Carta aberta da Liga dos Camponeses Pobres
Escrito por LCP do Nordeste
Seg, 05 de Abril de 2010
Vimos através dessa, denunciar os crimes que estão sendo cometidos na cidade de Lagoa dos Gatos pelo latifundiário, proprietário-herdeiro, Deputado Federal Eduardo da Fonte. No dia 18 de março, o Deputado Federal enviou seu irmão, Maurício da Fonte, para comandar pessoalmente o despejo das famílias acampadas no latifúndio Peri-peri, ordenando que um trator destruísse as casas de alvenaria e barracos de lona dos acampados, as lavouras e roçados de batata, macaxeira, milho e feijão.
No momento da destruição das lavouras, munidos de uma câmera fotográfica, vários acampados se organizaram para registrar a ação. O referido trator foi fotografado destruindo a roça de macaxeira, bem como vários pistoleiros munidos de armas de fogo, inclusive de grosso calibre, que estavam ali garantindo a destruição da plantação das famílias camponesas.
No momento de nosso registro a PM, que já se retirara do local após a desocupação pacífica da área, foi chamada pelas famílias para regressar. Quando a PM chegou, como sempre, só enquadrou os camponeses, oito trabalhadores ficaram cerca de meia hora detidos, recebendo a famosa “geral” em busca de armas, enquanto mais de trinta pistoleiros portando armas explicitamente não foram sequer abordados pela polícia.
Desde o dia do despejo até hoje estamos vivendo um clima de terror na cidade e principalmente nos povoados vizinhos ao latifúndio. Os pistoleiros de Eduardo da Fonte são bandidos da região, inclusive ex-presidiários, velhos conhecidos da polícia por cometerem crimes de morte e controlarem um ponto de venda de “crak” na cidade de Lagoa dos Gatos. O restante do bando de pistoleiros é composto por marginais envolvidos em roubos, desmanches de moto e muitos são foragidos da polícia.
Na última segunda-feira, dia 29 de março, quatro pistoleiros em um Fiat prata, quatro portas, tentaram assassinar um morador vizinho ao latifúndio e apoiador da luta pela terra. Quando o trabalhador se deslocava para seu trabalho foi perseguido pelo grupo, que efetuou vários disparos, tendo um desses acertado a moto e dois outros uma leiteira de alumínio. Felizmente nenhum tiro acertou o camponês, que só não foi assassinado por que seus amigos foram ao seu socorro.
O clima de terror que estamos sofrendo diariamente, por parte do latifúndio, tem tido a conivência do poderes local, onde só os camponeses são tratados repressivamente “dentro da lei”. Tememos que o próximo derramamento de sangue da luta pela terra no estado de Pernambuco, ocorra no latifúndio Peri-peri, dessa vez sob o comando de um Deputado Federal, “legítimo representante do povo”, o senhor Eduardo da Fonte.
Inclusive o Sr. Eduardo da Fonte em suas propagandas eleitorais, demagogicamente, fala que o “crak é um problema de saúde pública” e que ele apóia casas de recuperação de usuários desta maldita droga. Mas em Lagoa dos Gatos, o “ilustre” deputado contrata traficantes de droga para destruir a roça de camponeses e protegerem seu imenso latifúndio.
Denunciamos também o total descaso do Incra, da Ouvidoria Agrária Estadual e da justiça municipal que não enviaram sequer um representante para acompanhar o despejo. O Incra como sempre revela sua inoperância. O superintendente regional Sr. Abelardo, marcou uma reunião no Recife, dia 25 de março, com as famílias despejadas, mas não compareceu e nem mandou nenhum representante. E não é a primeira vez que o Incra obriga os camponeses a arcarem com enormes gastos para irem ao Recife e quando chegamos lá damos de cara com as portas fechadas.
O mais preocupante é que todos estes crimes acontecem: roças e casas de camponeses são destruídas, tentativa de morte contra apoiadores da luta pela terra, e não se toma nenhuma providência, nada é noticiado pelos meios de comunicação. Este cerco contra a luta pela terra faz parte da perigosa ofensiva do latifúndio com a conivência do governo contra os camponeses. Quando trabalhadores com tratores destruíram pés de laranja no latifúndio Cutrale (SP), que se apropriou de terras griladas da União, diga-se de passagem, um grande estardalhaço foi feito. O Presidente da República, o Presidente do STF, senadores e deputados, todos vão a público condenar a ação. Mas quando um deputado federal manda um trator destruir casas e roças de famílias camponesas pobres, nada é noticiado! Nenhuma autoridade diz ou faz nada e as famílias ainda ficam sob a ameaça de bandos de pistoleiros fortemente armados! Até quando estas injustiças e crimes contra o povo seguirão acontecendo impunemente?
Se o campo não planta a cidade não janta!
A luta pela terra não é crime!
O povo quer terra não repressão!
Viva a Revolução Agrária!
Liga dos Camponeses Pobres do Nordeste
Lagoa dos Gatos - Pernambuco - Brasil
31 de Março 2010
Fonte: Resistência Camponesa
PICICA - Blog do Rogelio Casado - "Uma palavra pode ter seu sentido e seu contrário, a língua não cessa de decidir de outra forma" (Charles Melman) PICICA - meninote, fedelho (Ceará). Coisa insignificante. Pessoa muito baixa; aquele que mete o bedelho onde não deve (Norte). Azar (dicionário do matuto). Alto lá! Para este blogueiro, na esteira de Melman, o piciqueiro é também aquele que usa o discurso como forma de resistência da vida.
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abril 06, 2010
fevereiro 07, 2010
Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Sul da Bahia denuncia prisão de companheiros
Entrevista com camponeses da área Lamarca logo após intensa campanha de perseguição ao movimento camponês em Rondônia - Abril de 2008.
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Boletim n◦ 3 – Manga(MG), 2 de fevereiro de 2010
Companheiros Wanderson e Flávia continuam presos
Prisão de trabalhadores
é perseguição política
Lutar pela terra não é crime!
A Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Sul da Bahia vem a público REPUDIAR e DENUNCIAR mais esta ação de criminalização, desmoralização e perseguição que o Estado vem impondo ao movimento camponês de uma forma geral, e em particular aos militantes e apoiadores da luta camponesa combativa.
As prisões dos companheiros Flávia Avelina e Wanderson Antônio, assessores da LCP que atuam no apoio ao trabalho de alfabetização de jovens e adultos no campo e na organização dos cursos de formação do movimento, é mais um fato absurdo da dura realidade que os opressores deste Estado podre, burguês e latifundiário impõem sobre as costas do povo pobre.
Os companheiros Wanderson e Flávia estão mantidos presos desde a noite do dia 16 de janeiro, sob a acusação de porte ilegal de arma. Apesar de serem réus primários, terem residência fixa, serem conhecidos e reconhecidos como trabalhadores e professores do movimento camponês, os companheiros tiveram o pedido de liberdade provisório negado pela juíza de Manga, Maria Beatriz da Costa Biassutti. É assim que age a justiça do Brasil. É uma justiça para os ricos e poderosos e outra justiça para os pobres e explorados.
Os ricos e poderosos praticam todo tipo de crimes e continuam impunes: roubam o dinheiro público, violam o direito dos trabalhadores, cometem crimes contra a economia popular, roubam terras, etc., etc. Só para citar um exemplo, o banqueiro Daniel Dantas, que enriqueceu da noite para o dia com suas falcatruas praticadas junto com políticos, foi preso num dia e no outro já estava rua por ordem do Gilmar Mendes, chefe do judiciário brasileiro. As pessoas do povo são presas e mantidas encarceradas por longo tempo por defender seus direitos; já Daniel Dantas, conhecido bandido e comprovado ladrão do dinheiro público, ganha liberdade no dia seguinte.
Delegado abre campanha de perseguição à Liga dos Camponeses Pobres
O delegado de Jaíba, Bruno Esteves da Costa, recém chegado à região, abriu uma campanha de perseguição à LCP. Além dos companheiros Wanderson e Flávia, acusa os companheiros João Batista Pereira da Cruz (Pedrão) e José Ilson Silveira de formação de quadrilha. Sem apresentar nenhuma prova, em seu relatório encaminhado à justiça, o truculento delegado Bruno da Costa afirma textualmente que a LCP é uma “organização criminosa com ânimo associativo e definitivo que tem o fito de prática reiterada de crimes, como esbulho possessório, entre outros que estão sendo apurados, como os de extorsão e desvio de verbas públicas”.
O delegado não sabe do que está falando. Chegou agora na cidade, quer mostrar serviço para os ricos da região, mas só está repetindo o que os seus amigos latifundiários lhe sopraram nos ouvidos. Além é claro da baboseira reacionária que deve ter aprendido nos manuais de formação do aparato repressivo do país que, passando por cima da lei, trata toda a luta do povo pobre como crime.
O que este forasteiro parece não saber é que as terras do Norte de Minas eram terras devolutas onde moravam dezenas de milhares de famílias, a maior parte descentes de índios e negros que há séculos ocuparam esta região, estes últimos fugindo da escravidão. Quem praticou “esbulho possessório” (tomar terra que é de outro) foram os fazendeiros ricos acobertados pela Ruralminas e pela PM que na época do regime militar expulsaram milhares de famílias das terras que eram cultivadas por seus bisavós. O conhecido massacre de Cachoeirinha, ocorrido em 1967, quando 63 crianças morreram de fome e frio no mato, após o ataque da PM para expulsar os camponeses das terras foi o mais notório crime cometido naquela ocasião.
Qualquer pessoa do povo sabe quem são os ladrões de terra desta região e sabem muito bem quem é a Liga: a LCP surgiu nesta região da histórica necessidade dos camponeses de se mobilizarem e organizarem na luta pela retomada de suas terras roubadas pelo latifúndio.
O sr. delegado parece não saber mas a Constituição Federal garante no Brasil o direito à livre associação. E nestes mais de 10 anos de existência da LCP, esta associação livre e independente de camponeses pobres retomou mais de 60 áreas onde hoje milhares de famílias estão em suas terras, têm a propriedade de seus lotes e transformaram suas vidas ao se libertarem da exploração do latifúndio. Dividir as terras das grandes fazendas trouxe mais produção e comércio para a região.
Há muito ainda o que fazer, mas a justiça está começando a ser feita. É por isto que a LCP é respeitada pelo povo e pelas pessoas honestas e democratas que a conhecem. Mas temos consciência e sentimos as conseqüências do temor e ódio que o latifúndio nos devota.
Para seu conhecimento, sr. delegado, a LCP já realizou 5 congressos (reunidos nas cidades de Montes Claros, Jaíba, Janaúba e Manga) e já prepara o seu 6º Congresso; realizou dezenas de passeatas e manifestações públicas; seus militantes estiveram em um sem número de audiências com autoridades municipais, estaduais e federais para tratar de assuntos de interesse dos camponeses. Realizamos lutas conjuntas em defesa da educação e saúde públicas, por melhores condições de transporte; lutamos com os irrigantes contra as taxas extorsivas de água e luz cobradas pela Codevasf; lutamos contra a perseguição do Ibama e IEF que usam a legislação ambiental para perseguir os camponeses e expulsá-los de suas terras.
A LCP é um movimento independente que não vive de créditos do governo e que se sustenta pelo apoio das famílias camponesas e da solidariedade de operários, professores, estudantes e demais democratas e suas organizações que apóiam a luta pela terra no país.
Repudiamos, portanto, mais uma vez e de forma enérgica, as calúnias do sr. delegado Bruno da Costa ao tratar a Liga como quadrilha. Reserve esta denominação para as quadrilhas de verdade que atuam no poder executivo, legislativo e judiciário, na polícia, que agem impunemente no assalto aos cofres públicos e que nada é feito para detê-las. Ou para as associações de latifundiários que montam grupos de matadores para atacar lideranças e famílias que legitimamente lutam por um pedaço de terra.
Estes fatos que ocorrem hoje no Norte de Minas não são fatos isolados. Fazem parte de uma campanha reacionária de criminalização e perseguição aos movimentos sociais, mas particularmente aos camponeses pobres, cujo patrocinador é o Presidente da República, sr. Luis Inácio, e os encabeçadores são a senadora/latifundiária Kátia Abreu e o presidente do Supremo Tribunal Gilmar Mendes.
Convocamos o povo trabalhador e todos os democratas, cidadãos de bem, progressistas e intelectuais honestos a repudiar os ataques à LCP e a apoiar e defender estes companheiros que lutam por uma verdadeira democracia.
Convocamos os camponeses pobres, os trabalhadores da cidade, todos cidadãos progressistas e democratas para grande manifestação
(aguardem marcação de data e local da manifestação)
Exigimos a liberdade dos trabalhadores Wanderson Antonio e Flávia Avelina!
Pelo fim da perseguição ao movimento camponês!
Não à criminalização dos movimentos sociais!
O povo quer terra, não repressão!
Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Sul da Bahia
Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres
janeiro 26, 2010
Liga dos Camponeses Pobres: Os Palestinos da Amazônia
Vídeo em 3 partes com depoimentos de lavradores amazônicos nos acampamentos da Liga dos Camponeses Pobres, no interior de Rondônia. A luta de um povo forte, que sofre o diabo, mas que não tem medo dele.
novembro 02, 2009
Os Palestinos da Amazônia
Vídeo em 3 partes com depoimentos de lavradores amazônicos nos acampamentos da Liga dos Camponeses Pobres, no interior de Rondônia. A luta de um povo forte, que sofre o diabo, mas que não tem medo dele.
Fonte: Latuff
Leia também o artigo "Os Palestinos da Amazônia": http://www.fazendomedia.com/?p=1343
Links de interesse:
CEBRASPO, Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos: http://www.cebraspo.com/
Jornal Resistência Camponesa: http://www.resistenciacamponesa.com/
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Artist's Comments
Rondonia is a state in Brazil, located in the north-western part of the country. Much of Rondonia's area is Amazon rainforest."...The large landowners or ranchers (fazendeiros) are a politically powerful force in Brazil. Many are congressmen, senators, as well as businessmen. A well organized constituency of ranchers formed the Uniao Democratica Ruralista (UDR) to plan and promote their agenda in the country...
...Hundreds of rural farmers and workers have been shot at gun point, en masse and ambushed by gunmen hired by landowners. It is common for the military state police to be directly responsible for the assissinations of peasant activists and small landowners. Farmers under threat have little recourse to justice or protection once they become targets of these hitmen..."
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OS PALESTINOS DA AMAZÔNIA
Cansados de esperar por uma reforma agrária que nunca chega, camponeses fazem a "revolução agrária" na Amazônia.
Por Latuff *
A convite do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (CEBRASPO), passei uma semana na companhia de lavradores nos acampamentos da Liga dos Camponeses Pobres (LCP), no interior do estado de Rondônia. Nestes meus dias ao lado dos aldeões, tive a honra de comer de sua comida, participar de suas conversas, de sua rotina, tomar conhecimento de suas necessidades,
de suas demandas e seus sonhos. Povo forte, que sofre o diabo, mas que não tem medo dele.
Por duas vezes passei a noite numa cabana de palha, onde vivem seu Abel e sua esposa Zilda. Reservaram uma cama pra mim, me receberam com todo carinho e gentileza. Mesmo na simplicidade daquela choupana, havia uma extrema preocupação em me agradar, na melhor tradição de hospitalidade do homem do campo. Acordava-se bem cedo, ainda escuro. "Bom dia, dormiu bem?". Escova de dentes na mão, rumo ao rio que beira a cabana. No moedor a manivela, os grãos de café eram preparados para o desjejum. O leite fervia no fogão a lenha. A mesa posta, os copos, os talheres, o silêncio era discretamente interrompido tanto por mim quanto pelos pássaros. Daqui a pouco seu Abel já estava seguindo para a roça, pra cortar lenha, pra capinar a terra, irrigar as mudas, trabalho árduo para transformar seu pequeno pedaço de selva em lar. Os lavradores humildes precisam de bem pouco para viver uma vida digna, e nem mesmo isso lhes é permitido. Com o argumento do combate ao desmatamento, o IBAMA persegue e aplica multas
altas aos que vivem da agricultura de subsistência, usam da Polícia Federal, da Força Nacional de Segurança e mesmo tropas do Exército para sufocar as comunidades, como no caso de Rio Pardo, onde barreiras foram erguidas nas entradas e saídas, pessoas e veículos revistados, postos de
combustível do acampamento removidos, um rigor que não tem sido aplicado aos latifundiários, que transformam vastas extensões de floresta nativa em pasto ou monocultura.
O histórico de violência naquela área já vem de longe. No Brasil Colônia, o vale do Guaporé foi palco de disputas imperialistas entre Portugal e Espanha, que só terminaram com as demarcações de terra acordadas pelo Tratado de Madrid em 1750. No século 18 com o ciclo da mineração e particularmente no final do século 19 com o ciclo da borracha, uma grande leva de migrantes de diversas partes do Brasil foram atraídos para a região, causando conflitos agrários com a vizinha Bolívia, que foram resolvidos em 1903 com o Tratado de Petrópolis. Em 1943, como resultado do desmembramento de áreas dos estados do Amazonas e Mato Grosso, foi criado por Getúlio Vargas o Território Federal de Guaporé, tendo sido rebatizado para Rondônia em 1956, em homenagem ao Marechal Cândido Rondon, militar que entre 1910 e 1940 comandou expedições de Cuiabá até o Amazonas para instalar linhas telegráficas e levar a boa e velha civilização branca para o seio dos povos indígenas. Rondônia torna-se estado em 1982.
A Liga dos Camponeses Pobres surgiu em agosto de 1995, quando trabalhadores rurais que ocupavam terras da Fazenda Santa Elina, na cidade de Corumbiara, resistiram ao brutal despejo promovido por policiais e jagunços, resultando na morte de 11 pessoas (em números oficiais),
incluindo a menina Vanessa de apenas 6 anos, no que ficou conhecido como o "Massacre de Corumbiara". De lá pra cá, cansados de esperar por uma reforma agrária que nunca chega, os camponeses e suas famílias decidiram promover a "revolução agrária" no peito e na raça. São eles os acusados pela revista Isto É de serem sanguinários guerrilheiros ligados (adivinhem) as FARC.
O que pude presenciar durante minha visita aos acampamentos foram trabalhadores rurais e suas famílias armados, isso sim, de uma força de vontade poderosa, capaz de enfrentar os rigores da Amazônia Ocidental. O clima equatorial, extremamente quente e úmido, onde o sol inclemente castiga a carne, as doenças tropicais como a leshmaniose e a malária, que por aquelas bandas são tão comuns quanto um resfriado, animais selvagens como onças, porcos-do-mato e serpentes venenosas, um risco sempre presente, oculto pela densa vegetação.
Mas não são os rigores da selva amazônica os maiores inimigos do povo do campo. São os fazendeiros milionários e seus exércitos particulares formados por assassinos de aluguel e policiais, cujas ações criminosas são sustentadas por políticos locais e a imprensa corrupta, que alimentada com verbas publicitárias e mesmo matérias pagas, tenta demonizar a justa
resistência dos pequenos agricultores. Os matadores são conhecidos por todos, andam tranquilamente pelas ruas, por vezes ostensivamente armados. Não são raras as execuções a luz do dia, a vista de todos. Qualquer um que tenha coragem de, por exemplo, denunciar os pistoleiros num programa de rádio, corre o sério risco de ser assassinado assim que por os pés pra fora da emissora. Conceitos como direitos humanos e cidadania inexistem nos cantões de Rondônia, onde a pistolagem é uma instituição consagrada pela sociedade. Numa corrida de taxi em Ariquemes, junto com mais três passageiros, passei a viagem que durou cerca de 45 minutos ouvindo animadas histórias de fazendeiros, políticos e mortes encomendadas. Uma delas reproduzo aqui.
Um homem pescava num rio. Conseguiu apanhar dois pintados. Amarrou os peixes na garupa de sua bicicleta e seguiu tranquilamente por uma estrada. No meio do caminho foi parado por um fazendeiro e seu jagunço numa caminhonete.
- "Onde você pescou isso?", perguntou o fazendeiro.
- "Naquele rio logo ali", respondeu o sujeito.
- "Então pode deixar por aí mesmo, que aquele rio é meu", disse o fazendeiro, no momento em que o capanga já saía do veículo de forma ameaçadora. O pescador teve de fugir. Ao comentar esse caso com o pessoal da LCP, me disseram que ele teve sorte de não ter sido simplesmente
baleado. Essa é somente uma das histórias que explica bem a razão da revolta que o camponês de Rondônia traz consigo no peito.
Historicamente, a reforma agrária no Brasil nunca se deu de maneira espontânea pelos governos, e sim pela pressão feita pelos movimentos populares de luta pela terra, que no caso da LCP, sequer contam com o INCRA para assentar as famílias. Para os integrantes da LCP, não existe o
conceito de "desapropriação de terras improdutivas", visto que mesmo as produtivas, estando em mãos de ricos fazendeiros, servirão invariavelmente aos interesses do agronegócio. Os camponeses da LCP escolhem as grandes fazendas, as ocupam, erguem lonas, resistem ao ataque de jagunços, e depois de 2 a 3 meses fazem demarcação dos lotes, o chamado "corte popular", inicialmente erguendo cabanas de palha e depois de madeira. Depois de algum tempo, os acampamentos se assemelham a povoados do velho oeste norte-americano, como no caso de Jacinópolis, com farmácia, escola, mercado, tudo feito de tábuas.
Diferente da confortável vida das grandes cidades, onde restaurantes, lanchonetes e supermercados estão logo ali na esquina, nas áreas de acampamento o supermercado mais próximo pode estar a 80km de estradas de terra acidentadas. É natural portanto que os camponeses tenham de caçar para comer, o que justifica a posse de velhas espingardas que servem também para a defesa contra onças e porcos selvagens. Operações constantes do IBAMA e das polícias, tentam tomar estes armamentos rústicos das mãos dos lavradores, impedindo que eles se defendam tanto de animais ferozes quanto de pistoleiros. O direito a legítima defesa também lhes é negado. Os camponeses, no entanto, seguem resistindo a estas agressões como podem. Fecham estradas, bloqueiam o avanço da polícia com barricadas, criam seus próprios sistemas de vigilância e segurança. Não se entregam nunca.
São os palestinos da Amazônia.
* Latuff é cartunista.
Fonte: Rondonia, The Pistolandia by Latuff
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