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setembro 29, 2010

André Egg analisa o futuro do lulismo

[ Amálgama ]



-- Dilma, Temer e Lula (foto: AE) --
por André Egg – Muita gente anda falando em lulismo. Na reta final das eleições, estamos na iminência de uma vitória de Dilma Rousseff no primeiro turno, principalmente devido ao apoio do presidente. Também existe a perspectiva de eleição de um senado e uma câmera de forte maioria dos grupos políticos aliados a Lula.




Daí se fala (por exemplo no blog do Rudá Ricci) no perigo de um “lulismo” superpoderoso, quase totalitarista.

Balela.

Primeiro, é preciso ter em mente que não haverá lulismo sem Lula. Poderíamos falar em um lulismo totalitarizante se o presidente tivesse insistido em emplacar um terceiro mandato (se tivesse eleições ele ganharia fácil). Não foi o que ocorreu. Como FHC, Lula é um democrata, que respeita muito a estabilidade institucional conseguida a muito custo no Brasil.

Aliás, não custa lembrar, Lula será o primeiro presidente eleito em condições insuspeitas, que terminará o(s) mandato(s) obtidos nas urnas entregando o cargo a um sucessor escolhido em eleições limpas. Dizem que esta é a maior prova de democratização de um país.

O quê, você não está acreditando na minha afirmação? Bem, FHC também realizou essa façanha, mas o detalhe é que ele mudou as regras, acrescentando uma possibilidade de reeleição que não existia quando ele foi eleito. Outros presidentes na história? Antes de 1930 todas as eleições eram muito pouco “livres” ou “honestas”. Em 1930 a posse do presidente eleito foi abortada por uma revolução, e Getúlio ficou no poder até 1945. As eleições deste ano foram executadas sob intervenção de um golpe militar, sem normalidade constitucional. O eleito – Marechal Dutra, era um prócer filo-nazista, e seu governo de “abertura” foi um dos mais violentos e autoritários da história. Em 1950 Getúlio se elegeu de forma livre, mas cometeu suicídio antes do fim do mandato. Em 1955 Juscelino foi eleito, mas pairava uma incerteza jurídica sobre a validade de sua vitória sem maioria absoluta dos votos. O impasse só foi resolvido com uma viagem do eleito aos EUA, gesto que praticamente inviabilizou as tentativas de impedir sua posse. Eleito em 1960, Jânio governou somente 9 meses antes de renunciar. Em 1964 veio o golpe militar. O primeiro presidente eleito depois disso foi Collor em 1989, que não concluiu o mandato.
De modo que a democracia institucional está se consolidando no Brasil somente agora, no século XXI.

Mas, voltando ao tema, a não insistência de Lula em um terceiro mandato significa que o lulismo acaba este ano.
Lula terá influência em um governo Dilma? Talvez sim. Ele será uma eminência parda? Um homem a governar dos bastidores? Um garantidor da estabilidade política do novo governo? Duvido.

Dilma terá uma aliança política sólida no Congresso. Terá boa base aliada nos governos estaduais. Não é uma pessoa politicamente frágil. Pelo perfil dela, acho mais provável que ela tire Lula de cena muito rápido. Ele passará para a história como o maior presidente do Brasil. Poderá exercer diversas funções, quiçá se tornar uma liderança de apelo mundial como alguns ex-presidentes dos EUA (notadamente Jimmy Carter e Bill Clinton). No Brasil ele terá menos peso político do que hoje tem FHC.

Porque FHC continuou sendo, após deixar a presidência, o principal quadro do PSDB, o segundo maior partido brasileiro. Sim, porque o PMDB não conta – incha e desincha conforme conveniências de momento. Lula não será o principal quadro do PT. Sua força no partido derivava da condição de ser a figura de maior simbolismo político, de maior potencial como candidato futuro. Essa condição ele já perdeu. Sua prevalência sobre o partido tornou-se aguda quando ele esteve na presidência: tinha a caneta na mão, nomeava, fazia operações “cirúrgicas”, reforçando ou afastando quadros partidários do governo, conforme lhe convinha a própria sobrevivência política.

Agora, a prerrogativa estará com Dilma. Sua capacidade de governar é muito maior que a do próprio Lula. Enfrentará resistências muito menores que ele teve que enfrentar. Assumirá o país numa situação muito mais favorável. Governará por 8 anos e fará a maior transição política da nossa história. Quando estivermos aqui discutindo as condições políticas de sua sucessão em 2018, os partidos e os líderes políticos que tiveram importância no ocaso do regime militar e nas disputas da era FHC-Lula já terão se tornado coisa do passado. O Brasil estará num novo patamar.
E Lula terá sido vítima do próprio sucesso.

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setembro 26, 2010

Apoio popular a Dilma é reflexo do projeto pluriclassista de Lula

Lula, o popular
Postado em parte1.wordpress.com

A história e seus ardis - O lulismo posto à prova em 2010

André Singer aplica às eleições de 2010 sua tese do "realinhamento" do eleitorado brasileiro, caracterizado pela adesão das classes baixas ao "lulismo" (por verem em Lula a possibilidade de ascensão social sem confronto) e pelo afastamento da classe média tradicionalmente petista, após o escândalo do mensalão. Para os leitores do blog que escreveram solicitando a publicação, á partir de um comentário do ministro Paulo Bernardo no Twitter, segue a íntegra do artigo publicado na Folha, para assinantes...

Apoio popular a Dilma é reflexo do projeto pluriclassista de Lula

CONTA-SE QUE CERTA VEZ o engenheiro Leonel Brizola teria levado o metalúrgico Lula ao túmulo de Getúlio Vargas em São Borja (RS). Lá chegando, o gaúcho pôs-se a conversar com o ex-presidente. Depois de algumas palavras introdutórias, apresentou o líder do PT ao homem que liderou a Revolução de 1930: "Doutor Getúlio, este é o Lula", disse, ou algo parecido. Em seguida, pediu que Lula cumprimentasse o morto. Não se sabe a reação do petista.

Será que algum dos personagens do encontro pressentiu que, naquela hora, estavam sendo reatados fios interrompidos da história brasileira? Desconfio que não.

Os tempos eram de furiosa desmontagem neoliberal da herança populista dos anos 1940/50. Mesmo aliados, em 1998 PT e PDT -praticamente tudo o que restava de esquerda eleitoralmente relevante- perderiam para Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno. O consulado tucano parecia destinado a durar pelo menos 20 anos e trazer em definitivo o neoliberalismo para o Brasil.

BRECHA

Foi por uma brecha imprevista, aberta pelo aumento do desemprego no segundo mandato de FHC, que Lula encontrou o caminho para a Presidência da República. Para aproveitá-la, fez substanciais concessões ao capital, pois a ameaça de radicalização teria afastado o eleitorado de baixíssima renda, o qual deseja que as mudanças se deem sem ameaça à ordem.1

Apesar da pacificação conquistada com a "Carta ao Povo Brasileiro" ter sido suficiente para vencer, o subproletariado não aderiu em bloco. Havia mais apoio entre os que tinham renda familiar acima de cinco salários mínimos do que entre os que ganhavam menos do que isso, como, aliás, sempre acontecera desde 1989. Ainda que as diferenças pudessem ser pequenas, elas expressavam a persistente desconfiança do "povão" em relação ao radicalismo do PT.

Depois de 2002, tudo iria mudar. A vitória levaria ao poder talvez o mais varguista dos sucessores do dr. Getúlio. Não em aspectos superficiais, pois nestes são expressivas as diferenças entre o latifundiário do Sul e o retirante do Nordeste. Tampouco no sentido de arbitrar, desde o alto, o interesse de inúmeras frações de classe, fazendo um governo que atende do banqueiro ao morador de rua. Dadas as condições, todos os presidentes tentam o mesmo milagre.

O que há de especificamente varguista é a ligação com setores populares antes desarticulados. Ao constituir, desde o alto, o povo em ator político, o lulismo retoma a combinação de autoridade e proteção aos pobres que Getúlio encarnou.

BURGUESIA EM CALMA

Mas em 1º de janeiro de 2003 ninguém poderia prever o enredo urdido pela história. Para manter em calma a burguesia, o mandato inicial de Lula, como se recorda, foi marcado pela condução conservadora nos três principais itens da macroeconomia: altos superavits primários, juros elevados e câmbio flutuante. Na aparência, o governo seguia o rumo de FHC e seria levado à impopularidade pelas mesmas boas razões.

De fato, 2003 foi um ano recessivo e causou desconforto nos setores progressistas. Ao final, parte da esquerda deixou o PT para formar o PSOL. Mesmo com a retomada econômica no horizonte de 2004, Brizola deve ter morrido em desacordo com Lula, por ter transigido com o adversário.

Ocorre que, de maneira discreta, outro tripé de medidas punha em marcha um aumento do consumo popular, na contramão da ortodoxia. No final de 2003, dois programas, aparentemente marginais, foram lançados sem estardalhaço: o Bolsa Família e o crédito consignado. Um era visto como mera junção das iniciativas de FHC. O segundo, como paliativo para os altíssimos juros praticados pelo Banco Central.

Em 2004, o salário mínimo começa a se recuperar, movimento acelerado em 2005. Comendo o mingau pela borda, os três aportes juntos começaram a surtir um efeito tão poderoso quanto subestimado: o mercado interno de massa se mexia, apesar do conservadorismo macroeconômico.

Nas pequenas localidades do interior nordestino, na vasta região amazônica, nos lugares onde a aposentadoria representava o único meio de vida, havia um verdadeiro espetáculo de crescimento, o qual passava despercebido para os "formadores de opinião".

PASSO DECISIVO

Quando sobrevém a tempestade do "mensalão" em 2005 -e, despertado do sono eterno pela reedição do cerco midiático de que fora vítima meio século antes no Catete, o espectro do dr. Getúlio começa a rondar o Planalto-, já estavam dadas as condições para o passo decisivo.

Em 3 de agosto -sempre agosto-, em Garanhuns (PE), perante milhares de camponeses pobres da região em que nascera, Lula desafiou os que lhe moviam a guerra de notícias: "Se eu for [candidato], com ódio ou sem ódio, eles vão ter que me engolir outra vez".

Até então, a ligação entre Lula e os setores populares era virtual. Chegara ao topo cavalgando uma onda de insatisfação puxada pela classe média. Optou por não confrontar os donos do dinheiro. Perdeu parte da esquerda. Na margem, acionou mecanismos quase invisíveis de ajuda aos mais necessitados, cujo efeito ninguém conhecia bem.

Foi só então que, empurrados pelas circunstâncias, o líder e sua base se encontraram: um presidente que precisava do povo e um povo que identificou nele o propósito de redistribuir a renda sem confronto.

PLACAS TECTÔNICAS

Os setores mais sensíveis da oposição perceberam que fora dada a ignição a uma fagulha de alta potência e decidiram recuar. A hipótese de impedimento foi arquivada, para decepção dos que não haviam entendido que placas tectônicas do Brasil profundo estavam em movimento.

Em 25 de agosto, um dia depois do aniversário do suicídio de Vargas, Lula podia declarar perante o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social que a página fora virada: "Nem farei o que fez o Getúlio Vargas, nem farei o que fez o Jânio Quadros, nem farei o que fez o João Goulart. O meu comportamento será o comportamento que teve o Juscelino Kubitschek: paciência, paciência e paciência". Uma onda vinda de baixo sustentava a bonomia presidencial.

O Lula que emerge nos braços do povo, depois da crise, depende menos do beneplácito do capital. Daí a entrada de Dilma Rousseff e Guido Mantega em postos estratégicos, o que mudou aspectos relevantes da política macroeconômica. Os investimentos públicos, contidos por uma execução orçamentária contracionista, foram descongelados no final de 2005. O salário mínimo tem um aumento real de 14% em 2006.

POLARIZAÇÃO

Para o público informado, a constatação do que ocorrera ainda demoraria a chegar. Foi preciso atingir o segundo turno de 2006 para que ficasse claro que o povo tinha tomado partido, ainda que em certos ambientes de classe média "ninguém" votasse em Lula.

A distribuição dos votos por renda mostra a intensa polarização social por ocasião do pleito de 2006. Pela primeira vez, o andar de baixo tinha fechado com o PT, antes forte na classe média, numa inversão que define o realinhamento iniciado quatro anos antes.

Embora, do ponto de vista quantitativo, a mudança relevante tenha se dado em 2002, o que define o período é o duplo movimento de afastamento da classe média e aproximação dos mais pobres. Por isso, o mais correto é pensar que o realinhamento começa em 2002, mas só adquire a feição definitiva em 2006. Como, por sinal, aconteceu com Roosevelt entre 1932 e 1936.

SEGUNDO MANDATO

Assentado sobre uma correlação de forças com menor pendência para o capital, o segundo mandato permitirá a Lula maior desenvoltura. Com o lançamento do PAC, fruto de um orçamento menos engessado, aumentam as obras públicas, as quais vão absorver mão de obra, além de induzir ao investimento privado.

Em 2007, foi gerado 1,6 milhão de empregos, 30% a mais do que no ano anterior. A recuperação do salário mínimo é acelerada, com aumento real de 31% de 2007 a 2010, contra 19% no primeiro mandato, conforme estimativa de um dos diretores do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada)2. A geração de emprego e renda explica os 70% de aprovação do governo desde então.

Nem mesmo a derrubada da CPMF, com a qual a burguesia mostrou os dentes no final de 2007, reduziu o ritmo dos projetos governamentais. A transferência de renda continuou a crescer. Foi só ao encontrar a parede do tsunami financeiro, no último trimestre de 2008, que se interrompeu o ciclo ascendente de produção e consumo. Teria chegado, então, segundo alguns, a hora da verdade. Com as exportações em baixa, o lulismo iria definhar.

COMPRAR SEM MEDO

Mas o lulismo já contava com um mercado interno de massa ativado, capaz de contrabalançar o impacto da crise no comércio exterior. A ideia, difundida pelo presidente, de que a população podia comprar sem medo de quebrar, ajudou a conter o que poderia ser um choque recessivo e a relançar a economia em tempo curto e velocidade alta.

Além da desoneração fiscal estratégica, como a do IPI sobre os automóveis e os eletrodomésticos da linha branca, o papel dos bancos públicos -em particular o do BNDES- na sustentação das empresas aumentou a capacidade do Estado para conduzir a economia. Numa manobra que lembra a de Vargas na Segunda Guerra, Lula utilizou a situação externa para impulsionar a produção local.

Surge uma camada de empresários -Eike Batista parece ser figura emblemática, como notava dias atrás um economista-, dispostos a seguir as orientações do governo. A principal delas é puxar o crescimento por meio de grandes obras, como as de Itaboraí -o novel polo petroquímico no Estado do Rio-, as de Suape (PE) e de Belo Monte, na Amazônia. Cada uma delas alavancará regiões inteiras.

Por fim, a aliança entre a burguesia e o povo, relíquia de tempos passados que ninguém mais achava que pudesse funcionar, se materializa diante dos olhos. Que o estádio do Corinthians em Itaquera não nos deixe mentir.

PROJETO PLURICLASSISTA

A candidatura Dilma representa o arco que o lulismo construiu. A ex-ministra, por sua biografia, é talhada para levar adiante um projeto nacional pluriclassista. O fato de ter sido do PDT até pouco tempo atrás não é casual. A mãe do PAC tem uma visão dos setores estratégicos em que a burguesia terá que investir, com o BNDES.

O povo lulista, que deseja distribuição da renda sem radicalização política, já dá sinais de que o alinhamento fechado em 2006 está em vigor. Em duas semanas de propaganda eleitoral na TV, Dilma subiu 9 pontos percentuais e Serra caiu 5. À medida que os mais pobres adquirem a informação de que ela é a candidata de Lula, o perfil do seu eleitorado se aproxima do que foi o de Lula em 2006. Ou seja, o voto em Dilma cresce conforme cai a renda, a escolaridade e a prosperidade regional.

A classe média tradicional, em que pese aprovar o governo, continuará a votar na oposição, como demonstram a dianteira de Serra em Curitiba e o virtual empate em São Paulo, municípios em que o peso numérico das camadas intermediárias é significativo.

Parte delas, sobretudo entre os jovens universitários, deverá optar por Marina Silva. Isso explica por que os que têm renda familiar mensal acima de cinco salários mínimos dão 12 pontos percentuais de vantagem para a soma de Serra e Marina sobre Dilma na pesquisa Datafolha concluída em 3/9.

O problema da oposição é que esse segmento reúne apenas 14% do eleitorado, de acordo com a amostra utilizada pelo Datafolha, enquanto os mais pobres (até dois salários mínimos de renda familiar mensal) são 48% do eleitorado. Nesse segmento, Dilma possui uma diferença de 22 pontos percentuais sobre Serra e Marina somados! Se vier a ganhar no primeiro turno, será graças ao apoio, sobretudo, dos eleitores de baixíssima renda, como ocorreu com Lula na eleição passada.

REALINHAMENTO

A feição popular da provável vitória de Dilma confirma, assim, a hipótese que sugerimos no ano passado a respeito da novidade que emergiu em 2006. Se estivermos certos, por um bom tempo o PSDB precisará aprender a falar a linguagem do lulismo para ter chances eleitorais. Não se trata de mexicanização, mas de realinhamento, o qual significa menos a vitória reiterada de um mesmo grupo e mais a definição de uma agenda que decorre do vínculo entre certas camadas e partidos ou candidatos.

Quando um governo põe em marcha mecanismos de ascensão social como os que se deram no New Deal, e como estamos a assistir hoje no Brasil, determina o andamento da política por um longo período. Num primeiro momento, trata-se da adesão dos setores beneficiados aos partidos envolvidos na mudança -o Partido Democrata nos EUA, o PT no Brasil.

Com o passar do tempo e as oscilações da conjuntura, os aderentes menos entusiastas podem votar em outro partido, mesmo sem romper o alinhamento inicial. Foi o que aconteceu com as vitórias do republicano Eisenhower (1952 e 1956) e dos democratas Kennedy (1960) e Johnson (1964).

Mas para isso a oposição não pode ser extremada, como bem o percebeu a hábil Marina Silva. Até certa altura da sua campanha, José Serra igualmente trilhou esse caminho. Foi a fase em que propôs cortar juros e duplicar a abrangência do Bolsa Família.

Depois, tragado pela lógica do escândalo, retornou ao caminho udenista da denúncia moral, que só garante os votos de classe média -o que, no Brasil, não ganha eleição. Convém lembrar que no ciclo dominado pelo alinhamento varguista, a UDN só conseguiu vencer com um candidato: Jânio Quadros, que falava a linguagem populista. Fora disso, resta o golpe, sombra da qual estamos livres.

DURAÇÃO

Qual será a duração do ciclo aberto em 2002, completado em 2006, e, aparentemente, a ser confirmado em 2010? O realinhamento abrange, por definição, um período longo. O último que vivemos, dominado pelo oposicionismo do MDB/PMDB, durou 12 anos (1974-86) e foi sepultado, quem sabe antes do tempo, pelo fracasso em controlar a inflação. A resposta para o atual momento também deve contemplar a economia.

Por isso, as condições de manter, pelo menos, o ritmo de crescimento médio alcançado no segundo mandato de Lula, algo como 4,5% de elevação anual do PIB, estarão no centro das preocupações do novo presidente. Sem ele, as premissas do lulismo ficam ameaçadas. Recados criptografados sobre a necessidade de reduzir a rapidez do crescimento e de fazer um ajuste fiscal duro já apareceram na imprensa, dirigidos a Dilma, provável vencedora.

O capital financeiro -apelidado na mídia de "os mercados"- vai lhe cobrar o tradicional pedágio de quem ainda não "provou" ser confiável. Caso os reclamos de pisar no freio não sejam atendidos, sempre haverá o recurso de o BC -cuja direção deverá continuar com alguém como Henrique Meirelles, senão o próprio- aumentar os juros. O aumento real do salário mínimo no primeiro ano de governo, que dependerá da presidente, pois o PIB ficou estagnado em 2009, será outro teste relevante.

CABO DE GUERRA

Convém notar que, no segundo mandato de Lula, ainda que de modo relutante, o BC foi obrigado a trabalhar com juros mais baixos. Mas o cabo de guerra será reiniciado no dia 3 de janeiro de 2011. Com os jogadores em posse de um estoque de fichas renovados pela eleição, uns apostarão em uma recuperação do espaço perdido, outros numa aceleração do caminho trilhado no segundo mandato.

O PMDB, elevado à posição de sócio importante da vitória, atribuiu-se, na campanha, o papel de interlocutor com o empresariado. O PT, possivelmente fortalecido por uma bancada maior, deverá, pela lógica, fazer-lhe o contraponto do ângulo popular. A escolha dos presidentes da Câmara e do Senado, em fevereiro, servirá de termômetro para o balanço das respectivas forças.

O futuro do lulismo dependerá de continuar incorporando, com salários melhores, os pobres ao mundo do trabalho formal. Em torno desse ponto é que se darão os principais conflitos e se definirá a extensão do ciclo. Alguns analistas da oposição alertam para a proximidade de um índice de emprego que começará a encarecer a mão de obra e gerar inflação. Como mostra Stiglitz,3 é a conversa habitual dos conservadores para brecar a expansão econômica.

Por fim, não se deve esquecer que uma palavra decisiva sobre esses embates virá de São Bernardo, onde residirá o ex-presidente, bem mais perto da capital do que foi, no passado, São Borja.

Aguardam-se os conselhos de Vargas e Brizola, dos quais poderemos tomar conhecimento naquelas mensagens psicografadas por Elio Gaspari.

Empurrados pelas circunstâncias, o líder e sua base se encontraram: um presidente que precisava do povo e um povo que identificou nele o propósito de redistribuir a renda sem confronto

Em 2006, pela primeira vez, o andar de baixo tinha fechado com o PT, antes forte na classe média, numa inversão que define o realinhamento iniciado quatro anos antes

A aliança entre a burguesia e o povo, que ninguém mais achava que pudesse funcionar, se materializa diante dos olhos. Que o estádio do Corinthians em Itaquera não nos deixe mentir .ANDRÉ SINGER

Notas 1. Ver André Singer. "Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo", "Novos Estudos", 85, nov 2009. Link para o artigo em folha.com/ilustríssima 2. Ver João Sicsú. "Dois Projetos em Disputa". "Teoria e Debate", 88, mai/jun 2010.

3. Ver Joseph Stiglitz, "Os Exuberantes Anos 90", Companhia das Letras, 2003. Ao constituir, desde o alto, o povo em ator político, o lulismo retoma a combinação de autoridade e proteção aos pobres que Getúlio encarnou 


Fonte: Os Amigos do Presidente Lula 

Nota do blog: A dica do artigo é da intrépida Maria Rita Chaves, lulista até o último fio de cabelo. 

maio 05, 2010

O PT e a politização do subproletariado


Na edição mais recente da revista “Novos Estudos”, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o cientista político e jornalista André Singer, professor da Universidade de São Paulo, publicou o artigo “Razões Sociais e Ideológicas do Lulismo”, em que discute a emergência desta nova base de apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se tornou visível nas eleições de 2006. Confira a entrevista em texto

Avertência de um leitor do UOL: 
polys2010
Atenção: O título da matéria induz o internauta a erro. Uma leitura atenta do texto não leva à conclusão proposta no referido título. O jornalista André Singer fez uma análise imparcial do período Lula. No título da matéria existem palavras entre aspas que colocam os termos como pejorativos. O entrevistado com muita habilidade evitou as provocações dos entrevistadores.
03/02/2010, 09:51h
Nota do blog: Alternativa para ver a entrevista do jornalista André Singer. Acesse http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/2010/01/28/04021C326AE0C91326.jhtm

***

“Cabe ao PT politizar subproletariado”

 

André Singer, cientista político e ex-porta-voz do governo, analisa o lulismo e a sua base social, o subproletariado
04/05/2010

Renato Godoy de Toledo
da Redação


O artigo “Raízes sociais e ideológicas do lulismo”, do professor de ciência política da Universidade de São Paulo (USP), André Singer, é um dos primeiros trabalhos acadêmicos a avaliar a composição sóciopolítica desse fenômeno capitaneado pelo presidente mais popular desde a redemocratização do país.

Ex-porta-voz e secretário de imprensa do Palácio do Planalto (2003-2007), Singer considera que o lulismo é composto por elementos de esquerda e de direita. Sua principal base eleitoral, o subproletariado – trabalhadores de baixíssima renda –, deseja uma melhoria nas condições de vida, mas preza pela manutenção da ordem e delega a tarefa de executor das mudanças a uma autoridade política.

Com a crise política de 2005, Lula ganhou mais força entre esse segmento, fundamentalmente beneficiado por políticas sociais, enquanto perdia o apoio dos setores médios que acompanhavam pela mídia as denúncias de corrupção.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Singer debateu as características do lulismo e aconselhou o PT a estreitar as relações com o subproletariado para incorporá-lo à esquerda.

Brasil de Fato – Para a Ciência Política, essa combinação de elementos de esquerda e de direita que compõem o lulismo é uma novidade?
André Singer – Acredito que seja uma novidade na história brasileira. Tenho a impressão de que é o primeiro momento em que essa fração de classe, que eu tenho denominado “subproletariado”, tem se estruturado como um ator político em torno de um projeto nacional. Nesse sentido, seria uma novidade no Brasil.

Essa combinação de elementos de esquerda e de direita tem a ver com essa diferença ideológica importante entre o proletariado e o subproletariado. Ao olharmos para a trajetória brasileira das últimas décadas, podemos perceber que o proletariado brasileiro deu sustentação ao PT,que foi uma proposta originalmente muito radical. O PT tem uma característica singular na história brasileira: ter se proposto a ser um partido explicitamente radical, numa cultura política marcada pela conciliação.

A proposta [de criação] do PT se estruturou no ambiente de um grande movimento social de trabalhadores – a onda de greves que começa em 1978. Depois, do ponto de vista eleitoral, o PT encontra eco na camada mais organizada do proletariado, mas, ao mesmo tempo, é sistematicamente rejeitado pelo subproletariado. Em pesquisas voltadas para o comportamento político, percebem-se resultados muito semelhantes. Há certa hostilidade às greves e aos sindicatos nesse setor de baixíssima renda, com renda familiar de até dois salários mínimos.

O subproletariado tem uma visão conservadora, mas não no sentido de rejeitar mudanças. Ele deseja mudanças importantes. Mas ele quer que essas sejam feitas sem prejuízo da ordem. Ou seja, essa valorização do conflito político que o PT fez é rejeitada pelo subproletariado, que espera mudanças feitas de cima para baixo, por meio de uma autoridade de Estado reforçada e sem ameaça à ordem. É essa configuração que leva a pensar na mistura de elementos de esquerda e de direita.


Se esse fenômeno é algo novo na política brasileira, então a comparação entre o lulismo e o getulismo (fenômeno ligado ao ex-presidente Getúlio Vargas) é equivocada?
Acredito que essa visão é, pelo menos, precipitada. Hoje em dia, há uma tendência de revisitar o getulismo e reavaliar o que ele significou. A primeira questão com relação a essa comparação é que hoje nós não sabemos muito bem o que foi exatamente o getulismo. Ele precisa ser reavaliado.

Em segundo lugar, não está claro qual é a ordem de mudanças que o lulismo pode vir a trazer. Não sabemos ainda se essa comparação é elucidativa. O Getúlio fez uma política social importante, mas foi voltada, sobretudo, aos trabalhadores urbanos. Uma característica do lulismo é que ele se dirige ao segmento de trabalhadores que ficou fora da perspectiva getulista. O subproletariado é o setor que ficou fora da CLT [Consolidação das Leis do Trabalho]. Assim, pode-se dizer que essa comparação talvez possa trazer mais confusão do que luz. Pois, nessa visão, misturam-se fenômenos com aspectos sociais diferentes.

O senhor partilha da tese apresentada pelo ex-ministro Tarso Genro, que coloca a candidatura de Dilma Rousseff como consequência do vazio partidário que acometeu o PT após a “crise do mensalão”?
Eu tendo a concordar com ele. Evidentemente, ele tem muito mais condições do que eu de fazer uma análise do PT. Estou tentando, agora, escrever uma continuação desse artigo do lulismo, mas voltado para o PT. Ainda não o concluí. Mas tendo a achar que essa análise faz sentido.

Ao mesmo tempo em que o lulismo incorpora elementos de direita, a base tradicionalmente conservadora à qual ele se dirige, o subproletariado, pode incorporar elementos de esquerda?
Creio que pode estar havendo uma lenta convergência entre o lulismo e o petismo. Essa convergência, se estiver ocorrendo, é obrigatoriamente lenta. Uma coisa é você identificar uma determinada liderança política – no caso, o presidente da República, que tem muita visibilidade – com um determinado projeto, que é o que conforma o lulismo. É muito mais difícil transformar isso numa identificação partidária. Uma vez criada essa identificação, ela demora a ser desfeita. É um processo lento de constituição e desconstituição.

Mas tendo a achar que, lentamente, setores do subproletariado podem estar começando a identificar o PT como o partido do presidente. A partir disso, se inclinam a votar nos candidatos petistas. Mas não me refiro a candidato à presidência da República, pois aí há uma relação direta com o presidente. Refiro-me aos candidatos proporcionais do PT.

Se essa lenta aproximação estiver em curso, é possível que, se o PT permanecer como um partido de esquerda, ele leve uma certa politização à esquerda para esses setores. O PT, hoje, tem uma escola nacional de formação política, que foi constituída depois do 3º Congresso [2007]. Essa escola está levando informações políticas a centenas de milhares de novos membros do partido, que podem, em parte, estar vindo desses setores sociais. Se, como eu acredito, essa informação que está sendo levada for fundamentalmente de esquerda, é possível que esteja ocorrendo um lento processo de politização de esquerda desses setores.


Em seu artigo, há uma frase em que Lula lamenta não ter tido o apoio das camadas de baixíssima renda. O fato de o PT ter conquistado a simpatia desse segmento apenas depois de ter acesso aos órgãos do Estado pode representar uma falha de organização do partido e dos movimentos sociais que o construíram?
Acho que não. A posição de classe que o subproletariado ocupa na sociedade torna a organização dele muito difícil. Não diria que é impossível, pois há o fenômeno do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], um movimento social importantíssimo que busca organizar esse setor. O fato de o MST existir, ter crescido e possuir uma estrutura nacional importante, mostra as possibilidades. Mas mostra também os limites. Porque sabemos que o MST organiza uma fração muito pequena desse setor que, em 2006, poderia ser até metade do eleitorado brasileiro. Esse quadro mudou com as políticas sociais, a formalização do emprego e o aumento do salário mínimo, que produziram uma transformação. Então, é possível que já estejamos diante de um quadro modificado.

Mas, sem dúvida, esse é um setor muito vasto da sociedade brasileira. Essa é uma característica importantíssima do Brasil. Então, não vejo falha nem no PT nem na esquerda por terem tido relativamente poucos avanços, ou avanços limitados. É quase impossível você organizar um desempregado. Toda a formulação de esquerda está sustentada na ideia de que, com o crescimento do proletariado, este seria uma força invencível. O proletariado fabril, por exemplo, teria uma vocação para a organização, pois a própria indústria e a produção o organizam. Agora, um desempregado, como ele pode ser organizado?


O termo clássico “lumpemproletariado” tem sido considerado pejorativo e caiu em desuso. Na sua opinião, o subproletariado seria o equivalente atual do “lumpemproletariado”?
Não. Há uma diferença importante. Esse termo [lumpemproletariado] tem uma carga negativa e está associado a setores marginalizados e que estão na ilegalidade ou transitam muito facilmente por ela. Esse não é o caso do subproletariado. A grande massa desse setor é composta por trabalhadores. Justamente por isso, não considero correto usar o termo “lumpen”, porque ele confunde. Esse termo foi criado por uma visão europeia, para outro tipo de sociedade, e referia- se a um setor que não encontrava espaço no trabalho formalizado. Esse grupo era muito reduzido. Não é o caso do Brasil, onde temos uma massa de trabalhadores que está nessa condição.

Sobre o contexto da esquerda pós-Lula, é possível afirmar que o PT, sendo um partido de esquerda, deve “disputar” o lulismo, para afastar os elementos de direita que o compõem?
Na minha opinião, caberia ao PT aproveitar a oportunidade para organizar e politizar esses setores. Isso passa por um item: continuar sendo um partido de esquerda. De fato, o PT se constituiu em torno da ideia de que a luta de classes deveria ter uma centralidade na luta política. Isso, de certa maneira, orientou o seu radicalismo, que foi uma opção política que ajudou muito o Brasil. O problema hoje do PT é tentar manter-se como partido de esquerda.

Hoje o partido convive com uma aproximação de um vasto setor social, que de modo algum pode ser desconsiderado, cujos interesses o proletariado deve ter a iniciativa de agregar. O interesse do subproletariado não é algo alheio ao projeto do PT. Ele quer mais igualdade, que é o projeto do petismo. O problema é a maneira de chegar lá, mas o objetivo final é comum. Em se mantendo à esquerda, o partido deveria buscar incorporar esse setor.

Em seu artigo, o ano de 2005 é tratado como chave para o realinhamento eleitoral do lulismo. Há a constatação de que, enquanto parte do eleitorado se atinha aos escândalos políticos midiáticos, outra sentia os benefícios das políticas sociais, como o Bolsa Família e os reajustes do salário mínimo. É possível afirmar que há uma cisão na opinião pública causada por diferentes formas de avaliar o governo?
Eu não gosto muito do termo “opinião pública”, pois ele é usado sem levar-se em consideração a sua origem, que vem de uma formação antiga, de um espaço público de debates, que, de certo modo, foi eliminado pelo progresso do capitalismo.

Eu prefiro dizer que a emergência do subproletariado fez com que o debate, que ocorria por meio da imprensa e atingia os setores médios, perdesse a importância relativa. E isso é um dado da nova situação. Há um aspecto interessante nesse fato, pois ele vai forçar todos os atores políticos a incorporarem as necessidades do subproletariado como uma prioridade. A meu ver, isso explica porque o candidato do PSDB, José Serra, já afirmou que não vai abandonar o Bolsa Família e que vai procurar formas de aumentar o programa. Com isso, o Bolsa Família está caminhando para se tornar um direito de todos os brasileiros que comprovarem que têm um rendimento abaixo de um certo mínimo. Isso é um direito importantíssimo, pois cria um piso, abaixo do qual a sociedade não aceita que nenhum brasileiro esteja.

Esse novo fenômeno tem essa potencialidade e me parece que está significando passos importantes na história brasileira. Quando isso for visto daqui a 50 anos, pode ser lembrado como um momento de uma inflexão importante. O Brasil tomou medidas para dar uma condição a milhões de brasileiros que estavam, de alguma forma, no terreno da desesperança.

Já que você citou o ex-governador Serra, gostaria que você comentasse uma declaração recente do ex-deputado Roberto Freire (PPS), que afirmou que a candidatura que representa o conservadorismo é a do PT, não a do PSDB, já que Dilma tem maior apoio nos grotões e no “Brasil mais atrasado”, onde há um conservadorismo histórico.
Não vi essa declaração do deputado Freire. É verdade que existe um aspecto conservador [na base eleitoral da candidatura do PT], pois há um apreço pela ordem e a valorização de uma mudança por cima. Mas, na candidatura do Serra, historicamente, não há nenhuma valorização do conflito político; e não parece que isso vá acontecer agora. Quem tem isso no seu passivo histórico é justamente o PT. Sabemos que o partido está em transformação, mas quem trouxe essa marca foi ele, não as forças que estão hoje alinhadas ao PSDB.

janeiro 30, 2010

O "lulismo", segundo André Singer

Acervo UOL
André Singer e Lula
O ano de 2010 é o último ano de Lula, eleito em 2002 e reeleito em 2006, à frente da Presidência da República. Passados esses anos todos, o presidente é o mesmo – mas o eleitorado mudou. Esse fenômeno tem sido chamado “lulismo” pelos cientistas políticos e sociólogos na análise da política brasileira.

Há quem veja no processo uma despolitização, como é o caso do sociólogo Francisco de Oliveira. O ex-presidente e também sociólogo Fernando Henrique Cardoso escreveu um artigo comparando o processo ao peronismo argentino.

Para André Singer, Lula, com uma política ao mesmo tempo manteve a ordem e distribuiu renda conquistou o segmento do “subproletariado”: trabalhadores que não tinham carteira assinada e que votaram maciçamente no PT nas eleições de 2006.

Lula ganhou a eleição de 2006 por uma margem de 20 milhões de votos sobre um adversário do PSDB – um número próximo do observado em 2002. Mas, para Singer, “essa semelhança é superficial”: “Por trás dessa aparente igualdade, existe uma transformação da base social que elegeu Lula.”

Singer foi também, durante o primeiro mandato de Lula, porta-voz da Presidência. Em entrevista aoUOL Notícias e a Joaquim Toledo Jr., editor da revista “Novos Estudos”, Singer falou sobre a mudança nessa base social de apoio de Lula, sobre o filme “Lula, o Filho do Brasil” e ainda sobre os principais pré-candidatos à Presidência da República.

Leia abaixo a opinião de Singer sobre os principais tópicos da entrevista.

O QUE É O LULISMO?“O lulismo é o que a gente poderia chamar de movimento social que emerge na eleição de 2006, quando, na minha opínião, ocorreu um fenômeno de realinhamento eleitoral. O presidente Lula ganhou a eleição de 2006 no segundo turno por uma diferença de votos muito parecida com a que ele tinha recebido em 2002. Ganhou por uma margem de 20 milhões de votos sobre um adversário do PSDB. Na realidade, essa semelhança é superficial. Por trás dessa aparente igualdade, existe uma transformação da base social que elegeu Lula.”

QUEM SÃO OS ELEITORES DE LULA?“Se a gente olha para a intenção de voto desagregada pela renda, são os eleitores de baixíssima renda. Esses são os eleitores que apoiaram o presidente Lula ainda no primeiro turno, quando o candidato do PSDB chegou perto de 40% teve uma votação expressiva no primeiro turno, o candidato Geraldo Alckmin, vindo a perder votos no segundo turno. Quem sustentou o presidente Lula desde o primeiro turno foram esses eleitores de baixíssima renda. Ocorre que historicamente esses eleitores sempre estiveram afastados da candidatura de Lula à presidência da República e do PT. O eleitorado tradicional do PT é um eleitorado de classe média, se nós considerarmos a parte formalizada da classe trabalhadora como classe média. Essa é uma visão que eu proponho no artigo para tentar compreender esse fenômeno do realinhamento à luz da teoria de classes, que é ver que no Brasil nós temos um conjunto de trabalhadores que estão aquém do proletariado - estou usando um conceito do professor Paul Singer de subproletariado para designar essa camada que veio a apoiar Lula e que nunca havia apoiado desde que ele concorre à Presidência da República, em 1989.”

SEM SE FAZER NOTAR“Ocorreu um duplo fenômeno. Esse setor que veio aderir ao presidente Lula é um setor da sociedade que está na base da pirâmide social e, nessa medida, ele fica distante dos analistas políticos. Os analistas políticos, de uma maneira geral, são gente de classe média, que tem dificuldade de perceber os movimentos moleculares que ocorrem na base da sociedade. Um outro aspecto é que esse fenômeno veio provavelmente se configurando ao longo do ano de 2005, quando ocorreu a chamada crise do mensalão, e as atenções do mundo político estavam voltadas para o mensalão, ao mesmo tempo em que na base da sociedade começava a ocorrer um fenômeno de adesão ao presidente Lula, que não foi percebido a não ser quando ele já estava se expressando eleitoralmente, perto da campanha eleitoral de 2006.”

O QUE LEVOU AO LULISMO?“Houve a execução de um programa que, simultaneamente, manteve a ordem - e a manutenção da ordem é uma aspiração deste eleitorado, por razões que não são difíceis de compreender... Vou recuar um pouquinho. Se a gente lembrar como foi a formação do PT, o PT foi um partido que se construiu sobre a ideia de que a luta de classes deveria ocupar o primeiro lugar na cena política. E a luta de classes é, por definição, um conflito social, que ameaça a ordem. Então o PT, que procurou construir uma organização autônoma da classe trabalhadora, se ergueu sobre a ideia e sobre a prática, porque foi um período de greves muito intensas, de que o conflito era positivo. Esse setor do eleitorado tem dificuldade para aceder a essa compreensão até porque é um setor que não pode se organizar, por exemplo, não participa de sindicato, porque não é formalizado. Está aquém das condições de participação da luta de classes. Então, para esse setor, a manutenção da ordem é um valor. Simultaneamente a isso [à manutenção da ordem], o governo Lula promoveu uma série de programas que, no seu conjunto, fizeram com que a qualidade de vida deste setor tivesse uma mudança positiva importante. Se a gente for pegar cada programa isoladamente, ele não talvez represente essa mudança. Mas se olharmos para o conjunto do Bolsa Família, dos aumentos do salário mínimo, da redução do custo da cesta básica e de dezenas de programas focalizados, como Luz para Todos, regularização de terras de quilombolas, construção de cisternas no semi-árido... Se reunirmos esse conjunto, a gente vai observar que o governo executou um conjunto de políticas que transformou a vida de milhões de pessoas que pertencem a esse setor que depois veio a aderir ao presidente Lula.”

CONSERVADORISMO ‘SUI GENERIS’
“É preciso compreender bem o que é a natureza desse conservadorismo. Ele é um conservadorismo muito "sui generis". Ele é ao mesmo tempo conservador e não conservador. Ele é conservador num aspecto: ele recusa o conflito social. Ele quer mudanças dentro da ordem, mas ele quer mudanças. Esse setor do eleitorado apoia vigorosamente a intervenção do Estado na economia, por exemplo. Se a gente entender essa dialética, há uma transformação na qualidade do voto, a partir da adesão ao presidente Lula, o centro e a direita não podem mais fazer o discurso que foi muito eficiente da eleição de 1989 até a eleição de 2002, a de que Lula e o PT representam desordem. Esse tipo de eixo foi quebrado.”

DESPOLITIZAÇÃO E ‘SUBPERONISMO’
“Acho que há uma repolitização em bases novas. O professor Francisco de Oliveira tem razão ao assinalar que há um fenômeno novo. Por que é novo? Por que o lulismo mistura elementos de esquerda e de direita. Nesse sentido ele reembaralha as cartas ideológicas de uma maneira nova, e obriga tanto o centro quanto a esquerda e a direita a se reposicionarem diante de uma articulação ideológica e social diferente. Com relação à questão do subperonismo, acho que estamos numa fase de transição, em que não sabemos em que forma política essa força social vai se cristalizar. Eu diria que existe uma possibilidade de que ela cristalize no próprio PT. Acho que ainda é cedo para a gente falar em modelos antigos.”

’LEALDADE’ AO LULISMO“O fenômeno do lulismo, se a minha hipótese estiver correta, é que as pessoas que mudaram de condição de vida e identificaram essa mudança com um projeto político encabeçado pelo presidente Lula devem se manter leais a esse projeto. Essa seria uma possibilidade, mas é claro que a história vai se construindo de uma maneira inesperada.”

18 BRUMÁRIO DE LULA“Do mesmo modo como Marx, ao tentar explicar a ascensão do Luís Bonaparte - ninguém esperava que Luís Bonaparte ganhasse as eleições de 2 de dezembro de 1848. Ganhou para surpresa de todos analistas. Essa é a meu ver a genialidade do Marx, ter percebido que ele recebeu os votos de uma parcela enorme da população francesa que tinha dificuldades estruturais para se organizar. Hoje eles estão organizados, naquele momento era muito difícil. Eu fiquei pensando nesses trabalhadores que vivem na informalidade no Brasil, que vivem no setor de serviços, ora estão empregados, ora desempregados, muito em empregos domésticos, que têm muita dificuldade em se expressar. Eles têm de expressar suas aspirações a partir de cima, de alguém que venha de cima. E num certo sentido eles recusam essa organização eleitoralmente, ao não votar no Lula e no PT até 2002. Até eles terem a certeza da ordem.”

O PT É REFÉM DO LULISMO?
“Max Weber viu isso com clareza quase cem anos atrás: em democracias presidencialistas, uma liderança carismática, como é o caso do presidente Lula, que tem muita expressão eleitoral, ela se torna uma força enorme dentro do partido que tem vocação eleitoral. O partido fica observando qual é a direção que essa liderança vai dar. Esse é um fenômeno que não tem novidade em relação a isso, sobretudo nas democracias presidencialistas. O presidente Lula tem um peso enorme dentro do PT.”

"LULA, O FILHO DO BRASIL"“Ouvi que as índices de público no Nordeste eram muito mais altos que no Sudeste. Acho que isso corresponde um pouco a essa nova divisão política que emergiu da eleição de 2006. Se a hipótese desse realinhamento do subproletariado estiver correta, ela explica a força do lulismo no Nordeste. É que o Nordeste é o coração social, cultural e político do subproletariado. Boa parte das pessoas que estão nessa condição nas periferias do Sudeste vieram do Nordeste. Provavelmente o filme está correspondendo às expectativas onde o lulismo é mais forte.”

MÍDIA E LULA, MÍDIA E FHC“Eu tenho evitado me manifestar sobre a mídia. Sou jornalista profissional, não estou exercendo a profissão neste momento, mas trabalhei quase 30 anos como jornalista. Nesse sentido eu tive uma vivência da mídia por dentro. Para não simplesmente dar uma impressão subjetiva de pouco valor, eu teria de estudar. Eu acho que é uma pergunta que está no ar. Eu conheço alguns estudos que mostrem em 2006 por parte de certos veículos uma certa tendência contra Lula e contra o PT. Mas não eu não conheço nenhum estudo comparativo que mostre de maneira inequívoca essa comparação, como foi o comportamento do veículo A, B e C no governo Lula e no governo FHC.”

POLARIZAÇÃO
“Concordo que o corte "ordem-desordem" não está na pauta, ele foi de certa maneira superado, mas ele poderá voltar em outra conjuntura. Porque nós não sabemos os limites da possibilidade da continuação da distribuição de renda dentro desse modelo. Porque este é um modelo, que permitiu a execução dessas políticas distributivas mantendo certas linhas mestras da política econômica anterior. O que está dado é que a oposição não tem neste momento um discurso novo e acredito que se as condições atuais que estamos vendo agora, vamos ter dois candidatos tentando dizer que um é melhor que outro para dar continuidade. Um governo que tem 70% de aprovação, significa que o eleitorado quer que esta linha geral continue. Os dois candidatos vão tentar dizer que um é melhor que outro. A oposição vai ter de tentar mostrar isso: que tem o melhor candidato para dar continuidade às políticas deste governo. O problema é que isso é contraintuitivo.”

SERRA (PSDB)“O governador Serra é um político muito experiente, já disputou a presidência, muito conhecido no Brasil todo. Ele está à frente neste momento porque ele é a figura mais conhecida. Acho que ele está numa situação em que ele não pode se opor frontalmente ao presidente Lula e provavelmente o que ele procurará fazer é mostrar que ele será o melhor continuador dessas políticas e não a ministra Dilma.”

DILMA (PT)“É a candidata deste governo que está com 70%, portanto ela deverá naturalmente ter o voto de uma parte significativa desses eleitores que querem a continuidade.”

CIRO GOMES (PSB)“Ele tem uma característica que eu acho interessante: procurar debater projetos para o Brasil. Nós estamos vivendo uma etapa de rearrumação dos partidos políticos. E essa rearrumação está deixando um pouquinho de lado a discussão programática. Acho que ele tem esse diferencial em relação a outros políticos brasileiros. Acho que seria muito interessante que o PT abrisse uma temporada de conversas com partidos de centro-esquerda como é o caso do PSB do ministro Ciro Gomes para tentar estabelecer uma plataforma e apresente para o país um projeto de aprofundamento dessas mudanças feitas no governo Lula.”

MARINA SILVA (PV)
“A senadora Marina Silva é uma figura humana de primeiríssima grandeza e que tem uma espécie de respeito generalizado em todo o mundo político. A disposição dela de se candidatar já produziu um efeito positivo, já obrigou os outros candidatos a falarem mais da questão ambiental e do desenvolvimento sustentável. Evidentemente será uma candidatura minoritária, ela não tem condição de aspirar a uma condição majoritária, mas ela tem condições de ser o fiel da balança num eventual segundo turno.”

PSOL
“Eu acho que a candidatura da senadora Heloísa Helena em 2006 se beneficiou muito da crise de 2005, do mensalão. Este é um episódio eleitoralmente superado. A situação atual do PSOL é muito diferente daquela de 2006. Na verdade, o PSOL está diante de uma situação que é a necessidade de a esquerda se recolocar diante de um cenário novo. A esquerda não pode ficar simplesmente na oposição a um governo que fez essa distribuição de renda. Pode criticar os aspectos conservadores, mas não pode se opor totalmente a este governo. O PSOL está diante deste dilema, que é como a esquerda vai se posicionar diante de um cenário novo.”

Fonte: UOL

novembro 08, 2009

Presidente povão responde ao intelectual pavão

Lula
Foto: Ricardo Stuckert

"Nós não temos a sapiência dos sociólogos. Essa semana fui chamado de analfabeto, de ditador, e nessa mesma semana eu ganhei o título de estadista do ano. Eu compreendo o ódio, o intelectual que está assistindo um operário que só tem o quarto ano primário - e não tenho vergonha de dizer - ganhar tudo o que ele imaginava que pudesse ganhar e não ganhou por incompetência é muito difícil. É muito engraçado, tem gente que acha que a inteligência está ligada à quantidade de anos de estudo que você tem, não tem nada mais burro que isso".
Lula
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