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setembro 27, 2010

O vale tudo da informação descontextualizada

Amazonas em Tempo
Manaus, 26.09.2010
 Trecho do artigo do Prof. João Bosco Araújo

Nota do blog: Só o leitor menos avisado, que leu, ontem, a coluna do preclaro professor aposentado da UFAM João Bosco Araújo, psicólogo e bacharel em filosofia, em que ele usa a figura de José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil do governo Lula, para ilustrar o que chama de "campanha de vale tudo", a propósito das eleições 2010, deixou de perceber a intenção do texto: valer-se da descontextualização de uma declaração para fazer ilações tão ao gosto dos profetas do apocalipse. Está na pauta da mídia golpista a disseminação de que o governo Dilma vai abalar os alicerces da vida nacional se houver a aplicação de um marco regulatório para os meios de comunicação - leia-se democratização da mídia -, alguns deles há décadas concentrados na mão de meia dúzia de famílias.  O articulista entrou na onda da mídia tradicional. Não são poucos os que perderam a capacidade de ler o Brasil, sobretudo a manifestação da sociedade civil organizada que participou da Conferência Nacional de Comunicação, boicotada ostensivamente pela mídia comercial, onde se discutiu a importância de um marco regulatório para o setor, que espelhasse os mais amplos interesses da sociedade brasileira atual. Veja abaixo um exemplo demonstrativo de como foi descontextualizada a fala de Zé Dirceu durante um pronunciamento, sem que ele tivesse o direito de resposta à manipulação que alguns meios de comunicação fizeram sobre o fato. Ou se mata a cobra e mostra o pau, ou a informacão se presta a alimentar fantasmas do passado, sepultados pela democracia que vivemos.


angelenaroberston | 24 de setembro de 2010
veja como a mídia mostra josé dirceu

Nota do blog: A dica do vídeo é de O Esquerdopata.

agosto 01, 2010

Sobre as deformações do poder

Nota do blog: Tia Pátria, se tivesse viva, e lido o texto do ilustre professor João Bosco Araújo, publicado neste domingo, no jornal Amazonas em Tempo, certamente diria: "É o sujo falando do mal lavado". Tia Pátria, segundo o meu amigo João Bosco Chamma, arquiteto de formação, seria uma executiva se a baixa escolaridade e a pobreza não levasse essa filha de imigrantes portugueses, após a morte do pai, a vender um dos tacacás mais saborosos da cidade de Manaus, por mais de três décadas, entre os anos 1940 a 1960 - único modo que encontrou para sobreviver na incipiente economia daqueles anos. Sua banca de tacacá não poderia se situar em melhor lugar. Defronte à Faculdade de Direito, convivendo com inúmeros estudantes - que se tornariam personagem públicos, para o bem e para o mal -, aos poucos desenvolveu uma aguda percepção das manhas e artimanhas praticadas na política daqueles tempos provincianos. A vida sabe o que faz. Hoje na Manaus da Zona Franca, ela estaria, liderando greves, e sabe-se lá o que mais. Suponhamos que o Lula tenha tido uma oportunidade a mais na sociedade industrial da São Paulo dos anos 1960-1970. Experiência que lhe permitiu codificar o significado da relação de sua família com os "coronéis" da Garanhuns-PE da sua infância, bem como sua relação pessoal com o patronato paulista ao ingessar no mundo do trabalho. E que a partir daí tenha iniciado sua vida política, como resposta ao quadro de iniquidades vivida pelos trabalhadores brasileiros, sobretudo na ditadura civil-militar que se instalara no país desde 1964. Suponhamos que tenha sido a sabedoria acumulada ao longo do tempo que permitiu ao presidente Lula ter "superado" a falta de instrução, e assim galgar o mais alto posto da república. O que surpreende no texto do articulista é sua tentativa de banalizar o exercício do poder, reduzindo à dinâmica da vida política a um enredo fajuto de novela das 7. É de se esperar mais de alguém que conviveu com as fímbrias do poder, e que com ele estabeleceu relações de subserviência, como registra a crônica jornalística amazonense. A caracterização do que teria restado de Lula - aos olhos do articulista "contaminado e distorcido pela mosca azul do poder" -, perdoem-me os mais sensíveis,  parece mais com as identificações projetivas que acometem indivíduos que passaram pela experiência de submissão ao jogo do poder, que conhecem bem as manobras políticas usadas para manter-se ou beneficiar-se do poder. Não é só a deformação do poder que está em causa, mas a deformação intelectual, que mais uma vez tenta naturalizar a complexa relação entre as classes sociais no Brasil. Meu caro professor, as ambiguidades do governo Lula merecem crítica mais aprofundada, como a que enseja a afirmação de 'nunca os ricos ganharam tanto nem os pobres melhoraram tanto de vida'; ou a ainda a aliança com o capital exportador, em especial o agronegócio; na forma como a terra é explorada, com reflexos sobre nossa incipiente reforma agrária. Mas aí é muita farinha pra quem apenas pretendia fazer uma declaração de voto. Deixo pra outra ocasião, um aspecto que não é periférico no seu texto domingueiro: a relação de Lula com a imprensa, num cenário em que os meios de comunicação de massa flertam com o poder oligárquico. Em causa um outro aspecto da soberania e da defesa dos direitos fundamentais contra a oligarquia-nossa-de-cada-dia, capaz de provocar irreparáveis deformações. É isso aí!