PICICA - Blog do Rogelio Casado - "Uma palavra pode ter seu sentido e seu contrário, a língua não cessa de decidir de outra forma" (Charles Melman) PICICA - meninote, fedelho (Ceará). Coisa insignificante. Pessoa muito baixa; aquele que mete o bedelho onde não deve (Norte). Azar (dicionário do matuto). Alto lá! Para este blogueiro, na esteira de Melman, o piciqueiro é também aquele que usa o discurso como forma de resistência da vida.
Mostrando postagens com marcador I Conferência Municipal de Saúde Mental. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador I Conferência Municipal de Saúde Mental. Mostrar todas as postagens
maio 05, 2010
Pela implantação de Casas de Passagem para a população de rua com transtorno psíquico
RogelioCasado — 23 de abril de 2010 — Nivaldo de Lima, o fotógrafo dos esquecidos, desenvolveu uma pedagogia de aproximação com a população de rua, de fazer inveja ao Projeto Axé, da Bahia - projeto criado por Cesare La Roca, que morou em Manaus nos anos 1970. Conheça mais um dos personagens anônimos de Manaus (o vídeo é de autoria de Nivaldo de Lima, o fotógrafo dos esquecidos).
***
Nota do blog: Autoridades de saúde não perdem nada em ouvir Nivaldo de Lima e suas propostas para os cuidados requeridos pela população de rua. A propósito, a I Conferência Municipal de Saúde Mental além de ter proposto a substituição do Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro - instituição que simboliza a violência institucional contra os loucos - por um Hospital de Clínicas, com a manutenção do atendimento às crises dos portadores de sofrimento psíquico, ainda aprovou a implantação de Casas de Passagem para a população de rua com transtorno psíquico.
Marcadores:
I Conferência Municipal de Saúde Mental,
nivaldo de lima,
o fotógrafo dos esquecidos,
população de rua,
transtorno psíquico
maio 04, 2010
O protagonismo dos usuários de saúde mental
RogelioCasado — 2 de maio de 2010 — Nivaldo de Lima fala do trabalho fotográfico com a população de rua.
***
Nota do blog: Nivaldo de Lima, o fotógrafo dos esquecidos, assim nomeado numa matéria de jornal assinada pela jornalista Vera Lima, participou da I Conferência Municipal de Saúde Mental. Seu objetivo era entrevistar os usuários dos serviços de saúde mental da cidade de Manaus. Para sua surpresa, quase todos os usuários eram da Associação Chico Inácio - filiada à Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial, num total de 6 pessoas. Ora, é sabido que a reforma psiquiátrica é composta de três segmentos: familiares, usuários e técnicos de saúde mental. Estes últimos eram maioria. Quanto aos familiares, apenas duas mães se faziam presentes, e, mais uma vez, ambas filiadas à Associação Chico Inácio. Para uma Conferência que foi conquistada nas ruas de Brasília pela Marchas dos Usuários, em 30 de setembro de 2010, o nível de politização dos usuários de saúde mental do Amazonas ainda é um dos mais baixos do país. Concorre para isso uma visão alienante do protagonismo dos usuários na Reforma Psiquiátrica Antimanicomial que queremos. As esperanças se voltam para a II Conferência Estadual de Saúde Mental. Com a palavra os usuários de saúde mental.
maio 03, 2010
Usuários de saúde mental e a Conferência Municipal de Saúde Mental
RogelioCasado — 1 de maio de 2010 — Depoimento da psicóloga Luciana, do Centro de Atenção Psicossocial Silvério Tundis, implantado em 6 de maio de 2006, na gestão de Rogelio Casado à frente da Coordenação Estadual de Saúde Mental (2003-2007).
***
Nota do blog: A implantação do CAPS Silvério Tundis se reveste de importância porque marca o período em que a Reforma Psiquiátrica deixa para trás a letargia que marcou os anos 1990. Entretanto, nem tudo são flores. Estrategicamente, pretendíamos repassar o primeiro CAPS de Manaus para o poder municipal - a quem compete a implantação de uma rede de CAPS na cidade -, mas até hoje ele continua ligado ao poder público estadual, com equipe que não corresponde às exigências das portarias ministeriais. Tais portarias estabelecem o número e o tipo de profissionais para os CAPS de tipo III. São os CAPS tipo III que credenciam as autoridades sanitárias a desmontar a instituição psiquiátrica, instituição histórica da violência. Ou seja, tão cedo o hospício local não poderá ser desativado. Quanto à presença de usuários na Conferência Municipal de Saúde Mental, ela se refere aos usuários de saúde mental - responsáveis pela conquista da Conferência Nacional de Saúde Mental. O esclarecimento se faz necessário porque já houve, no passado recente, o uso indevido do conceito por um contumaz manipulador, que usou a versão genérica (usuário do SUS) para garantir sua presença num espaço que não lhe diz respeito.
I Conferência Municipal de Saúde Mental
RogelioCasado — 18 de outubro de 2009 — Manaus tem 2 milhões de habitantes, 1 hospício, 2 ambulatórios e apenas 2 CAPS. É de morrer de vergonha. A ACI luta por uma reforma psiquiátrica antimanicomial. Por mais CAPS, leitos psiquiátricos em hospitais gerais, residências terapêuticas, centros de convivência e pela substituição do hospício por um hospital geral.
***
I Conferência Municipal de Saúde Mental
Entre os dias 27 a 29 de abril aconteceu a I Conferência Municipal de Saúde Mental. A Associação Chico Inácio (ACI) – filiada à Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial – participou da organização do evento.
Depois de um imbróglio - no único dia em que a ACI não se fez presente numa reunião da comissão organizadora - que por pouco teria rifado meu nome, graças à defesa dos representantes dos movimentos sociais foi garantido minha participação na mesa redonda sobre a consolidação da rede de atenção psicossocial e fortalecimento dos movimentos sociais.
No convite à minha participação, pesou, curiosamente, minha condição de militante de movimentos sociais, sobretudo o da luta antimanicomial, do que minha representação intersetorial, face à minha ligação com a Universidade do Estado do Amazonas. O reconhecimento me encheu de orgulho, por um lado. Porém, não posso deixar de registrar que em quatro anos como Pro-Reitor de Extensão da Universidade do Estado do Amazonas prevaleceu um boicote provinciano, na medida em que se desprezou o potencial dessa instituição como parceira da Reforma Psiquiátrica.
A exceção à regra deu-se apenas uma vez, na verdade depois de uma provocação pessoal que fiz à coordenação da Residência Médica em Psiquiatria para discutir as saídas possíveis dos impasses vividos no seu terceiro ano de funcionamento. Ressalto que a referida residência foi por mim criada quando Coordenador Estadual de Saúde Mental (2003-2007).
Consegui driblar esse quadro de apatia deliberada, aproximando a Saúde Mental do Programa de Telessaúde da Universidade do Estado do Amazonas, ao articular um Programa de TelePsiquiatria, pelo qual responde o psiquiatra Francisco Assis, vinculado ao Pronto Atendimento Humberto Mendonça, da Secretaria Estadual de Saúde Mental. Através dele, mantemos um serviço de orientação e supervisão clínica para auxiliar médicos e equipes de saúde do interior do estado nos casos de cuidados médico-sociais de pessoas portadoras de sofrimento psíquico.
Na platéia identifiquei meus desafetos políticos:
1. um que fez uma falsa denúncia de desvio de recursos financeiros do ministério da saúde (verba que aqui só aportou por duas ocasiões, a da implantação do CAPS Silvério Tundis e da realização do censo da população psiquiátrica, quando já não respondia pela coordenação de saúde mental; informação que foi parar num jornal local sem direito de defesa);
2. outra que liderava o deslocamento de internos de longa duração do manicômio local para a periferia da cidade, numa operação típica das classes médias incultas que promovem a qualquer custo a limpeza do visual urbano sem atentar para a ausência dos equipamentos exigidos para uma efetiva inclusão de portadores de sofrimento psíquico na vida social, quais sejam: cultura, saúde, educação, para ficar nos três mais importantes.
3. um terceiro, cujo ódio visceral ao Partido dos Trabalhadores, do qual sou um dos fundadores, aliado ao pensamento retrógrado e conservador dos grupos de direita deste país, tinha como missão anarquizar lideranças que não rezam na cartilha do fascismo.
Curiosamente, estavam todos contidos. Nenhumas das suas antigas teses e práticas foram usadas durante os debates. Agiam com cautela, para não serem flagrados em contradições que seriam perceptíveis mesmo por um público carente de referências e práticas no âmbito da reforma psiquiátrica.
A conferência ocorreria sem incidentes, não fosse a grosseria de um contumaz provocador que tentou desqualificar os usuários de saúde mental, sendo advertido com firmeza pelos reais protagonistas da conferência. Quanto às questões controversas, fruto da ausência de pré-conferências, na sua grande maioria elas foram esclarecidas no plenário. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.
Protagonizei um episódio grotesco ao final do evento. A penúltima proposta, de minha autoria, foi duramente criticada por uma profissional de saúde mental manicomial. Eis a frase que detonou a defesa mais intrigante que ouvi naquele dia, sobretudo por sua defensora ter sido aluna do curso de especialização de saúde mental da Fiocruz: “Substituição do Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, instituição histórica da violência, por um hospital de clínicas”.
Na infeliz defesa, a profissional em causa usou como argumento o fato de que nunca usou de violência contra os usuários internados no hospício manauara. A criatura sequer suspeita da violência simbólica da instituição. Seria pedir muito que ela alcançasse esse nível de abstração. Ou que fosse ler Goffman. Esse fato grotesco talvez explique porque a Reforma Psiquiátrica patinou durante todos os anos 1990. É dose pra elefante o tamanho da alienação que retirou o Amazonas do mapa da Reforma Psiquiátrica, da qual fomos pioneiros.
A melhor resposta veio de dois usuários de saúde mental. Um lembrou-se do fim trágico de um usuário que morreu carbonizado, e da contenção física que ele próprio sofreu num banco do Pronto Atendimento. Outro, do tratamento desrespeitoso de um médico plantonista que destratou sua mãe, que o acompanhava num dos atendimentos.
Depois da proposta de construção de casinhas para os internos do hospício dentro do próprio hospício, só faltava essa defesa da não violência do manicômio para coroar a indigência de alguns setores que se dizem reformistas. Neste caso, não precisamos de reforma, mas de uma revolução no ensino e nas práticas de saúde.
Assinar:
Postagens (Atom)