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novembro 26, 2010

Entenda a farsa e a geopolítica do crime no Rio de Janeiro

PICICA: "Quem está por trás da produção midiática, suportando as tropas da execução sumária de pobres em favelas distantes da Zona Sul?"
leonildoc | 29 de abril de 2007 
http://www.leonildocorrea.adv.br - Kátia Lund e João Moreira Salles retratam o cotidiano dos moradores e traficantes do morro da Dona Marta, no Rio de Janeiro, em Notícias de uma Guerra Particular.

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26/11/2010
A Guerra do Rio. A farsa e a geopolítica do crime

"Deixamos de fazer as velhas e relevantes perguntas: qual é a atual política de segurança do Rio de Janeiro que convive com milicianos, facções criminosas hegemônicas e área pacificadas que permanecem operando o crime? Quem são os nomes por trás de toda esta cortina de fumaça, que faturam alto com bilhões gerados pelo tráfico, roubo, outras formas de crime, controles milicianos de áreas, venda de votos e pacificações para as Olimpíadas? Quem está por trás da produção midiática, suportando as tropas da execução sumária de pobres em favelas distantes da Zona Sul? Até quando seremos tratados como estadunidenses suportando a tropa do bem na farsa de uma guerra, na qual já estamos há tanto tempo, que nos faz esquecer que ela tem outra finalidade e não a hegemonia no controle do mercado do crime no Rio de Janeiro?", pergunta José Cláudio Souza Alves, sociólogo, com doutorado na USP, professor da Universidade Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ, autor do livro "Dos Barões ao Extermínio – Uma História da Violência na Baixada Fluminense" e membro do Iser Assessoria.

Eis o artigo.

Nós que sabemos que o “inimigo é outro”, na expressão padilhesca, não podemos acreditar na farsa que a mídia e a estrutura de poder dominante no Rio querem nos empurrar.

Achar que as várias operações criminosas que vem  se abatendo sobre a Região Metropolitana nos últimos dias, fazem parte de uma guerra entre o bem, representado pelas forças publicas de segurança, e o mal, personificado pelos traficantes,  é ignorar que nem mesmo a ficção do Tropa de Elite 2 consegue sustentar tal versão.

O processo de reconfiguração da geopolítica do crime no Rio de Janeiro vem ocorrendo nos últimos 5 anos.

De um lado Milícias, aliadas a uma das facções criminosas, do outro a facção criminosa que agora reage à perda da hegemonia.

Exemplifico. Em Vigário Geral a polícia sempre atuou matando membros de uma facção criminosa e, assim, favorecendo a invasão da facção rival de Parada de Lucas. Há 4 anos, o mesmo processo se deu. Unificadas, as duas favelas se pacificaram pela ausência de disputas. Posteriormente, o líder da facção hegemônica foi assassinado pela Milícia. Hoje, a Milícia aluga as duas favelas para a facção criminosa hegemônica.

Processos semelhantes a estes foram ocorrendo em várias favelas. Sabemos que as milícias não interromperam o tráfico de drogas, apenas o incluíram na listas dos seus negócios juntamente com gato net, transporte clandestino, distribuição de terras, venda de bujões de gás, venda de voto e venda de “segurança”.

Sabemos igualmente que as UPPs não terminaram com o tráfico e sim com os conflitos. O tráfico passa a ser operado por outros grupos: milicianos, facção hegemônica ou mesmo a facção que agora tenta impedir sua derrocada, dependendo dos acordos.

Estes acordos passam por miríades de variáveis: grupos políticos hegemônicos na comunidade, acordos com associações de moradores, voto, montante de dinheiro destinado ao aparado que ocupa militarmente, etc.
Assim, ao invés de imitarmos a população estadunidense que deu apoio às tropas que invadiram o Iraque contra o inimigo Sadan Husein, e depois, viu a farsa da inexistência de nenhum dos motivos que levaram Bush a fazer tal atrocidade, devemos nos perguntar: qual é a verdadeira guerra que está ocorrendo?
Ela é simplesmente uma guerra pela hegemonia no cenário geopolítico do crime na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

As ações ocorrem no eixo ferroviário Central do Brasil e Leopoldina, expressão da compressão de uma das facções criminosas para fora da Zona Sul, que vem sendo saneada, ao menos na imagem, para as Olimpíadas.

Justificar massacres, como o de 2007, nas vésperas dos Jogos Pan Americanos, no complexo do Alemão, no qual ficou comprovada, pelo laudo da equipe da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, a existência de várias execuções sumárias é apenas uma cortina de fumaça que nos faz sustentar uma guerra ao terror em nome de um terror maior ainda, porque oculto e hegemônico.

Ônibus e carros queimados, com pouquíssimas vítimas, são expressões simbólicas do desagrado da facção que perde sua hegemonia buscando um novo acordo, que permita sua sobrevivência, afinal, eles não querem destruir a relação com o mercado que o sustenta.

A farsa da operação de guerra e seus inevitáveis mortos, muitos dos quais sem qualquer envolvimento com os blocos que disputam a hegemonia do crime no tabuleiro geopolítico do Grande Rio, serve apenas para nos fazer acreditar que ausência de conflitos é igual à paz e ausência de crime, sem perceber que a hegemonização do crime pela aliança de grupos criminosos, muitos diretamente envolvidos com o aparato policial, como a CPI das Milícias provou, perpetua  nossa eterna desgraça: a de acreditar que o mal são os outros.

Deixamos de fazer assim as velhas e relevantes perguntas: qual é a atual política de segurança do Rio de Janeiro que convive com milicianos, facções criminosas hegemônicas e área pacificadas que permanecem operando o crime? Quem são os nomes por trás de toda esta cortina de fumaça, que faturam alto com bilhões gerados pelo tráfico, roubo, outras formas de crime, controles milicianos de áreas, venda de votos e pacificações para as Olimpíadas? Quem está por trás da produção midiática, suportando as tropas da execução sumária de pobres em favelas distantes da Zona Sul? Até quando seremos tratados como estadunidenses suportando a tropa do bem na farsa de uma guerra, na qual já estamos há tanto tempo, que nos esquecemos que sua única finalidade é a hegemonia do mercado do crime no Rio de Janeiro?

Mas não se preocupem, quando restar o Iraque arrasado sempre surgirá o mercado financeiro, as empreiteiras e os grupos imobiliários a vender condomínios seguros nos Portos Maravilha da cidade.

Sempre sobrará a massa arrebanhada pela lógica da guerra ao terror, reduzida a baixos níveis de escolaridade e de renda que, somadas à classe média em desespero, elegerão seus algozes e o aplaudirão no desfile de 7 de setembro, quando o caveirão e o  Bope passarem.

Para ler mais:

Fonte: IHU

outubro 19, 2010

Dilma deverá combater, implacavelmente, a corrupção

PICICA: O IHU nos oferece uma entrevista com Wladimir Pomar sobre a atuação do PT nessas eleições. Segundo ele, Lula legará à Dilma Rousseff um duro combate contra a corrupção. O PICICA aproveita o ensejo para sugerir o nome do deputado federal pelo PT-AM, Francisco Praciano, para assumir a presidência da Comissão de Combate à Corrupção. O tema é um dos ítens que sustenta, historicamente, suas campanhas eleitorais.

19/10/2010
‘Lula legará à Dilma um duro combate contra a corrupção’. Entrevista especial com Wladimir Pomar

Uma análise da atuação do PT nessas eleições é o que faz Wladimir Pomar na entrevista que concedeu à IHU On-Line, por e-mail. Afinal: O PT errou ou acertou em sua estratégia nesse pleito? Para Pomar, em termos parlamentares e executivos estaduais, o PT se consolidou como um dos principais partidos nacionais. Porém, erros sérios, aponta ele, foram cometidos e diretamente refletidos na campanha presidencial. “O PT evitou travar uma batalha e uma discussão política em profundidade sobre o futuro das mudanças necessárias à sociedade brasileira. Isto permitiu que Marina Silva se apropriasse de bandeiras que eram tradicionais no PT, e que as apresentasse como se o PT as houvesse abandonado”, afirmou.

Wladimir Pomar
é analista político. Militante político desde 1949, ajudou a fundar o PCdoB em 1962. Preso no regime militar, atuou clandestinamente durante a década de 1970. Dez anos depois, tornou-se um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e integrou a executiva nacional do PT entre 1984 e1990. Foi coordenador-geral da campanha presidencial de Lula em 1989.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como o PT sai desse primeiro turno?

Wladimir Pomar – O PT, em termos parlamentares e dos executivos estaduais, saiu reforçado. Embora possa ser derrotado em algumas disputas estaduais do segundo turno, ele saiu das eleições consolidado como um dos principais partidos nacionais.

Por outro lado, o PT cometeu alguns erros sérios na campanha, que se refletiram negativamente na eleição presidencial. Dois deles foram
erros estratégicos. Em primeiro lugar, o PT evitou travar uma batalha e uma discussão política em profundidade sobre o futuro das mudanças necessárias à sociedade brasileira. Isto permitiu que Marina Silva se apropriasse de bandeiras que eram tradicionais no PT, e que as apresentasse como se o PT as houvesse abandonado. Em segundo lugar, o PT praticamente abandonou seu tradicional método de corpo a corpo com o eleitorado e de campanha de mobilização massiva, acreditando que bastava o apoio e a popularidade de Lula para vencer no primeiro turno.

Estas foram as causas principais do crescimento da
Marina e do insucesso relativo da eleição de Dilma no primeiro turno.

IHU On-Line – Movimentos como o MST, que há muito não se manifestavam sobre a política nacional, divulgaram documento de apoio à Dilma. O que isso pode significar?


Wladimir Pomar – O MST, assim como os movimentos sociais em geral, sabem que uma diferença fundamental entre um governo dirigido pelo PT e um governo do PSDB-DEM consiste em que um governo dirigido pelo PT pode até cometer muitos erros, em vários terrenos, mas jamais admitirá criminalizar os movimentos sociais, ao contrário do que fez o governo FHC, com Serra como um de seus principais expoentes.

As bases do
MST haviam sinalizado que votariam em Dilma já no primeiro turno, em grande parte por isso, em grande parte porque reconhecem que o governo Lula havia melhorado a situação econômica dos pobres. Assim, a direção do MST apenas verbalizou uma tendência fortemente presente em suas bases.

IHU On-Line – Como o senhor vê esse embate criado entre lideranças católicas e evangélicas, de apoio aberto à Dilma e ao Serra?


Wladimir Pomar – A clivagem principal que existe na sociedade, em especial numa sociedade multicultural como a brasileira, não é a religiosa, mas sim a de classe, ditada pelos interesses econômicos e sociais, em harmonia ou em conflito. Tanto entre os católicos quanto entre os evangélicos, a divisão social é uma realidade, embora não se deva desprezar o papel que o apelo religioso exerce sobre as decisões políticas que ambos têm que tomar.

Na campanha eleitoral, a grande imprensa e o candidato
Serra procuraram transformar assuntos de apelo religioso, como o aborto, em pontos centrais da disputa. Nessas condições, embora tais assuntos tenham sido apresentados de forma distorcida, parte do eleitorado católico e evangélico se sensibilizou com as denúncias, apoiando Serra, enquanto outra parte percebeu a mistificação e colocou em primeiro plano seus interesses econômicos, sociais e políticos, optando por Dilma.

Porém, mesmo que esse tipo de assunto não tivesse entrado na disputa, seria natural a divisão entre os dois candidatos em virtude dos interesses de classe. As
lideranças religiosas apenas expressam a divisão latente que existe em seu meio.

IHU On-Line – Quais as diferenças e semelhanças políticas entre Dilma e Lula?


Wladimir Pomar – Lula e Dilma possuem uma unidade política muito grande em torno dos projetos nacionais, econômicos e sociais que o Brasil necessita. Ambos sabem que só é possível elevar o padrão de vida do conjunto da população brasileira se o país desenvolver suas forças produtivas, com base nas ciências e tecnologias. O que inclui industrializar o país, tendo por base os novos parâmetros científicos e tecnológicos que permitam, ao mesmo tempo, proteger e recuperar o meio ambiente, produzir uma energia limpa, e praticar uma agricultura sustentável. E que tudo isso vai exigir um esforço considerável para colocar a educação em primeiro plano nos esforços nacionais.

Ambos também sabem que o mercado capitalista realiza uma distribuição desequilibrada e desigual das riquezas produzidas, necessitando que o Estado atue consciente e efetivamente no processo de redistribuição da renda e de amparo à saúde, através de políticas que reduzam os abismos existentes entre as classes mais ricas e as mais pobres. Nas condições brasileiras, esse é um processo complexo e novo, cujos embates ainda têm se limitado às disputas eleitorais. Se continuarem dentro desses limites, o que se pode esperar é que
Dilma não só dê continuidade ao que o governo Lula implantou, como avance muito mais, porque as condições para isso foram criadas pelo próprio governo Lula.

Ambos também sabem que a luta contra a corrupção é um item importante da agenda política, assim como da agenda policial e judicial. Porém, supor que um governo eleito, tendo como aparato de Estado uma máquina, que há muito criada para servir aos interesses dos poderosos, possa mudar essa situação rapidamente e liquidar a corrupção a curto prazo, é uma ilusão. Num quadro como esse,
Lula legará à Dilma um combate duro contra a corrupção e a necessidade de implantar reformas políticas, tributárias e fiscais, que fechem canos e torneiras que permitem o saque aos recursos dos contribuintes e o vazamento de dinheiro público para o bolso de aproveitadores. Mas não será fácil.

IHU On-Line – O que significa o apoio que veio do PSOL que sugere o voto nulo ou o voto crítico em Dilma?

Wladimir Pomar – Há muito tempo a esquerda e setores progressistas brasileiros sofrem da síndrome de confundir inimigos e amigos. Nesta eleição, foi dramático assistir a pessoas da esquerda ou progressistas apoiando a atual direita, representada pelo PSDB-DEM. Ou, mesmo não a apoiando diretamente, atacando Dilma e o PT como se fossem os inimigos principais. Nesse sentido, a decisão do PSOL em sugerir o voto, mesmo crítico, em Dilma, indica um bom vento de racionalidade política, que aponta para o inimigo verdadeiro.

IHU On-Line – O PT que entrou nessas eleições é o mesmo que sai?


Wladimir Pomar – Nunca se é o mesmo, seja lá quem for. O PT de 1990 não era o mesmo de 1989, o de 2003 não era o mesmo de 2002, e assim por diante. O problema consiste em saber o que realmente mudou e quais os novos desafios que há pela frente. Se Dilma vencer, as mudanças e desafios serão de um tipo. Se Dilma perder, serão de outro. De qualquer modo, o PT terá que fazer uma avaliação mais profunda de sua trajetória e, na melhor das hipóteses, analisar seriamente porque cometeu, no primeiro turno, erros estratégicos que colocaram em risco a vitória na campanha presidencial. O resto talvez seja desdobramento dessa análise estratégica.

IHU On-Line – Como o senhor define o PT de hoje?


Wladimir Pomar – O PT continua sendo a maior expressão da esquerda e dos sentimentos mais profundos dos trabalhadores e das camadas pobres da população brasileira. Nessas condições, ele deve abrigar democraticamente diferentes correntes de pensamento da sociedade brasileira, que possuem as classes populares como seu motivo de existência.

O problema é que isto não basta para dar maior organicidade, ou capacidade de resposta, ao PT. Por exemplo, em seu meio há os que ainda não acordaram para o fato de que, quanto mais o PT se torna uma alternativa de governo e de mudança no sentido democrático e popular, mais complexa e, em grande medida violenta, tende a ser a resposta da oposição de direita e, em certa medida, do centro. O PT terá que se haver com esse aumento de complexidade, tanto no caso da vitória ou derrota de
Dilma.

Por um lado, no caso de vitória, a direita tentará impedir que o governo funcione a contento e avance na implantação de medidas de cunho mais democrático e popular, seja por meio de boicotes, seja por meio de barganhas com alguns aliados atuais do PT. De outro, no caso de derrota, haverá a intensificação dos esforços para simplesmente liquidar o PT como alternativa de governo. Nada diferente do que já foi tentado durante os mais de 30 anos de vida do PT, mas certamente com uma virulência bem maior.


O PT poderá, então, ser definido pelo
grau de mobilização que conseguiu nesta reta final das eleições de 2010, e pelo grau de consciência que o conjunto de seus dirigentes e militantes tiverem a respeito dos desafios que terão pela frente, a partir dos resultados das urnas em 31 de outubro.


Para ler mais:
Fonte: IHU

outubro 13, 2010

Por que a tragédia dos mapuches, no Chile, não comove a mídia do espetáculo?

Mapuches from Nacho Salgado on Vimeo.
Cuando el pueblo mapuche consiguió derrotar a los invasores de la corona española
no imaginaron que su lucha no había hecho más que empezar.

“Mapuches: historia de una resistencia” es un retrato de la situación actual de conflicto
que vive este pueblo originario chileno.

Es el testimonio de los que aún continúan resistiendo 
por mantener su  identidad como pueblo,
por conservar sus raíces, su cultura y su territorio. 

Y es un homenaje a aquellos que se han quedado por el camino… (Ángela López) 

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13/10/2010
Depois de 89 dias termina greve de fome dos mapuches

Os dez indígenas mapuches que ainda estavam em greve de fome nas prisões de Angol, Chol-Chol e Temuco, decidiram terminar a greve de fome, iniciada há 89 dias, em protesto contra o seu enquadramento na lei antiterrorismo por defenderem e lutarem por suas terras ancestrais.

A reportagem é de Héctor Carrillo e publicada pela Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC), 12-10-2010.

Foi uma longa jornada realizada na sexta-feira 8, que incluiu a visita do presidente da República, Sebastián Piñera, à localidade mapuche de Purén, quando assumiu o compromisso de levar à tramitação no Congresso do projeto de lei que reconhece constitucionalmente os povos originários.

Os primeiros sinais de acerto chegaram depois do encontro dos secretários de Estado com os seis mapuches em greve no Hospital de Victoria, onde teriam redigido rascunho de acordo que, depois, foi levado para aprovação aos quatro grevistas na prisão de Angol.

Com este documento, os mapuches em greve de fome encerraram o movimento.

O trabalho das igrejas foi fundamental para chegar ao fim do conflito, principalmente a participação do arcebispo de Concepción, Ricardo Ezatti, que viajou de uma prisão a outra para conversar com os grevistas.

Fonte: IHU

Nota do blog: No Chile, a greve de fome do mapuches contou apenas com o apoio da mídia alternativa, da Igreja Católica, e com a solidariedade internacional dos movimentos sociais. A mídia do espetáculo preferiu estimular a solidariedade que brota espontaneamente no seio da sociedade, em casos de tragédia como a dos mineiros chilenos. O eminente sociólogo Emir Sader mostra o outro lado da moeda, no caso dos mineiros soterrados: "Mineiros chilenos, vítimas da flexibilização trabalhista". 

setembro 04, 2010

Ministério Público Federal afirma que o Exército submeteu índios a tratamento desumano em São Gabriel da Cachoeira

Imagem postada em exercito.gov.br
Índios foram submetidos a tratamento desumano pelo Exército no Amazonas, afirma Ministério Público Federal 


Militares do Pelotão de Fronteira, no Amazonas, são denunciados por terem espancado e amontoado índios numa jaula para onças, durante investigação de tráfico.

A reportagem é de Claudio Dantas Sequeira e publicada pela IstoÉ, 03-09-2010.

Uma espécie de Abu Ghraib parece ter se materializado no meio da selva amazônica. A sede do 3º Pelotão Especial de Fronteira do Exército é acusada de ter sido palco de crueldades semelhantes às praticadas nos porões da masmorra iraquiana, famosa depois da divulgação de fotografias de torturas impostas por soldados americanos a prisioneiros islâmicos. 

No caso brasileiro, as vítimas foram 12 índios. Presos por militares metidos numa investigação policial sobre tráfico de drogas, os indígenas relatam os horrores a que foram submetidos. “Nos colocaram numa gaiola de ferro e lá ficamos como animais”, contou Brígido Mariano Garrido, morador da comunidade de Uarirambã, a 320 quilômetros de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. A gaiola era uma jaula de ferro para onças. “Um de meus colegas apanhou como se fosse um cachorro”, denunciou Fredy Sanches Amâncio, que foi obrigado a permanecer por quase duas horas deitado com o rosto no chão, sob a mira de um fuzil.

Esses e outros testemunhos de mais cinco índios foram anexados a um relatório encaminhado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) a autoridades em Brasília e no Amazonas. A Justiça Militar entendeu que não tem competência para julgar o caso. Mas o Ministério Público Federal, depois de investigação preliminar, acaba de oferecer denúncia contra quatro militares. 

Na opinião do procurador Silvio Pettengill Neto, responsável pela ação, “a conduta dos denunciados amolda-se à prática de tortura”. Segundo ele, os sargentos Leandro Fernandes Rios de Souza, Ramon da Costa Alves e Walter Cabral Soares, sob o comando do 1º tenente do Exército, Samir Guimarães Ribas, praticaram atos de “abuso de autoridade e tortura, causando sofrimento físico e mental nos índios”.

De acordo com a denúncia do Ministério Público, a ação truculenta dos militares foi motivada pelo relato de um morador local de que índios das comunidades de São Joaquim e Uarirambã estariam consumindo e comercializando drogas. Samir Ribas, então comandante do 3º Pelotão de Fronteira, determinou a formação de duas patrulhas para “identificar, localizar e proceder à prisão” dos suspeitos. 

Sem ordem judicial ou qualquer evidência do crime, segundo o procurador Pettengill Neto, os militares ingressaram nas residências dos índios no dia 29 de setembro de 2007 e efetuaram “prisões para averiguação”. “Às 11h35 da noite apareceu um sargento chamado Soares e mais três soldados dizendo que eu estava depositando droga dentro da minha casa”, lembra Gustavo Mariano. Seu colega Mario Mandu conta que foi preso diante da filha de 8 anos, o que “causou muita tristeza”. No desabafo, escrito com dificuldade em português, o indígena diz que perdoa seus agressores.

O procurador federal, no entanto, está disposto a conseguir o indiciamento dos militares, pelo que considera um “tratamento desumano e vil”. Na ação, ele detalha que, levados em voadeiras até a sede do Pelotão Especial de Fronteira (PEF), os indígenas foram ameaçados com armas e agredidos com socos e chutes. “O senhor tenente me chutou com o pé bem forte e quase chorei”, relembra Garrido, em seu depoimento. À violência física, os militares acrescentaram atos degradantes. “Foram colocados em uma jaula de ferro destinada a transporte de onça. Apertados no interior da jaula de ferro por longo período, alguns índios não resistiram e passaram a urinar naquele local. Em razão disso e sob a justificativa de limpar a sujeira e afastar o odor de urina, os militares despejaram baldes de água sobre os índios”, explica o procurador Pettengill Neto. A sessão de tortura, segundo ele, durou toda a madrugada.

O antropólogo Mércio Gomes, ex-presidente da Funai, defende uma punição exemplar aos agressores para afastar qualquer suspeita de que o Exército acoberte excessos. “Imagino que torturar 12 índios de forma explícita seja contra os propósitos e a ética militar”, diz ele. Para Gomes, trata-se de uma excepcionalidade. “No cômputo geral, o Exército tem se portado com bastante consciência sobre seu papel na relação com as populações indígenas”, afirma. A última ocorrência de violência na região foi registrada em 2001. 

O antropólogo destaca que boa parte do contingente militar na fronteira amazônica é formada de indígenas. No entanto, entre os oficiais ainda predomina a presença de brancos, oriundos de Estados de fora da Amazônia. O 1º tenente Samir Ribas, que comandou a ação, por exemplo, é de Fortaleza. Os demais militares vêm de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul. Nenhum deles foi localizado para comentar o episódio. Questionado pela reportagem, o Exército diz que “aguarda decisão judicial transitada em julgado para adotar as providências determinadas pela Justiça”.

Francisco Loebens, responsável pela área de formação do escritório regional do Conselho Missionário Indígena (Cimi), sustenta, ao contrário do ex-presidente da Funai, que excessos de militares contra índios são comuns. A ausência de registros seria, segundo ele, decorrente do medo de represálias. Para o dirigente do Cimi, é preciso regulamentar a presença militar em terras indígenas, a fim de que “o direito desses povos seja resguardado”. “Difunde-se a lógica de que a segurança nacional está acima da segurança dos cidadãos, e que tudo é permitido em nome dela. Mas está claro que os índios são a parte vulnerável nessa equação e acabam sendo vítimas de abusos”, diz Loebens. Ele sugere que a “atuação militar em terras indígenas contemple as especificidades culturais de cada comunidade”. 

O presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, Abrahão de Oliveira França, da nação baré, afirma que as vítimas da ação militar não portavam droga nem tinham envolvimento com o tráfico. “E, mesmo que tivessem, isso não autoriza a conduta truculenta e desrespeitosa dos militares”, diz ele.
Para Loebens, existe um “ranço autoritário” na forma como as Forças Armadas atuam na região. Todos os militares que servem na fronteira amazônica precisam passar pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs), que nos tempos da ditadura militar servia de base de ensino de técnicas de combate à guerrilha. Na ocasião do episódio das torturas dos índios, respondia pelo Comando Militar da Amazônia (CMA) o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, oriundo do Cigs e notabilizado pelas críticas à política indigenista do governo Lula, que classificou de “lamentável e caótica”. Hoje o general Ribeiro Pereira chefia o Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército, responsável pelo projeto “soldado do futuro”. Outro oficial treinado pelo Cigs foi o general Ivan Carlos Weber Rosas, que comandava a 2ª Brigada de Infantaria de Selva, responsável pelo 3º PEF, em 2007. Rosas determinou uma sindicância interna para apurar o caso, mas não encontrou “qualquer ato delituoso por parte dos militares”.
Fonte: IHU

agosto 14, 2010

Lula quer mais hidrelétricas na Amazônia... PQP, tamo pebado!


RogelioCasado | 5 de novembro de 2009
Selda Valle, professora da Universidade Federal do Amazonas, abre a IV Mostra Amazônica do Filme Etnográfico e cita, na sua fala, o documentário Balbina no País da Impunidade - sobre a construção da hidrelétrica de Balbina -, cujas cópias viraram raridade.

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4/8/2010
‘Vai ter muito mais hidrelétricas’, diz Lula
Ao visitar hoje nessa sexta-feira as obras de Usina Hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, que foi alvo de protestos de ambientalistas e sofreu atrasos na liberação de licenças ambientais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que sem energia não há desenvolvimento. “O Brasil não vai abrir mão de ser autossuficiente em produção de energia, e energia limpa”, disse. 

A reportagem é de Yara Aquino e publicado pela Agência Brasil, 13-04-2010.

Jirau fica a cerca de 120 quilômetros de Porto Velho, capital de Rondônia. A usina terá capacidade de produção de 3.300 megawatts (MW), suficiente para abastecer 10 milhões de casas. A previsão é de que a usina comece a operar em 2012. 

O potencial do país para produzir energia limpa também foi ressaltado pelo presidente Lula. “O Brasil tem uma situação altamente privilegiada. Enquanto o mundo rico tem apenas 13% da sua energia elétrica limpa, o Brasil tem 85% da energia elétrica limpa. É um privilégio em um mundo que tanto clama para que se deixe de emitir gases de efeito estufa que estão esquentando o planeta”.

O presidente da República garantiu para os trabalhadores, vindos de vários estados para a construção das usinas, que não faltará emprego para eles após a conclusão das obras, em 2012. “Vai ter muito mais hidrelétricas”, disse Lula. 

Um desses trabalhadores é Cley Xavier Valadares, que veio do Maranhão há um ano e meio para trabalhar na construção de Jirau. Ele disse que no alojamento da hidrelétrica, a maioria das pessoas é de outros estados. “Só está desempregado quem quer. Oportunidade tem muito”.

Ao conceder a licença de instalação tanto para Jirau quanto para Santo Antônio, o Ibama determinou que os consórcios vencedores realizem uma série de medidas mitigatórias como projetos de habitação popular, saneamento e aplicação de recursos para pesquisa de espécies em extinção.

Para a construção de Jirau, foi preciso retirar populações ribeirinhas que foram realocadas pelo consórcio construtor da obra na Vila Nova Mutum-Paraná. Antes de seguir para a usina, Lula visitou a vila, onde afirmou, em discurso, que não se pode fazer obra de grande porte sem cumprir as compensações acordadas. “Não podemos mais fazer hidrelétricas como na década de 50, que se prometia um monte de coisa e não se cumpria, tanto o governo quanto os empresários”.

Jirau é construída pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil, formado pelas empresas Suez Energy (50,1%), Eletrosul (20%), Chesf (20%) e Camargo Corrêa (9,9%). No leilão de concessão para a construção de Jirau, o preço inicial proposto foi de R$ 91 por MW-hora e o grupo vencedor ofereceu R$ 71,40. 

A usina terá 46 turbinas do tipo bulbo, usadas quando a força do próprio rio gera energia contínua, sem necessidade de grandes quedas d’água e diminui a extensão da área alagada. Jirau integra o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e é a maior hidrelétrica em construção hoje no Brasil, na qual serão investidos R$ 11 bilhões. Parte desse dinheiro vem do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Para ler mais:
Fonte: IHU

julho 27, 2010

“Quem é de Axé diz que é!”

”Sim, eu sou axé!”

Após muita luta, as Comunidades Tradicionais de Terreiros (Umbanda e Candomblé),  serão incluídas no levantamento estatístico oficial do Brasil, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o último Censo, apenas 0,3% da população geral do país (525 mil pessoas) se declaram praticantes de religiões de matrizes africanas enquanto em festas como as de Yemonjá o público se ampliou cada vez mais em todo o país. Para dar maior visibilidade ao número de praticantes em todo o país, inserido as comunidades no cenário político, social e cultural, o Coletivo de Entidades Negras (CEN) e a Casa de Oxumarê/SSA lançaram a campanha “Quem é de Axé diz que é!”. A campanha, mobiliza “o povo santo” a assumir sua identidade religiosa e dizer: “Sim, eu sou axé!”.
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Fonte: Blog do IHU

julho 19, 2010

Subjetividade e Normalização: Discutindo políticas de identidade e saúde mental na sociedade contemporânea

Subjetividade e Normalização. Um ciclo de filmes e debates

Quatro obras cinematográficas, de países, anos e diretores diferentes, ajudarão a construir debates sobre as experiências dos atores sociais contemporâneos e sobre a interdisciplinariedade na vida humana.

Nos dias 17, 24 e 31 de agosto e 9 de setembro ocorre o “Ciclo de Filmes e Debates – Subjetividade e Normalização: Discutindo políticas de identidade e saúde mental na sociedade contemporânea”. O projeto serve como preparação para o XI Simpósio Internacional IHU: O (des)governo biopolítico da vida humana. Professores, pesquisadores, estudantes e comunidade em geral são esperados para as sessões gratuitas, que iniciarão sempre às 17 horas. Após cada filme, profissionais de diferentes áreas coordenarão os debates.

17 de agosto
Filme: Minha vida cor de rosa (Bélgica)
Debatedora:
Profa. MS. Claúdia Weyne Cruz
Diretor: Alain Berliner
Elenco: Michèle Laroque, Jean-Philippe Écoffey, Hélène Vincent, Georges Du Fresne, Daniel Hanssens, Laurence Bibot, Jean-François Gallotte, Caroline Baehr
Sinopse: Menino retraído decide se vestir apenas como menina, causando um grande furor na pequena cidade onde mora. Sua família vive com a possibilidade de que ele seja gay e tenta superar os transtornos que a situação gera.


24 de agosto
Filme
: Betty Blue (França)
Debatedor: doutora Liliane Seide Froemming
Diretor: Jean-Jacques Beineix
Elenco: Jean-Hughes Anglade , Béatrice Dalle , Gérard Darmon , Consuelo De Havilland , Clémentine Célarié
Sinopse: Betty é radical e espontânea, até um pouca maluca, e Zorg é o homem a quem se inspira para continuar escrevendo.

 
31 de agosto
Filme:
Clube da luta (EUA)
Debatedor: professor doutor José Rogério Lopes
Diretor: David Fincher
Elenco: Edward Norton, Brad Pitt , Helena Borham Carter , Meat Loaf , Jared Leto , Zach Grenier
Sinopse: Jack trabalha como investigador de seguros, mas sua ansiedade o faz conviver com pessoas como a viciada Marla Singer e o estranho Tyler Durden. Misterioso e cheio de ideias, Tyler apresenta para Jack um grupo secreto que se encontra para extravasar suas angústias e tensões através de violentos combates corporais.


9 de setembro
Filme: Blade Runner (EUA)
Debatedor: professor doutor Carlos A. Gadea
Diretor: Ridley Scott
Elenco: Harrison Ford, Sean Young, Edward James Olmos, Daryl Hannah e Rutger Hauer
Sinopse: No futuro, um ex-policial tem de encontrar e eliminar replicantes, que retornam à Terra para cobrar vida mais longa ao seu criador

Fonte: IHU

julho 09, 2010

Pedofilia: um delírio de autonomia

8/7/2010
'A pedofilia é um delírio da autonomia'. Entrevista especial com Benilton Bezerra
"A autonomia, tomada como uma espécie de exacerbação exagerada do valor do individualismo e de uma certa recusa da subordinação do indivíduo à lei, tem a perversão como uma posição do sujeito na qual ele se põe a margem desta submissão à lei. Neste sentido acredito que sim, que a pedofilia é um delírio da autonomia". A explicação é Benilton Bezerra, doutor em saúde coletiva. Ele concedeu, por telefone, entrevista à IHU On-Line, sobre a manifestação da pedofilia no sujeito contemporâneo. "Atualmente, vemos uma sociedade que se torna mais porosa, onde os indivíduos buscam  realizar qualquer tipo de fantasia em busca de seu gozo", afirmou.

Benilton Bezerra Junior é graduado em Direito e em Medicina, mestre em Medicina Social e doutor em Saúde Coletiva, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente, é membro do Instituto Franco Basaglia e atua como docente adjunto do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, e pesquisador do PEPAS (Programa de Estudos e Pesquisas sobre Ação e Sujeito) da UERJ. Dentro suas obras, destacamos: Pragmatismos, pragmáticas e produção de subjetividades. (Rio de Janeiro: Garamond, 2008).
Ele é autor do artigo "Retraimento da autonomia e patologia da ação: a distimia como sintoma social", publicado no livro Inácio Neutzling (org.), O Futuro da Autonomia: Uma Sociedade de Indivíduos?, São Leopoldo - Rio de Janeiro: Editora Unisinos - Editora PUC-Rio, 2009.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A pedofilia é um delírio de autonomia? Por quê?

Benilton Bezerra - Acredito que essa expressão se refere ao fato de que na sociedade atual a autonomia ganhou um sentido de generalização absoluta, como quase uma espécie de imperativo, ao qual todos devem estar referidos. Há uma idealização da autonomia como uma independência total em relação às regras, valores, tradição, uma espécie de tráfico do sujeito que teria o poder de adentrar na constituição do indivíduo como uma figura política, porque isso vincula à valores e ações coletivas. Mas a autonomia, tomada como uma espécie de exacerbação exagerada do valor do individualismo e de uma certa recusa da subordinação do indivíduo à lei, tem a perversão como uma posição do sujeito na qual ele se põe a margem desta submissão à lei. Neste sentido acredito que sim, que a pedofilia é um delírio da autonomia.

IHU On-Line – De que forma a pedofilia se conecta com as grandes neuroses que acometem o sujeito contemporâneo?

Benilton Bezerra - Eu não sei se poderiámos conectar a pedofilia em si como um fenômeno subjetivo às outras grandes neuroses contemporâneas. Por exemplo, você pensa na depressão e seus sintomas na nossa época, são modos de subjetivação, formas de viver o sofrimento, de organizar a experiência subjetiva, que testemunha um pouco a nossa cena social contemporânea. Neste sentido podemos dizer que a depressão é uma neurose contemporânea, mas ilustrativa de quais são os nossos desafios e os nossos fracassos. Assim como a histeria foi no final do século XIX, início do século XX. A depressão, hoje em dia, é o fracasso da autonomia. Se a perversão seria uma espécie de autonomia elevada ao delírio, a depressão seria como um sintoma generalizado testemunha do fracasso da autonomia.

A partir dessa ideia, não tenho certeza se hoje em dia nós temos um aumento tão flagrante de casos de pedofilia assim como os  casos de depressão, por exemplo. Talvez haja maior visibilidade em relação a pedofilia do que se tinha antes, o que se tornou uma questão fundamental para nós. Até porque talvez a pedofilia seja um dos últimos limites que reconhecemos como inultrapassáveis.A pedofilia ainda é alguma coisa que a consciência moral atual rejeita. Isso faz com que a nossa sensibilidade e visibilidade sejam maiores, agregado ao fato de que recentemente isso ganhou notoriedade pela denúncia de casos em grandes instituições, como o caso da Igreja.
"Talvez a pedofilia seja um dos últimos limites que reconhecemos como inultrapassáveis"
Atualmente, vemos uma sociedade que se torna mais porosa, onde os indivíduos buscam  realizar qualquer tipo de fantasia em busca de seu gozo. Ao contrário de uma sociedade de cem anos atrás que era regida pela idéia da contenção, senão da repressão dos impulsos sexuais. Hoje, nossa sociedade, de maneira geral, suscita o gozo, pede o gozo. Todos nós somos impelidos à procura do gozo, que é visto como uma realização da própria idiossincrasia.

Como diz o Alain Ehrenberg, sociólogo francês, vivemos numa sociedade da autonomia assistida, somos todos convidados a ser autônomos e, por isso, sermos vencedores, realizadores. Devemos, segundo ele, buscar sempre alcançar os objetivos que nos interessam e aquilo que representaria nossa felicidade, mas, evidentemente, estamos sempre nos sentindo aquém da realização deste mandato social. Por vias transversas, você pode encontrar tanto na pedofilia como na depressão, elos que ligam essas posições subjetivas da cultura atual. Com a ressalva que não resta dúvida que existe um aumento muito grande de depressões, dos fenômenos compulsivos e aditivos, mas tenho dúvidas em relação ao fato do aumento dos casos de pedofilia, embora sua visibilidade sim, tenha crescido.

IHU On-Line – O que a pedofilia expressa sobre a sexualidade desse sujeito?

Benilton Bezerra - Há, na nossa cultura, um estímulo a uma espécie de autonomia sem limite do sujeito, o que faz com que ele se exclua mais facilmente de regras socialmente sancionadas de organização das práticas que possam realizar seus desejos e suas fantasias sexuais. Neste sentido, talvez a pedofilia possa ter expressão na cultura e na subjetividade atual. Não sei se podemos fazer essa relação tão próxima entre a figura do pedófilo e a figura do sujeito contemporâneo, a não ser por este traço mais genérico, ou seja, vendo a pedofilia numa posição subjetiva na qual o sujeito se furta das definições da lei. E nós vivemos em uma sociedade onde justamente a ideia de lei, de autoridade, se encontra em um processo muito grande de erosão.

IHU On-Line – Em termos psicanalíticos, mas também históricos, como podemos compreender a interdição dessa prática sexual como aceitável socialmente?

Benilton Bezerra - Uma das coisas que acontece hoje é a constituição de uma figura homogênea do
 
O engenheiro Josef Fritzl encarcerou e abusou da filha por 24 anos
pedófilo e da pedofilia que, na verdade, é um pouco ilusória. São dois termos que abrangem muitas possibilidades e muitas diferenças. Essas diferrenças se expressam, por exemplo, entre um caso de pedofilia como o do austríaco que encarcerou sua filha e seus netos no porão e situações que encontramos em clínicas e que são menos dramáticas, menos agressivas e muito menos contundentes. Conheço pedófilos que são, de fato, perversos, pois não possuem nenhum conflito com o que fazem. Outros que praticam atos pedófilos, mas que vivem dilacerados por causa disso.

Do ponto de vista histórico, só podemos falar de pedofilia a partir desse momento que estamos vivendo. Nosso tempo entende a pedofilia como um abuso em relação à figura de uma criança que é inocente e que não tem conhecimento sobre o que está sendo feito, que se deixa levar pela confiança que ela naturalmente tem pelo adulto. Isto tudo só faz sentido a partir do momento em que a infância foi construída como um momento da vida onde essa inocência, esse desconhecimento sobre o sexo, foi constituído. A infância passou a ser concebida dessa maneira a partir do século XIX.

As crianças, durante a Idade Média e antes do Renascimento, eram entendidas como adultos em miniatura, então o olhar sobre a infância era muito diferente. Por isso, as práticas dos adultos em relação às crianças eram bastante diferentes. O fato é que hoje entendemos a criança como um ser frágil, dependente do adulto, que precisa ser acolhida, precisa ser cuidada, precisa confiar cegamente nos adultos para se constituir como um sujeito capaz de viver a vida com prazer, alegria, sem se sentir violentada.

"Conheço pedófilos que são, de fato, perversos, pois não possuem nenhum conflito com o que fazem. Outros que praticam atos pedófilos, mas que vivem dilacerados por causa disso"

Do ponto de vista histórico, não há como se imaginar vivendo em mundos e culturas diferentes. Na nossa cultura, a criança não é um adulto, ela tem direitos de sujeito, mas não tem obrigações de sujeito. A criança tem que ser protegida e, neste sentido, não há como defender o conceito de uma igualdade de condições entre o adulto e uma criança. Nós vivemos numa sociedade que, por valorizar o indivíduo e a autonomia, exige que todo “contrato” entre dois sujeitos implique a preservação das condições de equidade entre eles. No entanto, isso não existe numa relação entre um adulto e uma criança.

Do ponto de vista psicanalítico, ocorre algo semelhante, afinal o sujeito da psicanálise se constitui a partir da modernidade. Assim, o que está em jogo nesta relação entre adulto e criança são as obrigações do adulto de proteger, cuidar e criar condições para que o desenvolvimento psíquico do menor se dê da melhor forma possível. Esse tipo de responsabilidade do adulto é atropelado quando ele se permite dar vazão aos seus impulsos sem considerar a diferença de posição entre ele e a criança. Para a psicanálise, qualquer prática sexual é possível, é aceitável, desde que ela seja realizada por dois adultos livres, responsáveis, racionais, que tenham consentimento e que saibam o que estão fazendo.

"O que está em jogo nesta relação entre adulto e criança são as obrigações do adulto de proteger, cuidar e criar condições para que o desenvolvimento psíquico do menor se dê da melhor forma possível"

Não que a criança não tenha sexualidade, ou que não possa inclusive se excitar e sentir prazer com a prática pedófila, afinal a criança é um ser sexuado, mas a sexualidade dela é organizada em torno da linguagem da ternura, enquanto que a do adulto é organizada em torno da paixão. A confusão entre essas duas línguas é que torna confusa e violenta, ao longo do tempo, para a criança a entrada em uma cena pedófila.

IHU On-Line – O que há de consciente nesse desejo proibido?

Benilton Bezerra – A maneira como se ordena o desejo do sujeito é dependente da vontade, do desejo e da decisão consciente de qualquer um. Ninguém é pedófilo porque resolveu ser. Há uma dimensão de tragédia pessoal do pedófilo, sobretudo daquele que reconhece o sofrimento que impõe à criança. Nem todo o pedófilo é frio, calculista e sem culpa, existem muitos que vivem um drama justamente por conta da luta que tem que manter o tempo todo entre o impulso que não escolhe, mas que está presente, e sua consciência.

"Nem todo o pedófilo é frio, calculista e sem culpa"

Se pensarmos nas dimensões da importância da consciência em relação ao universo dos pedófilos, teríamos que fazer uma distinção entre os vários tipos: em uma ponta estariam aqueles que sabem o que estão fazendo e não sentem culpa; na outra ponta do espectro aquele que é dilacerado por ter consciência e perceber o quanto o impulso que nele é espontâneo conflita com valores, regras, morais, ideais, que conscientemente adota para si. Há um filme muito interessante que fala exatamente desta figura que acabei de mencionar, que se chama “O lenhador”.

IHU On-Line – Quais são os impactos psicológicos de uma criança vítima de abuso sexual?

Benilton Bezerra – No momento do ato, a criança não tem clareza do que está acontecendo e pode ficar confusa, mas é só quando a questão se torna pública, apenas quando ela se vê capaz de enxergar com o olhar compartilhado qual era o sentido daquela experiência que viveu que, então, o impacto se manifesta. Pela construção de certos mecanismos de defesa, às vezes muito fortes, ela pode se identificar com o próprio agressor e, portanto, repetir este gesto depois. Isso é muito comum em pedófilos.

Algumas crianças passam a aceitar uma posição masoquista que as impedem de usufruir de maneira mais livre a sua própria sexualidade. Existem crianças fazem uma espécie de cisão como forma de separar aquela experiência traumática da sua trajetória pessoal, e isso tanto pode torná-la mais agressiva ou desprovida da agressividade natural e, então, torná-la apática, desmotivada, incapaz de enfrentar desafios.

Um grande impacto é a dificuldade de confiar no outro, como criança que confia nos adultos e como ser humano que tem o outro como fonte de carinho, de proteção, de satisfação, de alegria. E sabemos que isso é fundamental na vida de qualquer pessoa para que ela possa usufruir da vida da melhor maneira possível.

IHU On-Line – Existe um limite na pedofilia entre amor e violência?

Benilton Bezerra – Estamos tomando pedofilia, neste caso, como sendo uma palavra cuja raiz etimológica indica exatamente isso: “amor à infância”. Essa ideia original, hoje, desapareceu. É muito complexo traçar o limite entre o que é o carinho, o toque afetuoso de um adulto, dos pais, irmãos mais velhos em relação à criança e o que é o “carinho” feito com o objetivo de satisfazer um impulso sexual do adulto.

Existem culturas que são mais receptivas a uma troca de carinhos físicos, como a brasileira. E ainda há diferenças entre algumas regiões aqui no Brasil, por exemplo, no Rio de Janeiro, mais do que no Rio Grande do Sul, onde as pessoas se tocam mais, se beijam quando são apresentadas umas as outras. Isso é impensável em países como o Japão, por exemplo.

Do ponto de vista cultural, há uma enorme variedade em relação a isso, onde se traça a fronteira do que consideramos uma demonstração de amor e o que é um abuso violento. Do ponto de vista psicológico é muito mais fácil de definir, porque isso implica você conhecer a posição subjetiva que o sujeito está ocupando naquele momento.

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