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agosto 17, 2010

PáginaDois: Pedro Cunha escreve sobre o filme "A Origem"

A Origem (Inception, Christopher Nolan, 2010)

por Pedro Cunha





“Se um tanto de sonho é perigoso, não é menos sonho que há-de curá-lo, e sim mais sonho, todo o sonho. É preciso conhecer totalmente os nossos sonhos, para não sofrermos mais com eles”
Marcel Proust em “Em Busca do Tempo Perdido”

É a primeira vez que eu começo um texto sobre um filme com uma epígrafe. Mas não tenha dúvidas, o filme merece. E merece também todo o confete que tem sido despejado sobre ele. Na verdade se Nolan exigisse traje de gala para cada um que fosse ao cinema ver o seu filme eu não acharia, depois de vê-lo, que ele estaria exagerando. O filme vale. Mas disso todo mundo suspeitava, vindo de quem veio.


Chris Nolan é um dos meninos de ouro da Hollywood de hoje. Ele apareceu para o mainstream com um filme no mínimo diferente: “Amnésia” (Memento, 2000). O próprio Nolan escreveu o roteiro, adaptado de um conto de seu irmão, Jonathan. O filme é um thriller de suspense onde o personagem de Guy Pearce é atormentado por uma doença rara que afeta a memória recente. Nolan caprichou na montagem do filme para passar ao espectador a mesma impressão que tem o personagem, construindo um filme que, em termos de montagem, é bastante surpreendente. Nolan se arriscou e fez um filme que poderia ser uma colagem inintendível e que, ao invés disso, se tornou badalado no circuito alternativo e lhe deu notoriedade. “Amnésia” custou cerca de 9 milhões de dólares e rendeu quase 40 milhões de dólares, fazendo com que Nolan aparecesse para os grandes estúdios. Seu filme seguinte, “Insônia” (Insomnia, 2002), já contou com um orçamento bem mais robusto (U$ 46 milhões) e respondeu positivamente nas bilheterias, arrecadando U$ 113 milhões e colocando Nolan numa categoria rara: um cineasta que se paga sem grandes campanhas de marketing ou sagas já existentes em outras mídias. Falando em personagens pré-existentes, o desafio seguinte de Nolan era reavivar a franquia Batman. Os dois filmes anteriores do morcego, feitos por Joel Schumacher, foram desastrosos e enterraram não só o Batman mas também os filmes de heróis em geral. Coseguiria Nolan, um diretor de filmes “realistas” e “pequenos”, levar o projeto de reavivar o Batman adiante? “Batman: o Retorno” (Batman Begins, 2005) zerou a franquia e mostrou que o diretor poderia atingir os grandes públicos, para a felicidade dos produtores. Nolan escalou um elenco sério e consagrado de atores reconhecidamente talentosos para o filme, alguns em papeis principais, outros mais secundários: Michael Caine fez o mordomo Alfred, Liam Neeson viveu Henri Decard, Gary Oldman foi o comessário (ainda detetive) Gordon, Ken Watanabe encarnou Ra’s Al Ghul e Lucius Fox foi interpretado por Morgan Freeman. Para o protagonista Nolan achou Christian Bale que recentemente havia feito o bom “Psicopata Americano” (American Psycho, Mary Harron, 2000). Bale deu conta do recado e se não é ainda o Batman/Bruce Wayne dos sonhos com certeza superou os antecessores Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney. “Batman: o Retorno” arrecadou mais de U$ 370 milhões e, mais importante do que isso, tornou Batman um produto sério e respeitável novamente. “O Grande Truque” (The Prestige, 2006), o filme seguinte de Nolan, foi uma volta à linha dos seus filmes anteriores, com mais uma atuação de Bale. O diretor lançou em 2008 a sequência de “Batman: O Retorno” e “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight) colocou, definitivamente, o nome de Nolan na história do cinema: o filme arrecadou estrondosos U$ 1 bilhão e contou com uma das grandes atuações de todos os tempos na telona, Heath Ledger como o Coringa. Ainda que não tivesse falecido logo depois do filme o Coringa de Ledger conseguiu um feito e tanto: é, indubitavelmente, melhor e diferente em relação ao Coringa de Jack Nicholson, de “Batman” (Tim Burton, 1989). “Batman: O Cavaleiro das Trevas” conseguiu andar numa linha muito tênue e ser unanimidade: sucesso de público, foi aclamado também pela crítica.

E agora? Para onde ir depois disso?


(atenção: o texto abaixo pode conter spoilers, ou seja, informações sobre a trama ou o conteúdo da história que podem frustar aqueles que, como eu, gostam de não saber nada sobre o filme que vão assistir. Veja o filme e depois leia com gosto...)

Dom Cobb, o Extrator
Nolan optou por realizar um sonho. O roteiro de “A Origem” era uma ideia dele mesmo na qual trabalhava desde os seus 16 anos. Depois de tanto burilar talvez tivesse chegado a hora de transformar o sonho em realidade. Ou a realidade em sonho, enfim. “A Origem” tem um roteiro denso. A quantidade de informação contida nos detalhes cuidadosamente calculados do filme incita o espectador a assistir o filme novamente. Nolan bebeu muito na fonte da psicologia e da interpretação dos sonhos. Há Jung para todos os lados no filme em objetos, lugares e palavras. Nolan brinca com a ideia dos arquétipos: os personagens do filme, além do nome, todos eles são definidos pela função que desempenham: há “O Extrator”, “O Arquiteto”, “O Turista”, “O Falsário”, “O Alvo”, “A Sombra”, “O Químico” e tantos outros. O próprio filme segue um modelo tradicional de “filme de roubo”: o surgimento de uma missão, a montagem de uma equipe, o planejamento do golpe e por fim a execução. Cobb, o protagonista, (O Ladrão) é um especialista em entrar no subconsciente das pessoas e extrair informações escondidas lá. É um negócio que paga bem. Mas ele precisa de ajuda. Precisa de um Pesquisador, o responsável por conhecer o seu alvo em detalhes, para tornar os sonhos críveis. E também de um Arquiteto, aquele que vai conceber o sonho onde o roubo vai acontecer. Cobb recebe uma proposta de negócio irrecusável: se conseguir o que seu empregador deseja ele será inocentado da acusação de assassinato que pende sobre sua cabeça. Mas o seu empregador quer algo diferente: ele não quer extrair uma informação de alguém, mas sim inserir uma ideia na cabeça de uma pessoa. Ao contrário do que pensam alguns dos envolvidos Cobb afirma que é possível, mas tem que compor um time maior: precisará de um Químico, para manter o Alvo sedado, já que terá que trabalhar por muito tempo, e de um Falsário, especialista em incorporar outras pessoas em sonhos. Além disso Cobb tem que lutar contra A Sombra, o espectro de sua esposas morta que o persegue e cada vez que ele entra no sonho de alguém. Além da dificílima tarefa de inserir uma ideia na cabeça de alguém Cobb ainda tem que lidar com o seu próprio subconsciente sabotando-o o tempo todo. Quem percebe isso é Ariadne, uma jovem talentosíssima cooptada por Cobb para ser A Arquiteta na missão. Ariadne percebe o problema de Cobb e esforça-se para ajudá-lo a sair do labirinto tramado pela sua própria mente. Não por acaso A Arquiteta tem o nome de Ariadne, a princesa grega que segurou o novelo de lã e auxiliou o heroi Perseu a sair do labirinto em Creta.
Ariadne, a Arquiteta
Nolan monta a trama vagarosamente. Primeiro apresenta os personagens e familiariza-nos com eles. Depois apresenta a missão. E o terceiro momento, que toma toda a segunda metade do filme, é uma espetacular sequência de cenas de ação. É nesse momento que Nolam mostra que é um diretor completo: faz um filme de personagem onde os atores tem oportunidade para atuar e ao mesmo tempo faz um estupendo trhiller de ação. As cenas de luta (em especial a cena em gravidade zero no hotel) são, repetindo um clichê, de tirar o fôlego. A superposição das camadas de sonho e os diferentes tempos, nas diferentes camadas do filme, Nolan dosa a tensão e quando nos damos conta o filme está frenético. É um caminhão desgovernado estrada abaixo, sem freio. Ao som de Piaf, Je ne regrette rien o filme aproxima-se do final. E o final, ao melhor estilo Nolan, não resolve a trama. Ou resolve, enfim. Isso é com cada um.
Saito, O Turista Arthur, O Homem dos Detalhes
O elenco foi pinçado a dedo pelo diretor. Cobb é vivido por Leonardo di Caprio. Antes eu suspeitava, hoje eu tenho certeza: é o melhor ator em atividade em Hollywood. O Pesquisador, Arhur é Joseph Gordon-Levitt. O ator que tornou-se conhecido por “(500) Dias Com Ela” ((500) Days of Summer) faz um papel completamente diferente, e coloca-se como uma espécie de contraponto de Cobb. Ellen Page, a eterna Juno, faz Ariadne, a Arquiteta. O resto da equipe é composta por Ken Watanabe (Saito, “O Turista”, o empresário que encomenda a inserção) e pelos menos conhecidos (mas ótimos) Tom Hardy (Eames, “O Falsário) e Dileep Rao (Yussuf, “O Químico). Cillian Murphy faz “O Alvo” e o sempre bom Michael Caine é o padrasto (ou sogro, enfim. Isso eu não achei claro) de Cobb. A oscarizada Marion Cotillard faz Mal, a projeção do inconsciente de Cobb da sua ex-mulher morta. O quão difícil é interpretar um personagem que não existe? Quão unidimensional tem que ser um personagem não é uma pessoa, mas sim a projeção que outra faz dela? Sem sombra de dúvida deve ser difícil, mas Cotillard tirou de letra. Além do elenco inteiro ser ótimo a direção de Nolan consegue tirar de cada um deles o que tem de melhor.
 Eames, o Falsário Robert Fischer, o Alvo
Ainda, a trilha sonora: Hans Zimmer, né. As composições próprias dele dão o tom do filme, entremeando-se com a onipresente Piaf, que canta durante todo o filme. Há na presença da voz de Piaff, intermitante, durante o filme inteiro, uma referência à personagem de Marion Cotillard, que ganhou o Oscar pelo papel da cantora francesa? Isso é uma pista de onde termina a realidade e começa o sonho? Ou é simplesmente uma coincidência? Existem coincidências nos sonhos? A trilha de Zimmer, em especial nas cenas de ação, que se passam nos três planos de sonhos diferentes (A Cidade da Chuva, O Hotel, A Fortaleza na Neve. Locais arquetípicos, novamente.). Como explicado no filme, em cada camada de sonho o tempo funciona numa velocidade diferente. O que fez com que Zimmer (e Nolan junto, talvez?) brincassem, como pode-se ver aqui. (agradecimentos ao Mau Oliveira pelo link).
Mal Cobb, A Sombra
A fotografia e os efeitos visuais também são caprichadíssimos. O mundo onírico tem uma luz muito própria. Ela é difusa, um pouco sem origem alguma. Nos sonhos das pessoas destacam-se às inúmeras referências à Escher, o artista da simetria e da ilusão. A ilusão, como todos sabem, consiste em enxergar o que não existe. A ilusão nada mais é do que uma trapaça que confunde o cérebro, como os personagens do filme também fazem.
A luta em gravidade zero, no hotel: já está na história do cinema...
O fim do filme retoma algumas das questões que estão na obra autoral de Nolan desde “Amnésia”, passando por “Insônia” e ainda em “O Grande Truque”. Uma dessas questões é o próprio fazer cinematográfico. Nada na vida é muito diferente de um filme, como o próprio Batman já mostrou em “O Cavaleiro das Trevas”. Sobre isso o Ticiano Osório escreveu um texto bem bacana na Zero Hora. E a principal questão de todas, talvez: o que é a realidade? O que existe além da nossa própria percepção? Há como ter certeza da sanidade e da realidade? Qual o limite do sonho e da fantasia? Até que ponto o mundo em que vivemos é uma criação de nós mesmos? Eu não sei. Leonard, em Amnésia, não sabe. Cobb, em “A Origem”, também não. Desconfio que o Nolan sabe. Só sabendo mesmo ele poderia brincar tanto com isso da maneira que ele faz.

PS: “A Origem” estreou em circuito comercial dia 16 de julho. Até o último final de semana o filme, que custou U$160 milhões já havia arrecadado mais de U$480 milhões. Nolan acertou na mosca, denovo.


Fonte: PáginaDois

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Tem mais novidades da semana no PáginaDois - 16.08


Hora de conferir as atualizações do PáginaDois!

Na seção de textos literários, as novidades ficaram por conta de:
"Diários de viagem", escrito por Clarice Casado e ilustrado por Cassiano Rodka;
"Quanto eu tentei dizer: Quando o eu mente", escrito por Bianca Rosolem e ilustrado por Luísa Hervé;
"Curto", escrito por Melissa de Menezes e ilustrado por Cassiano Rodka.
Na seção de música,
Cassiano Rodka deu "Um passeio pelos subúrbios com o Arcade Fire".
Na seção de cinema,
Pedro Cunha escreveu sobre o novo filme de Christopher Nolan, "A Origem".

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Boa leitura! :)

maio 10, 2010

O Segredo dos Seus Olhos


jor12gito 30 de outubro de 2009 — Excelente toma continua del estadio terminando en la tribuna. por: Juan José Campanella.

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O Segredo dos Seus Olhos
por Pedro Cunha


 


Prólogo
Antes de qualquer coisa gostaria de agradecer por esse espaço, onde pretendo dividir com vocês um pouco dessa paixão que eu tenho por filmes e cinema. Desde que recebi o convite do pessoal do PáginaDois estou ansioso pelo momento de começar. A ideia é que esse espaço funcione da seguinte maneira: toda quinta-feira haverá uma resenha de filme. Quando possível um filme novo, quando eu não tiver ido ao cinema, um filme antigo (ou nem tanto). Toda quinta, sem exceção. A partir de junho, nos outros dias da semana, farei pequenas atualizações (ou nem tão pequenas, costumo ser um pouco prolixo...) como em um blog, com novidades e comentários sobre cinema em geral. Enfim, obrigado a todos pela oportunidade. Acomode-se na sua poltrona, desligue o celular e respire fundo: a seção vai começar...

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