janeiro 08, 2013

"O agronegócio e o 'abismo agrário-ambiental. Entrevista especial com Gerson Teixeira" (IHU)

PICICA: "[...] creio que a sedução e a rendição política aos quase 100 bilhões de dólares em exportações geradas pelo agronegócio poderão levar o Brasil a cenários sombrios de um “abismo agrário-ambiental” já em curso."

O agronegócio e o 'abismo agrário-ambiental. Entrevista especial com Gerson Teixeira

“A sedução e a rendição política aos quase 100 bilhões de dólares em exportações geradas pelo agronegócio poderão levar o Brasil a cenários sombrios de um ‘abismo agrário-ambiental’ já em curso”, lamenta o engenheiro agrônomo.

Confira a entrevista.


Uma breve retrospectiva política é suficiente para compreender o esvaziamento do Incra e a recente proposta da presidente Dilma Rousseff, de descentralizar as atuais atividades da instituição para melhorar a infraestrutura dos atuais assentamentos, Gerson Teixeira diz à IHU On-Line. Na avaliação do governo, não é preciso criar novos assentamentos, mas melhorar a infraestrutura dos já existentes. Sobre a possibilidade, o ex-presidente presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária – ABRA é enfático: “Quem ouviu ou leu o discurso surrado de que importa doravante a qualidade dos assentamentos, sugiro que adote a recomendação da presidenta Dilma em relação aos discursos de que os raios são as causas dos apagões. Ria!”.

Segundo ele, depois de 2002, após receber propostas para dar continuidade à reforma agrária, “um processo político interno” do PT “‘tratorou’ a proposta, e naquele momento já foi possível antecipar o futuro da ‘reforma agrária’”. Para ele, a renúncia à reforma agrária teve como propósito “impedir qualquer movimento sobre temas sensíveis aos ruralistas. Isso ocorreu por temor infundado de riscos para a base do governo no intuito de evitar qualquer sinal que pudesse ser interpretado como intimidatório ao avanço do agronegócio que praticamente se constitua no único setor superavitário na balança comercial do país”.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Teixeira lamenta a posição do governo federal e enfatiza que a medida de descentralizar as atividades do Incra “serve para desviar o foco da questão central da política agrária”. E esclarece: “Os municípios e, em especial, os menores, além de objeto dos fortes controles das oligarquias rurais (que obviamente não morrem de amores pela reforma agrária), não dispõem de estrutura e capacidade de gestão para responderem adequadamente às suas próprias atribuições originárias. Além disso, muitos desses municípios acham-se impedidos de receber verbas do governo federal, no caso, em função de problemas com convênios, passivos previdenciários etc.”

Gerson Teixeira é engenheiro agrônomo, especialista em desenvolvimento agrícola pela Fundação Getúlio Vargas – FGV/RJ, e doutorando em Teoria Econômica pela Universidade de Campinas – UNICAMP. É ex-presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária – ABRA.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A presidente Dilma propõe descentralizar as atividades do Incra e, a partir de investimentos do PAC – Equipamentos, e pretende fornecer equipamentos para municípios de até 50 mil habitantes realizarem melhorias nos assentamentos da reforma agrária. Como vê essa proposta?

Gerson Teixeira
– O anúncio da medida, com a ênfase dada à sua suposta virtude, serve para desviar o foco da questão central da política agrária, na atualidade, sobre a qual pretendemos comentar adiante. Em tese, claro que é positiva uma maior cooperação federativa para o atendimento das necessidades de infraestrutura dos assentamentos de reforma agrária. A articulação operacional da União com os municípios nessa área já ocorre, porém sob o comando do Incra. A mudança, conforme se comenta, seria a supressão desse comando com a redução do papel do Incra (ou MDS, quem sabe?) a mero repassador dos recursos.

Não obstante, quando confrontada com a realidade são remotas as chances de eficácia da proposta de municipalização dessa atividade do governo federal. Veja que a cobrança e a fiscalização do Imposto Territorial Rural – ITR foram transferidas para os municípios pela lei n. 11.250/2005. Essa definição também foi defendida pelo seu suposto conteúdo de racionalidade da gestão tributária e articulação federativa. No entanto, o que esteve por trás da decisão foi o empenho da SRF de se livrar dessas atribuições por julgar o ITR como um “imposto podre”, dada a sua baixa expressão fiscal. Resultado: em 2003, a arrecadação do ITR, ainda que pífia como sempre, equivaleu a 0,112% das receitas administradas pela SRF. Em 2011, portanto, anos após o início da municipalização do ITR, essa relação caiu para 0,062%. Ou seja, na comparação entre os exercícios, a arrecadação do ITR sofreu uma redução proporcional de 44%.

Os municípios, em especial, os menores, além de objeto dos fortes controles das oligarquias rurais (que obviamente não morrem de amores pela reforma agrária), não dispõem de estrutura e capacidade de gestão para responderem adequadamente às suas próprias atribuições originárias. Além disso, muitos desses municípios acham-se impedidos de receber verbas do governo federal, no caso, em função de problemas com convênios, passivos previdenciários etc.

Na verdade, enquanto no caso do ITR o governo federal visou se livrar de um imposto indesejável, neste outro, junto com as demais medidas divulgadas pela imprensa, é possível que ele – o governo – vise se livrar de uma instituição indesejável: o Incra. Em entrevista anterior à IHU On-Line comentei sobre as severas dificuldades de gestão da autarquia.

IHU On-Line – O Incra está transferindo para outras instituições públicas as tarefas de construir casas e levar água e energia elétrica às famílias assentadas, assim como irá transferir a seleção das famílias a serem beneficiadas pelo programa de reforma agrária. O que isso sinaliza em relação ao futuro da instituição?

Gerson Teixeira
– Esta questão está relacionada à anterior obedecendo à mesma lógica. Igualmente, a transferência dessas ações não visa um esforço de complementariedade institucional para dar musculatura ao processo de reforma agrária e, sim, os propósitos desestruturantes do conjunto da obra. O que se ouve é que muitas atribuições do Incra serão transferidas para o MDS (e operadas por várias instituições), posto que na concepção reducionista adotada de reforma agrária esta passaria a integrar o programa Brasil Sem Miséria. Óbvio que esse programa é relevante na perspectiva da mitigação da miséria, mas não ataca as causas da pobreza. E agora, ao enquadrar a reforma agrária nesses limites, o governo neutraliza uma das principais reformas capazes de romper com as causas estruturais da pobreza e das desigualdades em geral no Brasil.

IHU On-Line – Pode-se dizer que mudou o foco de ação do Incra? Em que sentido?

Gerson Teixeira
– Há muito tempo o Incra sofre processo de esvaziamento, o que tem sido consequência natural da condição periférica da reforma agrária na agenda do país. Nos últimos anos, mais notadamente a partir do programa governamental Terra Legal, que passou a legitimar áreas públicas ocupadas na Amazônia, vem sendo tentada uma transição institucional que projeta as ações de regularização fundiária como o núcleo da missão do Incra. Creio que, confirmadas as medidas setoriais divulgadas recentemente pela imprensa, a tendência será a de consolidação desse processo.

IHU On-Line – Pode explicar? Quais as posições políticas que favoreceram esse esvaziamento?

Gerson Teixeira
– Façamos uma rápida recuperação da política agrária nos anos recentes e das suas tendências atuais e, subjacente, teremos ideia sobre o destino do Incra. Inicio com um episódio político no PT, do qual tive participação.

Após o Encontro Nacional do Partido, de 2000, em Recife/Olinda, e até parte de 2002, a Secretaria Agrária Nacional do PT esteve com uma coordenação da qual fiz parte. Nesse período, com a intensa participação das entidades de trabalhadores rurais, elaboramos e submetemos ao Partido uma proposta de programa de governo Lula para a agricultura e a reforma agrária. Previa avanços importantes para a reforma agrária, no plano institucional, de modo a estimular as lutas sociais que experimentavam momento de vigor. Em que pese os avanços pretendidos, a proposta de programa de governo estava calibrada para o contexto da adversidade da correlação de forças para evitar maiores problemas ao governo junto dos setores conservadores. Um processo político interno “tratorou” a proposta, e naquele momento já foi possível antecipar o futuro da “reforma agrária”. Prevaleceu o documento Vida Digna no Campo cujo texto foi um filtro minimalista da proposta da Secretaria Agrária.

Assim, por razões que não vem ao caso no momento, de 2003 a 2010 o programa de reforma agrária, ou melhor: a política de assentamentos reativa aos conflitos, teve desempenho muito aquém até daquele previsto no Vida Digna. Renunciou-se à política para impedir qualquer movimento sobre temas sensíveis aos ruralistas. Isto ocorreu por temor infundado de riscos para a base do governo no intuito de evitar qualquer sinal que pudesse ser interpretado como intimidatório ao avanço do agronegócio que praticamente se constitua no único setor superavitário na balança comercial do país. Resultado: o agronegócio ampliou a sua hegemonia; as lutas sociais entraram em declínio, o que foi facilitado pelas ações de mitigação da pobreza. Foi integralmente mantido o aparato legal restritivo da democratização da terra. A Secretaria Agrária Nacional foi ‘fechada’ e o comando do MDA entregue à corrente e quadros do PT sem qualquer tradição e acúmulo nessa temática. Para “compensar”, foi implementada importante política de inclusão da agricultura familiar nos instrumentos de fomento à produção, ainda que segundo estratégia de nivelamento às condições produtivas da agricultura do agronegócio.

IHU On-Line – Como analisar essa fase da política de assentamentos do período Lula com a anterior e com a do governo da presidente Dilma?

Gerson Teixeira
– No auge do neoliberalismo, o governo FHC tentou emplacar a reforma agrária de mercado, obviamente defendida pelos conservadores. Mas os movimentos sociais impediram que os instrumentos de compra e venda de terra viessem a prevalecer, e a intensidade das lutas obrigou o governo a obter terras e a executar projetos de assentamentos. Mas tudo em clima de permanente tensão política para intimidar as lutas e preservar os interesses do latifúndio.

A partir de 2003 até 2010, o boom dos preços internacionais das commodities agrícolas elevou a hegemonia do agronegócio, no Brasil, para níveis tendencialmente absolutos. isso foi facilitado pelo importante recuo das lutas pela terra, fato curiosamente determinado pelas relações históricas dos movimentos com o PT e com o presidente Lula, e pelos efeitos das políticas sociais.

Com FHC tivemos “muito pau e pouca prosa” e os limites da política de assentamentos decorriam, ainda, do poder do latifúndio. O período Lula foi marcado por “muita prosa e pouco pau”, e o desempenho da política de assentamentos foi limitado pelo poder do agronegócio.

A trajetória dessa “evolução” nos levou ao presente estágio onde parece que a política agrária não decorre mais de um produto do esforço político do governo para a contenção de conflitos sociais em proteção do latifúndio, ou para não criar empecilhos ao agronegócio. Ao que parece, na atualidade, onde temos “pouco pau e nenhuma prosa”, chegamos a um estágio em que a política agrária e a política ambiental passam a ser instrumentais à expansão do agronegócio. Perdeu o caráter de administração de conflitos e se transforma em instrumento do próprio agronegócio.

IHU On-Line – Pode explicar?

Gerson Teixeira
– Considerando o tema agrário, é o que projeta a proposta de emancipação à força de assentamentos abandonados à própria sorte pelos poderes públicos, com a titulação dos respectivos lotes que envolvem milhões de hectares. Sugerida pela entidade máxima do agronegócio, a CNA, a proposta objetiva as condições para a transferência, para o mercado (agronegócio), dos milhões de hectares desses camponeses, o que reproduz as investidas dos ruralistas pela subtração dos territórios indígenas, quilombolas e das áreas protegidas em geral.

Da mesma forma, visa-se a garantia jurídica para a expansão do agronegócio na Amazônia com a proposta de legitimação, pelo Estado, das grandes áreas públicas “privatizadas (griladas) na marra” naquela região. Nesse caso, persegue-se uma versão ampliada e ainda mais flexível do programa Terra Legal. Isso seria feito mediante a regularização “de ofício” dos imóveis localizados às margens das rodovias federais na Amazônia. Pelas recomendações da CNA, o governo deverá, ainda, proceder à ratificação dos títulos das propriedades localizadas nas faixas de fronteiras, irregularmente feita pelos estados, e à simplificação do georreferenciamento dos imóveis.

Portanto, é essa a política agrária que aparentemente se estrutura não mais para administrar conflitos sociais tidos como intimidatórios aos interesses do agronegócio, e sim para o atendimento direto dos interesses da sua expansão.

Em suma, creio que a sedução e a rendição política aos quase 100 bilhões de dólares em exportações geradas pelo agronegócio poderão levar o Brasil a cenários sombrios de um “abismo agrário-ambiental” já em curso. É inacreditável que não se perceba nenhuma área dentro do governo pensando em longo prazo e em estratégias, de fato, compatíveis com os interesses do Brasil. Quanto ao Incra, trata-se um mero instrumento dessa política. E quem ouviu ou leu o discurso surrado de que importa doravante a qualidade dos assentamentos, sugiro que adote a recomendação da presidenta Dilma em relação aos discursos de que os raios são as causas dos apagões. Ria!



Fonte: IHU

"Pluralidade dos meios de comunicação: urgência para a consolidação da jovem democracia brasileira", por Marilza de Melo Foucher

PICICA: "A prova do avanço da cidadania política no Brasil é que a grande mídia foi derrotada por três vezes consecutivas, apesar de dispor de um vasto domínio mediático espalhado em todos os rincões do Brasil. O padrão Globo pensava ser imbatível. Assim como a revista Veja da Rede Abril, seus jornais e afiliados funcionam como verdadeiros aparelhos de propaganda contra os governos legitimamente eleitos."


Pluralidade dos meios de comunicação: urgência para a consolidação da jovem democracia brasileira


6/1/2013 14:03
Por Marilza de Melo Foucher - de Paris
mídia conservadora
“O Grupo Abril e o Grupo Globo se sentem intocáveis e assumem sem complexo o controle absoluto de quase todos os veículos de comunicação”
A evolução da imprensa escrita, como vetor de informação para o grande público, será muito lenta, ela vai surgir num ambiente de censura e de controle de informação. Esta incrível fabrica de informação terá como marca registrada a liberação da palavra pública, por esta razão, ela será sempre associada aos principio democráticos.

A democracia surge para colocar o cidadão no centro do sistema político. Nesse sentido, a imprensa joga um papel fundamental na difusão das correntes de pensamentos e opinião, contribuindo, assim, para a livre confrontação de idéias. O aumento geral do nível de conhecimento nas democracias modernas foi vetor da promoção do pensamento crítico. O pluralismo contribui também para suscitar interrogações e ceticismo.

O avanço das tecnologias tem acrescentar na diversificação dos meios de comunicação. Tanto a imprensa escrita como a evolução de outros meios de comunicação representam a grande utopia de que podemos ser livre para pensar e opinar sobre a realidade. Ao dispor também do pluralismo, os indivíduos passam a usufruir de uma real liberdade na escolha dos meios de comunicação.

A consolidação da democracia
brasileira exige pluralidade dos
meios de comunicação
mídia conservadora
A centralização da mídia leva à cartelização do conteúdo
No Brasil ainda estamos longe desta realidade. A história da imprensa se confunde com a história das oligarquias regionais, que apenas foram se modernizando. Todavia, pensava-se que com o avanço da democracia brasileira e a chegada de governantes progressistas, os meios de comunicação seriam democratizados e regulamentados, no sentido de garantir sua pluralidade.

Logicamente, para os que açambarcaram os veículos e o mercado dos meios de comunicação a tentativa de regulamentação é associada como uma ameaça à liberdade de expressão. Em nenhuma ocasião, eles vão pensar no interesse público e coletivo, do qual usufruir do pluralismo é também uma conquista da democracia. O que é normal num país que viveu mais de duas décadas sob a ditadura. É normal que até hoje muitos brasileiros lutem pela democratização dos meios de comunicação.

Como aceitar que a democracia brasileira se consolide e que continue a conviver com uma espécie de coronelismo mediático, que usa e abusa do poder de concentração? Esta é uma questão que poderíamos fazer aos dirigentes e políticos brasileiros.
Entretanto, na Constituição Brasileira de 1988, ela define no capitulo § 5 que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”. Todavia, basta consultar os estudos realizados recentemente sobre este assunto para verificar que a própria constituição é por vezes usurpada.


A mídia conservadora é muito unida
A mídia conservadora é muito unida
A concentração dos meios de comunicação os colocam nas mãos de poucos. O Grupo Abril e o Grupo Globo se sentem intocáveis e assumem sem complexo o controle absoluto de quase todos os veículos de comunicação. Abril controla 74 veículos, entre revistas, o canal MTV, internet e a TVA, a cabo, em parceria estratégica com a Telefônica. O Grupo Globo lidera o Sistema Central de Mídia Nacional e, desde 1965, mantém seus associados regionais, são 35 grupos ligados à rede. No total eles controlam 340 veículos de comunicação.

O poder mediático de que a Globo dispõe é enorme, graças às 3.305 redes de transmissão de TV (RTVs). O grupo Globo mantém parceria em todos os Estados brasileiros o que permite um enorme controle do conteúdo das informações. Além da televisão, são 33 jornais, 52 rádios (AM) 76 (FM), 27 revistas, 105 emissoras de TV, 17 canais e nove operadoras. Além disso, a Rede Brasil Sul de Comunicação, é afiliada da Globo, é a terceira maior organização de mídia privada do país, com 57 veículos, entre jornais, rádios (21 emissoras), TV (18 emissoras) e 259 retransmissoras.(1)

Estes mesmos grupos compactuaram com a ditadura e aproveitaram do apoio de seus governos para instalar o império do Quarto Poder. Estes grupos do Quarto Poder, até hoje, têm dificuldades de aceitar a conquista da cidadania política brasileira. Muitos dos cidadãos e cidadãs brasileiros conseguiram entender alguns processos de manipulações da opinião publica, hoje estão emancipados das estratégias de comunicação posta em pratica pelos dois grandes grupos e seus aliados.

A grande mídia brasileira na realidade se diz autônoma, imparcial com relação os poderes. Muitos jornais fazem uso de uma prática deliberada de induzir os leitores, ocultar e fragmentar os fatos, de maneira a desfazer e recriar o mundo à sua maneira, criam os famosos “buzzs” com o objetivo de criar um ruído entre os leitores para deformar a realidade ou oculta-la.

A prova do avanço da cidadania política no Brasil é que a grande mídia foi derrotada por três vezes consecutivas, apesar de dispor de um vasto domínio mediático espalhado em todos os rincões do Brasil. O padrão Globo pensava ser imbatível. Assim como a revista Veja da Rede Abril, seus jornais e afiliados funcionam como verdadeiros aparelhos de propaganda contra os governos legitimamente eleitos.

Além da concentração do poder midiático, existem certas aberrações não dignas da República brasileira. Alguns deputados, senadores, governadores, prefeitos, vereadores detêm participação, ou são proprietários de meios de comunicação, ferindo os princípios republicanos. Até hoje, pouco se faz para impedir que estes políticos sejam enquadrados na Lei por violação constitucional.

Como garantir a pluralidade dentro deste contexto?

Rep/web

Numa República democrática, os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário não são infalíveis, daí o exercício da cidadania política nos dar o direito do controle social. Os jornalistas são, acima de tudo cidadãos. Ao atuar profissionalmente nos meios de comunicação, eles exercem um papel importante na vigilância contra as derivas e abuso de poder. Não devemos nos esquecer que cada cidadão tem sua parte de responsabilidade em certos desvios republicanos.

Na jovem democracia brasileira, os jornalistas deveriam estar atentos sobre qualquer forma de violação de direitos e abusos de poder. Eles deveriam ser os primeiros a defender a pluralidade. Certamente, estariam dando uma excelente contribuição na consolidação da democracia no Brasil. Além disso, teriam um leque maior de opções profissionais e poderiam exigir melhores salários e melhores condições para exercer, de modo independente, um verdadeiro jornalismo. Aquele jornalismo imparcial que provoca o verdadeiro debate, que analisa, contextualiza e coloca a nu certas contradições, cujo conteúdo leva o leitor a refletir sobre sua realidade.

Infelizmente, nesses últimos anos, o debate político no Brasil perdeu o brilho da racionalidade que exige a boa análise. As cenas de desrespeito republicano passaram a ser marcantes. As duas últimas campanhas presidenciais disputadas pelo presidente Lula foram de grande violência verbal, nunca se viu tanto racismo, tanta discriminação, tanto ódio na boca e nos escritos de certos políticos e jornalistas. Este tipo de politicagem é perverso para a democracia e nada acrescenta à educação do povo brasileiro. A grande Nação Brasileira merece que o jornalismo seja praticado dentro do rigor intelectual necessário.

O comportamento dos donos dos meios de comunicação nas últimas décadas de democratização, deixa muito a desejar. Chega a dar impressão de querer forjar uma democracia de opinião capaz de influenciar no processo eleitoral. Essa grande mídia esquece que o exercício do poder supremo é originado da vontade popular. É interessante observar o modo como ela agiu, durante as campanhas presidenciais de Lula e de Dilma. A posição do presidente da Associação Nacional dos jornais (ANJ) foi esclarecedora ao admitir, publicamente em março de 2010 que, tendo em vista a fragilidade dos partidos de oposição, a imprensa estava fazendo, de fato, a oposição ao governo.

pela pluralidade nos meios de comunicação
 A sociedade civil organizada começa, ainda que timidamente, a protestar contra o cartel dos meios de comunicação

Este papel de oposição era notório. Todavia, a partir desta declaração, a ANJ oficializou os governos de Lula e Dilma como adversários. Com este tipo de comportamento, a grande mídia sai fragilizada, pois não é o papel da imprensa de liderar as massas, exceto se ela quer ser governo e eliminar os partidos políticos.

Nem tampouco é papel do governo entrar no jogo da provocação, afinal, ele deve garantir a livre expressão de todos. O interesse público, no entanto, assim como as boas regras do comportamento republicano, deve predominar dos dois lados. O governo não deve ceder à pressão dos donos da mídia e, urgentemente, organizar o funcionamento do espaço nacional de Comunicação Social para obter um melhor equilíbrio, a fim de garantir a pluralidade que determina a Constituição brasileira.

Este espaço deve ser mais representativo de diversos grupos sociais. Talvez esta seja uma das últimas conquistas para consolidar a jovem democracia brasileira.

Somente a democratização dos meios de comunicação permite a livre confrontação de idéias.

Marilza de Melo Foucher é economista, jornalista e correspondente do Correio do Brasil em Paris.

1 -  Ver site Donos da Mídia e Tese de James Görgen – Sistema Central de Mídia- UFRGS – 2009)

Fonte: Correio do Brasil

“Gramsci: reminiscencia de la autonomía ideológica como verdadero objetivo de la lucha política”: Lucio Óliver, Massimo Modonesi y Elvira Concheiro (Marxismo Crítico)

PICICA: "El pensamiento gramsciano es fundamental para comprender la vitalidad de la lucha contrahegemónica civil. [...] La autonomía ideológica, a consideración de Óliver, es el verdadero objetivo de la lucha política moderna. [...] Massimo apuntaló hacia dos ejes rectores de los subalternos: el que acepta “relativamente” su subordinación y el que resiste. [...] Se cuestionó qué hacer en el momento “de la no política” y cómo hacer para refundarla. Invitó a los jóvenes a leer a este pensador."

“Gramsci: reminiscencia de la autonomía ideológica como verdadero objetivo de la lucha política”: Lucio Óliver, Massimo Modonesi y Elvira Concheiro


 
El pensamiento gramsciano es fundamental para comprender la vitalidad de la lucha contrahegemónica civil. Así se coincidió en la mesa redonda Homenaje a Gramsci, organizada por el doctor Lucio Óliver, y en donde participaron el maestro Massimo Modonesi, coordinador del Centro de Estudios Sociológicos y la doctora en sociología Elvira Concheiro.

El doctor Óliver comenzó su ponencia hablando sobre la nueva concepción que Gramsci aportó con base en la Revolución Rusa de 1917: los procesos revolucionarios son mayoritarios para los planteamientos de cambio social. Es decir, rompe la idea tradicional de revolución de minorías. Gramsci retomó la figura de Lenin para ilustrar esta idea en sus Escritos de la cárcel, particularmente en su nota 7 del Cuaderno 13. La autonomía ideológica, a consideración de Óliver, es el verdadero objetivo de la lucha política moderna.

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Karl Marx, Antonio Labriola y Federico Engels son la base sustancial del trabajo de Antonio Gramsci. De Engels retoma la idea de que es una época de autodirigirse y del reconocimiento de “las masas” para saber “por qué se sacrifica la sangre”. Así se expresó el doctor Óliver. Concluyó que las crisis, como la que se vive en México, crean condiciones, pero no determinan los cambios sociales.

Massimo Modonesi comenzó su discurso mencionando que Gramsci es un autor “manipulable”, “estirable”, por lo que las lecturas en distintas tradiciones, a veces contrapuestas entre sí, han “despolitizado” el pensamiento gramsciano y tomándolo como “muletilla” sólo porque su nombre realzará alguna disertación.

Modonesi se centró en el concepto de subalternidad, entendiéndola como la existencia subjetiva en una hegemonía construida a través de trincheras, pero aún concernible a la misma. Massimo apuntaló hacia dos ejes rectores de los subalternos: el que acepta “relativamente” su subordinación y el que resiste. En el primer caso, señaló, el subalterno se reconoce como subordinado, pero es una unidad clasista, a veces antagónica con los más desprotegidos.

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En el segundo caso, dijo, “hay un umbral de resistencias”. Esto es, el subalterno que resiste realiza acciones gradadas de menor a mayor rango, siendo el más elevado la rebelión o, en la aspiración gramsciana, la revolución comunista, que desemboca en la autonomía y la ausencia de cabildeos sindicales, en donde “se acepta la dominación, pero se pide ser dominados de mejor forma”. El maestro reafirmó la lucidez teórica, aun en la cárcel, de los escritos de Gramsci.

Finalmente la doctora Elvira Concheiro tomó la palabra. 

Agradeció, en primera instancia, la oportunidad de estos encuentros y el merecido homenaje a una mente ilustre de principios del siglo XX que sigue vigente más que nunca.

Video:

Hablar de Antonio Gramsci, refirió, “es hablar de conciencia y praxis revolucionaria”. Se cuestionó qué hacer en el momento “de la no política” y cómo hacer para refundarla. Invitó a los jóvenes a leer a este pensador. “Hemos dejado a Gramsci, por eso se ha desplegado la dominación”, finalizó.


FOTO, ISRAEL MACEDO SERNA. “Hablar de Gramsci es hablar de conciencia y praxis revolucionaria”, coincidieron especialistas en el Homenaje rendido a este pensador.


Fuente: Marxismo Crítico

"Gobierno Hollande: radiografia de un fracaso económico", por Laurent Mauduit

PICICA: "Todo indica que la economía francesa sigue al borde de la recesión y que el país paga por ello un tributo social cada vez más pesado." 


Aumentar tamaño del texto Disminuir tamaño del texto Partir el texto en columnas Ver como pdf 08-01-2013

Francia
Gobierno Hollande: radiografia de un fracaso económico


Viento Sur



Este jueves, 20 de diciembre de 2012, el Instituto Nacional de Estadística y Estudios Económicos (INSEE) publica la “Nota de coyuntura” /1. Crecimiento cero, hundimiento del poder de compra, atonía del consumo. Todo indica que la economía francesa sigue al borde de la recesión y que el país paga por ello un tributo social cada vez más pesado. Pero los datos más alarmantes se refieren a las previsiones sobre el paro: en junio de 2013, la tasa de paro podría alcanzar el 10,9% (incluyendo los Dom-Tom: Departam entos y Territorios de Ultramar). Es decir, uno de los niveles más elevados jamás alcanzado en nuestro país durante el período contemporáneo.

Por lo tanto, este estudio constituye una alarmante radiografía de una política económica que está fracasando. Una política económica que no logra enderezar la situación económica del país y que amenaza incluso con agravarla.
Es cierto que el gobierno ya preveía que esta “Nota de coyuntura”, que señala las previsiones económicas posibles para el 1ª trimestre de 2013, sería detestable. Pero la verdad es que el escenario descrito en la misma es peor de lo previsto.

La primera mala sorpresa tiene que ver con el crecimiento. Como revela el cuadro que reproducimos/2, que presenta la síntesis de previsiones del INSEE, Francia está en una situación de crecimiento cero desde finales del primer trimestre de 2011, con tasas de actividad que oscilan permanentemente en torno al cero, unas veces ligeramente por encima otras veces ligeramente por debajo. Y la tendencia va a seguir estrictamente así en el primer trimestre de 2013, con un crecimiento de +0,1% en el curso de cada uno de los dos trimestres.

Así pues, el gobierno está perdiendo su primera apuesta: la del crecimiento. Para 2012, había planteado su política económica basada en la hipótesis un crecimiento del 0,3%. Una cifra ya muy baja que, sin embargo, no llegará a alcanzarse. Según el INSEEE, el crecimiento para el conjunto del año no debería superar el 0,1%.

Para el año 2013, las perspectivas también son malas. El escenario del INSEE conduce a que “la previsión de crecimiento” no supere el 0,1% a finales del mes de junio. Ahora bien, el gobierno ha elaborado los presupuestos de 2013 sobre la hipótesis de un crecimiento del 0,8%. Para que se llegara a alcanzar este objetivo, sería preciso que el crecimiento se acelerara brutalmente y alcanzara cifras del orden del 0,8% en el tercer trimestre y del 1,2% en el cuarto trimestre. Lo que resulta totalmente impensable.

Hundimiento del poder de compra

Es sobre este elemento que la previsión sión del INSEE constituye, de forma indirecta, una doble requisitoria de la política económica del gobierno. Una requisitoria porque las cifras del Instituto establecen que el horizonte económico no mejora nada e incluso que, en muchos aspectos, se degrada, debido a la política de austeridad. ¡Nada más lógico! Imponer un reforzamiento de la austeridad (tanto para la política presupuestaria como para la política salarial) a un país en estancamiento produce, de hecho, un resultado que no tiene nada sorprendente: la situación va de mal en peor.

Por ello, el gobierno corre el riesgo de convertirse en la víctima de su propia política. Si el crecimiento se estanca aún más de lo previsto, los ingresos fiscales van a reducirse más y no se podrán alcanzar los anunciados objetivos de reducción del déficit público (por debajo del 3% del PIB para 2013) y de la deuda pública. Así pues, será preciso un nuevo plan de austeridad. Se trata de una espiral sin fin: cada vez más austeridad para alcanzar el objetivo de reducción de los déficits que, debido a ella, se volverán ¡cada vez más… inalcanzable!

En este escenario catastrófico, como no podía ser de otro modo, es la demanda interna la que se muestra completamente deprimida. En efecto, el INSEE revela que el poder de compra de las familias registra una de sus caídas más espectaculares de estos últimos años.

Para medir bien la gravedad de las cifras del , es preciso descifradas. Según el cuadro sintético del INSEE consultado anteriormente, la tendencia es mala, pero no dramática. Con una caida del 0 ,2% en 2012, el poder de compra de la renta bruta disponible de las familias, que es el indicador más frecuentemente evocado en el debate público, mostraría una previsión de crecimiento del +0,1% a finales del primer semestre de 2013. En suma, 18 meses en una pendiente de crecimiento cero del poder de compra.

Pero, de hecho, la tendencia es mucho más grave. Esas cifras toman en cuenta la evolución de aspectos democgráficos que contribuyen a aumentar el número de familias. Ahora bien, para medir bien el “sentir” de las familias, el INSEE anota otras medidas que neutralizan esa evolución demográfica. Medidas que son bastante más alarmistas: según ellas, el poder adquisitivo por unidad de consumo acusa una caída no ya del 0,2% sino del 0,8%. El INSEE también precisa que en 2013 la reducción del consumo por habitante sería del 0,7% y por familia del 1,2%.

A través de esas cifras se comprueba que el gobierno socialista ha optado por una estrategia económica muy particular para atravesar la crisis: lo social es lo que sirve de variable de ajuste. La reciente decisión de no conceder “una ayudita” al Salario Mínimo Interprofesional (el SMIC) el 1 de julio acaba de confirmarlo.

El ajuste no es solo salarial. La principal variable, es la del paro. Es en este frente en el que las perspectivas del INSEE para los seis próximos meses son dramáticas.

De entrada, el INSEE señala que durante el año en curso, “a pesar de la ligera recuperación de la actividad en el tercer trimestre de 2012, el empleo en los sectores mercantiles no agrícolas ha retrocedido claramente (-42.000)”. Y añade: “Con la debilidad de la actividad, la situación en el mercado del empleo continuaría deteriorándose de aquí a mediados de 2013: como media, en el horizonte de esta previsión se suprimirán 40.000 puestos de trabajo por trimestre”.

Así pues, el incremento del paro será cada vez mayor. ¡Las cifras son terribles! Tras una subida de 226.000 del número de parados en 2012 (según la Oficina Internacional del Trabajo), esta tendencia se agudizará el primer semestre de 2013 con 109.000 nuevos parados.

Despegue histórico del paro

Como pone en evidencia el cuadro anterior/3, Francia está a punto de batir el récord histórico de tasa de paro del 11,2% de la población activa que había alcanzado durante el año 1997. Tras haber alcanzado el punto bajo del 7,7% en el segundo trimestre de 2008, esa tasa de paro (incluyendo los Dom-Tom) se ha disparado vertiginosamente hacia arriba. Y según el INSEE, a finales de diciembre de 2012 podría alcanzar el 10,5% para llegar al 10,9% a finales de junio de 2013. Es decir, muy cerca del siniestro récord de 1997.

¿Qué hace el gobierno para amortiguar este seísmo social? Nada. Se ha planteado un “choque de competitividad”/4 en favor de las empresas, pero ¡no … “un choque social”! Y por más que el gobierno diga que los 20 millardos de euros aportados a las empresas tendrán consecuencias beneficiosas para el empleo, no está prohibido imaginar que como esta medida no va acompañada de ninguna condición, esa fabulosa suma de dinero sólo vaya a servir para aumentar los dividendos de los accionistas.

20/12/2012

http://www.mediapart.fr/journal/economie/201212/l-alarmante-radiographie-de-l-echec-economique

Traducción: Faustino Eguberri para VIENTO SUR

Notas:

1/ Nota de coyuntura, versión original completa (se pueden encontrar en ella los cuadros a los que hace referencia el artículo)
http://es.scribd.com/doc/117511764/Note-de-conjoncture-de-l-Insee-Dec-2012

2/ Ver pg 16 ht tp://www.insee.fr/fr/indicateurs/analys_conj/archives/122012_ve.pdf

3/ Ver pg 72 de http://es.scribd.com/doc/117511764/Note-de-conjoncture-de-l-Insee-Dec-2012

4/ Choque de competitividad: el primer ministro Jean Marc Ayrault anunció el martes 6 de noviembre de 2012 una reducción de la fiscalidad de las empresas del orden de 20 millardos de euros por año (ndt).

Fuente: http://vientosur.info/spip/spip.php?article7550

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Fonte: Rebelión

janeiro 07, 2013

"O Mundo Jurídico, a Mulher e o Suicídio", por Hugo Albuquerque

PICICA: "No fundo, a questão não é, por suposto, moral. Não é um disputa sobre de quem é a culpa -- em sentido amplo, psicológico ou jurídico --, quem é a vítima, quem merece ser punido, quem mereceu o quê. É uma problemática que envolve a produção, o modo de produção contemporâneo, quais sujeitos e quais objetos são produzidos, tanto para trabalhar nisso quanto para consumir o produzido. Não é só qual o motivo de nosso sistema empurrar tanta gente para fazer um curso de Direito, onde e como alocar essa gente durante o curso e depois dele, mas sobre o, digamos, tecido conjuntivo simbólico e cultural que é construído para sustentar isso."

O Mundo Jurídico, a Mulher e o Suicídio

Hera, a Deusa das Mulheres, e Prometeus (daqui)
No final de Dezembro, uma notícia chocante surgiu no noticiário: uma estudante de Direito de 21 anos se suicidou de forma dramática, algumas semanas antes. Ela se jogou do sétimo andar do prédio onde vivia, em um ato desesperado causado pelo trauma de um possível estupro sofrido por ela, vejam vocês, em uma festa de confraternização do escritório onde estagiava, o prestigioso Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados, no final de Novembro. Para mim, tudo isso foi particularmente chocante: Viviane (sim, ela tinha um nome, era um pessoal real) partiu no dia do meu aniversário e eu a conhecia -- estudava na mesma faculdade que eu, cursava o ano anterior e se formaria este ano, além de ter sido minha monitoranda em Direito Constitucional à noite.

A notícia foi chocante, não apenas pelo fato em si como também pela demora em registra-la: os jornais deram a notícia quase um mês depois, às vésperas da virada de ano, quando as pessoas estavam pouquíssimo preocupadas com o noticiário. Antes disso, aliás, o silêncio era sepulcral, ninguém sabia explicar a situação ao certo e tudo corria à boca pequena -- boatos volta e meia circulavam e depois sumiam. Esse silêncio, aliás, não é sinônimo algum de respeito à memória de Viviane, como constou em nota do referido escritório, mas exatamente o contrário como bem pontuou Ana Rusche em excelente artigo sobre o caso.

Este post, evidentemente, não se volta aos desdobramentos policiais e judiciais do caso, embora espere e se empenha para que as investigações corram bem e se apure, enfim, o ato terrível que levou Vivane ao suicídio. O ponto que me interessa, no entanto, é que uma menina morreu, da forma mais bárbara que se pode conceber: ela foi morta em vida por um ato absurdo que a obrigou, em um desfecho trágico, a precisar pôr fim à própria vida para extirpar uma dor insuportável; mas nada disso brotou do nada, ou deixa de estar inserido num contexto histórico pouco alentador. 

Esclarecer isso e acabar com práticas sociais que, no limite, levam a tragédias como essa é o que exige o nosso (escritórios, estagiários, as faculdades de Direito, a sociedade etc) empenho agora. A nossa missão certamente não é  preservar a nossa própria imagem -- como talvez prefira fazer, erradamente, o escritório onde ela estagiava ou mesmo as pessoas ligadas ao meio jurídico em relação à imagem geral do próprio meio. Vidas importam, imagens não. O choque aqui é o choque não da surpresa, mas do previsível trágico acontecendo como em um pesadelo ou uma profecia.


No entanto, sublinhe-se que o imaginário do mundo jurídico na era do capitalismo cognitivo é um tanto diferente. O cenário hipercompetitivo, machista e explorador das grandes corporações do ramo aponta para um sentido diferente. Os estagiários, que quase sempre arcam com a pior parte do trabalho -- nem sempre tendo em troca os devidos ganhos -- são como as criancinhas que trabalhavam na tecelagens no início da era industrial: corpos suficientemente aptos a serem convertidos em meros objetos daquela atividade (no lugar de dedinhos suficientemente pequenos para fiar, cérebros privilegiados ou corpos suficientemente bonitos para serem desfrutados).

Há um nexo de relações sociais perversas. Muito trabalho, poucos ganhos -- exceto a promessa eterna de efetivação, o sonho com o paraíso profissional -- e uma exploração que se impõe ao quadrado sobre as mulheres -- além do cérebro que trabalha, há o corpo desfrutável. Nada disso é propriamente fruto de uma deliberação política, mas decorrência de um fenômeno social derivado da estrutura de produção -- de soluções jurídicas no caso -- que corre sob vistas grossas de todos. São omissões que ocorrem aqui, ali e em toda parte. Uma responsabilidade pessoal mítica -- entre partes inteiramente assimétricas -- volta e meia é invocada para expiar a culpa de todos.

No fundo, a questão não é, por suposto, moral. Não é um disputa sobre de quem é a culpa -- em sentido amplo, psicológico ou jurídico --, quem é a vítima, quem merece ser punido, quem mereceu o quê. É uma problemática que envolve a produção, o modo de produção contemporâneo, quais sujeitos e quais objetos são produzidos, tanto para trabalhar nisso quanto para consumir o produzido. Não é só qual o motivo de nosso sistema empurrar tanta gente para fazer um curso de Direito, onde e como alocar essa gente durante o curso e depois dele, mas sobre o, digamos, tecido conjuntivo simbólico e cultural que é construído para sustentar isso. 

Isso tem a ver com a precarização da condição do advogado e do estudante de Direito. A atividade advocatícia, que remete ao mundo antigo e sobrevive desde então, encontrou uma nova configuração no capitalismo cognitivo como uma espécie de fábrica necessária para dar solução aos atritos -- privados ou públicos -- inerentes ao sistema. Em uma atividade intelectual, na qual estaríamos livres da exploração do corpo, aparentemente restrita ao trabalho manual, encontramos a forma mais sofisticada e definitiva de exploração -- social, difusa, invisível, anestésica, anônima: ela está impregnada nas práticas cotidianas e é capaz de penetrar nas nossas cabeças; tanta ansiedade, medo, ressentimento para conseguirmos nossos lugares.

Se o caso particular implica na responsabilidade de alguém -- por ação ou omissão, inclusive jurídica --, o problema mesmo é menos sobre culpa ou implicações morais e mais sobre o que é esse mundo contemporâneo, qual a forma que a máquina capitalista contemporânea tomou e como não estamos, nem podemos, estar alheios a tudo isso.  Nós temos tanto fetiche na denúncia da exploração do corpo feminino, e dos corpos em geral, no mundo muçulmano ou mesmo oriental -- como no caso do estupro que consternou a Índia, recentemente --, mas não conseguimos enxergar nossos próprios problemas -- ou talvez só consigamos vê-los, ou admiti-los, quando surgem na forma de arcaísmo, portanto, como raridades. 

Numa época de imagens -- como em uma casa de espelhos -- e de imaginários, é hora de recuperar uma paixão pelo real: e a realidade é aquela que remete ao fato de que muito mudou, mas apenas de maneira formal no que toca à contínua exploração do corpo. Essa realidade não pertece, apenas, ao interior do Brasil ou às periferias metropolitanas, mas à vida daqueles que estão inseridos em cursos de ponta em boas universidades. Esse é o nosso cotidiano, esse precisa ser o motor da nossa luta.

Fonte: O Descurvo

"O Triunfo da Vontade" - Dir. Leni Riefenstahl - Alemanha, 1934 (Revista de História)

PICICA: "Após a guerra, Leni foi presa sob alegação de ser simpatizante nazista. Porém as denúncias foram rapidamente esclarecidas e ela foi solta. Contudo, mais importante do que a discussão sobre o conhecimento ou intenção de Riefenstahl, é perceber que sua trajetória é sintomática das mudanças de entendimento e postura com relação ao nazismo antes e depois da guerra. O talento, proporcional à controvérsia de O triunfo da vontade, faz da diretora uma espécie de paradigma da dificuldade em tratar, discutir ou mesmo lembrar do trauma provocado pelo nazismo."



O Triunfo da vontade
Dir. Leni Riefenstahl Alemanha, 1934.


Hitler e Riefenstahl Hitler e Riefenstahl
Ninguém conquistou tanta glória e infâmia, simultaneamente, como Leni Riefenstahl com O Triunfo da vontade (1934). O filme, que registra o 4º Congresso do Partido Nacional Socialista em Nüremberg, lançou imediatamente o nome da diretora no hall dos grandes cineastas pela qualidade estética e enorme domínio técnico, mas também o associou para sempre ao nazismo.

A filiação ou simpatia com o regime nazista sempre custou muito caro para qualquer figura pública na Alemanha do pós-guerra. O filósofo Martin Heidegger e, mais recentemente, o escritor Günter Grass são apenas alguns dos que não saíram ilesos desse (digamos) “equívoco”. Porém, o reconhecimento inconteste do seu talento não livrou Riefenstahl de um ostracismo monumental após o fim da Segunda Guerra Mundial. Depois de 1945, incapaz de encontrar qualquer trabalho no cinema, dedicou o resto de sua vida à fotografia.

No entanto, a perturbadora admiração que seu talento causara no filme de 1934 nunca seria esquecida. Não há curso de cinema no mundo que ignore Riefenstahl, nem críticos que discutam o rigor estético e o domínio técnico apresentados no filme. Quem hoje quiser uma cópia, não terá grande dificuldade em encontrar. Até nas Lojas Americanas a obra está disponível, fato raro para uma produção da década de 30.  Resultado, certamente, do talento da diretora e, claro, do fascínio mercadológico que o nazismo tem.
 
Além da banalidade do mal 

Acusada seguidas vezes de glorificar o regime nazista, Leni sempre contestou o título de propagandista. Aos 96 anos, em uma entrevista para televisão britânica, fez questão de afirmar: “Antes de 1945, nenhum jornal em todo mundo escreveu que O triunfo da vontade era um filme de propaganda. Depois da guerra, todos disseram.” 

Cena de 'O triunfo da vontade'Cena de 'O triunfo da vontade'

É evidente que, a primeira vista, o argumento soa oportuno. Mas, para além da autarquia moralista, há um dado histórico que é digno de atenção, algo que serve de ponto de apoio para abertura a um entendimento sobre o nazismo anterior à monumentalizacão absoluta do mal. Um momento no qual o nacional socialismo alemão não foi visto algo tão diferente do resto do mundo. 

Em outras palavras, o que Riefenstahl está lembrando é que, ao contrário do que nossa memória coletiva sugere hoje, houve um tempo em que a Alemanha Nazista não só era parte aceitável do jogo internacional, como uma boa parte de sua ideologia era razoavelmente partilhada por uma quantidade considerável de estados no mundo. Um momento em que não só as grandes potências europeias consideravam Hitler interlocutor coerente como boa parte de suas ideias eram frequentemente encontradas em regimes autoritários análogos.

É claro que lembrar isso nunca foi muito agradável. Destacar a singularidade do nazismo sempre foi infinitamente menos perturbador do que reconsiderar seus paralelos. O que dizer, por exemplo, de países que somente conseguiram a independência no período pela afinidade com Hitler, como Croácia e Eslováquia?
Para Riefenstahl, essa lembrança provavelmente estava atrelada a uma tentativa de redimir sua figura pública atestando a normalidade de sua proximidade com o regime. Para os historiadores, no entanto, trata-se de recolocar os ‘pingos nos is’ e procurar dar conta de um contexto nos seus próprios termos.
           
Registro Hipnotizante 

Quando Hitler convidou a jovem Leni Riefenstahl para documentar o congresso do partido nazista, a jovem recusou, alegando desconhecer o funcionamento de um partido ou mesmo as técnicas para se fazer um documentário. O recém-empossado chanceler alemão respondeu que era exatamente isso que ele queria: um filme que demonstrasse o Congresso por um olhar não especialista. Selecionado apenas por critérios estéticos, a intenção era justamente impressionar um público que não fosse necessariamente interessado em política.

Em 1933, quando Hitler chegou ao poder, Leni não era exatamente uma desconhecida. Durante os anos 20, a jovem bailarina já havia migrado para o cinema, estrelando alguns filmes do diretor Arnold Fanck, que mais tarde descobria seus talentos de Leni por trás das câmeras. Em 1932, além de atuar e produzir, dirigiu Das Blaue Licht (A luz azul). Premiado em Veneza, a (agora) diretora recebeu convites para trabalhar em Hollywood, mas, por um namorado, decidiu permanecer na Alemanha. Foi quando chamou atenção de Hitler, que viu nela a perfeita mulher alemã.

O 6º Congresso do Partido Nacional Socialista, em 1934, foi detalhadamente planejado para ser o mais espetaculoso. Os nazistas, consagrados na eleição do ano anterior, aproveitaram o momento para enfatizar o papel messiânico do seu Führer e afirmar de forma contundente e teatral a simbologia de sucesso, organização e superioridade do povo alemão. Sediado em Nüremberg, onde o partido conseguira enorme apoio, o evento foi de fato grandioso. Mas nunca seria tão lembrado não fosse o precioso registro de Leni Riefenstahl.

O uso de câmeras móveis, lentes de foco longo, fotografias aéreas, perspectivas abertas e o fabuloso uso da música resultaram num trabalho notável.  Em 1993, o crítico Richard Corliss, escrevendo na revista Time afirmou que “há muitas razões [para o sucesso do filme], uma é que Triunfo da Vontade é simplesmente um filme muito bom, muito potente, hipnotizante. Outra é o estilo visual heroico e sensual.”

Mais tarde, em 1936, Leni também faria um filme sobre as Olimpíadas em 1936 em Berlim (Olympia) e permaneceria próxima do alto escalão do partido nazista. Porém, se por um lado ela nunca questionou o fascínio que a imagem de Hitler lhe causou, nem a estranha amizade que mantinha com ele, por outro sempre fez questão de enfatizar seu trabalho como artista. Em suas memórias, afirma que desconhecia campos de concentração e o que acontecia com os judeus. Para ela, seu trabalho estava vinculado à produção de documentários que procuravam registrar o que estava acontecendo.

Pelo resto da vida, Leni Riefenstahl procurou desvincular qualquer ideia de que Triunfo fora um filme de propaganda. Segundo a diretora, o que ela fez foi um documentário e, como tal, procurou registrar a realidade como era na Alemanha em 1934. A favor dela, o fato de que a despeito do registro magistral e das técnicas discursivas dos membros do partido, o imenso público que aplaudia entusiasticamente o Congresso não era composto de atores.

A forma como Hitler e sua turma foram recebidos era absolutamente real. Sem produção nem maquiagem. Na época, de fato, ninguém tratou o trabalho como mero veículo institucional de propaganda. Não à toa, o filme terminou premiado em lugares como França, Suécia e mesmo Estados Unidos, deixando claro que a produção fora tratada, no seu tempo, como documentário.

Em 2003, quando a diretora morreu, aos 101 anos, publicações do mundo inteiro escreveram pequenas biografias, reafirmando seu incrível talento. A revista The Economist afirmou que O triunfo da vontade “selou a reputação de uma das maiores diretoras de cinema da história”. Nada mal para alguém que produziu menos de 10 filmes e que passou grande parte da vida condenada à associação com o nazismo.

Após a guerra, Leni foi presa sob alegação de ser simpatizante nazista. Porém as denúncias foram rapidamente esclarecidas e ela foi solta. Contudo, mais importante do que a discussão sobre o conhecimento ou intenção de Riefenstahl, é perceber que sua trajetória é sintomática das mudanças de entendimento e postura com relação ao nazismo antes e depois da guerra. O talento, proporcional à controvérsia de O triunfo da vontade, faz da diretora uma espécie de paradigma da dificuldade em tratar, discutir ou mesmo lembrar do trauma provocado pelo nazismo.

Fonte: Revista de História

"Veja, a tática do cinismo", por Carla Luciana da Silva

PICICA: Retrato 3 x 4 da revista da direita brasileira.

A AUTOINTITULADA
Veja, a tática do cinismo

Em vez de se apresentar como a ponta de lança da campanha anticorrupção que acabaria por levar Collor a renunciar, a Veja o apoiava sempre que possível. Mais tarde, reinventaria a própria imagem e o papel que desempenhava na queda do presidente corrupto
 
por Carla Luciana Silva



Uma forma de desvendar a revista Veja é ler as cartas dos leitores, de um entusiasmo algo monótono: “um farol iluminando o mar de lágrimas de nosso mundo político”; “não somente uma bússola [ética], mas também fonte de constância e competência”; uma publicação “livre, corajosa e obcecada pela busca da verdade”.1 Outra é, simplesmente, folhear um exemplar.

A Veja é a revista mais influente da América Latina, com uma tiragem de aproximadamente 1,2 milhão de exemplares, dos quais 925 mil por assinatura, e recruta três quartos de seus leitores entre os 12% de brasileiros mais abastados – população que, parece, não se incomoda com uma visão de mundo conservadora. A seção “Panorama”, por exemplo, exibe regularmente imagens e citações de homens e mulheres públicos: os primeiros, de terno, expressam sempre suas preocupações políticas; elas, pouco vestidas, se inquietam sobre o peso ou as nádegas. Já a publicidade ocupa em média mais de setenta das 140 páginas da publicação. Na edição de 7 de novembro de 2012, os leitores depararam com dezesseis páginas seguidas de propaganda da Procter & Gamble.

É necessário, contudo, desembolsar R$ 9,90 para comprar a Veja em uma banca – o equivalente a 1/60 do salário mínimo. Essa proporção, na França, significaria desembolsar mais de 18 euros por uma L’Express ou Le Nouvel Observateur. Papel fino e principalmente cinza, manchetes capitulares, capa sensacionalista: a Veja não é propriamente uma revista elegante. Sua ambição? Figurar entre as instituições “indispensáveis ao país que desejamos ser”, como proclama seu slogan. E o país a que a Veja aspira não gosta nada do Estado.

Na edição de 15 de agosto de 2012, o editorial enalteceu um programa de privatização que coloca o Brasil “em harmonia com a lei da gravitação universal”. Não sem advertir: “a presidente Dilma Rousseff vai se chocar contra as resistências evidentes de seu partido, o PT, e contra outras forças reacionárias da esquerda. Trata-se de uma batalha na qual necessitará do apoio da opinião pública. O apoio da Veja já está garantido”.

Editada pelo Grupo Abril, a Veja surgiu em 1968, mesmo ano do Ato Institucional n. 5, que marcou a radicalização da repressão exercida pela junta que chegou ao poder em 1964. Se, por um lado, a revista sempre teve uma relação ambígua com a ditadura, por outro se engajou a favor das reformas neoliberais desde o retorno da democracia, em 1985 – com a mesma devoção com que anuncia sua linha editorial de “jamais refugiar-se no conforto da imparcialidade”.

Em 1989, na primeira campanha presidencial democrática após a queda dos militares, a Veja apoiou Fernando Collor, cuja base política era frágil em relação à candidatura de Lula. Barbudo, sindicalista, sem diploma universitário, este entoava um discurso que ameaçava os poderosos. Na época, o proprietário do grupo Globo, Roberto Marinho, também escolheu seu lado. Sobre Collor, alertava seus funcionários: “Não criticamos esse jovem”.2 A Veja atuava da mesma forma, construindo a imagem de um candidato “jovem e sedutor” e grande “caçador de marajás”.

Nos anos seguintes, uma questão obcecou os economistas ortodoxos: a inflação, que acabava com as economias dos rentistas. E aterrorizou a Veja, que consagrou várias capas ao tema com, por exemplo, um vampiro com olhos esbugalhados (9 maio 1993), um crocodilo fotografado de frente e com a boca aberta (9 mar. 1994) ou ainda um dragão cujas labaredas de fogo parecem queimar a capa (4 dez. 2002).

A Veja também se alarma diante de protestos e manifestações populares: os organizados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e os dos sindicatos. Assim, no dia 31 de maio de 1995, publicou na capa uma fotomontagem que apresenta o presidente Fernando Henrique Cardoso usando um capacete de soldado. A publicação o felicita por “domar” a central sindical mais importante do país ao reprimir uma greve de petroleiros com o Exército.

As “ditaduras populistas”

Preocupada com a chegada ao poder dos dirigentes progressistas na América Latina, a revista se empenhou em denunciar as “ditaduras populistas”. No dia 10 de maio de 2006, com a manchete “Essa doeu!”, representa um Lula visto de costas após ter recebido um chute no traseiro. A imagem era uma burla da suposta ingenuidade do chefe de Estado perante seu homólogo boliviano, Evo Morales, que acabava de nacionalizar o gás e o petróleo bolivianos, explorados por empresas brasileiras – porque, para a Veja, os interesses das multinacionais devem prevalecer. No dia 4 de julho de 2012, a revista denunciou uma tentativa de golpe de Estado no Paraguai: não a de Frederico Franco, exitosa, e sim a do presidente venezuelano Hugo Chávez, que teria tentado destituir Franco com o Exército paraguaio...

Até o início da década de 2000, o PT era o assunto que mais preocupava a publicação. No dia 23 de outubro de 2002, às vésperas da eleição que levou Lula à presidência, a Veja pegou pesado. A manchete “O que querem os radicais do PT” titulava uma imagem do candidato do partido segurando uma coleira com um cachorro de três cabeças – as de Lenin, Marx e Trotski –, que o desequilibrava. Enquanto Lula enviava sua “Carta aos brasileiros”, destinada a tranquilizar os especuladores, o periódico chamava a atenção para as franjas “extremistas” do partido.

A Veja se considera na vanguarda da luta contra a corrupção: um editorial de 5 de setembro de 2012 apresenta a revista como a “bússola ética” do Brasil. Mas esse comportamento desempenha, em primeiro lugar, a função de despolitizar. “Ao colocar a corrupção no centro do tratamento da informação política, a Veja transforma o político em policial e omite o fato de que sua própria conduta policial é eminentemente política”, analisa o jornalista Roberto Efrem Filho.3 Assim, em vez de se apresentar como a ponta de lança da campanha anticorrupção que acabaria por levar Collor a renunciar, a Veja o apoiava sempre que possível. Mais tarde, reinventaria a própria imagem e o papel que desempenhava na queda do presidente corrupto. Da mesma forma, em 2005, a Veja reivindicou a revelação do mensalão, quando em realidade a denúncia havia sido feita pela Folha de S.Paulo.

Mais grave, a própria revista está envolvida em casos de corrupção. Há ligações entre Policarpo Júnior, diretor da Veja em Brasília, e empresários como Carlinhos Cachoeira, acusado de desvio de dinheiro. O caso desencadeou a criação de uma comissão parlamentar de inquérito batizada de “CPI Cachoeira”. Policarpo, nomeado redator-chefe em janeiro de 2012 e encarregado das páginas políticas, aparece em gravações que o implicam na publicação de artigos e reportagens cujo único objetivo era promover o interesse de empresários.

Confrontada pelo ressentimento anticorrupção que ela mesma ajudou a alimentar, notadamente na internet, a Veja reagiu violentamente, chegando até a denunciar na capa as “táticas de guerrilha destinadas a manipular as redes sociais” (16 maio 2012). Nessa nota, acusa o PT de colocar um robô encarregado de publicar mensagens anti-Veja no Twitter. Solidário, O Globo apoiou a revista em nome da “defesa da liberdade”.

Carla Luciana Silva 

é autora de Veja: indispensável partido neoliberal (1989-2002), Edunioeste, Cascavel, 2009


Ilustração: André Dahmer

1 Respectivamente, 23 maio 2012, 12 e 19 set. 2012.
2 Citado por Christian Dutilleux em Lula, Flammarion, Paris, 2005.
3 Roberto Efrem Filho, “A revista Veja e o meu pai”, Brasil de Fato, São Paulo, 19 jun. 2008.



Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil

"O Contestado: Restos Mortais", por Pedro Henrique Gomes

PICICA: "O filme é atravessado por relatos de historiadores, jornalistas, escritores, moradores da região e descendentes de participantes da guerra, músicos e folcloristas, os relatos às vezes contrastam uns com os outros, emprestando ao longa um recorte histórico multifacetado e relevante para a discussão que se pretende lançar." 

O Contestado: Restos Mortais

by Pedro Henrique Gomes

A República era coisa do diabo. A culpa era do comunismo. O Contestado: Restos Mortais, mais recente filme de Sylvio Back, discute os conflitos ocorridos, grosso modo, entre 1912 e 1916, rasgando territórios paranaenses e catarinenses, a partir de um amplo corte histórico de uma guerra que envolveu não só uma disputa pelas terras, pelos espaços, mas justamente pela riqueza que provinha da região, abundante em madeira e erva-mate. Com disputas judiciais entre Santa Catarina e Paraná que precedem os conflitos armados (a guerra do Contestado causou mais mortes que a de Canudos) e com procedentes que envolvem a empresa ferroviária Brazil Railway Company e o governo, que havia declarado que as terras que estavam sendo disputadas pelos estados eram de ninguém, devolutas (habitadas, mas não posses), iniciando o processo de desapropriação dos moradores da região – porque desapropriar sempre fez parte do progressismo republicano. Se a guerra era santa e o messias não retorna, os deuses precisam ser inventados pelos homens. A legitimidade da luta, mesmo que imbuída de todo um suco religioso fanático, mas talvez justamente por ele, mostrou poder de resistência e organização social frente ao coronelismo e ao exército republicano. Filme político.

Os caboclos expulsos de suas terras decidiram seguir os ensinamentos do monge José Maria e passaram a organizar a resistência. Messianicamente, os monges defendiam a simplicidade e se colocavam politicamente contra as injustiças sociais: ajudavam doentes, peregrinavam, e a eles eram atribuídos poderes de cura milagrosos. Enquanto coronéis conquistavam cada vez mais terras, caboclos e fazendeiros fortaleciam-se em um grande grupo armado. A vida em comunidade, com as relações de propriedade abolidas e com um sistema de trocas implantado (o comércio fora extirpado da comunidade), os jagunços resistiam. Após viajar para Irani, então território paranaense, para defenderem-se da invasão, tropas do Regimento de Segurança do Paraná chegaram ao local para devolver os sertanejos a Santa Catarina. No conflito, entre milhares de outros de ambos os lados, José Maria morre. A partir daí os combates ganham diferentes contornos, sendo que passaram a ter, na região de Caraguatá, o protagonismo de Maria Rosa, jovem que dizia receber espíritos, como José Maria, e que teria sido assim, seguindo conselhos do falecido monge, que conseguiu arregimentar um pequeno exército.

O filme é atravessado por relatos de historiadores, jornalistas, escritores, moradores da região e descendentes de participantes da guerra, músicos e folcloristas, os relatos às vezes contrastam uns com os outros, emprestando ao longa um recorte histórico multifacetado e relevante para a discussão que se pretende lançar. Se o conflito foi marcado por um caldo religioso messiânico, com todas as atribuições possíveis ao fanatismo dogmático pela força divina, Sylvio Back insere, entre as entrevistas, transes mediúnicos que realizariam essa conexão com o passado. Como ilustração, há um resgate da memória pelos espíritos com a mediação do corpo, o transe (mesmo que claramente encenado), as conversas com os coronéis, generais, caboclos e jagunços. Eis que a força de O Contestado supera os limites de sua tensão: os relatos costuram as reinvindicações dos caboclos e a pressão dos governos estaduais e da República recém-formada. Uma expectativa se cria, uma angústia fermenta na tela.

Planos fechados mostram apenas os rostos dos entrevistados, a luz é apenas expressão da busca pelos relatos lá onde eles residem imaterialmente: na penumbra da memória. A narratividade estética suporta o peso dos relatos. Quando os rostos escapam o quadro, a câmera volta a encontrá-los, não há outra forma de mostrá-los senão com seus poros em exposição. Se as sequências de transes não confirmam o espírito de guerrilha dos relatos e do desejo de imantar-se pela História (mesmo que estejam justificadamente inseridas no filme), tampouco contribuem para a dramaticidade dos eventos. A própria história e a necessidade de redescobri-la já seriam suficientes para amplificar a voz do filme. Nessa sombra, O Contestado tanto resiste esteticamente às facilidades do documentário brasileiro quanto se confunde com elas, o que lhe serve bem.

(O Contestado: Restos Mortais, Brasil, 2010) De Sylvio Back.

Fonte: Tudo é Crítica

janeiro 06, 2013

HENFIL VIVE!


Documentário sobre a trajetória do cartunista, quadrinista e jornalista Henrique de Sousa Filho

Fonte: CULTURA

"O retorno do zapatismo no México", por Eduardo Febbro

PICICA: "Já se passaram cerca de duas décadas desde que, logo após a meia noite de 31 de dezembro de 1993, o então presidente mexicano Carlos Salinas de Gortari ingressou no ano de 1994 com um brinde aguado: estava festejando o ano novo e a entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio da América do Norte quando o ministro da Defesa da época o informou que um grupo armado acabava de tomar a localidade de San Cristóbal de las Casas e vários pontos de Chiapas, o Estado situado ao sul da península de Yucatã.

O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) impôs-se na política mexicana junto a seu líder, o subcomandante Marcos. O subcomandante e os zapatistas romperam o modelo dos tradicionais grupos revolucionários latino-americanos: eram majoritariamente indígenas e seu discurso e suas demandas estavam distantes das entonações marxistas, desenhando uma exigência democrática para um México que ainda era governador ininterruptamente pelo PRI. Os combates daquele primeiro levante duraram quase duas semanas ao final das quais houve centenas de mortos. Salinas de Gortari decretou um cessar-fogo e o subcomandante Marcos ganhou a batalha, não com as armas, mas sim com as palavras." EM TEMPO: Leia, também, Ser Zapatista en España.



O retorno do zapatismo no México

Após um período de poucas intervenções, o subcomandante Marcos reapareceu com seu verbo e com ação para reinstalar o movimento zapatista no horizonte da agenda política do recém- eleito presidente Enrique Peña Nieto, cuja vitória marcou o retorno do Partido Revolucionário Institucional (PRI) ao poder. Em uma marcha realizada dia 21 de dezembro, da qual participaram cerca de 40 mil pessoas, Marcos divulgou um comunicado dizendo: "Escutaram? É o som de seu mundo desmoronando, é o do nosso ressurgindo". O artigo é de Eduardo Febbro.




Cidade do México – Dezembro é o mês dos levantes. Ao término de um largo período de poucas intervenções, o subcomandante Marcos reapareceu com sua prosa e com a ação para instalar o movimento zapatista no horizonte da agenda política do recém- eleito presidente Enrique Peña Nieto, cuja vitória marcou o retorno do Partido Revolucionário Institucional (PRI) ao poder, após 12 anos na oposição.

Já se passaram cerca de duas décadas desde que, logo após a meia noite de 31 de dezembro de 1993, o então presidente mexicano Carlos Salinas de Gortari ingressou no ano de 1994 com um brinde aguado: estava festejando o ano novo e a entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio da América do Norte quando o ministro da Defesa da época o informou que um grupo armado acabava de tomar a localidade de San Cristóbal de las Casas e vários pontos de Chiapas, o Estado situado ao sul da península de Yucatã.

O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) impôs-se na política mexicana junto a seu líder, o subcomandante Marcos. O subcomandante e os zapatistas romperam o modelo dos tradicionais grupos revolucionários latino-americanos: eram majoritariamente indígenas e seu discurso e suas demandas estavam distantes das entonações marxistas, desenhando uma exigência democrática para um México que ainda era governador ininterruptamente pelo PRI. Os combates daquele primeiro levante duraram quase duas semanas ao final das quais houve centenas de mortos. Salinas de Gortari decretou um cessar-fogo e o subcomandante Marcos ganhou a batalha, não com as armas, mas sim com as palavras.

Em um inesquecível comunicado dirigido à imprensa, Marcos respondeu ao suposto “perdão” oferecido pelo governo federal: Do que devemos pedir perdão? Do que vão nos perdoar? De não morrermos de fome? De não nos calarmos em nossa miséria? De não ter aceitado humildemente a gigantesca carga histórica de desprezo e abandono? De termos nos levantado em armas quando encontramos todos os outros caminhos fechados? De não termos observado o Código Penal de Chiapas, o mais absurdo e repressivo do qual se tem memória? De ter demonstrado ao resto do país e ao mundo inteiro que a dignidade humana ainda vive e está presente em seus habitantes mais empobrecidos? De termos nos preparado bem e de forma consciente antes de iniciar? De ter levado fuzis para o combate, no lugar de arcos e flechas. De ter aprendido a lutar antes de fazê-lo? De todos sermos mexicanos? De sermos majoritariamente indígenas? De chamar todo o povo mexicano a lutar de todas as formas possíveis em defesa do que lhes pertence? De lutar pela liberdade, democracia e justiça? De não seguir os padrões das guerrilhas anteriores? De não nos rendermos? De não nos vendermos? De não nos trairmos?

Denso, legítimo, inapagável. Transcorreram quase vinte anos, houve muitos mortos em Chiapas, repressão, matanças como as Acteal (com 45 indígenas assassinados), centenas de páginas da prosa literária com a qual o subcomandante Marcos seduziu o mundo, um enorme terremoto político no México e, sobretudo, o fim do mandato interrompido do PRI e a chegada ao poder de outra força política, o conservador Partido da Ação Nacional (PAN), que governou o México durante dois mandatos consecutivos: Vicente Fox (2000-2006) e Felipe Calderón (2006-2012).

O PRI retornou ao poder em dezembro de 2012, após seu candidato, Enrique Peña Nieto, ganhar as eleições presidenciais de julho do ano passado. E com o PRI voltou também o zapatismo, com a ação e a palavra. Após um longo período de recesso, o Exército Zapatista de Libertação Nacional irrompeu no espaço público em dois tempos: primeiro, no dia 21 de dezembro com uma mobilização silenciosa da qual participaram 40 mil pessoas com o rosto coberto com o gorro popularizado pelo subcomandante. Marcos divulgou um comunicado nesta marcha zapatista que percorreu várias comunidades dizendo: Escutaram? É o som de seu mundo desmoronando, e o do nosso ressurgindo. A marcha do dia 21 foi a maior mobilização protagonizada pelos zapatistas desde que pegaram em armas no dia 1º de janeiro de 1994.

A escolha da data não foi casual: coincidiu com o décimo-quinto aniversário do massacre de Acteal perpetrado por paramilitares e no qual morreram 45 indígenas, em sua grande maioria mulheres e crianças. O governo mexicano atribuiu à matança a um conflito étnico e condenou 20 indígenas. Após 11 anos de prisão, os acusados recuperaram a liberdade devido a irregularidades no processo.

O segundo tempo da instalação do zapatismo na agenda política foi assumido pelo subcomandante Marcos mediante duas cartas e um copioso comunicado nos quais, com sua verve habitual, entre crítico, poético e guerreiro, interpela e despedaça a classe política em seu conjunto, esquerda e direita, os meios de comunicação e o presidente Enrique Peña Nieto, a quem exige que cumpra com os acordos de San Andrés (Acordos de San Andrés sobre Direitos e Cultura Indígena firmados em 16 de fevereiro de 1996 pelo governo mexicano do presidente Ernesto Zedillo e pelo EZLN).

Estes textos que figuram nas cartas do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena são os primeiros em extensão que, nos últimos dois anos, levam a assinatura do subcomandante Marcos. O líder mexicano anuncia uma série de ações cívicas e, desde o princípio, assinala o caminho que será seguido: “A nossa mensagem não é de resignação, não é de guerra, morte ou destruição. Nossa mensagem é de luta e de resistência”.

O subcomandante arremete contra o atual presidente, acusando-o de ter chegado ao poder mediante um “golpe midiático” e destaca que “estamos aqui presentes para que eles saibam que se eles nunca se forem, nós tampouco”. O insurgente zapatista não livrou ninguém: critica a esquerda de Manuel López Obrador, os governos passados e presentes e a imprensa por ter pretendido sentenciar a desaparição do zapatismo. “Nos atacaram militar, política, social e ideologicamente. Os grandes meios de comunicação tentaram fazer com que desaparecêssemos, com a calúnia servir e oportunista em um primeiro momento, com o silêncio e cumplicidade, depois”.

Marcos celebra o nível de vida que gozam os indígenas da região, muito superior, escreve, “ao das comunidades indígenas simpáticas aos governos de plantão, que recebem as esmolas e as gastam em álcool e artigos inúteis. Nossas casas melhoraram sem danificar a natureza, impondo a ela caminhos que lhe são alheios. Em nossas comunidades, a terra que antes era usada para engordar o gado de latifundiários, agora é para cultivar o milho, o feijão e as verduras que iluminam nossas mesas”.

Este comunicado constitui um aparato crítico e um programa de ação que compreende “iniciativas de caráter civil e pacífico”, uma tentativa de “construir as pontes necessárias na direção dos movimentos sociais que surgiram e surgirão”, e, sobretudo, a preservação irredutível de uma “distância crítica frente à classe política mexicana”. O subcomandante Marcos coloca o governo ante o desafio de demonstrar “se continua a estratégia desonesta de seu antecessor, que além de corrupto e mentiroso, tomou dinheiro do povo de Chiapas para o enriquecimento próprio e de seus cúmplices”. Sem piedade ante o novo Executivo, Marcos dedica extensos parágrafos a lembrar o passado de alguns membros do atual governo.

Com o PRI no poder o zapatismo voltou a ocupar espaço na agenda nacional como soube fazer com tanto êxito em anos anteriores. Os analistas, partidários e adversários de Marcos, estão divididos acerca da capacidade que o subcomandante ainda possui para mobilizar um país açoitado pela violência gerada por esse novo ator decisivo que é o narcotráfico.

Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: Carta Maior