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novembro 26, 2010

O ódio pequeno burguês aos pobres

PICICA: "(...) “o pequeno burguês se faz pequeno para ser burguês”, quer dizer, é melhor ser um burguês minúsculo (e medíocre) do que ser um pobre. (...) O ódio que expressam quando falam dos pobres é um ódio que, na verdade, poderia ser voltado a si mesmos. Odeiam-se por estarem tão próximos dos pobres, mas não conseguem enxergar essa proximidade como o que ela é: o fato de fazerem parte de uma fração mediana da pirâmide econômica, sem o capital – financeiro, social, cultural – necessário para serem alçados à classe mais alta."

Pierre Bourdier
Imagem postada em bracosaoalto.blogspot.com

A Mídia, Prates, Pondé e os pobres



Na mesma semana, dois fenômenos idênticos: de um lado, um “tal de” Luiz Carlos Prates (desculpem, eu o desconhecia até então) diz na TV que pobres não devem ter carros; do outro, o intelectual (?) Luiz Felipe Pondé lamenta no jornal o fato de pobres viajarem de avião. Manifestações que chocaram muitos telespectadores e leitores.

Prates e Pondé são figuras emergentes no Olimpo dos repetitivos popstars da grande mídia, que tem ainda o vazio Arnaldo Jabor e os Veja boys Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo entre seus membros, todos altamente irritados com o governo Lula.


Não vou entrar nos méritos do atual presidente. Mas o fato é que seu governo permitiu, sim, que muitos pobres – embora não todos – passassem a comprar mais, a realizar “planos” ou “sonhos” de consumo. Ainda que o carro não seja zero quilômetro e a viagem de avião seja comprada em uma promoção, o fato é que uma parcela da população mais pobre saiu do patamar da mera satisfação de necessidades para o nível da realização de desejos. E isso incomoda muito aos colunistas e comentaristas da mídia.


A principal função do consumo na atualidade não é satisfazer necessidades, mas diferenciar e identificar os consumidores em grupos. Ou seja: diferenciar os pobres da classe média e identificar entre si os membros da classe média. Mas e os ricos? Bem, os ricos estão acima disso tudo, seguros em sua diferença porque seu dinheiro provém do capital e não da renda e essa é uma vantagem estratosférica na lógica da diferenciação.


A partir do momento em que um pobre pode comprar as mesmas coisas que eu, que sou da classe média, pouco me diferencia dele e meu lugar privilegiado na ordem social está ameaçado. Meu pequeno consumo (no sentido de pequeno burguês) de luxo se torna algo básico e acessível a todos. Se os pobres passam a ter autonomia de consumir o mesmo que eu, eles passam a integrar o mesmo espaço que eu na pirâmide da dominação social. E isso me obriga a gastar mais, a trabalhar mais e a me endividar mais caso eu queira continuar me diferenciando pelo consumo e queira subir um degrau nessa escala. A situação é de total insegurança: meus limites estão abalados, minha estabilidade econômica também e minhas certezas mais profundas, idem. Os pobres estão mais próximos de mim do que nunca e meu pavor de me tornar um deles começa a se concretizar.


Em
O Mal-Estar na Civilização, Freud mostra que é a proximidade do outro que incomoda. (O livro, um dos mais importantes de Freud para pensar a sociedade, você baixa aqui). Quanto mais semelhante ele é de nós, mais o desprezamos, principalmente porque essa semelhança ameaça a noção construída de “nós” e de “outros”. As menores diferenças nos servem para construir tal diferenciação, e Freud deu a isso o nome de “narcisismo das pequenas diferenças”, O dinheiro e, no capitalismo atual, principalmente o consumo – sim, podemos consumir sem ter dinheiro, graças a cheque especial, cartão de crédito e financiamentos – ajudam a classe média a forjar sua “pequena diferença” em relação aos pobres.

Freud é bem específico:

"É sempre possível unir um considerável número de pessoas no amor, enquanto sobrarem outras pessoas para receberem as manifestações de sua agressividade" (p. 136 da edição da Imago).
A diferença forjada é o principal elemento para legitimar a estratificação social e, com ela, a dominação de um grupo sobre outro. E quando falamos em mídia falamos em dominação.

Um dos principais estudiosos contemporâneos da mídia, John B. Thompson mostra que todo o conteúdo produzido pela mídia é ideológico. Ele estuda os principais conceitos de ideologia da filosofia e da política – Marx, Napoleão, Lukács, Lênin, Mannheim – e elabora uma definição própria do termo: ideologia é um sistema de crenças e práticas que serve para estabelecer e sustentar as relações de dominação. (O desenvolvimento e definição literal do conceito estão em seu livro
Ideologia e Cultura Moderna, Editora Vozes.) Thompson também mostra que uma das mais eficazes práticas ideológicas é a diferenciação entre “nós” e os “outros”.

Os (pseudo)intelectuais que proliferam na mídia – comentaristas e cronistas que expressam opiniões preconceituosas contra os pobres, como Pondé, Prates, Jabor, Mainardi, Azevedo – têm espaço privilegiado nos veículos e estão ali por uma razão. Eles são capazes de produzir argumentos, elaborar teses, forjar ideias, colocar em palavras a lógica nem sempre consciente de diferenciação à qual a classe média se apega para construir sua identidade e excluir os pobres de quase todos os campos da vida em sociedade. Esses “intelectuais” – alçados a esse posto não por sua competência e conhecimento, mas por dizerem o que certos grupos querem ouvir – alimentam com suas frases bem construídas a fragmentação da sociedade em camadas e a diferenciação entre cada uma delas. E não é por acaso que “situam” a diferença no universo do consumo e do prazer. São esses os elementos que humanizam o outro, o pobre, e os aproximam cada vez mais da classe média.


O ódio que expressam quando falam dos pobres é um ódio que, na verdade, poderia ser voltado a si mesmos. Odeiam-se por estarem tão próximos dos pobres, mas não conseguem enxergar essa proximidade como o que ela é: o fato de fazerem parte de uma fração mediana da pirâmide econômica, sem o capital – financeiro, social, cultural – necessário para serem alçados à classe mais alta.


Pierre Bourdieu, um mestre da sociologia e do estudo das formas de diferenciação de classe, além de “pai” dessa visão do capital como algo que vai além do dinheiro, tem duas falas muito apropriadas em seu livro A Distinção (pdf) para pensar esse ódio dos pobres. Uma é sobre a classe média (pequena burguesia): “o pequeno burguês se faz pequeno para ser burguês”, quer dizer, é melhor ser um burguês minúsculo (e medíocre) do que ser um pobre. A outra é sobre os intelectuais. Diz que eles são a fração dominada da classe dominante, ou seja, o capital de que dispõem (conhecimento, talvez, ou o mero bom uso das palavras) não é suficiente para lhes dar o poder, apenas para colocá-los a serviço do poder. Duas ideias para ter em mente na próxima vez que você abrir um jornal ou ouvir um “tal de” Prates falar na TV.

Fonte: O Pensador Selvagem

novembro 09, 2010

Saiba quem quer o fim do ENEM


PICICA: Ontem, Paulo Henrique Amorim postou no Conversa Afiada este texto esclarecedor sobre quem é contra e porque tanto ódio contra o ENEM. Um site dos companheiros do PT afirma que há um temor generalizado nas elites, sobretudo nas classes médias conservadoras, de que, neste ritmo, irão acabar as empregadas domésticas e outros serviçais. Na Itália, acabou faz tempo. Não existem regalias para a classe média. Se a moda pega por aqui, vai ser um deus-nos-acuda... Se você ouvir alguém estrebuchando de ódio por aí, saiba que o bicho tá pegando por causa dessa prosaica cultura que vem do tempo da escravatura. Há quem projete o aumento do número de empregadas domésticas com carteira assinada, como benefício imediato deste temor, convenhamos, não de todo infundado. Quanto mais os pobres entrarem na universidade, adeus a vida mansa proporcionada por esta escravidão moderna. Acabou-se o tempo em que se mandava buscar uma "caboquinha" no interior para cuidar dos serviços domésticos. Leia, também, O ENEM, O DEM, E O PRECONCEITO (33 mil falhas, em 1 milhão de provas aplicadas).

O PiG e o Serra odeiam o ENEM por causa dos pobres

    Publicado em 08/11/2010
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Por que ele não dá uma aula em Caruaru em vez de Biarritz ?

O Estadão de hoje dedica a capa e duas páginas – A15 e A16 a desmoralizar o ENEM.

Uma desmoralização arrasadora.

É porque 0,04% dos alunos VOLUNTARIAMENTE inscritos na prova talvez venham a refazê-la, por causa de uma troca do cabeçalho de alguns cartões de resposta.

0,04% !

Que horror!

Foram 4,6 milhões estudantes inscritos e talvez 2 mil tenham a possibilidade de refazer a prova.

Ontem, o UOL e a Folhaonline bradaram o dia inteiro contra a “inépcia” do ENEM.

A Folha (**), se entende.

Ano passado, as provas vazaram da gráfica da Folha, que foi devidamente afastada da concorrência deste ano.

O Estadão se acha na obrigação, todo ano, de desmoralizar o ENEM.

Como fez no ano passado, com a divulgação do vazamento.

Por que o Estadão, a Folha (**) e o Serra são contra o ENEM ?

Ano passado, com o vazamento na gráfica da Folha, o Serra, célere, tirou as universidades de São Paulo do ENEM – para acentuar o “fracasso” do Governo Lula.

Qual é o problema deles com o ENEM ?

O Governo Fernando Henrique instituiu o ENEM para copiar o SAT americano: o vestibular único em todo o país, para facilitar o acesso às universidades federais e o deslocamento de estudantes pelo país afora.

O que tem a vantagem de baratear dramaticamente o sistema.

Antes – como em São Paulo, hoje – cada “coronel” faz o seu vestibular e estimula a iniciativa privada – com os serviços do vestibular e os cursinhos o Di Gênio.

De Fernando Henrique para cá, o ENEM cresceu 30 vezes !

30 vezes, amigo navegante.

Saiu de 157 mil inscritos em 98 para 4,6 milhões de hoje.

É sempre assim.

O Bolsa Família da D. Ruth atendia quatro famílias.

O do Lula, que virou “Bolsa Esmola”, segundo Mônica Serra, a grande estadista chileno-paulista, atende 40 milhões.

O que é o ENEM ?

É o passaporte do pobre à universidade pública.

É por isso que a Folha, o Estado e o Serra odeiam o ENNEM.

Porque esse negócio de pobre estudar é um problema.

Fica com mania de grandeza, de autonomia.

Pensa que pode mandar no seu destino.

E não acredita mais na fita adesiva do “perito” Molina.

Isso é um perigo.

Pobre é para ficar na senzala.

50 universidades públicas federais aderiram ao ENEM.

Isso significa que 47 mil vagas em universidades federais dependem do resultado do ENEM.

Em 2004, um milhão de estudantes se inscreveu no ENEM.

Aí, o Lula e o Ministro Haddad resolveram estabelecer o ENEM como critério para entrar no ProUni (para a elite branca – e separatista, no caso de São Paulo – não dizer que o ProUni é a “faculdade de pobre burro”).

Sabe o que aconteceu, amigo navegante ?

O ENEM passou de um ano para o outro de um milhão para 2,9 milhões de inscritos.

Quanto pobre !

Para o ano que vem, o ministro Haddad estabeleceu que o ENEM também será critério para receber financiamento do FIES.

Vai ser outro horror !

Mais pobre inscrito no ENEM para pagar a faculdade com financiamento público.

Um horror !

Tudo público.

ENEM, faculdade, financiamento …

“Público” quer dizer “de todos”.

Amigo navegante, sabe qual foi o contingente nacional que mais cresceu entre os inscritos no ENEM ?

Agora é que a elite branca – e separatista, no caso de São Paulo – vai se estrebuchar.

Foi o Nordeste !

Que horror !

Já imaginou, amigo navegante ?

Nordestino pobre com diploma de engenheiro ?

Nordestina pobre com diploma de médica ?

Vai faltar pedreiro.

Empregada doméstica.

Aí é que a elite branca – e separatista, no caso de São Paulo – vai se estrebuchar mesmo.


Paulo Henrique Amorim


(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

(**) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da “ditabranda”; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de “bom caráter”, porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que matou o Tuma e depois o ressuscitou; e que é o que é,  porque o dono é o que é; nos anos militares, a Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores

Fonte: Conversa Afiada

setembro 30, 2010

Uma questão de classe: elites atrasadas em sua eterna luta contra os pobres

Manifestação poular
Postado em galizacig.com

O que está em jogo? Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
29-Set-2010
 
Dois atos públicos chamaram a atenção na última semana. Um, em São Paulo, reuniu personalidades de diferentes setores, em parte oriundas das lutas contra o regime militar, autodenominadas "democratas convictos", com o objetivo de "brecar a marcha contra o autoritarismo".
 
O outro, no Rio de Janeiro, reuniu militares da reserva, saudosos de uma "imprensa sem censura" sob o regime militar, e jornalistas e personalidades oriundas do conservadorismo anticomunista, também autodenominados "democratas convictos", com o objetivo de "brecar a marcha contra o autoritarismo".
 
Nesses atos, o presidente Lula foi acusado de investir "contra a liberdade de informação", "criticar a imprensa por divulgar irregularidades na Casa Civil" e incentivar "os inconformados com a democracia representativa" a se organizarem "para solapar o regime democrático". Em ambos, foi tido como "inaceitável que a militância partidária tenha convertido os órgãos da administração direta, empresas estatais e fundos de pensão em centros de produção de dossiês contra adversários políticos".
 
Lula foi acusado de não entender que seu cargo não permite que, "depois do expediente", possa "aviltar seus adversários políticos", abusar do poder político em "favor de uma candidatura", nem reescrever a História, desmerecendo o trabalho dos que "construíram as bases da estabilidade econômica e política, com o fim da inflação, a democratização do crédito, a expansão da telefonia e outras transformações que tantos benefícios trouxeram ao nosso povo".
 
Portanto, em São Paulo e no Rio, ouviu-se o mesmo refrão - "brecar a marcha para o autoritarismo", "defender a Constituição, as instituições e a legalidade". Nada muito diferente dos dias que antecederem ao golpe militar de 1964. De qualquer modo, vamos por partes, para não parecer que "desmerecemos" os argumentos apresentados e estamos trazendo à tona fantasmas do passado.
 
Que medidas concretas o governo, ou a presidência, adotou para investir contra a liberdade de informação e, portanto, contra a Constituição? Que se saiba, nenhuma, nem os reclamantes as apresentaram. Supõe-se, então, que eles consideram as críticas do presidente e de organizações sociais a alguns órgãos de imprensa como "atentados" à liberdade e à Constituição.
 
No entanto, a Constituição não proíbe críticas. Não proíbe, inclusive, que o cidadão que ocupa a presidência da República as faça. Nem considera que a imprensa, como um todo ou em particular, seja imune a críticas. Portanto, bem vistas as coisas, temos alguns órgãos de imprensa que se acham acima das leis e dos direitos dos outros.
 
Além disso, a Constituição é explícita ao considerar o direito de defesa como essencial à democracia. Portanto, por que alguns órgãos midiáticos têm o direito de divulgar supostas irregularidades na Casa Civil e o presidente não tem o direito de responder no mesmo tom? Por que algumas pessoas podem dizer que estão sendo produzidos "dossiês contra adversários políticos" e o presidente não pode dizer que tais dossiês são fantasmas, já que ninguém os viu nem foram apresentados?
 
Tomemos agora a acusação de que Lula e o PT estão "inconformados com a democracia representativa" e se organizam para "solapar o regime democrático". Como um presidente e um partido que podem vencer no primeiro turno da eleição presidencial podem estar "inconformados"? Como a mentira tem perna curta, a razão da acusação ficou evidente quando alguns daqueles "democratas convictos" expressaram seu inconformismo com a possibilidade de o PT e seus aliados elegerem três quintos do Congresso. Para eles, isto será o mesmo que formar uma legislatura de "Tiriricas", onde "conseguirão fazer mudanças constitucionais a seu bel-prazer".
 
Essa frase condensa todo o inconformismo com a "democracia representativa", que possibilita a vitória eleitoral da situação. Ela exprime a incontida vontade de criar uma situação extra-legal que impeça tal vitória. Quem, então, procura solapar o regime democrático? Foi com esse mesmo tipo de argumento que a UDN e "democratas convictos" arregimentaram os quartéis para implantarem a ditadura.
 
Do ponto de vista constitucional e eleitoral, não há qualquer dispositivo que proíba um presidente de trabalhar a favor de uma candidatura e de dizer o que pensa sobre a história de governos passados. Aliás, se há alguma crítica a ser feita ao presidente quanto à história do Brasil, ela diz respeito justamente ao fato de que sua tendência à conciliação o impediu de colocar em pratos limpos, desde seu primeiro mandato, a "herança maldita" deixada pelos governos Collor e FHC.
 
Seu desejo de superar aquela "herança" sem traumas agora o está obrigando a trazer à luz o verdadeiro significado da estabilidade econômica e política da era FHC: estabilidade com subordinação do país ao FMI; fim da inflação com compressão do crescimento, alastramento do desemprego e da miséria; democratização do crédito apenas entre as empresas monopolistas; expansão da telefonia através de uma privatização perniciosa; e outras transformações que, ao invés de trazerem benefícios ao povo, só trouxeram malefícios.
 
Na verdade, como muito bem reconhece Leonardo Boff, o que está ocorrendo não é "um enfrentamento de idéias" e o "uso legítimo da liberdade da imprensa". O que está havendo é um "abuso" de uma certa imprensa, diante da "previsão de uma derrota eleitoral". O que há é "uma guerra acirrada", dos donos do Estadão, Folha, O Globo e Veja, assim como dos saudosistas do regime militar e de alguns "democratas desavisados", contra Lula e Dilma, na qual "vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta".
 
Essa guerra é, acima de tudo, "uma guerra contra os pobres". Seus promotores não admitem que os pobres pensem, falem e deixem de acreditar nos supostos donos da opinião pública. Boff tem razão em acentuar que estamos diante de "uma questão de classe".
 
Queriam que o governo Lula se fizesse inimigo do povo, não um indutor de mudanças que beneficiaram milhões. Até aceitariam o desenvolvimento, mas não com inclusão social e distribuição de renda, e menos ainda com canais de participação das classes populares nos assuntos do governo e da sociedade. Isto se tornou intolerável para uma parte considerável da burguesia e seu setor midiático. Por isso, querem a liberdade autoritária de não serem contraditados, nem criticados.
 
Assim, o que está em jogo vai muito além do que os supostos "democratas convictos" colocam. É pena que eles sequer enxerguem com quem estão andando.
 
Wladimir Pomar é escritor e analista político. 
 
 Fonte: Correio da Cidadania

julho 19, 2010

Luto como Mãe


cinemanosso | 16 de julho de 2010
Trailer do Filme Luto como Mãe, com direção de Luis Carlos Nascimento, 1º longa Metragem do Cinema Nosso.

Nota do blog: Em dez anos, mais de 5 mil pessoas morreram vítimas de ações da polícia. Em sua maioria eram negros, jovens e pobres.

maio 12, 2010

Como os pobres deste país ajudaram os ricos a enfrentar a crise: consumindo

Foto postada em Carta Maior

"Consumo dos pobres ajudou país a enfrentar crise dos ricos"

Em discurso proferido na abertura do Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, Combate à Fome e Desenvolvimento Rural, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou a contribuição das políticas sociais do governo brasileiro no enfrentamento da crise econômica internacional. "O dado concreto é que passados alguns anos veio a crise econômica mundial e ficou provada uma coisa, para que os pesquisadores publiquem por muito tempo: foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à crise dos países ricos", disse Lula.
Redação

No dia 10 de maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a realização da reunião Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, em Brasília, para fazer um balanço das políticas sociais implementadas pelo governo brasileiro nos últimos anos. Lula falou sobre as dificuldades, resistências e preconceitos enfrentados no início e sobre como os resultados de hoje mostram o acerto do caminho adotado. Após receber o prêmio da ONU “Campeão do Mundo na Batalha Contra a Fome”, o presidente lembrou que foi o consumo das classes menos favorecidas um dos responsáveis pelo fortalecimento da economia nacional, que se descolou do cenário internacional e sofreu menos com os efeitos da crise econômica mundial.

“A classes D e E do Norte e do Nordeste consumiram mais que as classes A e B do Sul e Sudeste, ou seja, os pobres foram à luta para comprar. (…) O que nós fizemos foi garantir um pouquinho para muita gente. E os pobres, que antes ficavam à margem, viraram gente de classe média e compraram coisas que só parte da classe media podia comprar”, destacou Lula. O presidente resumiu assim as dificuldades enfrentadas no início da implementação de programas como o Bolsa Família:

"Tinha gente que falava assim para mim: “Por que o presidente Lula vai criar o programa Fome Zero, gastar R$ 12 bilhões se isso daria para fazer pontes, fazer estradas?” Na verdade, daria para fazer pontes e fazer estradas. Mas naquele momento, o mais importante do que uma ponte era colocar comida na barriga de uma criança, era colocar comida na barrida de uma mulher ou de um homem que estava fragilizado. E a gente não poderia vacilar entre os discursos daqueles que são contra e a realidade. O dado concreto é que passados alguns anos veio a crise econômica mundial e ficou provada uma coisa, para que os pesquisadores publiquem por muito tempo: foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à crise dos países ricos..."

Publicamos a seguir o discurso proferido pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de abertura do Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, Combate à Fome e Desenvolvimento Rural (Palácio Itamaraty, 10 de maio de 2010).

Quero dizer para vocês da alegria imensa de vocês terem aceito o convite nosso para participar deste debate sobre a relação África-Brasil e a questão da segurança alimentar.

Eu queria começar contando um caso para vocês. Hoje, graças a Deus, eu não tenho discurso. Tenho apenas aqui alguns pontos de conversação, e eu penso que vai ser mais rápido, não vou tomar muito o tempo de vocês. De vez em quando o improviso faz com que a gente utilize muito mais tempo do que se tivesse o discurso por escrito. Mas, de qualquer forma, eu vou compreender que vocês viajaram muito para chegar aqui, atravessaram o Atlântico e, portanto, o fuso horário deve estar mexendo com a cabeça de vocês.

Então, eu vou começar contando uma história, das dificuldades das relações entre os estados. Eu não vi aqui o meu ministro Eloi, companheiro ministro da Igualdade Racial. Eu tinha aproximadamente três meses de mandato na Presidência da República do Brasil, quando o presidente Wade, do Senegal, me liga pedindo ajuda do Brasil para que lhe enviasse um avião, chamado Ipanema, para enfrentar uma praga de gafanhotos que se aproximava do Senegal. Eu fiquei muito entusiasmado porque era o meu primeiro gesto de solidariedade com um país africano, e decidimos, então, mandar o avião. Entre decidir mandar o avião e o avião chegar lá, levou seis meses. A praga de gafanhotos já tinha comido todo o milharal, e o avião... Foi para lá, está lá. Eu espero que tenha combatido outras pragas de gafanhotos, mas aquela não deu porque eu não sabia que, para dar um avião, tinha que passar pelo Congresso Nacional, tinha que debater não sei das quantas, e demorou muito.

Eu estou dizendo isso apenas para mostrar para vocês que, muitas vezes, a gente toma as decisões – vocês, do lado de vocês; nós, do nosso lado; os americanos, do lado deles; os europeus, do lado deles – e até a gente concretizar as coisas, leva um tempo muito grande. Para quem está com fome, para quem está sofrendo muito e para quem precisa comer as calorias e as proteínas necessárias, são tempos intermináveis que, muitas vezes, não chegam a tempo de as pessoas sobreviverem. Esse é um assunto que eu quero discutir com vocês.

"A gente pensa de acordo com o chão que os nossos pés pisam".
Eu queria, antes, agradecer o prêmio que eu recebi. Eu penso que cada dirigente, no mundo, ou melhor, cada um de nós, a gente pensa de acordo com o chão que os nossos pés pisam. Se os dirigentes políticos do mundo não estiverem, cotidianamente, comprometidos com as pessoas que estão em pior situação no seu estado e no seu país, fica mais difícil a gente tomar decisão em benefício dos mais pobres. A verdade é que, normalmente, nós somos eleitos pelos mais pobres, mas quando a gente ganha as eleições, quem tem acesso ao gabinete dos dirigentes não são os mais pobres, são os mais ricos. E, muitas vezes, o orçamento da União é feito para aquelas pessoas na sociedade que já estão organizadas e que, portanto, fazem uma pressão sobre o governo, e o orçamento é dividido normalmente para a parte organizada da sociedade e, quando a gente vai ver, não sobra nada para a gente fazer política para aqueles que não têm sindicato, para aqueles que não vão à capital, para aqueles que não fazem passeata, para aqueles que não têm sequer o direito de protestar porque não têm como protestar.

Esse é um desafio que está colocado para as gerações de dirigentes do século XXI: é ter claro que o combate à pobreza só será vencido se houver determinação, se houver uma determinação de prioridade na política orçamentária de cada país, de tratar a questão da fome como coisa prioritária. Se a gente esperar sobrar dinheiro no orçamento para cuidar da fome, nunca vai sobrar, porque os que têm acesso ao orçamento são gananciosos e querem todo o dinheiro para eles, e não fica nada para os pobres. Essa é uma experiência muito rica que eu vivi aqui no Brasil.

A segunda coisa importante, meu caro Diouf, é que os dirigentes políticos do mundo precisam definir que não tem nada mais importante para cada país, não tem nada mais importante para cada povo do que a segurança alimentar, como a forma mais extraordinária de garantir a soberania e a autodeterminação dos povos. Se um país tiver a arma mais poderosa que tiver, mas ele não tiver a comida de cada dia, do seu povo, plantada no seu território ou comprada fora, esse país não tem soberania.

"Quem tem fome não pensa, a dor do estômago é maior do que muita gente imagina".
Então, a segurança alimentar precisa ser vista como uma questão de soberania de cada país. Nós temos que garantir a cada cidadão do nosso país que ele possa ter o café da manhã, o almoço e a janta todos os dias, porque isso é o que permite às pessoas terem tempo de pensar no que fazer no dia seguinte. Quem tem fome não pensa, a dor do estômago é maior do que muita gente imagina. E as pessoas que têm fome não viram revolucionárias, elas viram submissas, elas viram pedintes, elas viram dependentes. Portanto, a fome não faz o guerreiro que nós gostaríamos que fizesse. A fome faz um ser humano subserviente, humilhado e sem forças para brigar contra os seus algozes, que são responsáveis pela fome.

Em terceiro lugar, é importante que a gente tenha clareza... eu estava ouvindo o discurso do companheiro Diouf e estava prestando muita atenção. Nenhum ser humano do mundo é contra os pobres, nem nos nossos países. Vocês nunca viram, numa campanha política eleitoral em cada país africano, em cada país latino-americano, em cada país do mundo, um candidato fazer campanha defendendo os ricos contra os pobres.

Normalmente, a campanha é feita, todo mundo defendendo os pobres, até o rico que é candidato. O problema é que na hora de governar, o pobre sai da agenda e o rico permanece na agenda. São eles que indicam ministros, são eles que indicam assessores, ou seja, são, na maioria das vezes, eles que determinam a política que você tem que fazer.



Como mudar isso para que a gente possa garantir um mundo de paz, um mundo sem fome, um mundo com mais educação, um mundo com mais desenvolvimento? Qual é a lógica que explica a África, que é o berço da Humanidade, chegar ao século XXI ainda como o continente mais atrasado na questão do combate à miséria e à fome? Qual é a explicação sociológica, qual é a explicação econômica, mesmo quando o continente africano foi ocupado por nações extremamente ricas? Ao conquistar a independência, muitos países africanos continuaram pobres depois da independência, como foi o caso do nosso querido país, como é o caso de todos na América do Sul, em que os colonizadores foram embora, depois de levar grande parte da riqueza existente no país, e nós continuamos pobres.

"Nós temos apenas um mar de obstáculosentre nós"
Bem, essa lição eu aprendi aqui no Brasil. Nós precisamos aprender a nos conhecer melhor para que a gente possa tomar decisões a partir da nossa realidade, a partir da nossa similaridade, a partir daquilo que a gente pode produzir e construir juntos, e, na maioria das vezes, nós não fizemos isso. No século XX, possivelmente o Brasil tenha se preocupado mais com a sua relação com os europeus e com os americanos, e vocês também, com os europeus e com os americanos. A nossa relação era um pouco estranha, mesmo nós sendo tão parecidos, mesmo nós tendo tanta coisa em comum, a verdade é que nós tínhamos outros parceiros, tínhamos outras expectativas e outra esperança.

Bem, nós já fizemos um primeiro encontro Brasil, América do Sul e África, que a ideia era tentar fazer os dois continentes se enxergarem. Nós temos apenas um mar de obstáculo entre nós, e o mar termina sendo um ponto que facilita a nossa relação e não um ponto que dificulta a nossa relação. Já fizemos dois encontros. Certamente, ainda não colhemos aquilo que era necessário colher mas, certamente, países que nunca tinham ido à África já foram à África, já participaram de encontros com a África e já não acham o continente africano tão estranho a eles. Da mesma forma, os africanos que jamais imaginaram ter ido à Venezuela participar de um encontro, certamente passaram a conhecer outros povos e outros países. E começar a discutir outras possibilidades, aprofundar, de forma meticulosa, o que nós poderemos fazer uns pelos outros.

Bem, nós acabamos de perder um guerreiro, o presidente Yar’Adua, da Nigéria, que visitou o Brasil em julho do ano passado, já não está mais entre nós. Ele era um homem que veio conversar comigo e veio dizer, categoricamente, que ele estava disposto a fazer com que a Nigéria olhasse mais para a relação Sul-Sul, para ver se nós poderíamos construir o que não foi construído no século XX. Eu espero que quem vier para o governo continue pensando nessa mesma trajetória, pensando nesse [com esse] mesmo olhar para o Sul-Sul, porque nós nos olhamos muito pouco no século passado.

Eu já disse a vocês que a África é prioridade na minha relação. Eu já visitei... eu devo terminar o meu mandato visitando 25 países africanos. Isso é mais do que tudo o que já foi visitado por todos aqueles que governaram o Brasil desde que Cabral chegou ao Brasil, em 1500, para descobrir o Brasil. Eu espero que outros presidentes que venham a governar o Brasil viajem mais, viajem mais do que eu e viajem mais países do que eu, para que a gente possa descobrir o potencial que existe nas nossas relações, e trabalhar com a ideia firme e a convicção de que o século XXI tem que ser o século do renascimento africano. Isso só será possível se nós acreditarmos e se nós trabalharmos para isso. Não é possível acontecer alguma coisa se nós não quisermos que aconteça.

Eu lembro perfeitamente bem, e vou dar esse testemunho para vocês, que quando nós começamos a pensar o projeto Fome Zero e depois pensar o programa Bolsa Família – o Graziano está aqui –, nós tivemos muita adversidade. Adversidade numa parte da elite política brasileira, que dizia que dar dinheiro na mão de pobre era proselitismo, era compra de voto, era favor, era... tem todos os adjetivos que vocês possam imaginar. Depois, a incompreensão de alguns que diziam: “Se você vai dar R$ 100 para um pobre, ele não vai querer mais trabalhar, ele não vai querer mais trabalhar, vai virar um vagabundo”. Era isso que diziam. “Ele vai tomar cachaça, ele não vai querer mais trabalhar”. E nós tivemos que enfrentar esse preconceito. O Graziano, que foi o primeiro ministro, Diouf, tinha hora que eu tinha ficar paparicando ele aí, para ninguém desistir, porque a pressão era para desistir, a pressão era que cuidar de pobre não podia. Tinha gente que falava assim para mim: “Por que o presidente Lula vai criar o programa Fome Zero, gastar R$ 12 bilhões se isso daria para fazer pontes, fazer estradas?” Na verdade, daria para fazer pontes e fazer estradas. Mas naquele momento, o mais importante do que uma ponte era colocar comida na barriga de uma criança, era colocar comida na barrida de uma mulher ou de um homem que estava fragilizado. E a gente não poderia vacilar entre os discursos daqueles que são contra e a realidade.

"Foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à chamada crise dos países ricos".
O dado concreto é que passados alguns anos veio a crise econômica mundial e ficou provada uma coisa, para que os pesquisadores publiquem por muito tempo: foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à chamada crise dos países ricos. Os pobres do Norte brasileiro e do Nordeste consumiram mais. As Classes D e E do Norte e do Nordeste consumiram mais do que as classes A e D da região Sul e Sudeste. E os pobres foram à luta comprar coisas que, até então, eles não estavam habituados a comprar. Porque quem tem muito dinheiro, quem tem muito dinheiro dá US$ 30, US$ 40 de gorjeta, depois de tomar dez uísques no restaurante. Mas quem não tem nada e pega US$ 40, é capaz de levar comida para seus filhos comerem durante 20 dias ou 30 dias, é capaz de fazer a multiplicação dos pães, é capaz de garantir o sustento de uma família. Esse é um dos milagres que aconteceram neste país.

Neste país, eles diziam: “Nós não podemos aumentar o salário mínimo, porque o salário mínimo vai causar inflação”. Quando nós chegamos aqui, o salário mínimo – se eu não estiver enganado – comprava 1,4 cesta básica. Hoje está comprando 2,4 cestas básicas, ou seja, praticamente, o dobro, e a inflação está totalmente controlada.

O problema é simples: pouco dinheiro na mão de muitos é distribuição de riqueza; muito dinheiro na mão de poucos é concentração de riqueza. Então, o que nós fizemos foi garantir um pouquinho para muita gente, e os pobres, que antes ficavam à margem, viraram gente de classe média, começaram a frequentar shopping centers, começaram a comprar coisas que antes só uma parte da sociedade podia comprar.

Esse é um dos milagres das coisas que aconteceram aqui no Brasil, mediante também muitas outras políticas. Eu, hoje, sou um homem convencido de que o problema nosso não é apenas a questão de dinheiro. Dinheiro é sempre muito importante, dinheiro é sempre muito importante, mas o problema maior nosso é a falta de definição de prioridades. O problema nosso, às vezes, é a falta de projeto, e o problema nosso, às vezes, é a falta de focar aquilo que é prioridade.

O Brasil, na década de 70, tinha uma extraordinária assistência técnica na agricultura brasileira e, no final dos anos 90, toda a assistência técnica estadual tinha, praticamente, com raríssimas exceções, sido dizimada. Nós precisamos reconstruir, porque senão a agricultura familiar não sobrevive. E eu tenho verdadeira ojeriza ao discurso da agricultura de subsistência, tenho verdadeira ojeriza. Dizer para um agricultor: “Você tem que plantar a sua mandioquinha, você tem que plantar o seu milhozinho, você tem que plantar o seu arrozinho”, só para comer? Não! Nós precisamos mostrar que ele tem direito ao acesso à tecnologia, que ele tem que ter direito ao acesso a crédito para ele produzir com mais escala, para, além de comer, ele poder ter um dinheiro e ter acesso a outros bens, senão o homem não fica no campo. O velho fica, mas a juventude não fica no campo, porque as luzes da cidade são uma paixão para a juventude. Entre ficar ouvindo um grilo cantar ou a luz de um vagalume a nos clarear, na porta de um cinema no centro da cidade, com tanta coisa bonita acontecendo lá, é uma paixão a que nenhum jovem resistirá. E ele só vai ficar no campo na hora em que a gente criar as condições para que ele possa ficar no campo.

Aqui, eu penso que o Brasil acumulou uma experiência. Eu não vou entrar em detalhes, porque muita gente nossa vai falar com vocês. Depois das 15h, nós vamos visitar a Embrapa, vocês vão ver de perto uma apresentação na Embrapa. Então, eu não vou me ater a coisas técnicas porque vocês vão ouvir, até enjoar, nesses dias que vocês vão estar aqui.

"Teve um tempo em que o culpados eram “os chineses, os chineses estão comendo demais”.
Mas vou contar uma coisa para vocês. Em julho de 2008 nós fomos pegos de surpresa pelo aumento dos alimentos. Feijão, no Brasil, não é uma coisa de exportação e, de repente, o saco de feijão saiu de R$ 60 para R$ 200; a soja subiu de forma extraordinária; o arroz tinha desaparecido, e todo mundo querendo saber o que era, todo mundo querendo saber o que era.

Então, a coisa mais fácil era dizer: “São os chineses”. Teve um tempo em que o culpados eram “os chineses, os chineses estão comendo demais”.

Bom, e eu fui constatar que não tinha havido nenhum grão de feijão importado pela China, do Brasil. Então, não poderia ser a China. Eu fui detectar que a soja tinha tido a mesma quantidade do ano anterior. Também não tinha sido. E também o preço do petróleo: de US$ 30 para US$ 150. Eu me reunia com as empresas, inclusive com a minha, e com as outras multinacionais, para alguém me explicar por que o petróleo tinha chegado a US$ 150. Eles diziam: “É a China, é o consumo da China”. Aí, quando sai a crise do subprime, quando sai a crise da especulação imobiliária nos Estados Unidos é que a gente descobriu que já tinha, no mercado futuro, a mesma quantidade de petróleo comprada no mercado futuro, que a China consumia. Os espertalhões, que estavam ganhando dinheiro especulando com papel, resolveram tirar o dinheiro do fracassado subprime e ir para a soja, para os alimentos e para o petróleo, e muita gente sofreu com isso.

Nós estávamos prontos para fazer o acordo da Rodada de Doha. Tinha só uma divergência entre a China, entre a Índia e os Estados Unidos, e o problema eleitoral, porque isso era mais ou menos no mês de julho, e tinha eleições em novembro nos Estados Unidos, e tinha eleições em maio do ano seguinte, no estado do negociador indiano, que é na Índia, mas, sobretudo no estado do negociador, que era candidato. Por conta disso, nós não avançamos na Rodada de Doha e, lamentavelmente, já faz dois anos e a gente ainda não retomou as negociações. A Rodada de Doha, no entendimento do Brasil, e certamente no de vocês, era a possibilidade de a gente abrir um pouco mais do mercado para que vocês pudessem exportar os produtos de vocês para os mercados mais ricos. Bem, mas não andou, vamos ver se andamos. Parece que a teoria do livre mercado era extraordinária quando nós só éramos compradores. Na hora em que a gente quer ser vendedor, o livre mercado não era tão livre como parecia ser. E as pessoas não levam...

Eu acho isso, Diouf, uma barbaridade, uma barbaridade da visão capitalista, porque cabe a um homem que tem uma visão capitalista compreender que quanto mais os africanos comerem, quanto mais os latino-americanos comerem, quanto mais nós ganharmos um dinheirinho, mais nós seremos consumidores dos produtos de alto valor agregado que eles produzem. Isso, (incompreensível), você deve ter aprendido na escola de Economia, não precisava ser nenhum dirigente sindical para vir dizer isto aqui. Henry Ford dizia, no começo do século XX: “Eu preciso pagar aos meus trabalhadores para que eles possam comprar o carro que eu produzo, senão eu não vendo”. A mesma coisa é o mundo desenvolvido.

Eles têm que contribuir para a melhoria de vida na África, o Brasil tem que contribuir, os americanos têm que contribuir, os chineses têm que contribuir, porque vocês passarão a ser consumidores no planeta Terra e, portanto, um mercado extraordinário para quem tem sofisticada tecnologia.

Nós estamos há quanto tempo pedindo para os países mais ricos construírem parceria conosco? Fizemos uma com o Japão, em Moçambique, e queremos fazer com outros países para produzir as coisas que interessam a vocês com a nossa tecnologia, mas com incentivo financeiro nosso, para que eles comprem.

Me diga uma coisa: a Europa vai precisar colocar, nos próximos [anos], até 2020, 10% de etanol na sua gasolina, não é isso? A Europa não pode ficar produzindo etanol de beterraba, fica muito caro, ou de milho, não é prudente. É prudente, então, que a gente, olhando o mapa-mundi, [veja] onde é que tem terra para produzir. Onde é que tem terra para produzir?

No continente africano, no Brasil e na América Latina. Os outros países já produziram muito, já utilizaram grande parte da sua terra agricultável, nós é que estamos... Ora, uma parte dessa terra tem que garantir a segurança alimentar da humanidade; na outra parte, onde puder, as pessoas têm que plantar aquilo que vai render dinheiro para as pessoas poderem fazer a economia crescer. E tudo isso é muito visível e perceptível por todos os dirigentes. Mas entre a gente compreender e a gente executar um projeto, é difícil.

Depois vocês conversem com o companheiro de Angola que tem um grande projeto lá, de etanol, do governo de Angola com uma empresa brasileira, que vai suprir, na Angola, metade do etanol que a Angola usa e também metade do açúcar, ou seja, isso é um salto extraordinário – em pouco tempo, em pouco tempo. Essa tecnologia o Brasil domina e é essa tecnologia que o Brasil quer repartir com vocês.

A Embrapa... Eu vou assinar a lei hoje, aqui, vou mandar a medida provisória. É na Embrapa que eu vou assinar, Pedro? Porque a Embrapa está em Gana, ela já estudou projetos em 16 países, e nós já temos a convicção de que parte da savana africana tem as mesmas características produtivas do cerrado brasileiro. O cerrado brasileiro, há 40 anos, era tido como terra imprestável. Na minha ignorância, Pedro, quando eu vinha de carro de São Paulo para Brasília, que passava no Cerrado, a gente dizia: “Essa terra não presta para nada, olha como as árvores estão tortas, nem crescer não crescem”. Bastou um pouco de carinho com a terra, ela virou a área de maior produção de grãos do nosso país. E isso pode acontecer com a savana africana e com muitos países.

Uma outra coisa que eu fico vendo o mapa e fico imaginando, é que tem problema de água na África, em alguns países, mas tem excesso de água na África, em outros países. E nós, os países que têm um pouco mais de recursos, mais os países ricos, nós temos que começar a imaginar como é que a gente socializa essa água. Eu estou fazendo um canal aqui, no Brasil, de 640 quilômetros para levar água para 12 milhões de pessoas da área mais seca do Brasil. Esse projeto está sendo pensado desde 1847 – o Brasil ainda tinha um imperador –, e esse projeto não saía do papel. Pois bem, ele agora saiu do papel e eu inauguro a primeira parte dele. Eu fico vendo ali, na África, alguns rios, a imensidão de água que vai para o mar sem a gente aproveitar. E eu sei que não tem dinheiro nos países, mas é essa contribuição que os países ricos podem dar, financiar um projeto. É esse o financiamento que a gente tem que fazer.

"Quando eu cheguei ao governo, no Brasil inteiro, em todo o território brasileiro, nós tínhamos apenas R$ 380 bilhões de crédito".
No G-20, se pensou em US$ 22 bilhões para ajudar. Agora, esses US$ 22 bilhões precisam ter uma coordenação eficaz, projetos bastante definidos, porque senão o dinheiro desaparece. E quando a gente vai ver não ficou nada no lugar, porque dinheiro, de vez em quando, voa. Então é preciso... e eu acho que as organizações que vocês construíram na África são muito representativas. Acho que eu poderia citar como exemplo aqui, por exemplo, a União Africana, que está mais organizada do que a nossa Unasul; eu poderia citar o Banco Africano, que é um banco que tem um potencial de crescimento, e é lá que os bancos de fomento tipo o FMI, tipo o Banco Mundial, deveriam colocar um pouco de dinheiro para que vocês pudessem administrar do jeito que quisessem, para fazer funcionar o crédito. Uma coisa, Diouf, eu vou dizer a você: quando eu cheguei ao governo, no Brasil inteiro, em todo o território brasileiro, nós tínhamos apenas R$ 380 bilhões de crédito. Eu fiquei pensando: como é que este país quer ser um país capitalista se não tem nem crédito? Pois bem, hoje o nosso país tem mais de 1 trilhão e 500 bilhões de crédito, por isso a economia funciona. Nós criamos aqui um crédito para os pequenos, crédito para o trabalhador aposentado, para o trabalhador que não tem nem conta bancária. Esse crédito já disponibilizou, nesses quatro anos, R$ 115 bilhões de financiamento para as pessoas físicas, aposentados, catadores de papel. Essa é uma parte da explicação do sucesso da agricultura familiar brasileira e do sucesso do agronegócio no Brasil. Aqui no Brasil, o governo tem que financiar o agronegócio e a agricultura familiar, e fazemos isso com prazer porque sabemos da importância que tem os dois setores na economia brasileira.

Bem, nós... uma notícia boa que eu quero dar para os companheiros. Antes, dizer para vocês o seguinte a África já tem um instrumento como o Nepad, a África já tem o Banco de Desenvolvimento, portanto, nós temos instituições mais sólidas na África com quem o restante dos outros países e o Brasil podem fazer negócio. Nós temos condições de criar, para a África, as mesmas políticas de crédito que nós oferecemos aos agricultores brasileiros, mas isso, vai ter gente que vai conversar com vocês, porque muitas vezes as pessoas querem se modernizar, muitas vezes as pessoas até recebem máquinas de graça, mas não tem a formação para a pessoa manusear a máquina, ou às vezes não tem tecnologia para fazer funcionar, às vezes tem a máquina, precisa do combustível, não é?

Eu lembro que quando nós lançamos o Programa Mais Alimentos, no auge da crise do alimento, nós, em 18 meses, criamos uma linha de crédito para o pequeno produtor, nós vendemos aqui, internamente, 25 mil tratores para pessoas que jamais tinham imaginado ter um trator. E esse programa terminava agora, nós vamos ter que continuar com ele, porque... E eu quero ver se estendo essa mesma linha de crédito para o Brasil, para a América Latina e para os países africanos que precisarem modernizar a sua agricultura.

Nós gostaríamos de partilhar com vocês, companheiros, as nossas experiências, e vocês vão ter o prazer de conhecer a Embrapa. A Embrapa é a empresa responsável pela revolução tecnológica no Brasil na questão da agricultura, e nós queremos que ela faça com a África o mesmo que está fazendo no Brasil, por isso nós estamos com os técnicos lá fora. Mas hoje nós vamos mandar um projeto de lei oficializando a implantação da Embrapa em território estrangeiro, coisa que a lei atual não permite.

Nós estamos querendo, temos intenção de implantar 10 projetos-piloto nos moldes do programa de aquisição de alimentos na África. O programa de aquisição de alimentos, certamente o Ministro vai falar, na parte da tarde, mas uma coisa extraordinária aqui, no Brasil, é o programa da compra de alimentos feito pelo governo. E a outra coisa extraordinária é que nós determinamos que 30% do alimento vendido para a merenda escolar seja da agricultura familiar, mas que seja da agricultura local, regional, ou seja, para um cidadão comprar do produtor na sua cidade, para fomentar a produção da sua cidade. Senão, o cidadão planta a 2 mil quilômetros de distância, esse produto sai de lá, vai para, aqui no Brasil, vai para o Ceasa, que é um setor de comercialização e depois volta para lá, ou seja, anda 4 mil quilômetros para ganhar preço, para depois chegar ao produtor [consumidor]. Então, nós decidimos que 30% é comprado ali, na cidade do pequeno produtor rural dali: é a batatinha, é o feijão, é a mandioca, ou seja, tem que ser comprada lá, para a gente fomentar a produção.

Bem, uma coisa importante que eu queria dizer para vocês: finalmente, a Câmara dos Deputados, no Brasil, aprovou – e eu queria que o Eduardo prestasse atenção, porque vai para o Senado –, a Câmara dos Deputados finalmente aprovou, na semana passada, a Universidade Afro-Brasileira. É uma universidade que nós estamos pensando em 10 mil alunos, metade africanos, metade brasileiros. Ela vai ser no estado do Ceará, portanto, estarão todos os estudantes olhando para o continente africano, para que ninguém esqueça de onde veio, porque se a gente não tomar cuidado, esses meninos vêm, se formam, arrumam uma namorada e já ficam por aqui mesmo; e nós queremos que eles fiquem de olho para o continente africano, olhando ali... Quem é de Cabo Verde, vai estar ali, olhando Cabo Verde. Se ele não quiser ir, a gente empurra ele e ele vai nadando, e volta para o seu local. O que nós queremos é dar uma contribuição... Se for aprovada no Senado, Eduardo, nós ainda lançaremos a pedra fundamental e começaremos a construí-la ainda este ano. Será na cidade de Redenção, no Ceará, que é a cidade onde começou a luta pelo fim da escravidão no nosso país.

Por último, companheiros e companheiras, nós também queremos oferecer treinamento técnico em extensão rural, num trabalho com o nosso Ministério, com a Embrapa, com o Sebrae. O que nós precisamos habituar é fazer com que as nossas pessoas viajem mais e se encontrem mais. Por isso é que nós vamos inaugurar, à tarde, um centro da Embrapa, que é uma coisa chique, que tem... é um centro de tecnologia, de formação, de treinamento, em que a gente quer receber muitos engenheiros agrônomos, técnicos agrícolas da África, para poderem fazer treinamento na Embrapa, aprender a tecnologia que nós temos aqui, de ponta, levar para a África e produzir o mesmo que nós produzimos aqui.

Eu quero ressaltar o papel das Nações Unidas e, particularmente, do Fida, do PMA e da FAO, porque o papel de vocês é decisivo para construir este mundo sem fome que todos nós queremos construir. Acho que nós precisamos implementar a reforma do Comitê de Segurança Alimentar, e é preciso torná-lo um fórum representativo de todos os acordos relevantes para a construção de uma parceria global para a agricultura e a segurança alimentar. Acho que o Programa Mundial de Alimentos deve ampliar suas atividades, por meio de compras locais de alimentos que assegurem o fornecimento às populações vulneráveis e estimulem o pequeno produtor. O Fida pode ajudar muito no apoio aos programas nacionais de regularização fundiária e de ampliação de crédito e seguro agrícola.

"Temos que fazer um esforço e não ficar competindo com países mais pobres do que nós".
Aqui, eu queria dizer uma coisa, tanto ao Diouf, quanto ao Programa (incompreensível): o Brasil, o Brasil, graças a Deus, o Brasil não precisa de ajuda financeira para fazer as suas coisas. O Brasil tem tamanho, tem tecnologia, dinheiro e tem vergonha. Portanto, nós temos que fazer um esforço e não ficar competindo com países mais pobres do que nós. Nós temos que colocar dinheiro no orçamento e aprovar as coisas que nós precisamos, porque o Brasil, Diouf, o Brasil ainda não aprendeu que entrou no rol dos países doadores. O Brasil não é mais um país receptor. E isso está acontecendo, e é importante, Celso, as ONGs...

As ONGs importantes que atuavam no Brasil, elas estão comunicando à gente que estão indo embora, muitas delas, para cuidar de outros países mais pobres. Qual é o sentido de o Brasil ficar competindo com a Tanzânia, com Botsuana? Não, o Brasil tem que entrar no rol dos países doadores e contribuir. Ora, se nós tivemos coragem de aprovar US$ 14 bilhões para emprestar para o FMI, por que é que a gente não pode ter, através do nosso BNDES, uma política de financiamento para os países africanos? É só decisão política, que já está tomada. Por isso, isso vai ser discutido à tarde com os companheiros aí.

Por último, eu queria dizer para vocês que no G-20 nós vamos continuar brigando para que a gente possa fortalecer as instituições multilaterais, para que a gente faça o Banco Mundial cumprir com as suas funções de ajudar os países em desenvolvimento, para que o FMI empreste dinheiro sem precisar das exigências que fazia antigamente, e vamos continuar brigando para que a gente possa concluir a Rodada de Doha da forma mais justa possível.

Uma coisa que eu queria pedir para vocês... Nós vamos estar juntos ainda, na Embrapa, hoje à noite; depois nós vamos estar juntos na visita de uma feira de agricultura familiar, é isso? Hoje ainda, ou amanhã? Amanhã. Eu quero estar junto com vocês nessa visita à feira. Eu quero que a gente, ao terminar isto aqui, eu não sei qual é a ideia central, Celso, mas que a gente crie uma espécie de grupo dirigente disso aqui, para que a gente possa acompanhar e dar sequência a cada coisa que a gente vai fazer. Cada projeto tem que ter um acompanhante, para que a coisa possa vencer as barreiras com mais facilidade do que nós temos hoje.

Eu acho que o Brasil tem um problema para resolver, o Celso tem me cobrado, que é a questão de vôos para o continente africano. As empresas brasileiras adoram ir para Paris, adoram ir para Londres, adoram... mas não querem parar no território africano. Agora, com esse vulcão soltando fumaça preta para tudo quanto é lado, eles estão parando em qualquer lugar, com medo. Mas nós estamos trabalhando, o ministro Jobim já tem pronta uma proposta que ele quer me apresentar, para ver se a gente começa a fazer com que nossas empresas possam parar em alguns países africanos, porque se não tiver possibilidade de trabalhar, se a gente não tiver voo para garantir o direito de ir e vir dos ministros, dos empresários, dos cientistas, a gente não vai conseguir o desenvolvimento que nós queremos.

Então, eu queria dizer para vocês, do fundo do coração: muito obrigado por vocês terem aceito o nosso convite, muito obrigado. E eu espero que desta reunião aqui a gente tire uma nova e mais aperfeiçoada política com os nossos irmãos africanos. E, certamente, certamente, eu me encontrarei com vocês, porque eu ainda tenho que visitar cinco países africanos. Mas, no dia 11 estarei na África do Sul, para a final da Copa do Mundo. Não é que eu seja tão otimista que o Brasil vá para a final, não é que eu seja tão otimista que vai para a final. É que eu tenho que estar lá porque, como o Brasil vai sediar a Copa do Mundo de 2014, eu tenho que estar na festa de encerramento, para trazer o espírito da Copa do Mundo para o Brasil. E, certamente, eu posso trazer junto a Taça do Mundo, pela sexta vez.

Um abraço e muito obrigado, companheiros.

Fonte: Carta Maior