem-humoradas, a ensaísta americana propõe um código de conduta que, para ela, pode salvar o estudo das Humanidades."

O manifesto do congresso (acadêmico)
por CHRISTY WAMPOLE

Ritual obrigatório em universidades de todo o mundo, o congresso naufraga em hábitos pouco questionados e parece servir menos ao debate que aos critérios de produtividade pura e simples das “Administrativersidades”. Em dez regras bem-humoradas, a ensaísta americana propõe um código de conduta que, para ela, pode salvar o estudo das Humanidades.



Estamos fartos de congressos acadêmicos.

Somos humanistas que reconhecem pouquíssima humanidade na forma e no conteúdo dos congressos.

Temos ouvido com paciência e educação comunicações lidas linha após linha, em voz monótona, por um orador que não levanta os olhos uma vez sequer. E temos pensado se não seria melhor ler o paper antes, sozinhos, prestando muito mais atenção ao que está sendo dito.

Temos tentado ignorar a falta de uma tese ou mesmo de uma frase interessante ao longo da comunicação de vinte minutos.

Temos assistido, boquiabertos, oradores que tentam espremer em vinte minutos uma conferência que duraria meia hora, lendo rápido demais para serem entendidos.

Temos sido um daqueles dois conferencistas numa mesma mesa de debates.

Temos sofrido em silêncio enquanto alguém ocupa toda a sua fala simplesmente listando os momentos em que determinado tema aparece em um romance.

Nossos rostos têm se contorcido quando colegas se comportam como se tivessem entendido o academiquês de um conferencista.

Temos prestado atenção nos primeiros cinco minutos de uma comunicação, tempo suficiente para pinçar uma palavra em torno da qual construiremos uma pseudopergunta para a sessão de “perguntas da plateia”.

Temos pedido a debatedores que “falem um pouco mais sobre isso”, “desenvolvam aquilo” ou “explicitem isso um pouco mais”.

Temos ouvido nossos colegas fazerem perguntas relacionadas às próprias pesquisas e que só têm relevância para eles mesmos.

Temos mandado ou recebido bilhetes durante uma sessão particularmente penosa dizendo: “Quero morrer”.

Temos criado intimamente uma taxonomia dos vários tipos de conferencistas: o contestador, o animador de auditório, o desenturmado, o cabeção, o citador compulsivo, o conformista, a xerox do orientador, o carinha da filosofia.

Temos enchido nossos caderninhos com rabiscos e respondido a e-mails desimportantes enquanto estamos na plateia de um debate.

Temos roído as unhas contando as cadeiras vazias da sala.

Em congressos nacionais, só temos assistido à nossa própria fala, passando o resto do fim de semana no bar da piscina, onde de certa forma se aprende mais sobre as chamadas liberal arts.

Temos pensado em patentear um bingo para congressos em que os jogadores na plateia recebem cartões quadriculados com várias palavras do vocabulário acadêmico, que devem ser marcadas quando ditas pelos conferencistas – “subsemântico”, “dialético”, “normatividade”, “mitopoético”, adjetivações a partir do nome de filósofos (derridiano, deleuziano) e os “pós-” alguma coisa.
Temos sonhado com o momento em que, como num vaudeville, uma bengala gigante surgirá dos bastidores para arrancar do púlpito o conferencista tedioso.

Temos pensado: “Se é isso que as Humanidades se tornaram, será que deveriam continuar a existir?”

****
 
Congressos acadêmicos são um hábito do passado, acolhido pela Administrativersidade como forma de exibir conhecimento e aumentar a produtividade com a publicação das atas do que é dito ali. Temos sido cúmplices. Até hoje.

Achamos que está na hora de nos perguntarmos: qual o objetivo dos congressos? O que nos levou a organizá-los, ano após ano, sem questionar seus fundamentos? Existe outro modo de reformatar o congresso ou mesmo de acabar com ele, substituindo-o por algo mais satisfatório para todo mundo dos pontos de vista intelectual, profissional e social? Quais nossas reais motivações para organizar um congresso? E para participar de um deles? Para lustrar os currículos? Para conhecer pessoas? Para nos atualizarmos sobre o que está sendo feito em nossa área?

Se, como muitos professores confessam em particular, o congresso é uma forma fácil e conveniente de encontrar todos os amigos ou conhecer novos colegas, não deveríamos substituí-lo por uma reunião menos formal? Algo como um salon philosophique que durasse três dias? Ou grandes grupos de trabalho? Um encontro para paquerar, tipo speed-dating, ou um retiro para montanhistas? Por que um estudante deveria pagar centenas de dólares – frequentemente do próprio bolso – por passagem de avião e hotel para terminar falando diante de três pessoas, duas delas amigos que ficaram sabendo da comunicação na noite anterior, no quarto do hotel? Se alguém acha que os congressos são uma instância legítima, por que todos sempre voltam resmungando, num estado de espírito que vai da decepção ao ódio?

Sabemos que é um assunto delicado. Os congressos parecem necessários, mas seus objetivos não são claros. Têm grande potencial para ajudar a revitalizar as Humanidades, mas ainda não se mostraram à altura desse potencial. Sabemos que não estamos falando por todo mundo. Alguns professores adoram congressos. Adoram o ritual descrito anteriormente. No entanto, percebemos uma impaciência cada vez maior entre muitos deles, que reviram os olhos e suspiram nas conversas pós-congressos. Por isso apresentamos este tema como um tópico de discussão.

Não esperamos que o sistema dos congressos mude de uma hora para outra. Enquanto isso, humildemente submetemos o seguinte contrato, que pode ser distribuído para seus conferencistas antes do próximo encontro. Para ser aceito no congresso, o conferencista teria de ler e assinar um termo em que se compromete com as seguintes regras:

1. Estou ciente de que o paper apresentado deve ter uma função que não pode ser satisfeita por um artigo. Uma vez que o congresso envolve contato direto e em tempo real com outros seres humanos, o orador deve aproveitar esta oportunidade rara e, portanto, preciosa, para interagir efetivamente com outros professores.

2. Não lerei meu paper linha a linha, monocordicamente, sem olhar para o público. Não tenho necessariamente que recorrer a um imperativo de entretenimento – como contar piadas e anedotas ou mostrar slides animados –, mas me empenharei para manter certa compaixão com meu atento público.

3. Estou ciente de que uma lista não é uma conferência. Não farei simplesmente uma lista de ocorrências de um tema em um determinado corpus.

4. Defenderei uma tese e, se não tiver uma, terei pelo menos um motivo para justificar a existência da minha fala.

5. Farei o mínimo de citações literais possível, sem me amparar nelas para ocupar o tempo. Estou ciente de que os membros da plateia tremem diante de grandes blocos de texto no PowerPoint ou no resumo impresso que é distribuído.

6. Na sessão de perguntas, não farei uma pergunta irrelevante apenas para ser visto fazendo uma pergunta. Se minha questão for hiperespecífica e sem sentido para qualquer pessoa além de mim, conversarei depois, pessoalmente, com o conferencista.

7. Não farei uma afirmação com ponto de interrogação no final, para que soe como uma pergunta.

8. Se eu fizer uma pergunta para valer, a) não levarei mais de um minuto para fazê-la e b) farei a pergunta da forma mais educada possível, mesmo se discordar do conferencista.

9. Respeito o tempo dos colegas que vieram me ouvir falar. Farei o máximo para ser o mais claro e sucinto possível, de modo que a presença deles valha a pena.

10. Estou ciente de que, se desobedecer a estas recomendações, serei cúmplice da morte das Humanidades.

CHRISTY WAMPOLE é professora assistente do departamento de francês e italiano na Universidade de Princeton e acaba de lançar a coletânea de ensaios The Other Serious: Essays for the New American Generation. Este ensaio foi publicado originalmente no blog Opinionator, do New York Times, onde também saíram “Como viver sem ironia” e “A ensaificação de tudo”, traduzidos no site da revista serrote.

Tradução de PAULO ROBERTO PIRES


janeiro 26, 2016

De la locura de la horda a los triunfos de las religiones, por Éric Laurent (AMP Blog)

PICICA: "El viernes 27 de noviembre, François Hollande pronunció un discurso en el Hôtel des Invalides para rendir homenaje a los 130 muertos del Bataclan y de las terrazas parisinas: “Una horda de asesinos mató a 130 de los nuestros e hirió a centenares en nombre de una causa loca y de un dios traicionado”. La palabra horda es freudiana, pero Freud la remitía a la horda ‘paterna’, término con el cual calificaba el pasaje de un modo de organización social de los primates a un modo de organización de los homínidos, marcado por un asesinato original, el asesinato del padre, que abría paso a la sociedad de hermanos. Este momento de pasaje, a la vez que era original, no cesaba de repetirse."

De la locura de la horda a los triunfos de las religiones, por Éric Laurent




El viernes 27 de noviembre, François Hollande pronunció un discurso en el Hôtel des Invalides para rendir homenaje a los 130 muertos del Bataclan y de las terrazas parisinas: “Una horda de asesinos mató a 130 de los nuestros e hirió a centenares en nombre de una causa loca y de un dios traicionado”. La palabra horda es freudiana, pero Freud la remitía a la horda ‘paterna’, término con el cual calificaba el pasaje de un modo de organización social de los primates a un modo de organización de los homínidos, marcado por un asesinato original, el asesinato del padre, que abría paso a la sociedad de hermanos. Este momento de pasaje, a la vez que era original, no cesaba de repetirse. 

“Los sentimientos sociales fraternos sobre los cuales descansa la gran subversión conservan a partir de entonces y por mucho tiempo el influjo más hondo sobre el desarrollo de la sociedad. Se procuran expresión en la santidad de la sangre común, en el realce de la solidaridad entre todo lo vivo que pertenezca al mismo clan. [...] Previenen que pueda repetirse el destino del padre. A la prohibición, de raigambre religiosa, de matar al tótem se agrega la prohibición, de raigambre social, de matar al hermano. Pasará mucho tiempo hasta que ese mandamiento deje de regir con exclusividad para los miembros del linaje y adopte el sencillo texto: ‘No matarás’. Para empezar, la horda paterna es remplazada por el clan de hermanos, que se reasegura mediante el lazo de sangre. La sociedad descansa ahora en la culpa compartida por el crimen perpetrado en común; la religión, en la conciencia de culpa y el arrepentimiento consiguiente; la eticidad, en parte en las necesidades objetivas de esta sociedad y, en lo restante, en las expiaciones exigidas por la conciencia de culpa.”(1)
“Al introducirse las divinidades paternas, la sociedad sin padre se trasmudó poco a poco en la sociedad de régimen patriarcal. La familia fue una restauración de la antigua horda primordial y además devolvió a los padres un gran fragmento de sus anteriores derechos. Ahora había de nuevo padres, pero las conquistas sociales del clan fraterno no fueron resignadas, y la distancia fáctica entre los nuevos padres de familia y el irrestricto padre primordial de la horda fue lo bastan- te grande para asegurar la perduración de la necesidad religiosa y la conservación de la insaciada añoranza del padre.”(2) Situar el lugar de la comunidad en sus relaciones con la sociedad de hermanos es crucial para apreciar el modo de comunidad que el Presidente de la República calificaba de horda, esta sociedad sin padres: “Kelkal, Merah, Nemmouche, Kouachi, Coulibaly, aquellos que perpetraron los atentados del 13 de noviembre, salieron todos de barrios populares. La mayo- ría creció en familias desarmadas donde la figura del padre desapareció o se marginó. La autoridad del hermano tomó el lugar del padre. Es muy claro en Merah.”(3) No hay autoridad paterna, lo que colectiviza es primero un rechazo: “Los terroristas provienen de una clase social que los anglosajones llaman ‘disaffected youth’. Una juventud venida a menos, que se siente rechazada, marginalizada, victimizada. Padece un fuerte sentimiento de odio a la sociedad, un sentimiento de indignidad profundamente interiorizado.”(4) ¿Cómo describir esta juventud en peligro respecto a su modo de formar horda? 


Continúe leyendo Aquí


Traducción: Lorena Buchner. 

* Este texto es la transcripción de una parte de la conferencia dada en Brest el 16/1/2016 bajo el título “La locura en el siglo XXI y los triunfos de las religiones”. Publicado en francés el 17/1/2016 en L’Hebdo Blog N° 56: http://www.hebdo-blog.fr/de-la-folie-de-la-horde-aux-triomphes-des-religions/

1-. Freud, S., “Tótem y tabú”, en Obras Completas, Tomo XIII, Amorrortu, Buenos Aires, 1980, pp. 147-148. 
2-. Íbid., p. 151.

3-. Entrevista al sociólogo Farhad Khosrokhavar, por Céline Castello, “Moins ils connaissent l’islam, plus ils sont attirés par le djihad", Sitio web del Nouvel Obs, 26/11/2015, http://tempsreel.nouvelobs.com/attentats- terroristes-a-paris/20151125.OBS0162/moins-ils-connaissent-l-islam-plus-ils-sont-attires-par-le-djihad.html
4 Íbid.

Fuente: AMP Blog

Daquele Instante em Diante (filme completo em HD) - documentário de Rogério Velloso sobre o músico e poeta Itamar Assunção

PICICA: ""Daquele Instante em Diante" documenta em profundidade a vida e a trajetória artística do músico e poeta Itamar Assumpção, morto em 2003 de câncer aos 53 anos. Ele foi um dos pilares de um momento da música popular brasileira que se convencionou chamar de "Vanguarda Paulista". Dono de uma personalidade vulcânica, Itamar construiu sua obra magistral de forma praticamente independente, à revelia da indústria cultural - e estabeleceu com ela, desde cedo, uma relação turbulenta. Íntegro e muitas vezes bem intransigente, sua postura lhe custou o rótulo de "maldito" e acabou por colocá-lo à margem (muitas vezes de forma dolorosa) do que se entendia por "sucesso comercial" (sucesso Itamar fazia a seu modo, com shows lotados e longas temporadas em São Paulo, turnês pela Europa...).

Partindo de uma pesquisa extensa que resultou em mais de 250 horas de imagens (muitas antológicas e inéditas) e de um mergulho no universo pessoal deste incrível artista, o filme apresenta suas várias facetas: o compositor, poeta, arranjador, o performer apaixonado por orquídeas, o pai de família, o iconoclasta, refém de clichês como o "gênio incompreendido". Itamar vem à tona através de uma trama poética, intuitiva, onde fatos e depoimentos falam mais alto que idéias preconcebidas.

São Paulo, 110 min, 2011

realização INSTITUTO ITAÚ CULTURAL E MOVIEART
direção ROGÉRIO VELLOSO
produção executiva CAROL DANTAS
roteiro de edição GEORGE QUEIROZ
montagem GEORGE QUEIROZ / ROGÉRIO VELLOSO / PAULO MENDEL
pesquisa de conteúdo MAURICIO PEREIRA
pesquisa de imagens SOLANGE SANTOS
direção de produção CRISTIANNY ALMEIDA
assistente de direção e decupagem MARIANA FAGUNDES
fotografia HELCIO "ALEMAO" NAGAMINE
câmera HELCIO "ALEMÃO" NAGAMINE / ROGÉRIO VELLOSO / MARIANA FAGUNDES / DIEGO GARCIA
edição de som e mixagem SERGIO FOUAD
logger e primeiro assistente de câmera DIEGO GARCIA
segundo assistente de câmera RIVERTE "BABU" CRUZ
operador de áudio MÁRCIO TEIXEIRA
assistente de produção e arquivos MONICA MEDICI
motorista ÉLCIO CACHIATORE
sonorização ESTÚDIO SAX SO FUNNY
mixagem 5.1 SERGIO FOUAD / CLEMENT ZULAR / ESTÚDIO ÁUDIO PORTÁTIL
assistentes de mixagem FLAVIO PEREIRA / BRUNO CAMARA
videodesign RICARDO FERNANDES
letreiros RICARDO FERNANDES / RICARDINHO FILOMENO / GUILHERME PULICE / WAGNER VIANA
stop motion e videoarte ROGÉRIO VELLOSO
encerramento: obra livremente derivada de "O Homem Polvo", de Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz Chagas
ilustrações originais de ITAMAR ASSUMPÇÃO
coordenação de finalização DIULLE SORRENTINO / MARCELO BARROS / ISABEL MATTOS
assistente de montagem e finalização FEZAO BARBIERI
cobertura on line & imagens de arquivo FRANCISCO MOSQUERA
assistentes de finalização ELTON BRONZELI / RAFAEL ELAMES / KAUÊ BREGOLA / BRUNO RAZUK
suporte técnico PIXEL TECHNOLOGY / LUIZ CAMPEDELLI / RENATO SOUZA
pos produçao DOT
direção geral de pós-produção JOSÉ FRANCISCO NETO, ABC / FERNANDO FRAIA
coordenaçâo de pós-produção GIBA YAMASHIRO / GLEICE LICA
atendimento de pós- produção MAGALI WISTEFELT
color grading MARCO OLIVEIRA / JUNIOR XIS
coloristas assistentes ALEXANDRE CRISTOFARO / RAFAEL YAMIN
edição on line HENRIQUE REGANATTI / TADEU PARRILO FREDE
estagiária MARTA TELES / GUSTAVO VEIGA
telecinagem super 8 mm ESTUDIOS MEGA -- Rio de Janeiro
produção MOVIEART
coordenação de produção CLAUDIA REGINA DE MORAES
gerência administrativa ELIANA IZIPETO
gerência financeira MÁRIO ARINO
secretária de produção TATIANA BARBOSA
coordenação de tráfego MARIA APARECIDA DE SOUZA
contabilidade JOSÉ PEREIRA DE SOUZA
coordenação de estúdio VANDERLEY SENA SILVA
contra-regra ANA BARBOSA
transporte VALDIR SEVERINO / RONALDO DE FREITAS / JOAO INACIO DE AQUINO"



Daquele Instante em Diante (filme completo em HD) from Rogerio Velloso on Vimeo.

Daquele Instante em Diante (filme completo em HD) from Rogerio Velloso


Billie Holiday: a estranha fruta das árvores do Sul. Por Tainara Gomes (OBVIOUS)

PICICA: "Billie Holiday eternizou com sua voz intensa uma das maiores canções de protesto contra o racismo e o linchamento de negros nos Estados Unidos. ''Strange Fruit'' é a tradução do horror e da violência sofrida pelos afro-americanos durante os anos de segregação racial." 



Billie Holiday: a estranha fruta das árvores do Sul


Billie Holiday eternizou com sua voz intensa uma das maiores canções de protesto contra o racismo e o linchamento de negros nos Estados Unidos. ''Strange Fruit'' é a tradução do horror e da violência sofrida pelos afro-americanos durante os anos de segregação racial.

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Em 1936 o judeu, professor universitário, escritor e compositor Abel Meerepol, usando seu pseudônimo Lewis Allan, escrevia o poema que mais tarde se eternizaria na voz de Billie Holiday, uma das maiores divas do jazz. ''Strange Fruit''(fruta estranha) não é apenas uma canção, é um grito de protesto contra o racismo. O poema de três estrofes nasceu após Meerepol ver a fotografia de um linchamento em uma revista de direitos civis. A ''fruta estranha'' faz alusão aos corpos dos negros torturados e enforcados em uma árvore. 

Uma história sobre um bárbaro linchamento e o ódio racial Em 7 de agosto de 1930, em Marion situada no estado de Indiana, nos Estados Unidos. Um jovem branco acusou os negros: Abram Smith, James Cameron e Shipp Thomas de terem estuprado a sua namorada, as acusações eram falsas. Mais de 10 mil homens brancos reuniram-se armados com marretas em frente a delegacia. Os rapazes foram tirados da prisão, em seguida foram espancados violentamente e enforcados. James Cameron não foi assassinado porque o tio da moça insistiu que ele era inocente. Em 1982 Cameron publicou o livro “A Time of Terror: A Survivor’s Story”(A Hora do Terror: A História de um sobrevivente). A fotografia dos assassinatos de Smith e Thomas se tornou famosa, o fotógrafo Lawrence Beitler passou dez dias sem dormir para reproduzi-la, as cenas de horror venderam milhares de cópias. Essa imagem inspirou Meeropol a escrever o poema ''Strange Fruit''.

linchamento de negros em marion indiana.jpg Linchamento dos jovens negros Shipp Thomas e Abram Smith(Foto: Lawrence Beitler)

O jornalista americano David Margolick, autor do livro ''Strange Fruit- Billie Holliday e a biografia de uma canção'', relata os motivos pelos quais ocorriam os linchamentos- pequenos delitos, estupro, insultar uma pessoa branca e até comprar um carro. ''Era apenas hora de lembrar aos negros 'metidos' que deles deviam saber qual era o seu lugar”. Grande parte dos crimes ocorriam em cidades pequenas e relativamente pobres, era uma espécie de diversão, onde parte da população se reunia para assistir negros serem torturados e pendurados em árvores, para exibir o ato. 

As fotografias do linchamentos de negros eram transformadas em cartões postais, era uma forma de enaltecer o orgulho racista. A violência contra negros era comum, inclusive a própria polícia era conivente. Na canção “Desolation Row”(Corredor da Desolação), Bob Dylan registrou o seguinte trecho: “Eles estão vendendo cartões postais do enforcamento”. Tempos depois as imagens geraram uma onda de revoltas e impulsionaram a luta a favor dos direitos civis da população negra.

Segundo a Equal Justice Inative, organização responsável pelo relatório sobre a história dos linchamentos nos Estados Unidos, cerca de 3.959 negros foram vítimas de ''linchamentos raciais terroristas'' em 12 estados do Sul, entre os anos de 1877 e 1950.

O poema chegou as mãos de Billie Holiday em 1939, já em forma de canção. Billie era frequentadora do Café Society- boate em Greenwich Village frequentada por setores progressistas em Nova Iorque, o local tinha como frequentadores negros e brancos. No dia 20 de abril do mesmo ano ocorreu a gravação da música, em uma pequena gravadora chamada ''Commodore Records''. 

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Na escuridão da sala da boate uma pequena e fosca luz apresenta o rosto de Billie Holiday, que ao som do piano entoava uma das músicas mais perturbadoras e ácidas do jazz. Com toda certeza, não era uma música segura para se cantar, e mesmo nos lugares onde era seguro cantar ela causava um enorme desconforto. Barney Josephson, fundador do Café society, chegou a pedir que Billi encerasse as apresentações com ela. 

Ao interpretar a canção Billie não era apenas uma negra cantando para uma plateia branca, como era de costume nas casas de show da época, era uma negra dizendo: ''agora me ouça!'' Nas rádios tornou-se uma música quase proibida, causava um grande mal estar nos ouvintes. Negros e brancos não queriam ouvir aquela música tão impactante. 

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No ano que Billie gravou a canção apenas três linchamentos foram registrados, porém o fim de tais atrocidades ainda estava longe. Até meados de 1860 negros eram impedidos de exercerem seus direitos civis e políticos. A organização terrorista fundada em 1866 - a Ku Klux Klan- espalhava o caos e o terror na comunidade negra. Nessa época negros eram impedidos de frequentarem as mesmas escolas que brancos ou sentarem nos mesmos assentos que eles nos ônibus. Dezesseis anos depois da canção ter sido gravada, a ex-costureira Rosa Parks recusou-se a sentar no lugar reservado para negros em um ônibus de Montgomery, no Alabama. Seu ato de coragem desencadeou uma onda de protestos e boicote contra o sistema coletivo da cidade, nesse movimento surgia a figura que mais tarde se tornaria o símbolo da luta contra o racismo na América, o pastor Matin Luther King.

Billie Holiday morreu em 1959, aos 44 anos. Ela fazia o uso abusivo de álcool e era viciada em heroína. A própria Billie deu uma declaração em 1947, onde afirmava ter feito uma porção de inimigos por conta da música. Entretanto, deixou eternizada a canção que é um dos maiores hinos contra o racismo. ''Strange Fruit'' era uma extensão da Billie, se tornaram únicas e inseparáveis. A música embalou a campanha de Ben Davis Jr, primeiro negro a ser eleito em Nova Iorque, a própria Billie a interpretou. Em 1999 ''Strange Fruit'' recebeu o título de Canção do século, a condecoração foi concedida pela revista Time.


Tradução da canção Strange Fruit (Fruta Estranha):

Árvores do sul dão uma fruta estranha, Sangue nas folhas e sangue nas raízes, Corpos negros balançando na brisa do sul, Frutas estranhas penduradas nos álamos.

Cena pastoril do heróico sul, Os olhos inchados e a boca torcida, Perfume de magnólias, doce e fresco, E de repente o cheiro de carne queimada.

Aqui está a fruta para os corvos puxarem, Para a chuva recolher, para o vento sugar, Para o sol apodrecer, para a árvore pingar, Aqui está a estranha e amarga colheita.



Tainara Gomes

Sou o que costumo classificar como: pararelo entre a fantasia e a realidade..

Fonte: Obvious