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setembro 28, 2010

Como se constrói e como se financia um império de comunicação para manipular informação

sucazu | 26 de outubro de 2007
reportagem, documentário

Nota do blog: Este post é dedicado aos que abraçaram o jornalismo como instrumento da liberdade. Se alguém duvida que haverá, mais uma vez, tentativa de manipular informação para influir no pleito elitoral de 2010, recomendo o vídeo acima. Ele foi realizado pela TV pública da Inglaterra, por isso você nunca viu na TV brasileira. As "famiglias" que controlam a mídia privada continuam unidas, e já deram sinais insofismáveis contra a candidatura Dilma Roussef. Só falta combinar com os russos. Na verdade, a sociedade brasileira nunca tolerou os abusos da imprensa, sobretudo quando ela atacou nossos grandes estadistas, como: Getúlio, JK, Jango, Brizola e Lula. Nem mesmo quando a mídia comercial apoiou o golpe e a ditadura civil-militar a sociedade silenciou. A concentração do meios de comunicação requer uma firme posição da sociedade. Chega de manipulação!

setembro 27, 2010

O vale tudo da informação descontextualizada

Amazonas em Tempo
Manaus, 26.09.2010
 Trecho do artigo do Prof. João Bosco Araújo

Nota do blog: Só o leitor menos avisado, que leu, ontem, a coluna do preclaro professor aposentado da UFAM João Bosco Araújo, psicólogo e bacharel em filosofia, em que ele usa a figura de José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil do governo Lula, para ilustrar o que chama de "campanha de vale tudo", a propósito das eleições 2010, deixou de perceber a intenção do texto: valer-se da descontextualização de uma declaração para fazer ilações tão ao gosto dos profetas do apocalipse. Está na pauta da mídia golpista a disseminação de que o governo Dilma vai abalar os alicerces da vida nacional se houver a aplicação de um marco regulatório para os meios de comunicação - leia-se democratização da mídia -, alguns deles há décadas concentrados na mão de meia dúzia de famílias.  O articulista entrou na onda da mídia tradicional. Não são poucos os que perderam a capacidade de ler o Brasil, sobretudo a manifestação da sociedade civil organizada que participou da Conferência Nacional de Comunicação, boicotada ostensivamente pela mídia comercial, onde se discutiu a importância de um marco regulatório para o setor, que espelhasse os mais amplos interesses da sociedade brasileira atual. Veja abaixo um exemplo demonstrativo de como foi descontextualizada a fala de Zé Dirceu durante um pronunciamento, sem que ele tivesse o direito de resposta à manipulação que alguns meios de comunicação fizeram sobre o fato. Ou se mata a cobra e mostra o pau, ou a informacão se presta a alimentar fantasmas do passado, sepultados pela democracia que vivemos.


angelenaroberston | 24 de setembro de 2010
veja como a mídia mostra josé dirceu

Nota do blog: A dica do vídeo é de O Esquerdopata.

julho 30, 2010

O libertário da nova informação

itnnews | 26 de julho de 2010
The founder of WikiLeaks defends releasing tens of thousands of secret files about the war in Afghanistan.

***

JULIAN ASSANGE # WIKILEAKS
O libertário da nova informação

Por Rodrigo Uchoa em 30/7/2010 

Reproduzido do Valor Online, 27/7/2010
Julian Assange tinha vinte e poucos anos e os cabelos castanhos escuros quando se envolveu numa dura batalha com a ex-mulher pela guarda do filho dos dois. Um problema pessoal que acabou sendo transformado na primeira grande experiência do então jovem programador australiano contra a burocracia e as grandes instituições pouco transparentes. E a primeira experiência também de um ativismo que iria desembocar anos depois no WikiLeaks, o site classificado de "criminoso" por uns e de "heroico" por outros.

Revoltado com a falta de transparência da agência australiana de proteção aos menores, que não havia dado ouvidos a suas reclamações em relação à ex-mulher, Assange criou junto com sua mãe uma organização de pais. Passou a gravar escondido todas as audiências e reuniões com as autoridades. Na Justiça, apelou para o Ato de Liberdade de Informação da Austrália para conseguir acesso aos autos que deram base à decisão da agência – nem a isso os pais tinham direito, pois a burocracia tratava os autos como secretos até mesmo para os envolvidos. E, acima de tudo, começou a distribuir folhetos para assistentes sociais, incentivando-os a vazar informações da agência de proteção a menores.

O caso em si acabou em um acordo quanto à custódia do garoto, mas marcou Assange profundamente de duas maneiras. De um lado, parece ter sido a semente para o ativismo contra a "conspiração" das grandes instituições; por outro lado, parece ter deixado marcas físicas mesmo: segundo a mãe de Assange, a adrenalina e o desgaste da campanha foram tamanhos que ela própria sofreu de um estresse pós-traumático e seu filho ficou de cabelos brancos – o visual pelo qual é amplamente reconhecido agora.

Olho do furacão
O WikiLeaks dominou os noticiários nos últimos dias com a divulgação de uma série de documentos oficiais americanos sobre as operações de guerra no Afeganistão. Os documentos dão conta de uma situação bem menos sob controle do que a Casa Branca vem querendo fazer parecer. Colocam também em dúvida o comprometimento do Paquistão, principal aliado dos EUA na região, em relação ao combate à milícia islâmica do Talibã. Alguns analistas chegaram a comparar a divulgação atual ao vazamento de documentos oficiais durante a Guerra do Vietnã, no início dos anos 70, num caso que também colocou em dúvida os rumos daquele conflito.

E a figura de cabelos brancos de Julian Assange foi trazida ao centro do furacão. O Pentágono diz que sua atuação coloca em risco a vida dos soldados no teatro de operações do Afeganistão e que a divulgação de documentos secretos foi criminosa. Assange disse que as ações criminosas vêm na verdade dos americanos. Ele deu como exemplo as operações da chamada Força-Tarefa 373 – que qualificou como "um esquadrão da morte" das forças especiais americanas -, encarregado de assassinar uma série de pessoas incluídas em uma lista arbitrária. "Mataram pelo menos sete crianças e outros inocentes", denunciou ele. E disse que algumas pessoas eram incluídas nessa lista "por recomendação de governos locais ou de outras autoridades com poucas provas e sem supervisão judicial".


Não é a primeira vez que o australiano se envolve em polêmicas por divulgar informações secretas. O WikiLeaks já desagradou bancos suíços, defensores da cientologia, oligarcas russos e ditadores africanos.

Para entender como ele chegou ao olho do furacão, vale observar a trajetória de Assange, que envolve bem mais do que sua batalha contra a agência de proteção a menores.

Decepção com a academia
Nascido em 1971, numa pequena cidade da costa nordeste da Austrália, ainda bem pequeno sua família iniciou uma vida itinerante. Não teve contato com o pai, e sua mãe se mudou de cidade em cidade após alguns relacionamentos com diretores de teatro e músicos. Ela acreditava que as escolas tradicionais serviam apenas para tolher a criatividade das pessoas e, por isso, fez o menino estudar em casa – mesmo que esporadicamente ele fosse a alguma escola. O próprio Assange diz que passou por quase 40 escolas e, mais tarde, por pelo menos seis faculdades.

Na adolescência, ele se encantou pelos computadores de uma loja do outro lado da rua onde morava. Em pouco tempo, aprendeu a escrever programas e, principalmente, a quebrar seus códigos. Talvez mais marcante do que seu primeiro computador tenha sido seu primeiro modem. Adotou o codinome de Mendax, retirado das odes de Horácio – "splendide mendax" (esplendorosamente falso, enganador para um bom motivo).

Mas eram necessários mais desafios para o jovem hacker. Ele se juntou a outros companheiros para formar um grupo chamado de Subversivos Internacionais. Os alvos se sucederam em diversos continentes, inclusive o alvo dos alvos para os hackers da época: o Departamento de Defesa dos EUA. Entraram furtivamente em todos os sistemas de computadores que quiseram.


Mas foi aí também que apareceram os primeiros problemas com as autoridades: a polícia australiana apreendeu seu computador numa investigação sobre o furto de US$ 5 mil do Citibank. No fim das contas, ele não foi indiciado e teve seus equipamentos devolvidos. O próprio Assange descreveu o evento mais como um susto. Afirmou que não teve nenhum envolvimento com desvio de dinheiro e que seguia à risca as regras de ouro dos hackers nostálgicos: "Não danifique os sistemas que você invade; não mude dados; e, acima disso, compartilhe sempre as informações que conseguir".

Passou então por uma fase bem mais tranquila. Apaixonou-se, casou-se com apenas 18 anos e teve um filho.

Pouco depois, entretanto, os Subversivos Internacionais foram pegos por uma investigação da Polícia Federal australiana, após terem invadido os sistemas da canadense Nortel. Assange passou apertado e achou que poderia mesmo ir para a cadeia. E, para piorar, foi mais ou menos na mesma época em que se viu envolvido pelo caso de custódia com a já então ex-mulher. Apesar dessa conjunção de problemas, do medo de ir para a cadeia, a Justiça australiana apenas lhe aplicou uma multa.


A vida seguiu em frente e o não tão jovem Assange foi estudar física na Universidade de Melbourne. Não concluiu o curso e sua decepção com o que chamou de "conformismo" da academia foi imensa.

Partiu então para um projeto que vinha maturando havia algum tempo: o WikiLeaks.

Edição necessária
A base intelectual do WikiLeaks pode ser identificada num manifesto escrito por ele que pregava a luta contra os segredos e conspirações "em detrimento da população". Não é uma questão de direita ou esquerda, de liberalismo ou socialismo. A luta é do indivíduo contra as acachapantes instituições criadas pelas sociedades, formadas por funcionários que não têm o bem comum em vista, e sim a perpetuação do próprio sistema, envolto em segredo e em cada vez mais burocracia.

"Acreditamos que a transparência em atividades governamentais leva à redução da corrupção e ao fortalecimento da democracia", afirma o WikiLeaks em sua declaração de objetivos.


O modo como Assange iniciou a formatação do WikiLeaks também mostra um padrão que acabou sendo seguido por ele daí adiante: em 2006, começou a trabalhar como um louco, primeiramente sozinho, mas depois foi chamando quem quisesse colaborar para o desenvolvimento dos sistemas do site e dos projetos.

Assim, a partir de 2007, o site se tornou uma experiência descentralizada, do ponto de vista técnico. Não há um escritório central, onde um diretor possa ser encontrado atrás de uma mesa – o site é feito onde Assange está, seja lá qual for esse lugar.

Dissidentes chineses, ativistas da Holanda, provedores suecos, matemáticos e jornalistas de todo o mundo passaram a colaborar na checagem dos dados recebidos e, muitas vezes também, abrigando Assange em suas constantes movimentações. Isso contribuiu para a imagem heroica do globetrotter em constante fuga.


O lado de constante fuga é algo identificado por muitos de seus colaboradores. Assange diz que teme estar sendo perseguido por onde anda e, por isso, carrega pouca coisa consigo – meias, cuecas e umas poucas camisas –, o que lhe daria maior liberdade de ir e vir. Mas isso cria um clima de paranoia também entre as pessoas mais próximas.

Assange conta que uma vez ficou meses abrigado na casa de uma colaboradora, temendo estar sendo perseguido por espiões americanos. O clima ficou tão pesado, disse ele, que ela saiu de casa e não mais voltou até que ele fosse embora.


Desde o começo do ano, ele não viaja aos Estados Unidos, temendo ser preso pela divulgação das imagens de video de um helicóptero militar americano em ação no Iraque, num incidente em que matou dois funcionários da agência de notícias Reuters.

Mas o modelo de divulgação do site também se aprimorou com o tempo e passou a contar não apenas com colaboradores esparsos, ativistas interessados em ajudar apenas. Agora, atrai grandes grupos de mídia. O New York Times e o britânico The Guardian, assim como a revista alemã Der Spiegel receberam com antecedência de quase um mês os relatórios sobre os documentos do conflito afegão, que estavam em formatos como KML, CSV e SQl.

A intenção era que eles tivessem tempo de analisá-los, checá-los e apresentá-los de forma mais atraente e legível aos leitores. Isso seria necessário para que as informações importantes não ficassem simplesmente soterradas pela enorme quantidade de dados. Não eram como documentos já divulgados, que diziam tudo por si mesmos, como o manual da igreja da Cientologia – popular na Califórnia entre alguns artistas de cinema –, o livro de normas de conduta da prisão americana de Guantánamo ou a relação dos afiliados ao Partido Nacional Britânico, de extrema-direita. Era preciso uma edição.

Novo modelo
A ideia de editar havia sido colocada em prática no episódio da divulgação do video do helicóptero no Iraque. Assange passou dias dentro de uma casa em Reykjavík, capital da Islândia, decodificando e escolhendo cenas que mostrassem continuidade de fatos. O video pode ser visto em qualquer busca rápida no You Tube e continua causando impacto.

Alguns críticos do WikiLeaks dizem que o site já vem passando por uma "institucionalização" por causa dessa aproximação com a grande imprensa, o que lhe tiraria o caráter libertário e poderia colocar freios em seus próximos projetos.
Assange defende essa aproximação dizendo que consegue maior divulgação sem comprometer a identidade daqueles que fornecem os documentos, já que a sua rede de colaboradores em todo o mundo continua intacta.

Outros dizem que o sistema de financiamento do site pode ser colocado em risco também por essa sua recente "institucionalização". O financiamento vem sendo um desafio para Assange desde o lançamento do WikiLeaks. Inicialmente, baseou-se nas pequenas contribuições dos colaboradores. Com a maior exposição, as doações se multiplicaram. Depois da divulgação do video do helicóptero que matou os jornalistas no Iraque, Assange recebeu cerca de US$ 200 mil em doações. Ele comemorou dizendo que esse seria "um novo modelo de financiamento para o jornalismo".


DaysOfToday | 5 de abril de 2010
O site Wikileaks.org, especializado na difusão de conteúdos sensíveis, divulgou nesta segunda-feira um vídeo gravado por um helicóptero americano que dispara e mata supostos homens armados no Iraque, que na verdade são civis inocentes, incluindo dois funcionários da agência de notícias Reuters.

As imagens, gravadas por um helicóptero de ataque Apache, são acompanhadas pelo audio de comunicação entre o piloto e o controle em terra, no qual o piloto revela que identificou homens armados, supostamente rebeldes, caminhando por uma rua de Bagdá, e pede autorização para abrir fogo.

O vídeo mostra um grupo de homens andando pela rua, incluindo os funcionários da Reuters Namir Noor-Eldeen e Saeed Chmagh. O piloto do Apache, que confunde a câmera de um dos jornalistas com um lança-granadas RPG, comunica ao controle em terra que avistou "cinco ou seis homens com (fuzis) AK-47" e pede permissão para abrir fogo, sendo atendido logo em seguida.

O helicóptero dispara rajadas de metralhadora e quando a poeira baixa os pilotos comentam que há "um monte de corpos" caídos no chão. "Olha todos estes bastardos mortos (...) Que lindo".

Logo depois da primeira sequência de disparos, homens em uma van tentam socorrer os feridos, mas o veículo é atacado pelo helicóptero, e duas crianças são feridas no carro.

Posteriormente, entre os mortos no ataque são identificados Namir Noor-Eldeen e Saeed Chmagh.

Um oficial do Exército americano, que pediu para não ser identificado, disse à AFP que o vídeo é verdadeiro.

"Reconhecemos que o ataque ocorreu e que dois funcionários da Reuters" morreram no incidente. "Também sabemos que duas crianças ficaram feridas", disse o oficial. "Naquele momento não pudemos distinguir se levavam câmeras ou armas".

O site não revela como obteve as imagens do incidente, ocorrido em julho de 2007 e divulgado hoje no Youtube.

WikiLeaks se apresenta como uma organização sem fins lucrativos financiada por defensores dos direitos humanos, jornalistas e o público em geral.

Os Estados Unidos invadiram o Iraque no início de 2003 alegando que o governo iraquiano tinha armas de destruição em massa, mas tal armamento jamais foi encontrado. Desde então, tropas americanas permanecem no território iraquiano.

WikiLeaks Video shows U.S. Apache helicopter attack that killed reporters,in Bagdad ,Iraq

O que quer que seja – novo modelo de divulgação de informação, novo modelo de financiamento do jornalismo –, o WikiLeaks é um modelo que deve ficar marcado pela personalidade de Julian Assange. Resta saber se ganhará vida própria.

Fonte: Observatório da Imprensa

abril 02, 2010

Liberdade de Informação

Unesco oferece o livro “Liberdade de Informação: um Estudo de Direito Comparado”

O escritório da Unesco no Brasil contactou a Transparência Brasil para sondar o interesse dos nossos associados e parceiros em adquirir o livro “Liberdade de Informação: um Estudo de Direito Comparado”, de Toby Mendel.

Lançado recentemente pelo setor de Comunicação e Informação do escritório da Unesco no Brasil, o livro tem tradução para o português feita a partir da segunda edição, revisada e ampliada, da obra Freedom of Information: A Comparative Legal Survey, lançada originalmente em inglês em 2008.

A obra apresenta uma visão geral de exemplos concretos de boas práticas nessa área e analisa a legislação sobre a liberdade de informação e o direito a informação de 14 países, destacando aspectos positivos e problemas das leis em vigor ao redor do mundo.

Se você se interessar em adquirir, sem custo algum, um ou mais exemplares de “Liberdade de Informação: um Estudo de Direito Comparado”, escreva para grupoeditorial@unesco.org.br, indicando um endereço postal para o envio do livro.

Consulte sempre o projeto Excelências, que traz informações aprofundadas sobre os 2.368 integrantes de todas as principais Casas legislativas brasileiras: processos na Justiça, doações eleitorais, como gastam o dinheiro que recebem e muito mais. Aqui.

Visite todos os dias o projeto Deu no Jornal, que traz o noticiário sobre corrupção e controle publicado em jornais e revistas de todo o país. Aqui.

Acostume-se a consultar o projeto Às Claras, que traz informações sobre quem paga quem em eleições. Aqui.

Acompanhe a Transparência Brasil no Twitter. Aqui.

Fonte: Transparência Brasil
Posted by Picasa

janeiro 04, 2010

Os “argumentos” contra Battisti

Inquisição
Ilustração postada em Consciência.Net

Os “argumentos” contra Battisti

Por Carlos Lungarzo em 04/01/2010
Anistia Internacional

Há uma tendência na esquerda, e entre os partidários de tendências iluministas, humanistas e libertárias em geral a identificar a qualidade ética de uma pessoa com sua inteligência, agudeza e informação. Isto parece uma adesão à antiga identidade entre o bem e a razão ou, em termos mais modernos, entre o espírito humanitário e altruísta e a capacidade de argumentação.

Esta identificação está presente nos filósofos gregos, especialmente em Platão, mas também nos hedonistas e nos epicúreos, atravessa a obra de Descartes, vira um assunto central nos cientistas pós-newtonianos, e se torna quase um dogma para a geração Iluminista do século 18. Este intelectualismo está presente nas cartas trocadas por Marx e Engels, que não ocultavam seu desprezo pelos raciocínios grosseiros das elites, pela ignorância de nobres, militares e burocratas e pela barbárie cultural da direita. Inclusive, apesar de sua injusta desconfiança do anarquismo, Marx emocionou-se até chorar ao lembrar o talento de Bakunin, durante o funeral deste em 02/09/1853. (Marx-Engels-Werke, V. 12, p. 284).

Outro fato que reafirma, pela negativa, a relação entre ética e inteligência, é que, durante o forte misticismo ocidental (sec. 4º ao 16º) quando o ser humano foi mais humilhado, ao mesmo tempo a ciência e o conhecimento crítico desapareceram até Galileu.

Entretanto, não é possível tomar a relação moral/inteligência como uma verdade absoluta. Isso criaria uma hierarquia moral das pessoas em função de suas capacidades, o que é uma visão reacionária do mundo. Lembremos, além disso, que simpatizantes do nazismo, como Max Plank e Heisenberg, foram mentes brilhantes em suas especialidade e que Enrico Fermi foi um homem muito inteligente, apesar de ter contribuído a criar a primeira bomba nuclear.

Em minha opinião, a relação precisa entre inteligência e ética é difícil de especificar e talvez precisemos muitas décadas de psicologia para conhece-la num 50%, se tanto. Entretanto, é evidente uma conexão estreita entre ambas, como o mostram os exemplos: é quase impossível encontrar um ditador inteligente, um genocida com algum talento universal, um racista com alguma compreensão do mundo, uma pessoa preconceituosa que impressione por sua racionalidade. Existem muitos casos de pessoas sem escrúpulos com grandes destrezas específicas, mas é difícil encontrar algumas dotadas de inteligência ampla.

Por que toda esta reflexão? Há um ano que, por causa da concessão de seu refúgio/asilo, Cesare Battisti virou conhecido e a opinião pública se dividiu entre os que pediam sua liberdade e os que exigiam sua deportação. Durante este ano, li o equivalente a dúzias de milhares de páginas de jornais, revistas e documentos, e fiquei estarrecido ao fazer uma comprovação:

Nenhum dos argumentos contra Battisti demonstrava a mínima racionalidade, o menor uso de pensamento ou sensibilidade. Como disse antes, não acho que uma cognição apurada implique necessariamente grande estatura moral, nem vice-versa, mas fiquei apavorado pela relação evidente entre pensamento brutal e grosseiro com ódio pelo refugiado.

Acredito, sim, que existam pessoas autocentradas, sem interesse no próximo, que possuam uma visão do mundo bastante ampla. Um destes casos era Leonardo da Vinci, considerado por seus biógrafos mais atuais como egoísta e violento.

Entretanto, as coisas mudam quando aparece um componente de ódio, uma espécie de fanatismo contra tudo o que é diferente, como o que caracteriza o machismo, o racismo, a xenofobia, o imperialismo, o linchamento e todos os sentimentos de direita em geral. Nesses casos, ou a inteligência não é suficiente para evitar a contaminação pelo ódio, ou então, a prevalência do ódio faz aparecer a inteligência como difusa, esvaída, quase inexistente.

Não quero dizer que alguém que sustenta uma posição não-humanitária possua, necessariamente, um entendimento tacanho, embora isso quase sempre acontece. Tenho uma experiência interessante sobre isso. Conheci a Ayres Britto depois de ele ter votado pela extradição, e me surpreendi ao compara-lo com os outros quatro juízes que votaram no mesmo sentido (com os que, afortunadamente, não devi conversar). Britto é um homem cordial, desprovido da empáfia jurídica, um temperamento simples: escreve poesia e gosta de Chico Buarque. Sabe conversar sobre coisas que não estão nos códigos. Aliás, ele não tinha nenhum ódio contra Battisti. Se eu entendi bem, ele achou que não havia motivos para negar a extradição, assim de simples. Se Itália o pedia, saberia por que. Não era submissão à autoridade, apenas rotina. Se alguém morria por isso, não era seu assunto.

Ele não estava contente por entregar uma vítima aos La Russa e os d’Alema da vida. Simplesmente, fez o que parecia mais linear. Afinal, a justiça formal é isso. Então, percebi que era uma pessoa inteligente que não camuflava seus pensamentos: justiça formal nada tem a ver com verdade ou humanismo; é um trabalho.

Mas, não quero referir-me aos que apenas “votariam” contra Battisti, mas aos que estão engajados na causa de triturar uma pessoa para eles desconhecida, que lês estorva por vários motivos:

(1) Porque representa a esquerda. (2) Porque desafia sem temor o terrorismo de estado. (3) Porque não se ajoelha. (4) Porque é uma mente criativa. (5) Porque têm amigos de uma qualidade que seus inimigos nunca reuniriam nem em várias reencarnações. A maior atriz européia dos anos 50, Jeanne Moreau, o Nobel de Literatura Garcia Marques, a talvez maior romancista de enredos policiais das últimas décadas, Fred Vargas, grandes advogados, líderes políticos franceses, e também os melhores amigos brasileiros: Suplicy, José Nery, Luiz Couto e outros.

Essas pessoas que odeiam Battisti não conseguem produzir um argumento bom. Foi por isso que decidi classificar os “argumentos” contra Battisti em várias espécies. Acredito, porém, que esta é uma obra para toda uma equipe e quaisquer enriquecimentos a meu trabalho (muito pretensioso para uma vida só) serão bem-vindos.

Observação: Não gosto de entrar em polêmicas. Se você defende honestamente, de maneira errada ou certa, uma causa, o pior que pode fazer é tornar sua causa um espetáculo de circo. Por isso também não gosto citar ninguém, salvo fontes de mérito que menciono como prova. Neste caso deve ser diferente, mas apenas menciono os autores para que o leitor, se quiser, possa encontrar o assunto mencionado.

A Crítica Através do Elogio

Em alguns casos, o crítico (ou crítica) acha mais confortável elogiar a alguém que ataca Battisti, do que ele próprio fazer sua argumentação. No caso de pessoas ligadas ao direito, uma maneira habitual é tecer uma série mirabolante de elogios a qualquer frase trivial que tenha dito um magistrado inimigo do escritor italiano.

É o caso, entre milhares de outros, do senhor Daniel Bialski, num trabalho intitulado Interesse em Extradição de Battisti é incomum, que me pareceu o mais paradigmático pela bizarrice e servilismo de seus elogios.

http://br.groups.yahoo.com/group/niem_rj/message/5573

“O que se teria visto, na visão do eminente e futuro presidente da Corte Suprema, ministro Peluso, [...] que é atribuição exclusiva da Excelsa Corte.” (Grifos meus)

Existem muitos outros casos que não merecem ser citados, porque não são tão grotescos, mas em todos eles se elogia cafonamente, seja o magistrado, seja a “obra da sua lavra” (ou seja, o escrito de sua autoria). Dessa maneira, se dá um tiro por elevação contra Battisti, usando munição alheia.

Este fenômeno faz parte de um fetichismo, pelo qual se transformam em reais, e até em antropomórficas, entidades que são puras abstrações conceituais. Por exemplo, se elogia a cultura italiana, como se toda Itália fosse um organismo homogêneo que atua sempre da mesma maneira, ou se atribui sacralidade a simples funções profissionais de uma pessoa, por exemplo: “o sábio julgador”.

Comparações Sinistras

Às vezes, para descompor Battisti, os autores usam comparações que são simplesmente repugnantes. É o caso de Alon Feuerwerker, em Diversos pesos, diversas medidas, cuja matéria começa assim:

http://br.groups.yahoo.com/group/niem_rj/message/5573

“A operação política para salvar Battisti decorre de ele ter origem na esquerda. Fosse um militar argentino condenado por crimes na ditadura, estariam os mesmos exigindo, já, sua extradição para Buenos Aires.”

Essa comparação não mede só o nível ético do autor, mas também o cognitivo. Alguém que compara um acusado qualquer (mesmo se fosse o pior criminal comum do mundo, mesmo se fosse o atual chefe de Al-Qaida), com genocidas patológicos e torturadores insanos do exército argentino, demonstra pouca fineza cognitiva. A maioria dos que concedem algum valor aos genocidas argentinos, chilenos ou brasileiros (ao ponto de comparar-los com outras pessoas), costumam ter a esperteza de ocultar suas intenções.

Uma pessoa melhor dotada teria dito: “fosse um fascista…” Aliás, estaria perto da realidade, porque há um fascista italiano que seu governo “simula” querer extraditar. Aliás, para dar palpite num assunto que parece ser sobre direito, o autor conhece pouco: parece que não sabe que “crimes de lesa humanidade” são uma espécie diferente dos políticos e dos comuns.

A posição dos defensores de DH é que, se o fascista não cometeu crimes contra humanidade, deve receber a mesma proteção que Battisti, caso que realmente a Itália o quisesse extraditar, o que parece ridículo.

A Linguagem Injuriosa

Um terrorista, por definição, é uma pessoa que pratica terrorismo. É difícil que alguém que esteja fechado numa prisão durante o dia todo pratique terrorismo. Entretanto, a Folha de S. Paulo chama Battisti de terrorista desde que caiu preso. Um amigo meu mando uma carta à Folha e, como jornal aberto e respeitoso da liberdade de imprensa, substituiu “terrorista” por “ex-terrorista” por algumas semanas. (Posteriormente, voltou a usar terrorista, que causa mais impacto).

Além disso, terrorismo é um termo definido numa comunicação das Nações Unidas que, apesar de não estar aprovada por todos os membros, tem ampla credibilidade. Mas, se os jornalistas querem usar uma definição vernácula, podem ler a ementa de Extradição de novembro de 1989 (República Argentina contra Fernando Falco; denegada), onde o relator Sepúlveda Pertence diz claramente, que uma ação violenta só pode ser chamada terrorista “se utiliza armas de perigo comum (como explosivos ou canhões) e coloca massivamente em perigo a população civil”.

Se Battisti tivesse matado essas 4 pessoas, ou ainda, 40 pessoas, uma por uma e usando uma pistola, seria um assassino, mas ainda assim não seria um terrorista.

O Critério de Autoridade

Isto é muito comum no Direito, na vida comum, e em qualquer atividade não científica. Aliás, é típico das crenças políticas fanáticas, as religiosas e as morais, que não tenham base no direito natural. Entretanto, no caso Battisti o abuso aberrante e servil do critério de autoridade chegou às alturas.

Quando o senador Suplicy, num de seus típicos atos se simplicidade, humanidade e grandeza, levou ao Senado um documento redigido pela romancista Fred Vargas, alguns dos gênios togados foram tocados pela histeria. Como era isso possível: “alguém de fora” (que não é juiz, nem mesmo advogado) vai lançar no rosto do relator todas as infâmias cometidas.

De fato, os que assim chiaram eram coerentes. A justiça não é uma coisa pública: é propriedade privada de uma sociedade secreta que decide a contramão da verdade, da lógica e do bom senso, segundo sua conveniência profissional ou… de outro tipo. Esse documento continha 13 perguntas magnificamente colocadas, com impecável referência às fontes, onde a escritora descrevia as fraudes, distorções e omissões dolosas feitas no relatório. Por sinal, a carta de Fred estava redigida num estilo educado, porém respeitoso demais para o que merecem jogadores de cartas marcadas.

Veja o link: http://cesarelivre.org/node/143

Agora, um caso geral: a aceitação de todos os linchadores de que Battisti realmente matou 4 pessoas. Isto não é apenas uma crendice da massa desinformada, mas também uma forma de legalizar uma mentira. Qual é a vantagem? É a de ter um bode expiatório. Todos os que conhecem as religiões monoteístas (a imensa maioria do país) sabem o que isso significa. É alguém para destruir, como a Geni da música de Chico Buarque.

Obviamente, a mesma lei justifica esta aberração. A pessoa pode ser extraditada sem verificar se teve o devido processo. Basta que tenham todos carimbos necessários. Hoje, é óbvio que os crimes atribuídos a Battisti não estão provados por evidências tangíveis, que não há testemunhas que não sejam falsas ou compradas, que não houve advogados e, ainda, que os autores dos quatro assassinatos estão perfeitamente identificados.

Se as pessoas que escrevem em jornais, blogs, etc., que Battisti matou quatro pessoas, afirmassem, com as mesmas provas, que João da Silva deu um cheque sem fundo, seriam imediatamente processados por calúnia.

Finalmente, um caso exacerbado de servilismo com a autoridade, que chega a negar a mesma realidade: é a refutação que o Relator do Caso Battisti faz do terrorismo de estado na Itália descrito, de maneira exageradamente tênue e light por Tarso Genro.

Qualquer pessoa informada, mesmo muito jovem (há muitos exemplos em quase adolescentes que escrevem blogs maravilhosos) sabe que entre 1969 e 1981, houve na Itália um enorme número de atentados a bomba em locais públicos, com milhares de civis mutilados, incluindo crianças e mulheres, e centenas de mortos. Quando o relator escreve isso em seu tóxico libelo, leva o assunto na brincadeira. Numa linguagem muito mais austera, como cabe ao bom juridiquês, disse coisas como estas.

“Vamos, seu Tarso. Não venha com manhas. Essa história de terrorismo fascista, sim, eu também ouvi falar, mas não houve nenhuma condena. Chega de brincadeira”.

Uso de Linguagem Hermética

O recurso ao juridiquês é um dos truques preferidos para que nada se entenda. Seu uso é tão perverso que, ás vezes, nem os mesmos colegas de aqueles que o usam conseguem entender se seu cúmplice diz A, ou disse não A. Em parte, isto provocou várias confusões no STF, especialmente quando o famigerado julgamento das “células tronco”.

O relatório sobre Battisti está contaminado por juridiquês de alerta vermelho, entremeado ainda por versões bilíngües de textos (sic) e outros elementos confusionais. Entretanto, prefiro citar um texto desconhecido onde se usa um termo em juridiquês que é hermético até pelos leguleios mais rançosos. É sempre falando em Battisti:

“A Suprema Corte, então, rejeitou os argumentos da mavórtica defesa do extraditando e deferiu o pedido do governo italiano, fazendo o controle da legalidade necessário, fundamentando-a.”

Bialski, Interesse (mesmo link).

Você sabe o que é mavórtica? Nem eu. Procurei no Google, um buscador que traz milhões de entradas para qualquer termo, mesmo que seja em tamil ou húngaro, mas aqui só tinha 91. A maioria eram perguntas desesperadas (de quem?) pedindo ajuda sobre o significado da palavrinha. Por aí, apareceu alguém que explicou que “mavórtica” é feminino de “mavórtico”, que deriva de Marte, o Deus da Guerra. Então, no contexto de nosso erudito, a defesa dos advogados de Battisti era guerreira ou belicosa. Cuidado. Se vocês conhecem a Greenhalgh ou Barroso, que são dois advogados muito simpáticos, não os chamem de “mavórticos” sem antes explicar qual é a fonte.

Estimulando os Traumas do Leitor

Um fato muito comum na Revista Carta Capital (que foi considerada durante muito tempo, por razões que desconheço, um veículo da centro-esquerda), é atribuir a Battisti, de maneira real o fingida, atos que impressionam negativamente ao leitor, que se sente amedrontado por ele.

Num dos maiores abismos da baixaria, um dos chefões da revista (não lembro qual de ambos) descreve um fato que não aparece em nenhum auto, e que nem a própria embaixada, com toda sua política suja, colocou em evidência: trata-se de aventuras sexuais da adolescência do escritor!

Outro caso, este muito mais grave, é estimular o medo ao terrorismo. Num operativo de incrível cinismo, uma combinação que envolvia um promotor, um alto oficial da polícia federal, e um juiz, se atribuiu a Battisti uma conexão com a Brigada Vermelha (em singular). Essa organização deve ser muito clandestina, pois ninguém ouviu falar nela, apenas da sua parente em plural. Só que as brigadas se dissolveram faz vários anos. Polícia, juiz e MP atribuem a Battisti propriedades mediúnicas, porque eles dizem que se comunica por computador com os brigadistas.

Pressionados pelo corajoso advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, um daqueles elementos reconheceu que não era nada grave, que houve uma confusão. Finalmente, outro se desculpou, e disse que levou isso a sério porque receberam denúncias da Embaixada Italiana.

Falácias Diversas

Existem falácias puramente formais (semelhantes a erros lógicos) e falácias de conteúdo. Falácia de conteúdo para gente grande, é uma que se encontra num trabalho de Carlos Veloso: http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=15883

“O Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Extradição 232-Cuba, [...] decidiu que “a concessão de asilo diplomático ou territorial não impede, só por si, extradição, cuja procedência é apreciada pelo STF [...]. Na Extradição 524-Paraguai, o Supremo Tribunal decidiu que “não há incompatibilidade absoluta entre o instituto do asilo político e o da extradição passiva

O que sua excelência não diz, é que a extradição 232 é quase 30 anos anterior à lei 9474, e a ext. 524, cerca de 5 anos anterior. Nessa lei, se afirma claramente (art. 33) que a concessão de refúgio elimina qualquer processo de extradição. O ministro não deve pretender, supomos, que dois casos de jurisprudência são mais fortes do que uma lei… mesmo sendo alheio ao mundo do direito, tal conclusão me parece esquisita.

Aqui, muitos poderiam pensar que o ministro demonstrou astúcia (que é uma prima afastada e encrenqueira da inteligência). Mas, não foi bem assim. Qualquer pessoa com mínimo de curiosidade poderia ler os acórdãos dessas duas extradições no arquivo do Supremo, e mandar o escrito do ilustre ministro à lata de lixo, data venia, é claro.

Erros Lógicos

Os erros lógicos são muito freqüentes, porque, como disse acima, verdade, fatos concretos e raciocínios são alheios a um mundo onde vale: convicção suspeita e retórica. Mas encontrei um erro maravilhoso. Ele teria sido ótimo em minhas épocas de professor básico para dar como exercício aos alunos da 5ª. série.

O texto é novamente de Bialski (ibid, nota 1)

“É induvidosa a mencionada exigência de controle, pelo quanto dispõe o artigo 83 da Lei 68215/80 e do artigo 207 do Re­gimento Interno da Suprema Corte Federal: ”Não se concederá extradição sem prévio pronunciamento do Supremo Tribunal Federal sobre a legalidade e a pro­cedência do pedido, observada a legislação vigente” (grifo meu)

Neste caso, não cabe ser muito severo com o jurista, porque nas faculdades de direito os professores de lógica não são matemáticos nem lingüistas, mas, em geral, outros juristas. O erro que comete o autor não é de má fé. Qualquer professor sabe que ele deve acreditar nisso, mas um aluno da 5ª. série dos dias de hoje lhe mostraria onde está a charada.

Dizer “Não se concederá extradição sem prévio pronunciamento”, tem a forma lógica “Não haverá X, sem haver Y” e, portanto significa para que haja X, deve haver Y. Ou seja, Y (prévio pronunciamento) é condição necessária para X. Porém, não é suficiente, já que então teria a forma: “Se houver Y (pronunciamento prévio) então poderá haver X (extradição)”.

Quando uma condição é necessária e suficiente, diz-se: X se e somente se Y, ou coisa que o valha. Por exemplo: “Não haverá extradição sem prévio pronunciamento”, e, reciprocamente, “se houver pronunciamento (positivo) então haverá extradição (a extradição será obrigatória)”.

A lei diz, então, que, se uma pessoa for extraditada, será necessário que sua extradição seja aprovada (autorizada, permitida, etc.) pelo STF. Mas, não diz que: “Se o STF aprova a extradição, então, esta deverá ser realizada”.

A forma lógica de ambos os enunciados, fica bem evidenciada com estes dois exemplos:

“Não se financia a compra de carro Ferrari, sem que o candidato tenha ficha criminal limpa”

Então, um criminoso não pode financiar uma Ferrari. Deve ter ficha limpa para isso. Mas, será suficiente? Certamente não. A empresa deve exigir que você tenha um salário de vários milhares de reais e, além disso, algum avalista. Ou seja, não por você ter ficha limpa, vai conseguir financiamento para uma Ferrari, se você ganhar um salário mínimo.

Este erro trivial pode deixar de DP a um garoto de 12 anos num colégio decente, mas é cometido por pessoas que têm em suas mãos a vida e a liberdade das pessoas!

Esgotamento Mental

Este procedimento consiste em saturar o leitor com um argumento repetido infinitas vezes, até que se torne um automatismo de sua mente. É um equivalente simplório e vulgar daquele ditado de Goebbels, de que qualquer mentira podia ser incutida se for suficientemente “martelada” na mente dos outros. Obviamente, não estou dizendo que os que usam estes argumentos no caso Battisti sejam do nível de Goebbels. Independentemente do mal-estar que produz a imagem do famoso nazista, devemos reconhecer que sua inteligência não era medíocre: foi uma pena que não a usasse para uma finalidade nobre.

No caso de Battisti, o argumento “esmaga cabeça” é o de sempre:

E, aí… e os boxeadores cubanos?

Aqui não preciso mencionar ninguém, porque este argumento foi usado mais de 1000 vezes, pelas figuras mais diversas: linchadores que escrevem comentários em jornais, apresentadores de TV, parlamentares do DEM, advogados de porta de cadeia, etc..

Eu também pergunto: e aí? Porque nunca foi provado, que eu saiba, que os boxeadores realmente queriam refúgio. Os que dizem que o governo não deseja desagradar a Fidel Castro estão no porão da inteligência biológica. Como explicam, então, que mais de 100 cubanos estejam refugiados no Brasil, incluindo outros atletas olímpicos? O será que Fidel só gosta de boxeadores, todos os outros podem ir embora?

Se eles pediram refúgio e foi negado, obviamente foi uma grave falência do governo e deve ser criticado por isso. Entretanto, nenhum deles, que eu saiba, estava ameaçado de morrer linchado numa cela sem luz.

Conclusão

Não sou das pessoas que odeiam seus inimigos. Pelo contrário, acho que muito de meus inimigos são meus grandes marketeiros. Saber que eles me odeiam me faz sentir que estou no caminho certo.

Tampouco tenho nada pessoal contra a direita. Um dos acusadores do sangrento tirano Pinochet, quando ficou retido em Londres, e depois liberado pela politicagem internacional, era um lord, membro do Partido Conservador. Creio que existe uma diferença conceitual definível entre direita e esquerda, mas como toda divisão de propriedades contínuas possui áreas difusas.

O que me deixa mais abismado no caso de Battisti, é o fato de não ter encontrado nem uma pessoa de certo valor humano entre seus inimigos. Há um jornalista que respeito e que é favorável a extradição, mas não parece ter nenhum ódio especial, nem faz disso sua militância. Acredito quê seja uma seqüela do confronto entre setores políticos dos anos 70.

Mas, fora disso, me deprime que todos os que eu tenho lido (deve haver outros que não conheço) são pessoas rançosas, pensamentos tacanhos e medíocres, sádicos frustrados, mentes servis e rotineiras, puxadores de saco das grandes empresas, partidos ou meios de comunicação, propagadores das mentiras mais brutas com a maior naturalidade, e órfãos de qualquer informação séria.

Poderia falar do outro lado, mas isso fica para outro momento. Além do mais nobre e honesto do Parlamento, estão de nosso lado os melhores juristas brasileiros, os quatro ministros que sustentam a honra da justiça brasileira, os jornalistas mais verazes e corajosos, as pessoas da rua que arriscam muito, porque ninguém sabe como se fará sentir a retaliação daquele mundo regido pela máfia, a igreja, o fascismo, e as organizações secretas.

Texto publicado em 04/01/2010 na(s) seção(ões) Opinião.

Fonte: www.consciencia.net
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novembro 20, 2009

Informação não é mercadoria e internet não é ameaça à liberdade


Antena Negra TV - Argentina

Luta pela Internet Livre avança

Caros,

Avançou a mobilização contra o Projeto de Lei do Senador Eduardo Azeredo que criminaliza práticas comuns na Internet no Brasil, como a troca de arquivos P2P e o anonimato na rede.

Em 2008 o projeto foi aprovado pelo Senado Federal e encaminhado à Câmara dos Deputados para nova tramitação.

A sociedade civil organizou-se e conseguiu emperrar a votação do Projeto de Lei, mas ele ainda é uma ameaça à nossa liberdade.

Conseguimos fazer com que o Ministério da Justiça lançasse uma consulta pública para que o Brasil tenha um Marco Regulatório Civil na Internet.

(Leia mais)

Precisamos agora que todos os que defendem a Internet Livre entrem no blog www.culturadigital.br/marcocivil ou no twitter www.twitter.com/marcocivil e exijam
das autoridades nossos direitos!

Propomos que sejam considerados direitos dos cidadãos os seguintes pontos:

* Todos os brasileiros têm o direito ao acesso à Internet sem distinção de renda, classe, credo, raça, cor, opção sexual, sem discriminação física ou cultural

* Todos internautas têm o direito à acessibilidade plena, independente das dificuldades físicas ou cognitivas que possam ter.

* Todos cidadãos brasileiros têm o direito de abrir suas redes e compartilhar o seu sinal de internet, com ou sem fio.

* Todos os cidadãos têm o direito à comunicação não-vigiada.

* Todo internauta tem o direito à navegação livre, anônima, sem interferência e sem que seu rastro digital seja identificado e armazenado pelas corporações, pelos governos ou por outras
pessoas, sem a sua autorização.

* Todo interagente tem o direito de compartilhar arquivos pelas redes P2P sem que nenhuma corporação filtre ou defina o que ele deve ou não comunicar.

* Todo cidadão tem o direito que seu computador não seja invadido, nem que seus dados sejam violados por crackers, corporações ou por mecanismos de DRM.

* Todo brasileiro tem direito a cópia de arquivos na rede para seu uso justo e não-comercial.

* Todo cidadão tem direito de acessar informações públicas em sites da Internet sem discriminação de sistema operacional, navegador ou plataforma computacional utilizada.

* Toda pessoa tem o direito a escrever em blogs e participar de redes sociais com seu nome, com codinome ou anonimamente.

* Todo blogueiro tem o direito de aceitar ou não comentários anônimos, não sendo responsável pelo seu teor.

Que o Brasil tenha um Marco Regulatório Civil na Internet!