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agosto 08, 2010

Filme de Polanski provoca bocejos em Luiz Biajoni

diariodecinema | 1 de fevereiro de 2010
O roteiro fala sobre um escritor fantasma britânico que concorda em escrever as memórias do ex-primeiro-ministro Adam Lang porque seu agente lhe garante que esta seria a oportunidade de sua carreira. Mas o projeto parece estar condenado desde o início, devido a um acidente misterioso.

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[ Amálgama ]

por Luiz Biajoni – O último filme de Polanski está sendo vendido como um eletrizante thriller político. Não achei. Nem eletrizante, nem thriller. Tem um fundo político. Mas é lento, insosso, dava para ter meia hora a menos. E tem outros defeitos.



Incrível que todo mundo tá dizendo que o filme é ótimo. Luiz Zanin Orichio escreveu: “Polanski, que sabe também trabalhar o filme de gênero como poucos, produz inquietações. Suscita mais perguntas do que respostas. E, desta vez, desce não apenas aos porões sombrios das almas individuais, mas vasculha os interesses políticos e corporativos, essa caixa-preta da nossa história contemporânea”. Uau. Porões sombrios da alma humana, é?

Basicamente: um escritor fantasma é contratado para escrever a biografia de um importante líder político depois que o escritor anterior morreu – afogado, não se sabe se acidental ou suicídio. O político vive uma crise, o escritor descobre algumas coisas e nos quinze minutos finais o filme ganha agilidade até acabar de maneira polanskiana.

Alguém que assume papel de outro e tem que se ajustar à medida anterior é tema comum a Polanski. Lembra O Inquilino (1976), onde um jovem aluga o apartamento de uma velha que tentou o suicídio atirando-se da janela para, logo em seguida, adquirir os mesmos hábitos da velha, inclusive o de atirar-se. Em O Escritor Fantasma, Ewan McGregor vai pelo mesmo caminho. Mas, enquanto O Inquilino se desenvolve no ambiente do terror, O Escritor… vai por uma via de filme noir, com entrechos vagarosos demais, prolixos demais, com informações desnecessárias demais, no sentido de “criar um clima” – clima esse que vai sendo esvaziado à medida que chegamos próximos do final. O final quer ser surpreendente, mas não pega fãs de Polanski de calças curtas. Todos se lembram da Mia Farrow desconstruindo os nomes de seus algozes em O Bebê de Rosemary (1968), pois não?

Logo no início do filme o escritor é atacado por pessoas em 
uma moto que roubam o original de um livro que é levado por engano. O escritor encara de maneira muito normal essa agressão. Aparentemente não a menciona a ninguém, o que seria normal. Adiante, vira um fofoqueiro, alguém que fala sobre tudo com todos, mudando o traço da discrição – essencial a um escritor fantasma.

 

McGregor é um bom ator com um papel estranho. Parece bonito demais para escritor. Ainda mais fantasma. Em alguns momentos, parece querer ir a fundo na investigação sobre o que aconteceu ao seu antecessor e sobre coisas que não estão no livro. Em outros, solta frases como “sou um escritor, não um repórter investigativo, não me interessa o que aconteceu com ele”. Por outro lado, não é seu esforço intrínseco que o leva a conclusões: é sempre o acaso. Sem motivo aparente, ele vai esvaziar as gavetas do guarda-roupas do escritor morto e encontra um envelope que o morto havia colado ali. Uma cena ruim. Depois, pega o carro que o morto usava e o GPS tinha registrado sua última viagem – e isso o leva a casa de um personagem essencial.

Tem uma coisa que me incomoda muito em livros e filmes de suspense: o acaso. Uma coisa é o camarada investigar e chegar a conclusões. Outra é o detetive procurar uma pessoa e ela aparecer atravessando a rua, bem diante dele. Acasos matam o suspense. E está cheio deles em O Escritor Fantasma. Não bastasse, há envolvimentos amorosos escusos, hostilidade popular contra o político, perseguições que não serão esclarecidas. Um atentado que nos faz acordar na poltrona. E a conclusão que provoca novo bocejo.

Vejam: eu adoro Polanski. Adoro todos os seus filmes, gosto até mesmo daquele filmeco de terror com o Johnny Depp e o Frank Langella. Mas não vi o mesmo filme que a crítica viu, nesse O Escritor Fantasma. O filme surfa em clichês para não dizer a que veio. Só se salva mesmo o Pierce Brosnan, de Tony Blair.

maio 30, 2010

O Escritor Fatasma


diariodecinema 1 de fevereiro de 2010 — O roteiro fala sobre um escritor fantasma britânico que concorda em escrever as memórias do ex-primeiro-ministro Adam Lang porque seu agente lhe garante que esta seria a oportunidade de sua carreira. Mas o projeto parece estar condenado desde o início, devido a um acidente misterioso.

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[ O Escritor Fantasma ]



por Bruno Cava – O ultimo longa de Roman Polanski, que ganhou o Urso de Prata (melhor direção) no Festival de Berlim de 2010, estreia hoje no Brasil. Não, não é mais um da febre espírita. O título refere-se ao ghostwriter: aquele que, apesar de escrever o texto, não o assina e fica oculto. Atribui-se a autoria a outra pessoa, geralmente uma celebridade. No longa, o escritor interpretado por Ewan McGregor é o “fantasma” do primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan), que deseja produzir uma autobiografia de sua carreira política. O roteiro baseia-se num romance de mistério de Robert Harris, que co-escreveu com Polanski o roteiro. Sem ser nomeado na história, o Fantasma/McGregor é convocado de última hora para substituir o ghostwriter anterior, morto em circunstâncias suspeitas quando terminava a “autobiografia” de Lang. Obviamente as coisas vão se complicar para o novo redator. Desse argumento simples, parte um thriller preciso e maduro, que multiplica os sentidos de interpretação.


Como comentário político, O Escritor Fantasma expõe ligações mais ou menos ocultas por trás do discurso da guerra ao terror. Denuncia o enlace de bastidores entre os governos, órgãos de inteligência e institutos de pesquisa e ativismo (“think tanks“), que cimentaram a aliança unha-e-carne entre a política externa dos EUA/Bush e do Reino Unido/Blair. Lang/Brosnan representa o ex-premiê Tony Blair, mas no filme também aparecem “disfarçados” outros políticos ingleses, Condeleeza Rice, a CIA, o Instituto Claremont e até a Haliburton — megaempreiteira ligada ao vice de Bush, Dick Cheney, empresa responsável principal pela reconstrução do Iraque pós-guerra. Se Tarantino reescreveu a Segunda Guerra em Bastardos Inglórios (2009), Polanski faz o mesmo agora, já que, na sua ficção, o premiê britânico é intimado pelo Tribunal Penal Internacional a responder pelos crimes de guerra cometidos — entrega de prisioneiros para interrogatórios com tortura pela CIA. Nesse sentido, O Escritor Fantasma trava um diálogo com o filme vencedor do Oscar passado, Guerra ao Terror (Kathryn Bigelow, 2009), que contorna qualquer comentário sobre as dinâmicas políticas da guerra, em favor da exposição acrítica do aqui-e-agora dos soldados no fronte.



-- Cena do filme --

Como filme de estilo, Polanski apresenta outra obra matizada pela sobrevivência do protagonista em um mundo-cão, como em Chinatown (1974), O Inquilino (1976), O Pianista (2002), Oliver Twist (2005), entre outros de sua filmografia. Personagens isolados envoltos por uma atmosfera opressiva de perigo e estranhamento. Neste filme, boa parte da ação transcorre numa ilha semideserta e cinzenta, sob céu de tempestade, como metáfora da condição do Fantasma/Gregor. Nessa ilha, situa-se a mansão-bunker ultra-vigiada que é, ela mesma, uma prisão. O thriller se realiza nesse clima intoxicante e confinado, de ameaça desconhecida, onde não se pode confiar em ninguém, o que evoca o contemporâneo Ilha do Medo (2010). Mas dele se distancia, pois se Scorsese monta o suspense de modo direto, contínuo e rococó (principalmente ao trabalhar a memória), Polanski refina o seu suspense com simplicidade e um cinismo característico, como em O Bebê de Rosemary (1968) ou Cul-de-sac (1966).



De fato, o diretor, da escola hitchcockiana, demonstra como a intercalação de momentos cômicos e mesmo banais, ao invés de reduzir o suspense, aguça-o. Assim há cenas de piadas, facilitadas pela ironia fleumática do Fantasma/McGregor, e seqüências banais: a bicicleta atola no terreno, o vento desfaz montes de feno, o jet-lag deixa o escritor cochilante. O filme é mais falante do que de ação e dispensa malabarismos em 3D, explosões ou tiroteios. Por sinal, a única perseguição de carro é narrada de maneira elegante, sem clímaxes barulhentos. E o único lugar em que o protagonista se sente seguro e confortável é dentro de seu BMW, em merchandising cara-de-pau.


Há quem veja em O Escritor Fantasma uma espécie de metalinguagem reversa diante da situação pessoal do diretor. Afinal, ele finalizou o filme em prisão domiciliar na Suíça, país que possui tratado de extradição com os EUA e, portanto, reconhece uma sentença condenatória da justiça americana de 1978. Em janeiro deste ano, um mês antes de estrear na Berlinale, a justiça suíça decidiu detê-lo. No festival, quando a transferência forçada aos EUA parecia iminente, houve campanhas favoráveis a Polanski. A extradição não ocorreu até hoje e o advogado de Polanski segue interpondo recursos nas justiças americana e suíça. A referência metalingüística, por conseguinte, estaria na analogia com o político Lang, enquanto celebridade acusada no exílio, mas sobretudo com o Fantasma: um artista moralmente cinzento que não compreende a conspiração a seu redor e acaba, menos por ingenuidade do que azar, caindo numa armadilha.