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outubro 30, 2010

A direita no Brasil não é civilizada, segundo Rodrigo Vianna

PICICA: Segundo Zefofinho de Ogum, o poeta que para melhor declamar versos usa um bongô como marcador de ritmo: "A direita brasileira, não só não é civilizada, como ela trava o debate. Há uma abissal diferença entre 'travar debate' e 'travar o debate'".
Política| 07/10/2010 | Copyleft

O círculo da direita se fecha: teocracia, censura nas redações, ideologia do medo

É evidente que essa temática religiosa não é o que interessa para o Brasil. Mas se Serra escolheu o obscurantismo, é preciso mostrar isso à população. A esquerda, tantas e tantas vezes, foge dos enfrentamentos. Acho que desse enfrentamento não deveria fugir. Ciro Gomes disse -de forma muito apropriada - que o discurso de Serra é o caminho para um regime teocrático. O Brasil precisa que se faça esse debate.Do lado de Serra, certamente ficará muita gente. Mas tenho certeza que do outro lado ficará o que há de civilizado nesse nosso país. Há espaço para uma centro-direita civilizada no Brasil. Mas essa direita que avança com Serra não merece respeito. Merece ser combatida. O artigo é de Rodrigo Vianna.

Texto publicado originalmente no blog Escrevinhador, de Rodrigo Vianna

Com a generosa ajuda da velha mídia brasileira, e uma mãozinha da candidatura de Marina Silva, Serra conseguiu pautar a reta final do primeiro turno e o inicio do segundo turno com uma temática religiosa.

É um atraso gigantesco para o Brasil.

Parte dos apoiadores de Dilma acha que a campanha do PT deve fugir desse debate, recolher apoios de evangélicos e católicos, e rapidamente mudar de assunto.

Penso um pouco diferente.

É evidente que essa temática religiosa não é o que interessa para o Brasil. Mas se Serra escolheu o obscurantismo, é preciso mostrar isso à população. A esquerda, tantas e tantas vezes, foge dos enfrentamentos. Acho que desse enfrentamento não deveria fugir.

Por que ninguém do PT é capaz de dar uma resposta a Serra, deixando a Ciro Gomes a tarefa de pendurar o guiso no gato? Ciro disse -de forma muito apropriada - que o discurso de Serra é o caminho para um regime teocrático. Vejam:

(Ciro Gomes) “Por que o PSDB, que nasceu para ajudar a modernidade do País, resolveu agora advogar o Estado teocrático? O Serra tem de dizer que, na República que ele advoga, primeiro falam os aiatolás, e aí os políticos resolvem o que os aiatolás querem que seja feito.”

O Brasil, agora digo eu, precisa que se faça esse debate.

O Brasil precisa, também, comparar os resultados econômicos e sociais de FHC e Lula. Mas precisa de politização, precisa que se enfrente o pensamento conservador.

Essa é uma hora boa para desmascarar a intolerância religiosa.

Aliás, é preciso tomar cuidado ao associar “evangélicos”, apenas, a esse discurso intolerante. Não. Os ataques mais coordenados e mais perigosos partem da Igreja Católica.

É preciso – com muito cuidado e respeito pelos milhares de católicos e evangélicos que praticam a religião apenas para confortar suas almas, e para difundir o amor ao próximo – lembrar que já houve um tempo em que a religião mandava na política.

No Brasil Colonial, tivemos a Inquisição católica a prender, torturar e executar. A intolerância religiosa já matou muito – no mundo inteiro. Aprendemos isso na escola, ou deveríamos aprender (quem não se lembra da “Noite de São Bartolomeu”, na França, pode ler algo aqui).

Já que Serra quer travar esse debate, devemos pendurar o guiso no gato, e perguntar se o que ele quer é um Estado teocrático. É isso?

Do lado de Serra, certamente ficará muita gente. Mas tenho certeza que do outro lado ficará o que há de civilizado nesse nosso país.

Na Espanha, esse debate é travado nas eleições. O PP (partido conservador) tem uma parceria muito próxima com a Opus Dei e com o catolicismo mais reacionário. O PSOE (social-democrata) não tem medo de assumir a defesa de um Estado laico – respeitando as práticas religiosas.

O PSOE ganhou eleição prometendo união civil de homossexuais. A direita católica do PP realizou marchas com quase um milhão de pessoas, contra essa plataforma. Levou bispos e padres (de batina e tudo) para as ruas. O PP tentou intimidar o PSOE. O que fez a centro-esquerda? Travou o debate, resistiu, deu uma banana para o terrorismo religioso. E ganhou.

É preciso ter coragem.

O círculo da direita se fecha: ela tem as igrejas (algumas), ela tem a velha mídia, ela tem a prática da intolerância.

“A ideologia da direita é o medo”, já nos ensinava Simone de Beauvoir.

A intolerância e o medo é que levaram o “Estadão” (que, diga-se, abre espaços para a Opus Dei) a demitir Maria Rita Kehl por ter escrito um artigo que contraria a linha oficial de “somos Serra até a morte”.

Nas redações, não há espaço para dissenso. Quem levanta a cabeça tem a cabeça cortada.

“Folha” (que censura blogs), “Estadão” (que demite colunista), “Veja” (com seu esgoto jornalístico a céu aberto) e “Globo” (sob comando de Ali “não somos racistas” Kamel) são a armada a serviço desse contra-ataque conservador. Isso já está claro há muito tempo. Mas Lula parece ter minimizado essa articulação, e acreditado que enfrentaria tudo no gogó – sem politizar o debate. Não deu certo. É preciso enfrentamento, politização.

Esse é um combate que merecer ser travado. Para ganhar ou perder. E acho que temos toda chance de ganhar.

Até porque, se Serra ganhar com esse discurso de ódio, e com esses apoios (panfletos da TFP, reuniões no Clube Militar, pregação e intolerância religiosas), o país (empresários, trabalhadores, classe média) precisa saber que teremos uma nação conflagrada durante 4 anos.

Não dá pra fazer de conta que isso não está acontecendo.

Há espaço para uma centro-direita civilizada no Brasil? Claro. Mas essa direita que avança com Serra não merece respeito. Merece ser combatida, como fazem os espanhóis e como fez o Ciro Gomes.

Com coragem.

Fonte: Carta Maior

outubro 11, 2010

José Serra flerta com a extrema-direita. Cruzes!

Bessinha
O flerte de José Serra com a extrema-direita

A guinada à extrema-direita do candidato Serra José Serra (PSDB-DEM-PPS) preocupa todas as forças democráticas do país, independentemente da opção partidária. O  panfleto da Tradição Família e Propriedade – TFP, na reunião da coligação serrista é a ponta visível de um movimento que ficou mais cristalino a partir do momento em que Serra percebeu que, para ganhar e eleição, não bastaria posar de “novo Lula”; muito menos desenvolver debate saudável sobre projetos de governo.

No entanto, o início desta caminhada de Serra para o extremo direito do espectro político teve início quando o ex- ministro de FHC traçou as estratégias de campanha. Serra não conteve sua sede de poder ao permitir que fossem arregimentados os chamados trolls, que se enfronharam nas redes sociais como simpatizantes da sua candidatura, quando o real objetivo era difamar e provocar ativistas honestos e jornalistas imparciais.

Mas isso não foi o pior. Serra repercutiu em seu programa eleitoral o discurso do ódio anti-governo, anti-Lula e seus partidos aliados, que se espalhou em alguns segmentos preconceituosos da classe média, que multiplicaram spams difamatórios contra a candidata Dilma. Material tão ofensivo que merece uma investigação da Polícia Federal para se saber sua origem, tamanha a gravidade de seus conteúdos.

A situação atual é preocupante. O radicalismo da extrema-direita começa a esbarrar em agressões físicas para quem vota ou votou na candidata Dilma e coligação governista. Já começam a pipocar na rede depoimentos com este de Arnobio Rocha, que teve sua filha de 9 anos agredida na escola.

Para atestar os fatos, basta você declarar seu apoio ou simpatia por Dilma ou Lula numa rede ou roda social, e a resposta ser uma saraivada de impropérios, encaminhamentos dos spams caluniosos, ou mesmo uma patrulha implacável resumida na frase "você é esquerdista", para descredenciar os seus argumentos.

Para aqueles que não votam em Dilma, mas apreciam o debate saudável, basta se perguntar quantos e-mails caluniosos contra Serra são recebidos na própria caixa postal. A desproporção é a prova cabal de movimentos coordenados por algum grupo.
Nos últimos oito anos do governo Lula, o país viveu em harmonia, com os cidadãos e cidadãs expressando as opiniões em todos os níveis, de crenças religiosas às posições políticas, incluída nesse cenário a oposição raivosa e implacável da oposição.

Nos dois governos Lula, patrões dialogaram com funcionários, movimentos sociais expressaram suas posições, mesmo conflitantes; grandes jornais e redes de TV viveram liberdade de expressão plena, apesar de muitas vezes manipularem versões de fatos de acordo com seus interesses empresarias. Nunca ocorreu qualquer ingerência na sociedade civil; o saudável debate de idéias foi total, algo que vem sendo desprezado pelo ódio e a intolerância alimentados pela campanha de José Serra, que mais atira "gasolina na fogueira", com um evidente e desprezível falta de amor pela sociedade.

Isto é prejudicial a todos os brasileiros: aos que apóiam a candidata Dilma, mas também àqueles que, de forma honesta, votam no candidato José Serra; voto baseado na crença de sua capacidade de conduzir o Brasil, e não por revanchismo ou intolerância.

A NovaE, seus editores e colaboradores continuam de prontidão para combater com palavras, dados e opiniões os extremismos, à direita e à esquerda, pela simples razão de não fazerem bem ao país e aos cidadãos.

Manoel Fernandes Neto - Editor da NovaE.

Fonte: NovaE

setembro 01, 2010

As várias direitas e seus planos

Nota do blog: Considero o debate interno entre as diversas forças políticas que fazem parte do PT um dos elementos mais importantes da cultura política do próprio partido e da história recente da república. Os frutos desse debate quando vem a público, nos auxilia a entender o que muitas vezes é omitido pela mídia que trata a informação como mercadoria. Este blog, graças à gentileza do companheiro José Barroncas, advogado, militante histórico do partido no Amazonas, tem recebido e postado as rigorosas análises de conjuntura de um dos mais respeitados líderes que compõe a direção nacional do PT. Se algum outro companheiro for tomado por mortal ciúme, não deixe esse sentimento prosperar. Reivindique espaço para a sua "tendência", fique à vontade, faça como o intrépido José Barroncas, mande os textos de seus lídimos representantes. Terei a honra de postá-los. Nada melhor do que um belo e apaixonado debate. Estas páginas eletrônicas estão abertas. Usem e abusem. Fiquem agora com o texto de Valter Pomar, publicado no Página 13.

As várias direitas e seus planos 

Valter Pomar*

Pesquisa gorda, guarda baixa: assim foi noutros momentos, como em 2006, onde um erro político prejudicou nosso desempenho na eleição parlamentar e jogou a disputa presidencial para o segundo turno, além de afetar negativamente algumas campanhas estaduais.
 

Portanto, manda o bom senso que, ao mesmo tempo em que exploramos com força a possibilidade
de uma vitória já no dia 3 de outubro, mantenhamos o ceticismo, além de ficarmos alertas para as operações especiais de que a oposição de direita é reconhecidamente capaz.


Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que há várias maneiras de ganhar e de perder. Logo, se não operarmos corretamente, podemos ganhar a eleição e ter muitas dificuldades no governo. Dificuldade que compartilhamos com vários de nossos hermanos continentais.


Desde 1998 até 2009, candidaturas progressistas e de esquerda ganharam a maior parte das eleições presidenciais ocorridas na América Latina. As exceções mais importantes foram o Peru (onde quase ganhamos), o México (onde fraudaram o resultado) e a Colômbia (onde o conflito militar prejudicou o Pólo Democrático Alternativo).



Desde 2009, a direita vem tentando recuperar os espaços perdidos. Apesar dos esforços, o resultado deste contraataque ainda é magro: ganharam no Panamá e no Chile, onde havia governos de centro-esquerda moderados; e ganharam na Colômbia, que eles já governavam.

Mas perderam no Uruguai, na Bolívia, no Equador. E vão perder na Venezuela (eleições legislativas em setembro) e no Brasil (eleições presidenciais em outubro).


Diante das dificuldades eleitorais, a direita latino-americana (e brasileira) opera planos alternativos.
 

O “plano b” nós vimos em Honduras: trata-se do tradicional golpe de Estado. Volta e meia eles ameaçam fazer isto na Guatemala e no Paraguai, que são considerados “elos fracos” da rede de governos
progressistas.
 

Como a sustentabilidade destes golpes depende de retaguarda militar, a direita latino-americana vê com simpatia a conduta dos Estados Unidos, que estimula o conflito na Colômbia, expande suas bases na região (quase 40) e reativa a IV Frota, que não por coincidência vai operar na região do pré-sal brasileiro.
 

Já o “plano c” da direita é mais sutil: trata-se de garantir que a esquerda não consiga implementar seu programa; nem consiga passar da condição de governo, para a condição de poder.

No caso do Brasil, a oposição de direita conta com dois importantes aliados para executar este plano: por um lado, os setores moderados da nossa coligação; por outro lado, o grande capital em geral.
 

Aliás, é bom lembrar: o grande capital tolera o nosso governo, pois como diz o próprio presidente Lula, nunca na história deste país os ricos ganharam tanto. Mas este mesmo grande capital não aprecia
políticas de distribuição de renda e faz oposição aberta a reformas estruturais de tipo democrático-popular.
 

Quando observamos o confronto eleitoral de 2010, isto fica claro: Serra expressa uma aliança entre neoliberais e desenvolvimentistas conservadores; já Dilma tem na sua campanha as forças democrático-populares, mas também tem ao seu lado desenvolvimentistas conservadores. Portanto, a ideologia desenvolvimentista conservadora e o grande capital, como força político-social, estão presentes
nas duas campanhas.


Neste sentido, o mais exato é dizer que o Brasil tem uma direita social (os grandes empresários, interessados na manutenção das estruturas sociais de exploração e dominação), que se manifesta politicamente
de diferentes formas: através da oposição de direita (PSDB-DEM-PPS), através dos setores governistas de centro-direita e inclusive através de aliados nos partidos de centro e esquerda (Marina e Palocci, por
exemplo).
 

Para a direita social, para o grande capital, melhor seria que o atual e a futura presidente da República não fossem filiados ao PT. Mas como a oposição de direita está mal das pernas, a direita social faz um movimento de pinça: por um lado, tenta esterilizar programaticamente a vitória de Dilma; por outro lado, trabalha para fortalecer os setores mais moderados da coligação. O PMDB, por exemplo, tem sido apontado como contraponto, dentro do governo, ao PT; e como cavalo de uma futura candidatura presidencial alternativa ao petismo, em 2014.
 

Para além destes movimentos táticos, a direita social opera para seguir controlando a maioria parlamentar, o judiciário, as forças armadas, a burocracia de Estado, os meios econômicos e a comunicação de massa. Por isto, a maior parte da direita se opõe ou pelo menos desconfia da proposta de uma Constituinte, mecanismo utilizado noutros países para reformar e democratizar o Estado.

Também por isso, a incrível pressão feita sobre o PT e sobre a campanha Dilma, para que aceitemos o controle monopolista dos meios de comunicação como um dado da natureza; e para que confundamos
liberdade de imprensa, com liberdade de empresa.



Há quem pense que este tema perdeu importância. Afinal, elegemos Lula e vamos eleger Dilma, apesar do monopólio. Isto é verdade; mas também é verdade que nossos feitos administrativos são maiores do que os
eleitorais; nosso acúmulo eleitoral é maior do que nosso acúmulo político; nossa força política é maior do que nosso acúmulo ideológico. Ou seja, o monopólio da comunicação serve para frear, limitar, retardar, o crescimento geral da esquerda. O que não impede vitórias eleitorais, mas torna muito mais difícil realizar mudanças mais profundas.


Os partidos de esquerda, as lutas sociais, os movimentos, são fundamentais para que a esquerda saia da condição de governo e passe para a condição de poder. Por exemplo, sem luta político-social, não
vai ocorrer reforma política democrática, nem reforma tributária progressiva. Sabendo disto, a direita adota a mesma tática em todos os países do continente: criminalizar os movimentos sociais e desconstituir os
partidos de esquerda.


Ou seja: tratam como ilegítimo e ilegal o fato dos setores populares se organizarem, de forma independente, para mudar as leis, influenciar governos e mudar o conteúdo social do Estado.
 

Para a direita, lobby é bom, luta político-social é mal.

Se a direita tiver sucesso na criminalização dos movimentos socias e na desconstituição dos partidos de esquerda, ou pelo menos conseguir criar um ambiente que dificulte a organização e a luta social, eles terão dado um passo muito importante para, mesmo perdendo eleições, continuarem mandando e
desmandando em nossos países.
 

Também por isto é tão importante eleger Dilma, sem perder de vista que as contradições da coligação e seus limites programáticos obrigam os partidos e movimentos de esquerda a manter forte pressão em favor
das reformas democrático-populares.


*Valter Pomar é membro do Diretório Nacional do PT


Leia o Página 13 em pdf.