PICICA - Blog do Rogelio Casado - "Uma palavra pode ter seu sentido e seu contrário, a língua não cessa de decidir de outra forma" (Charles Melman) PICICA - meninote, fedelho (Ceará). Coisa insignificante. Pessoa muito baixa; aquele que mete o bedelho onde não deve (Norte). Azar (dicionário do matuto). Alto lá! Para este blogueiro, na esteira de Melman, o piciqueiro é também aquele que usa o discurso como forma de resistência da vida.
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fevereiro 22, 2010
A teta assustada
A teta assustada
por Ana Al Izdihar – Vejo A teta assustada (Peru, 2009, em cartaz) e não consigo tirar da cabeça o mito grego de Gaia e o aprisionamento de seus filhos. Gaia é a representação da Mãe Terra, aquela que tudo faz pelos filhos, se sacrifica, doa seus frutos, mas também castra-os e aprisiona-os na intenção de sempre mantê-los ao seu lado e como ela quer.
Em fotografia espetacular, Claudia Llosa mostra um Peru maltratado por ditaduras e terrorismo em sua história recente e que engendra em seu ventre superstições, medo, repressão e… papas (batatas). A narrativa simples e direta de A teta assustada conta a estória de Fausta Isidra, uma menina com uma maldição. A mãe de Fausta fora violentada por terroristas quando estava grávida e seu leite teria posteriormente “envenenado” a bebê. Ao longo do filme o espectador pode descobrir a estória de Fausta e seguir desvendando os costumes, rituais e padrões culturais do Peru, porém sem explicação explícita. É a partir da poesia velada de Fausta que quem assiste se encanta com tudo ali exposto.
Os sacrifícios que estes filhos do Peru passam não são chocantes nem apelativos nesta narrativa. O que se vê são seqüelas sutis do seu passado ainda não totalmente integrado. A topografia da periferia de Lima, as casas e sua arquitetura adaptada ao clima seco, o idioma quéchua falado somente no meio familiar, festas de casamento, ritual funerário, uma representante de classe alta, a ligação íntima (sem trocadilho) de Fausta com a papa peruana e os conflitos entre estes itens montam o mosaico da Mãe Terra Peru e seus filhos que, mesmo pequenos em estatura, relembram os Titãs de Gaia e sua força descomunal, neste caso força emocional.
Fausta morava só com a mãe e se comunicava com ela por meio de cânticos; nunca tinha realmente conhecido o mundo fora de sua casa. Após o falecimento da mãe, Fausta tem de sair para o mundo e aprender a lidar com ele e a se relacionar através de códigos que ainda não dominava. Percebo que é uma narrativa bastante “matriarcal”, em que as mulheres têm mais voz do que os homens – quase fracos –, porém somente expressam seus respiros de sobrevivência num mundo aparentemente machista.
A batata ou la papa é de origem peruana e há uma infinidade de tipos de batata por lá, por isso este tubérculo é tão mencionado e tão importante para o povo. Há inclusive um ditado no Peru que diz “coma lo que coma, comalo com papa”. Não é à toa que Fausta bloqueia sua total maturação como mulher com o fruto mais nobre da Gaia-Peruana. E só se livra dela quando consegue finalmente enterrar sua mãe no mar.
Fausta segue como a harpa encantada, colhendo pérolas em troca de insights e aprendendo que aquilo que mais lhe dói pode se transformar em instrumento de libertação. Sua personalidade forte, em contraste com sua fragrância de menina e coração puro, nos toca de modo quase racional, mas nem por isso menos comovente e enriquecedor.
Fonte: Amálgama
novembro 08, 2009
Morreu Anselmo Duarte
Trailer do filme vencedor da PALMA DE OURO de Cannes 1962. Dirigido por Anselmo Duarte e produzido por Oswaldo Massaini.
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08/11/2009
Morre cineasta Anselmo Duarte de ‘O Pagador de Promessas’
Folhapress
São Paulo - Único brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes como diretor, o ator e cineasta Anselmo Duarte morreu na madrugada de ontem em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. Ele tinha 89 anos.
Duarte estava internado desde o último dia 27 na UTI do centro cirúrgico neurológico do hospital. O cineasta sofria de mal de Alzheimer e morava há cinco anos com o filho Ricardo em São Paulo. “Nesses últimos anos ele recebeu inúmeras homenagens. Recebi gente de todo o Brasil filmando documentários sobre ele”, disse Ricardo.
O corpo de Duarte seria velado durante a tarde e a noite de ontem no saguão principal da Assembléia Legislativa de São Paulo. Será sepultado às 11h30 de hoje no cemitério municipal de Salto (244 quilômetros de Bauru), cidade onde nasceu em abril de 1920.
Após fazer algumas pontas em cinema, Duarte estreou como ator em “Querida Suzana”, filme de 1946 que contava com Nicete Bruno e Tônia Carrero. A atuação lhe rendeu um contrato com a Atlântida, para a qual protagonizou longas como “Terras do Sem-Fim” e “Não me Digas Adeus”.
Concorrente da Atlântida, a produtora Vera Cruz contratou Duarte em 1952 para estrelar “Tico-Tico no Fubá”.
Já um ator reconhecido, Duarte passou, em meados dos anos 1950, a dedicar-se ao sonho de dirigir um filme. Em 1956, dirigiu e produziu um pequeno documentário, “Arara Vermelha”. Sua estreia em longas aconteceu no ano seguinte, com “Absolutamente Certo”. Estudou no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos, em Paris, em 1958, e participou de produções estrangeiras, como a portuguesa “As Pupilas do Senhor Reitor” e a espanhola “Un Rayo de Luz”.
Palma de Ouro
Sua consagração como diretor veio em 1962. Naquele ano, ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes pelo filme “O Pagador de Promessas”. Competiu com cineastas como Antonioni e Buñuel. Até hoje, nenhum outro diretor brasileiro repetiu tal feito.
Com uma trajetória à parte do cinema novo, nos anos 1960 dirigiu o elogiado “Vereda da Salvação” (1964), e longas como “Quelé do Pajeú” (1969). Nos anos 1970, seu trabalho tornou-se menos representativo. Em 1971, foi membro do júri do Festival de Cannes. O último trabalho como diretor foi “Os Trombadinhas”, em 1979, cujo protagonista era Pelé.
Homenagens
Nas décadas de 1980, e de 1990, viu seus trabalhos sendo pesquisados e analisados por diretores mais jovens. Foi tema de dezenas de documentários - entre eles “Cinema Pagador”, que ganhou o prêmio de melhor curta-metragem no Festival de Gramado em 2003.
O governo federal lançou em 1982 um selo comemorativo aos 20 anos da Palma de Ouro de “O Pagador de Promessas”. Dois anos depois, Duarte apresentou programa da TV Cultura que resgatava as produções da Vera Cruz. Em 1986, atuou pela última vez, em “Brasa Adormecida”, de Djalma Limongi Batista.
Depois de receber o prêmio Oscarito, em 1992, e de lançar “Adeus Cinema”, sua autobiografia - com ataques ao cinema novo, em 1993 -, voltou para Salto em 1995. Em 1997, foi convidado especial e homenageado junto com os diretores premiados vivos no 50.º aniversário do Festival de Cannes. Deixou quatro filhos.
Fonte: Jornal da Cidade
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