PICICA - Blog do Rogelio Casado - "Uma palavra pode ter seu sentido e seu contrário, a língua não cessa de decidir de outra forma" (Charles Melman) PICICA - meninote, fedelho (Ceará). Coisa insignificante. Pessoa muito baixa; aquele que mete o bedelho onde não deve (Norte). Azar (dicionário do matuto). Alto lá! Para este blogueiro, na esteira de Melman, o piciqueiro é também aquele que usa o discurso como forma de resistência da vida.
agosto 23, 2010
A crise dos vínculos de confiança (II)
julho 26, 2010
Reforma, política e ética
Nota do blog: Artigo publicado no jornal Amazonas em Tempo, na caderno Saúde & Bem Estar.
maio 23, 2010
Impasse no manicômio
Nota do blog: Manaus tem uma população de 2 milhões de habitantes. A cobertura proporcionada pelos serviços de saúde mental reduz-se a dois CAPS e um hospital psiquiátrico (com um ambulatório e um pronto-atendimento para crises psiquiátricas). São responsáveis por esse quadro lastimável o silêncio das nossas entidades de classe e o descompomisso dos gestores com as causas populares. Entre os trabalhadores de saúde mental há honrosas exceções, já que a maioria ou se justapõe ao aparelho burocrático estatal, ou cuida apenas dos seus interesses pessoais e/ou grupais.
Impasse no manicômio
O consultor de Saúde Mental da OMS Ernesto Venturini costuma dizer que o verdadeiro problema não é fechar o hospital psiquiátrico, mas abrir possibilidades de vida na comunidade. Significa dizer, para ele, que faz-se necessário construir a prática dos direitos e consolidar uma rede integrada de saúde. Eis a essência da reforma psiquiátrica em sua versão mais avançada, a de uma sociedade sem manicômios.
Se é fato que a realização de uma reforma psiquiátrica pra valer exige modificação da lei, foi a supressão de práticas anteriores a ela que se constituem no xis da questão.
Datam daí os impasses do manicômio local. Atualmente há um descompasso entre os diversos atores e suas respectivas práticas. Lembrando que uma reforma é feita com profissionais de saúde, usuários dos serviços e familiares, entre outros.
A lei obtida pelo esforço de uns, e desprezada pela omissão de outros, por si só não é capaz de renovar a atitude do profissional comprometido com a cultura manicomial.
Com quais forças pode-se contar para recuperação da dignidade profissional e de práticas comprometidas com a construção de uma sociedade sem manicômios? Como espantar a inércia institucional e as resistências que comprometem as mudanças alcançadas noutros estados e municípios brasileiros nos últimos trinta anos? Como resgatar o elo perdido com nossa própria história? Afinal fomos o primeiro estado da federação a construir novas práticas rumo à reforma psiquiátrica desejada.
Passados pouco mais de vinte anos, tais práticas são desconhecidas pelas novas gerações. Para desqualificar as conquistas passadas, um dirigente do velho hospício, ao ser indagado sobre a existência de uma horta numa área invadida por população sem teto na sua administração, afirmou que desconhecia o fato, e acrescentou que se houve alguma plantação devia ser de outra “coisa”.
A mesma alusão vem sendo feita para atingir o Ministro do Meio Ambiente, contrário à construção da BR 319. À falta de argumento crítico, ouvi um parlamentar e um radialista partir para a ofensa moral, numa referência ao suposto consumo de maconha por parte do referido ministro.
Temos uma lei de saúde mental, mas o modelo manicomial resiste às mudanças, seja porque os recursos humanos não se converteram ao modelo psicossocial, seja porque há falta de vontade política expressa na ausência de prazos, recursos e incentivos para a implantação do novo modelo de atenção diária à saúde mental.
Atualmente, até os alunos secundaristas sabem que o modelo substitutivo ao manicômio se dá através da definição de novos territórios, respeitadas as características sociais e epidemiológicas da população, com a implantação de uma outra rede de serviços que venha permear o espaço social com projetos comunitários.
Ora, a substituição do modelo tarda não por imperfeição ou falta de credibilidade da lei, mas porque não foram eliminados todos os vínculos entre a razão moderna e o controle da loucura, o que retarda a emergência de sujeitos que não temam criar novos cenários no cotidiano.
Manaus, Março de 2010.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com
março 10, 2010
Discriminação, não!
Foto: Marquinhos - Manaus-AM, 2003
Nota do blog: Sem falsa modéstia sou um dos militantes históricos da luta antimanicomial no estado do Amazonas, atualmente exercendo o cargo de Pro-Reitor de Extensão da Universidade do Estado do Amazonas. Mesmo os desafetos políticos reconhecem esse dado da minha biografia. Mas, existem aqueles que são capazes de um golpe tão baixo como o que vai narrado abaixo. São reformistas de araque, que jamais participaram da luta por uma sociedade sem manicômios. E quando o fizeram, é porque estavam de carona nos discursos de uma prática que não ajudaram a construir. Basta consultar os arquivos da mídia local. Não há uma referência, uma fala sequer dessas criaturas a favor da luta que encarnamos no campo da saúde mental do Sistema Único de Saúde. Não contentes em fraudar a história, dão-se ao desfrute de tentar eliminar seus protagonistas. Comigo não, violão!
Discriminação, não!
Bastava uma leitura atenta das recomendações da coordenação nacional sobre os procedimentos para organização da IV Conferência Nacional de Saúde Mental e a coordenação estadual teria evitado o constrangimento de não convidar a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) como parceira do evento em sua etapa regional. Ainda é tempo de corrigir o erro.
Instituição parceira é aquela que contribui com inovações no campo das políticas públicas de saúde mental.
Neste ano, a UEA, em parceria com a Secretaria de Estado de Ações Sociais, inova ao apoiar projeto de inclusão social de pessoas com transtorno mental através de um Cyber. Trata-se de um projeto pioneiro de inclusão social nascido fora da instituição psiquiátrica, com o objetivo de estimular formas criativas de cooperativismo, gerando assim novas formas de sensibilidade social para com sujeitos historicamente estigmatizados.
Teria o texto enviado pela coordenação nacional induzido a erro de interpretação? Vejamos:
“Os coordenadores devem buscar ativamente o diálogo com a intersetorialidade, seja para constituir a Comissão Organizadora Estadual, seja para assegurar a participação dos demais setores. Ação Social, Direitos Humanos, Justiça, Educação, Cultura, Trabalho são parceiros essenciais. Sugiro que agendem reuniões com as respectivas secretarias estaduais destas políticas”.
Ora, não há referências explícitas às universidades. Tanto que uma delas foi convidada e não compareceu. Ou seja, o conceito de intersetorialidade foi compreendido, corretamente, para além do que diz o texto. Deduz-se daí que houve exclusão da UEA. Deliberada, acintosa e antidemocrática.
É hora de por fim a esse canibalismo institucional, oriundo das tensões de uma sociedade competitiva. É inaceitável o desrespeito à alteridade. Essa visão discriminatória impede que a discussão das idéias de uma vertente do movimento de resistência à sociedade de controle se expresse através dessa parceria.
Outro trecho da mensagem foi desprezado: “todos os coordenadores estaduais deveriam entrar em contato com o MS (Ministério da Saúde), para todas as dúvidas”. Não houve dúvida. Havia, sim, uma certeza, ou uma estratégia: fingir-se de morto. Não deu certo. Reivindico publicamente o direito de participação.
De 2003 até a presente data, o traçado geográfico da saúde mental foi modificado a despeito de todos os boicotes. Na zona norte da cidade começamos a desmanchar o mundo antimanicomial. Não faltou sensibilidade ao governo estadual, quando já não era sua a competência da oferta de serviços. Criamos a primeira paisagem psicossocial de Manaus, e espantamos a inércia do setor.
Para ficar nesse exemplo que funda uma nova percepção sobre o sofrimento psíquico, querer nos tirar do mapa é impedir que os cartógrafos dêem voz aos afetos que pedem passagem, ao registro das marcas dos nossos (des)encontros.
O silêncio ainda não fez morada no coração desse militante das causas públicas.
Manaus, Março de 2010.
Rogelio Casado, especialista em Saúde Mental
Pro-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UEA
www.rogeliocasado.blogspot.com
Nota do blog: Artigo publicado no jornal Amazonas em Tempo, caderno Saúde & Bem Estar, que sai aos domingos.
