| 22 ANOS SEM HENFIL A mão revolucionária do povo Por Samira Moratti em 27/7/2010 Henfil – O humor subversivo, de Márcio Malta, Editora Expressão Popular, 2008 | |
| "Eu quero ser a mão do povo desenhando." Há 22 anos, o autor desta ilustre frase, tão ligado ao sofrimento do povo e às causas políticas e sociais, abandonou o Brasil. Mas não por vontade própria. Vítima de uma transfusão de sangue contaminado com o vírus HIV, Henrique de Souza Filho, o Henfil, faleceu, deixando, mais que saudade, uma lacuna na luta contra a corrupção e a censura. O tempo mudou. O cenário político é outro, mas a sociedade ainda contempla os mesmos males antes combatidos por Henfil. Foi desenhando que o cartunista levou reflexão e crítica ao povo, apresentando a realidade encoberta pela sombra dos censores e torturadores do regime militar. De família humilde, porém que prezava a educação, Henfil foi um dos filhos a se destacar por sua atuação engajada, assim como o irmão Herbert José (Betinho), sociólogo e ativista político. A história do desenhista é ricamente narrada por Márcio Malta, o Nico, na obra Henfil – O humor subversivo (Editora Expressão Popular, 2008). Por meio de entrevistas concedidas pelo cartunista, assim como relatos de amigos que acompanharam a trajetória de Henfil, Nico concede aos leitores a oportunidade única de conhecer o lado frágil e revolucionário do "guerrilheiro do cartum", segundo as palavras do cartunista Miguel Paiva. Pautada quase exclusivamente pela ditadura militar vigente no Brasil, a vida profissional de Henfil marcou os profissionais da área, por uma crítica inteligente e que possibilitou a liberdade de opinião a uma sociedade por vezes alienada. Quando não estava desenhando, Henfil contribuía com ajuda financeira e emocional os militantes, as instituições e as famílias perseguidas pelo duro regime. O cartunista se valia de sua frágil posição como portador da hemofilia para agir em prol daqueles que precisavam. A doença, que compromete a coagulação sanguínea e impossibilita o controle de eventuais sangramentos, era outro mal combatido de forma particular pelo cartunista. Conceito de engajamento Mas nem a sua delicada condição de saúde, tampouco as ameaças anônimas que recebeu inúmeras vezes amedrontaram o corajoso desenhista. Por meio de seus combatentes, os personagens que criou, Henfil usava da inteligência e perspicácia dos leitores para passar sua mensagem adiante. Os fradinhos Cumprido e Baixinho, o Cabôco Mamadô e seu cemitério de vivos, a turma do alto da caatinga e o paranoico Ubaldo foram algumas das armas utilizadas por ele para combater o mal que assolava o país à época. Cartas endereçadas à mãe, Dona Maria da Conceição, e publicadas na IstoÉ quando de sua passagem pela revista nos idos das décadas de 1970 e 1980, eram outra maneira encontrada pelo cartunista para enviar mensagens à população sobre os problemas da esfera política e social. Meios inteligentes para driblar a feroz censura imposta aos meios de comunicação. Responsável por batizar o movimento das "Diretas Já!", Henfil teve uma importante participação nesta nova fase política do Brasil, envolvendo-se em comícios, arrecadação de fundos, elaboração de material de propaganda, dentre outras ações. Tinha como missão fomentar o engajamento e não só deixar as reclamações no papel. Na obra de Malta, uma citação de Henfil deixa bem claro suas atitudes: "A chave para você fazer humor engajado, é você estar engajado. Não há chance de você ficar na sua casa vendo os engajamentos lá fora, e conseguir fazer algo." Manter a chama viva Além de adotar o lápis como arma, Henfil também era diretor, ator e roteirista de filmes, peças de teatro, livros e programas de TV. Em 1988, o cartunista lançou o filme Tanga – deu no New York Times?, uma sátira ao papel da grande imprensa na criação de fatos irreais, porém apresentados como verdade ao público. Henfil era contra o papel generalista dos meios de comunicação que, segundo ele (e apontado por Márcio Malta em seu livro), deveriam servir aos anseios do povo. "Se você trabalha numa concessão pública, (...) não pode ficar falando de esquis, jogos de tênis ou problemas pessoais, quando tem gente literalmente morrendo de fome." Passando os últimos anos de vida na cidade que o lançou ao sucesso, o Rio de Janeiro, Henfil "morreu de Brasil", segundo as palavras do amigo Tárik de Souza. Devido à falta de controle dos hospitais públicos sobre os doadores à época, não só ele como mais dois irmãos seus também contraíram Aids durante as transfusões de sangue, agravando ainda mais seu delicado estado de saúde. Em 4 de janeiro de 1988, com apenas 43 anos de idade, o revolucionário cartunista deixou dor aos familiares, amigos e uma multidão de admiradores de sua arte. Com o filho, Ivan Consenza de Souza, ficou a esperança de perpetuar e divulgar os originais guardados pelo cartunista. Herdeiro de um acervo com mais de 15 mil desenhos originais, Ivan divulga o trabalho do pai em mostras, exposições e publicação em jornais. Um modo de manter viva a chama de combate às mazelas que insistem em macular a democracia e liberdade de opinião, obtidas com muito suor e sangue. Referência Bibliográfica MALTA, Márcio (Nico). Henfil: o humor subversivo. 1 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008. Fonte: Observatório da Imprensa | |
PICICA - Blog do Rogelio Casado - "Uma palavra pode ter seu sentido e seu contrário, a língua não cessa de decidir de outra forma" (Charles Melman) PICICA - meninote, fedelho (Ceará). Coisa insignificante. Pessoa muito baixa; aquele que mete o bedelho onde não deve (Norte). Azar (dicionário do matuto). Alto lá! Para este blogueiro, na esteira de Melman, o piciqueiro é também aquele que usa o discurso como forma de resistência da vida.
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agosto 01, 2010
O humor revolucionário de Henfil
julho 30, 2010
Como Elifas Andreato resistiu à ditadura civil-militar
Quando o pincel é uma arma
Mostra em São Paulo reúne cerca de 100 trabalhos, entre capas de disco, capas de revista e cartazes de peças criadas pelo artista Elifas Andreato nos últimos 45 anos, tendo como foco a resistência à ditadura civil-militar
29/07/2010
Aldo Gama
da Redação
Durante a ditadura, Elifas Andreato fez do lápis, da caneta e do pincel as armas com as quais lutaria. E boa parte das suas obras criadas nesse período estão em exposição no Memorial da Resistência de São Paulo, na mostra “As cores da Resistência”, aberta até o dia 24 de outubro. São cerca de 100 trabalhos que também documentam outras fases da vida do país criados pelo artista nos últimos 45 anos.
“Essa exposição tem um significado especial, principalmente por acontecer em um lugar onde houve tortura”, conta Elifas, referindo-se ao fato do Memorial ocupar parte do edifício que sediou o Deops entre os anos de 1940 a 1983. “São registros da época, trabalhos que eram possíveis diante da censura”, continua, “e tenho um olhar crítico sobre eles, por vezes mal feitos ou inacabados. Mas era o que tinha que ser feito. E hoje têm a função de revelar um pouco da barbárie daquela época”, completa.
Embora nunca tenha se filiado a nenhum partido político, Elifas encara sua postura de oposição ao regime como uma decisão pessoal que o levou a colaborar com uma série de publicações da imprensa alternativa, como Jornal Momento e Opinião, criar cenários e cartazes de peças, como Mortos sem sepultura, e a capa de O Livro Negro da Ditadura Militar.
Artista gráfico, cenógrafo e jornalista, Elifas revolucionou, ou elevou a status de arte, a criação de capas de discos no Brasil. Como exemplo, pode-se citar a ilustração do disco Nervos De Aço, gravado por Paulinho da Viola em 1973. “A capa trazia uma nova informação, era uma declaração pública de como o artista se sentia. Foi feita com o consentimento do Paulinho e acabou virando um marco”, conta o artista que, nos anos de chumbo, tinha a censura e a opressão como inimigos. Hoje, tem o mercado.
A seguir uma entrevista exclusiva com o artista.
Brasil de Fato – Como era criar uma arte contestatória durante uma ditadura?
Elifas Andreato – Era um embate. A censura cerceava a informação e nos forçava a ser criativos. Fazíamos o registro do momento por meio de metáforas. Era um grande desafio trabalhar, muitas vezes, com censores na própria redação. Mas não acho que a censura tenha acabado. Ela apenas se transformou e hoje é exercida pela mídia e pelo poder econômico. A quantidade de lixo nas bancas e nas tevês é absurda. Se espremer a programação, pouca coisa é relevante. Por trás disso está o interesse de alienar e não discutir os problemas do país. Se a tevê é uma concessão pública, por que não tem nenhum programa educativo no horário nobre?
Como você vê a questão dos direitos humanos hoje no Brasil?
São muito pouco respeitados, a começar pelo direito das crianças. Somos um país perverso com uma grande maioria vivendo na pobreza. Quando comecei a trabalhar, muitas das figuras políticas já estavam aí, legislando em causa própria. Uma realidade que mudou muito pouco em mais de 40 anos.
Observando sua obra, percebe-se uma nítida ligação com a música popular brasileira. De que maneira as duas artes se encontram?
Faço parte de uma geração que, embora tenha sofrido com uma ditadura, foi vitoriosa. Uma geração talentosa da qual acabei fazendo parte como aquele que fazia a interpretação visual daquele momento. A música era uma voz forte contra o arbítrio. E meu trabalho era a síntese do que acontecia em uma única imagem, seja na música, no teatro ou em livros. Sempre tive a consciência de que o que fazia era o primeiro convite para as pessoas ouvirem o disco, assistirem a peça ou ler o livro. Eu tinha que assumir a responsabilidade de transformar graficamente aquelas criações.
Suas capas de discos se tornaram uma referência para o público.
Sempre fiz o que interpretava da obra. Me obrigava a estar com o autor. Jogava sinuca, futebol, bebia cerveja. E inaugurei uma nova maneira com o disco para o Paulinho (Nervos de Aço, 1973), que eu considero o primeiro e que acabou virando um marco. Toda criação de comum acordo com o artista.
A opção da indústria fonográfica pelo CD te afetou de alguma maneira?
A redução do espaço foi frustrante e também tem a questão da camisa de força da caixinha plástica. Existe toda uma estrutura que envolve da empilhadeira que carrega os CDs na fábrica até as gôndolas de exibição. Tudo relacionado ao formato das caixinhas. Além disso, acrescentar uma simples luva de papel muda todo o custo porque a caixinha é feita em larga escala, que é a forma mais barata. E também houve uma mudança de mentalidade na indústria. Mas continuo fazendo para amigos ou coisas de que gosto. Recentemente fiz para o Martinho (Poeta da Cidade – Martinho canta Noel), com uma homenagem ao Nássara, para o Tom Zé, para o Paulinho da Viola...
E as novas tecnologias influenciam sua produção?
Continuo na prancheta, mas tenho um assistente que trabalha com uma ferramenta incrível que é o computador. Ela é precisa e é impossível pensar no mundo sem ela. Mas ela não pensa, não cria. E a arte depende o artista, pode ser revolucionária ou não.
Serviço
Elifas Andreato – As cores da resistência
Memorial da Resistência de São Paulo
Largo General Osório, 66
De terça a domingo, das 10 às 17h30
Fonte: Brasil de Fato.com.br
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