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abril 27, 2010

Luiz Mott fala do seu livro "Bahia - Inquisição e Sociedade"


PROGRAMA DO JÔ

Sexta-feira, 23/04/2010
"Bahia - Inquisição e Sociedade" mostra período em que a inquisição era uma das leis máximas no país

abril 24, 2010

Psicologia & Sociedade


RogelioCasado 3 de abril de 2010 — Temos apenas dois Centros de Atenção Psicossocial para uma cidade de 2 milhões de habitantes. Maria é uma dessas pessoas que vive da caridade pública. São as prostitutas do entorno da praça da Matriz quem garante a refeição do dia. Nunca foi internada em hospital psiquiátrico. Nem carece; um outro tipo de assistência é possível. Tudo o que ela precisa é de um Lar Abrigado, com direito a refeição, repouso, assistência médica e o direito de ir e vir. É dever do Estado.

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Nota do blog: Nivaldo de Lima, fotógrafo e documentarista, continua registrando em sua câmera a paisagem social e seus personagens. Maria, vista no registro acima feito por ele, "morou" mais de 17 anos na rua Taqueirinha, ao lado do Palácio Rio Branco, onde funcionava a Assembléia Legislativa do Estado do Amazonas. Todos os parlamentares a conheciam. Se não fizeram um pronunciamento a seu favor, também não exigiram que ela fosse recolhida ao hospício da cidade. Menos mal. Continua a prevalecer uma surpreendente cultura, em que estão associadas a tolerância social para com a presença dos loucos nas ruas de Manaus e a indiferença para com o destino desse povo. No vídeo, é a tentativa de diálogo entre Nivaldo e Maria que chama atenção:

Nivaldo - Maria, canta aí uma música.
Maria - Hã!?
Nivaldo - Canta uma música.
Maria - Tô trabalhando, dá licença, tá?

Eis aí um trabalho incansável, o trabalho mental.

***


Psicologia & Sociedade: Nova Edição Publicada



Ricardo Burg Ceccim: Vol. 21, N° 3 (2009) da Psicologia & Sociedade foi publicada em http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewissue.php?id=22

Editorial ------------
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EDITORIAL
Andréa Vieira Zanella, Universidade Federal de Santa Catarina
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=712


Artigos
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PSICOLOGIA E A PRODUÇÃO DO CUIDADO NO CAMPO DO BEM-ESTAR SOCIAL
João Paulo Macedo , Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Magda Dimenstein, Universidade Federal do Rio Grande do Norte
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=713

IMAGENS DA INFÂNCIA, DEVIR-CRIANÇA E UMA FORMULAÇÃO À EDUCAÇÃO DO CUIDADO
Ricardo  Burg Ceccim , Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Analice  de Lima Palombini, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=714

JUVENTUDE COMO PROBLEMA DE POLÍTICAS PÚBLICAS
Marcia Frezza, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Cleci Maraschin , Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Nair  Nair Silveira dos dos Santos, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=715

O PERFIL DOS USUÁRIOS DO CAPSAD-BLUMENAU E AS POLÍTICAS PÚBLICAS EM SAÚDE MENTAL
Jeovane Gomes de Faria , Universidade Federal de Santa Catarina
Daniela  Ribeiro Schneider, Universidade Federal de Santa Catarina
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=716

AVALIAÇÃO DO CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL INFANTIL DE CASCAVEL – PR
Ana  Silvia Scandolara, Universidade Paranaense
Angela Rockenbach, Universidade Paranaense
Emerson  Aparecido Sgarbossa, Universidade Paranaense
Lilian  Rafaela  Linke , Universidade Paranaense
Nelsi  Salete Tonini, Universidade Paranaense
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=717

JUÍZO E AÇÃO MORAL: DESAFIOS TEÓRICOS EM PSICOLOGIA
Leonardo   Lemos de Souza, Universidade Federal de Mato Grosso, Rondonópolis
Mario  Sergio Vasconcelos, Universidade do Estado de São Paulo, Assis
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=718

A GENEALOGIA EM FOUCAULT: UMA TRAJETORIA
Flavia Cristina Silveira Lemos Flavia Cristina Silveira Lemos Flavia Cristina Silveira Lemos, Universidade Federal do Pará, Belém
Hélio   Rebello Cardoso Júnior, Universidade do Estado de São Paulo, Assis
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=719

MARTÍ Y LA PSICOLOGÍA
Diego  Jorge González Serra, Universidad de la Habana, Habana, Cuba
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=720

PSICOLOGIA E DESIGUALDADE SOCIAL: UMA REFLEXÃO SOBRE LIBERDADE E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
Bader  Burihan Sawaia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=721

DE JOVEM A ESTUDANTE: APONTAMENTOS CRÍTICOS
Samir   Pérez Mortada, Faculdade Social da Bahia, Salvador
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=722

O LUGAR DA PSICOLOGIA SOCIAL NA FORMAÇÃO DOS PSICÓLOGOS
Ligia  Claudia Gomes de Souza, Faculdades Integradas Maria Thereza e Universidade Salgado de Oliveira, Niterói
Edson Alves de Souza Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=723

VIOLENCIA SOCIAL Y DISCURSO POLÍTICO PRESIDENCIAL VENEZOLANO: UN ESTUDIO PSICOSOCIAL
Luis  Alberto d´Aubeterre Alvarado, Universidad Nacional Experimental de Guayana, Guayana, Venezuela
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=724

O QUE É MEDO? UM ADENTRAR NO IMAGINÁRIO DOS HABITANTES DA CIDADE DE JOÃO PESSOA, PARAÍBA
Mauro  Guilherme Pinheiro Koury, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Brasil
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=725

VIDAS EM RISCO: A IDENTIDADE PROFISSIONAL DOS BOMBEIROS MILITARES
Michelle  Regina da Natividade, Universidade do Sul de Santa Catarina, Palhoça
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=726

MARCAS DO GÊNERO NAS MIGRAÇÕES INTERNACIONAIS DAS MULHERES
Roberta  de Alencar-Rodrigues, Universidade Autônoma de Barcelona, Barcelona, Espanha
Marlene Neves Strey Marlene Neves Strey Marlene Neves Strey, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre
Leonor  Cantera Espinosa, Universidade Autônoma de Barcelona, Barcelona, Espanha
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=727

GÊNERO E OS SENTIDOS DO TRABALHO SOCIAL
Jacy  Corrêa Curado, Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande
Vera  Sonia Mincoff Menegon, Universidade Autônoma de Barcelona, Barcelona, Espanha
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=728

REPERTÓRIOS SOBRE LESBIANIDADE NA MÍDIA TELEVISIVA: DESESTABILIZAÇÃO DE MODELOS HEGEMÔNICOS?
Lenise Santana Borges Lenise Santana Borges Lenise Santana Borges, Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Goiânia
Mary Jane  Paris Spink , Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=729

A DIFÍCIL TAREFA DE COMPREENDER OS ARRANJOS ESPACIAIS CONTEMPORÂNEOS
Ana  Maria Nicolaci-da-Costa, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=730


Resenha
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CLÍNICA E VIRTUALIDADE: ENCONTROS COM O IMPESSOAL
Patrícia  Beatriz Argôllo Gomes Kirst, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=731


Traduções
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ENTREVISTA COM IAN HACKING (por Paul Kennedy e David Cayley)
Luciana Vieira Caliman, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória
Rogério  Gomes de Almeida, Faculdade FUCAPE, Vitória
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=732


Notícias da ABRAPSO
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Boletim informativo N. 04/2009 
Direção Nacional Gestão 2008/2009 e Gestão 2010/2011, Associação Brasileira de Psicologia Social
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=733


Consultores
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Relação de Consultores da Revista Psicologia & Sociedade no ano de 2009
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/viewarticle.php?id=735


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Psicologia & Sociedade
http://www6.ufrgs.br/seerpsicsoc/ojs/




dezembro 14, 2009

Não se educa sem traumatizar

A fake painting of Fernando Botero
Postado em ifalsidiautore.it

Não se educa sem traumatizar

Por: Rita de Cássia de A. Almeida
Psicanalista


Dedico este texto em homenagem e em gratidão à Irmã Estefânia, saudosa diretora do Colégio Santa Catarina de Juiz de Fora/MG.

Cursei o segundo grau em um tradicional colégio de freiras, de 1983 a 1985 e essa semana andei lutando com algumas lembranças daquela época. Lembrei-me especialmente de uma das freiras, a que ocupava o cargo de diretora na ocasião: Irmã Estefânia. Irmã Estefânia era o verdadeiro terror da escola, a quem temíamos e odiávamos. Nosso pior pesadelo era ser alvo de suas repreensões ou mesmo cruzar o seu caminho por algum motivo. Mas na verdade, Irmã Estefânia, era praticamente uma sombra, quase nunca a víamos, não circulava nos corredores, falava pouco e nem era acessível aos pais ou professores. Sua presença só era convocada em situações extremas.

Mergulhada nessas lembranças recordei de uma vez, a única vez na qual eu e minha turma fomos o alvo da ira e rabugice daquela mulher. Alguém da turma – que não me lembro quem – inventara uma tal de “bolinha espacial”. Uma bolinha de papel um pouco mais sofisticada, feita de papel alumínio (reutilizado para tal fim após cumprir a função de embalar um sanduíche para a merenda). O fato é que essa “bolinha espacial” era extremamente poderosa, fazia um estrago quando arremessada na cabeça de alguém (e o propósito era exatamente esse). Portanto, quem se apoderava da tal bolinha, já que todas as outras eram de papel comum, era temido e respeitado pelos demais alunos e podia experimentar, ainda que por alguns instantes, a sensação de ter o poder nas mãos e de expressar sua agressividade contra alguém que elegesse como alvo. Essa brincadeira durou várias semanas, sem grandes contratempos: ninguém reclamou de levar bolada na testa ou no olho, ninguém se sentiu vítima de nenhuma violência ou bullying (como nomeiam agora), ninguém reclamou pra nenhum professor, pro pai, pra mãe e ninguém foi encaminhado ao psicólogo ou psiquiatra. Mas, um belo dia... Alguém errou a pontaria e ao invés acertar um colega, acertou a lâmpada fluorescente da sala, que estourou e se desfez sobre nossas cabeças em mil pedaços. Um silêncio sepulcral tomou conta da sala e a frase que todos nós temíamos foi dita minutos depois: - Chamem a Irmã Estefânia!

O tempo que se passou entre essa frase e a chegada da nossa inquisidora foi um dos piores que talvez eu tenha passado até então, e certamente, por isso, jamais me esqueci. Lembro-me do medo que senti, da dor de barriga e do gosto amargo que me vinha na boca só de pensar que meus pais saberiam do ocorrido. Também me lembro da chegada triunfante de Irmã Estefânia, dos berros que ela dava e de sua feição cruel e ameaçadora. Não me lembro do castigo que com certeza nos foi imposto, me lembro apenas que recebemos uma punição coletiva, porque nos recusamos a acusar o autor da façanha. Ah! E depois, meu castigo em casa foi dobrado porque minha mãe teve que comparecer na escola, para dar explicações... Enfim diria que o episódio da “bolinha espacial” foi um trauma em minha vida.

Numa visada superficial, ou talvez numa visada atual, Irmã Estefânia seria apenas uma mulher cruel, prepotente e mandona, que exercia sua sede de poder e seu sadismo sobre pobres e inocentes adolescentes. Mas, avaliando mais profundamente, a função que ela cumpria foi fundamental para nós. Hoje entendo que Irmã Estefânia, na verdade, não era tão somente uma castradora, mas, sobretudo, uma possibilitadora. Como tínhamos uma figura definida a quem dirigir nosso ódio, nossa repulsa, nosso temor, já que podíamos elegê-la a bruxa ou o demônio que infernizaria nossas vidas – a perseguidora responsável por nossos maiores infortúnios – podíamos, por outro lado viver numa relação de harmonia e irmandade com todos os demais membros da escola, professores, funcionários e alunos. O que ficava claro sem precisar ser dito era: todos submetidos à Irmã Estefânia e todos contra a Irmã Estefânia.

Apesar de citar apenas esse exemplo me recordo de muitas outras figuras da minha infância e juventude que cumpriram função semelhante à de Irmã Estefânia. Figuras temidas, respeitadas e odiadas que invariavelmente nos traumatizavam, facilitando bastante as coisas para nós. De fato, nossos pais também ocupavam em maior ou menor medida tal função, suportavam nossa raiva e não tinham medo de nos traumatizar com suas atitudes ou palavras. Eram também castradores-possibilitadores.

Sou mãe de dois adolescentes e vejo que eles não tem tido a mesma sorte que eu tive, afinal, figuras como Irmã Estefânia não existem mais, já que ninguém mais está autorizado assumir tal função, ou melhor, ninguém mais suporta ocupar essa função. Nós, pais e mães, temos medo de despertar a rebeldia de nossos filhos, professores temem ser alvo da ira de seus alunos e assim por diante. Isso faz com que a necessidade de nossos jovens de serem traumatizados, de terem medo, de sentirem ódio ou repulsa por alguém sem precisar de nenhum fato real para tal, tenha ficado completamente prejudicada. Sim, porque avaliando melhor agora, percebo que Irmã Estefânia na verdade, não fez nada de real que merecesse nosso temor e ódio, ela apenas representava um papel, assumia uma figura simbólica traumática extremamente facilitadora.

No entanto, os manuais de educação atuais dizem que devemos ter muito cuidado para não traumatizar nossos filhos ou alunos. Manuais que nos prometem um mundo totalmente higienizado, livre de todo e qualquer mal-estar. Mas o que tais manuais se esquecem de dizer é que, em última instância, nenhuma educação é feita sem traumas, ou seja, educar é invariavelmente traumático, violento, uma forma de impor os preceitos e normas de uma sociedade a um sujeito que quer apenas e tão somente, fazer o que quer, como quer e na hora que bem entender (todos já devem ter convivido com uma criança de 3 anos). Sendo assim, não é possível educar sem traumas, sem violentar de alguma maneira o querer do outro, assim como também não é possível crescer sem se rebelar contra alguém ou alguma coisa, mostrando assim seu próprio querer.

E foi assim que Irmã Estefânia cumpriu sua função de traumatizar e violentar toda uma geração de crianças e jovens sem precisar lançar mão de artifícios cruéis de verdade, nos possibilitando ainda, que soubéssemos exatamente contra o que ou contra quem nos rebelar. Isso nos permitia um certo bussolamento, pois, nossos “algozes” estavam definidos e os preceitos também definidos, sendo que, era a partir de tais referenciais que nos rebelávamos. E para sermos rebeldes precisávamos de muito pouco, bastava quebrar por acidente a lâmpada da sala de aula. Já meus filhos precisam de muita criatividade e esperteza para serem considerados rebeldes. Dependendo do que fizerem, podem ser considerados as vítimas do episódio (o que de longe é a intenção deles), ou pior, podem ser imediatamente encaminhados para o psicólogo ou psiquiatra. O fato é que se tornou uma tarefa muito difícil ser considerado rebelde hoje em dia, o mais comum é ser considerado vítima de algum tipo de abuso físico ou psicológico, ou portador de algum transtorno psíquico, psiquiátrico ou neurológico. Curiosamente, ao desbancar Irmã Estefânia de sua função – com a justificativa de defender os direitos de crianças e jovens e de impedir que passassem por situações de possível violência e constrangimento – nossa sociedade, ao mesmo tempo, vitimizou excessivamente esses jovens, foi progressivamente, minando a potência e a capacidade deles para lidar e superar traumas e subtraindo deles a capacidade de temer e respeitar, mas também a possibilidade de odiar e de se rebelar.

Enfim, tenho percebido que crescer e adolescer tem sido muito mais difícil e penoso para meus filhos do que foi pra mim. Não costumo ser nostálgica, nem sou das que pensam que “naquele tempo” foi sempre melhor que “hoje em dia”. Também não acredito que seja possível resgatar Irmã Estefânia. Meu texto é apenas um alerta para os que acreditam que seja possível educar sem traumas. Um alerta para os pais que acham que estão facilitando as coisas para os filhos ao dizerem sempre “sim” e ao tratá-los sempre como vítimas de um mundo cruel. Um chamado aos que não dizem “não” para crianças e jovens por temerem ser chamados de castradores por não entenderem que, na verdade, a castração é, ao contrário do que se imagina, uma grande possibilitadora. O fato é que sem a ajuda de Irmã Estefânia, precisamos inventar e reinventar outras estratégias para auxiliar nossos filhos ou alunos a delimitarem esse nosso mundo e o mundo para eles. A promessa de uma vida “sem limites” nos parece bastante sedutora, nos remete à noção de liberdade, tão cara para o mundo moderno ocidental. Todavia, ter liberdade de escolha não é o mesmo que escolher tudo, e sim, conseguir dizer “não” para algumas coisas. Mas, quem não reconhece o “não”, como será capaz de dizê-lo? Sendo assim, especialmente para os jovens, uma existência “sem limites” não tem sido e jamais será vivenciada como uma benção libertadora – podem estar certos – mas sim, como uma maldição, que inviabiliza qualquer escolha desejante.

Fonte: Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar
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