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novembro 12, 2010

"Minha Terra, África", de Cleire Denis

PICICA: Um filme sobre o abismo entre duas civilizações, abismo que separa duas culturas, duas realidades irreconciliáveis, subproduto do colonialismo cruel dos europeus.
imovision | 20 de outubro de 2010

Em algum lugar da África, numa província devastada pela guerra civil, Maria, uma feroz e corajosa mulher branca, se recusa a abandonar suas plantações de café ou a reconhecer o perigo que coloca sua família. Para Maria, partir é se render, um sinal de fraqueza, de covardia. Nessa plantação, que foi passada por três gerações de brancos, André -- seu ex-marido, e pai do seu filho adolescente -- teme pelo orgulho cego e resistente de Maria. Sem ela saber, ele planeja sair do país. Enquanto isso, um oficial rebelde está escondido nas redondezas. Com a vida se desintegrando em torno deles, cada um faz suas escolhas, nenhuma delas, previsível.

* * *

[ Amálgama ]




-- Isabelle Huppert em "Minha Terra, África" (em cartaz) --

por Bruno Cava – A diretora francesa Claire Denis filma na África colonial, onde viveu quando criança. Reminiscências de uma terra avermelhada de ferro e sangue, cindida racial, social e culturalmente em duas realidades inconciliáveis. A realidade do negro, pobre, oprimido, nativo, “selvagem”, cru(el) e pagão, originária de tantos imigrantes na França, da maioria dos jogadores de sua seleção de futebol, do ator costa-marfinense Isaac de Bankolé, que neste longa interpreta Boxeador. E a realidade do branco, proprietário, bem-educado, estrangeiro, “civilizado” e humanista, de Sarkozy, do ex-técnico Raymond Domenech, da atriz Isabelle Huppert, que faz a protagonista Maria.

Maria é ruiva, sardenta, num tom de pele que se confunde com o alarajando terroso da paisagem. Administra um engenho de café, em que vive com a família de europeus colonizadores: o filho, o ex-marido, o sogro. Todos os empregados são negros. Esse microcosmo é fraturado por uma guerra civil genérica, anunciada logo no início pelo helicóptero-anjo. A barbárie iminente afugenta a população, esvazia a fazenda, mas Maria se obstina. Decide desafiar a ordem das coisas. Teima a ponto de acreditar que a África pode ser a sua terra, pode ter a sua cor. Mas não é e não tem.

Rapidamente, o mundo em extinção abole a estrutura social: crianças empunham fuzis, vilas são saqueadas, cadáveres perfilam-se na beira das estradas. Os negros não respeitam mais os patrões brancos. Desmontados os instrumentos de dominação de classe/raça, isto é, o estado, nada refreia os negros colonizados de ofender os europeus colonizadores, enganá-los, extorqui-los, roubá-los, torturá-los, matá-los a golpes de machete, arrancar-lhes os escalpos loiros.

Porém, Claire Denis não tem por foco a violência, e sim as bordas da violência: os seus interregnos, o antes e o seu depois, a sua tensa espera, o seu epílogo silencioso e estático. A narrativa descompassada vai e vem no tempo, a fim de cercar a brutalidade, sem penetrar no âmago. A câmera come pelas bordas. Daí Boxeador aparecer antes e depois do tiro que o mata, mas o momento fatal não aparece. Daí o pudor na chacina dos soldados mirins, que dormiam depois da orgia de drogas. Ou então a cena dos últimos funcionários da fazenda, no solo de bruços, após uma matança que tampouco é mostrada. Só o final do filme inverte essa lógica, numa intrigante seqüência que reservo à surpresa (estupefação) do espectador.

Minha Terra, África fala do abismo que cisalha a África, a França, a Europa hodierna. O europeu branco e rico, ainda que humanista e bem-intencionado, não consegue se comunicar com o outro lado. É incapaz de ativar um devir-negro. Nisso, falha Maria, na tentativa de liderar humanamente os funcionários. E fracassa o seu filho, Manuel, quando raspa a cabeça e junta-se à cruzada delirante de crianças negras. Ambos os personagens chegam perto do abismo e terminam por ele sugados.

Filme sem meias-verdades nem romantização, Minha Terra, África vai ao ponto da questão racial e social.

setembro 29, 2010

André Egg analisa o futuro do lulismo

[ Amálgama ]



-- Dilma, Temer e Lula (foto: AE) --
por André Egg – Muita gente anda falando em lulismo. Na reta final das eleições, estamos na iminência de uma vitória de Dilma Rousseff no primeiro turno, principalmente devido ao apoio do presidente. Também existe a perspectiva de eleição de um senado e uma câmera de forte maioria dos grupos políticos aliados a Lula.




Daí se fala (por exemplo no blog do Rudá Ricci) no perigo de um “lulismo” superpoderoso, quase totalitarista.

Balela.

Primeiro, é preciso ter em mente que não haverá lulismo sem Lula. Poderíamos falar em um lulismo totalitarizante se o presidente tivesse insistido em emplacar um terceiro mandato (se tivesse eleições ele ganharia fácil). Não foi o que ocorreu. Como FHC, Lula é um democrata, que respeita muito a estabilidade institucional conseguida a muito custo no Brasil.

Aliás, não custa lembrar, Lula será o primeiro presidente eleito em condições insuspeitas, que terminará o(s) mandato(s) obtidos nas urnas entregando o cargo a um sucessor escolhido em eleições limpas. Dizem que esta é a maior prova de democratização de um país.

O quê, você não está acreditando na minha afirmação? Bem, FHC também realizou essa façanha, mas o detalhe é que ele mudou as regras, acrescentando uma possibilidade de reeleição que não existia quando ele foi eleito. Outros presidentes na história? Antes de 1930 todas as eleições eram muito pouco “livres” ou “honestas”. Em 1930 a posse do presidente eleito foi abortada por uma revolução, e Getúlio ficou no poder até 1945. As eleições deste ano foram executadas sob intervenção de um golpe militar, sem normalidade constitucional. O eleito – Marechal Dutra, era um prócer filo-nazista, e seu governo de “abertura” foi um dos mais violentos e autoritários da história. Em 1950 Getúlio se elegeu de forma livre, mas cometeu suicídio antes do fim do mandato. Em 1955 Juscelino foi eleito, mas pairava uma incerteza jurídica sobre a validade de sua vitória sem maioria absoluta dos votos. O impasse só foi resolvido com uma viagem do eleito aos EUA, gesto que praticamente inviabilizou as tentativas de impedir sua posse. Eleito em 1960, Jânio governou somente 9 meses antes de renunciar. Em 1964 veio o golpe militar. O primeiro presidente eleito depois disso foi Collor em 1989, que não concluiu o mandato.
De modo que a democracia institucional está se consolidando no Brasil somente agora, no século XXI.

Mas, voltando ao tema, a não insistência de Lula em um terceiro mandato significa que o lulismo acaba este ano.
Lula terá influência em um governo Dilma? Talvez sim. Ele será uma eminência parda? Um homem a governar dos bastidores? Um garantidor da estabilidade política do novo governo? Duvido.

Dilma terá uma aliança política sólida no Congresso. Terá boa base aliada nos governos estaduais. Não é uma pessoa politicamente frágil. Pelo perfil dela, acho mais provável que ela tire Lula de cena muito rápido. Ele passará para a história como o maior presidente do Brasil. Poderá exercer diversas funções, quiçá se tornar uma liderança de apelo mundial como alguns ex-presidentes dos EUA (notadamente Jimmy Carter e Bill Clinton). No Brasil ele terá menos peso político do que hoje tem FHC.

Porque FHC continuou sendo, após deixar a presidência, o principal quadro do PSDB, o segundo maior partido brasileiro. Sim, porque o PMDB não conta – incha e desincha conforme conveniências de momento. Lula não será o principal quadro do PT. Sua força no partido derivava da condição de ser a figura de maior simbolismo político, de maior potencial como candidato futuro. Essa condição ele já perdeu. Sua prevalência sobre o partido tornou-se aguda quando ele esteve na presidência: tinha a caneta na mão, nomeava, fazia operações “cirúrgicas”, reforçando ou afastando quadros partidários do governo, conforme lhe convinha a própria sobrevivência política.

Agora, a prerrogativa estará com Dilma. Sua capacidade de governar é muito maior que a do próprio Lula. Enfrentará resistências muito menores que ele teve que enfrentar. Assumirá o país numa situação muito mais favorável. Governará por 8 anos e fará a maior transição política da nossa história. Quando estivermos aqui discutindo as condições políticas de sua sucessão em 2018, os partidos e os líderes políticos que tiveram importância no ocaso do regime militar e nas disputas da era FHC-Lula já terão se tornado coisa do passado. O Brasil estará num novo patamar.
E Lula terá sido vítima do próprio sucesso.

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setembro 17, 2010

DILMABOY, uma extravagância paródica "dance-pop-kitsch" apaga fronteiras e torna-se obra de Pop Art

pauloenriquerc | 28 de junho de 2010
Criado por @dilmaboyoficial @jesusgalvao @tonnymanson
Meu twitter oficial: @dilmaboyoficial

Hello Serra a Dilma é favorita pra vencer.
Só você não sabe e quer disputar pra quê?
Ela sabe que o povo tem fome e quer comer.

Sorry, Serra mas essa você vai perder.
Você vai perder. Você vai perder.

Sorry Serra mais uma vez vai dar PT.
Tenta há séculos e a favorita é do PT.
Nunca desistiu mais uma vez vai perder.
Quer melhorar a saúde e o povo não quer crer
Não quis se aliar, agora você vai ver

Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso!
Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón...
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso

Amiga do Homem, vai vencer!
Amiga do Homem...

Ela não é O Cara, mas é amiga do Homem!
Você não é o Cara, nem amigo do Homem
Venha para o Club, deixa de ser bobo
Venha logo também ser amigo do Homem

Ela não é O Cara, mas é amiga do Homem!
Você não é o Cara, nem amigo do Homem
Venha para o Club, deixa de ser bobo
Venha logo também ser amigo do Homem

Se mexer com ela dou bafão juro, confesso
Minha Diva...
Desbanquei Stephany, sou um mega sucesso

Só no Rebolation, sorry mas está tenso
Quando ela ganhar vai rolar Dilma's party
E sua secretária vai ligar pra você
E vamos comemorar com o Rebolation
Todos vão se esbaldar na festa do PT

Nós vamos vencer, nós vamos vencer!
Sorry, Serra mas essa você vai perder.
Você vai perder. Você vai perder.

Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso!
Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón...
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso

Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso!
Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón...
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso

Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso!
Stop Burn Stop Burn. Ela é a nova Evita Perón...
Olhe pra ela. Ela agora é sucesso

Amiga do Homem, vai vencer!
Amiga do Homem...

Ela não é O Cara, mas é amiga do Homem!
Você não é o Cara, nem amigo do Homem
Venha para o Club, deixa de ser bobo
Venha logo também ser amigo do Homem

Ela não é O Cara, mas é amiga do Homem!
Você não é o Cara, nem amigo do Homem
Venha para o Club, deixa de ser bobo
Venha logo também ser amigo do Homem

Aaaa amigo do Homem, aaaa, amigo do Homem
deixa de ser bobo, venha logo também
ser amigo do Homem

Aaaa amigo do Homem, aaaa, amigo do Homem

***

[ Amálgama ]



Posted: 16 Sep 2010 08:05 PM PDT
por Bruno Cava – No final de junho, o estudante goiano Paulo Reis postou no youtube a performance DILMABOY. É uma extravagância paródica “dance-pop-kitsch”, que remete a Lady Gaga, Lacraia e Ronaldo Ésper (só pra começar), em apologia à candidatura de Dilma Rousseff e deboche à de Serra (destaque ao verso “E sua secretária vai ligar pra você”). Com esse vídeo, Paulo obteve 250.000 acessos, tornou-se viral e foi contratado pela campanha da candidata. Há quem atribua o sucesso à vulgata “americanizada”, à alienação das massas, à futilidade das novas gerações, à despolitização da disputa eleitoral, hoje em dia esvaziada e reduzida a chavões, slogans, numerologias, frases de efeito e marqueteiros baratos.



Não penso assim. Se, de acordo com a teoria cultural, no pós-modernismo se generalizam a hibridização, o pastiche, a fluidificação, então DILMABOY expressa bem o clima existencial da época. Desde pelo menos os Beatles, Warhol e o tropicalismo, o Pop rejeita a profundidade metafísica e se entrega a uma espécie de superficialidade consciente — a uma arte de intensidades fugazes e prazeres epidérmicos, que transita sem preconceitos pela cultura de massa.

Tem quem rejeite a pós-modernidade como conceito, ou então a considere mera nota de rodapé da obra de Nietzsche. Até concedo, sabe. Porém nada elide o fato de que a aceitação generalizada dessa pseudo-pós-modernidade produza, independente de sua validade interna ou rigor histórico, uma certa atmosfera cultural, uma mobilização de autores e obras e movimentos. Isso se pode chamar, creio eu, pós-modernismo (aqui estou com o crítico Terry Eagleton).

Despreocupando-se com idéias grandiosas, o pós-modernismo assume um tom (auto)irônico, quiçá jocoso, ao mesmo tempo em que embute um ceticismo quanto às grandes narrativas, verdades e ideologias, tão atuantes nos séculos 19 e 20. Assim, fica feio adotar discursos grandiloqüentes, aspirar à natureza universal do homem, promover utopias políticas. Este o cinema de Tarantino, a música de Oasis e The Raconteurs, a literatura de José Agrippino de Paula. A força da obra pós-modernista reside menos em inovação formal ou em metafísica oculta ou em manifesto utópico (itens tão caros à arte moderna), do que na habilidade de combinar e sintetizar significados e afetos, disseminando-os de modo imanente à cultura de seu tempo. Nada se cria, tudo se movimenta.

Como efeito, abole-se a separação entre arte elevada e popular. Todo o tropicalismo brazuca e a arte conceitual lutaram contra essa dialética, ao revalorizar objetos do cotidiano, elementos da publicidade, bem como o kitsch, o mau-gosto, o cafona.

Daí a tarefa do crítico de arte mude de figura. Não é mais, por exemplo, praticar uma cinefilia de butique ou dedicar quarenta laudas sobre um quadro pós-impressionista. Agora, trata-se de dar à televisão, ao videoclipe, às técnicas de marketing, a mesma importância que sonetos de Camões, romances de Tolstoi e filmes de Jean Renoir. É mais relevante analisar como discursos e práticas circulam pelo corpo social, independente do formato atribuído: filme, peça de teatro ou comercial de televisão.

Os críticos do pós-modernismo tendem a imputar-lhe um relativismo moderninho, uma ausência de crítica real, uma rendição precoce à sociedade de espetáculo, consumo, pós-fordista e quejandos. Sucumbe-se à banalidade e se exime do distanciamento que permite a crítica, na sua (supostamente) imprescindível dialética negativa. Embora, dizem esses detratores, o pós-modernismo possa servir para interpretar a realidade, padece da impotência para transformar o mundo e politizar os debates hodiernos. Vivem-se em conseqüência os tempos de pensamento mole, da dissolução do sujeito político, de romantismo indie. E o materialismo? La nave va.

Repito: não penso assim.

Em primeiro lugar, por não não acreditar nos tais males da sociedade de consumo. A vida também é a tentativa mais ou menos desenfreada de consumir os desejos. Se somos realmente movidos por uma usina inconsciente deles, e nos movemos na vida tecendo afetos para mobilizar e concretizar tais desejos, então qual o problema do consumismo? O próprio ismo aplicado ao consumo me parece tolo. O marxismo é pra dividir a riqueza e não a pobreza. É comida, diversão e arte — tudo junto.

Não me esqueço de um debate no movimento estudantil, quando esquerdistas (jamais esquerda) diziam que o pobre não precisava de TV de plasma ou celular de último tipo, mas de comida e educação. Por acaso, a debatedora, branca e classe-média, portava um ipod bodoso, ostentava um cabelo e$covado e hidratado, e exibia em seu vestuário diversas grifes.

E não me esqueço do artigo “Consumo, Logo Existo“, de Frei Betto, que se sustentava, essencialmente, no argumento de que “quem trouxe a fome foi a geladeira”. Síntese do problema: antes o pobre tinha dinheiro para farinha e feijão, mas aí manipularam-no para querer também o refrigerante e o sorvete… É inacreditável, mas o militante pastoral defende que, quanto mais bens geramos e consumimos, mais pobres ficamos. Não à toa, cite o filósofo Jean Baudrillard, o mesmo que, no livro Sociedade de Consumo, denuncia o tal consumismo contemporâneo. Bom mesmo deve ser viver de sandálias e sobreviver dos frutos da terra, como bom franciscano.

Boa a resposta sutil do presidente Lula, logo em seguida, ao discursar que o pobre não quer só pão e circo, mas também geladeira e cultura. O pobre também deseja! Melhor ainda a réplica mais direta do filósofo Rodrigo Guéron na Revista Global Brasil. O artigo se chama “Da fome à vontade de comer: A mais-valia da vida”, e pode ser encontrado online no número 8 da publicação (pág. 40).

Em segundo lugar, porque não subscrevo a separação que fazem entre arte genuína e discurso da publicidade e da “mídia”. Qual nada! tudo é mídia, tudo é publicidade, tudo é produção de discurso e ato performativo, simultaneamente. Essas separações sempre e sempre partem de concepções fechadas, normativas, sobre arte e política. Quer atacando o seu suposto tom banalizador, quer panfletário. Tais purismos confinam com hierarquias e sistemas de validação, diletantes ou ideológicos. Em ambos os casos neutralizando a arte de sua penetração na vida, elevando-a à esfera intocável, quase sagrada, fora e protegida das agitações dos meios de comunicação, do fuzuê das turbas ignaras.

Penso que a crítica pode operar por dentro do pós-modernismo. Mas precisa reciclar-se dentro desse contexto. Vários dos operadores e parâmetros “modernos”, como totalidade, progresso ou racionalidade, tornaram-se impraticáveis. Não dá mais pra crer em instâncias transcendentes capazes de julgar de cima pra baixo, de fora pra dentro, como num tribunal da boa estética ou do bom gosto. Faz-se necessário encontrar a reinvenção por dentro da textura descentrada e multicolorida, para aflorar sentidos éticos, estéticos e políticos, libertá-los dos fluxos autoreplicantes da cultura midiática. Isto não significa imergir no Pop, mas dele roubar, com sagacidade e agressão, para fazer arte. Pop Art.

Doravante, o estranhamento inerente à crítica acontece de modo imanente, na recombinação e ressignificação da matéria viva de nosso tempo.

Por isso tudo, DILMABOY não só é uma obra de Pop Art no século 21, mas também exemplar para se compreender a contemporaneidade. E fazê-lo de uma perspectiva pós-modernista e ainda por cima brandindo a espada crítica, sem a qual não passaríamos de reprodutores do status quo.

– Versão Buddy Poke do DILMABOY (“DILMATOY”): Prossegue o processo de recombinação –

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setembro 11, 2010

Elvis & Madona - Uma História de Amor

[ Amálgama ]



 
por Juliana Dacoregio – Um homem e uma mulher, que se encontram em circunstâncias insólitas, atribuídas ao acaso ou ao destino. Se apaixonam e vivem o encantamento de qualquer paixão que se inicia e a relutância dos que já sofreram e sabem que a paixão pode ser traiçoeira. Seria difícil como qualquer relacionamento, mas acontece que esse homem e essa mulher não são exatamente homem e mulher. São Elvis e Madona. Ela, Elvis (interpretada por Simone Spoladore), lésbica: bela, aparência delicada, doces olhos azuis, porém de modos completamente masculinos. Ele, Madona (vivido por Igor Cotrim), gay, travesti: uma “boneca”, como se costuma dizer entre os “entendidos”; seu rosto e suas feições são fortes, não é o tipo de travesti que “nem parece ser homem”. Não, Madona parece sim, ser um homem: o maxilar quadrado, os ombros largos, mas os trejeitos de uma verdadeira lady. Sua aparência e sua história nada têm de doces, mas é apenas mais uma “garota” romântica.


Esses são os protagonistas de Elvis & Madona, filme do cineasta Marcelo Laffite e livro homônimo de Luiz Biajoni. A história é inusitada e o caminho que trilhou também. Não é um livro que virou filme, como é de praxe. O filme veio primeiro e Laffite cedeu a Biajoni os personagens para que ele transformasse roteiro em romance. Tive contato primeiro com o livro, depois com o filme. Ambos se completam. O estilo escatológico e a trama policial, tão presentes nas obras de Biajoni, estão mais escancaradas no livro. Mas Elvis & Madona – o livro – não deixa de mostrar a beleza desse relacionamento quase improvável e chega a ser de uma sutileza respeitosa quando narra (ou não narra) os momentos sexuais do casal.

Já o filme é mais ousado nesse sentido, mas de uma beleza ímpar. Não é um filme erótico, é um filme de amor. E também um drama, uma comédia, uma viagem por estilos de vida que poucos conhecem. O sofrimento de um homossexual para assumir-se e manter-se, lutar por seus sonhos, mesmo que para isso tenha de recorrer aos métodos comuns a quase todos os travestis: trocar o corpo por dinheiro e fazer de conta que isso não fere a alma, enquanto sonha com uma relação verdadeira de amor e cumplicidade. A menina de família que frustra todas as expectativas da mãe quando revela-se bem menos menina do que se esperaria. Pessoas com sentimentos, desejos, planos e carências que são obrigadas a viver à margem para poderem ser o que são.

O filme é leve apesar do tema forte e muito diferente do que se tem feito no cinema brasileiro. Um sucesso, como as premiações e a aceitação em vários festivais têm demonstrado. Trilha sonora divertida, atores que incorporam seus personagens com perfeição, fazendo rir e chorar.

O livro deve ser lido, tanto quanto o filme deve ser assistido.
Uma história de amor nas telas e no papel, e um exemplo de perseverança e sucesso através da criatividade de Marcelo Laffite e Luiz Biajoni.

Ficha Técnica

titulo original: Elvis & Madona


lançamento: 2010 (Brasil)


direção: Marcelo Laffitte


atores: Simone Spoladore, Ígor Cotrim, Sérgio Bezerra, Maitê Proença, Buza Ferraz, José Wilker


Curiosidades

Clique aqui para saber como o filme virou livro


- Laffite procurou um travesti para interpretar o papel de Madona, mas não encontrou. “Creio que existam vários travestis que são bons atores, só não calhou de encontra-los”, afirma o cineasta.


- Uma história semelhante ocorreu na década de 90, em São Paulo, com a baterista de uma banda e um travesti chamado Gabi. “Depois que o roteiro estava pronto, comecei a mostrar para várias pessoas até que me contaram a história desse casal. Foi a prova de que meu filme tem muito a ver com a realidade”, comemora Marcelo Laffite. (fonte: UOL Cinema)


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setembro 09, 2010

André Egg analisa as implicações de ser evangélico no Brasil e as eleições

Imagem postada em tomei-a-pilula-vermelha.blogspot.com

[ Amálgama ]



por André Egg – Ser evangélico é uma coisa que se insere numa longa tradição. O fundamentalismo propõe uma não-historicidade, uma ruptura com a tradição protestante, em nome de uma postura isolacionista que é um engajamento às avessas: financiados por interesses capitalistas bem específicos, os ditames dos “fundamentais” da fé servem para congelar a reflexão e barrar as tentativas de transformar o mundo, lançando os adeptos dessa corrente numa expectativa da vida pós-morte no paraíso e condenando qualquer ativismo por justiça social na terra. Resta como única opção válida de atuação política a defesa dos interesses mesquinhos da igreja como instituição, jamais como veículo de implantação do Reino de Deus. Ou a defesa da “fé bíblica”, desde que entendida dentro da concepção de interpretação bíblica congelada pelo próprio dogma dos “fundamentais”, sem o que, afirma-se, não existe cristianismo.

Isso provoca um curto-circuito no Evangelho de Cristo e na posição profética da sua Igreja, coisa que nunca esteve tão ameaçada na face da Terra como nos tempos em que o Fundamentalismo se arvorou em única forma legítima de fé cristã.

Qualquer estudo, por superficial que seja, da história da fé cristã mostra uma religião não-conformista. Primeiro dos discípulos e seguidores de Jesus em relação ao judaísmo tradicional e à aristocracia dos Saduceus do Templo, implantando um igualitarismo comunitário tão radical que levou às perseguições romanas, à medida que a religião (de rápida difusão no mundo Mediterrâneo) punha em cheque os fundamentos escravistas do Império.

Depois da religião assumir a face de uma estrutura hierárquica rígida fundada na autoridade episcopal, no apoio político do Império e no estabelecimento da ortodoxia doutrinária, nunca faltaram as dissidências e divisões – condenadas sob a pecha de heresias, brutalmente extirpadas, ou resultando em divisões que tornaram o cristianismo uma religião cada vez mais multi-facetada.

Classificar-se como evangélico no Brasil significa inserir-se no Cristianismo Ocidental, com suas tradições teológicas e sua obsessão pela ideia de Reforma. Desde o século X o termo está sempre nas bocas dos teólogos e dos fiéis. É preciso reaproximar a igreja e o clero do modelo do Cristo dos evangelhos, cada vez mais afastada pela promiscuidade política do alto clero episcopal – tornado uma aristocracia territorial com interesses arraigados e práticas escusas como compra de cargos, guerras e assasssinatos. O papado, por sua vez, tornou-se, desde Gregório Magno, um Estado territorial com interesses próprios e forças armadas. Dos conflitos de interesse entre o povo pobre (aliado aos monges vistos como modelo de fé pura) e a aristocracia eclesiástica, bem como dos Estados Papais com os diversos reinos europeus, surgiram uma série de movimentos político-teológicos mais ou menos violentos, que culminaram na divisão definitiva da cristandade no século XVI: de um lado os fiéis à igreja de Roma, de outro as várias igrejas que surgiram em outros cantos: anglicanos na Inglaterra; luteranos em alguns estados alemães; zwinglio-calvinistas em várias cidades da Suíça, Alemanha e França, na Escócia e na Holanda, além dos grupos dissidentes na Inglaterra; anabatistas onde quer que houvessem revoluções camponesas.

Em todos estes movimentos reformadores, havia em comum a dissidência política vestida de argumento teológico. Era a gente comum derrubando a autoridade centralizada da igreja romana. Anabatistas contra os dízimos e o batismo infantil, recusando-se ao serviço militar e aos cargos públicos. Luteranos abraçando o livre-exame das Escrituras e o Sacerdócio Universal de todos os crentes, abandonando a Vulgata e adotando a Bíblia e os cantos litúrgicos em sua própria língua – recusando-se a pagar tributos eclesiásticos a Roma. Os anglicanos preferindo submeter-se à monarquia pátria e recusando-se obedecer ao Papa. Os zwinglio-calvinistas abandonando toda a liturgia que não fosse encontrável na Bíblia, queimando órgãos e livros de corais, traduzindo os Salmos para o francês para cantá-los no culto. Em todos os lugares, luteranos, calvinistas e anabatistas foram à guerra contra reis, príncipes e bispos, para exigir autonomia, governo democrático nas igrejas, uma teologia e uma liturgia voltados para o povo e os problemas de seu tempo.

Os calvinistas ingleses (puritanos) fuzilaram seu rei. Os da Holanda lutaram uma guerra sangrenta para se tornarem independentes da Espanha. Os franceses (huguenotes) lutaram por séculos para praticar sua fé diferente da romana. Os hussitas na Boêmia tinha garantido com canhões, um século antes de Lutero, poderem tomar a ceia à sua maneira, e celebrar o culto em tcheco. Na Escócia, liderados por John Knox, os calvinistas lutaram contra a rainha para poder estabelecer suas convicções religiosas, fazendo surgir a igreja presbiteriana. Diversos desses inconformistas migraram para as colônias britânicas na América, especialmente a região da Nova Inglaterra, fugindo dos conflitos europeus, e estabelecendo o paraíso do self-government congregacional.

*

No Brasil, os protestantes começaram a se estabelecer por exigência do comércio com a Inglaterra em 1810, e a partir de 1824 para receber imigrantes não católicos (principalmente alemães luteranos e suíços calvinistas). Os protestantes brasileiros foram fundamentais para estabelecer um sistema educacional mais moderno, abandonando a Ratio Studiorum dos jesuítas, implantando os colégios mistos e a ênfase nas ciências, na Educação Física e no pensamento investigativo. Protestantes brasileiros lutaram pela desvinculação entre Igreja e Estado, implantação do casamento civil e da cidadania plena para não-católicos.

Protestantes brasileiros eram anti-obscurantistas, eram os únicos cristãos que baseavam sua fé no estudo da Bíblia, desenvolvendo inclusive, por causa disso, a ciência lingüística no Brasil. Pastores (vários deles ex-padres) eram os únicos dispostos a viajar pelos grotões abandonados levando conforto espiritual e boas novas de uma fé progressista – num país abandonado por Roma e asfixiado pelo ultra-montanismo de uma igreja voltada apenas para os bem-nascidos.

Em que lugar neste caminho o protestantismo brasileiro se perdeu? Em que lugar abandonou as raízes que fincava na cultura da gente simples do país? Em que lugar abandonou as posturas progressistas que permitiram ao protestantismo provocar a primeira fissura na hegemonia católica estabelecida pela monarquia lusa do padroado?

Suspeito que em algum momento durante os anos 1950-60, quando missionários fundamentalistas norte-americanos implantaram diversas instituições para-eclesiásticas no Brasil, organizando acampamentos, fundando editoras, livrarias, conjuntos musicais, trazendo uma fé irracional, trabalhando com crianças e jovens (APEC, Palavra da Vida, MPC, JOCUM, Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo) para formar gerações de abestalhados/alienados que perderam o compromisso com o país, com a fé, com o exame das Escrituras, com a liturgia, com a tradição não-conformista do protestantismo.

Foi-se o tempo que ser evangélico era saber cantar a quatro vozes os hinos que falavam de uma fé singela, capaz de superar o sofrimento organizando-se em congregações auto-geridas que estudavam as Escrituras e praticavam o amor cristão pela via da solidariedade contagiante. Em que os evangélicos eram pessoas simples que sabiam que o Evangelho era a mensagem do desapego aos bens, de uma ética rigorosa do trabalho, do respeito ao próximo como manifestação do respeito a Deus.

As primeiras manifestações do evangelicalismo doentio puderam ser vistas no apoio inconteste ao Regime Militar brasileiro, baseado numa leitura tacanha de Romanos 13. Não era mais que o interesse geo-político dos EUA no tempo de Guerra Fria, que ditava o que passava a significar o ser evangélico no Brasil. Os que ousaram enveredar pela Teologia da Libertação, com uma reflexão própria a respeito da realidade local, foram expurgados das igrejas e do sacerdócio – sendo o caso mais emblemático o do pastor presbiteriano Rubem Alves. Os luteranos e anglicanos parece que restaram como únicos oásis diante do domínio absoluto do fundamentalismo, que tragou todos os grupos oriundos do calvinismo (batistas, presbiterianos, congregacionais) e suas dissidências pentecostais.

Neste contexto, há quem acredite que ser evangélico hoje no Brasil é ser fundamentalista, mesmo que para isso precise esquecer o cerne do Evangelho que é a solidariedade política radical como manifestação do amor ao próximo. Ser evangélico hoje parece que se reduziu à panacéia do culto-show, o qual nem os outrora “tradicionais” batistas podem se dar ao luxo de não aceitar. Niguém mais lê a Bíblia sem ser guiado pelo pastor. Ninguém mais acha que a fé se constrói pelo estudo criterioso. Ninguém mais acha que tem o dever de agir pelo bem comum. Ser evangélico reduziu-se a cantar uns hinos de olho fechado e mão levantada, chorar nos “cultos” e obedecer cegamente aos pastores oportunistas que cada vez mais abundam.

Mas não há nada menos evangélico do que isso. Ser evangélico hoje no Brasil significa lembrar-se do Evangelho, do Cristo dos evangelhos, do amor ao próximo como cerne da mensagem, da pobreza apostólica, do estudo das Escrituras, do radicalismo democrático que não aceita a autoridade centralizada, que se exerce no congregacionalismo dentro da igreja, na assistência desinteressada aos pobres fora dela, na política feita não como interesse mesquinho, mas na luta radical e democrática pelo bem comum, pela igualdade e pela justiça.

Isso não pode ser traduzir, de forma nenhuma, em preconceito e violência contra pessoas de orientação sexual qualquer. De modo que não existe justificativa plausível para algum evangélico ser contra o PLC 122. É o que faz o pastor Pascoal Piragine, da Primeira Igreja Batista de Curitiba, como pode ser visto num vídeo que está se espalhando de maneira “viral” pela internet [abaixo]. Nesse vídeo o pastor incita os fiéis a não votarem no PT, por ele ser contra a “fé bíblica”. Curiosamente, isso é feito sem apoio em nenhum versículo bíblico (não seria difícil conseguir um para ser apresentado de forma distorcida, mas nem a isso estão se dando mais ao trabalho – que os fiéis não lêem a Bíblia mesmo). A autoridade do pastor, mesmo que embasada em mentiras, é suficiente para autorizar qualquer discurso. Cadê o livre-exame? Cadê a autonomia dos leigos diante do clero? Houvesse algum evangélico na Primeira Igreja Batista de Curitiba e o referido pastor seria destituído na próxima assembléia.

É claro que isso não vai acontecer. Assembléias batistas viraram instâncias de homologação de pastores show-men que trazem as decisões prontas para o pessoal levantar a mão. Batistas de igrejas como a Primeira Igreja Batista de Curitiba e a Igreja Batista do Bacacheri não se dão nem ao trabalho de conferir a autenticidade dos diplomas de doutorado que seus pastores apresentam como credencial. Preferem ser enganados, imaginando que ao obedecer cegamente aos “ungidos de Deus” estarão a reservar um galardão no paraíso celestial – por mais que tal imagem não encontre fundamento bíblico-teológico há pelo menos uns 200 anos.

Ser evangélico no Brasil de hoje deveria significar uma luta contra a desigualdade, a miséria e a pobreza que assolam o nosso país. Deveria significar não permitir que líderes carreiristas assumissem como a face da igreja e da fé. Deveria significar a maturidade de não trocar conforto espiritual de bons oradores em troca de uma obediência cega. Deveria significar que não se pode abandonar a função mental de crítica racional.

Estou querendo demais?

Veja mais sobre o caso do pastor curitibano no seguinte texto: Pr. Pascoal Piragine: os batistas do Paraná na vanguarda do atraso.

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setembro 02, 2010

Duas éticas potentes e uma moral impotente

O olho de Deus - Bosch

[ Amálgama ]



por Bruno Cava


Citação apócrifa.


Por reducionismo ou ignorância, costuma ser atribuída a Nietzsche e/ou a Dostoiévski, mas nenhum dos dois sequer a esboçou.

N. escreveu sobre a morte de Deus no livro Gaia Ciência. O personagem do louco anuncia que Deus morreu, que o matamos, que erigimos monumentos fúnebres em seu réquiem (as igrejas). Para ele, assassinar Deus foi uma ação grandiosa que pode inaugurar “uma história mais elevada do que toda que jamais existiu!”. Mas o homem do século 19 ainda não está preparado, e o profeta insensato desanima-se.

No romance Os Irmãos Karamázov, o irmão do meio, Ivan, literato cínico e cético provocador, fala: “Tudo é permitido. À noite com o assassino:  – Vê, meu amigo, Cristo foi pura e simplesmente um homem comum, como qualquer outro, só que virtuoso.” A partir daí, outros personagens vão desenvolver a fala. Rakítin irá imputar a Ivan a frase: “Se não existe a imortalidade da alma, então não existe tampouco a virtude, logo, tudo é permitido.” Mais adiante, o diabo — duplo dramático do intelectual — dará mais uma contribuição, considerando como sua a declaração: “Não há virtude se não há imortalidade.”

Contudo, nenhum dos dois autores, nem qualquer dos personagens do panteão, disse algo como “Se Deus está morto, então tudo é permitido.” Nem poderiam. Seria reduzi-los à vulgata mais tacanha.

Para N., Deus morre quando a civilização conclui pela irremediável ausência de valores e sentidos definitivos. Quando descobre que “sentido da vida” é uma sentença absurda, porque “sentido” e “vida” não se conjugam entre si. As ideias modernas contém um erro na origem, cujo desenvolvimento leva inexoravelmente a um clima romântico de descrença generalizada. Percebe-se afinal que não pode haver instância transcendente com direito de julgar a vida — todos os ismos erraram.

Menos que passividade e fatalismo, que o filósofo atribui a Schoppenhauer e seu “budismo ocidental”, para N. isto significa que a vida é mais importante do que a moral, do que os valores que pretendem julgar aquela. O caso não é avaliar a vida pelos valores, mas os valores pela vida. É ela, primeiro de tudo, quem transvalorará os valores. Não se trata de jogo de palavras, mas de uma declaração de liberdade ontológica. Ela confere à criatura uma potência além da finitude e da necessidade, além das definições e injunções do homem, ou seja, além do próprio homem. Nasce o super-homem, que ama o destino imanente a si mesmo.

Para D., a conclusão do “tudo é permitido” é rechaçada ferozmente ao longo de toda a obra e com muita agudeza em Os Irmãos Karamázov. Para o autor, o ser humano se constrói somente na interação com os outros. O campo relacional precede a essência individual. Existência antes da essência. E os personagens de D. são pessoas reais transfiguradas na literatura, sem jamais renunciar ao caráter múltiplo e inacabado que os encarna no texto. A essência do homem só se concretiza na alteridade, e por isso o amor mundano condiciona a existência ética. Justifica-a no sentido da terra, na costura de corpos e afetos capaz de dar sentido aos atos e valor à realidade humana.

Para N., o cristianismo matou Deus. Seja Deus na expressão religiosa judaico-cristã, seja Deus nos ideais modernos do humanismo e da ciência positiva. O anticristo é o único e verdadeiro cristão. Porque faz renascer Cristo na sua afirmação radical da vida, que por sua vez é o sentido de si mesma e criadora de todos os valores. Um Deus transfigurado, um deus dançarino, um deus-artista. Assim, Deus não está morto. Está livre.

Para D., mesmo que Cristo estivesse errado, que ele não tivesse existido, devemos ficar com ele. Pois Cristo implica a conversa interior que inventa o outro e eu mesmo no processo dialógico. D. descrê no Deus transcendente assim como rejeita o narrador onisciente. Tal qual um Jesus mundano e revolucionário, coloca-se junto de seus personagens — aqui, no sentido da terra, através do discurso indireto livre. O criador está com as criaturas e se faz presente nelas e com elas, porque é, justamente, a sua multiplicidade. Isso resta claro ao final do capítulo “O Grande Inquisidor” (também publicado à parte, como single), quando o messias terreno beija o inquisidor. Um beijo de amor no grau máximo: afirmativo e desprendido. Deus não está morto. Deus é o outro.

Tanto D. quanto N. respondem com extrema inteligência, arrisco dizer, à questão moral do “tudo é permitido”. Um traçando uma ética da potência, da criação, da arte. O outro por meio de uma ética do amor terreno, e da alteridade como poder constituinte. Duas éticas potentes contra uma moral impotente. Um e outro desviando a perspectiva da pergunta moral que quer outorgar a autoridade e a submissão. E cuja resposta, para driblar as vivandeiras do bem e da verdade, precisa deslizar de suas premissas enviesadas e reinstaurar o problema em outros termos.

Talvez quem tenha formulado, às últimas conseqüências, a querela do “tudo é permitido” tenha sido o Marquês de Sade, com seus libertinos ateus, furiosos, pusilânimes, insidiosos. Nesse sentido, Nietzsche e Dostoiévski retrucam-lhe à altura, sem qualquer moralismo.


PS. Este breve ensaio ocorreu-me como comentário a um post da amiga Rayssa Gon no (ótimo) blogue Bule Voador. Refiro-me ao post “Por que você ainda não se matou?“, quando um dos primeiros a comentar atribuiu a citação em pauta a Nietzsche.


PPS. Por outro lado, até como autocrítica, acho que o ateísmo em si, quando desvinculado de políticas concretas ou sistemas éticos, é estéril. O ateísmo pelo ateísmo é ponto de partida e não linha de chegada. Chega a ser uma armadilha para rebeldes de primeira hora, tanto quanto assumir acriticamente iconoclastas como Nietzsche, Cioran ou Debord. Depois do deslumbramento, ficar só no ateísmo é como recusar-se a sair da puberdade filosófica, e dormir no jardim da infância do pensamento e da liberdade.

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agosto 13, 2010

"Copie conforme"


MovieManiacsDE | 14 de maio de 2010
CANNES FILM FESTIVAL 2010 - IN COMPETITION
clip from "Certified Copy - Copie conforme"
Genre:
Regie / directed by: Abbas Kiarostami
Darsteller / cast: Juliette Binoche, William Shimell, Jean-Claude Carrière, Agathe Natanson, Gianna Giachetti, Adrian Moore, Angelo Barbagallo, Andrea Laurenzi, Filippo Trojano

Verwendung mit freundlicher Genehmigung von Festival de Cannes Press Office
used with authorization

***

[ Amálgama ]



 
por Diego VianaJuliette Binoche, com um ar ligeiramente aflito, de excitação comedida, experimenta um brinco, uma peça chamativa e de gosto discutível. As cores da imagem são reforçadas para causar estranhamento em quem a contempla. No cartaz de Copie conforme, último filme de Abbas Kiarostami, a atriz tenta enganchar a jóia no lóbulo da orelha. E esse é mesmo o gancho que resume o filme. Não é uma daquelas obras-primas de Kiarostami, um Gosto de cereja ou um Ten. Antes, é uma jóia, menor talvez, mas rica e brilhante o suficiente para ter seu lugar no tesouro que é a obra do cineasta iraniano.


Sem contar, é claro, a própria Binoche, fabulosa como sempre, muito apropriadamente premiada no último festival de Cannes. Ela é o eixo em torno do qual se desenvolvem as transformações sutis e ininterruptas do filme, como um caleidoscópio de sensações, convicções e imagens girado por uma mão capaz. A cada vez que Binoche altera a voz, reforma a postura, troca de roupa ou inverte o discurso, o que muda é toda a pele daquilo que está sendo exibido, ou representado, ou oferecido sobre a tela. Acompanhar a mudança, nesse caso, é se antecipar a ela em todas as suas vertentes e possibilidades. Não é pouca coisa que exige o diretor.


Voltarei a esse assunto, mas já posso, e preciso, adiantar que a força dessa pequena gema de Kiarostami reside no fato de que não se trata de um filme “com muitas camadas”, como se dizia elogiosamente no tempo da linearidade, mas de um filme cristalino, cujas superfícies refletem a luz de maneiras imprevisíveis. (Falar em luz sobre o cinema é sempre uma imagem válida.) O “texto”, ou chame-se como se desejar esse fenômeno entregue ao espectador indefeso, toma suas formas estáveis, tão estáveis quanto possam ser as formas da percepção e da criação artística, de acordo com disposições mútuas, entre as cenas e o corpo instalado sobre a poltrona. Ou, para usar palavras mais claras: assista ao filme ao lado de alguém que você queira seduzir, porque na mesa do jantar, depois da sessão, há de sobrar assunto.

-- Binoche em cena --

O cineasta põe diante de nossos olhos um ensaio sobre as origens profundamente orgânicas de uma oposição conceitual particularmente problemática. Problemática, sobretudo, por ser bem mais orgânica do que parece, ou seja, porque nossa atividade do dia-a-dia depende dela mesmo que não o percebamos. Mas problemática também quando nos damos conta da multiplicidade aterradora de recortes que podemos lhe atribuir: verdadeiro/falso, original/cópia, intrínseco/adquirido, autêntico/emprestado, criação/imitação. Mas não é só. Todos esses critérios, não raro intercambiáveis, podem muito facilmente (e freqüentemente) escorregar para juízos mais rigorosos e menos “objetivos”: bom/mau, sério/burlesco, real/ficcional, ordem/confusão, sentido/interpretação…


Kiarostami, que não começou ontem a trabalhar com material estético, tem plena consciência das armadilhas desse discurso (corrente, por sinal) da autenticidade, e se aproveita dessa consciência para brincar com o material que tem à mão, como uma criança brilhante e cruel que retorce e desfigura seu brinquedo. Um roteiro, dois atores (William Shimmel é cantor de ópera, mas está excelente), três idiomas, as paisagens da Toscana, as obras de arte da Toscana, o povo da Toscana, a mística reverente que recobre o nome da Toscana para os amantes da arte. A partir dessa matéria-prima invejável, o cineasta realiza uma investigação tão profunda do nosso engajamento com o concreto e o imaginário (engajamento psíquico, mas também hormonal), que são necessários dias para recolher os cacos no inconsciente do espectador. Pois sim, essa é a marca do grande cinema.
 
Nada mais é necessário ao gênio criativo para associar, depois fundir, o problema da autenticidade na arte e na crítica, no amor e nas preocupações quotidianas, nas convicções e nos desejos ocultos. Enfim, e esse é o golpe que desestabiliza o último pilar de previsibilidade no filme, Kiarostami [ao lado] se afasta, quebra a última parede e questiona a autenticidade na própria obra que está produzindo. Nem personagens, nem atores, nem diálogos, nem planos e seqüências, nada disso chancela qualquer atribuição definitiva de real ou fingido. Num universo em que a representação é consciente de si, todo elemento se torna matéria-prima, emprestando-se ao artista para invadir corpos, espíritos e cenários. Mas Kiarostami não se contenta em aceitar o empréstimo: ele exige a subscrição do espectador, sob pena de ser deixado à margem das imagens, enquanto elas se sucedem.


Sei que me exponho a críticas ferozes por não deixar por aqui uma sinopse do filme. Peço desculpas, mas é precisamente o que não devo, isto é, não posso, aliás, não quero fazer. Resumir o “enredo” de Copie Conforme seria transformá-lo justamente naquilo que ele não é. Em outras palavras, seria introduzir, à força, a obra num universo que não é o seu, num campo discursivo correspondente à representação (no sentido foucaldiano), numa orientação de figuras e fundos, tipos e dados. Tudo isso é estranho ao filme de Kiarostami, para não dizer que é seu próprio oposto. Copie Conforme não se reduz à sua história, antes ela aponta o dedo para a noção de história, de enredo, de trama. Em seguida, ou melhor, enquanto isso, cabe ao receptor fazer sua escolha, de acordo com o fluxo de seus humores: se o dedo é acusador, descritivo, examinador, zombeteiro, denunciador, amistoso, indicativo… ou alguma das combinações possíveis.

Para fechar com outra imagem: numa cena deliciosa, que conta com a participação de Jean-Claude Carrière, os personagens discutem uma escultura que se ergue ao centro da praça principal de um daqueles vilarejos toscanos. Com uma certa dose de comicidade, tudo que se conhece dessas discussões estéticas (ainda mais quando dela participam franceses) está presente: os lugares-comuns, as hesitações, a superficialidade, o sentimentalismo, o enfado. Enquanto o verbo flui sem controle, a câmera de Kiarostami circula lépida em torno dos atores, depois em torno do monumento, depois, novamente, dos atores. Muito se fala, e repete, sobre a expressão nos rostos esculpidos (remetendo a noções semelhantes que os rostos dos atores tentam ocultar).


Mas o cineasta toma o cuidado de não enquadrar em momento nenhum os tais rostos de bronze. No aparente, no visível, no revelado, é um monumento sem cabeça. O principal está reservado para as curvas do olhar, as dobras do discurso, os interstícios, as filigranas. Com isso, muda mais rápido que os cortes de plano. Pois: o filme é como a escultura, e o diretor, conhecendo o público que teria de enfrentar, fez por onde dar indícios de sua proposta desde a primeira cena. Ou seja, o que posso recomendar é que o espectador não espere de Kiarostami que focalize a cabeça da estátua: melhor é esculpi-la pelo olhar.




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