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agosto 14, 2010

Governo tucano reinventa o manicômio

SP ganha maior ambulatório psiquiátrico do Brasil

Modelo inédito de atendimento em saúde mental irá tratar pacientes com quadros mais graves, mas que não necessitam de internação
 
        A Secretaria de Estado da Saúde entrega nesta terça-feira, 10 de agosto, o maior ambulatório psiquiátrico do Brasil. O AME-Psiquiatria (Ambulatório Médico de Especialidades) Vila Maria, na zona norte da capital, faz parte de um modelo inédito de atendimento em saúde mental, que irá atender pacientes com quadros clínicos mais complexos, mas que não necessitam de internação. O investimento foi de R$ 1,8 milhão na reforma e adequação do espaço físico do prédio.

         No AME-Psiquiatria haverá atendimento exclusivo para os grupos principais de portadores de doenças mentais, que são os depressivos e com transtorno bipolar, os dependentes de álcool e drogas, os pacientes com transtornos psicóticos e esquizofrenia e idosos com transtornos mentais, além de psiquiatria infantil e adolescente. 

         O projeto terapêutico do AME uniu três dos principais especialistas em psiquiatria do Brasil: Ronaldo Laranjeira, da Unifesp, Valentim Gentil Filho, do Hospital das Clínicas da FMUSP, e Sérgio Tamai, da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

         Quando estiver operando em plena capacidade, a unidade poderá realizar até 39,2 mil consultas psiquiátricas e 14,4 mil consultas não-médicas com fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais, por exemplo. A manutenção da unidade deverá custar cerca de R$ 6 milhões ao ano.

         Com modelo totalmente inovador, o AME-Psiquiatria receberá os pacientes encaminhados de outras unidades de saúde, estaduais ou municipais. Lá, eles passam por uma triagem, onde são avaliados, enquadrados nos grupos pré-definidos de patologias e encaminhados para as alas de tratamento específicas.

Na unidade, todos os detalhes foram pensados especificamente para o tipo de atendimento realizado. Os vidros das janelas e portas são revestidos com uma película que não permite ser estilhaçado, há uma ala para observação de pacientes em surto, área de convívio externa e brinquedoteca para crianças que estiverem aguardando pelo atendimento.  

         É um modelo terapêutico único e inédito na área da saúde mental, porque não exige internação do paciente, embora dê amparo total para os casos mais complexos. O paciente só é encaminhado novamente para uma unidade que trata problemas psiquiátricos leves, como os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) quando seu problema estiver inteiramente controlado, afirma o secretário de Estado da Saúde, Nilson Ferraz Paschoa.

Secretaria de Estado da Saúde
Assessoria de Imprensa
(11) 3066-8707 / 8708

junho 30, 2010

O fim do manicômio


O fim do manicômio

         Mesmo fora do manicômio, a assistência aos portadores de sofrimento psíquico ainda sofre a influência dos dispositivos manicomiais. A clínica, que campeia nos serviços, públicos e privados, baseia-se em fortes efeitos apassivadores. Não é nenhuma novidade que os conflitos vividos em sociedade estão sendo medicalizados. Há um público refém do monopólio de técnicas estandarizadas, na medida em que foram desprezadas as questões culturais, cognitivas e subjetivas que tornam o funcionamento dos serviços de saúde alvo do monopólio de um modelo obsoleto
          Quando, então, serão enfrentadas as diversas demandas da “população psiquiátrica”? Qual o papel das instituições de ensino? Qual o perfil desejável dos profissionais “psi”, diante da emergência de novos paradigmas de atenção em saúde mental?
         Na academia nãoquem desconheça a importância de combater o estigma social provocado pelos transtornos subjetivos. Porém, como sustentar os direitos dos portadores de sofrimento psíquico se o modelo manicomial insiste em pairar sobre nossas cabeças? Ao modelo clássico de segregação da diferença, baseado numa falsa moral, a nova discriminação aos transtornos psiquiátricos ganha suporte na suposição de que a “dor de existir” é produto de complexas interações neuro-químicas, daí o uso abusivo de psicofármacos.
Porém, há academia e academia. Na primeiramera reprodução do saber. Mas é da última, ondeconstante produção do saber, que chovem advertências: “Tratar os efeitos da "doença mental” e impedir o estigma e a discriminação implica muito mais do que o domínio de uma técnica. Faz-se necessário a criação de dispositivos grupais e institucionais que estimulem a análise e a quebra de defesas corporativas. Faz-se necessário o confronto diário com nossas próprias dimensões subjetivas e pessoais. Faz-se necessário romper com a colonização mental a que fomos submetidos. Faz-se necessário a análise dos processos de poder e conflitos políticos, ideológicos e institucionais vividos no cotidiano dos serviços”.
Desinstitucionalização em saúde mental é um processo que requer a recuperação da complexidade e do desenvolvimento das diversas aptidões de nossas vidas e de nossas clientelas. Que cada um indague se está amadurecido para o desafio de criar um projeto teórico, político e assistencial que contemple as novas perspectivas definidas na Lei Paulo Delgado - esta, sim, fruto de experiências concretas baseadas numa clínica de efeitos desapassivadores.
Se os dispositivos institucionais ainda tardam entre nós é porque o desmonte do modelo manicomial ficou no meio do caminho da história da Reforma Psiquiátrica no Amazonas, resultante da cumplicidade conformista entre a sociedade civil e a sociedade política. Cumplicidade que perderia sua força no início deste século. Recuperar o elo perdido dessa história não é reivindicar por uma Reforma acontecida, cujos ideais caducaram, mas apostar na sua vertente mais radical: o fim dos manicômios. A clínica antimanicomial é o seu principal instrumento.
Manaus, junho de 2005.
Rogelio Casado, psiquiatra e psicoterapeuta
Coordenador do Programa Estadual de Saúde Mental

Nota do blog: Artigo publicado no jornal Amazonas em Tempo, onde o autor escreve quinzenalmente, aos domingos. Gostaria de dedicá-lo a todos os lutadores sociais empenhados na construção de uma sociedade sem manicômios, presentes à IV Conferência Nacional de Saúde Mental. Como essa construção depende, também, de um novo processo de formação, expresso aqui meu apoio ao projeto de incubação da Residência Médica em Psiquiatria, criada na minha gestão como coordenador do Programa Estadual de Saúde Mental (Amazonas). Se o IPUB-UFRJ entrar na área, muda o jogo no segundo tempo. Já era hora. Não tem graça  nenhuma a permanência desse importante instrumento de formação no interior do velho hospício de Manaus. Caso contrário, é dar asas pra cobra.

maio 13, 2010

A desconstrução do manicômio

Nota do blog: O Amazonas entrou no mapa da Reforma Psiquiátrica no início dos anos 1980. Nesse período foram estabelecidos o alicerce ético de tudo o que viria pela frente. Ali começamos a fazer a história da desconstrução do manicômio, da qual o psiquiatra amazonense Manoel Galvão é um dos seus precursores. Tal foi o alcance e a repercussão desse momento inaugural que mesmo os reformistas de araque findaram por defender o ideário dos serviços substitutivos ao manicômio y outras cositas que não faziam parte do seu vocabulário. Um momento marcante dessa época foi a presença de Alfredo Moffat, autor do livro "Psicoterapia do Oprimido", que veio conhecer o prinicipal projeto terapêutico da época. Tratava-se de um projeto de reabilitação psicossocial através de um trabalho agrícola, que resultou na produção de uma tonelada de verduras, roçado de macaxeira, mandioca, milho e feijão, criação de 60 cabeças de suínos e uma casa de farinha, em que homens e mulheres ali internados passaram a ter sua própria renda com o suor do seu rosto. Para minha tristeza, deixei de conhecer Moffat por estar em missão fora do velho hospício. Até a presente data, nenhum governante, nem candidato ao governo anunciou quando o velho hospital colônia dará lugar a um hospital de clínicas, conforme está previsto na Lei Estadual de Saúde Mental, de número 3.177, de 11 de outubro de 2007, lei proposta pela Associação Chico Inácio - filiada à Rede Nacional Internúcleos de Luta Antimanicomial - e sancionada pelo governador Eduardo Braga. Já que vão demolir o estádio Vivaldo Lima para dar lugar a uma outra praça de esportes (Manaus é uma das sub-sedes da Copa do Mundo de 2014), porque não aproveitar o ensejo e demolir o velho hospício da cidade. Você que está de passagem por Belo Horizonte, aproveite e vá conhecer a experiência de desconstrução do manicômio de Trieste, através do psiquiatra italiano Franco Rotelli. Imperdível! Enquanto isso, em Manaus o 18 de maio - dia nacional da luta antimanicomial - será comemorado dentro do hospício. O único momento punk da programação é uma manifestação na rua, em frente do velho manicômio. Ufa! Franco Basaglia, o pai da psiquiatria democrática, que promoveu a terceira revolução do setor, convulso se dabate no túmulo. Ninguém merece!
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