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agosto 22, 2010

Democracia e eleições no CFP

ozp11 | 27 de julho de 2007
Marcus Vinícius conta a história recente dos conselhos de psicologia e do cuidar da profissão

Nota do blog: No vídeo acima vê-se o psicólogo Marcus Vinicius de Oliveira, professor da Universidade Federal da Bahia, na campanha de 2007. 

Nota do blog: No limite do que impõe a ética, este blog deixa de identificar o nome da opositora do companheiro Marcus Vinicius de Oliveira, militante antimanicomial, ex-vice presidente do Conselho Federal de Psicologia, mas preserva o conteúdo do texto em que "Vivi" (nome fictício), incomodada com a contra-argumentação do seu opositor, num texto em que ele a refuta sobre suposta falta de democracia interna no CFP, resolve apelar para um infeliz artifício de linguagem. Leia abaixo o texto de "Vivi", e em seguida a resposta de Marcus Vinicius.


Sr. Marcus Vinicius,

Nada contra que utilize a minha mensagem para fazer campanha em benefício da cha- pa que vem controlando  o CFP nos últimos 15 anos, sob sua liderança.  Trata-se de um interesse legítimo de longa duração.
O que não se pode tolerar é o seu método virulento para fazer calar as pessoas que pensam diferente dos seus interesses: desqualificar, injuriar, jogar o nome das pessoas na lama.  Já vi o senhor batendo em usuários, mulheres e em pessoas idosas, parece, que os supostos fracos são o seu alvo.
Afirmo  que não é mais possível calar diante de tamanha violência que o senhor pratica diante de posições contrárias as suas. Não é admissível que nesta rede em defesa de uma nova ética do cuidado, tenhamos que calar nossas posições,  pois se expressarmos pensamentos divergentes, o mais do que  previsível é a intimidação. O que significa isso?
Quero afirmar o meu direito de manifestar o meu apoio à Chapa 22,  justamente por ver nesta nova composição uma possibilidade real do CFP se comportar como uma Autarquia Pública de interesse coletivo e público, sem se confundir e muito menos de se afirmar como Sociedade Civil. É na condição de sua natureza governamental de administração pública, pelo interesse de todos, que o CFP jamais poderia ter apoiado de forma sectária apenas a Renila, um dos movimentos sociais da Luta Antimanicomial.  
Ainda esclareço que o IFB, entidade ao qual o Sr. se refere,  não é OSCIP, e nunca foi gestora de serviços municipais.

Quero registrar ainda meu respeito aos companheiros e companheiras desta rede que apóiam a chapa CFP da situação, que conta com importantes e respeitosos nomes do campo, não se referindo, pois, ao mérito da Chapa, mas de significar meu desejo de renovação e de concepções mais dialógicas, sem que para isso tenhamos que passar por tamanhos constrangimentos.

"Vivi"
 ***


Sra. "Vivi",

Diferentemente do nariz de cera da truculência e da violência que a Sra pretende me aplicar sou apenas uma pessoa que leva a sério na política, as falas e os comportamentos e principalmente a coerência entre os textos e o atos... Levo meus interlocutores a sério e gasto com eles tantas palavras quanto me pareçam necessário para expressar os meus pontos de vista e as contradições do discurso alheio... isso é o mero exércio socrático da política! Da sabedoria negra da Bahia aprendi: Quem não pode com mandinga não carrega patuá!

Virulência senhora "Vivi é a Sra postar na sua mensagem um texto como este:
"Já vi o senhor batendo em usuários, mulheres e em pessoas idosas, parece, que os supostos fracos são o seu alvo". A Sra certamente conhece o texto do Freud "Uma criança é espancada" e sabe que é pura leviandade de sua parte não colocar aspas na palavra "batendo", deslocando a condição metafórica do uso e fazendo assim projetar imagens que efetivamente não correspondem aos fatos... Sou na maior parte do tempo, inclusive na política, uma pessoa sensível, solidária, doce e afetuosa, tenho milhares de amigos e aliados e apesar disso, não o lamento, alguns não me apreciam porque lhes contrario em seus interesses e posições....

 A Sra, que me acusa indignada de violência, pelo fato de ter objetado respeitosamente a sua "ingenua" e "pura" (isso é só ironia) mensagem de apoio à oposição do CFP, pretenderia com essa mensagem oferecer aos integrantes dessa lista, sobretudo aos que que não me conhecem, a idéia de que efetivamente comento atos de violência fisica contra usuarios, mulheres, idosos? Que eu sou um contumaz espancador de fracos? É isso Sra Neli? A Sra já presenciou efetivamente alguma situação em que eu bati ou espanquei alguém nessas condições? Se não, seria honesto de sua parte retornar a essa lista com boas explicações...

Sobre o debate político com os supostos "fracos",  aprendi ao longo tempo que o respeito é devido a todos indistintamente, mas é sempre preciso cuidado para discernir pois canalhas tambem envelhecem e podem se comportar como meros "aproveitadores"; que na política eventualmente a identidade de usuários pode ser usada também para a mera manipulação, inclusive dos donos de hospitais psiquiátricos e que as mulheres sabem se defender muito bem,  quando o assunto é o manejo da língua ferina!!


Aprendi tambem com meus avós que aquele que fala o que quer, ouve o que não quer!!!! Eu por exemplo não postei aqui nenhuma mensagem quando a chapa de oposição ao CFP se utilizou desta lista para postar o seu próprio programa. Não os constestei.... e não o fiz porque, sinceramente, acho que nas listas da internet devemos nos guiar por uma "netiqueta" que informa que até podemos, mas não devemos, aporrinhar as caixas de mensagens alheias com temas que desviem o foco daquilo que produz a unidade dos interesses específicos daquela lista... Mas as pessoas em geral acham que podem fazer os seus proselitismos políticos na internet sem maiores consequências, oferecendo gatos por lebres, sem qualquer tipo de onus pessoal pelas suas afirmações...

O que quis demonstrar com minha resposta  é que a sua manifestação de apoio era injusta em relação ao tema da democracia interna  no CFP e é injusta e desqualificadora essa idéia de um  grupo que "controla" o CFP nos últimos 15 anos... como se fizessemos parte de uma  "geração de pelegos" que se reproduz ilegitimamente na gestão daquela entidade... O que insisto em afirmar é que a organização politica é um pressuposto fundamental da Democracia, que aqueles que tem algum projeto de transformação devem efetivamente se organizar sem ter medo do poder e sem medo de ser feliz!!!!! E nessa história da organização política o CFP tenho a honra de efetivamente ter gasto boas horas da minha vida pessoal para contribuir com estes colegas que me honram hoje com a condição de companheiros de militância... Busco sempre andar em boa companhia na política....

O que a sua mensagem ocultava  é o mérito do esforço deste grupo para retirar o CFP da insignificância institucional que o caracterizava pra projetá-lo hoje como uma entidade que é modelo de democracia institucional, transparência na gestão dos recursos públicos, linha de frente da luta política por um país efetivamente republicano e campeão na luta pela adoção de políticas públicas, capazes de ampliar a cidadania, os direitos humanos, além de garantir a ampliação da empregabilidade  dos nossos colegas, os 230.000 psicólogos que estão inscritos na entidade..

Acho o mote dos aliados da Coordenação Nacional de Saúde Mental no debate político, ao se fazerem oposição à atual direção do CFP  é muito frágil, quando se prestam às ambições totalitárias da produção de unanimidade para uma mera política setorial. O CFP hoje, fruto das concepções arrojadas do grupo que o dirige  se relaciona com o Estado Brasileiro em múltiplas frentes das políticas públicas - Direitos Humanos, Segurança Pública, Sistema Prisional, Criança e Adolescente, Assistencia Social, Defesa Civil, Relações Exteriores, etc etc, E na propria politica de saúde em várias outras frentes como Educação Permanente, ANS, Saúde Materno Infantil,  Atenção básica, Saúde do idoso etc, etc...  Em todas elas a nossa parceria nunca implicou na perda da nossa autonomia de critica...  Toda política sempre será marcada por lacunas, todo gestor público poderá ser questionado sobre a diferença entre o que se pode fazer e o que se deve fazer... a ambição de se fazer "consensual" as vezes revela apenas um mero delírio de poder...

O espaço dessa lista me limita, mas poderei fazê-lo se instado a isso, apresentar um balanço   das relações políticas da Coordenação Nacional de Saude Mental nas suas relações institucionais truculentas para com o CFP e para com a RENILA do qual igualmente faço parte... fatos que nem sempre são públicos e que na maioria das vezes recebem na versão oficial relatos nem sempre justos... Posso oferecer com detalhes nomes, datas, circunstâncias... Mas o mais importante é registrar, como contraponto democrático é que apesar deste tratamento, ao longo destes anos o Coordenador de Saúde Mental sempre foi um convidado, e compareceu, recebido com elegancia e direito a livre expressão nos eventos mais importantes que o CFP produziu...

Lamentavelmente  para os aliados da atual Coordenação Nacional de Saúde Mental - que hoje estão efetivamente concentrados na chapa de oposição - é que eles não responderam às problematizações que a atual gestão do CFP faz à condução da Política Nacional de Saúde Mental... Eles acham que o PNASCH esta bom? Que o ritmo da desospitalização e do De Volta pra Casa são adequados? Que o "diálogo" inexistente entre os condutores da política e as entidades de trablhadores e movimentos sociais estão na linha certa? O mais importante Sra. "Vivi", num debate político são as propostas... O que os psicólogos precisam para decidir o que é melhor para eles, sobre este tema, não é se existe um ajuntamento de ressentidos que por um motivo ou outro, tiveram os seus interesses pessoais ou políticos contrariados pela atual gestão ...(aqui também eu poderia dar nome aos bois, citando fatos e circustâncias, mas não acho ser esta lista o lugar mais adequado), mas o que pensa e quais são as propostas da oposição para essa politíca em debate...

E isso que os nossos 230.000 colegas psicólogos esperam da próxima gestão do CFP: propostas para enfrentar as complexas realidades da formação profissional, da produções de referências técnicas e éticas para os novos fazeres, das estratégias de produção de empregabilidade sem o recurso dos corporativismos como a oposição que prega  estratégias do 'ato psicologico' nos nivelando em ação política ao odioso "ato médico"!!
Marcus Vinicius de Oliveira
IPSI-UFBA

julho 26, 2010

Reforma, política e ética


Reforma, política e ética

Num encontro recente de médicos, promovido pelo Conselho Regional de Medicina, houve uma manifestação de restrição à reforma psiquiátrica atual, seguida de uma proposta de convívio com o modelo híbrido que tanto criticamos. Reafirmo o que venho escrevendo neste espaço há mais de 280 artigos: hospitais psiquiátricos recauchutados são incompatíveis com a rede de serviços substitutivos ao manicômio.

Numa definição simples, reforma psiquiátrica significa uma nova forma de tratar e acolher pessoas com transtorno mental. Esse novo modo de tratamento tem nos centros de atenção psicossocial, nas oficinas protegidas, na moradia assistida, e em variados tipos de cuidados os instrumentos necessários para evitar o distanciamento do usuário do serviço do seu meio social, consagrado no modelo psiquiátrico tradicional.

Mesmo que a psiquiatria tecnocrática tenha se amparado nos avanços da psicofarmacoterapia, ela tem um significado diferente da cultura construída pelos reformadores psiquiátricos, na medida em que estes últimos incorporaram a questão dos direitos do usuário dos serviços de saúde mental à cidadania plena, e junto com essa o direito à diferença e à sua dignidade. Nunca os cuidados clínicos da psicose, por exemplo, avançaram tanto como na reforma psiquiátrica, para a qual a política e a clínica são indissociáveis. Em causa o desafio crucial representando pela loucura para a ordem simbólica estabelecida.

Pensada à luz do contrato social, a loucura tem sido historicamente refém de um saber que valoriza o indivíduo racional, senhor de si, responsável pelos seus atos. Nada mais anárquico do que a loucura em seus excessos e descaminhos. Ela está para além do contrato social. Trata-se de alguma coisa que ficou de fora e não pode ser controlada.

Daí a naturalidade com que se encarou o seqüestro da cidadania do louco, através da internação sumária. Taí porque a idéia de substituição dos manicômios pelos serviços comunitários de base territorial suscitam reações, suspeitas de contribuição ao fortalecimento da estigmatização social da “doença mental”.

Ora, a resposta à questão da assistência à pessoa com transtorno mental nunca é nem poderá ser unicamente técnica, como nos alerta João Ferreira Filho e Jane Araújo Russo, em artigo publicado no livro organizado pelo psicanalista Antonio Quinet, “Psicanálise e Psiquiatria – controvérsias e convergências”, usado como referência para o presente artigo.

Todas as respostas dadas pela medicina, psiquiatria e profissionais de saúde sempre foram respostas ao significado social da “doença mental”. São elas que contribuem, para o bem e para o mal, com a produção e a transformação desse significado. Daí a impossibilidade de uma discussão meramente técnica, já que esta é indissociável do valor simbólico da doença.

Foi a partir do questionamento das concepções técnica, médica e asséptica da loucura que a reforma psiquiátrica ganhou existência. Até então estava fora de discussão o valor simbólico, socialmente construído, da loucura como acontecimento humano.

Toda teoria sobre a loucura e seu tratamento dizem respeito a crenças e valores sociais, o que implica em escolhas política e ética, se não quisermos incorrer nos mesmos pressupostos em que se basearam a psiquiatria e a medicina legal, que tanto contribuíram para estabelecer diferenças entre aqueles responsáveis pelos seus atos, portanto cidadãos em pleno gozo de seus direitos, daqueles que, por inferioridade moral/biológica (sic), precisam ser tutelados, justificando, assim, uma abominável hierarquia racial, conjugados em torno de um projeto educativo. É tempo de emancipação da loucura dos discursos que a subjugaram.

Manaus, Julho de 2010.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
www.rogeliocasado.blogspot.com

Nota do blog: Artigo publicado no jornal Amazonas em Tempo, na caderno Saúde & Bem Estar.

julho 20, 2010

Anti-herói rompe a monotonia do multiculturalismo e do politicamente correto

Imagem postada em Universal Channel

13/07/2010 - 08:49 | Breno Altman | São Paulo

“House” esculacha a ditadura da ética

 

Os fãs respiram aliviados. Novos episódios da série médica mais aclamada do planeta começaram a ser gravados na semana passada. Apesar de especulações sobre descontinuidade, House entrará, a partir de setembro, nos Estados Unidos, em sua sétima temporada. Os brasileiros, porém, terão que aguardar até o primeiro semestre de 2011.

Criado por David Shore e originalmente exibido pela Fox desde 2004, o teledrama estrelado por Hugh Laurie alcançou, em 2008, o topo dos programas mundialmente mais assistidos: 80 milhões de espectadores em 66 países. Além do sucesso de público, acumula premiações e elogios da crítica.

A que se deve, afinal, o sucesso do clínico arrogante e niilista cujo sobrenome intitula esse campeão de audiência? Muitas poderiam ser as respostas: produção cuidadosa e sofisticada, atores refinados e carismáticos, roteiros criativos e bem-humorados. Cada episódio e cena parecem ser tratados com esmero digno de Francis Ford Copolla, talvez o melhor marceneiro da história do cinema.

Também a originalidade da trama poderia ser uma boa explicação para o fenômeno. Ao contrário de algumas séries médicas mais antigas, o enredo não se desenvolve em paralelo ao drama de saúde e à luta por sua cura. O próprio processo de diagnóstico e tratamento se constitui no nervo exposto de House, abordado como suspense típico de romances policiais e inspirado no Sherlock Holmes de Conan Doyle.

Mas não são apenas razões estéticas que dão vigor ao programa. O personagem central, um anti-herói sarcástico e insensível, provoca os espectadores a reagirem sobre a tensão entre ciência e moral. Gregory House fere quase todo o tempo as normas da ética médica, atropelando o que estiver na sua frente para identificar corretamente a doença e eliminá-la como a um inimigo no campo de batalha.

Suas atitudes são uma constante violação de conduta com pacientes e familiares, colegas e superiores. Submete tudo e a todos ao objetivo de sua profissão, mesmo que o preço a pagar seja o desrespeito a quem o cerca e aos portadores do mal que obstinadamente se dedica a abater. Simplesmente porque não pode haver obstáculo moral à ação científica.

House não atua dessa forma por carreirismo ou vantagens materiais, apenas por compromisso com sua causa. Médico consagrado, vive e trabalha como um estóico. Dirige carros velhos ou motocicletas. Mora em apartamentos simples e antigos. Não ostenta riqueza, somente excentricidades. Tampouco admite complacências que contrariem seus princípios, que aos demais se apresenta como estranho código amoral.

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Eventualmente porque o personagem encarne o axioma maquiavélico sobre os fins justificarem os meios. Seu olhar sobre regras é utilitário. Como se fossem um pacto de convivência que, muitas vezes, bloqueia ou atrapalha a guerra contra enfermidades. Quando é conveniente para sua ação, as respeita. Mas não teme ultrajá-las sem piedade nos momentos que se colocam como empecilhos.

Comparado a outros heróis de novelas médicas - geralmente bonitos, generosos e amistosos -, o doutor House é refém da misantropia. Ainda que trabalhe em equipe, quase sempre rejeita aproximações pessoais. Seus vínculos são com ideias e resultados, que se sobrepõem a sentimentos e afetividades.

A parábola com a política parece inevitável. Gregory House subordina ética à ciência da mesma forma que a esquerda, por exemplo, é acusada pelos liberais de submeter moral à ideologia. A narrativa da série, pelos passos do protagonista, de fato referenda como hipótese a natureza essencialmente conservadora da moralidade, ainda que seja um indispensável marco civilizatório.

Valores perenes e universais, forjados no passado, estabeleceriam um freio ao desenvolvimento se transformados em ditadura sobre a ação humana e científica. House, que esculacha com esse pressuposto em sua atividade profissional, oferece uma alternativa, às vezes esboçada no final de cada episódio. A moral deve estar subjugada aos objetivos científicos, mas não é o mesmo que descartá-la. Trata-se de reconstruí-la, a cada momento, conforme os interesses concretos da humanidade e seus microcosmos.

E por aqui ficamos. Afinal de contas, House não é uma mesa-redonda sobre filosofia. Basta ser o que é: entretenimento inteligente, de alta qualidade, que faz pensar. Um raio no monótono céu azul do multiculturalismo e do politicamente correto, cujo cardápio de boas maneiras frequentemente anestesia o debate de questões fundamentais.


*Breno Altman é jornalista e diretor editorial do site Opera Mundi 

Fonte: Opera Mundi  

junho 19, 2010

Pedofilia: O insuportável peso do Real

Pedofilia
Foto postada em jornalismofm.com.br

Pedofilia

Breno Melaragno - Professor PUC/RJ e Advogado Criminalista * Carlos Fortes - Promotor de Justiça - MG * Leda Nagle * Carlos Eduardo Leal – Psicanalista e escritor * Vladimir Brichta -Ator exclusivo Rede Globo * Talvane de Moraes - Psiquiatra Forense

No dia 16 de abril último, fui convidado a debater sobre a pedofilia no Programa Sem Censura da Leda Nagle, na TVE- Brasil. O tema era sobre o pedreiro Ademar de Jesus que havia matado e tido relações sexuais com 6 jovens em Luisiânia, Go. Mas, obviamente, muitas outras questões foram abordadas.
O sujeito perverso é aquele que diz que "não consegue se conter" e Edimar dizia, "não consigo parar de matar". A perversão se coloca acima da lei. Ele faz suas próprias leis. Não podemos dizer que vivemos cada vez mais numa sociedade perversa, mas numa sociedade ainda fortemente marcada pela neurose com graves traços de perversão. Ou seja, há umfranqueamento muito maior para a perversão, para o ato perverso em nosso meio social. A impunidade é o franchising da perversão. O mal, o mal-estar na civilização é o apagamento do desejo do sujeito frente à avalanche de demandas que o discurso capitalista oferece. Esta fetichização das mercadorias, levam os sujeitos a um "dever de felicidade", como se fosse uma obrigação em ser feliz e uma depressão quando não se é.

Outro fato marcante que também tem acontecido é uma fratura do simbólico. Fratura das relações e dos laços simbólicos. Fratura das leis que regem as relações. Pais e filhos, professores e alunos, mestres e discípulos, patrões e empregados. As relações hierárquicas estão se esfacelando, virando pó (sic). Há micro revoluções não armadas, ou melhor, armadas em salvo-condutos, habeas-corpus, ou pior, a revolução dos celulares com câmeras de vídeo, tornou a todos espiões num reality show jamais visto até então. Todos estão vigiados e vigiam-se mutuamente num grande BBB.

A desestabilização do Imaginário (das garantias imaginárias - certezas construídas ao longo da vida), produz uma quebra, uma ruptura do simbólico (as palavras), fazendo emergir o insuportável peso do Real.

Leia mais em Psicanálise: crítica e ética

Nota do blog: A dica de leitura é da psicanalista Aline Drummond

abril 18, 2010

Por uma ética do respeito



Por uma ética do respeito

Ocupadas as ruas de Brasília, sensibilizadas a opinião pública e o presidente da república, garantida a realização da IV Conferência Nacional de Saúde Mental, eis que a Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial, representada na Comissão Executiva por um usuário e um familiar, não conseguiu emplacar, num dos eixos de discussão, o tema: “Reforma Psiquiátrica Antimanicomial e o SUS”. A aceitação só se deu com a supressão da palavra antimanicomial.

Não é de hoje que convivemos com sinais de enquadramento disciplinar num certo modelo de comportamento. Ora nos submetem ao silêncio, ora afirmam a superioridade dos que sabem o que é bom pra todos nós.

Estamos longe daquilo que Foucault chamou de sociedade “exilante” e “assassinante”, e caminhamos para por fim à sociedade “enclausurante”. Outrora rejeitávamos e mandávamos para o exílio aqueles que não suportávamos. Depois passamos a submeter os acusados a rituais punitivos ou purificadores, que iam da tortura à eliminação física.

Hoje, na sociedade enclausurante, excluímos do circuito social aqueles que não respeitam as normas. Incluir ou excluir é a contrapartida de uma utopia social. Bom e justo é quem está fora da clausura. Nesta estão os culpados. Eis a forma mais bem acabada da descristianização da consciência. Os que estão fora não se responsabilizam pelos que estão dentro.

Até então falava-se em sociedade disciplinar. Hoje há consenso de que vivemos numa sociedade de controle. Nela as formas de coerção tornaram-se sutis, não raro feitas com cortesia.

O diálogo entre a sociedade e seus loucos tem na IV Conferência um espaço privilegiado, acima de divergências teóricas e literárias. Trata-se de abrir espaço para uma consciência que construiu experiências e que não abre mão de fazer circular a informação da reforma e da sociedade que queremos.

É preciso cuidado com a visão burocrática que tem confiscado o direito de reflexão, cálculo e decisão dos movimentos sociais, condenando-nos a ser freio ali onde somos convocados a fazer avançar nossas conquistas.

A Reforma Psiquiátrica brasileira produziu suas verdades, através de olhares diferentes. Mas é preciso estar atento aos discursos. Alguns convivem com práticas submetidas às coações de ações longe dos ideais éticos desse evento histórico inacabado.

Está em jogo o saber acumulado pelo movimento social por uma sociedade sem manicômios. Não se pode submeter à disciplina o que não tem governo, sob pena de levar água para outros moinhos. Há muito perdemos a virgindade política.

Na tarefa de edificação de uma sociedade sem manicômios, as contradições não precisam ser apagadas. Tampouco mascará-las. É preciso aprofundá-las, sem medo de ser feliz.

Acaso teme-se com o aprofundamento das contradições o surgimento da divisão? Ora, ora! A divisão é um fato. Ao criarmos uma nova ideologia – a de uma sociedade sem manicômios –, quem assegura o restabelecimento da unidade? A ruptura com o manicômio não é fruto de mera retórica, mas da reversão da escala de prioridades. Assim como não estamos autorizados a fazer o que quisermos, também não podemos nos deixar levar pela idéia de que aos inimigos da Reforma interessam novas formas de gestão da Saúde Mental. Ora, pois!

Manaus, Abril de 2010.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
Posted by Picasa

abril 14, 2010

Os fundamentos da ética sexual cristã caducaram

Bento XVI
[ Amálgama ]

A ética religiosa da sexualidade

por Fernando da Mota Lima – Bertrand Russell foi provavelmente o filósofo que no decorrer do século XX mais tenazmente combateu a religião. Melhor dizendo, mais combateu o Cristianismo, que é a tradição religiosa hegemônica no Ocidente. Nisso, como em tanto mais, Russell renovou nossa memória de Voltaire, o mais virulento anticlerical dentre os grandes secularistas do Iluminismo. Assistimos hoje a uma renovação da crítica à religião em geral, não apenas ao Cristianismo e suas múltiplas ramificações.

A crítica procede de fontes filosóficas e sobretudo científicas. Procede ainda da aceleração dos processos de secularização e racionalização impostos pelo desenvolvimento da ciência e do capitalismo que, tudo convertendo em mercadoria, tende a suprimir o sagrado do horizonte da cultura contemporânea. É certo que o sagrado se refaz noutras formas, o que leva alguns estudiosos a postularem um reencantamento do mundo em oposição a Max Weber, que previu o desencantamento do mundo como consequência dos processos de secularização e racionalização acima mencionados.

Em meio a essas turbulências profundas que tanto desnorteiam nossos referenciais culturais e éticos, o Cristianismo – para não falar das religiões marginais aos processos de modernização do Ocidente – persiste no seu combate à sexualidade. Em meio a uma atmosfera de franca permissividade sexual, sobretudo em países como o Brasil, a religião mobiliza ainda e sempre suas armas enraizadas na tradição, saturada de componentes patriarcais, para vetar a legalização do aborto, o casamento dos padres católicos, a prática sexual independente do casamento, a legitimidade dos direitos da mulher e dos homossexuais etc. Como não tenho nenhuma competência religiosa e muito menos teológica para examinar este problema, atrevo-me a sugerir algumas razões históricas passíveis de lançarem alguma luz sobre os fundamentos da ética sexual adotada pelo Cristianismo.

Em sua monumental História da filosofia ocidental, Bertrand Russell dedica um capítulo aos doutores do Catolicismo: Santo Ambrósio, São Jerônimo e Santo Agostinho. Além de contemporâneos, importa ressaltar o fato de que testemunharam a decadência do império romano e as invasões bárbaras que mergulharam o Ocidente em séculos de atraso. Embora vivendo uma das mais profundas crises da história da humanidade, todos deram mais ênfase à luta contra o pecado, em particular o pecado da carne, além de velarem pela preservação da virgindade feminina. Mesmo Santo Ambrósio, que se distinguiu antes de tudo na luta travada entre a Igreja e o Estado, conferiu prioridade à ética de natureza sexual.

Como grande historiador da filosofia, Bertrand Russell procura compreender essa realidade dentro das condições próprias à época em que os doutores sagrados do Catolicismo viveram. Ainda assim, não contém o espanto com que narra a obsessão dos santos com os pecados da carne. É interessante salientar que a obsessão com os pecados da carne impõe vetos e punições sobretudo à mulher, que desde o mito da expulsão do Éden é representada como um ser seduzido pela carne, além de representar uma permanente ameaça para o homem. Considerando que o Cristianismo foi forjado em sociedades agrárias de rigorosa orientação patriarcal, nada há de surpreendente no fato que acabo de assinalar.

Santo Agostinho, como Santo Ambrósio e São Jerônimo, coloca o pecado no centro de sua concepção teológica. Quando irrompe a Reforma Protestante, Lutero herda da teologia agostiniana a mesma obsessão com o pecado. Seguem-no nessa tendência todos que lideraram ou seguiram as diferentes seitas de inspiração protestante, sobretudo as puritanas. Bastaria observar, nessa perspectiva, filmes como A letra escarlate e As bruxas de Salem, o primeiro baseado no romance homônimo de Nathaniel Hawthorne, o segundo numa peça de Arthur Miller.

Suponho que a tradição acima grosseiramente esboçada explica a leniência, quando não cumplicidade, com que o Catolicismo, notadamente brasileiro, considera o mal corrente no universo da política, por exemplo. Confesso ter ainda grande dificuldade para compreender tamanha disparidade do ponto de vista racional. Mesmo admitindo-se que uma pessoa peca ao adotar práticas sexuais contrárias a nossas crenças religiosas, o mal em que incorre afeta apenas a ela, ou a quem com ela livremente se envolva. Ora, o mal praticado por um político corrupto, por exemplo, é de consequências incomparavelmente mais graves. O que representa o “pecado” de um homossexual, o “pecado” de uma adúltera, ou de uma mulher que incorre no crime do aborto, comparados aos bandidos que saqueiam cofres públicos privando milhares de brasileiros de serviços sociais necessários à sua sobrevivência, à possibilidade de uma vida elementarmente decente?

Enquanto bandidos e corruptos saqueiam impunemente recursos públicos colossais, as necessidades sociais básicas vivem entregues à ineficiência e à carência que impõem terrível opressão cotidiana a grande parte da população. Em suma, que mal representa para o mundo um “pecador” da carne comparado à corrupção endêmica das práticas políticas que envenenam nossas relações sociais? No entanto, a maior parte dos religiosos deplora e quando pode persegue e pune apenas a quem cede às tentações da carne.

Quando inverto o lugar comum afirmando que a carne é forte, não pretendo com isso implicitamente aprovar a sexualidade infrene dominante na cultura do presente. Meu intento é apenas denunciar o absurdo de qualquer ordenação ética da sexualidade que incorra na insensatez de determinar a supressão de forças que são parte da nossa natureza. Foi com esse propósito que num outro artigo aludi à inoperância de uma ética religiosa orientada para a supressão da sexualidade. Disse e reitero que isso é pura perda de tempo. Toda a história da humanidade, mesmo nos períodos de mais profunda e contrita religiosidade, testemunha a presença de nossa energia libidinal que, como escrevi, pode ser em certo grau reprimida, noutro sublimada, mas nunca suprimida.

abril 07, 2010

Por uma ética do respeito


Nota do blog: Usuários dos serviços de saúde mental de todo o país, acompanhados por familiares e técnicos de saúde mental, foram a Brasília e no dia 30 de setembro de 2009 realizaram a Marcha dos Usuários por uma Reforma Psiquiátrica Antimanicomial. Foi a maior resposta já dada aos conservadores e inimigos da reforma, que desde 2006 vinham detonando as conquistas do movimento por uma sociedade sem manicômios, ocupando importantes espaços da mídia. Diga-se, de passagem, que o setor conservador só ocupou o espaço da crítica (que lhes interessa) porque deixou-se de ouvir os segmentos (sobretudo os usuários) que, historicamente, ocuparam os espaços públicos para exigir o fim dos manicômios e a implantação de uma rede substitutiva ao modelo manicomial. E não foi por falta de pedido de audiência. Mudamos de estratégia, e graças à força da presença dos usuários em Brasília conquistamos a IV Conferência Nacional de Saúde Mental. Tudo o que queremos é mais respeito com nossas demandas e nossa visão crítica. (Dedico essa postagem para as professoras e alunas das Faculdades Salesianas Dom Bosco, que se dispuseram a abrir espaço para ouvir a história dos caminhos e descaminhos da reforma psiquiátrica no Amazonas, sem se assustar com a radicalidade do discurso desse velho militante das causas im-possíveis, afinal não se pode dar mensagens dúbias quanto ao fim do manicômio).

Por uma ética do respeito


Ocupadas as ruas de Brasília, sensibilizadas a opinião pública e o presidente da república, garantida a realização da IV Conferência Nacional de Saúde Mental, eis que a Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial, representada na Comissão Executiva por um usuário e um familiar, não conseguiu emplacar, num dos eixos de discussão, o tema: “Reforma Psiquiátrica Antimanicomial e o SUS”. A aceitação só se deu com a supressão da palavra antimanicomial.


Não é de hoje que convivemos com sinais de enquadramento disciplinar num certo modelo de comportamento. Ora nos submetem ao silêncio, ora afirmam a superioridade dos que sabem o que é bom pra todos nós.


Estamos longe daquilo que Foucault chamou de sociedade “exilante” e “assassinante”, e caminhamos para por fim à sociedade “enclausurante”. Outrora rejeitávamos e mandávamos para o exílio aqueles que não suportávamos. Depois passamos a submeter os acusados a rituais punitivos ou purificadores, que iam da tortura à eliminação física.


Hoje, na sociedade enclausurante, excluímos do circuito social aqueles que não respeitam as normas. Incluir ou excluir é a contrapartida de uma utopia social. Bom e justo é quem está fora da clausura. Nesta estão os culpados. Eis a forma mais bem acabada da descristianização da consciência. Os que estão fora não se responsabilizam pelos que estão dentro.


Até então falava-se em sociedade disciplinar. Hoje há consenso de que vivemos numa sociedade de controle. Nela as formas de coerção tornaram-se sutis, não raro feitas com cortesia.


O diálogo entre a sociedade e seus loucos tem na IV Conferência um espaço privilegiado, acima de divergências teóricas e literárias. Trata-se de abrir espaço para uma consciência que construiu experiências e que não abre mão de fazer circular a informação da reforma e da sociedade que queremos.


É preciso cuidado com a visão burocrática que tem confiscado o direito de reflexão, cálculo e decisão dos movimentos sociais, condenando-nos a ser freio ali onde somos convocados a fazer avançar nossas conquistas.


A Reforma Psiquiátrica brasileira produziu suas verdades, através de olhares diferentes. Mas é preciso estar atento aos discursos. Alguns convivem com práticas submetidas às coações de ações longe dos ideais éticos desse evento histórico inacabado.


Está em jogo o saber acumulado pelo movimento social por uma sociedade sem manicômios. Não se pode submeter à disciplina o que não tem governo, sob pena de levar água para outros moinhos. Há muito perdemos a virgindade política.


Na tarefa de edificação de uma sociedade sem manicômios, as contradições não precisam ser apagadas. Tampouco mascará-las. É preciso aprofundá-las, sem medo de ser feliz.


Acaso teme-se com o aprofundamento das contradições o surgimento da divisão? Ora, ora! A divisão é um fato. Ao criarmos uma nova ideologia – a de uma sociedade sem manicômios –, quem assegura o restabelecimento da unidade? A ruptura com o manicômio não é fruto de mera retórica, mas da reversão da escala de prioridades. Assim como não estamos autorizados a fazer o que quisermos, também não podemos nos deixar levar pela idéia de que aos inimigos da Reforma interessam novas formas de gestão da Saúde Mental. Ora, pois!


Manaus, Abril de 2010.

Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental

Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA

www.rogeliocasado.blogspot.com


março 06, 2010

Ética & Profissão

Publicada no blogdamartabellini.blogspot.com
ÉTICA & PROFISSÃO
Para que serve o jornalismo?

Por Fernando Evangelista em 2/3/2010

Discurso proferido pelo autor como paraninfo da turma de Jornalismo da Faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina, em fevereiro de 2010; publicado originalmente no Nota de Rodapé

Queridos alunos,

Conheço cada um de vocês e sei quanto empenho intelectual, físico e financeiro foi necessário para estarem participando desta cerimônia. É o coroamento de uma etapa, superada com dedicação, criatividade e talento. Vocês conseguiram.

Parabéns.

Hoje, porém, gostaria de falar de outra etapa, daquela que começará a partir desta formatura. Qual o significado de ser jornalista nos dias atuais? Para que serve o jornalismo no país em que vivemos? Qual é, afinal de contas, a missão que temos como jornalistas?

Que me desculpem os profissionais das outras áreas, mas o escritor Gabriel García Márquez tem razão: "O jornalismo é a melhor profissão do mundo." Para quem é curioso, inquieto, para quem gosta de ouvir e contar boas histórias, para quem se interessa pelas coisas da vida, não existe profissão mais fascinante.

Mais do que um diploma, hoje vocês recebem um passaporte para o mundo.

O passaporte para revelar histórias não contadas, para contar histórias esquecidas, para investigar, para descobrir aquilo que à primeira vista ou à vista da maioria parece banal, mas que pode ser algo extraordinário. O jornalismo, não se esqueçam disto, nos dá a possibilidade de denunciar o que está errado e de anunciar o que pode ser.

Tomar posição

E não é possível fazer isso sem ética – palavra tantas vezes usada sem distinção e sem critério, tão citada em discursos e tão esquecida na prática do cotidiano. Lembrem-se: a ética não é apenas um conceito filosófico, mas uma postura de vida. Ela exige que, desde já, vocês estejam dispostos a não abrir mão, em hipótese nenhuma, daquilo que Carl Bernstein, um dos repórteres do Caso Watergate, chamou de "a melhor versão possível da verdade".

Como vocês sabem, esta busca pela melhor versão possível da verdade pressupõe persistência e coragem. É, obviamente, um percurso complicado, com obstáculos dos mais diversos, mas também muito gratificante.

Se me permitem algumas dicas, não sigam pelo caminho mais fácil ou mais cômodo; sigam o caminho que considerarem ser o mais justo, sempre; não se deixem seduzir pelo poder, não se deixem contaminar pela arrogância; não confundam equilíbrio com indiferença, nem ceticismo com cinismo; ser ético é tomar posição.

Tomar posição não significa ver o mundo entre bons e maus, de forma maniqueísta. Pelo contrário, significa ir à raiz, saber contextualizar cada história e explicá-la de forma coerente e clara. Tomar posição é conhecer bem o chão que estamos pisando, para que as falsas aparências não nos enganem ou nos confundam. Tomar posição é estar encharcado de realidade.

Um exemplo emblemático

E o nosso mundo, onde quase dois bilhões de seres humanos vivem privados dos direitos mais elementares, não deixa espaço para ilusões. O Brasil, apesar de alguns avanços nas últimas décadas, ainda é a terra da desigualdade, fruto da indecente concentração de riqueza e de renda. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 10% dos brasileiros mais ricos detêm 43% da riqueza nacional, enquanto os 10% mais pobres, apenas 1%.

Tomar posição é, entre outras coisas, revelar essa realidade, quase sempre mascarada por números e estatísticas, às vezes equivocados, às vezes precisos, mas sempre frios e distantes. Essa realidade tem nome e sobrenome, tem história. E não é natural. Essa é a missão do jornalista, esse é o grande desafio: Mostrar aquilo que as vozes oficiais tentam camuflar, fiscalizando o poder, seja ele qual for.

Infelizmente, há muito tempo, a mídia deixou de ser o quarto poder para, em muitos casos, se tornar um quarto no poder. Hoje, como vocês sabem, os principais poderes são o econômico, o político e o midiático – cada vez mais enredados um no outro. Santa Catarina é um exemplo emblemático, onde os principais veículos de comunicação estão nas mãos de uma única empresa, o que fere a Constituição, elimina a pluralidade de ideias e enfraquece a democracia.

O que valia era o espetáculo

Gostaria de contar para vocês, caros formandos, uma história que nunca contei em sala de aula e provavelmente nenhum de vocês conheça. É uma história que aconteceu com a minha família e está diretamente relacionada ao jornalismo. Na virada do século, um magistrado conhecido por seu idealismo e por sua integridade, assumiu a presidência do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Este mesmo magistrado, anos antes, havia implementado e coordenado a primeira eleição computadorizada da América Latina.

Como presidente do Tribunal de Justiça, este magistrado, entre outros tantos projetos, criou 50 Casas da Cidadania, projeto arrojado e inovador – buscando a conciliação e prevenindo litígios. Este homem sempre soube que seria mais fácil fazer o jogo dos arrivistas, dar de ombros, ser indiferente. Porém, ele havia escolhido essa profissão para lutar por justiça, para seguir pelo caminho que considerava ser justo e nunca abriu mão disso. Agiu assim durante os 40 anos de sua carreira, incansavelmente. Tempos depois de deixar a presidência do Tribunal, já aposentado, foi acusado de algo que não tinha feito, que jamais faria.

Este magistrado, Francisco Xavier Medeiros Vieira, é meu pai.

O mais dolorido dessa história, para mim, foi perceber que alguns jornalistas, alguns colegas, sem nenhum pudor, compraram e divulgaram a acusação infundada. O que valia era o espetáculo – mesmo que este espetáculo estivesse destruindo a reputação de uma pessoa honesta.

A paixão é o segredo

Então, como professor, como repórter, como alguém que já vivenciou uma injustiça por parte da imprensa, eu digo a vocês: jornalismo é a melhor profissão do mundo, mas não sejam ingênuos, investiguem sempre, não briguem com os fatos, duvidem, chequem as informações várias vezes e tenham sempre, sempre em mente, que vocês estão lidando com a vida e a história de outras pessoas.

Caros formandos, caros colegas: usem esta profissão – seja como repórteres, editores, blogueiros, assessores de imprensa, diagramadores, fotógrafos, pesquisadores, seja em que área do jornalismo for, para fazer luz sobre o nosso mundo. Façam que o jornalismo seja sempre um caminho para que se contem as histórias que precisam ser contadas.

E, mais importante de tudo, façam isso com paixão porque é este o segredo dos trabalhos bem feitos e dos profissionais bem-sucedidos. É a paixão que faz com que a gente ouse, desafie as probabilidades, surpreenda o mundo. É a paixão que fará, um dia, quando vocês estiverem bem velhinhos, dizer que tudo isso, a escolha desta profissão, esta vida inteira, valeu a pena.

Muito obrigado.

Fonte: Observatório da Imprensa

janeiro 04, 2010

Os “argumentos” contra Battisti

Inquisição
Ilustração postada em Consciência.Net

Os “argumentos” contra Battisti

Por Carlos Lungarzo em 04/01/2010
Anistia Internacional

Há uma tendência na esquerda, e entre os partidários de tendências iluministas, humanistas e libertárias em geral a identificar a qualidade ética de uma pessoa com sua inteligência, agudeza e informação. Isto parece uma adesão à antiga identidade entre o bem e a razão ou, em termos mais modernos, entre o espírito humanitário e altruísta e a capacidade de argumentação.

Esta identificação está presente nos filósofos gregos, especialmente em Platão, mas também nos hedonistas e nos epicúreos, atravessa a obra de Descartes, vira um assunto central nos cientistas pós-newtonianos, e se torna quase um dogma para a geração Iluminista do século 18. Este intelectualismo está presente nas cartas trocadas por Marx e Engels, que não ocultavam seu desprezo pelos raciocínios grosseiros das elites, pela ignorância de nobres, militares e burocratas e pela barbárie cultural da direita. Inclusive, apesar de sua injusta desconfiança do anarquismo, Marx emocionou-se até chorar ao lembrar o talento de Bakunin, durante o funeral deste em 02/09/1853. (Marx-Engels-Werke, V. 12, p. 284).

Outro fato que reafirma, pela negativa, a relação entre ética e inteligência, é que, durante o forte misticismo ocidental (sec. 4º ao 16º) quando o ser humano foi mais humilhado, ao mesmo tempo a ciência e o conhecimento crítico desapareceram até Galileu.

Entretanto, não é possível tomar a relação moral/inteligência como uma verdade absoluta. Isso criaria uma hierarquia moral das pessoas em função de suas capacidades, o que é uma visão reacionária do mundo. Lembremos, além disso, que simpatizantes do nazismo, como Max Plank e Heisenberg, foram mentes brilhantes em suas especialidade e que Enrico Fermi foi um homem muito inteligente, apesar de ter contribuído a criar a primeira bomba nuclear.

Em minha opinião, a relação precisa entre inteligência e ética é difícil de especificar e talvez precisemos muitas décadas de psicologia para conhece-la num 50%, se tanto. Entretanto, é evidente uma conexão estreita entre ambas, como o mostram os exemplos: é quase impossível encontrar um ditador inteligente, um genocida com algum talento universal, um racista com alguma compreensão do mundo, uma pessoa preconceituosa que impressione por sua racionalidade. Existem muitos casos de pessoas sem escrúpulos com grandes destrezas específicas, mas é difícil encontrar algumas dotadas de inteligência ampla.

Por que toda esta reflexão? Há um ano que, por causa da concessão de seu refúgio/asilo, Cesare Battisti virou conhecido e a opinião pública se dividiu entre os que pediam sua liberdade e os que exigiam sua deportação. Durante este ano, li o equivalente a dúzias de milhares de páginas de jornais, revistas e documentos, e fiquei estarrecido ao fazer uma comprovação:

Nenhum dos argumentos contra Battisti demonstrava a mínima racionalidade, o menor uso de pensamento ou sensibilidade. Como disse antes, não acho que uma cognição apurada implique necessariamente grande estatura moral, nem vice-versa, mas fiquei apavorado pela relação evidente entre pensamento brutal e grosseiro com ódio pelo refugiado.

Acredito, sim, que existam pessoas autocentradas, sem interesse no próximo, que possuam uma visão do mundo bastante ampla. Um destes casos era Leonardo da Vinci, considerado por seus biógrafos mais atuais como egoísta e violento.

Entretanto, as coisas mudam quando aparece um componente de ódio, uma espécie de fanatismo contra tudo o que é diferente, como o que caracteriza o machismo, o racismo, a xenofobia, o imperialismo, o linchamento e todos os sentimentos de direita em geral. Nesses casos, ou a inteligência não é suficiente para evitar a contaminação pelo ódio, ou então, a prevalência do ódio faz aparecer a inteligência como difusa, esvaída, quase inexistente.

Não quero dizer que alguém que sustenta uma posição não-humanitária possua, necessariamente, um entendimento tacanho, embora isso quase sempre acontece. Tenho uma experiência interessante sobre isso. Conheci a Ayres Britto depois de ele ter votado pela extradição, e me surpreendi ao compara-lo com os outros quatro juízes que votaram no mesmo sentido (com os que, afortunadamente, não devi conversar). Britto é um homem cordial, desprovido da empáfia jurídica, um temperamento simples: escreve poesia e gosta de Chico Buarque. Sabe conversar sobre coisas que não estão nos códigos. Aliás, ele não tinha nenhum ódio contra Battisti. Se eu entendi bem, ele achou que não havia motivos para negar a extradição, assim de simples. Se Itália o pedia, saberia por que. Não era submissão à autoridade, apenas rotina. Se alguém morria por isso, não era seu assunto.

Ele não estava contente por entregar uma vítima aos La Russa e os d’Alema da vida. Simplesmente, fez o que parecia mais linear. Afinal, a justiça formal é isso. Então, percebi que era uma pessoa inteligente que não camuflava seus pensamentos: justiça formal nada tem a ver com verdade ou humanismo; é um trabalho.

Mas, não quero referir-me aos que apenas “votariam” contra Battisti, mas aos que estão engajados na causa de triturar uma pessoa para eles desconhecida, que lês estorva por vários motivos:

(1) Porque representa a esquerda. (2) Porque desafia sem temor o terrorismo de estado. (3) Porque não se ajoelha. (4) Porque é uma mente criativa. (5) Porque têm amigos de uma qualidade que seus inimigos nunca reuniriam nem em várias reencarnações. A maior atriz européia dos anos 50, Jeanne Moreau, o Nobel de Literatura Garcia Marques, a talvez maior romancista de enredos policiais das últimas décadas, Fred Vargas, grandes advogados, líderes políticos franceses, e também os melhores amigos brasileiros: Suplicy, José Nery, Luiz Couto e outros.

Essas pessoas que odeiam Battisti não conseguem produzir um argumento bom. Foi por isso que decidi classificar os “argumentos” contra Battisti em várias espécies. Acredito, porém, que esta é uma obra para toda uma equipe e quaisquer enriquecimentos a meu trabalho (muito pretensioso para uma vida só) serão bem-vindos.

Observação: Não gosto de entrar em polêmicas. Se você defende honestamente, de maneira errada ou certa, uma causa, o pior que pode fazer é tornar sua causa um espetáculo de circo. Por isso também não gosto citar ninguém, salvo fontes de mérito que menciono como prova. Neste caso deve ser diferente, mas apenas menciono os autores para que o leitor, se quiser, possa encontrar o assunto mencionado.

A Crítica Através do Elogio

Em alguns casos, o crítico (ou crítica) acha mais confortável elogiar a alguém que ataca Battisti, do que ele próprio fazer sua argumentação. No caso de pessoas ligadas ao direito, uma maneira habitual é tecer uma série mirabolante de elogios a qualquer frase trivial que tenha dito um magistrado inimigo do escritor italiano.

É o caso, entre milhares de outros, do senhor Daniel Bialski, num trabalho intitulado Interesse em Extradição de Battisti é incomum, que me pareceu o mais paradigmático pela bizarrice e servilismo de seus elogios.

http://br.groups.yahoo.com/group/niem_rj/message/5573

“O que se teria visto, na visão do eminente e futuro presidente da Corte Suprema, ministro Peluso, [...] que é atribuição exclusiva da Excelsa Corte.” (Grifos meus)

Existem muitos outros casos que não merecem ser citados, porque não são tão grotescos, mas em todos eles se elogia cafonamente, seja o magistrado, seja a “obra da sua lavra” (ou seja, o escrito de sua autoria). Dessa maneira, se dá um tiro por elevação contra Battisti, usando munição alheia.

Este fenômeno faz parte de um fetichismo, pelo qual se transformam em reais, e até em antropomórficas, entidades que são puras abstrações conceituais. Por exemplo, se elogia a cultura italiana, como se toda Itália fosse um organismo homogêneo que atua sempre da mesma maneira, ou se atribui sacralidade a simples funções profissionais de uma pessoa, por exemplo: “o sábio julgador”.

Comparações Sinistras

Às vezes, para descompor Battisti, os autores usam comparações que são simplesmente repugnantes. É o caso de Alon Feuerwerker, em Diversos pesos, diversas medidas, cuja matéria começa assim:

http://br.groups.yahoo.com/group/niem_rj/message/5573

“A operação política para salvar Battisti decorre de ele ter origem na esquerda. Fosse um militar argentino condenado por crimes na ditadura, estariam os mesmos exigindo, já, sua extradição para Buenos Aires.”

Essa comparação não mede só o nível ético do autor, mas também o cognitivo. Alguém que compara um acusado qualquer (mesmo se fosse o pior criminal comum do mundo, mesmo se fosse o atual chefe de Al-Qaida), com genocidas patológicos e torturadores insanos do exército argentino, demonstra pouca fineza cognitiva. A maioria dos que concedem algum valor aos genocidas argentinos, chilenos ou brasileiros (ao ponto de comparar-los com outras pessoas), costumam ter a esperteza de ocultar suas intenções.

Uma pessoa melhor dotada teria dito: “fosse um fascista…” Aliás, estaria perto da realidade, porque há um fascista italiano que seu governo “simula” querer extraditar. Aliás, para dar palpite num assunto que parece ser sobre direito, o autor conhece pouco: parece que não sabe que “crimes de lesa humanidade” são uma espécie diferente dos políticos e dos comuns.

A posição dos defensores de DH é que, se o fascista não cometeu crimes contra humanidade, deve receber a mesma proteção que Battisti, caso que realmente a Itália o quisesse extraditar, o que parece ridículo.

A Linguagem Injuriosa

Um terrorista, por definição, é uma pessoa que pratica terrorismo. É difícil que alguém que esteja fechado numa prisão durante o dia todo pratique terrorismo. Entretanto, a Folha de S. Paulo chama Battisti de terrorista desde que caiu preso. Um amigo meu mando uma carta à Folha e, como jornal aberto e respeitoso da liberdade de imprensa, substituiu “terrorista” por “ex-terrorista” por algumas semanas. (Posteriormente, voltou a usar terrorista, que causa mais impacto).

Além disso, terrorismo é um termo definido numa comunicação das Nações Unidas que, apesar de não estar aprovada por todos os membros, tem ampla credibilidade. Mas, se os jornalistas querem usar uma definição vernácula, podem ler a ementa de Extradição de novembro de 1989 (República Argentina contra Fernando Falco; denegada), onde o relator Sepúlveda Pertence diz claramente, que uma ação violenta só pode ser chamada terrorista “se utiliza armas de perigo comum (como explosivos ou canhões) e coloca massivamente em perigo a população civil”.

Se Battisti tivesse matado essas 4 pessoas, ou ainda, 40 pessoas, uma por uma e usando uma pistola, seria um assassino, mas ainda assim não seria um terrorista.

O Critério de Autoridade

Isto é muito comum no Direito, na vida comum, e em qualquer atividade não científica. Aliás, é típico das crenças políticas fanáticas, as religiosas e as morais, que não tenham base no direito natural. Entretanto, no caso Battisti o abuso aberrante e servil do critério de autoridade chegou às alturas.

Quando o senador Suplicy, num de seus típicos atos se simplicidade, humanidade e grandeza, levou ao Senado um documento redigido pela romancista Fred Vargas, alguns dos gênios togados foram tocados pela histeria. Como era isso possível: “alguém de fora” (que não é juiz, nem mesmo advogado) vai lançar no rosto do relator todas as infâmias cometidas.

De fato, os que assim chiaram eram coerentes. A justiça não é uma coisa pública: é propriedade privada de uma sociedade secreta que decide a contramão da verdade, da lógica e do bom senso, segundo sua conveniência profissional ou… de outro tipo. Esse documento continha 13 perguntas magnificamente colocadas, com impecável referência às fontes, onde a escritora descrevia as fraudes, distorções e omissões dolosas feitas no relatório. Por sinal, a carta de Fred estava redigida num estilo educado, porém respeitoso demais para o que merecem jogadores de cartas marcadas.

Veja o link: http://cesarelivre.org/node/143

Agora, um caso geral: a aceitação de todos os linchadores de que Battisti realmente matou 4 pessoas. Isto não é apenas uma crendice da massa desinformada, mas também uma forma de legalizar uma mentira. Qual é a vantagem? É a de ter um bode expiatório. Todos os que conhecem as religiões monoteístas (a imensa maioria do país) sabem o que isso significa. É alguém para destruir, como a Geni da música de Chico Buarque.

Obviamente, a mesma lei justifica esta aberração. A pessoa pode ser extraditada sem verificar se teve o devido processo. Basta que tenham todos carimbos necessários. Hoje, é óbvio que os crimes atribuídos a Battisti não estão provados por evidências tangíveis, que não há testemunhas que não sejam falsas ou compradas, que não houve advogados e, ainda, que os autores dos quatro assassinatos estão perfeitamente identificados.

Se as pessoas que escrevem em jornais, blogs, etc., que Battisti matou quatro pessoas, afirmassem, com as mesmas provas, que João da Silva deu um cheque sem fundo, seriam imediatamente processados por calúnia.

Finalmente, um caso exacerbado de servilismo com a autoridade, que chega a negar a mesma realidade: é a refutação que o Relator do Caso Battisti faz do terrorismo de estado na Itália descrito, de maneira exageradamente tênue e light por Tarso Genro.

Qualquer pessoa informada, mesmo muito jovem (há muitos exemplos em quase adolescentes que escrevem blogs maravilhosos) sabe que entre 1969 e 1981, houve na Itália um enorme número de atentados a bomba em locais públicos, com milhares de civis mutilados, incluindo crianças e mulheres, e centenas de mortos. Quando o relator escreve isso em seu tóxico libelo, leva o assunto na brincadeira. Numa linguagem muito mais austera, como cabe ao bom juridiquês, disse coisas como estas.

“Vamos, seu Tarso. Não venha com manhas. Essa história de terrorismo fascista, sim, eu também ouvi falar, mas não houve nenhuma condena. Chega de brincadeira”.

Uso de Linguagem Hermética

O recurso ao juridiquês é um dos truques preferidos para que nada se entenda. Seu uso é tão perverso que, ás vezes, nem os mesmos colegas de aqueles que o usam conseguem entender se seu cúmplice diz A, ou disse não A. Em parte, isto provocou várias confusões no STF, especialmente quando o famigerado julgamento das “células tronco”.

O relatório sobre Battisti está contaminado por juridiquês de alerta vermelho, entremeado ainda por versões bilíngües de textos (sic) e outros elementos confusionais. Entretanto, prefiro citar um texto desconhecido onde se usa um termo em juridiquês que é hermético até pelos leguleios mais rançosos. É sempre falando em Battisti:

“A Suprema Corte, então, rejeitou os argumentos da mavórtica defesa do extraditando e deferiu o pedido do governo italiano, fazendo o controle da legalidade necessário, fundamentando-a.”

Bialski, Interesse (mesmo link).

Você sabe o que é mavórtica? Nem eu. Procurei no Google, um buscador que traz milhões de entradas para qualquer termo, mesmo que seja em tamil ou húngaro, mas aqui só tinha 91. A maioria eram perguntas desesperadas (de quem?) pedindo ajuda sobre o significado da palavrinha. Por aí, apareceu alguém que explicou que “mavórtica” é feminino de “mavórtico”, que deriva de Marte, o Deus da Guerra. Então, no contexto de nosso erudito, a defesa dos advogados de Battisti era guerreira ou belicosa. Cuidado. Se vocês conhecem a Greenhalgh ou Barroso, que são dois advogados muito simpáticos, não os chamem de “mavórticos” sem antes explicar qual é a fonte.

Estimulando os Traumas do Leitor

Um fato muito comum na Revista Carta Capital (que foi considerada durante muito tempo, por razões que desconheço, um veículo da centro-esquerda), é atribuir a Battisti, de maneira real o fingida, atos que impressionam negativamente ao leitor, que se sente amedrontado por ele.

Num dos maiores abismos da baixaria, um dos chefões da revista (não lembro qual de ambos) descreve um fato que não aparece em nenhum auto, e que nem a própria embaixada, com toda sua política suja, colocou em evidência: trata-se de aventuras sexuais da adolescência do escritor!

Outro caso, este muito mais grave, é estimular o medo ao terrorismo. Num operativo de incrível cinismo, uma combinação que envolvia um promotor, um alto oficial da polícia federal, e um juiz, se atribuiu a Battisti uma conexão com a Brigada Vermelha (em singular). Essa organização deve ser muito clandestina, pois ninguém ouviu falar nela, apenas da sua parente em plural. Só que as brigadas se dissolveram faz vários anos. Polícia, juiz e MP atribuem a Battisti propriedades mediúnicas, porque eles dizem que se comunica por computador com os brigadistas.

Pressionados pelo corajoso advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, um daqueles elementos reconheceu que não era nada grave, que houve uma confusão. Finalmente, outro se desculpou, e disse que levou isso a sério porque receberam denúncias da Embaixada Italiana.

Falácias Diversas

Existem falácias puramente formais (semelhantes a erros lógicos) e falácias de conteúdo. Falácia de conteúdo para gente grande, é uma que se encontra num trabalho de Carlos Veloso: http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=15883

“O Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Extradição 232-Cuba, [...] decidiu que “a concessão de asilo diplomático ou territorial não impede, só por si, extradição, cuja procedência é apreciada pelo STF [...]. Na Extradição 524-Paraguai, o Supremo Tribunal decidiu que “não há incompatibilidade absoluta entre o instituto do asilo político e o da extradição passiva

O que sua excelência não diz, é que a extradição 232 é quase 30 anos anterior à lei 9474, e a ext. 524, cerca de 5 anos anterior. Nessa lei, se afirma claramente (art. 33) que a concessão de refúgio elimina qualquer processo de extradição. O ministro não deve pretender, supomos, que dois casos de jurisprudência são mais fortes do que uma lei… mesmo sendo alheio ao mundo do direito, tal conclusão me parece esquisita.

Aqui, muitos poderiam pensar que o ministro demonstrou astúcia (que é uma prima afastada e encrenqueira da inteligência). Mas, não foi bem assim. Qualquer pessoa com mínimo de curiosidade poderia ler os acórdãos dessas duas extradições no arquivo do Supremo, e mandar o escrito do ilustre ministro à lata de lixo, data venia, é claro.

Erros Lógicos

Os erros lógicos são muito freqüentes, porque, como disse acima, verdade, fatos concretos e raciocínios são alheios a um mundo onde vale: convicção suspeita e retórica. Mas encontrei um erro maravilhoso. Ele teria sido ótimo em minhas épocas de professor básico para dar como exercício aos alunos da 5ª. série.

O texto é novamente de Bialski (ibid, nota 1)

“É induvidosa a mencionada exigência de controle, pelo quanto dispõe o artigo 83 da Lei 68215/80 e do artigo 207 do Re­gimento Interno da Suprema Corte Federal: ”Não se concederá extradição sem prévio pronunciamento do Supremo Tribunal Federal sobre a legalidade e a pro­cedência do pedido, observada a legislação vigente” (grifo meu)

Neste caso, não cabe ser muito severo com o jurista, porque nas faculdades de direito os professores de lógica não são matemáticos nem lingüistas, mas, em geral, outros juristas. O erro que comete o autor não é de má fé. Qualquer professor sabe que ele deve acreditar nisso, mas um aluno da 5ª. série dos dias de hoje lhe mostraria onde está a charada.

Dizer “Não se concederá extradição sem prévio pronunciamento”, tem a forma lógica “Não haverá X, sem haver Y” e, portanto significa para que haja X, deve haver Y. Ou seja, Y (prévio pronunciamento) é condição necessária para X. Porém, não é suficiente, já que então teria a forma: “Se houver Y (pronunciamento prévio) então poderá haver X (extradição)”.

Quando uma condição é necessária e suficiente, diz-se: X se e somente se Y, ou coisa que o valha. Por exemplo: “Não haverá extradição sem prévio pronunciamento”, e, reciprocamente, “se houver pronunciamento (positivo) então haverá extradição (a extradição será obrigatória)”.

A lei diz, então, que, se uma pessoa for extraditada, será necessário que sua extradição seja aprovada (autorizada, permitida, etc.) pelo STF. Mas, não diz que: “Se o STF aprova a extradição, então, esta deverá ser realizada”.

A forma lógica de ambos os enunciados, fica bem evidenciada com estes dois exemplos:

“Não se financia a compra de carro Ferrari, sem que o candidato tenha ficha criminal limpa”

Então, um criminoso não pode financiar uma Ferrari. Deve ter ficha limpa para isso. Mas, será suficiente? Certamente não. A empresa deve exigir que você tenha um salário de vários milhares de reais e, além disso, algum avalista. Ou seja, não por você ter ficha limpa, vai conseguir financiamento para uma Ferrari, se você ganhar um salário mínimo.

Este erro trivial pode deixar de DP a um garoto de 12 anos num colégio decente, mas é cometido por pessoas que têm em suas mãos a vida e a liberdade das pessoas!

Esgotamento Mental

Este procedimento consiste em saturar o leitor com um argumento repetido infinitas vezes, até que se torne um automatismo de sua mente. É um equivalente simplório e vulgar daquele ditado de Goebbels, de que qualquer mentira podia ser incutida se for suficientemente “martelada” na mente dos outros. Obviamente, não estou dizendo que os que usam estes argumentos no caso Battisti sejam do nível de Goebbels. Independentemente do mal-estar que produz a imagem do famoso nazista, devemos reconhecer que sua inteligência não era medíocre: foi uma pena que não a usasse para uma finalidade nobre.

No caso de Battisti, o argumento “esmaga cabeça” é o de sempre:

E, aí… e os boxeadores cubanos?

Aqui não preciso mencionar ninguém, porque este argumento foi usado mais de 1000 vezes, pelas figuras mais diversas: linchadores que escrevem comentários em jornais, apresentadores de TV, parlamentares do DEM, advogados de porta de cadeia, etc..

Eu também pergunto: e aí? Porque nunca foi provado, que eu saiba, que os boxeadores realmente queriam refúgio. Os que dizem que o governo não deseja desagradar a Fidel Castro estão no porão da inteligência biológica. Como explicam, então, que mais de 100 cubanos estejam refugiados no Brasil, incluindo outros atletas olímpicos? O será que Fidel só gosta de boxeadores, todos os outros podem ir embora?

Se eles pediram refúgio e foi negado, obviamente foi uma grave falência do governo e deve ser criticado por isso. Entretanto, nenhum deles, que eu saiba, estava ameaçado de morrer linchado numa cela sem luz.

Conclusão

Não sou das pessoas que odeiam seus inimigos. Pelo contrário, acho que muito de meus inimigos são meus grandes marketeiros. Saber que eles me odeiam me faz sentir que estou no caminho certo.

Tampouco tenho nada pessoal contra a direita. Um dos acusadores do sangrento tirano Pinochet, quando ficou retido em Londres, e depois liberado pela politicagem internacional, era um lord, membro do Partido Conservador. Creio que existe uma diferença conceitual definível entre direita e esquerda, mas como toda divisão de propriedades contínuas possui áreas difusas.

O que me deixa mais abismado no caso de Battisti, é o fato de não ter encontrado nem uma pessoa de certo valor humano entre seus inimigos. Há um jornalista que respeito e que é favorável a extradição, mas não parece ter nenhum ódio especial, nem faz disso sua militância. Acredito quê seja uma seqüela do confronto entre setores políticos dos anos 70.

Mas, fora disso, me deprime que todos os que eu tenho lido (deve haver outros que não conheço) são pessoas rançosas, pensamentos tacanhos e medíocres, sádicos frustrados, mentes servis e rotineiras, puxadores de saco das grandes empresas, partidos ou meios de comunicação, propagadores das mentiras mais brutas com a maior naturalidade, e órfãos de qualquer informação séria.

Poderia falar do outro lado, mas isso fica para outro momento. Além do mais nobre e honesto do Parlamento, estão de nosso lado os melhores juristas brasileiros, os quatro ministros que sustentam a honra da justiça brasileira, os jornalistas mais verazes e corajosos, as pessoas da rua que arriscam muito, porque ninguém sabe como se fará sentir a retaliação daquele mundo regido pela máfia, a igreja, o fascismo, e as organizações secretas.

Texto publicado em 04/01/2010 na(s) seção(ões) Opinião.

Fonte: www.consciencia.net
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