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novembro 17, 2010

Por que a mídia da burguesia não dará tréguas ao governo Dilma Rousseff?

PICICA: Algumas expressões, ao desaparecer, empobrecem, com sua falta, o debate público. A palavra burguesia, restrita ao espaço acadêmico, é uma delas. O autoritarismo tratou de fazer uma limpeza ideológica dos discursos, para tornar silenciosamente aceitável apenas o que interessa ao domínio de classe (outra expressão banida do vocabulário cotidiano). Animado com a leitura do PICICA por jovens jornalistas, despidos de preconceito, é a eles que dedico esta postagem. E nada melhor do que citar esta passagem sobre a relação entre a mídia e a burguesia nacional, segundo a experiência de Wladimir Pomar: "O caso das provas do Enem não deve ser tomado apenas como uma tentativa de vingança da grande mídia. É preferível tomá-lo como a primeira experiência, após a derrota eleitoral, de como o combate permanente será travado daqui para a frente." O que virá pela frente deve por questões éticas na ordem do dia: a ética jornalística e a ética cidadã.

Governo Dilma: Sem tréguas


Wladimir Pomar
Por Wladimir Pomar

Veja, Globo, Folha, Estadão e outras mídias da mesma linha parecem continuar em campanha. Suas manchetes quase sempre procuram transformar qualquer defeito, qualquer deslize, qualquer erro, numa ação deliberada, de alta envergadura, praticada pelo governo ou pelo PT, ou pelos dois ao mesmo tempo, dependendo da oportunidade.


Como os Bourbons, que jamais aprendiam com a realidade da vida, essa grande mídia nada aprendeu com o resultados das urnas e a eleição de Dilma. Ela continua empenhada em ser, ainda mais do que antes, um órgão de propaganda explícita de seus próprios interesses e do setor da burguesia que não se conforma em ter o PT à frente de um governo de coalizão, por mais quatro anos. Ela jogou fora qualquer verniz de órgãos de informação, que devem dar espaço equânime às diversas versões de um mesmo fato, e só publica a sua própria versão, em geral viciada de rancor e, agora, mais do que antes, do desejo de vingança.

O caso dos exames do Enem é emblemático dessa sede de vingança. É evidente que não se pode concordar com erros que prejudiquem os estudantes, como os dos chamados cadernos amarelos, e que tais erros devam ser denunciados publicamente. É óbvio, também, que se deve exigir que os prejudicados tenham uma segunda oportunidade, mesmo que eles fossem apenas um ou dois.

No entanto, essa grande mídia transformou em escândalo público um erro que, num universo de alguns milhões de estudantes, prejudicou menos de um por cento dos participantes. Com isso, não só praticou  mau jornalismo, como tentou deliberadamente colocar em dúvida a continuidade do próprio programa do Enem. Adotou a política de tentar transformar pelo em casca de ovo numa bomba terrorista, colocando em prática a vocalização de Serra de que não dará trégua a seus inimigos políticos.

Em outras palavras, evidenciou que Serra não estava apenas fazendo uso de uma figura de retórica, mas verbalizando uma ordem de combate emanada de um estado-maior acima dele. Nessas condições, a idéia de que o governo, o PT e a esquerda não podem errar, embora adequado para um empenho mais decidido em não fornecer brechas, não nos salvará de ataques.

Primeiro porque erros fazem parte da condição humana. A dinâmica da vida social, a toda hora apresentando problemas novos, exige soluções novas, e o erro é parte inerente das buscas a essas novas soluções e ao conhecimento. Portanto, por maior que seja o esforço para não errar, eles ocorrerão. E, como se viu no caso da provas do Enem, por menores que sejam, eles abrirão brechas para ataques ferozes de inimigos que estão dispostos a transformar o que quer que seja em grandes erros imperdoáveis.

Além disso, o problema do Enem não foi apenas um erro técnico de impressão errada de um caderno de prova. Ao mudar o processo de afunilamento dos vestibulares, o governo está cometendo, aos olhos de um setor da elite brasileira, o grave erro de pretender democratizar a educação no rumo de uma maior participação popular.

O erro técnico foi tão somente o pretexto para a grande mídia atacar, sem tirar a máscara, o erro que considera mais grave. Isto é, aquelas medidas e ações que ferem interesses consolidados de setores dominantes da burguesia. O caso das provas do Enem não deve ser tomado apenas como uma tentativa de vingança da grande mídia. É preferível tomá-lo como a primeira experiência, após a derrota eleitoral, de como o combate permanente será travado daqui para a frente.

Nessas condições, quem pensa que a burguesia se contentará com os lucros do crescimento econômico e que estes a levarão a colaborar para o soerguimento da nação, deverá rever seus conceitos e seus sonhos.  Primeiro, porque não lhe bastam tais lucros. Ela tem pânico de seu futuro estar em mãos de gente em quem não confia.

Depois, há sinais, ainda tímidos, de que os trabalhadores pretendem retomar suas lutas por aumentos salariais e outros benefícios econômicos. E as demais camadas populares, à medida que conquistaram algum poder de compra, tenderão a descobrir suas necessidades comprimidas em termos de moradia, transportes, saneamento, educação, saúde, cultura e segurança. Quanto mais o governo se preocupar em dar atenção a tais demandas, mais errará, segundo pensam setores influentes da burguesia e das classes médias.

Frente a tais cenários, será necessário aprimorar tanto os procedimentos para evitar os erros técnicos, como o dos cadernos do Enem, quanto o trabalho político entre os trabalhadores, as camadas populares e as classes médias, para que tenham clareza das suas conquistas, consideradas erros e desperdícios pela grande mídia da burguesia.

Um exemplo do tipo de trabalho político a ser desenvolvido consiste na desmistificação do conceito, disseminado entre grande parte da população, de que o governo cobra impostos altíssimos e não gasta o que deveria como retorno à população. Isto está tão impregnado que, apesar das políticas sociais do governo Lula, tal conceito não foi abalado em nada, nem mesmo na mente de muitos militantes sociais.

É preciso mostrar que as grandes fortunas pagam poucos impostos, proporcionalmente ao que pagam as classes médias e os trabalhadores.  Denunciar que o pagamento da dívida pública historicamente acumulada é uma carga insuportável. Mostrar o esforço realizado pelo governo democrático e popular, assim como os obstáculos que encontra, para canalizar parte dos recursos públicos para as obras e serviços que interessam à maior parte da população.

Em outras palavras, tendo em vista um cenário de acirramento do combate contra os reais e fictícios erros do governo, o PT e os partidos de esquerda terão que se voltar mais e mais para um trabalho político que parecem ter abandonado, na suposição de que o governo tudo poderia. A prática já demonstrou que o governo, mesmo sob a direção de um partido de esquerda, está longe de poder tudo. E que a grande mídia da burguesia não dará tréguas. 

Fonte: Página 13

outubro 19, 2010

Dilma deverá combater, implacavelmente, a corrupção

PICICA: O IHU nos oferece uma entrevista com Wladimir Pomar sobre a atuação do PT nessas eleições. Segundo ele, Lula legará à Dilma Rousseff um duro combate contra a corrupção. O PICICA aproveita o ensejo para sugerir o nome do deputado federal pelo PT-AM, Francisco Praciano, para assumir a presidência da Comissão de Combate à Corrupção. O tema é um dos ítens que sustenta, historicamente, suas campanhas eleitorais.

19/10/2010
‘Lula legará à Dilma um duro combate contra a corrupção’. Entrevista especial com Wladimir Pomar

Uma análise da atuação do PT nessas eleições é o que faz Wladimir Pomar na entrevista que concedeu à IHU On-Line, por e-mail. Afinal: O PT errou ou acertou em sua estratégia nesse pleito? Para Pomar, em termos parlamentares e executivos estaduais, o PT se consolidou como um dos principais partidos nacionais. Porém, erros sérios, aponta ele, foram cometidos e diretamente refletidos na campanha presidencial. “O PT evitou travar uma batalha e uma discussão política em profundidade sobre o futuro das mudanças necessárias à sociedade brasileira. Isto permitiu que Marina Silva se apropriasse de bandeiras que eram tradicionais no PT, e que as apresentasse como se o PT as houvesse abandonado”, afirmou.

Wladimir Pomar
é analista político. Militante político desde 1949, ajudou a fundar o PCdoB em 1962. Preso no regime militar, atuou clandestinamente durante a década de 1970. Dez anos depois, tornou-se um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e integrou a executiva nacional do PT entre 1984 e1990. Foi coordenador-geral da campanha presidencial de Lula em 1989.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como o PT sai desse primeiro turno?

Wladimir Pomar – O PT, em termos parlamentares e dos executivos estaduais, saiu reforçado. Embora possa ser derrotado em algumas disputas estaduais do segundo turno, ele saiu das eleições consolidado como um dos principais partidos nacionais.

Por outro lado, o PT cometeu alguns erros sérios na campanha, que se refletiram negativamente na eleição presidencial. Dois deles foram
erros estratégicos. Em primeiro lugar, o PT evitou travar uma batalha e uma discussão política em profundidade sobre o futuro das mudanças necessárias à sociedade brasileira. Isto permitiu que Marina Silva se apropriasse de bandeiras que eram tradicionais no PT, e que as apresentasse como se o PT as houvesse abandonado. Em segundo lugar, o PT praticamente abandonou seu tradicional método de corpo a corpo com o eleitorado e de campanha de mobilização massiva, acreditando que bastava o apoio e a popularidade de Lula para vencer no primeiro turno.

Estas foram as causas principais do crescimento da
Marina e do insucesso relativo da eleição de Dilma no primeiro turno.

IHU On-Line – Movimentos como o MST, que há muito não se manifestavam sobre a política nacional, divulgaram documento de apoio à Dilma. O que isso pode significar?


Wladimir Pomar – O MST, assim como os movimentos sociais em geral, sabem que uma diferença fundamental entre um governo dirigido pelo PT e um governo do PSDB-DEM consiste em que um governo dirigido pelo PT pode até cometer muitos erros, em vários terrenos, mas jamais admitirá criminalizar os movimentos sociais, ao contrário do que fez o governo FHC, com Serra como um de seus principais expoentes.

As bases do
MST haviam sinalizado que votariam em Dilma já no primeiro turno, em grande parte por isso, em grande parte porque reconhecem que o governo Lula havia melhorado a situação econômica dos pobres. Assim, a direção do MST apenas verbalizou uma tendência fortemente presente em suas bases.

IHU On-Line – Como o senhor vê esse embate criado entre lideranças católicas e evangélicas, de apoio aberto à Dilma e ao Serra?


Wladimir Pomar – A clivagem principal que existe na sociedade, em especial numa sociedade multicultural como a brasileira, não é a religiosa, mas sim a de classe, ditada pelos interesses econômicos e sociais, em harmonia ou em conflito. Tanto entre os católicos quanto entre os evangélicos, a divisão social é uma realidade, embora não se deva desprezar o papel que o apelo religioso exerce sobre as decisões políticas que ambos têm que tomar.

Na campanha eleitoral, a grande imprensa e o candidato
Serra procuraram transformar assuntos de apelo religioso, como o aborto, em pontos centrais da disputa. Nessas condições, embora tais assuntos tenham sido apresentados de forma distorcida, parte do eleitorado católico e evangélico se sensibilizou com as denúncias, apoiando Serra, enquanto outra parte percebeu a mistificação e colocou em primeiro plano seus interesses econômicos, sociais e políticos, optando por Dilma.

Porém, mesmo que esse tipo de assunto não tivesse entrado na disputa, seria natural a divisão entre os dois candidatos em virtude dos interesses de classe. As
lideranças religiosas apenas expressam a divisão latente que existe em seu meio.

IHU On-Line – Quais as diferenças e semelhanças políticas entre Dilma e Lula?


Wladimir Pomar – Lula e Dilma possuem uma unidade política muito grande em torno dos projetos nacionais, econômicos e sociais que o Brasil necessita. Ambos sabem que só é possível elevar o padrão de vida do conjunto da população brasileira se o país desenvolver suas forças produtivas, com base nas ciências e tecnologias. O que inclui industrializar o país, tendo por base os novos parâmetros científicos e tecnológicos que permitam, ao mesmo tempo, proteger e recuperar o meio ambiente, produzir uma energia limpa, e praticar uma agricultura sustentável. E que tudo isso vai exigir um esforço considerável para colocar a educação em primeiro plano nos esforços nacionais.

Ambos também sabem que o mercado capitalista realiza uma distribuição desequilibrada e desigual das riquezas produzidas, necessitando que o Estado atue consciente e efetivamente no processo de redistribuição da renda e de amparo à saúde, através de políticas que reduzam os abismos existentes entre as classes mais ricas e as mais pobres. Nas condições brasileiras, esse é um processo complexo e novo, cujos embates ainda têm se limitado às disputas eleitorais. Se continuarem dentro desses limites, o que se pode esperar é que
Dilma não só dê continuidade ao que o governo Lula implantou, como avance muito mais, porque as condições para isso foram criadas pelo próprio governo Lula.

Ambos também sabem que a luta contra a corrupção é um item importante da agenda política, assim como da agenda policial e judicial. Porém, supor que um governo eleito, tendo como aparato de Estado uma máquina, que há muito criada para servir aos interesses dos poderosos, possa mudar essa situação rapidamente e liquidar a corrupção a curto prazo, é uma ilusão. Num quadro como esse,
Lula legará à Dilma um combate duro contra a corrupção e a necessidade de implantar reformas políticas, tributárias e fiscais, que fechem canos e torneiras que permitem o saque aos recursos dos contribuintes e o vazamento de dinheiro público para o bolso de aproveitadores. Mas não será fácil.

IHU On-Line – O que significa o apoio que veio do PSOL que sugere o voto nulo ou o voto crítico em Dilma?

Wladimir Pomar – Há muito tempo a esquerda e setores progressistas brasileiros sofrem da síndrome de confundir inimigos e amigos. Nesta eleição, foi dramático assistir a pessoas da esquerda ou progressistas apoiando a atual direita, representada pelo PSDB-DEM. Ou, mesmo não a apoiando diretamente, atacando Dilma e o PT como se fossem os inimigos principais. Nesse sentido, a decisão do PSOL em sugerir o voto, mesmo crítico, em Dilma, indica um bom vento de racionalidade política, que aponta para o inimigo verdadeiro.

IHU On-Line – O PT que entrou nessas eleições é o mesmo que sai?


Wladimir Pomar – Nunca se é o mesmo, seja lá quem for. O PT de 1990 não era o mesmo de 1989, o de 2003 não era o mesmo de 2002, e assim por diante. O problema consiste em saber o que realmente mudou e quais os novos desafios que há pela frente. Se Dilma vencer, as mudanças e desafios serão de um tipo. Se Dilma perder, serão de outro. De qualquer modo, o PT terá que fazer uma avaliação mais profunda de sua trajetória e, na melhor das hipóteses, analisar seriamente porque cometeu, no primeiro turno, erros estratégicos que colocaram em risco a vitória na campanha presidencial. O resto talvez seja desdobramento dessa análise estratégica.

IHU On-Line – Como o senhor define o PT de hoje?


Wladimir Pomar – O PT continua sendo a maior expressão da esquerda e dos sentimentos mais profundos dos trabalhadores e das camadas pobres da população brasileira. Nessas condições, ele deve abrigar democraticamente diferentes correntes de pensamento da sociedade brasileira, que possuem as classes populares como seu motivo de existência.

O problema é que isto não basta para dar maior organicidade, ou capacidade de resposta, ao PT. Por exemplo, em seu meio há os que ainda não acordaram para o fato de que, quanto mais o PT se torna uma alternativa de governo e de mudança no sentido democrático e popular, mais complexa e, em grande medida violenta, tende a ser a resposta da oposição de direita e, em certa medida, do centro. O PT terá que se haver com esse aumento de complexidade, tanto no caso da vitória ou derrota de
Dilma.

Por um lado, no caso de vitória, a direita tentará impedir que o governo funcione a contento e avance na implantação de medidas de cunho mais democrático e popular, seja por meio de boicotes, seja por meio de barganhas com alguns aliados atuais do PT. De outro, no caso de derrota, haverá a intensificação dos esforços para simplesmente liquidar o PT como alternativa de governo. Nada diferente do que já foi tentado durante os mais de 30 anos de vida do PT, mas certamente com uma virulência bem maior.


O PT poderá, então, ser definido pelo
grau de mobilização que conseguiu nesta reta final das eleições de 2010, e pelo grau de consciência que o conjunto de seus dirigentes e militantes tiverem a respeito dos desafios que terão pela frente, a partir dos resultados das urnas em 31 de outubro.


Para ler mais:
Fonte: IHU

setembro 30, 2010

Uma questão de classe: elites atrasadas em sua eterna luta contra os pobres

Manifestação poular
Postado em galizacig.com

O que está em jogo? Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
29-Set-2010
 
Dois atos públicos chamaram a atenção na última semana. Um, em São Paulo, reuniu personalidades de diferentes setores, em parte oriundas das lutas contra o regime militar, autodenominadas "democratas convictos", com o objetivo de "brecar a marcha contra o autoritarismo".
 
O outro, no Rio de Janeiro, reuniu militares da reserva, saudosos de uma "imprensa sem censura" sob o regime militar, e jornalistas e personalidades oriundas do conservadorismo anticomunista, também autodenominados "democratas convictos", com o objetivo de "brecar a marcha contra o autoritarismo".
 
Nesses atos, o presidente Lula foi acusado de investir "contra a liberdade de informação", "criticar a imprensa por divulgar irregularidades na Casa Civil" e incentivar "os inconformados com a democracia representativa" a se organizarem "para solapar o regime democrático". Em ambos, foi tido como "inaceitável que a militância partidária tenha convertido os órgãos da administração direta, empresas estatais e fundos de pensão em centros de produção de dossiês contra adversários políticos".
 
Lula foi acusado de não entender que seu cargo não permite que, "depois do expediente", possa "aviltar seus adversários políticos", abusar do poder político em "favor de uma candidatura", nem reescrever a História, desmerecendo o trabalho dos que "construíram as bases da estabilidade econômica e política, com o fim da inflação, a democratização do crédito, a expansão da telefonia e outras transformações que tantos benefícios trouxeram ao nosso povo".
 
Portanto, em São Paulo e no Rio, ouviu-se o mesmo refrão - "brecar a marcha para o autoritarismo", "defender a Constituição, as instituições e a legalidade". Nada muito diferente dos dias que antecederem ao golpe militar de 1964. De qualquer modo, vamos por partes, para não parecer que "desmerecemos" os argumentos apresentados e estamos trazendo à tona fantasmas do passado.
 
Que medidas concretas o governo, ou a presidência, adotou para investir contra a liberdade de informação e, portanto, contra a Constituição? Que se saiba, nenhuma, nem os reclamantes as apresentaram. Supõe-se, então, que eles consideram as críticas do presidente e de organizações sociais a alguns órgãos de imprensa como "atentados" à liberdade e à Constituição.
 
No entanto, a Constituição não proíbe críticas. Não proíbe, inclusive, que o cidadão que ocupa a presidência da República as faça. Nem considera que a imprensa, como um todo ou em particular, seja imune a críticas. Portanto, bem vistas as coisas, temos alguns órgãos de imprensa que se acham acima das leis e dos direitos dos outros.
 
Além disso, a Constituição é explícita ao considerar o direito de defesa como essencial à democracia. Portanto, por que alguns órgãos midiáticos têm o direito de divulgar supostas irregularidades na Casa Civil e o presidente não tem o direito de responder no mesmo tom? Por que algumas pessoas podem dizer que estão sendo produzidos "dossiês contra adversários políticos" e o presidente não pode dizer que tais dossiês são fantasmas, já que ninguém os viu nem foram apresentados?
 
Tomemos agora a acusação de que Lula e o PT estão "inconformados com a democracia representativa" e se organizam para "solapar o regime democrático". Como um presidente e um partido que podem vencer no primeiro turno da eleição presidencial podem estar "inconformados"? Como a mentira tem perna curta, a razão da acusação ficou evidente quando alguns daqueles "democratas convictos" expressaram seu inconformismo com a possibilidade de o PT e seus aliados elegerem três quintos do Congresso. Para eles, isto será o mesmo que formar uma legislatura de "Tiriricas", onde "conseguirão fazer mudanças constitucionais a seu bel-prazer".
 
Essa frase condensa todo o inconformismo com a "democracia representativa", que possibilita a vitória eleitoral da situação. Ela exprime a incontida vontade de criar uma situação extra-legal que impeça tal vitória. Quem, então, procura solapar o regime democrático? Foi com esse mesmo tipo de argumento que a UDN e "democratas convictos" arregimentaram os quartéis para implantarem a ditadura.
 
Do ponto de vista constitucional e eleitoral, não há qualquer dispositivo que proíba um presidente de trabalhar a favor de uma candidatura e de dizer o que pensa sobre a história de governos passados. Aliás, se há alguma crítica a ser feita ao presidente quanto à história do Brasil, ela diz respeito justamente ao fato de que sua tendência à conciliação o impediu de colocar em pratos limpos, desde seu primeiro mandato, a "herança maldita" deixada pelos governos Collor e FHC.
 
Seu desejo de superar aquela "herança" sem traumas agora o está obrigando a trazer à luz o verdadeiro significado da estabilidade econômica e política da era FHC: estabilidade com subordinação do país ao FMI; fim da inflação com compressão do crescimento, alastramento do desemprego e da miséria; democratização do crédito apenas entre as empresas monopolistas; expansão da telefonia através de uma privatização perniciosa; e outras transformações que, ao invés de trazerem benefícios ao povo, só trouxeram malefícios.
 
Na verdade, como muito bem reconhece Leonardo Boff, o que está ocorrendo não é "um enfrentamento de idéias" e o "uso legítimo da liberdade da imprensa". O que está havendo é um "abuso" de uma certa imprensa, diante da "previsão de uma derrota eleitoral". O que há é "uma guerra acirrada", dos donos do Estadão, Folha, O Globo e Veja, assim como dos saudosistas do regime militar e de alguns "democratas desavisados", contra Lula e Dilma, na qual "vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta".
 
Essa guerra é, acima de tudo, "uma guerra contra os pobres". Seus promotores não admitem que os pobres pensem, falem e deixem de acreditar nos supostos donos da opinião pública. Boff tem razão em acentuar que estamos diante de "uma questão de classe".
 
Queriam que o governo Lula se fizesse inimigo do povo, não um indutor de mudanças que beneficiaram milhões. Até aceitariam o desenvolvimento, mas não com inclusão social e distribuição de renda, e menos ainda com canais de participação das classes populares nos assuntos do governo e da sociedade. Isto se tornou intolerável para uma parte considerável da burguesia e seu setor midiático. Por isso, querem a liberdade autoritária de não serem contraditados, nem criticados.
 
Assim, o que está em jogo vai muito além do que os supostos "democratas convictos" colocam. É pena que eles sequer enxerguem com quem estão andando.
 
Wladimir Pomar é escritor e analista político. 
 
 Fonte: Correio da Cidadania

setembro 24, 2010

Nos próximos sete dias, aguardem artilharia pesada do PIG

Bessinha
Publicada em contrapontopig.blogspot.com
Republicada no PICICA com uma alteração
Guerra aberta Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
21-Set-2010
 
Se antes poderia haver alguma dúvida, entre alguns setores da campanha Dilma, de que a guerra contra a candidata petista se tornaria aberta, suja e sem qualquer limite, talvez a última semana tenha sido a demonstração clara de que tais dúvidas não passavam de ilusões infantis.
 
Veja, Globo, Folha de S. Paulo, Estadão e outros órgãos da famosa grande imprensa, o chamado quarto poder, não demonstram qualquer preocupação em serem vistos como a artilharia pesada dessa guerra. Suas manchetes diárias e semanais são sempre, inexoravelmente, a pirita garimpada em investigações cuja credibilidade dificilmente pode ser comprovada. Para quem criou o escândalo da Escola Base e outros, forjados nas cozinhas das redações, que diferença faz criar estes, em que se joga o destino da política que essa grande imprensa defende?
 
"Cartas abertas", assinadas por "personalidades" que talvez não saibam que seus nomes estão sendo utilizados, repetem pela Internet os antigos e surrados argumentos anti-Lula e anti-PT, que pareciam enterrados desde 2002. Bolsões reacionários de militares da reserva saem a público para ameaçar golpes. FHC compara Lula a Mussolini e apela a forças ocultas para barrar a caminhada do petismo. E, em drops da imprensa, repetem-se os comentários que sustentam as possíveis semelhanças do governo Lula com Vargas e seu fim.
 
Se a campanha Dilma e a direção do PT continuarem ignorando esse conjunto de sinais de desespero de uma direita reacionária que tinha como certa sua volta ao governo, o caminho para o segundo turno e até para uma derrota podem estar traçados. Essa direita não vai se contentar com a saída de Erenice da Casa Civil e quase certamente jogará novos pacotes podres sobre a mesa, na expectativa de que o governo, o PT e a campanha Dilma continuem cometendo erros, e ignorando a natureza da atual ofensiva oposicionista.
 
Os dados do Instituto Datafolha, divulgados no dia 16/9, parecem moldados de forma que o PT e a campanha Dilma continuem acreditando que vencerão no primeiro turno, sem necessidade de qualquer reação maior. Dilma marcou 51% das preferências eleitorais, enquanto Serra se manteve com 27% das intenções de voto, e Marina seguiu com 11%. Aparentemente, o melhor dos mundos.
 
No entanto, podem-se descobrir algumas surpresas nessa pesquisa, desde que se coloque de lado a euforia e se busquem as tendências reais. Entre os eleitores bem informados, a intenção de votos em Dilma desceu para 46%, enquanto em Serra subiu para 33%, e em Marina para 14%. Com isso compreende-se por que a grande imprensa vem martelando incessantemente para ‘informar’ o eleitorado sobre os ‘fatos’ que tem criado nos bastidores, mesmo que tais ‘fatos’ não passem de falsificações. Se conseguir que o conjunto do eleitorado se deixe convencer por essas informações falsas, o segundo turno estará configurado.
 
É significativo que Dilma tenha caído na preferência do eleitorado, em caso de segundo turno, em estados como Rio Grande do Sul e Paraná, assim como em Brasília. E que sua subida em outros estados e cidades importantes tenha se mantido dentro da margem de erro. Este pode ser um sinal de que o ritmo de crescimento da candidatura Dilma foi afetado pelas denúncias e escândalos criados pela aliança do tucano-pefelismo com a grande imprensa, embora ainda não de forma avassaladora.
 
Nos próximos quinze dias antes das eleições, se a campanha Dilma e o PT não forem suficientemente ágeis para criar mobilizações massivas, passar ao contra-ataque na diferenciação entre seu projeto político e o projeto de Serra e Marina, e gerar fatos políticos de repercussão, a corrosão da candidatura Dilma pode chegar àquele nível procurado pelo quarto poder.
 
Feito isso, a grande imprensa continuará convencida de que é capaz de moldar a opinião pública com mentiras e falsificações, da mesma forma que Goebbels e outros gurus da comunicação de massa acreditavam. E, certamente, configurado o segundo turno, virá com armas ainda mais letais. Se a meta da campanha Dilma é evitar que isso aconteça, esta é a semana decisiva para revirar o jogo.
 
Wladimir Pomar é analista político e escritor.

Fonte: Correio da Cidadania

setembro 16, 2010

Esquerda, volver!

Tarso Genro ruma para a vitória no Rio Grande do Sul


O futuro da esquerda Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
15-Set-2010
 
O fim da civilidade, decretado pela direita tucano-pefelista, neste último mês de campanha, está trazendo à luz pelo menos três aspectos da realidade brasileira.
 
Primeiro, a natureza reacionária e antidemocrática dos novos representantes políticos da burguesia financeira e da burguesia agrária. Segundo, a oposição de grandes parcelas das camadas populares e das classes médias a tal reacionarismo. E, terceiro, as clivagens da esquerda diante dessa polarização.
 
A nova direita política é, em grande parte, formada por parcelas oriundas da intelectualidade política democrática e de esquerda que se defrontou com a ditadura militar. No curso da emergência das lutas operárias e populares e da formação do PT, assim como da ofensiva ideológica e política do neoliberalismo, muitos de seus membros se transformaram no oposto do que representaram no passado.
 
Com isso, repetem uma experiência histórica peculiar da esquerda brasileira, que teve em Carlos Lacerda seu expoente mais significativo. Quem conheceu esse personagem da história brasileira certamente se lembrou dele ao assistir ao candidato Serra deblaterando sobre a suposta tolerância de Lula com "quem rouba", e qualificando a candidata Dilma de "envelope fechado". A grande desvantagem de Serra é que não tem a oratória de Lacerda, nem um ambiente de conspiração militar generalizada. Mas a natureza golpista e reacionária é a mesma.
 
Essa truculência tucano-pefelista também está colocando em evidência algo que uma parte da esquerda se nega a ver. Isto é, que grandes massas do povo brasileiro consideram as atuais eleições como um acerto de contas com a herança de FHC e depositam uma firme confiança em Lula e no PT. Ou seja, além de encararem as atuais eleições como polarizadas e plebiscitárias, grandes parcelas do povo estão convictas de que as mudanças implantadas pelo governo Lula, mesmo contendo erros e problemas, relacionados ou não com suas alianças políticas, apontam para um caminho seguro de transformação social e política.
 
Uma parte da chamada esquerda democrática se encontra perdida na enseada tucano-pefelista, sem se dar conta de que está dormindo com o inimigo. É doloroso ver candidatos dessa esquerda, com discursos de mudanças democráticas e populares, sendo apresentados por FHC, Serra, César Maia e outros personagens que quase quebraram o Brasil e levaram o povão ao desemprego e à miséria.
 
A parte da esquerda que se considera revolucionária está na oposição. Embora procure se distanciar da direita que também é oposição, seu inimigo principal e alvo de seus ataques tem sido o governo Lula e a esquerda que apóia Dilma. Na prática, o povão acaba confundindo-a com seus inimigos de direita.
 
A maior parte da esquerda, que apóia Dilma, também se debate diante da realidade complexa do país. Isto parece ser mais evidente dentro do PT, onde havia uma corrente que pregava abertamente a impossibilidade de uma eleição polarizada e trabalhava para construir pontes com o tucanato. A evolução da campanha eleitoral, apesar da ausência de ataques petistas ao tucanato, está demonstrando que aquela corrente estava totalmente enganada, pelo desconhecimento da natureza antidemocrática e reacionária do tucano-pefelismo.
 
Também é dentro do PT que continuam se apresentando brechas relacionadas com a tibieza em adotar procedimentos ideológicos, políticos e organizativos condizentes com um partido de esquerda que quer transformar o Estado e a sociedade. Um partido desse tipo não pode ter aloprados, filiados facilmente cooptáveis por dinheiro fácil, nem agentes infiltrados que possam navegar tranqüilamente por suas fileiras. Se o PT não adotar procedimentos que o blindem contra os arrivistas e oportunistas que procuram fazer carreira em qualquer partido que seja governo, aquelas brechas podem se tornar voçorocas, deixando-o indefeso diante das armações que tendem a crescer nas disputas institucionais.
 
Nessas condições, a vitória do PT e Dilma não representará apenas um acerto de contas com a ideologia e as políticas neoliberais, condensadas na candidatura Serra. Nem apenas um impacto muito sério na esquerda que se aliou à direita, formal ou informalmente, nos ataques ao governo Lula e à candidatura Dilma. Ela deverá representar também uma reestruturação ideológica, política e organizativa do PT, se esse partido quiser enfrentar com sucesso os desafios para aprofundar as mudanças democráticas, econômicas e sociais que as camadas populares reclamam.
 
Wladimir Pomar é escritor e analista político. 

Fonte: Correio da Cidadania 

setembro 12, 2010

Disputa eleitoral no Brasil nunca foi civilizada. Só que, desta vez, vão pro mesmo saco a direita e a esquerda fingida.

José "Nosferatu" Serra
A Quem Interessa
Wladimir Pomar

8-set-2010 - Correio de Cidadania
Nas investigações policiais, o processo mais comum para deslindar crimes consiste em descobrir o motivo, ou os motivos. Em outras palavras, simplesmente começar pela pergunta "a quem interessa?".

Aliás, esta parece ser a pergunta que o povão está se fazendo diante da denúncia da campanha Serra sobre o suposto envolvimento da candidata Dilma na obtenção de dados sigilosos da filha e de correligionários do tucano-pefelista.

Como uma candidata, que está mais de 20 pontos na frente de seu concorrente, e periga ganhar no primeiro turno, pode ter interesse numa operação desse tipo? E, para fazer o quê? Numa situação de tal vantagem, somente alguém totalmente estúpido poderia cometer um erro tão grande. Portanto, não é preciso ser um luminar de inteligência para chegar à conclusão de que a candidata Dilma não tem interesse ou motivo algum para cometer um crime como esse.

Por outro lado, o mesmo não se pode dizer da campanha do candidato Serra. Não deixa de ser suspeito que sua denúncia tenha aparecido logo após as pesquisas de opinião haverem indicado que as preferências eleitorais em torno de seu nome estavam em queda livre, enquanto a candidata petista apresentava uma tendência de ascensão.

Também não deixa de ser suspeito que o próprio candidato tucano-pefelista tenha se apressado a dizer, com a certeza de quem conhece o fio da meada, que o PT e a ex-ministra Dilma eram os responsáveis pela suposta quebra do sigilo de sua filha. No jargão popular, isso se parece muito com a história do ladrão que, para escapar da perseguição, se torna a principal voz nos gritos de "pega ladrão".

O histórico do candidato Serra, nesses tipos de armação, também é público e notório. O que parece lhe haver rendido inimigos históricos, como o ex-presidente Sarney e sua filha Roseana, envolvidos num rumoroso caso policial no Maranhão, cuja origem teima em apontar para o ex-governador de São Paulo. Algo idêntico parece haver ocorrido na disputa entre os pré-candidatos tucanos ao governo de São Paulo, em 2006, na qual o pré-candidato Alckmin saiu razoavelmente chamuscado por denúncias anônimas.

A descoberta de que a fraude na assinatura da petição dos dados da filha do candidato Serra à Receita Federal (até agora não se sabe se os dados foram realmente obtidos) foi cometida por um contador de Mauá, filiado ao PT, em 2003, permanece nebulosa. Ela parece tanto com descoberta das "provas" plantadas pelos órgãos repressivos da ditadura militar para incriminar seus prisioneiros quanto com a "compra" de serviços de pessoas dispostas a cometer vilanias por algum dinheiro. Na história das eleições brasileiras, jamais se deve esquecer o caso Lurian como um paradigma nesse comércio de ações vis.

Na situação atual, para piorar, a evidência do desespero diante do espaço aberto pela candidatura Dilma sobre seu concorrente aponta este último como único interessado. Apenas ele tem motivos para criar um fato político desse tipo, mesmo tenebroso, para reverter o processo. Nessas condições, se a polícia fizer um bom perfil dos envolvidos e dos interesses de cada um, ela provavelmente deslindará a trama com certa rapidez.

Por outro lado, essa ação também traz à luz o que realmente está em disputa. E acaba com as ilusões daqueles que achavam possível realizar uma disputa eleitoral civilizada e não se prepararam para uma ocasião como essa.

A vitória do PT e Dilma, mesmo numa coalizão que inclui agrupamentos políticos de direita, representará um acerto de contas fatal para qualquer soerguimento da ideologia e das políticas neoliberais. Elas até continuarão existindo, mas sua expressão política como direita reacionária se verá obrigada a uma reestruturação para a qual não se preparou, abrindo chances para um avanço ainda maior das políticas democráticas e populares do governo.

O impacto da derrota da direita reacionária, cuja expressão é a coalizão PSDB-PFL (DEM é só para quem não sabe do engano), também será fatal para aqueles setores da esquerda que se aliaram a essa direita, formal ou informalmente, mesmo fingindo supostamente ter saído pela esquerda contra o governo Lula. Não por acaso a candidata Marina se apressou, afoitamente, a responsabilizar o governo pela fraude na assinatura da filha do candidato tucano-pefelista. Ao invés de uma candidata independente, pareceu, cada vez mais, uma voz ou um braço auxiliar do tucanato, numa trama suja da qual não precisava participar.

Wladimir Pomar é escritor e analista político