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junho 10, 2010

Thiago de Mello na luta pelo tombamento do Encontro das Águas

Thiago de Melo e Elson Farias
Foto: Rogelio Casado - Flifloresta - Manaus-AM, 2008

Obra nenhuma da engenharia humana pode ser construída no Encontro das Águas

Altino Machado às 11:31 am
POR THIAGO DE MELLO

Quem chega a Manaus vai logo querendo saber onde é que ele fica. Quer ver logo o lugar já célebre, onde as águas barrentas do So-Li-Mões e as retintas do Ne-gro se encontram, se abraçam, gostam demais de ficar ali unidas, de margem a margem, não sabem viver sem a outra. Mas nada de muita intimidade. Não se misturam. O sábio Jari Botelho, querido meu de infância, dizia que os dois são é pávulos já demais. Assim explicava o fenômeno mágico da mão da Natureza.

Quando veio me ver aqui na floresta, que é dele também, o querido Gabriel Garcia Marquez, escritor colombiano, prêmio Nobel de Literatura, com o seu “Cem Anos de Solidão”, pediu para parar o barco quando passamos pelo Encontro das Águas. Enquanto sua mulher, a linda Mercedes, tirava fotos, ele fascinado só fazia dizer:

-Es um asombro!

O poeta peruano Arturo Corcuera, hijo de la selva, quando veio para o evento “A Poesia de Se Encontra na floresta”, em Manaus, maravilhado com o que via, fez um comentário que não esqueço:

-El nuestro Solimoens quiere entrar, tu rio Negro no le permite, él lo acarícia y sigue solo, transformado em el Amazonas.

Ernesto Cardenal, autor do genial “Cântico Cósmico”, que já três vezes veio passar temporada em Barreirinha (AM), sempre ia para a proa do barco quando nos aproximávamos da boca do Solimões. E me chamava:

–Vamos al encuentro del Encuentro!

E o seu deslumbramento está gravado em comovidos versos do seu poema Manaus Ressuscitada.

Dona Clotilde Pinheiro, diretora do Grupo Escolar José Paranaguá, onde fiz feliz o meu curso primário, escreveu uma quadra, que não é lá essas maravilhas, mas que recordo contente toda vez que contemplo demorado a beleza deste milagre da Natureza:

“Um lindo encanto  te espera
lá no encontro das águas:
só divisá-lo já faz
esquecer todas as mágoas.”

Já o poeta cearense Quintino Cunha, quando cruzou os olhos com as duas águas pávulas, estava enamorado de Maria, para quem foi logo escrevendo o poema que celebrizou o Encontro:

“Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este
É o Rio Negro, aquele é o Solimões.
Vê  bem como este contra aquele investe.
Como as saudades com as recordações.
Se estes dois rios fossemos, Maria,
Todas as vezes que os encontramos,
Que Amazonas de amor não sairia
De mim, de ti de nós que nos amamos!!…”

Pois não é que tem muito amazonense e até brasileiros lá das bandas do Sul, que pouco estão ligando para a beleza do fabuloso Encontro?  É gente do governo acelerado, da indústria que refresca, da empreita audaciosa. Até das estranjas.

Estão querendo fazer (e vão acabar fazendo, se um valor mais alto não se levantar, bradando contra a ganância dos impiedosos) um porto portentoso,  de tecnologia de índole humilhadora, bem no lugar onde reina, encantado,  o famoso fenômeno que nem dona Ciência explica de uma vez por todas.

Os profissionais do desenvolvimento desumano sustentam, até rindo, que o Encontro das Águas fica lá bem longe. Do outro lado do rio, o turbilhão dos navios não lhe vai fazer dano algum. Que tudo está sendo muito bem calculado, com a perícia enganosa dos poderosos .

Os que só sonham com riqueza, dizem que paisagem não dá lucro, alma do capitalismo. Que turista tem muito mais coisa bonita para ver na floresta. Dinheiro vai correr solto, mais caudaloso do que a maravilha das águas Haja caixas numeradas e bem remuneradas.

Mas, devagar com o andor, perdão, com o guindaste, porque pode emperrar. Também tem muita gente boa, em tanto canto do mundo onde a notícia da agressão começou a chegar,  que não está gostando nada desse porto, ali naquele pedaço tão lindo chamado das Lages.

Gente fina, de alta cultura, achando que não é próprio da decência e fere a inteligância esse tombamento feito pela direção estadual do órgão criado para proteger o patrimônio nacional, que se restringiu ao espaço fluvial da dança dos dois rios.

Ai, os tempos mudam, as alturas dos homens também. Vivos estivessem Rodrigo Melo Franco de Andrade, Lucio Costa, Manuel Bandeira, Joaquim Cardozo, fundadores do IPHAN, sabedorias e dignidades profundas como as águas do Negro, tombariam contentes  todo o entorno do Encontro, de margem a margem, barrancos adentro.

Obra nenhuma da engenharia humana ali pode ser construída, que magoe a alma daquela criação feliz da Natureza amazônica.

Empresário filho ingrato da floresta, diz rindo que paisagem tem já  demais, está mas é sobrando. Os donos do projeto alardeiam que a Vale pode tudo, para a Vale tudo vale. Trata-se da  gigantesca Vale do Rio Doce, que deixou de ser nacional.

Pois a história da esperança humana ensina que o povo pode e vale mais. Que sagrado deve ser o amor à Natureza. Grandes são os poderes da aurora, cuja luz  adverte que é por essa e por outras que a Terra está se vingando das ruindades que andam fazendo com ela.

Eu, que não tenho lá essas grandes luzes, só advirto que todo cuidado é pouco, não convém ofender muito as águas. Com a vida delas não se brinca, não. Com fogo até que se pode brincar, porque se apaga. Mas com água não se brinca, não, porque ela alaga e, de repente, afoga.

Thiago de Mello é poeta amazonense

Foto: Altino Machado/Terra Magazine

Fonte: Blog da Amazônia 

dezembro 14, 2009

Latinoamericano... pero no mucho

Latinoamericano... pero no mucho
Foto: Rogelio Casado - Manaus-Amazonas-Brasil, 2008

TAQUI PRA TI
SOY LATINOAMERICANO
José Ribamar Bessa Freire
13/12/2009 - Diário do Amazonas

O tema era a solidariedade entre os povos da América. O lugar: o Teatro Banzeiros, em Porto Velho (RO), lotado por universitários, professores, ambientalistas, gente da comunidade e, sobretudo, estudantes secundaristas. Os debatedores: o poeta Thiago de Mello, o engenheiro florestal peruano Jhon Yuri e esse locutor que vos fala, os três participantes de uma mesa coordenada anteontem pelo historiador Marco Teixeira, autor de pesquisas sobre os quilombolas.

Pensei em fazer um discurso paletó-e-gravata, com direito à definição prévia do conceito de solidariedade. Ainda bem que desisti. Ninguém deu conferência. O tom foi coloquial, de bate-papo, quase saudosista. Aproveitamos para jogar conversa fora diante de uma platéia que reverenciou o poeta da floresta, o grande homenageado. Lembrei que foi com ele, Thiago, que aprendi a conhecer e a amar a América Latina, depois de juntos atravessarmos a pé a fronteira do Uruguai, em 1969, fugindo da polícia.

Parei por aqui; se você quiser leia mais em TAQUIPRATI.

Nota do blog: O cavalheiro que escreveu a crônica acima é latinoamerico acima de qualquer suspeita. Já o poeta mencionado, tenho cá minhas dúvidas (eu e a torcida do América), sobretudo quando o assunto é so-li-da-ri-e-da-de. Há algum tempo atrás Ana Maria Miranda, nas páginas de Caros Amigos, perguntava pela criatura. Tive ganas em dizê-lo. Mas agora que o cavalheiro de triste figura pega carona nas asas do texto do meu considerado José Ribamar Bessa Freire, lembro um episódio de dessolidariedade, ocorrido lá pelo final dos anos 1970, que a mim pareceu melhor, a partir dali, separar o homem da obra. Vivia-se o clima de luta pela anistia em todo o país. Grandes expectativas tomavam conta de toda a América Latina. Afinal estávamos diante de um fato político extraordinário. Exilados políticos retornavam ao Brasil, depois de longos e amargos anos vivendo fora da sua pátria. Em Manaus, universitários sob a liderança de José Carlos Sardinha empunhavam a bandeira com galhardia. Foi então que tiveram a idéia de buscar apoio na figura quase mítica do poeta. Quem disse que ele aceitou a honraria errou feio. Também! Que motivações teria nosso personagem a fazê-lo, afora escrever poesias de forte apelo político? Quem disse que ele precisava acreditar no que escrevia? Ora, cada um tem o direito de declinar missões que não lhes toca o coração e a mente. Há homens que vivem de imagens. Entre elas, algumas pra lá de surradas. Como decifrar esse enigma? Teria o poeta Manuel Bandeira em sua aguda percepção vislumbrado o que os mortais comuns demoram a reconhecer:

Thiago de Mello, cuidado!
Poupa o teu novo sorriso.
Não o dês (nem é preciso)
Ao amigo refalsado,
Ao crítico canastrão,
Ao político safado,
À mulher sem coração!
Não o dês, nem é decente
À direita e à esquerda, a tantas
Inúteis coisas e gente:
A fariseus faroleiros,
A cachordas sicofantas,
Brasileiros, estrangeiros!
Adverte, em teus desenganos,
Que vale vinte e três anos,
Mil e oitocentos cruzeiros!

Manuel Bandeira
Poesia Completa e Prosa, p. 328
4a. Edição, 1990
Editora Nova Aguilar - RJ
Relendo os Estatutos do Homem, vejo que poderiam ser acrescentados alguns versos (atrevo-me):

"Fica combinado que a solidariedade não brota de decretos.
Ela nasce do coração do homem
em qualquer latitude do planeta,
sob pena de se perder a alegria de viver".
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