Mostrando postagens com marcador valter pomar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador valter pomar. Mostrar todas as postagens

setembro 01, 2010

As várias direitas e seus planos

Nota do blog: Considero o debate interno entre as diversas forças políticas que fazem parte do PT um dos elementos mais importantes da cultura política do próprio partido e da história recente da república. Os frutos desse debate quando vem a público, nos auxilia a entender o que muitas vezes é omitido pela mídia que trata a informação como mercadoria. Este blog, graças à gentileza do companheiro José Barroncas, advogado, militante histórico do partido no Amazonas, tem recebido e postado as rigorosas análises de conjuntura de um dos mais respeitados líderes que compõe a direção nacional do PT. Se algum outro companheiro for tomado por mortal ciúme, não deixe esse sentimento prosperar. Reivindique espaço para a sua "tendência", fique à vontade, faça como o intrépido José Barroncas, mande os textos de seus lídimos representantes. Terei a honra de postá-los. Nada melhor do que um belo e apaixonado debate. Estas páginas eletrônicas estão abertas. Usem e abusem. Fiquem agora com o texto de Valter Pomar, publicado no Página 13.

As várias direitas e seus planos 

Valter Pomar*

Pesquisa gorda, guarda baixa: assim foi noutros momentos, como em 2006, onde um erro político prejudicou nosso desempenho na eleição parlamentar e jogou a disputa presidencial para o segundo turno, além de afetar negativamente algumas campanhas estaduais.
 

Portanto, manda o bom senso que, ao mesmo tempo em que exploramos com força a possibilidade
de uma vitória já no dia 3 de outubro, mantenhamos o ceticismo, além de ficarmos alertas para as operações especiais de que a oposição de direita é reconhecidamente capaz.


Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que há várias maneiras de ganhar e de perder. Logo, se não operarmos corretamente, podemos ganhar a eleição e ter muitas dificuldades no governo. Dificuldade que compartilhamos com vários de nossos hermanos continentais.


Desde 1998 até 2009, candidaturas progressistas e de esquerda ganharam a maior parte das eleições presidenciais ocorridas na América Latina. As exceções mais importantes foram o Peru (onde quase ganhamos), o México (onde fraudaram o resultado) e a Colômbia (onde o conflito militar prejudicou o Pólo Democrático Alternativo).



Desde 2009, a direita vem tentando recuperar os espaços perdidos. Apesar dos esforços, o resultado deste contraataque ainda é magro: ganharam no Panamá e no Chile, onde havia governos de centro-esquerda moderados; e ganharam na Colômbia, que eles já governavam.

Mas perderam no Uruguai, na Bolívia, no Equador. E vão perder na Venezuela (eleições legislativas em setembro) e no Brasil (eleições presidenciais em outubro).


Diante das dificuldades eleitorais, a direita latino-americana (e brasileira) opera planos alternativos.
 

O “plano b” nós vimos em Honduras: trata-se do tradicional golpe de Estado. Volta e meia eles ameaçam fazer isto na Guatemala e no Paraguai, que são considerados “elos fracos” da rede de governos
progressistas.
 

Como a sustentabilidade destes golpes depende de retaguarda militar, a direita latino-americana vê com simpatia a conduta dos Estados Unidos, que estimula o conflito na Colômbia, expande suas bases na região (quase 40) e reativa a IV Frota, que não por coincidência vai operar na região do pré-sal brasileiro.
 

Já o “plano c” da direita é mais sutil: trata-se de garantir que a esquerda não consiga implementar seu programa; nem consiga passar da condição de governo, para a condição de poder.

No caso do Brasil, a oposição de direita conta com dois importantes aliados para executar este plano: por um lado, os setores moderados da nossa coligação; por outro lado, o grande capital em geral.
 

Aliás, é bom lembrar: o grande capital tolera o nosso governo, pois como diz o próprio presidente Lula, nunca na história deste país os ricos ganharam tanto. Mas este mesmo grande capital não aprecia
políticas de distribuição de renda e faz oposição aberta a reformas estruturais de tipo democrático-popular.
 

Quando observamos o confronto eleitoral de 2010, isto fica claro: Serra expressa uma aliança entre neoliberais e desenvolvimentistas conservadores; já Dilma tem na sua campanha as forças democrático-populares, mas também tem ao seu lado desenvolvimentistas conservadores. Portanto, a ideologia desenvolvimentista conservadora e o grande capital, como força político-social, estão presentes
nas duas campanhas.


Neste sentido, o mais exato é dizer que o Brasil tem uma direita social (os grandes empresários, interessados na manutenção das estruturas sociais de exploração e dominação), que se manifesta politicamente
de diferentes formas: através da oposição de direita (PSDB-DEM-PPS), através dos setores governistas de centro-direita e inclusive através de aliados nos partidos de centro e esquerda (Marina e Palocci, por
exemplo).
 

Para a direita social, para o grande capital, melhor seria que o atual e a futura presidente da República não fossem filiados ao PT. Mas como a oposição de direita está mal das pernas, a direita social faz um movimento de pinça: por um lado, tenta esterilizar programaticamente a vitória de Dilma; por outro lado, trabalha para fortalecer os setores mais moderados da coligação. O PMDB, por exemplo, tem sido apontado como contraponto, dentro do governo, ao PT; e como cavalo de uma futura candidatura presidencial alternativa ao petismo, em 2014.
 

Para além destes movimentos táticos, a direita social opera para seguir controlando a maioria parlamentar, o judiciário, as forças armadas, a burocracia de Estado, os meios econômicos e a comunicação de massa. Por isto, a maior parte da direita se opõe ou pelo menos desconfia da proposta de uma Constituinte, mecanismo utilizado noutros países para reformar e democratizar o Estado.

Também por isso, a incrível pressão feita sobre o PT e sobre a campanha Dilma, para que aceitemos o controle monopolista dos meios de comunicação como um dado da natureza; e para que confundamos
liberdade de imprensa, com liberdade de empresa.



Há quem pense que este tema perdeu importância. Afinal, elegemos Lula e vamos eleger Dilma, apesar do monopólio. Isto é verdade; mas também é verdade que nossos feitos administrativos são maiores do que os
eleitorais; nosso acúmulo eleitoral é maior do que nosso acúmulo político; nossa força política é maior do que nosso acúmulo ideológico. Ou seja, o monopólio da comunicação serve para frear, limitar, retardar, o crescimento geral da esquerda. O que não impede vitórias eleitorais, mas torna muito mais difícil realizar mudanças mais profundas.


Os partidos de esquerda, as lutas sociais, os movimentos, são fundamentais para que a esquerda saia da condição de governo e passe para a condição de poder. Por exemplo, sem luta político-social, não
vai ocorrer reforma política democrática, nem reforma tributária progressiva. Sabendo disto, a direita adota a mesma tática em todos os países do continente: criminalizar os movimentos sociais e desconstituir os
partidos de esquerda.


Ou seja: tratam como ilegítimo e ilegal o fato dos setores populares se organizarem, de forma independente, para mudar as leis, influenciar governos e mudar o conteúdo social do Estado.
 

Para a direita, lobby é bom, luta político-social é mal.

Se a direita tiver sucesso na criminalização dos movimentos socias e na desconstituição dos partidos de esquerda, ou pelo menos conseguir criar um ambiente que dificulte a organização e a luta social, eles terão dado um passo muito importante para, mesmo perdendo eleições, continuarem mandando e
desmandando em nossos países.
 

Também por isto é tão importante eleger Dilma, sem perder de vista que as contradições da coligação e seus limites programáticos obrigam os partidos e movimentos de esquerda a manter forte pressão em favor
das reformas democrático-populares.


*Valter Pomar é membro do Diretório Nacional do PT


Leia o Página 13 em pdf.

junho 23, 2010

Frei Betto?... Mui amigo!

Frei Betto
Imagem postada em commons.wikimedia.org

Mui amigo, artigo de Valter Pomar sobre carta de Frei Betto

22 junho 2010
Por Valter Pomar

A Carta a um amigo petista (leia ao final), escrita por Frei Betto em 15 de junho de 2010, é um exemplar da sub-literatura de auto-ajuda. 

Notem: ele se dirige para alguém atormentado (!!!) pela confusão política, a quem oferece uma previsível imagem biblíca (Jonas e a baleia) e város lugares comuns acerca da política (a política é a arte do improviso e do imprevisto. E como ensina Maquiavel, trafega na esfera do possível).

Notem também: Betto contrapõe o conceito tomista de promoção do bem comum ao pragmatismo maquiavélico, cuja síntese seria a luta pelo poder. E caso alguém não tenha entendido a moral da história, Betto apela para o cabaré…

Feita esta introdução, Frei Betto lança a pergunta: o PT voltará, algum dia, a ser fiel a seus princípios e documentos de origem?

Notem: não é propriamente uma pergunta, é uma acusação (pois já está dito que o PT não é fiel) e um método de análise (o que importa é ser fiel).

Mas o que é mesmo ser fiel, 30 anos depois?

Não ter ninguém envolvido em maracutaias, como se isto fosse possível, nos primeiros 30 dias ou nos primeiros 30 anos de vida de um partido político? Ou acreditar que eram os núcleos de base que davam legitimidade às posições do PT???

Seja lá o que consideremos fidelidade, uma resposta decente envolveria debater programa, estratégia, tática, correlação de forças. Assuntos difíceis demais para alguém que parece desprezar por definição a luta pelo poder.

Aliás, Betto é muito modesto: ele nunca foi filiado a nenhum partido, mas influenciou no PT muito mais do que gostaria de admitir, até porque sempre transitou nos círculos de poder do Partido, defendendo posições que têm relação com coisas que hoje condena.

Vide seu orgulho em ser um indivíduo não governamental, postura assumida nos anos 90 por tantos e que está na origem de muitas das deformações exibidas pelo partido e por seus dirigentes, hoje.

Betto recomenda a seu amigo que permaneça no PT. Defende a coisa certa, mas com argumentos para lá de errados, conservadores e envergonhados.

Notem o que ele diz: não se muda um país vivendo fora dele. O mesmo vale para igreja ou partido. Há no PT muitos militantes íntegros, fiéis a seus princípios fundadores e dispostos a lutar por uma nova hegemonia na direção do partido. Ainda que você não engula essas alianças que qualifica de “espúrias”, sugiro que prossiga no partido e vote em seus candidatos ou nos candidatos da coligação. Mas exija deles compromissos públicos. Lute, expresse sua opinião, faça o seu protesto, revele sua indignação. Não se sujeite à condição de vaca de presépio ou peça de rebanho. Se sua consciência o exigir, se insiste, como diz, em preservar sua “coerência ideológica”, então busque outro caminho. Nenhum ser humano deve trair a si próprio. Mas lembre-se de que uma esquerda fragmentada só favorece o fortalecimento da direita.

Primeiro, o mesmo que vale para um país, não vale para um partido. Fosse correto este raciocínio, estaríamos no PC ou no PTB. A decisão sobre tentar mudar um partido ou construir outro partido, está relacionado a critérios políticos, programáticos, estratégicos.

Segundo, um partido não é uma igreja, embora muitas igrejas sejam partidos disfarçados. Um partido não se une em torno de princípios de fé, mas sim em torno de posições político-ideológicas. Por outro lado, igrejas também sofrem cisões.

Terceiro, a decisão de ficar num partido não pode ser baseada, apenas ou principalmente, no fato de que há outros quem pensam como nós dentro do Partido. Este é um raciocínio de seita, não um raciocínio político. A questão deve ser outra: qual o papel que meu partido está cumprindo na luta de classes? É isto, e não a existência de insatisfeitos-como-eu que pode justificar (ou não) a continuidade num partido.

Quarto, a fragmentação da esquerda pode ajudar a direita, mas as vezes a divisão da esquerda também pode ser útil e indispensável para derrotar a direita. A defesa da unidade desprovida de conteúdo é algo conservador e moralista, além de revelar que o defensor não está muito convicto. As pessoas devem ficar no PT porque o PT joga um papel positivo na luta de classes hoje, não por medo de dividir a esquerda. Pois o PT, quando surgiu, fez exatamente isto e disso não nos arrependemos, pois naquele momento dividir era preciso.

Quinto, propor ao militante que se comporte como eleitor, cobrando compromissos públicos de seus candidatos, é uma das irônicas consequências de um discurso que não enfrenta os temas políticos, da luta pelo poder.

O principal problema do PT não é ter protagonistas que se deixam seduzir pelas benesses do inimigo, cooptar por mordomias, corromper-se por dinheiro. Isto é consequência, não causa, da confusão de tática com  estratégia. Aliás, não se trata propriamente de uma confusão, mas sim de diferentes estratégias.
 
Tema que não se resolve apelando para uma salada composta por credibilidade ética, partido como expressão política dos movimentos, os mais pobres e a luta por reformas estruturais.
Valter Pomar


A seguir a carta de Frei Betto Carta a um amigo petista
Escrito por Frei Betto

15-Jun-2010
  Meu caro: sua carta me chegou com sabor de velhos tempos, pelo correio, em envelope selado e papel sem pauta, no qual você descreve, em boa caligrafia, a confusão política que o atormenta.
Pressinto quão sofrido é para você ver o seu partido refém de velhas raposas da política brasileira, com o risco de ser definitivamente tragado, como Jonas, pela baleia… Sem a sorte de sair vivo do outro lado.

A política é a arte do improviso e do imprevisto. E como ensina Maquiavel, trafega na esfera do possível. O sábio italiano foi mais longe: eximiu a política de qualquer virtude e livrou-a de preceitos religiosos e princípios éticos. Deslocou-a do conceito tomista de promoção do bem comum para o pragmatismo que rege seus atores – a luta pelo poder.

Você deve ter visto o célebre filme “O anjo azul” (1930), que imortalizou a atriz Marlene Dietrich e foi dirigido por Joseph von Stemberg e baseado no livro de Heinrich Mann, irmão de Thomas Mann. É a história de uma louca paixão, a do severo professor Unrat (Emil Jannings) por Lola-Lola, dançarina de cabaré. Ele tanta aspira ao amor dela, que acaba por submeter-se às mais ridículas e degradantes situações. Torna-se o bobo da corte. Nem a cortesã o respeita. Então, cai em si e procura voltar a ser o que já não é. Em vão.

Me pergunto se o PT voltará, algum dia, a ser fiel a seus princípios e documentos de origem. Hoje, ele luta por governabilidade ou empregabilidade de seus correligionários? É movido pela ânsia de Construir um Novo Brasil ou pelo projeto de poder? Como o professor de “O anjo azul”, a paixão pelo poder não teria lhe turvado a visão?

Você se pergunta em sua carta “onde o socialismo apregoado nos primórdios do PT? Onde os núcleos de base que o legitimavam como autorizado porta-voz dos pobres? Onde o orgulho de não contar, entre seus quadros, com ninguém suspeito de corrupção, maracutaias ou nepotismo?”.

Nunca fui filiado a nenhum partido, como você bem sabe e muitos ignoram. É verdade que ajudei a construir o PT, mobilizei Brasil afora as Comunidades Eclesiais de Base e a Pastoral Operária, participei de seus cursos de formação no Instituto Cajamar e de seus anteparos, como a Anampos e o Movimento Fé e Política.

Prefeitos e governadores eleitos pelo PT me acenaram com convites para ocupar cargos voltados às políticas sociais. Tapei os ouvidos ao canto das sereias. Até que Lula, eleito presidente, me convocou para o Fome Zero. Aceitei por se destinar aos mais pobres entre os pobres: os famintos.
O governo que criou o Fome Zero decidiu por sua morte prematura e deu lugar ao Bolsa Família. Trocou-se um programa emancipatório por outro compensatório. Peguei o meu boné e voltei a ser um feliz ING, Indivíduo Não Governamental. Tudo isso narrei em detalhes em dois livros da editora Rocco, “A mosca azul” e “Calendário do Poder”.

Amigo, não o aconselho a deixar o PT. Não se muda um país vivendo fora dele. O mesmo vale para igreja ou partido. Há no PT muitos militantes íntegros, fiéis a seus princípios fundadores e dispostos a lutar por uma nova hegemonia na direção do partido.

Ainda que você não engula essas alianças que qualifica de “espúrias”, sugiro que prossiga no partido e vote em seus candidatos ou nos candidatos da coligação. Mas exija deles compromissos públicos. Lute, expresse sua opinião, faça o seu protesto, revele sua indignação. Não se sujeite à condição de vaca de presépio ou peça de rebanho.

Se sua consciência o exigir, se insiste, como diz, em preservar sua “coerência ideológica”, então busque outro caminho. Nenhum ser humano deve trair a si próprio. Quando o faz, perde o respeito a si mesmo, como o professor de “O anjo azul”. Mas lembre-se de que uma esquerda fragmentada só favorece o fortalecimento da direita.

A história não tem donos. Muito menos os processos libertadores. Tem, sim, protagonistas que não se deixam seduzir pelas benesses do inimigo, cooptar por mordomias, corromper-se por dinheiro ou função. Nunca confunda alianças táticas com as estratégicas. Ajude o PT a recuperar sua credibilidade ética e a voltar a ser expressão política dos movimentos sociais que congregam os mais pobres e as bandeiras que exigem reformas estruturais no Brasil.

Lembre-se: para fazer a omelete é preciso quebrar os ovos. Mas não se exige sujar as mãos.

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org – twitter – @freibetto

Fonte: Página 13