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agosto 08, 2010

Audiência Pública para debater propostas de mudanças na Lei de Drogas


Han458 | 14 de outubro de 2009
Pedaço da entrevista do Ministro Carlos Minc no Programa do Jô onde fala sobre a legalização das drogas.

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Nota do blog: A corajosa decisão do então Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, de se contrapor ao asfaltamento da BR 319, proposta pelo Ministro dos Transportes Alfredo Nascimento, embora tenha sido alicerçada em sólidos argumentos, mereceu as críticas mais estapafúrdias de que se tem notícia. Seus críticos, incapazes de formular respostas convincentes, apelaram para toda sorte de leviandade. De "veado" a "maconheiro", valeu tudo para atingir a imagem de um dos nossos mais respeitados ambientalistas. No Amazonas, um dos protagonistas dessa degradante forma de fazer política, deputado Sinésio Campos, "brilhou"numa sessão do parlamento ao "enaltecer" o gosto do ministro por um "baseado" (o blogueiro testemunhou essa cena lamentável). Faltou pouco para chamar o ministro para um duelo, bem ao estilo daquele conhecido senador fanfarrão. Que essa escola não prospere!

julho 25, 2010

Neurocientistas defendem liberalização da maconha

14/07/2010 - 03h00

Cientistas fazem carta pró-maconha



DE SÃO PAULO
Um grupo de neurocientistas que estão entre os mais renomados do país escreveu uma carta pública para defender a liberalização da maconha não só para uso medicinal, mas para "consumo próprio", informa Eduardo Geraque em reportagem publicada na edição desta quarta-feira da Folha (íntegra disponível para assinante do UOL e do jornal). 


A motivação do documento foi a prisão do músico Pedro Caetano, baixista da banda de reggae Ponto de Equilíbrio, que ganhou repercussão na internet. Ele está preso desde o dia 1º sob acusação de tráfico por cultivar dez pés de maconha e oito mudas da planta em casa, em Niterói (RJ). Segundo o advogado do músico, ele planta a erva para consumo próprio. 


Os cientistas falam em nome da SBNeC (Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento), que representa 1.500 pesquisadores. De acordo com os membros da sociedade, existe conhecimento científico suficiente para, pelo menos, a liberalização do uso medicinal da maconha no Brasil. 


Veja a íntegra da carta:
 
"A planta Cannabis sativa, popularmente conhecida como maconha, é utilizada de forma recreativa, religiosa e medicinal há séculos mas só há poucos anos a ciência começou a explicar seus mecanismos de ação. 


Na década de 1990, pesquisadores identificaram receptores capazes de responder ao tetrahidrocanabinol (THC), princípio ativo da maconha, na superfície das células do cérebro. Essa descoberta revelou que substâncias muito semelhantes existem naturalmente em nosso organismo, permitiu avaliar em detalhes seus efeitos terapêuticos e abriu perspectivas para o tratamento da obesidade, esclerose múltipla, doença de Parkinson, ansiedade, depressão, dor crônica, alcoolismo, epilepsia, dependência de nicotina etc. A importância dos canabinóides para a sobrevivência de células-tronco foi descrita recentemente pela equipe de um dos signatários, sugerindo sua utilização também em terapia celular. 


Em virtude dos avanços da ciência que descrevem os efeitos da maconha no corpo humano e o entendimento de que a política proibicionista é mais deletéria que o consumo da substância, vários países alteraram, ou estão revendo, suas legislações no sentido de liberar o uso medicinal e recreativo da maconha. Em época de desfecho da Copa do Mundo, é oportuno mencionar que os dois países finalistas, Espanha e Holanda, permitem em seus territórios o consumo e cultivo da maconha para uso próprio. 


Ainda que sem realizar uma descriminalização franca do uso e do cultivo, como nestes países, o Brasil, através do artigo 28 da lei 11.343 de 2006, veta a prisão pelo cultivo de maconha para consumo pessoal, e impõe apenas sanções de caráter socializante e educativo. 


Infelizmente interpretações variadas sobre esta lei ainda existem. Um exemplo disto está no equívoco da prisão do músico Pedro Caetano, integrante da banda carioca Ponto de Equilíbrio. Pedro está há uma semana numa cela comum acusado de tráfico de drogas. O enquadramento incorreto como traficante impede a obtenção de um habeas corpus para que o músico possa responder ao processo em liberdade. A discussão ampla do tema é necessária e urgente para evitar a prisão daqueles usuários que, ao cultivarem a maconha para uso próprio, optam por não mais alimentar o poderio dos traficantes de drogas. 


A Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC) irá contribuir na discussão deste tema ainda desconhecido da população brasileira. Em seu congresso, em setembro próximo, um painel de discussões a respeito da influência da maconha sobre a aprendizagem e memória e também sobre as políticas públicas para os usuários será realizado sob o ponto de vista da neurociência. É preciso rapidamente encontrar um novo ponto de equilíbrio." 


Cecília Hedin-Pereira (UFRJ, diretora da SBNeC)
João Menezes (UFRJ)
Stevens Rehen (UFRJ, diretor da SBNeC)
Sidarta Ribeiro (UFRN, diretor da SBNeC) 






Editoria de Arte/Folhapress





Fonte: Folha.com

maio 24, 2010

Sobre marchas, conferências e planos de combate às drogas

Descriminalização da maconha
Foto: Nivaldo de Lima - Manaus-AM, 2009
Marchas, Conferências e o Plano Integrado (de combate) às pessoas que usam drogas

Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
(Manuel Bandeira)

A situação pode até ser triste (para algumas pessoas), mas não deveria estar surpreendendo ninguém. No meio do tal problema das drogas, e das nuances difíceis, as pessoas que se preocupam com o descaso na Saúde Pública em relação às drogas têm de encarar dois pontos que surgem facilmente como problemas: 1) saber quais desafios estamos escolhendo como prioritários, e 2) avaliar as estratégias protagonizadas até o momento.

O primeiro ponto, em tese, seria o menos problemático. É sabida a existência do velho e conhecido mercado da Saúde, em seu velho e conhecido agenciamento: sempre em nome de alguma demanda que mobilize redes orgânicas de interesses. Dentro deste mercado, existem os nichos, sendo um deles o AntiDrogas. A noção de "combater o crack", como já estamos carecas de saber, opera como dispositivo que potencializa interesses distintos. Podemos arriscar aqui uma breve lista: o controle de pessoas em situações de rua; a prescrição indiscriminada de fármacos com dinheiro público; os corporativismos técnicos (problema interdisciplinar); os dogmas sobre modelos ideais de acolhimento; poderes pastorais e capitais simbólicos diversos - dentre outras coisas que literalmente "só vendo", afinal, farão parte do contexto micropolítico. De saída, deve-se refletir que tratam-se de interesses que estão aí, juntos, desde o início do projeto moderno de vida em grandes centros urbanos (há mais de 300 anos). Nem por isso, devemos pensar que sejam forças organizadas. Trata-se mais de uma corrente de forças orgânicas (reivindicadas ao natural, reproduzidas) e que, por isso mesmo, surgem onde menos esperamos.

Analisar o orgânico mercado da Saúde poderia ser importante para pensar nos limites das vias de resistência que escolhemos diante dele, enquanto pessoas preocupadas com o descaso na Saúde Pública em relação às drogas. Uma das vias está sendo, como no caso das Conferências Intersetoriais de Saúde Mental, comunicarmos nossas vivências, disputando conceitos e ideias, nas difíceis arenas institucionais que a democracia ainda nos oferece - ora dificultando, ora ignorando, mas oferecendo. Ao mesmo tempo, várias reflexões nos atravessam, e também às conferências. Outras estratégias são reivindicadas: diante do paradigma da exclusão e criminalização, podemos disputar subjetividades sobre drogas nas ruas (vida x doença); diante das campanhas midiáticas que promovem o não-acolhimento, podemos lutar por campanhas de educação sobre drogas em veículos de massa (autonomia x especialismos)... Talvez falte, ainda, algum modo de denunciarmos o entreguismo que muitas pessoas disfarçam ou toleram enquanto uma "luta estratégica". Precisarão chegar os think-tanks do mercado AntiDrogas em Brasília para reavaliarmos nossas estratégias? Para os representantes técnicos do mercado AntiDrogas não fará diferença alguma. Não importam as leis - desde que o desdobramento delas acabe se reportando, de alguma forma, aos procedimentos do mercado. Ocorre que o engessamento da pouca luta cotidiana nos serviços, por um acolhimento efetivo da realidade das drogas, não é algo que parte somente de Brasília, tampouco somente do eixo da Gestão, e nem deve ser identificada hoje em sujeitos políticos isolados.

Neste sentido, eis um belo motivo para que as pessoas que lutam contra o SUS comemorem as arenas democráticas. Desde a própria conferência que evidenciou a reforma nas políticas de saúde e engendrou no SUS, os interesses do mercado aprenderam a se retirar das cadeiras, lutando pelo Inamps até hoje nos bastidores. A estratégia é cada vez mais sofisticada. Em Porto Alegre, por exemplo, comemora-se aparentemente o tranquilo desfecho do desvio de 10 milhões de reais do SUS, em nome da precarização das relações de trabalho. Ao mesmo tempo, pelas ruas da cidade, uma pixação parece implorar: "protesto não é crime". Cartazes denunciando a gestão corrupta/conivente foram apreendidos. Sempre haverá um crime em favor do controle. Vivemos numa democracia.

Falar no desafio a ser enfrentado, portanto, é olhar mais cuidadosamente para o contexto de reivindicações políticas no Brasil. Em nosso caso, vale lembrar da existência de um dispositivo AntiDrogas legitimando e ressignificando todos os conceitos que tão demoradamente conquistamos, incluindo as próprias arenas "democráticas". Vale lembrar, também, que os sujeitos desta conquista fomos "nós" enquanto sujeitos históricos - não foram as leis, não foi a "Constituição Cidadã", não foram as entidades, muito menos as partidárias; que o diga o Partido dos Trabalhadores, que quando não usa do mesmo dispositivo AntiDrogas hoje para ganhar votos (como na campanha de sua atual presidenciável), acaba protagonizando omissões "estratégicas" por questões partidárias (exemplos previsíveis à vista). Lucrar votos é preciso, lutar de fato, não. Lutar por mudanças nas ruas, para estas pessoas, já pode ser quase visto como uma atitude conservadora. A questão é que essas ferramentas "democráticas" já nasceram velhas, pois a vida não está aí pra elas.

Então analisamos macropoliticamente, e constatamos que os CAPS-AntiDrogas já foram ressignificados pelo manicômio há muito tempo. Está sendo curioso analisarmos esse desejo pelos CAPS-AntiDrogas, bem como a sua abertura repentina, mesmo dentro das capitais, seja em parcerias público-privadas ou não. Há um voto, nestas conferências contemporâneas, contra a abertura de CAPS-AntiDrogas em municipios pequenos. No limite já entendemos que, caso cumpram com o esperado, os CAPS-AntiDrogas poderão ser muito mais interessantes do que os feios e anti-éticos manicômios clássicos. É que o mercado manicomial não deseja manicômios, deseja dinheiro; e numa lógica de varejo, lucra-se mais na quantidade. Por sua vez, os CAPS-AntiDrogas que já abriram e que ousam promover saúde no território são raros. Devemos lutar novamente por diretrizes de cuidado? Devemos lutar pela prática clínica de promoção, no território? Pois há um pressentimento de que, em breve, serão também cooptadas as noções de território, de "busca ativa"; de RD, de AT, educação popular, tod@s cumprindo os procedimentos mercadológicos. O futuro é agora, e o novo Plano Integrado (de combate) ao Crack e Outras Drogas, contando com consultórios de rua e CAPS-AntiDrogas, não nos deixa omitir esta realidade. A ideologia do "combate" está refutada nas leis sobre drogas. E em Porto Alegre, o Plano será estudado pela medieval equipe de pesquisas do CPAD (Centro de Pesquisas em Álcool e Drogas), notável centro de propagação da desinformação sobre drogas, onde os objetos de estudo ainda giram em torno da doença, e não da vida. Nada é por acaso, no orgânico mercado AntiDrogas.

Diante das estratégias limitadas, talvez tivéssemos de reconhecer que estamos diante de uma Gestão pouco empoderada, e de um movimento institucionalizado e envelhecido. Gestão pouco empoderada, porém, certamente não tem a ver somente com trajetórias políticas individuais. É uma questão que também nos diz respeito, enquanto movimento de pessoas preocupadas com a questão das drogas.

Dito isso, entraríamos em nosso 2º ponto. Algumas poucas resistências apontam para ele, embora não seja nenhuma novidade: é que estamos diante de uma questão moral, a moral AntiDrogas, que reifica o manicômio como paradigma, inclusive e principalmente entre pessoas que se dizem militantes do SUS. Isso é o mais preocupante: o inimigo mais poderoso somos nós mesmos.

Enquanto escrevo isto, avalia-se ainda um curioso momento da Conferência de Saúde Mental Intersetorial do RS. Muit@s delegad@s aplaudiram a justa supressão de propostas que legitimavam a idealização oportunista das Comunidades Terapêuticas diante do descaso na Saúde. E então, poucos minutos depois, muitas delas, incluindo-se militantes "do SUS", "antimanicomiais" e "emdefesadareforma", votaram contra uma proposta que reconhecia a relevância de marchas de usuários de drogas, como exemplo de instância onde a luta se potencializa, por uma clínica que compreenda a noção de autonomia. Talvez esquecessem que a Conferência na qual estavam também surgira como reivindicação de uma marcha de usuários - mas, em verdade, talvez ocorra que a "clínica da autonomia" pareça ser a grande alucinação (da saúde?) coletiva no momento. Podemos pensar que, se uma clínica da autonomia existisse como muitos a idealizam, certamente seria estranhada de tal maneira que não iria sobrar muita gente por aí a defendendo. Pessoas nas ruas reivindicam sua libertação. Seriam, então, por acaso, as pessoas preocupadas com as drogas, dependentes de pessoas que usam drogas? Se é este o caso, demandaria-se uma campanha educativa. O lema: "Manicomiais ou não - com alguma coisa em comum".

Clínica e política não devem jamais andar juntas, dizem os especialistas. É perigoso e antiético "nos deixar" afetar. Acontece que, seguindo à risca estes entendimentos, o "mundo da droga" ainda está sendo visto como o mundo dos outros, e não como o nosso; e acontece que diante das poucas coisas que conseguimos enxergar, no vasto universo das práticas culturais de usos de drogas (muitas delas infelizmente clandestinas), ainda teimamos em encarar o descaso na Saúde Pública com as drogas como uma mera questão de disputas entre diferentes paradigmas de cuidado. O que está em questão, em verdade, é a disputa entre paradigmas em relação à vida, numa sociedade complexa que demanda a nós (e não às pessoas que julgamos "dependentes") trabalhar nossas próprias dependências e vícios pré-conceituosos. Enquanto isso, resta atentarmos à velha clínica e à velha militância que seguirão resultando destes devires fascistas. Com ou sem RD, CAPS, consultórios de rua, acolhimentos, agenciamentos - e outros conceitos e "estratégias" que, sozinh@s, continuarão legitimando o lucrativo mercado AntiDrogas.

Rafael Gil Medeiros