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agosto 17, 2010

O Real, o Simbólico e o Imaginário em Óidipus

A subjetividade teatralizada

A análise da tragédia grega implica considerar o pensamento grego distinto do atual. O homem grego era alguém profundamente implicado e próximo de seu ato. Isto quer dizer que pensar era, para ele, agir. Talvez, por isso, os poetas se preocupassem em representar teatralmente o que se passava na esfera subjetiva; não porque eles soubessem do inconsciente, mas porque era fundamental dar nome ao que se experimentava. Assim, Sófocles foi considerado, por Aristóteles, o “príncipe dos trágicos”, e seu Édipo Rei, a mais sublime e perfeita das tragédias, posto que ela é a encenação da experiência de engendramento do desejo, “a cena sobre a cena” onde o drama da existência tem lugar, articulando os planos do ator e do espectador num único enquadre. E, tomado essa perspectiva atemporal do drama do desejo, parece-me fundamental fazer um comentário sobre a leitura que Antonio Quinet faz dessa mesma tragédia.

O psicanalista artista
Toda vez em que um psicanalista é chamado a falar fora de seu consultório, ele não está, obviamente, no lugar que lhe cabe, o da direção do tratamento de seus analisandos. Quando ele reflete sobre alguma questão outra, sobretudo no campo da cultura, sua posição é a de se deixar ensinar pelo que escuta/olha, aprendendo com a arte o que nela precede sua formalização teórica. Assim, é porque o campo do desejo circunscreve na arte o material de seu efeito, que, podemos dizer, o artista nos dá, sem saber, acesso ao lugar da letra inconsciente do autor da obra.

O tempo da tragédia
No teatro, as coisas se passam na temporalidade do dito. As unidades da ação, do lugar e do tempo, tão caras ao teatro grego, juntam-se na sincronia de uma representação cujo ponto de partida é a articulação ente mito, coro e ditirambo. Num certo sentido, o teatro grego oferece a estrutura do inconsciente na cena representada. A “cena sobre a cena” recobre a divisão subjetiva do ator/espectador. Tempo real do nascimento da cultura ocidental.
Sem entrar num desenvolvimento detalhado, poderíamos dizer que a tragédia de Sófocles, Édipo Rei, explicita a força do desejo no seu desafio à ordem da cultura e da história, mostrando o conflito entre demanda e desejo, entre a dívida simbólica e a liberdade do desejo.
Seria o caso de perguntarmos: que sentido tem hoje o fenômeno trágico e a tragédia? Se o mundo contemporâneo admite o trágico, em que medida e de que maneira ele pode ser vivido?
O teatro da vida dentro do teatro, tão bem encenado por William Shakespeare, mostra-nos que o trágico vai-se modificando ao longo do processo de elaboração, de simbolização da experiência do sujeito. Por isso, cada autor tem do trágico uma leitura que lhe é singular e que depende do momento experimentado na elaboração de seu texto.

A força do desejo
Se toda escrita se realiza não só com os significantes, mas também e sobretudo com a letra no inconsciente, então a leitura de uma obra como Édipo Rei deve ser entendida no contexto e na temporalidade em que é mostrada. Aliás, não é possível outra fidelidade que a explicitada por cada dramaturgo na condição de autor/leitor da obra. Sua liberdade de criar sobre o texto original é a da medida de seu desejo, sendo ele o único sujeito da crítica cujo mérito é indiscutível; porque seu trabalho de elaboração resulta da peça encenada, sendo esta a mostração do que pode receber como transmissão de perda de sentido do que, no texto do autor original, é resto a ser nomeado.
Se, como diz Aristóteles, na Poética, “aquele que escreve está altamente comprometido com o seu escrito”, é porque, ao escrever, o sujeito dá lugar ao que de mais íntimo habita seu pensamento. Ao escrever, o autor/dramaturgo é comandado, sobredeterminado pelo que lhe é mais íntimo e mais estranho. Algo que pulsionalmente o excede, fazendo-o conhecer as coordenadas do autor secreto que o habita, verdade de um saber que desconhecia e que, de fato, o faz autor/leitor da obra.

RSI em Óidipous
Antonio Quinet oferece-nos, com sua Óidipus, filho de Laios, uma leitura pelo avesso do drama clássico de Sófocles, Édipo Rei.
Chama a atenção do espectador, a leitura da tragédia contemporânea que Quinet oferece do ponto em que a função paterna, estruturada na experiência edípica de cada sujeito, claudica na ilusão civilizatória de nosso tempo. Os três planos em que estrutura sua montagem articulam-se como Real, Simbólico, Imaginário do nó borromeano.
Ao Real, corresponderia a tragédia original, estrutura da cena do engendramento do sujeito. O drama é a experiência traumática de defrontamento do sujeito com a verdade de seu desejo. O plano Simbólico, achamos que está representado pela elaboração do espectador que lê a cena com a letra de sua própria experiência inconsciente. A ela, se articula, como derradeiro plano, o Imaginário indígena, onde as tribos primam pela transmissão oral de sua cultura, tal como ocorria na Antiga Grécia. Nesse caso, porém, o que tem valor de sintoma é o fato de sua existência, como “cultura diferente”, ser denegada pela cultura oficial. Os indígenas são considerados estrangeiros à nossa cultura, muito embora sejam os verdadeiros nativos da terra que ocupam. Por que será que a transmissão da civilização grega pode ser eficaz e as culturas primevas de nosso tempo não? Esta é, a meu ver, uma questão a ser pensada, pois, em alguns aspectos, por exemplo, na preservação ambiental, os indígenas estão a nossa frente.

A música e o abismo da significação
Um outro importante ponto da peça a ser mencionado é o uso da música. Não tanto a que se faz ouvir a partir dos instrumentos musicais, mas a que emana das palavras em grego. A forte sonoridade dessas palavras convoca um “abismo de significação”, conforme foi mencionado por José Eduardo Costa Silva, no debate no SESC Copacabana. Penso, contudo, que essa sonoridade margeie outros sentidos, como o da perda necessária da significação original do texto, uma vez que o trágico grego não corresponde à apreensão contemporânea do trágico, mesmo que saibamos que o que faz a tragédia ser eterna é o fato de ela ser inerente à experiência de todo sujeito na sua relação com o mundo.

Teresa Pallazo Nazar, psicanalista (Escola Lacaniana de Psicanálise)


Fonte: Óidipous, filho de Laios

junho 04, 2010

Antonio Quinet escreve sobre a Escola de Lacan


ElMagoFafaPasionario 7 de setembro de 2009

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por Vanessa Souza – Conheci Jacques Lacan, ou melhor, passei a ser “atravessada” por seu ensino, a partir de um livro do psicanalista, psiquiatra e doutor em filosofia pela Universidade de Paris VIII, Antonio Quinet. Hoje, quando alguém me pergunta, “Qual seminário do Lacan devo ler primeiro?” Eu sempre respondo: “Comece pelo Antonio Quinet.”


Logo, quando me chegou às mãos A estranheza da psicanálise: A Escola de Lacan e seus analistas, tive certeza de que a leitura seria um deleite. Apesar de toda certeza ser neurótica, não me enganei. É uma grande obra.

Quinet ressalta, logo nas primeiras páginas do livro, ser necessário retomar os fundamentos da Escola de Lacan, diante dos “desvios” de algumas escolas de psicanálise. A Escola de Lacan é uma instituição, de transmissão psicanalítica, e um conceito, baseado na Escola. Sua característica fundamental é ser fundada em nome de um ensino, o de Lacan.

Para contextualizar o leitor não psicanalista: Lacan teve dois pontos de conflito com a IPA (Associação Psicanalítica Internacional): o encurtamento das sessões e a participação de analisandos nos seminários de ensino do analista. Lacan saiu da Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP). Dessa cisão, em 1953, fundou-se a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP). A oposição entre Lacan e a IPA resultou na origem da Escola Freudiana de Paris (EFP), fundada por ele.

E o que traz esta Escola? Um dos princípios básicos é que ela não autoriza ou desautoriza ninguém a praticar a psicanálise, mas é sua obrigação garantir que o sujeito tenha feito sua formação e dado provas de sua prática de analista. Nessa situação, a Escola confere o título de AME (analista membro da Escola). O AE (analista da Escola) é o nome que recebe o sujeito que fez o passe, momento no qual reconheceu a passagem de analisante a analista – em seu relato sobre sua análise.

E o passe, o que vem a ser? Nenhuma conotação espírita neste caso, embora hajam vídeos engraçados no Youtube fazendo referência ao “Pai Lacan”. O passe é uma passagem de psicanalisante a psicanalista, e um dispositivo da Escola para verificação dessa passagem. Resumindo, é o momento de formação do psicanalista. Na prática, o candidato a psicanalista se dirige a uma comissão, chamada de cartel.

O cartel introduz, por um lado, a finalidade da tarefa a cumprir – uma produção de saber em psicanálise, favorecendo o vínculo pelo trabalho (desfavorecendo o pseudovínculo fraterno), e, por outro lado, o conceito de dissolução depois de concluída a tarefa. A lógica do cartel inclui, portanto, o seu fim (nos dois sentidos da palavra). (…) O cartel é considerado por Lacan como a célula base da Escola, pois obedece a sua lógica: a falta de um saber concluído e totalizador, permitindo a elaboração pessoal de cada um, e o vínculo particular de cada sujeito com a Escola a partir de seu desejo e de sua relação com a causa analítica.

Lacan descreveu no seminário D´Écolage, em 1980, a “fórmula” do cartel. Quatro sujeitos se reúnem para fazer um trabalho, ainda que cada trabalho seja individual. Os cartelizantes são tanto aqueles que praticam a psicanálise como qualquer um que deseje estudá-la. O que une os membros de um cartel é terem interesse pela investigação de um tema comum. Cada cartelizante delimitará uma questão que se agrega a esse tema comum de onde advém o título do cartel. Resumindo, ao final de um período o analista membro da Escola testemunha sobre sua análise a dois passadores, que transmitirão o que escutaram a uma comissão (formada por passadores e analistas).

O mesmo precisa dar provas de sua experiência de analista, por seu testemunho através de comunicações e trabalhos. Não é tarefa das mais simples escrever sobre Lacan sem usar “lacanês” – leia-se os matemas e termos fundamentais em sua obra. Concluo com palavras de Lacan: não se deve compreender muito rápido.

::: A estranheza da psicanálise: A Escola de Lacan e seus analistas ::: Antonio Quinet :::
::: Jorge Zahar, 2009, 208 páginas :::
::: Compre no Submarino ou na Livraria Cultura :::

Fonte: www.amagalma.blog.br

maio 09, 2010

Seminário Teatro e Psicanálise : Debate da peça do Théâtre du Soleil

Agradeço imensamente, a gentileza de divulgar o Seminário "Teatro e Psicanálise", promovido pelo FCCLRio e a EFCL.

Esse evento é coordenado pelo psicanalista Antonio Quinet e terá a presença da diretora de teatro e atriz Fabiana Mello e Souza, que foi atriz da companhia francesa do Théâtre du Soleil . Haverá debate da peça Le dernier caravansérail - odyssées e do filme " A última parada da caravana - odisséias" .

Fabiana M e Souza, atualmente trabalha no Amok teatro e dirige um centro de pesquisas de treinamento do ator e de dramaturgia as máscaras balinesas.

Data, terça feira, 11 de maio, às 21:15h
Local: Rua Goethe,66- Botafogo ( sede da FCCL)
Telefone: 25 371786
Entrada Franca

Esse evento " Teatro e Psicanálise" é realizado mensalmente em FCCL e nesse semestre, teve a presença dos importantes diretores de teatro, Amir Haddad e Ana Kfouri. Proximos encontros: 11/05 e 08/06

Abs e desde já obrigada,

Elvina Maciel Lessa'
Participante de FCCL e EFCL
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