outubro 30, 2012

"Barões da mídia já temem o monstro que criaram no STF", por Marcus Vinicius

PICICA: "Começa assim o editorial “Para quem precisa”, publicado no dia 25/10 na Folha: “Penas de prisão deveriam, em tese, caber a criminosos violentos, para os demais, como no mensalão, conviriam severas penas alternativas”. Mas à frente, novo alerta: “As punições hão de ser drásticas, e seu efeito, exemplar, mas sem a predisposição vingadora que parece governar certas decisões (e equívocos) do ministro Joaquim Barbosa”.

Na mesma linha, e o dia seguinte (26/10), matéria do Valor, com o título “Pena de Valério é maior que de Chico Picadinho”, alerta o Supremo Tribunal Federal para os exageros cometidos no julgamento do “mensalão”, ressaltando que a punição ao publicitário Marcos Valério equivale àquelas de criminosos que cometeram crimes hediondos como “Suzane von Richthofen, condenada a 39 anos de prisão por planejar o assassinato de seus pais a pauladas em 2002, enquanto dormiam, e do famigerado Chico Picadinho, condenado a 30 anos de prisão pelo homicídio e esquartejamento de duas mulheres nas décadas de 60 e 70”.

Finalmente, em O Globo 27/10, Merval Pereira, escreve em sua coluna o artigo: “O Voluntarismo de Barbosa” ( http://migre.me/bnkL8 ), em que critica a sanha condenatória do ministro.  “Quando ele (Barbosa) critica nosso sistema penal e se põe claramente a favor de penas mais duras, dá margem a que acusados vejam nele um carrasco e não um juiz”." 

Barões da mídia já temem o monstro que criaram no STF




Como as duras punições e as rigorosas investigações podem queimar aqueles que colocam lenha na fogueira

Por Marcus Vinicius, em seu blog

As elites já temem efeito no ordenamento jurídico do país dos excessos no julgamento da Ação 470. Não é para menos. O rol de barbaridades cometidas com a nossa Constituição põe a perigo garantias individuais. E a principal vítima, foi princípio da “presunção da inocência”. Agora, perante o STF, são todos culpados, sem provas em contrário.

Talvez seja por isso que os barões da mídia, através da Folha de São Paulo, Valor Econômico e O Globo, começaram a reconhecer excessos cometidos pelo seu “herói”, o ministro Joaquim Barbosa, na dosimetria das penas dos réus do dito “mensalão petista”  (outros, mensalões, como o do PSDB e o do DEM um dia, quem sabe, podem baixar naquela Corte).

Começa assim o editorial “Para quem precisa”, publicado no dia 25/10 na Folha: “Penas de prisão deveriam, em tese, caber a criminosos violentos, para os demais, como no mensalão, conviriam severas penas alternativas”. Mas à frente, novo alerta: “As punições hão de ser drásticas, e seu efeito, exemplar, mas sem a predisposição vingadora que parece governar certas decisões (e equívocos) do ministro Joaquim Barbosa”.

Na mesma linha, e o dia seguinte (26/10), matéria do Valor, com o título “Pena de Valério é maior que de Chico Picadinho”, alerta o Supremo Tribunal Federal para os exageros cometidos no julgamento do “mensalão”, ressaltando que a punição ao publicitário Marcos Valério equivale àquelas de criminosos que cometeram crimes hediondos como “Suzane von Richthofen, condenada a 39 anos de prisão por planejar o assassinato de seus pais a pauladas em 2002, enquanto dormiam, e do famigerado Chico Picadinho, condenado a 30 anos de prisão pelo homicídio e esquartejamento de duas mulheres nas décadas de 60 e 70”.

Finalmente, em O Globo 27/10, Merval Pereira, escreve em sua coluna o artigo: “O Voluntarismo de Barbosa” ( http://migre.me/bnkL8 ), em que critica a sanha condenatória do ministro.  “Quando ele (Barbosa) critica nosso sistema penal e se põe claramente a favor de penas mais duras, dá margem a que acusados vejam nele um carrasco e não um juiz”.

Ficção e realidade

Um dos diálogos que compõe uma das cenas do filme “A Casa dos Espíritos”, de Isabel Allende, expõe parte do temor das elites, de perda do controle sobre os verdugos.  Na cena o ator Jeromy Irons interpreta o senador Esteban Trueba. A conversa se dá na sede do Ministério da Justiça, entre Esteban e um coronel nos primeiros dias da ditadura de Augusto Pinochet. Esteban é um rico proprietário de terras, senador pelo Partido Conservador, ele apoiou o golpe, mas foi supreendido com a prisão da filha, Blanca Trueba (Winona Ryder), por seu romance com o líder de esquerda, Pedro Segundo (Antônio Banderas).

Por que minha filha foi presa ontem a noite?
-       Responda! Onde está minha filha?
-       Dê-me a chave do seu carro.
-       Fechamos o Congresso. Fim dos privilégios dos congressistas.
-       Vocês estão todos loucos!
-       Quem acha que estabeleceu contatos com seus generais?
-       Quem estabeleceu o elo com os americanos?
-       Que dinheiro e reputação garantiu armas para vocês?
-       Sabe quem sou eu?
-       E você prende minha filha… e quer confiscar o meu carro?
-       Quero falar com o ministro.
-       Fale comigo.
-       O ministro!
-       Não há mais ministro!
-       Agora você fala comigo.
-       Entendeu?
-       Quer encontrar sua filha?
-       Preencha o formulário.
-       Você e seus amigos ainda têm o poder econômico.
-       Mas nós governamos o país.
-       Agora… dê-me a chave do carro.






As elites do Chile que apoiaram o golpe contra o presidente Salvador Allende em 11 de setembro de 1973 talvez não acreditassem que o regime de Pinochet fizesse da brutalidade sua regra de governo. Números oficiais dão conta de 60 mil vítimas do regime, sendo 3.227 mortos. No Brasil as elites abriram a caixa de Pandora nove anos antes, em 1964.  As consequências ainda estão em discussão através da Comissão da Verdade. A tortura ainda persiste como regra em nosso sistema policial e os números da violência em São Paulo demonstraram a falência da Polícia Militar (outra herança da ditadura), no combate à criminalidade.

Mas, tal e qual o persongem Esteban Trueba, do romance de Isabel Allende, o que espanta mesmo as elites é a possibilidade de que um de seus filhos seja vítima do monstro que soltaram nas ruas para reprimir a plebe.

Já pensou o STF pega gosto, e com apoio da opinião publica, engata uma quinta marcha e faz os personagens da “Lista de Furnas”,  aqueles citados  no livro “Privataria Tucana”, de Amaury Júnior, e também os envolvidos no “Mensalão do PSDB” e no “Mensalão do DEM”, passarem uma temporada no xilindró?

Fonte: OUTRAS MÍDIAS

"A ascensão acadêmica do pensamento crítico", de MATTEO PASQUINELLI

PICICA: "A pós-autonomia, como vem sendo chamada, não é um animal histórico pronto para a taxidermia, mas sim um movimento de pensamento vivo que desloca as barricadas para dentro das universidades: encarna-se, por exemplo, nas mobilizações de inverno nas universidades europeias. Às novas gerações de acadêmicos que estão prontas para canonizar o pensamento italiano deveria ser entregue nas mãos o tição ardente da máxima trontiana: o conhecimento está ligado à luta, conhece verdadeiramente quem verdadeiramente odeia." 

A ascensão acadêmica do pensamento crítico


de MATTEO PASQUINELLI


Por uma bizarra nêmese não totalmente casual, no momento de máxima crise do império universitário anglo-americano, de Londres à Califórnia, é a filosofia política italiana que “hegemoniza” os seus departamentos. De Toni Negri a Paolo Virno, de Christin Marazzi a Sandro Mezzadra, de Maurizio Lazzarato a Franco Berardi, basta olhar os nomes que aparecem nos primeiros lugares das publicações acadêmicas australianas (filtrados pelos impassíveis algoritmos do Google Scholar) ou nos catálogos das bienais alemãs (por obra dos mais mundanos críticos de arte) para entender como a repressão da anomalia italiana produziu, em contrapartida, uma fértil diáspora teórica.

Sob o rótulo de Italian Theory, organizam-se hoje conferências, seminários e publicações sobre esses pensadores que, nas últimas décadas, reabilitaram o operaísmo italiano para além do oceano ou marcaram o retorno das categorias do biopolítico (comGiorgio Agamben e Roberto Esposito) nesses ambientes universitários anglófonos narcotizados pela revolução laica dos cultural studies, pela filosofia pós-moderna e pela tradição analítica.

Só em 2010, veja-se a conferência da universidade de Pittsburgh para os dez anos da publicação de Império de Hardt e Negri, ou o simpósio na Cornell University de Nova York sobre o conceito de comum. Em Amsterdã, no próximo dia 19 de maio, ocorrerá a conferência Pós-Autonomia, sobre a disseminação do pensamento operaísta entre as novas gerações de estudiosos (financiada por uma generosa bolsa pública).

Mas se trata obviamente de uma nêmese de duas faces, se a crítica ao capitalismo cognitivo, a noção de multidão e a figura do trabalhador precário são recuperados pelos sistemas acadêmicos para mudar a teoria de lado sem colocar em discussão hierarquias e disciplinas, quando os seus autores sempre viveram às margens e não podem mais colocar o pé na academia italiana.

Genealogia do materialismo antagonista

O nome Italian Theory indica por si só uma recepção anglófona e é a tradução literal do rótulo anterior de French Theory, com o qual o pós-estruturalismo francês foi absorvido e neutralizado (de autores da ontologia como Foucault, Deleuze e Guattari a aerolitos da espécie de Baudrillard).

A primeira brecha dentro da academia norte-americana, porém, deve ser remontada à publicação de Radical Thought in Italy por parte de Michael Hardt e Paolo Virnoem 1996, preparada com antecipação pela antologia Autonomia: Post Political Politics, organizada por Lotringer e Marazzi em colaboração com o comitê “7 de abril” no distante 1980, quando Nova York ainda misturava grafites de Basquiat e teoria underground. Mas, para além dos equilibrismos acadêmicos, a passagem daFrench Theory para a Italian Theory tem suas motivações históricas.

No panfleto La differenza italiana (2005), Negri lembra como o pensamento pós-moderno fez saltar as categorias hegelianas, burguesas e patriarcais, do moderno, mas deixando um horizonte de diferenças ambivalentes e indecidíveis. Nos anos anteriores, já cabia ao operaísmo de Tronti e ao feminismo de Luisa Muraro, escreve Negri, levar a polarização das lutas sociais para a “ontologia italiana” do século XX. Assumindo a intuição separatista e irredutível dos mestres, Negri reivindica para o operaísmo o projeto de uma ontologia constituinte, retomando o fio do discurso onde o pensamento francês havia deixado desejo e micropolítica.

O texto de Negri fornece o título também à antologia The Italian Difference: Between Nihilism and Biopolitics (2009), um panorama que se coloca ao lado da tradição constituinte as do niilismo de Massimo Cacciari e da biopolítica de Giorgio Agamben. Seguindo esse traço, mais recentemente, Roberto Esposito, no seuPensiero vivente. Origine e attualità della filosofia italiana (publicado pela editora Einaudi e percebido como o breviário da Italian Theory antes ainda de ser traduzido em inglês), descreveu a cifra da tradição italiana no seu ser antagonista ao poder, coerência paga a caro preço por Bruno até Gramsci.

Esse sínolo de tumulto e de práxis instituinte, essa imanência do antagonismo, é traçada por Roberto Esposito em uma história ideal que, de Tronti, remonta atéMaquiavel. Materialismo antagonista que é estetizado na Batalha de Anghiari deLeonardo, figura da Luta que funde o homem e o animal como no centauro maquiavélico.

Esposito contextualiza a emergência da “diferença italiana” com a crise daquelas escolas europeias que se fundaram sobre o primado da linguagem: a filosofia analítica inglesa, a hermenêutica alemã e o desconstrucionismo francês. Fora dos recintos acadêmicos, essa crise foi talvez melhor exercida pela pressão das novas formas do trabalho. Do fragmento sobre as máquinas nos Grundrisse de Karl Marx ao conceito de capitalismo cognitivo, de fato, o pensamento operaísta jamais considerou a linguagem como “casa do ser”, mas, ao contrário, como meio de produção no centro do trabalho contemporâneo.

O principal motivo pelo qual, do outro lado do oceano, se adota a Italian Theory é justamente por ela ser uma das poucas leituras antagônicas e não logocêntricas dos grandes aparatos da “economia do conhecimento”, do trabalho imaterial e da network society (como ainda em 1999 o canadense Nick Dyer-Witheford notava no seu livroCyber-Marx).

À reviravolta linguística da economia política (marxista e neoliberal), jamais correspondeu uma reviravolta econômico-política da filosofia da linguagem. Nisso pode-se compreender talvez a operação filosófica de Virno nos últimos anos: ao invés de forçar os bastiões da filosofia analítica a partir de fora, ele procurou as chaves para abri-los à política do lado de dentro.

De modo semelhante, justamente no interior da escola analítica e procurando separar-se da herança de Alain Badiou, o grupo de jovens filósofos da corrente Speculative Realism (que se reúne em torno à revista inglesa Collapse) se esforça hoje a alcançar as margens do materialismo continental por via negativa, mas empregando centenas de páginas de Kant para igualar aquele conceito de conatus pelo qual, a Spinoza, bastouuma proposição da Ética.

Ideologia do realismo capitalista

O mundo acadêmico norte-europeu encontra-se ainda dominado por uma outra escola logocêntrica esquecida por Esposito, a psicanálise lacaniana de rito esloveno, que vê justamente o capitalismo simplesmente como um efeito de realidade ideologicamente mediado. O pêndulo hipnótico de Slavoj Zizek não deixa saída e recita mais ou menos assim: a ideologia não algo de consciente e abstrato: por exemplo, todas as vezes que acreditamos que a economia é um fato empírico e natural, é justamente ali que a ideologia intervém.

Essa leitura é aplicada com a mesma generosidade tanto pelo economista burguês quanto pelo marxista, este também responsável pelo excessivo economicismo (como Badiou gosta de destacar). Para essa escola de pensamento, o problema se chama aqui, portanto, de “Realismo Capitalista” (para citar o título de um recente livro de Mark Fisher), e o compromisso político se resolve no exercício psicanalítico de levantar o véu de maia da ideologia cotidiana.

Contra o pecado da “paixão pelo real” do pensamento italiano, Zizek descreve o ativismo exatamente como o desejo lacaniano: não ligado ao hic et nunc, mas como sinal que remete sempre para outro lugar. O comportamento econômico se descreve portanto como uma linguagem, o imaginário político torna-se uma gramática manipulável, a militância é sempre pré-determinada por uma “ordem simbólica” em uma grade de papéis.

Como para Badiou, Zizek é apresentado como marxista com o consenso de todo o mundo: mas o seu é um “marxismo sem Marx”, enquanto a crítica de uma economia política é relegada ao papel de simulacro da ideologia. Em tudo isso, não nos admira que Zizek confunda a filosofia com a crítica cinematográfica. O seu não é tanto um “Comunismo Metafísico” que não se sujaria as mãos com as lutas reais, como frequentemente se faz notar. Talvez, trata-se mais simplesmente de um “Comunismo Avatar”. E não é casual que a segunda edição da conferência Idea of Communism organizada por Zizek e Badiou em Berlim em 2010 fosse dedicada principalmente às produções teatrais sobre o tema.

Mas se o pensamento italiano foi “para a escola” nas lutas dos anos 1960 e 1970, qual foi o ginásio histórico desse peculiar paradigma teórico? A insistente leitura de Zizek sobre o neoliberalismo como o aparato ideológico não se forma paradoxalmente sobre oConsenso de Washington, mas sim sobre os tempos do realismo socialista.

Assim como a Escola de Frankfurt adotou o aparato de propaganda nazista como tradução para descrever a indústria cultural norte-americana, de modo similar, Zizekemprega contra o pensamento único neoliberal os instrumentos conceituais desenvolvidos sob a ideologia da cortina de ferro e os seus aparatos. No fundo, aquela era a forma do conflito percebida, vivida e sofrida no cotidiano da ex-Iugoslávia, ideológica justamente, mas provavelmente não adaptada hoje para descrever o capitalismo, biopolítico ou não.

Crise global da economia

Essa interpretação do político como problema ideológico produz contínuas recaídas. Alinhando-se à vulgata lacaniana, o recente encontro de Amsterdã The Populist Front, dedicado à análise crítica dos populismos contemporâneos, do Tea Party ao holandês Geert Wilders, passando obviamente pela Itália, parece perigosamente sugerir aos movimentos e aos partidos de esquerda que se arrisquem na invenção do inimigo para sair de sua própria crise.

Reivindicam-se aqui tecnologias mitopoiéticas semelhantes às que os líderes populistas europeus usam na construção das fobias de massa, mas parece ser um pouco histórica a necessidade de se dotar de um “inimigo imaginário”, justamente no momento em que o norte e o sul são atravessados por novos movimentos sociais.

Ao desvio “populista” da intelligentzia holandesa e a esse ponto irresolvido do imaginário político no debate filosófico, a Scuola Europea di Immaginazione Sociale que Berardi Bifo está organizando para o próximo dia 21 de maio, em San Marino, parece responder à distância.

Não é suficiente aqui o espaço para lembrar os encontros, mais prolíficos, da Italian Theory com outras áreas geofilosóficas: dos estudos pós-coloniais à teoria queer, da cultura da rede ao diálogo com as disciplinas do direito. A inovação teórica continua autonomamente na rede das “universidades nômades” entre a França e a Itália, aEspanha e o Brasil. Vejam-se os seminários sobre o comum de Turim (www.uninomade.org) e Paris (www.dupublicaucommun.com). Citando um belo artigo deBrett Nielson, de 2005, é tempo de “provincializar o operaísmo”.

A pós-autonomia, como vem sendo chamada, não é um animal histórico pronto para a taxidermia, mas sim um movimento de pensamento vivo que desloca as barricadas para dentro das universidades: encarna-se, por exemplo, nas mobilizações de inverno nas universidades europeias. Às novas gerações de acadêmicos que estão prontas para canonizar o pensamento italiano deveria ser entregue nas mãos o tição ardente da máxima trontiana: o conhecimento está ligado à luta, conhece verdadeiramente quem verdadeiramente odeia.

É principalmente aqui, na própria definição de conhecimento, que a Italian Theory mostra o seu núcleo inovador e irredutível: fazer teoria significa ainda hoje pôr o problema da conricerca [ou "compesquisa", ou seja, metodologia de pesquisa comum entre intelectuais e operários], da filosofia do não filosófico (ou seja, do político), significa a superação das disciplinas humboldtianas e dos Studies anglo-americanos, a supressão da hierarquia entre objeto e sujeito da investigação, significa crítica do “conhecimento processual” e da peer-review, significa mostrar o papel da dívida da vida estudantil e colocar em questão, por fim, aquela Ikea da formação que é o Bologna Process.

“Conricerca” significa hoje repensar, até dentro da universidade, o nó entre práxis e teoria na época da crise financeira. Não é, exatamente, um acaso o fato de que é a escola de pensamento que estudou de perto o capitalismo cognitivo que emerge no momento de crise da edu-factory global.

Matteo Pasquinelli, Berlin (matteopasquinelli.org)

A tradução é de Moisés Sbardelotto (www.ihu.unisinos.br)



Published on Il manifesto on April 13, 2011 and titled
“L’ascesa in cattedra di un pensiero critico”. PDF file
of the article can be downloaded here.

Fonte: UniNOMADE 2.0

Cinema: Django Livre

- Por omelete

Django Livre | Trailer 3 Legendado

http://omelete.uol.com.br - Django Livre (Django Unchained), o faroeste sulista de Quentin Tarantino, ganhou um novo trailer.

Na trama, ambientada no sul dos Estados Unidos dois anos antes da Guerra Civil, Django (Jamie Foxx) é um escravo cujo histórico brutal com seus ex-senhores o coloca cara a cara com o caçador de recompensas alemão, Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Os dois passam a caçar criminosos pelo sul dos EUA e vão ao resgate de Broomhilda (Kerry Washington), esposa de Django perdida para o tráfico de escravos. A busca acaba levando-os até Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), o proprietário de "Candyland", uma fazenda abominável onde os escravos são preparados pelo treinador Ace Woody para lutarem entre si por esporte.

Samuel L. Jackson, Anthony LaPaglia, Laura Cayouette, Dennis Christopher, Michael K. Williams, Don Johnson, Gerald McRaney, Todd Allen, o rapper RZA e a atriz Misty Upham também estão no elenco. Recentemente, o filme perdeu as participações de Kurt Russell e Sacha Baron Cohen. Ainda não foi anunciado um substituto para o papel de Cohen, já o personagem de Russell foi eliminado, passando a função de treinador de escravos para outro, vivido por Walton Goggins (ampliando consideravelmente a participação do ator).

A Weinstein Company distribuirá Django Livre nos EUA e a Sony Pictures no resto do mundo. O filme estreia em 25 de dezembro nos EUA e em 18 de janeiro no Brasil.

Leia mais sobre Django Livre - http://omelete.uol.com.br/django-unchained/cinema/django-livre-tem-novo-trailer/

"Militarização das favelas no Rio: um caminho para a paz?" (desINFORMÉMONOS)

PICICA: “É como se nós favelados não reconhecêssemos outra autoridade senão a imposta pelo poder bélico”

Militarização das favelas no Rio: um caminho para a paz?

Os operativos militares para “pacificar” as favelas do Rio que antecedem a Copa e as Olimpíadas são polêmicos. Aqui estão dois pontos de vista, o de um geógrafo, morador de uma das favelas na rota das UPPs e estudioso sobre o tema, e o da Rede de Comunidades e Movimento contra a Violência, composta majoritariamente por familiares de vítimas da violência policial do Rio de Janeiro.

Militarização de Manguinhos, RJ (foto: EBC)

Leer Texto Completo

Brasil. Polícias Civil, Militar, Federal, Rodoviária Federal, fuzileiros navais, Batalhões de Operações Policiais Especiais (BOPE), batalhão de Choque e de Ação com Cães e Grupamento Aéreo Marítimo. O ostensivo aparato militar teve como foco duas favelas na cidade do Rio de Janeiro: Jacarezinho e Manguinhos. Antes das 5h do dia 14 de outubro, os mais de mil homens ocuparam em 20 minutos o complexo das duas comunidades, com cerca de 36 e 38 mil moradores, respectivamente. De acordo com balanço da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, em operações que antecederam a ocupação a PM deteve 33 suspeitos e apreendeu algumas armas. No dia 14, no entanto, praticamente os únicos dados que apareceram como saldo da ocupação foram 104 usuários de crack, internados contra a vontade em clínicas não identificadas.

A justificativa do governo para tal operação? Por mais irônico que pareça, a “pacificação”. Esse é o procedimento padrão nas favelas cariocas antes da instalação das Unidades Polícia Pacificadora (UPP), em execução desde 2008 e que já ocupou 28 comunidades.

A seguir trazemos o debate que existe em torno das UPPs por meio de dois pontos de vista. O de Francisco Marcelo da Silva, geógrafo e morador da favela da Maré, uma das maiores do Rio de Janeiro e que está na lista das comunidades a serem “pacificadas” e o da Rede de Comunidades e Movimento contra a Violência, formado por familiares de vítimas da violência policial e que atua em inúmeras comunidades onde foram instaladas as UPPs. 

UPPs: A velha repressão policial de cara nova
Entrevista de Joana Moncau a Rede de Comunidades e Movimento contra a Violência do Rio de Janeiro


“É como se nós favelados não reconhecêssemos outra autoridade senão a imposta pelo poder bélico”
Entrevista de Joana Moncau a Francisco Marcelo da Silva.


Fonte: desINFORMÉMONOS

outubro 29, 2012

"Cultura Digital, janela para a pós-massificação?", por Jéferson Assumção

PICICA: "Diferentemente do homem-massa delineado por Ortega na década de 30 do século XX, os seres humanos atuais, do ponto de vista tecnológico, têm abundantes condições de viver numa multidimensionalidade da cultura. Há mais acesso à diversidade cultural e às condições de se fazer as recombinações de elementos, processos e visões de mundo, muito mais do que em qualquer outro momento da humanidade. Portanto, em se tratando de cultura, essa palavra cujo sentido em muito tem a ver com modos de fazer, de técnicas e interação de indivíduos entre si e destes com a natureza, uma cultura ligada ao ambiente digital não pode ser desconsiderada numa leitura mais plena de nosso tempo.

A cultura digital e seus rebatimentos estéticos (diversidade cultural e recombinações), éticos (ética do compartilhamento) e políticos (ação cidadã em rede, descentralizada e com menos mediação de estruturas verticais) são, em termos mais amplos, um importante tema de nuestro tiempo. Não se trata mais da perda da aura da arte na época de sua reprodutibilidade técnica – como assinalava Walter Benjamin – mas, devido à desmaterialização dos suportes ocorrida nas últimas décadas, trata-se da perda da aura da obra de arte na época de sua infinita reprodutibilidade técnica. Há mais condições de heterogeneidade, diversidade, inter e transculturalidade, portanto mais condições (e responsabilidades) dos sujeitos contemporâneos fazerem a si próprios."

Cultura Digital, janela para a pós-massificação?


Pela primeira vez na história, é possível superar indivíduo e homem-massa, construindo o comum. Seria trágico desperdiçar tal oportunidade

Por Jéferson Assumção* | Imagem: Bansky



MAIS:
Este texto é o posfácio de Homem-massa: a filosofia de Ortega y Gasset e sua crítica à cultura massificada”, livro de Jéferson Assumção.

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Em 2020, o mundo deverá ter mais de 24 bilhões de dispositivos conectados em rede, como apontam pesquisas da empresa Machina Research, especializada no tema. Com isso, haverá uma média de três aparelhos conectados por pessoa, incluindo celulares, eletrodomésticos, tablets e até computadores. Eles poderão ser utilizados heteronomamente. Ou de modo um pouco mais autônomo. Se de maneira heterônoma, continuarão gerando massificação, mesmo que venha a ser um tipo customizado de massificação. Se de forma mais autônoma, poderemos ver a emergência de indivíduos-redes desmassificados?

Certamente que os atuais avanços da era digital podem, se bem aproveitados, gerar um ambiente menos favorável à homogeneização cultural e à vigência do comportamento do que Ortega chamou de homem-massa – este produto da técnica da era industrial que se desenvolveu na virada do século XIX para o século XX. Agora, em pleno século XXI, mais uma vez o desenvolvimento técnico vem trazer questões importantes para se pensar sobre como o ser humano se comporta em relação à tecnologia que ele mesmo desenvolve.

Diferentemente do homem-massa delineado por Ortega na década de 30 do século XX, os seres humanos atuais, do ponto de vista tecnológico, têm abundantes condições de viver numa multidimensionalidade da cultura. Há mais acesso à diversidade cultural e às condições de se fazer as recombinações de elementos, processos e visões de mundo, muito mais do que em qualquer outro momento da humanidade. Portanto, em se tratando de cultura, essa palavra cujo sentido em muito tem a ver com modos de fazer, de técnicas e interação de indivíduos entre si e destes com a natureza, uma cultura ligada ao ambiente digital não pode ser desconsiderada numa leitura mais plena de nosso tempo.

A cultura digital e seus rebatimentos estéticos (diversidade cultural e recombinações), éticos (ética do compartilhamento) e políticos (ação cidadã em rede, descentralizada e com menos mediação de estruturas verticais) são, em termos mais amplos, um importante tema de nuestro tiempo. Não se trata mais da perda da aura da arte na época de sua reprodutibilidade técnica – como assinalava Walter Benjamin – mas, devido à desmaterialização dos suportes ocorrida nas últimas décadas, trata-se da perda da aura da obra de arte na época de sua infinita reprodutibilidade técnica. Há mais condições de heterogeneidade, diversidade, inter e transculturalidade, portanto mais condições (e responsabilidades) dos sujeitos contemporâneos fazerem a si próprios.

Foram décadas de unidimensionalidade (O homem unidimensional, de Herbert Marcuse). Nelas, a sociedade industrial impunha quase que uma única dimensão da vida: uma racionalidade “tecnológica” (físico-matemática, para Ortega) de mão única. Ela dominava e oprimia por meio de aparatos de controle das consciências humanas, meios de entretenimento e comunicação de massa que hiperdimensionavam em todos a pulsão de vida (sexo, jogos, entretenimento) e a pulsão de morte (violência urbana e sensação de insegurança extrema). O resultado eram homens e mulheres autômatos, incapazes de se opor ao sistema, pois vivendo a mecânica do conformismo, dentro das benesses do conforto.

Agora, com as novas condições, não há também mais desculpas: o homem-massa, paciente e agente de sua condição de massa, invertebrado habitante do ambiente técnico-consumista do século XX, dominado pelo mercado, por partidos, sindicatos e estados ortopédicos, de cima para baixo, não tem mais a quem jogar a responsabilidade. Ele pode recuperar sua autenticidade, como em nenhum outro momento da Humanidade. A técnica do século XIX engendrava o homem-massa, dizia Ortega. A técnica do século XXI pode engendrar o pós-homem-massa. Se para os frankfurtianos e para a teoria crítica, o comportamento heterônomo era inculcado pela indústria cultural nas cabeças das pessoas, hoje este elemento se fragmenta. Desaparecem dia a dia os mediadores e as indústrias de fabricação de suportes materiais da arte e, de todo lado, movimentos de indivíduos em rede trazem as visões da periferia para o centro do debate sobre cultura. Com tudo isso, é possível dizer que estão dadas as condições técnicas para a superação tanto do homem massificado quanto do homem atomizado, fechado em si, solipsista, consumista individualizado e não participante de sua circunstância?

II.

Pós-homens-massa Aqui e ali já se notam as estratégias das empresas na internet para gerar comportamentos massivos através de ambientes pós-massivos. São espécies de homens- massa customizados, a parecerem indivíduos autônomos, mas no fundo não só seguem como aprofundam os padrões de consumo da era industrial. Um perigo é que, com as novas tecnologias de produção pós-industriais, a produção capitalista atual sabe que não precisa mais fazer nada em série, nem seres humanos em série. Hoje, trabalhando com a tática de criar – eles dizem “descobrir” – nichos de mercado, ela amplia seu poder ao fazer homens-massa customizados, com aparência de autônomos. As roupas e os cabelos parecem diferentes entre si, mas este tipo de homem-massa customizado segue o mesmo por dentro: inautêntico e diminuído ao elemento fundamental do consumidor, em vez de responsável por fazer sua própria vida. Mesmo no ambiente pós-massivo, este tipo massificado pelo mercado continua massa, pois segue sendo educado pelo mercado e pelos usos da sociedade desvitalizada pelo pragmatismo utilitarista, materialista e agora pela internet para se comportar como massa, invertebrada e vaga.

Em sentido contrário, nunca se teve tantas condições de se hackear, fazer truques, implantes, rachas no sistema. A articulação da cultura colaborativa digital com a economia solidária tem revelado um potencial gigantesco de revitalização cultural, em todo o mundo onde ela se desenvolve. Uma das razões é que ela é capaz de “destampar” culturas populares rurais, urbanas, suburbanas, antes invisibilizadas, por sua capacidade de descentralizar e multidirecionar os fluxos de informação e de recursos, antes unidirecionalmente ativados desde um centro industrial para o consumo de massas.

Sua capacidade de transversalidade e transdisciplinariedade permite que se gerem soluções e alternativas, convergências entre futuro e passado, de saberes e fazeres tradicionais com as inovações de ponta, sem no entanto isso significar homogeneização, mas mistura, diversidade, amálgama ou síntese. E como seria este pós-homem-massa? De maneira dialética, é preciso procurar a virtuosa posição de convergência, como Aristóteles ensina com o seu certeiro meio-termo justo. Com as condições atuais, ele pode sair do binarismo. Pode não ser nem horizontalidade nem verticalidade somente. Pode deixar para trás a infértil ideia de não-sujeito da pós-modernidade, da quase anulação da possibilidade de agir esteticamente, politicamente e eticamente da pós-modernidade, mas não precisa retornar ao indivíduo solipsista cartesiano, cheio de uma moral e de uma razão mortas, como alertava o filósofo espanhol. Nos dias de hoje, começamos a ter a convivência de indivíduos solipsistas, homens-massa, homens-massa customizados e pós-homens-massa.

III.

 Em vez de massa, o comum Pelo menos há mais condições de surgirem pessoas conscientes desta circunstância e que se conectam a outros, em rede, para gerar capacidade de influir e de produzir narrativas novas, mais autônomas que heterônomas. É também outra ideia de coletivo, não a que Ortega criticava, em cujo interior as ideologias das grandes narrativas achatavam as consciências. Trata-se de uma ideia de coletivo em que ponto a ponto, pessoa a pessoa, os sujeitos que o compõem têm liberdade de ser e de pensar por si próprios. Em vez de massa, poderemos falar em “comum”, em que os indivíduos, com mais liberdade do que antes se reúnem livremente, autonomamente, para colaborar, para trabalhar em conjunto. A massa é passiva, o comum é ativo. Estão dadas condições para um pós-homem-massa, integrante de uma humanidade-rede, diversa, amalgamada, em que aos traços da homogeneização cultural são acrescentados uma heterogeneidade viva de indivíduos em rede, formando coletivos que pensam o comum a partir da contribuição efetiva, ativa e crítica de seus integrantes.

A esses está colocado o problema de saber a que se ater e compreender o “tema de nosso tempo”. Também se pode falar na necessidade de construção de uma outra ideia de Estado, de partidos e ideologias, não ortopédicas (como criticava Ortega), mas também não ausentes a ponto de permitir o laissez-faire do século XIX, o liberalismo econômico (que ele também criticava pela substituição que este fazia dos valores, por preços) tomar conta da cultura. É tempo de falar sobre as condições de possibilidades da superação da dicotomia massa-minoria abordada por Ortega pois, como as condições da análise de Ortega mudaram – as circunstâncias técnicas se transformaram – a pedagogia social e o papel das minorias mudam também.

Precisamos de uma síntese nem horizontalista (massa) nem verticalista (minoria), mas uma espécie de diagonal provocadora de sínteses e convergências: é a era do “e”, das conjunções. O desafio é similar ao que Ortega colocou-se: o de não ser binário, idealista ou realista, nem racionalista nem vitalista, nem eu nem circunstância, mas amálgama de um e outro. Dessa maneira, a tensão massa-minoria das sociedades, pela descentralização dos meios de produção e reprodução da cultura, traz outro sentido: a pedagogia necessária não é aquela de poucos homens autênticos, nobres, seletos e esnobes do início do século XX, atuando sobre a massa, mas uma vanguarda formada por pessoas conectadas em rede no mundo todo, capazes de liderar processos locais e globais de combate à unidimensionalização do mundo, à massificação e à homogeneização cultural.

Autênticos, pode-se dizer, por professarem e viverem valores vitais, colaborativos, por trabalharem com uma razão com mais substância que a razão instrumental, físico-matemática. Não sabemos o que Ortega pensaria disso, hoje. Talvez não concordasse com estas conclusões. Mas, como pensar era, para ele, aventura de entusiasmo raciovital, assumimos seu raciovitalismo como ponto de partida para a aventura da razão. Não como ponto de chegada, o que seria também um ortopedismo que, seguramente, Ortega desaprovaria. Assim, tendo como base o “nem racionalismo, nem vitalismo: raciovitalismo”, de Ortega y Gasset, temos a possibilidade de pensar em um programa raciovitalista para a superação do problema da massificação nos tempos de hoje. Tempos em que vivemos um híbrido de era pré, industrial, e pós-industrial, e em que a homogeneização cultural e a padronização de comportamentos começam a ser contestadas em todos os cantos do mundo onde haja acesso à internet e sua consequente possibilidade de ação em rede, não do ponto de vista utilitário e consumista, mas cultural: a cultura digital.

Neste sentido, mais que a conexão física, obviamente fundamental, o que importa é a cultura de rede, a cultura colaborativa, pós-industrial e pós- massificante que vem sendo construída, pessoa a pessoa, nessas conexões. Em nosso entendimento ela, a cultura digital, é condição para revitalizar a própria ideia de cultura, pesadamente homogeneizada. Ela é condição de possibilidade de se desmassificar, “destampar” o vital da diversidade cultural, das culturas populares, do interior dos países (e seu conteúdo extremamente valioso do ponto de vista de uma metáfora daquilo que se tem dentro, que tem entranha, que tem conteúdo, em vez do superficial, ostentatório, distintivo ou apenas mercadológico da cultura de produção fordista para consumo de homens-massa).

Há uma razão sendo produzida nas redes, que não é apenas técnica nem puro vitalismo irracionalista, mas uma razão que vem da vida (de milhões de vidas de indivíduos eu-circunstâncias em rede), com um potencial enorme de trazer novos valores à tona. Se, como disse Ortega y Gasset no início do século XX, o sujeito é um eu-circunstância, devemos considerar a circunstância atual de intensa conectividade ponto a ponto. Nessa, não mais pela pedagogia social de minorias, mas pela exemplaridade da participação ponto a ponto, o homem-massa da sociedade massificada tem condições de se tornar um pós-homem-massa, desde que utilize as novas tecnologias para gerar autonomia, em vez de se utilizar dos mesmos para gerar heteronomia, homogeneização e consumo massificado.

O ambiente digital provoca, com suas possibilidades, o homem a fazer novas narrativas de si próprio, em termos de valores, propriedades, ideia de si e da sociedade etc. O digital é uma nova circunstância. Se o homem-massa é produto da era industrial que gerou o chamado “fenômeno do pleno”, o consumo em massa e a homogeneização da cultura, é preciso pensar se as mudanças tecnológicas do nosso tempo, com a emergência da internet e das redes também não dão condições para uma superação do problema criado pela relação desresponsabilizada do homem com os produtos da técnica daquela época, bárbaros a colherem seus produtos, como em estado de natureza. Conseguirão os sujeitos de hoje utilizar estes ambientes de rede de forma a gerar autonomia e sujeitos-redes, indivíduos-redes, eu-circunstâncias-redes, ou, ao contrário, o rearranjo do mercado conseguirá repor o quanto de elemento homogeneizador necessita para a sociedade continuar sendo massificada?



Jéferson Assumção é escritor gaúcho, autor de 17 livros, entre eles Máquina de Destruir Leitores (Sulina), O Mundo das Alternativas (Veraz) e A Vaca Azul é Ninja. Doutor em Filosofia pela Universidade de León, Espanha. Foi secretário municipal de cultura de Canoas-RS e coordenador-geral de Livro e Leitura do ministério da Cultura. Atualmente é diretor-geral e secretário adjunto de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul. Mantém um blog.

Fonte: OUTRAS PALAVRAS

"Novas expressões do conservadorismo brasileiro", por Luís Brasilino (entrevista com o cientista político André Singer)

PICICA: "DIPLOMATIQUE – A eleição de 1989 é um marco dessa inflexão?
ANDRÉ SINGER –  É um marco desse processo, que depois foi aprofundado pelas políticas do governo Fernando Henrique Cardoso. Mas não é só isso, porque estamos falando de hegemonia cultural. O que acontece é que os valores de mercado, de ascensão individual, de competição e os valores ligados a uma intensa mercantilização dos espaços públicos começaram a se tornar correntes, sobretudo na chamada classe média tradicional e depois em estratos médios mais amplos. Então, passamos a assistir ao surgimento de manifestações ideológicas, com articulistas, autores de livros e até artistas, produtores influentes, que defendiam abertamente esses pontos de vista, algo que não se encontrava até meados dos anos 1980. Assim, a presença quase total que a esquerda tinha no plano da cultura foi quebrada e passou a haver uma competição na qual continua existindo uma esquerda, mas a direita é crescente. Com isso, não quero dizer que ela necessariamente vai se tornar hegemônica, mas passou a haver uma competição."

Novas expressões do conservadorismo brasileiro

Segundo o cientista político André Singer, a quebra da hegemonia da esquerda no plano cultural e a resistência aos programas sociais do lulismo e à resultante ascensão social estão na raiz das ondas conversadoras que prosperam atualmente no Brasil

por Luís Brasilino

DIPLOMATIQUE – Em debate na USP realizado em agosto, o senhor identificou que a esquerda brasileira perdeu a hegemonia no plano cultural que possuía nas décadas de 1960 a 1980. Como se deu esse processo?

ANDRÉ SINGER – Parto de artigo famoso do professor Roberto Schwarz1 em que ele sugere a ideia de que houve um fenômeno inesperado depois do golpe de 1964: em lugar de uma retração da cultura de esquerda, tivemos um período de expansão e até de hegemonia cultural – não política − da esquerda. Fiquei com isso na cabeça e me ocorreu, embora nunca tenha podido escrever a respeito, que talvez essa hegemonia cultural tenha persistido até o final dos anos 1980. Isso porque, passado o período mais duro da repressão, que começou com o AI-5 em dezembro de 1968 e foi até a chamada abertura com o [Ernesto] Geisel em 1974, essa hegemonia cultural da esquerda voltou. Lembro bem que, no final dos anos 1970 e começo dos 1980, praticamente não se encontravam pensadores, articulistas e ideólogos que tomassem posições abertamente de direita. Estávamos sob hegemonia política da direita, mas no plano cultural a hegemonia da esquerda continuou e até se acentuou no final dos anos 1970, quando se iniciou o que talvez tenha sido, por sua capilaridade, o maior movimento grevista ocorrido no Brasil. Esse movimento de base gerou o que chamo de “onde democrática”, aproximadamente de 1978 a 1988, com uma profusão de movimentos organizados configurando uma democratização da sociedade por baixo, e isso acentuou ainda mais a hegemonia cultural da esquerda. Paralelamente, no final dos anos 1970, começo dos 1980, tem início no mundo a onda neoliberal.

DIPLOMATIQUE – E o Brasil estava em descompasso com essa tendência.

ANDRÉ SINGER – O neoliberalismo no Brasil foi retardado por essa conjuntura, cujo emblema maior talvez tenha sido a campanha das “Diretas já”. Só que, no plano mundial, começou a crescer o neoliberalismo, um fenômeno ideológico que o [historiador inglês] Perry Anderson classifica como o de maior sucesso de toda a história. Ou seja, não é apenas um conjunto de políticas governamentais, mas uma concepção de mundo que ganhou corações e mentes. Finalmente, entre o fim dos anos 1980 e começo dos 1990, o neoliberalismo entrou no Brasil.

DIPLOMATIQUE – A eleição de 1989 é um marco dessa inflexão?

ANDRÉ SINGER –  É um marco desse processo, que depois foi aprofundado pelas políticas do governo Fernando Henrique Cardoso. Mas não é só isso, porque estamos falando de hegemonia cultural. O que acontece é que os valores de mercado, de ascensão individual, de competição e os valores ligados a uma intensa mercantilização dos espaços públicos começaram a se tornar correntes, sobretudo na chamada classe média tradicional e depois em estratos médios mais amplos. Então, passamos a assistir ao surgimento de manifestações ideológicas, com articulistas, autores de livros e até artistas, produtores influentes, que defendiam abertamente esses pontos de vista, algo que não se encontrava até meados dos anos 1980. Assim, a presença quase total que a esquerda tinha no plano da cultura foi quebrada e passou a haver uma competição na qual continua existindo uma esquerda, mas a direita é crescente. Com isso, não quero dizer que ela necessariamente vai se tornar hegemônica, mas passou a haver uma competição.

DIPLOMATIQUE – Qual é o papel das Igrejas nesse processo?

ANDRÉ SINGER – Esse é um fator extremamente importante, porque o Brasil é um país onde o catolicismo era e continua sendo muito forte. É visível que a inflexão da Igreja Católica para a esquerda nos anos 1960 e 1970 impactou muito no sentido dessa hegemonia cultural. A influência da Igreja Católica no Brasil era enorme, continua sendo muito grande, e, quando ela virou para a esquerda, arrastou camadas extensas da sociedade. Nos anos 1980, a onda neoliberal influenciou a Igreja com uma virada para a direita que começou com o papa João Paulo II e lentamente foi entrando no Brasil. Isso é muito importante para entender a presença da hegemonia cultural da esquerda e depois sua quebra. A esse fator se soma um segundo, que é a avalanche pentecostal e neopentecostal no Brasil. O crescimento das confissões evangélicas parece ser compatível com a proliferação de uma ideologia mais conservadora. É difícil fazer afirmações categóricas, porque esse universo é muito diversificado, mas a impressão que tenho é que as confissões pentecostais e neopentecostais tendem a favorecer uma percepção de que a melhora das condições de vida depende do esforço individual, não de movimentos coletivos.

DIPLOMATIQUE – O senhor também identifica outras ondas conservadoras que extrapolam o plano cultural, especialmente entre a classe média paulistana. Quais são elas?

ANDRÉ SINGER – Em termos de classe propriamente, não há dúvida de que esse segmento tem uma propensão conservadora por razões materiais. Trata-se de uma parcela dentro de uma sociedade muito desigual como a brasileira, que tem privilégios, que tem o que perder, portanto, há motivos para uma inclinação no sentido da manutenção da situação que a beneficia. Porém, o que aconteceu é que uma parte desse segmento, que estou chamando de classe média tradicional, entrou e participou da frente antiditadura durante os anos 1970 e 1980, gerando uma simpatia por posições mais à esquerda. Isso explica também certa entrada que o PT chegou a ter nesses segmentos no começo de sua trajetória. Essa situação mudou radicalmente com o surgimento do lulismo, um processo dos últimos dez anos.

DIPLOMATIQUE – É desse realinhamento que o senhor trata em seu novo livro?2

ANDRÉ SINGER – Tem a ver, mas nesse caso é um fenômeno particular dentro do realinhamento: a classe média tradicional se fechou em bloco contra as políticas sociais promovidas pelo lulismo. Parece ser uma reação ao processo de ascensão social de setores que antes estavam estagnados numa condição de muita pobreza. É um fenômeno muito recente e não está bem pesquisado, mas a gente vê, ouve conversas, lê no jornal essa reação à presença de pessoas de renda mais baixa nos aeroportos. O que isso significa? Esses espaços eram exclusivos; só pessoas com renda mais alta podiam frequentar.

DIPLOMATIQUE – Sintomático disso são as reclamações por parte das classes média e alta sobre uma crescente dificuldade de encontrar empregados domésticos.

ANDRÉ SINGER –  É, isso é o elemento que coloquei no meu livro Sentidos do lulismo. Chama muito minha atenção também porque houve realmente uma mudança no trabalho doméstico, com elevação da renda e melhora das condições de trabalho. Isso tem a ver com o fato de que caiu o desemprego e entraram em cena programas sociais que criaram um piso, dando a essas pessoas a possibilidade de escolher não trabalhar por menos de certa quantia, o que é extremamente importante se considerarmos que existem cerca de 6 milhões de empregados domésticos no Brasil. É um elemento desse conjunto de mudanças que está ocorrendo no Brasil e, aparentemente, há uma reação a isso por parte da classe média. Há também uma terceira onda, que é ainda menos conhecida e mais recente: um neoconservadorismo em uma parcela bem pequena do conjunto das 30 milhões de pessoas que ultrapassaram a linha de pobreza nos anos Lula, um segmento que deu um passo além, subindo não um, mas dois ou três degraus. Um fator disso tem a ver com o medo da mudança. Essas pessoas teriam certa consciência de que o processo de ascensão não durará para sempre e, portanto, não seriam simpáticas a políticas para promover a ascensão de novas camadas, pondo em risco aquilo que já ganharam. Outro elemento desse neoconservadorismo é que, às vezes, se nota entre aqueles que sofreram um processo de ascensão social uma antipatia com os programas sociais. É curioso. É como se essas pessoas se “dessolidarizassem” daquelas que ainda precisam da transferência de renda, compartilhando uma impressão de que o processo de ascensão social decorre do esforço individual, e não de políticas coletivas. Um terceiro fator, mais específico da cidade de São Paulo, é a questão do empreendedorismo. Isto é, há uma quantidade de pessoas envolvidas com pequenos negócios e tentando melhorar de vida por meio deles. Bom, esse pequeno empreendedor tem uma tendência conservadora, justamente porque ele só conta consigo mesmo, diferentemente de um assalariado.

DIPLOMATIQUE – O que organiza esse movimento conservador? Não há um partido que canalize essas ondas. Pode-se dizer que a mídia cumpre esse papel?

ANDRÉ SINGER – Essas ondas conservadoras não estão sendo expressas no plano da política, sobretudo da política partidária. Por quê? Porque nesse ponto entra em jogo outro fator, que é o realinhamento eleitoral. À medida que o lulismo obteve uma maioria no país, a oposição foi obrigada a jogar com as regras do jogo impostas por esse movimento. Essa é a principal consequência do realinhamento. Ele fixa uma agenda, por isso o lulismo é tão importante, porque determinou uma agenda no país, e esta é, fundamentalmente, a redução da pobreza. Sendo essa a agenda, a oposição não pode expressar nitidamente o ponto de vista de sua base social, porque assim ela perderia as eleições. Essa é a razão pela qual o candidato do PSDB em 2010, o ex-governador José Serra, propôs duplicar o número de pessoas atendidas pelo Bolsa Família, em lugar de combatê-lo, como gostaria a classe média tradicional. Desse modo, ocorre um fenômeno curioso: há um crescimento da ideologia conservadora na sociedade, mas ela não encontra expressão na política. Quanto aos meios de comunicação, nós precisamos entender o seguinte: o conservadorismo no Brasil é muito antigo e tem um lastro histórico profundo. O diferente nessa história foi o período de hegemonia cultural da esquerda. Agora, estamos voltando para um momento anterior, mas que é de uma certa normalidade, porque o Brasil tem esse lastro conservador. Os meios de comunicação têm um papel nisso? Certamente. Mas é preciso também considerar que a análise dos meios de comunicação não deve ser feita em bloco; eles não são uma coisa só, há certa heterogeneidade. [Porém,] Partes do sistema de mídia certamente compõem essa primeira onda conservadora que está quebrando a hegemonia cultural da esquerda.

DIPLOMATIQUE – Como o lulismo, um fenômeno tão contraditório, opera nessa chave?

ANDRÉ SINGER –  O lulismo é uma nova síntese que junta elementos conservadores e não conservadores. Por isso é tão contraditório e difícil de entender. O lulismo pegou um apreço pela manutenção da ordem que tem ressonância nos setores mais pobres da população. Nesse ponto, retomo a questão de que, na formação social brasileira, se tem um vasto subproletariado que, por estar aquém da condição de proletário, não tem como participar da luta de classes, a não ser em situações muito especiais e definidas. Assim, o que o lulismo fez foi juntar esse apreço pela ordem com a ideia de que é preciso mudar. Que tipo de mudança? A redução da pobreza por meio da incorporação do subproletariado ao que chamo de cidadania trabalhista. Desse modo, o lulismo propõe transformações por meio de uma ação do Estado, mas que encontra resistência do outro lado. Basta prestar atenção no noticiário para ver como o embate político está posto o tempo todo nas decisões econômicas, no braço de ferro a cada momento em que se precisa baixar os juros, aumentar o gasto público ou controlar o câmbio. Essas decisões passam por um tremendo embate político que não está nas ruas; é preciso ler o jornal com atenção para perceber. O lulismo propõe mudanças, mas sem radicalização, sem um confronto extremado com o capital e, portanto, com a manutenção da ordem. Nesse sentido, é um fenômeno híbrido, que captura um tanto desse conservadorismo. Por isso uma análise mais simplista e dicotômica não consegue dar conta da complexidade da situação que estamos vivendo.

DIPLOMATIQUE – Em 2010, o senhor deu uma entrevista destacando a importância de o PT se manter na esquerda para politizar esse subproletariado.3 É isso que pode frear essas ondas conservadoras?

ANDRÉ SINGER – O Brasil ainda tem uma herança daquilo que chamei de grande onda democrática dos anos 1980. Que herança é essa? Primeiro a Constituição, com mecanismos de participação direta e, além disso, dispositivos efetivos de organização da sociedade. Grandes movimentos sociais se organizaram e uma parte deles segue atuando na sociedade, enquanto novos surgem, embora também seja possível identificar certos movimentos que declinaram. O Brasil ainda tem energia organizativa de baixo para cima. Segundo pesquisas que li, [essa energia] foi incrementada pelo Bolsa Família. Principalmente em comunidades do interior, as mulheres estão adquirindo certa autonomia a partir do momento em que têm um cartão, não dependem de mais ninguém e recebem uma quantia de dinheiro por mês, recurso a que elas nunca tiveram acesso e que é, sobretudo, constante, com o qual elas podem contar. Há indicações de que essas mulheres estão se organizando, por exemplo, em cooperativas, empreendimentos igualitários de mudança de sua condição de vida. Tudo que seja organização da sociedade pela base ajuda a frear essas ondas conservadoras. Não há motivo para imaginar que essa onda conservadora venha de maneira avassaladora, que não há nada do outro lado. Sobre a questão do PT, gostaria de observar que, como eu disse em 2010, continuo acreditando que este momento é especial, porque se abriu uma janela de oportunidade para o diálogo da esquerda com os segmentos mais pobres da população. Isso é muito interessante porque, sobretudo no Nordeste, esse era o setor que votava normalmente com o conservadorismo e agora está com o lulismo. É uma oportunidade ímpar de politizar esses setores, no sentido da transformação social. No entanto, de 2010 para cá, passados quase dois anos, não vejo o PT muito engajado nesse tipo de trabalho. Eu às vezes temo que essa oportunidade seja perdida, uma oportunidade que está aberta para toda a esquerda. Porém, os setores da esquerda que não estão no PT têm tido dificuldade para compreender os avanços sociais e simultaneamente o impacto conservador que o lulismo representa. Há que se entender essa contradição e, ao não entender, perde-se a plataforma de diálogo com os setores que estão sendo beneficiados por essas políticas.


Luís Brasilino
Jornalista. Editor do Le Monde Diplomatique Brasil.


Ilustração: Daniel Kondo


1  “Cultura e política, 1964-69”. In: Roberto Schwartz, O pai de família e outros estudos, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.

2  Singer identifica que, desde a reeleição do presidente Lula em 2006, houve uma aproximação do subproletariado em direção ao lulismo e um distanciamento do PT por parte da classe média tradicional. Ver Os sentidos do lulismo, Companhia das Letras, São Paulo, 2012.

3  “Cabe ao PT politizar o subproletariado”, Brasil de Fato, São Paulo, n.374, 29 abr.-5 maio 2010.
Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil

"Profanação e justiça concreta na Suprema Corte", por Tarso Genro

PICICA: "Para adiantar algumas opiniões que sustentarei ao longo do debate adianto: o Estado de Direito atual, com o atual sistema político eleitoral não tem condições de sustentar as promessas de promoção social e econômica, que estão inscritas nas suas normas constitucionais. A mídia não compõe um “quarto poder”, mas ela é o próprio “estado ampliado”: é estado e sociedade ao mesmo tempo, ordena as relações políticas e jurídicas, de acordo com as forças econômicas e sociais hegemônicas na formação social concreta. O Brasil não mudará nada, após este julgamento: o que pode mudar o Brasil é uma profunda reforma política e um ajuste com seu passado violento, autoritário, escravagista e, até hoje, com um presente profundamente desigual, aceito por um povo paciente e generoso.

Nas análises que fiz, não manifestei convicções pessoais sobre a culpabilidade dos réus dentro da ordem jurídico-penal vigente. Busquei analisar a coerência interna da ordem. Procurei mostrar que - em face do falso clamor público criado externamente às instituições - os réus principais já entraram condenados no julgamento. E que, por coerência necessária (entre o sistema político e o sistema de direito), a falsa consciência, promovida externamente ao Tribunal e a futura decisão do Tribunal (já proferida) deveriam coincidir.

Observei que, para isso, seria necessário violar o princípio da presunção da inocência, pelos menos em relação aos réus políticos do processo. Usar argumentos oferecidos por doutrina, criada dentro da própria ordem (“domínio funcional dos fatos”) foi passo necessário para promover um julgamento “devido”, “legal” e “legítimo” - coerente, pois, com o Estado Democrático de Direito em plena vigência.

Algumas poucas observações críticas, que se reportaram aos meus textos, entenderam que, a partir daí, eu estaria concluindo que num julgamento originário de “devido processo legal” - dentro da ordem democrática - decorrem necessariamente sentenças que devemos entender como “justas”. Não penso assim. A Justiça em “abstrato” pode, ou não, estar refletida numa sentença concreta. Fazer Justiça - em abstrato - “é dar a cada um o que lhe é devido”. Mas, devido segundo o quê? Segundo o Direito Natural? Segundo os mandamentos divinos? Segundo a Lei escrita? Segundo os princípios da Constituição e as intenções do Constituinte? A mediação feita pelo Estado para “concretizar” a Justiça - na medida possível da ordem jurídica específica- é feita pelas instituições: os homens concretos que estão nas instituições." 

 

Profanação e justiça concreta na Suprema Corte

Uma frase de um ministro do STF no processo do “mensalão” sintetiza a possibilidade de uma crise de legitimidade do Supremo, no próximo período, em função de julgamentos que começam a pipocar sobre os torturadores da ditadura: os réus, disse ele, são “profanadores da República”. Mas os assassinatos e torturas - contra pessoas indefesas sob custódia do Estado - transformou os agentes da ditadura em “políticos”, abrigados na Lei de Anistia? O artigo é de Tarso Genro.

Com o presente texto e outros futuros, pretendo dar algum tipo de colaboração ao debate político e jurídico, que versa sobre o futuro da nossa democracia, a partir do julgamento do “mensalão”, a saber, considerando-o episódio histórico, cujos efeitos ainda são difíceis de serem apanhados na sua verdadeira dimensão: até que ponto o Estado Democrático de Direito suporta transformações econômico-sociais que utilizem as suas instituições para atacar desigualdades? Em que medida o “clamor público” - falsificado pela mídia “partidarizada” (no sentido de defender abertamente uma das “partes” em conflito político aberto) - perverte estas instituições? E, finalmente, o Brasil realmente mudou, depois deste histórico julgamento?

Para adiantar algumas opiniões que sustentarei ao longo do debate adianto: o Estado de Direito atual, com o atual sistema político eleitoral não tem condições de sustentar as promessas de promoção social e econômica, que estão inscritas nas suas normas constitucionais. A mídia não compõe um “quarto poder”, mas ela é o próprio “estado ampliado”: é estado e sociedade ao mesmo tempo, ordena as relações políticas e jurídicas, de acordo com as forças econômicas e sociais hegemônicas na formação social concreta. O Brasil não mudará nada, após este julgamento: o que pode mudar o Brasil é uma profunda reforma política e um ajuste com seu passado violento, autoritário, escravagista e, até hoje, com um presente profundamente desigual, aceito por um povo paciente e generoso.

Nas análises que fiz, não manifestei convicções pessoais sobre a culpabilidade dos réus dentro da ordem jurídico-penal vigente. Busquei analisar a coerência interna da ordem. Procurei mostrar que - em face do falso clamor público criado externamente às instituições - os réus principais já entraram condenados no julgamento. E que, por coerência necessária (entre o sistema político e o sistema de direito), a falsa consciência, promovida externamente ao Tribunal e a futura decisão do Tribunal (já proferida) deveriam coincidir.

Observei que, para isso, seria necessário violar o princípio da presunção da inocência, pelos menos em relação aos réus políticos do processo. Usar argumentos oferecidos por doutrina, criada dentro da própria ordem (“domínio funcional dos fatos”) foi passo necessário para promover um julgamento “devido”, “legal” e “legítimo” - coerente, pois, com o Estado Democrático de Direito em plena vigência.

Algumas poucas observações críticas, que se reportaram aos meus textos, entenderam que, a partir daí, eu estaria concluindo que num julgamento originário de “devido processo legal” - dentro da ordem democrática - decorrem necessariamente sentenças que devemos entender como “justas”. Não penso assim. A Justiça em “abstrato” pode, ou não, estar refletida numa sentença concreta. Fazer Justiça - em abstrato - “é dar a cada um o que lhe é devido”. Mas, devido segundo o quê? Segundo o Direito Natural? Segundo os mandamentos divinos? Segundo a Lei escrita? Segundo os princípios da Constituição e as intenções do Constituinte? A mediação feita pelo Estado para “concretizar” a Justiça - na medida possível da ordem jurídica específica- é feita pelas instituições: os homens concretos que estão nas instituições.

Entendo, por exemplo, partindo de uma ordem ideal (aliás todos partimos de ordens idealizadas para definir o que é “justo” ou “injusto”, mesmo que nos aferremos à “ordem escrita”), que “fazer Justiça” é suprimir desigualdades reais: reduzir ou suprimir opressões, respeitar diferenças, tratar desigualmente os desiguais para “compensar”, mas isso só é possível num outro sistema social, num outro sistema econômico, num outro sistema político, organizado conscientemente com esta finalidade.

Se os Tribunais pudessem, por exemplo, voltar-se contra a ordem do capital e da propriedade privada, para repor as expropriações materiais e morais que o regime reproduz, incessantemente, entre os diferentes grupos de humanos, nos diversos andares das classes, o Estado Democrático seria outro. Mas isso ainda é, não só indeterminado para o futuro, mas também inexistente no passado, como indico neste exemplo concreto: se os Tribunais pudessem julgar improcedente uma ação de despejo contra locatários que, comprovadamente, não tem recursos para pagar os seus alugueres e pudessem, ao mesmo tempo, distribuir os imóveis dos que são proprietários de centenas deles, para indivíduos e famílias que moram nas ruas, poder-se-ia crer que o Estado Democrático de Direito seria difusor de um sentido de Justiça “em abstrato”, segundo a pré-visão de mundo que adotamos.

Mas a Justiça em abstrato da qual partimos, para analisar a grandeza do Direito Objetivo ou sua pequenez, é a Justiça que - quando feita - parte da consideração que os homens são iguais para viverem em igualdade, em termos materiais e culturais: uma Justiça corretiva das desigualdades reais. A Justiça em “concreto”, dentro de uma ordem concreta - quando feita - parte da ficção da igualdade perante a lei, sem a finalidade de transformar esta ficção, ainda que gradativamente, em realização de igualdade real.

Por que isso é impossível? Porque o Estado Democrático de Direito baseia-se, também, na expectativa da segurança jurídica permanente para todos, sem exceção. Nesta medida, os reflexos da segurança jurídica são desiguais: a segurança “de ter”, para quem “já tem”, resulta em efeitos práticos diferentes da segurança de “poder querer ter”, para quem “não tem”. Parece óbvio, que isso significa congelar o mundo real como mundo sempre fadado a ser desigual e concretamente injusto.

Logo, o Estado Democrático de Direito é um Estado promotor de desigualdades consensuais, que abrem oportunidades de igualdade real, limitadas. E o fazem, tanto por meio das liberdades políticas (no terreno da Política), como por meio do princípio da igualdade perante a lei (no terreno do Direito). As decisões judiciais, frequentemente, fazem a síntese, pela autoridade estatal, das conflitividades existentes entre estas formas de composição do Estado (Direito e Política), apontando o dissenso ou a convergência entre elas.

Mais do que isso só a Revolução. Como não é o caso, nem dos governos do Presidente Lula, nem dos réus políticos do processo - reformistas dentro da ordem - concluo que uma sentença, legal e legítima, dentro do Estado de Direito que eles ajudaram a forjar e os acolheu, tanto pode ser justa como injusta. E ela pode ser injusta quando, por exemplo, fica suprimido o princípio da presunção da inocência, para decidir-se - mais do que sobre os réus - também sobre um período histórico determinado. Períodos em que as próprias instituições judiciais estiveram cativas (como a ditadura), ou que estas não estavam cativas mas não concordaram, no todo ou em parte, com o que ocorreu no período (governo Lula). Como disse um eminente ex-líder da oposição, com o que foi realizado “por essa raça”.

Mesmo quando o processo politiza-se em excesso, por interesses claros e imediatos, para interferir em processos eleitorais, isso é Justiça concreta da ordem realizada plenamente. Assim, o Estado Democrático de Direito deve ser preservado e defendido, não porque ele seja justo “em abstrato”, mas porque ele é a forma histórica concreta mais avançada de preservar os direitos democráticos do povo e a dignidade humana. Porque ele é ambíguo: fruto de uma revolução é também fruto de um processo conservador; organizador de uma nova forma de dominação é, também, receptor de instituições libertárias; repressor é, também, aberto ao desejo; autoritário é, igualmente, politizado. E, sobretudo, deve ser preservado, porque a humanidade ainda não forjou instituições superiores às que funcionaram ou funcionam nas suas melhores experiências nacionais, embora isso não queira dizer “conservá-lo”, nem no formol do positivismo, nem na falsificação metafísica das suas finalidades.

Uma frase de efeito dita por um dos ministros mais eminentes da Suprema Corte neste processo do “mensalão”, sintetiza toda esta contradição e a possibilidade de uma verdadeira crise de legitimidade da Suprema Corte, no próximo período, em função de julgamentos que começam a pipocar na primeira instância sobre os torturadores da ditadura: os réus –disse ele- deste processo (“mensalão”) são os “profanadores da República”.

Segundo o Aurélio, “profanar” significa “transgredir”, “violar” a República, uma abstração jurídica e política, como se sabe. Pois bem, a mesma Corte, em decisão recente, interpretativa da Lei de Anistia, entendeu que os assassinos à sangue-frio dentro dos cárceres, os torturadores, estupradores de mulheres indefesas sob custódia do Estado - que torturaram filhos na frente dos pais e pais na frente de filhos- que assassinaram adolescentes, jovens e velhos, estão abrigados na Lei de Anistia, porque cometeram delitos em “conexão” com as políticas de defesa da ordem política da ditadura.

A transgressão aos princípios abstratos da República transformou os agentes governamentais ligados ao governo Lula, no “mensalão”, em “profanadores”. Mas os assassinatos e torturas concretas - contra pessoas indefesas sob custódia do Estado - transformou os agentes da ditadura em “políticos”, abrigados na Lei de Anistia?

Ambos os julgamentos, como se vê, tiveram um grau de politização dentro da legalidade vigente, que superou a devida atenção ao sistema de normas do Estado de Direito. E isso ocorreu porque ambos, em última instância, deveriam ir além dos réus, atuais ou futuros. Em ambos os casos eram julgados distintos períodos históricos da História pátria, que deveriam ser preservados ou “profanados”, pelas decisões majoritárias da Corte, que são construídas a partir das visões de mundo, da ideologia e das preferências políticas dos seus ministros.

Tudo isso pôde ser feito dentro da lei e com legitimidade, pois o Estado Democrático de Direito, como já defendi em outro artigo, tem espaços de construção doutrinária amplos, que permitem proferir - com legitimidade - tanto sentenças justas como injustas. Não seria um programa mínimo da decência jurídica do país, exigir do Supremo que ele inclua no rol dos “profanadores” da República os torturadores dos corpos da República?

Esta tarefa, ao lado da Reforma Política, deve ser uma agenda da esquerda que, ao longo do governo Lula, majoritariamente declinou de ampliar as conquistas políticas democráticas no Estado Democrático de Direito, através de uma certa acomodação economicista e pragmática na direção do Estado.

Quero sustentar, finalmente, que defender a dramatização excessiva do resultado deste julgamento, será um favor para quem pretende deixar de lado a agenda das reformas institucionais, necessárias para que não mais aconteçam fatos e processos como estes. Um estranho processo político, no qual a mídia precede o Ministério Público, antecipa a decisão do Supremo e constrói uma agenda eleitoral que dá causa e oxigênio a uma oposição que sequer tem oxigênio. Muito menos causa.

Fonte: Carta Maior

outubro 28, 2012

FOGO NO BARRACO! (União Campo, Cidade e Floresta)

FOGO NO BARRACO!




Associação dos Geógrafos Brasileiros – AGB/SP convida:

FOGO NO BARRACO!

APRESENTAÇÃO E DEBATE com a jornalista Patrícia Cornils e o programador Pedro Moraes, iniciadores doFogoNoBarraco (http://fogonobarraco.laboratorio.us/), projeto de investigação colaborativa sobre os incêndios em favelas paulistanas.

no dia 31/10 (quarta-feira), às 18h30

na sala 04 do prédio da Geografia, FFLCH/USP – SP


"A grande imprensa brasileira tem lado e classe social", por Isabel Harari e Mailliw Serafim

PICICA: "Um ponto importante é que informação é poder e as pesquisas de opinião não são diferentes: expressam um tipo de informação que pode fazer que as pessoas mudem ou consolidem o seu voto. Os países que nós chamamos de democráticos são muito mais zelosos, digamos assim, por colocarem regras em tudo que envolve a informação. O tema informação, mídia, publicidade e propaganda, pesquisa, tem uma liberalidade incrível no Brasil." 

"O brasileiro se informa majoritariamente pela televisão, que no Brasil é muito boa tecnicamente e muito ruim em termos de conteúdo – é desprovida de conteúdo. Então é claro que ela forma. Como diz Manuel Castells [sociólogo espanhol, autor de “Sociedade em rede”], a mídia enquadra a política. Aonde eu quero chegar: se a experiência de vida conta, também conta a mídia como agente de manipulação e enquadramento da política."


"A grande imprensa brasileira tem lado e classe social"

Para Francisco Fonseca, professor da FGV-SP, não há dúvidas de que a mídia brasileira, sobretudo a televisão, atua como formadora de opiniões. No entanto, segundo ele, há um choque entre a informação e a experiência concreta do cidadão. Isso fica evidente também nas campanhas eleitorais como a de José Serra, “que sempre nos mostra hospitais equipados, as AMAs, as UBSs, e no fundo quem vive na periferia sabe que não é assim”. "A grande imprensa brasileira tem lado e classe social", defende Fonseca.


São Paulo - Informação é poder. Pode ser um elemento de manipulação ou de democratização de acordo com a forma como é veiculada. No processo eleitoral, a informação torna-se um instrumento valioso que, de acordo com o cientista político Francisco Fonseca, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), pode mudar o destino da sociedade.

À Carta Maior, Fonseca salienta a importância da democratização da informação no jogo político atual e a necessidade da regulamentação da comunicação, que, segundo ele, deve partir do próprio Estado, como forma de garantir a prioridade dos interesses coletivos em relação aos individuais. “No mundo da informação no Brasil há um verdadeiro laissez-faire, em que o Estado brasileiro intervém pouco, é extremamente frouxo na sua regulação. O jogo da informação pública é um jogo privado, pouco fiscalizado, pouco regrado”, diz.

Carta Maior - Como você enxerga a dinâmica entre a informação e o poder no processo eleitoral?


Francisco Fonseca - Na verdade há um conjunto de fatores para fazer essa avaliação. Um ponto importante é que informação é poder e as pesquisas de opinião não são diferentes: expressam um tipo de informação que pode fazer que as pessoas mudem ou consolidem o seu voto. Os países que nós chamamos de democráticos são muito mais zelosos, digamos assim, por colocarem regras em tudo que envolve a informação. O tema informação, mídia, publicidade e propaganda, pesquisa, tem uma liberalidade incrível no Brasil.

CM - Se a informação é poder, como driblar as promessas e realizações expostas pelos candidatos, muitas vezes irreais?

FF - O que mais afeta o cidadão na sua decisão do voto é a sua própria experiência. Há um choque, se assim posso chamar, entre informação e experiência. A campanha do Serra, que é uma campanha de continuidade do governo, sempre nos mostra hospitais equipados, as AMAs [Assistência Médica Ambulatorial], as UBSs [Unidades Básicas de Saúde], e no fundo quem vive na periferia sabe que não é assim. Existe aí o choque entre informação e experiência. O brasileiro se informa majoritariamente pela televisão, que no Brasil é muito boa tecnicamente e muito ruim em termos de conteúdo – é desprovida de conteúdo. Então é claro que ela forma. Como diz Manuel Castells [sociólogo espanhol, autor de “Sociedade em rede”], a mídia enquadra a política. Aonde eu quero chegar: se a experiência de vida conta, também conta a mídia como agente de manipulação e enquadramento da política.

CM - Pode haver manipulação pelos meios de comunicação na forma da divulgação dos resultados das pesquisas? No site do Ibope, por exemplo, está escrito que sua maior função é “fornecer conhecimento estratégico”. A Globo encomendou uma pesquisa para o Ibope na semana passada, mas o resultado, com o Haddad bem na frente, foi divulgado no SPTV, e não no Jornal Nacional. Se o Serra estivesse na frente, a Globo veicularia o resultado no JN?

FF - A veiculação tem uma importância crucial. Ao meu ver uma lei eleitoral deveria regular não só pesquisas, mas também sua veiculação. O que é básico para ser informado? O voto espontâneo, a rejeição e o grau de tendência das regiões mais populosas. O resto poder dar também, mas isso tem de ser divulgado. O jogo da informação pública é um jogo privado, pouco fiscalizado, pouco regrado. Já foi pior, mas ainda temos de caminhar muito.

Evidentemente, os liberais, os conservadores vão dizer: “é censura, é intervenção. Nem pesquisa mais eu posso fazer!”. Só que não é uma pesquisa sobre se você gosta mais de chocolate ou bolacha, é uma pesquisa que envolve os destinos públicos e coletivos. Tudo que envolve o destino de uma comunidade tem de ser regulado pelo Estado. O direito coletivo, em última instância, se sobrepõe ao direito individual, essa é a marca da democracia. E as pesquisas, tal como são feitas hoje, significam o contrário: o direito individual se sobrepõe ao coletivo.

CM - O Serra disse que poucas vezes as pesquisas foram tão erradas, mas que isso não é por conta de má fé, e sim por dificuldades metodológicas. A consequência disso, segundo ele, é o condicionamento das pessoas, o que traria um prejuízo enorme.

FF - Nós não sabemos o que é erro técnico, má fé ou interesse político. A fala do Serra tem de ser circunscrita, porque ele estava na frente, então é um momento de oportunidade, circunstância. Nessa época, os candidatos, em particular o Serra, que é um candidato que joga as últimas fichas de sua carreira política, quer tirar proveito da pesquisa. É uma fala conjuntural, oportunista. Mas, tirando a questão da conjuntura, é possível dizer que as pesquisas erram.

CM - Existe um choque, no uso das informações, entre os interesses dos institutos de pesquisa privados e os da sociedade?

FF - Todo mundo tem o direito de montar um instituto de pesquisas. Esse é o direito individual, mas e o direito coletivo? Se o instituto faz uma pesquisa na quinta ou na sexta [últimos dias antes da eleição], período em que o grau de confiabilidade é pequeno, então é uma irresponsabilidade o Estado permitir que o direito individual se sobreponha ao coletivo. Nós como comunidade não podemos estar sujeitos a uma informação potencialmente falsa, pois há um incrível transe de mudança de voto do sábado para o domingo e que a pesquisa não vai captar.

CM - Você acha que os institutos de pesquisa têm um viés ideológico?

FF - Em particular o Datafolha, um instituto ligado a um jornal que claramente tem lado. A grande imprensa brasileira tem lado e classe social. Para o meu livro [“O consenso forjado”] eu entrevistei o Otávio Frias Filho. Perguntei a ele o que era opinião pública, o que a Folha de S. Paulo entendia como opinião pública. Ele respondeu que era a classe média: “nós somos um jornal de classe média para a classe média”. E a classe média vota no Serra. Me parece que essa politização da imprensa está respingando nos institutos. Me chama mais a atenção os erros do Datafolha do que os do Ibope. Não estou dizendo que este seja imune, mas o Datafolha tem essa relação com o jornal que claramente tem classe e uma visão de mundo muito específica.

Esses erros podem ser trágicos para o destino do país. No mundo da informação no Brasil há um verdadeiro laissez-faire, em que o Estado brasileiro intervém pouco, é extremamente frouxo na sua regulação, e as pesquisas – embora tenha uma lei, o que já é um avanço – possuem muitas falhas, muitos buracos que precisam ser preenchidos.


Fonte: Carta Maior